Sumidoiro's Blog

01/04/2019

CUIDADO COM O ZAP-ZAP!

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:00 am

♦ Ouça a voz do silêncio

Uma voz no silêncio.

Amigas e amigos, aqui vos fala Paul Edwin, pai, avô, professor, casado e de bem com a vida. Tempos atrás, comemorei mais um natalício, imagino que foram uns 80 anos de vida. Tudo ao estilo moderno, sem visitas, nem bolo, mas com abraços virtuais. Explico, abraço virtual é aquele que se dá sem o uso das mãos, ou seja, com o WhatsApp(1). No meu caso, como não possuo celular, nas emergências e mesmo a contragosto, tomo algum emprestado e recebo ou dou parabéns sem mãos. Horrível! Antes fosse com uma cartinha, como antigamente, que ficava guardada com carinho. Contudo, hoje em dia, poucos encontram tempo para ler.

      Pois voltemos a falar do meu aniversário… Em busca do aconchego das minhas amizades e visando um dia alegre, bem cedinho tratei de me dirigir ao clube. Lá, o domingo começara agitado e ruidoso. Porém, de repente, ouvi a voz do silêncio quando um avião cortou o céu, deixando seu rastro branco no azul.

Até por volta do meio-dia, assim corria a vida, quando uma cena mexeu comigo, ao ver um casal acompanhado de duas crianças. No mesmo instante, ambas caíram n’água iniciando uma folia sem fim, pura alegria. Quanto ao pai, se alojou sob uma barraca e a mãe se refestelou numa espreguiçadeira ao sol.

Daí, os dois se conectaram ao celular, obstinadamente, não imagino para quê, permanecendo todo o tempo online. Nem parecia que tinham vindo desfrutar do lazer. Chegou ao ponto que, lá pelas 2 horas da tarde, me veio uma tremenda gastura pelo que via e resolvi voltar para casa.

Pois bem, tão logo adentrei no meu apartamento, minha mulher dirigiu-me a palavra:

“- Edwin, sua irmã telefonou para lhe dar os parabéns. Ela fala demais e o meu feijão queimou na panela.”

Abalei-me, ao perceber que as coisas não estavam correndo a contento e, pior, foi quando chegou meu filho, dizendo:

“- Pai, não sei por que vocês usam esse telefone preto, modelo de antigamente. Hoje, todo mundo usa celular e WhatsApp*. Se não encontra a pessoa, manda mensagem de texto, deixa recado!” — * Popularmente conhecido como zap-zap.

De fato, o susto foi demais, tudo cada vez mais distante de mim! Tanto que, à noite, sonhei com o assunto. A história foi assim:

Uma grande parcela da humanidade, aquela mais apta a usar o telefone celular, fora abduzida pelo Big Brother* e transportada para colonizar outro planeta. Lá vivendo, de tanto usarem o aparelhinho, acabaram por perder totalmente o dom da fala cara a cara e a capacidade de pensar. Porém, quando punham a se comunicar, nunca era frente a frente, ou lado a lado, nem calorosamente. — * Personagem de George Orwell, na novela “Nineteen Eighty-Four” (“1984”).

Usavam o celular com alguma oralidade reduzida, a bem dizer, apenas urravam online. Fora isso, se comunicavam “tipo” assim: 😀 😁 😂, etc. e tal, uma espécie de pensamento pré-formatado. Nesse contexto de aflições, os afetos ficavam distantes, esmorecidos.

Até que, naquela morada distante, uma pessoa do bem percebeu que tudo ia de mal a pior e veio buscar socorro no planeta Terra. Aqui chegando, numa nave espacial, desde os primeiros contatos não conseguiam se comunicar.

Somente o chefe mostrava alguma habilidade oral no que parecia ser uma novilíngua*, talvez derivada do português, contudo praticamente incompreensível. O resto da comitiva parecia ser constituída de quase-mudos com cérebros vazios. — * Novilíngua – idioma criado pelo Big Brother (Grande Irmão), líder hiper-autoritário de Oceânia, da obra de Orwell. A novilíngua não era resultante da criação de palavras, mas pela “condensação” e “remoção” das existentes ou de alguns de seus sentidos, com o objetivo de limitar o pensamento.

Então, uma pessoa que os estava assistindo, tomou a iniciativa de que fossem encaminhados para a Universidade Federal. Lá chegando, o reitor, solicitamente, cuidou de atendê-los. Para tanto, convocou um grupo de docentes de diferentes áreas de conhecimento, entre eles este que vos escreve. Pois bem, tão logo me vi diante dos visitantes, homens e mulheres, notei que elas usavam saias rodadas, eles terno e gravata, tudo muito elegante mas fora de moda.

Primeiramente, o reitor fez uma oração de boas-vindas, contudo, em nenhum deles percebi emoção, nem resposta inteligível, apenas gestos e grunhidos. Em seguida, um professor poeta os saudou com versos, mas senti que não conseguiu tocar seus corações. Também o professor de psicologia tentou usar artifícios de abordagem, mas sem sucesso. Permaneceram todos com cara de interrogação. Pudera, além de não saberem falar, o que ouviam carecia de sentido! Tudo que conseguiam dizer era através de movimentos bruscos, urros e sorrisos sem propósito.

Até que o magnífico reitor apelou, sussurrando nos meus ouvidos:

“- Professor Edwin, o senhor que tem experiência em desenho e comunicação visual, por favor, use suas ferramentas e tente falar com essa gente!”

Suei frio, mas veio à minha lembrança o escritor Henry Focillon(2), com quem aprendi a usar as mãos. Então, me coloquei frente a frente com o chefe da comitiva e fiz um largo movimento, abrindo os braços na horizontal, feito Cristo na cruz. Da ponta de u’a mão à outra: 1,78. Funcionou, meu interlocutor respondeu:

Large! Em inglês, largo.

Graças a Deus, ele usava WhatsApp e, por isso, sabia inglês. Assim, animado, fui em frente e enviei-lhe nova mensagem corporal. Desloquei a palma da mão direita em direção ao solo e, num instante, veio a resposta:

Short! Em inglês, curto.

Venci mais uma vez! Conseguimos ir em frente na precária conversação e aprendi que o inglês está disseminado no cosmos. Pena é que somente o chefe da comitiva ainda conseguia falar na língua de Shakespeare, embora com um vocabulário muito reduzido. Por isso, em seguida, contratamos uma fonoaudióloga para devolver a todos o dom da fala. Paralelamente, passaram a frequentar aulas de português num curso de alfabetização de adultos.

Depois de tudo, me lembrei dos tempos de menino, quando eu era somente um Eduardinho e não precisava de WhatsApp. Agora sou Edwin, porém rebelde, e ainda tenho uma válvula de escape:

À minha volta, terra, mar e ar!
Achei uma concha, coloco no ouvido;
Falo com o mar, zap-zap, ele responde:
Recebo gentil abraço das ondas.

Por Eduardo de Paula, vulgo Paul Edwin

——

(1) WhatsApp e Facebook são ferramentas semelhantes para troca de mensagens. via telefone celular ou computador.

(2) FOCILLON, Henry – (Dijon, França, *07. 09.1881 / New Haven, Estados Unidos, †03.03.1943) Professor de História da Arte na Universidade de Lion e na Sorbonne. Escritor e poeta / Fonte da citação: “Éloge de la Main”, 1934.

14 Comentários »

  1. Muito interessante o seu post sobre o uso de celulares, extremamente verdadeiro. Ontem, estava eu no “niver” de um sobrinho e meu cunhado estava com depressão, pois perdera o celular com mais de 200 contatos. Ensinei a ele o que faço: uso um caderno de endereços e vou duplicando ali meus contatos. Se for roubada ou perder o celular não perco meus amigos e familiares. Parabéns atrasado para você, muitas felicidades e vida nos anos com a bênção de Deus.
    Um abraço apertado de sua amiga, com muito carinho,
    Maria Emília

    Comentário por Maria Emília de Magalhães Viana — 01/04/2019 @ 7:38 am | Responder

    • Maria Emília:
      O aniversário não é de meu nascimento. Trata-se de 9 anos da criação do Blog.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/04/2019 @ 8:20 am | Responder

  2. Eduardo, kkk! Excelente!

    Comentário por Arthur José Diniz — 01/04/2019 @ 3:15 pm | Responder

    • Arthur:
      Com um pouco de fantasia, acho que cheguei bem perto da verdade.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/04/2019 @ 3:38 pm | Responder

  3. A vida nos leva a todos nós de Eduardinhos a Edwin, mas é necessário não perder a rebeldia. Muitos de nós, diante das novas realidades, apenas nos contentamos em nos convencer de que tudo muda e de que é necessário nos adaptarmos ao novo simplesmente porque é o novo. O artista, no entanto, não se satisfaz com isso. Eu nunca havia pensado no desafio que é envelhecer sem deixar de ser rebelde. Mais uma vez, meu caro Eduardo, você, por meio de um texto aparentemente despretensioso, coloca-nos diante de um drama dos nossos dias: quanto mais crescem e se diversificam os meios de comunicação mais distantes nos sentimos uns dos outros. Esse, no meu modo de entender, é o papel do artista, aquele que pensa fora da caixa. Mais uma vez, sinto-me provocado pelo seu texto.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 01/04/2019 @ 5:10 pm | Responder

    • Pedro:
      Tem hora que acho sermos nós os alienígenas, porque pensamos fora da caixa.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/04/2019 @ 6:25 pm | Responder

      • Marilda:
        O texto nasceu de experiências da vida real. Creio que estou vivendo em meio a uma barafunda.
        Um abraço do Eduardo.

        Comentário por sumidoiro — 05/04/2019 @ 5:39 pm

  4. Eduardo, seu assunto está ótimo. Parabéns!
    Maria Marilda Lagoa Santa

    Comentário por Maria Marilda pinto correa — 05/04/2019 @ 4:55 pm | Responder

  5. Carta a Paul Edwin / Prezado Paul, brilhante e “superbe” seu “Cuidado com o zap-zap”, abordando as consequências da chegada destas maquininhas que fazem furor mundo afora. Vez por outra, ao falarmos de *mudança*, enquanto fenômeno capaz de provocar impactos sociais, costumo lembrar aos amigos que a mudança vem de longe. De fato, Joseph Butler, bispo anglicano de Durham em 1752, insistia que, no Paraíso, Adão já dizia: “Eva, as coisas estão mudando!” E vejamos, em nossos dias, o filósofo italiano Maurizius Ferrari, autor de “T’es où? Ontologie du téléphone mobile”, relatou-nos em “Philosophie Magazine”, que Umberto Eco, assediado por jornalistas após uma de suas conferências, falou sobre os desdobramentos do uso da palavra no mundo das novas tecnologias da informação e da comunicação.
    Disse ele: “A web dá o direito de palavra a um detentor de Prêmio Nobel. E o faz também a uma “legião de imbecis” que, no passado, se expressavam em discussões limitadas ao balcão dos bares e que se evaporavam nas memórias um tanto alcoolizadas de seus protagonistas. Atualmente, estas colocações são difundidas “urbi et orbi” e os insultos permanecem para a eternidade, resultando em violência social impressionante”. Ferrari entende que Eco não quis dizer que as pessoas de hoje são mais imbecis que as do passado. Havia certamente imbecis dentre aqueles que deixaram marcas de suas mãos na gruta de Lascaux, mas havia, evidentemente e felizmente, limitações técnicas à difusão da imbecilidade.”
    De minha parte, penso que a quantidade significativa de *rubbish*, que chega diariamente em nossas máquinas, via zap-zap, é mesmo impressionante. Assim, seletividade parece-me ser palavra chave para nós, os apaixonados do mobile phone. “Enhorabuena, com mis saludos desde mi bunker”, Estevam.

    Comentário por Estevam de Toledo — 06/04/2019 @ 5:09 pm | Responder

    • Estevam:
      Perfeitamente! Concordo com seus pontos de vista.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 06/04/2019 @ 6:44 pm | Responder

  6. Eduardo, você interpreta, com clareza, o que penso e não sei expor. Obrigada, Ydernéa

    Comentário por Ydernéa — 23/01/2021 @ 10:52 am | Responder

    • Ydernéa:
      Saio por aí observando e, de repente, vêm à minha cabeça essas coisas, em que misturo a realidade com a fantasia. Acho melhor a fantasia.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 23/01/2021 @ 7:52 pm | Responder

  7. É bem assim. Ninguém vai acreditar mas… eu não uso What’s App. É que não tenho celular! No entanto, sei que vou precisar de um em breve, porque está se tornando quase impossível viver sem eles.Em quase todos os lugares que vou, pedem meu número de “zap”. E ficam boquiabertos porque não tenho. Outro dia, quase fiquei sem comprar um medicamento que precisava, porque eu não tinha “zap”. Teria de mandar a receita pelo bendito. E quando falam “zap”, ainda acho mais antipático, mas a farmácia só aceitava assim. “- Vou mandar por e-mail”, informei. Não queriam aceitar de forma alguma. Até que apareceu uma pessoa de mente mais aberta e aceitou. Mas, puxa vida. Bem que gostaria de ter um celular. O problema é o preço. Caro demais.

    Comentário por sertaneja — 14/03/2021 @ 12:04 am | Responder

    • Sertaneja:
      Não se apoquente! Enquanto puder contar com o telefone antigo, vá segurando as pontas.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 14/03/2021 @ 1:11 pm | Responder


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