Sumidoiro's Blog

01/12/2018

NA ROTA DO PECADO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:32 am

♦ Com culpa ou sem culpa 

A fonte da luxúria em “O jardim das delícias” (por Hieronymus Bosch, 1515, detalhe).

      Junto à minha simplesmente amiga e colega de trabalho, estava no cinema e perdi interesse pela exibição. Por isso, dormi. De repente, acordei aos sobressaltos e passei a ver na tela toda sorte de obscenidades. Tão incomodado fiquei que pedi à companheira para nos retirarmos, o que fizemos na maior correria.

Já do lado de fora, saímos em errante caminhar, de modo a abolir os maus pensamentos. Contudo, de repente, a amiga lembrou:

“- Cadê o seu queijo?”

Assustado lhe respondi:

“- Ai meu Deus, estava na sacola, pendurada no braço da poltrona! Esqueci naquele nojo de cinema, não volto lá, prefiro perder o queijo.”

Logo em seguida, percebi que havia pisado sem querer num monte de cocô de cachorro. Meu calçado estava imundo. O jeito foi me despedir da companheira e, assim, fui em correria a tratar do meu asseio. Disso vai que, daí a pouco, percebi u’a multidão entremeio ao meu caminho.

Todos se vestiam no capricho, talvez fossem roupas de festa. Os homens usavam turbantes e as mulheres escondiam o rosto com lenços. Pelos meus trajes, estava destoando dos demais, o que me causava um certo desconforto. Ademais, para completar, aquelas pessoas se mostravam muito bem-educadas, distintas!

Pois bem, assim mesmo prossegui junto a elas até que, subitamente, me deparei com um rio, onde encontrei o que procurava, água. Mas, devido à afobação, nele mergulhei de corpo inteiro. Porém, quando me esfriou a cabeça, bateu em mim um sentimento de vergonha. Que absurdo, a imundície do meu corpo turvara aquela limpidez azulada!

De qualquer maneira, após a limpeza, prossegui caminhando pela praia, então molhado pelas canelas. Desse modo, fui acompanhando os demais, que se dirigiam para não sei aonde. Porém, de repente, um homem chegou até mim, dizendo:

“- Conheço você de algum lugar, mas não me lembro do seu nome.”

Sem me esconder, lhe enviei a resposta:

“- Sou Fulano de Tal.”

Imediatamente, o interlocutor avançou na conversa, dizendo:

“Ah, olha só, você é da família De Tal! Conheci muito bem o seu pai.”

Daí, outras pessoas vieram a me rodear e a dizer da minha família. Uma: “- Conheci seu avô!” Outra: “Conheci seu bisavô.” E assim por diante. Isso me trouxe uma sensação de aconchego e, ao mesmo tempo, de ser benquisto, o que me colocou mais à vontade.

Éden (Paraíso) com rios Fison e Geon, desaguando no Golfo Pérsico & detalhe (Pieter Mortier, 1700).

Pois bem, aos poucos, fui tomando coragem e a um deles fiz duas perguntas:

“- Senhor, de onde veio? Que rio é esse, com essa água tão bonita de fazer doer os olhos?”

Logo, vieram respostas:

“- Vim do lado donde nasce o sol. Lá está minha morada, à qual chamamos país do Antanho. Agora, estou em retorno e vamos todos juntos para lá. Uma força poderosíssima está a nos mover! E mais, esclareço, aqui não é rio, é mar.”

Porém, minha curiosidade estava a pedir mais detalhes:

“- Então, qual o nome desse mar?”

E ele, solícito, informou:

“- É o do Antanho, melhor dizendo, mar do país do Antanho. Há quem traduza por outros nomes. Daqui a pouco vamos chegar ao rio Fison(1), que você conhece da Bíblia e, em seguida, prosseguiremos para o norte.”

Então retruquei:

“- Mas isso me parece um sonho!”

Imediatamente o instrutor completou:

“- Pode ser, entenda como quiser! Mas, vou lhe dizer mais… A partir de agora, exatamente deste ponto, tudo é livre e nada é forçado. Por outro lado, no domínio do Antanho você continua pecando, querendo ou não querendo. Independe de qualquer vontade, da sua ou de quem quer que seja, tanto faz. O pecado é inevitável!”

“- Mas como é isso? Seria o pecado original?” – indaguei, muito admirado.

Disse ele:

“- Vou explicar tudinho. Aqui no Antanho é onde se pode viver mesmo sem ter nascido, visto que esse lugar está situado muito aquém do útero materno. Por isso é que estamos sabendo dos seus antepassados, desde Adão e Eva.

E tem mais, há tempos já lhe disseram: no começo de tudo não havia pecado e ele só ocorreu depois que apareceu a víbora. Ela mesma está a nos comandar nessa caminhada, não há como escapar do pecado. Prepare-se!” 

“Jardim das Delícias” (por Bosch, detalhe).

Então, sem esconder minha perplexidade, achei melhor mudar de assunto e passei a investigar o ambiente das águas. Logo nas primeiras observações, notei que toda aquela gente estava seminua. As vestes descompostas, mal cobrindo os corpos, permitiam inflamar o desejo dos caminhantes. Parecia muito com algumas pinturas que eu vira nos museus. Diante dessas evidências, me veio a certeza de que fôra transportado para os tempos do Velho Testamento.

Assim, tomado de estupor, prossegui numa sequência de emoções, enquanto descobria os segredos do Antanho e dos seus espíritos. E mais, entendi que não estava a conviver com pessoas de carne e osso, mas com u’a multidão de ectoplasmas*, que me provocavam com atitudes voluptuosas. De qualquer forma, minha aventura prosseguia dali rumo ao desconhecido e, pelo caminho, nada deixei passar despercebido, suponho. — * Ectoplasma: materialização do espírito. 

Em certo momento, devido ao meu cansaço, entendi que já avançara muitas léguas acima do desaguadouro do rio Fison, região que bem descrevera o reverendíssimo bispo de Avranches(2). Até que tive mais uma surpresa, ao entender que estaria próximo do Paraíso Terrestre e seus anexos, tal como ouvira nas aulas de catecismo. De fato, não tardou para lá chegar, de verdade, na bendita terra do Antanho!

Nesse ponto, exausto precisei dormir, o que fiz debaixo de uma árvore. Depois fiquei sabendo, era uma tal de Árvore da Ciência*. Mas, tão logo me restabeleci da longa viagem, resolvi percorrer o território. Em todo lugar por onde passava, senti brisa refrescante, como também um cheiro de incenso. Essas coisas me remeteram para inúmeras passagens da Bíblia. E não é que estavam diante de mim algumas cenas arcaicas? — Gênesis 2:17 – […] Não comas do fruto da árvore da Ciência do Bem e do Mal, porque no dia em que comeres, certamente morrerás.”

Porém, devagar e sempre fui adiante, até que me deparei com um jovem anjo, cara de menino. Logo à primeira vista, me pareceu tê-lo conhecido antes, muito tempo atrás. De minha parte, me senti um ancião, é claro, mas tive dúvidas de como me via. Por isso, me manifestei:

“- Meu Deus! Há quanto tempo a gente não se vê, você por aqui? Estou rebuscando na memória e acredito que estivemos juntos há décadas. Fomos colegas no grupo escolar! Você me parece um anjo, o que anda fazendo por aqui?”

Imediatamente ele respondeu:

“- Não, você deve estar fazendo alguma confusão, sou o pintor Hieronymus Bosch(3) vestido em pele de anjo. Pouco tempo depois que aqui cheguei – em 1516 –, recebi vários encargos, de modo a pagar os meus pecados. O trabalho me rejuvenesce.”

Disse mais:

“Você está pisando no Paraíso Terrestre*, o mesmo que pintei em um quadro. Além dele, me deram a atribuição de tomar conta das suas cercanias. Sempre passo pelo Jardim das Delícias onde tento colocar limites no desvario que anda por lá e antes que vá todo mundo direto para o Inferno. Já avisei àquelas almas: vão acabar se dando mal…” — * Também conhecido como Jardim do Éden.

O inferno, tendo à direita um infeliz sendo devorado pelo “cobrador” (por Bosch, detalhe)

Tomado de susto, indaguei se aquilo seria o mesmo que vi num quadro em exibição no Museu do Prado(4) e assim fui esclarecido:

“- Isso mesmo, nessa ordem: Paraíso Terrestre, Jardim das Delícias e Inferno. Este fica mais embaixo, mas não se aproxime. É terrível!”

Verdade é que, ao ouvi-lo, senti um bafo de enxofre a exalar do chão. É claro, fiquei assustado, mas ao mesmo tempo bastante curioso. Então, pedi ao Anjo, digo pintor, que me contasse mais alguma coisa. E assim ele disse:

“- O Inferno é uma casa de portas abertas, contudo, quem lá entra nunca consegue sair e, mesmo que o consiga, logo estará de volta. O ambiente é excessivamente iluminado, é de uma claridade intensa e permanente, de fazer doer os olhos. Embora, eu o tenha representado mais escuro na minha pintura, foi por uma questão puramente estética. 

Ele está repleto de almas errantes e desesperadas, porque sabem que nunca encontrarão livramento, embora as portas estejam sempre abertas. Quem lá está, perde a noção dos pontos cardeais, não sabe onde fica a direita ou a esquerda, nem a parte de cima ou a de baixo. Também não há como saber se lá fora é dia ou se é noite…”

Nesse momento, interrompi o Anjo com uma dúvida atroz:

“- Essa coisa da qual você fala mais parece um shopping center!”

Daí, ele foi breve e incisivo:

“- É isso mesmo!” – vou continuar explicando:

“- Quando a pessoa adentra nessa casa, imediatamente perde o pouco de razão que lhe resta. Em seguida, passa por um processo de imantação de modo grudá-la para sempre no Inferno. Mesmo que consiga fugir, logo volta, atraída por u’a máquina poderosíssima. Outra coisa: no Inferno, você fica muito excitado e começa a participar de tudo com exagero, pensando que está numa festa sem fim. É muito cansativo!”

E continuou:

“- Lá dentro, aos poucos você vai perdendo tudo que possui, até ficar completamente pelado. Mas, o pior é no momento do acerto de contas… Tem um cobrador velhaco que, tão logo você enfia o cartão de crédito na maquininha, ele lhe devora e não sobra nada.”

Logo em seguida, ao perguntar sobre o Purgatório, o Anjo não se fez de rogado e foi direto ao assunto:

“- Uai! Você ainda não desconfiou? Cada um tem o que merece. O seu fica lá longe, naquele pedaço de onde veio…”

Post - ParaísoO “Paraíso” de Adão e Eva (por Bosch, detalhe).

Realmente, tantas e sombrias revelações me afligiram, de tal modo, que pedi que mudássemos de assunto. Assim sendo, o Anjo passou a discorrer sobre amenidades, inclusive algumas da sua vida pregressa na Holanda. Contudo, ainda me atrevi a lhe fazer outra pergunta que me parecia importante:

“- E o Adão e a Eva, tem noticias deles?”

A resposta foi rápida e cristalina:

“- Infelizmente, não! Cometeram um delito muito grave e foram expulsos(5), e nunca mais soubemos deles.” 

Disse mais:

“Agora, só vejo os descendentes e eles trouxeram do seu pedaço o pior de tudo. Sei que, entre aquele mundaréu de gente, ficaram mais aceites um monte de desvios de comportamento, por isso, estou tendo um trabalho dos diabos para avaliar o que é pecado com culpa ou pecado sem culpa.”

——

“Acta est fabula”: palavras da Roma antiga, que anunciavam o fim do espetáculo.

Por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

———

(1) RIO FISON – “Gênesis 2.8 — Ora, o Senhor Deus tinha plantado um jardim no Éden, do lado do oriente, e colocou nele o homem que havia criado. / 2.9. O Senhor Deus fez brotar da terra toda sorte de árvores, de aspecto agradável, e de frutos bons para comer; e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal. / 2.10. Um rio saía do Éden para regar o jardim, e dividia-se em seguida em quatro braços: 2.11. / O nome do primeiro é Fison, e é aquele que contorna* toda a região de Evilat, onde se encontra o ouro. / 2.12. O ouro dessa região é puro; encontra-se ali também o bdélio e a pedra ônix. / 2.13. O nome do segundo rio é Geon, e é aquele que contorna* toda a região de Cusch. / 2.14. O nome do terceiro rio é Tigre, que corre ao oriente da Assíria. O quarto rio é o Eufrates. / 2.15. O Senhor Deus tomou o homem e colocou-o no jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo.” / * Contorna: leia-se percorre.  Fonte: Bíblia Católica Online.

(2) Bispo de Avranches (Saint Aubert – Santo Alberto) – (França, *c.670 / †c.715) Fundador do Monastério do Monte Saint-Michel, França.

(3) BOSCH, Hieronymus – (Bois-le-Duc, Holanda, *c.1450 / enterro: Bois-le-Duc, 09.08.1516).

(4) Museo del Prado, Madrid – Um dos mais importantes do mundo. / A obra em referência é conhecida como “O jardim das Delícias” (1490 – 1500). Compõe-se de três quadros unidos – tríptico –, cujo tema é a origem e o destino possível de parte da humanidade. Da esquerda para a direita: Éden, Jardim das Delícias e Inferno.

(5) A Bíblia sugere que Adão fugiu para o oriente além do Éden, uma vez que anjos ficaram a guarnecer a fronteira daquele lado. No Gênesis 2:24 está dito: “E expulsou-o; e colocou ao oriente do jardim do Éden querubins armados com uma espada flamejante, para guardar o caminho da árvore da vida”.

 

10 Comentários »

  1. Muito interessante, parabéns pelo seu Post.

    Comentário por Maria Emília de Magalhães Viana — 01/12/2018 @ 3:06 pm | Responder

    • Maria Emília:
      Esforço-me para comunicar com a palavra. Muito obrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/12/2018 @ 4:46 pm | Responder

  2. Eduardo, seu Post está sensacional!
    Maria Marilda

    Comentário por Maria Marilda Pinto Correa — 01/12/2018 @ 4:35 pm | Responder

    • Marilda:
      Que bom ter-lhe dado o prazer de sonhar. Muito obrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/12/2018 @ 4:48 pm | Responder

  3. Eduardo,

    Você sempre me surpreende. Na “Rota do pecado” não é um texto que eu esperava ler agora. Em nossas conversas, você vinha tratando de outros assuntos e, de repente (para mim), surge esse texto. Várias perguntas me inquietaram a partir de sua leitura. A primeira tem origem no subtítulo: “Com culpa ou sem culpa.” Sem a culpa, há pecado? Outra dúvida: se o pecado é inevitável, é uma falha ou apenas uma resposta à natureza humana? Depois, conversamos acerca dessas questões.
    Seu texto é muito bom. O jogo, já apresentado em outros textos seus, entre realidade e fantasia, entre verdade e sonho deixa vários questionamentos. A volta ao passado – mundo de Antanho – também é um belo recurso e, na comparação entre o inferno e o shopping, você faz uma crítica perfeita ao consumismo desenfreado que acaba por nos consumir. Muito provocador o seu texto, parabéns!

    Comentário por Pedro Faria Borges — 03/12/2018 @ 11:36 am | Responder

    • Pedro:
      Coitado do Anjo da nossa história, é de fato complicado lidar com pecado com culpa e sem culpa. Para qualquer juiz com asas, deve ser muito doloroso decidir sobre um assunto de tal magnitude.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/12/2018 @ 12:24 pm | Responder

  4. Você, como Dante, andou por caminhos difíceis. Obrigada , Ydernéa

    Comentário por Ydernéa — 17/12/2020 @ 10:30 am | Responder

    • Ydernéa:
      O que escrevi foi consequência de um sonho. Sempre que fecho os olhos, faço toda sorte de viagens. Não sei o que me espera na próxima noite. Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 17/12/2020 @ 8:27 pm | Responder

  5. Então foi mesmo um sonho… Que inveja, Eduardo. Aconteceu uma coisa comigo que não mais de deixa lembrar dos sonhos direito. E, quando lembro, não há nada de realmente interessante. Já sonhei bonito assim como você. Porque esse aí, apesar de mostrar até os padecimentos do inferno, é um sonho danado de bonito.

    Comentário por sertaneja — 05/04/2021 @ 4:41 pm | Responder

    • Sertaneja: Meus sonhos são feito os ventos no mar. Variam de brisas a ventanias. Há também períodos de calmarias, quando nada acontece. Aprecio todos, pois, noutra encarnação, já fui marinheiro. Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 05/04/2021 @ 5:59 pm | Responder


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