Sumidoiro's Blog

01/06/2019

AS JUNINAS

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:37 am

♦ Louvação ao sol e aos santos

Assimiladas de tradições portuguesas, surgiram as Festas Juninas brasileiras. Em Portugal, vieram dos povos celtas(1) que, em solenidades a céu aberto ou nas florestas, reverenciavam os deuses e deusas da natureza. Mais tarde, mesmo com a introdução do catolicismo nas regiões outrora habitadas pelos celtas, algumas práticas pagãs têm coexistido, paralelamente ou mesmo sobrepostas. E até mesmo disseminadas em outras culturas.

Rodopios na quadrilha brasileira.

       Os celtas formavam um conjunto de povos reunidos em tribos, descendentes de agricultores neolíticos da região do Danúbio, como também de pastores oriundos das estepes. A partir do 2º milênio a.C., começaram a se espalhar pela maior parte do noroeste da Europa. As ocupações celtas estavam na Península Ibérica, Irlanda e Inglaterra, se estendendo até a Ásia Menor, onde ficaram conhecidos como Gálatas(2). Estes habitaram a antiga Galácia, no centro da atual Turquia.

Com a conquista da Gália pelos romanos, a maioria dos celtas foram cristianizados. Contudo, distanciados da cultura de Roma, permaneceram somente os que viviam na Irlanda e norte da Escócia. Em ambos países, ainda há costumes herdados dos celtas que, de alguma forma, permanecem também em outros pontos da Europa.

Dança em torno do May Pole, Holanda (Brueghel – o jovem, 1625/30).

Em março, no hemisfério norte, quando o dia tem a mesma duração da noite, começa a Primavera*. Por tradição, a partir do dia 28 de abril, nas regiões onde viveram os celtas, ocorrem festas em comemoração à estação das flores. — * Equinócio de Primavera, 19 ou 21 de março, dependendo do ano.

O auge dos eventos da Primavera é no dia 1 de maio que, na Escócia e na Irlanda, nomeiam como Beltaine. Em inglês, dizem May Day, isto é, Dia de Maio. É quando grupos de mulheres dançam ao ar livre, contornando um mastro de madeira. Trata-se de uma peça roliça, denominada May Pole, ou seja, Mastro de Maio. Atam-se nele fitas coloridas, de tal maneira que cada participante possa fazer sua coreografia.

Beltaine significa fogo brilhante, fazendo analogia com o sol, o deus todo poderoso dos celtas. Em sua homenagem fogueiras iluminam a noite, ao mesmo tempo em que as brasas aquecem os participantes e a fumaça induz a boa sorte. Nesse momento em que se aguarda nova estação, os rituais têm o propósito de proteger as pessoas e o gado, estimular a fertilidade, e garantir boas colheitas.

Logo em seguida, ao chegar o mês de junho, há o Solstício de Verão(3), que cai no dia 20 ou 21. Por outro lado, variando entre os dias 19 e 25, e em diferentes lugares da Europa, há outra comemoração, dita como Midsummer Day. Quanto à essa palavra, composta com mid (meio) + summer (verão), embora possa parecer, não se refere à metade do verão. Nesse intervalo de tempo, a principal celebração é a Bonfire (Bom-Fogo), que tem muitas semelhanças com as festas da Beltaine. Para o ritual, juntam-se galhos e materiais secos, para mais uma vez fazerem fogueiras. De outro modo, ao chegar o dia 24, os católicos comemoram São João Batista e, daí, vem a designação Festa Junina*. — * Palavra derivada de João.  

Festa de São João, na França (Jules Breton, c. 1875).

Entre as várias crenças sobre a Beltaine, há uma que diz da oportunidade de combater as bruxas. Assim afirmou um estudioso do assunto, sir James Frazer(4), antropólogo escocês:

“Na segunda metade do século XVIII, no nordeste da Escócia, era comum acender fogueiras de Beltaine. Os pastores tratavam de recolher madeira seca para fazer fogueiras e dançar em volta da pilha em chamas. Mais tarde, as fogueiras de Beltaine passaram a ser acesas não no primeiro, mas no segundo dia de maio, ao estilo mais antigo. Eram chamados fogos de ossos. Acreditavam que, tanto nos entardeceres e noites, as bruxas perambulavam ocupadas em lançar feitiços sobre o gado e a roubar leite das vacas.

Para se defenderem de suas maquinações, pedaços de árvore e feixes de madeira eram colocados sobre as portas dos estábulos. Todos os fazendeiros e sitiantes faziam o mesmo. Em seguida, os mesmos materiais eram utilizados no espetáculo, sendo amontoados e incendiados, pouco depois do pôr-do-sol. Já com a fogueira crepitando, alguns espectadores permaneciam alimentando as chamas. Outros, utilizando forquilhas ou varas, retiravam partes acesas e corriam de um lado para o outro, mantendo-as o mais alto que podiam. Enquanto isso, os mais jovens dançavam em volta da fogueira ou corriam em meio à fumaça, gritando: “Fogo, acende e queime as bruxas! Fogo, fogo!”

Festa de maio na Espanha: “La cucaña” ou Pau de Sebo (F. Goya, 1816/18).

Tudo indica que o costume das Festas Juninas chegou ao Brasil com os missionários jesuítas. Muito a propósito, seu líder padre Manoel da Nóbrega, nascera num lugar onde ainda perduram ruínas de importante citânia*, hoje freguesia de Sanfins do Douro. Tão logo chegaram na Bahia, em 1549, acompanhando o governador-geral Tomé de Souza, os religiosos deram início à catequese dos indígenas. Por onde passavam, como meio de cativar os nativos, promoviam reuniões noturnas no dia de São João. Nessas ocasiões, em torno de fogueiras, padres, portugueses e índios, faziam suas rezas com muita alegria e boas comidas. — * Povoado celta fortificado ou castro.

Há que se notar que as Juninas são comemoradas nos mesmos períodos do calendário, tanto no hemisfério norte quanto no hemisfério sul. Entretanto, nessa época, é verão no norte e inverno no sul.

Com esse começo, as comemorações juninas rapidamente se espalharam por todos os rincões do Brasil. Durante cada evento, tornou-se costume erigir um mastro que ficou conhecido como Mastro dos Santos ou Pau da Bandeira, que é encimado com o retrato de um ou mais santos. Além disso, surgiu um divertimento paralelo, qual seja, o Pau de Sebo, tradição mais ligada aos povos latinos, também conhecido como Mastro da Cocanha(5). Untado com gordura animal, transforma-se num tremendo desafio a quem tentar galgá-lo até o alto. Por isso mesmo, alcança um prêmio quem tiver sucesso na escalada.

Festa Junina com Mastro dos Santos e Pau de Sebo (Alfredo Volpi).

A antiguidade da Festa Junina está confirmada no diário de viagem do fidalgo Luís Cáceres(6), anotado desde sua saída de Portugal, em 1771, quando veio assumir o posto de 4º governador da capitania de Mato Grosso, no Brasil. No dia 23 de junho de 1772, alcançou a cidade de Abaeté montado a cavalo e fez o seguinte relato:

Lá, “… está o rio Abaeté*, que se mete no meio do rio de São Francisco, légua abaixo, e que terá 320 passos de largo, passa-se em canoa. Tem um rancho na margem setentrional, onde me acomodei. Em ambos os rios, costuma haver muitas sezões [febres] e tem muitos peixes surubis e dourados muito grandes. Fez muito frio à noite e se fizeram muitas fogueiras de São João e, pelo mesmo motivo, mandei dar muitos tiros.” — * Rio e cidade de Abaeté, em Minas Gerais.

Mostram as palavras do fidalgo que bem conhecia o ritual junino e sabia como proceder nessas ocasiões. Lá no Abaeté, como não havia foguetes, marcou sua presença lançando chumbo para o alto.

Quadrilha elegante num salão francês, século XIX.

Bem mais tarde, aos festejos juninos foi incorporada a quadrilha francesa, imitando os bailes de Napoleão I. A primeira vez foi no inverno de 1805-1806, quando o imperador decidiu introduzir esse tipo de dança no palácio das Tuileries.

RAÍZES DA QUADRILHA

Entretanto, a quadrilha napoleônica tem origens bem mais antigas. A ancestral nascera na Inglaterra no meio popular, recebendo o nome de “country-dance”. De fato, “country” – campo – dá a entender que seria uma dança das aldeias e dos camponeses. Contudo, aos poucos se espalhou por outros países, na França recebendo o nome de “contredanse”. Um documento antigo comprova o fato: é o “Livre de Contredance presenté au Roy, par André Lorin(7), académicien de sa Majesté pour la dance”, ofertado ao rei Louis XIV, o “rei sol”, em 1688. Nos primeiros tempos, como mostra o texto, dançavam em dois pares, ou quatro pessoas, daí surgiu o nome quadrilha, adotado nas variações que surgiram depois. O trabalho, em forma de manuscrito, consta de duas versões, na segunda (1698), diz o autor:

“André Lorin […] tendo feito uma viagem à Inglaterra, acompanhado do senhor marechal de Humières, para aprender as Contradanças, […] e de lá importando não só o mais bonito mas, de fato, uma série de novidades que se constituem nos mais agradáveis passos…”

André Lorin, um dos acadêmicos de Vossa […] para aprender as contradanças… 

E acrescenta:

“Começarei, então, a falar de Contradanças a dois; e direi que um Cavalier e uma Dame fazem separadamente os seus passos, bem como as figurações apropriadas.”

“… Os ingleses foram os primeiros que praticaram essas Contradanças. Devo informar ao leitor que eles usam a palavra Casal para se referir a duas pessoas, de um e de outro sexo, dançando juntas. E ao homem como Cavalier e a mulher como Dame…”

“… Quando são quatro pessoas, depois de terem dado todos os passos e feito todas as figurações o primeiro Cavalier e a primeira Dame, repetem a mesma coisa o segundo Cavalier e a segunda Dame. E, quando o primeiro Cavalier e a primeira Dame se agacham, o segundo Cavalier e a segunda Dame se colocam frente a frente e, cada Cavalier com sua Dame, outra vez repetem as mesmas coisas e as mesmas figurações. E isso é o que fazem as duplas nesse tipo de Contradanças.”

Ilustrações da segunda versão manuscrita de André Lorin (1698).

Pois bem, a diversão das cortes, pouco a pouco, foi se propagando para ambientes mais vulgares, até que, durante o século XIX, até mesmo nos hospícios passaram a dançar quadrilhas. Nesse sentido, quem delas soube tirar bom proveito foi o compositor William Elgar(8) que trabalhava como músico do County Lunatic Asylum, em Powick (Inglaterra). Ele havia notado que o ritmo produzia ótimos resultados terapêuticos. Vai daí que, com esse propósito, se pôs a compor quadrilhas e com elas revitalizou a casa de saúde, melhorando o estado de espírito de quem entrava na roda e mesmo dos assistentes.

Então, por tudo isso e mais alguma coisa, sempre nos meses de junho, seja no calor do Hemisfério Norte ou no frio do Hemisfério Sul, tem sobrado tempo para louvar o sol e os santos. Ainda mais, no Brasil é época em que muita gente, a maioria sem sabê-lo, dispara a falar e ouvir francês. Sim, é verdade! Começa pelo marcador da quadrilha – aquele que comanda as danças –, e que assimilou um rol de termos franceses. Alguns deles ficaram assim:

Atravessar: Traverser – virou Travessê;
Para a frente: En avant – Anavan;
Para a frente, todos: En avant, tous – Anavantu;
Balançar: Balancer – Balancê;
Trocar de dama: Changer de dame Sangê.

Faltou dizer dos balões, tão essenciais nas Festas Juninas, mas que a velha cantiga não deixa esquecer:

O Balão vai subindo,
Vem vindo a garoa.
O Céu é tão lindo
A Noite é tão boa.
São João, São João, 
Acende a fogueira do meu coração.

• Assista – Louis XIV dance:

Texto, tradução e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

——

(1) Galácia (em grego: Γαλατία) — antigo nome de uma região da Anatólia central, que abrangia a região de Ancara e Çorum, na província de Yozgat da moderna Turquia. O nome vem dos imigrantes gauleses, vindos da Trácia, que ali constituíram a classe dominante, do século III a.C. em diante, logo depois da invasão gaulesa dos Balcãs em 279 a.C. Outrora chamada de “Gália do oriente”.

(2) Na Bíblia – Novo Testamento –  há a epístola aos gálatas, dita apenas como Gálatas. Inicialmente dirigida ao povo da Galácia, provavelmente é a primeira carta que o apóstolo Paulo redigiu aos cristãos.

(3) SOLSTÍCIO – Tanto no hemisfério norte, quanto no hemisfério sul, há dois Solstícios, determinados pelo grau de incidência da luz emitida pelo sol: um que marca o início do Verão, outro o início do Inverno. Exatamente no Solstício de Verão, ocorrem o maior dia e a menor noite; de outra maneira, no Solstício de Inverno, ocorrem o menor dia e a maior noite.

(4) FRASER, James George – (Glasgow, Escócia, Reino Unido, *01.01. 1854 / Cambridge, Reino Unido, †07.05.1941) Antropólogo, folclorista e especialista em estudos clássicos.

(5) Cocanha: nome de um país imaginário. Clique e leia: “Ócio e Prazer”.

(6) CÁCERES, Luís de Albuquerque de Mello Pereira e – (*21.10.1739 / Lisboa, †07.07.1797) Fundador da cidade de Cáceres, em Mato Grosso, e governador do estado.

(7) LORIN, André – “Livre de contredance” e “Livre de la contredance du roy, présenté à Louis XIV”, Biblioteca “GALLICA”.

(8) ELGAR, Edward William – (Broadheath, Reino Unido, *02.06.1857 / †23.02.1934).

12 Comentários »

  1. Bem apropriado o post deste mês. Terminamos maio e iniciamos, hoje, o mês de junho, e é sempre bom conhecermos mais acerca das tradições de nossa terra. Junho sempre me traz recordações boas. A vida, no interior de Minas, girava em torno das festas, e junho era tempo de muitas alegrias, de muita fartura e, para nós, crianças, os festejos de Santo Antônio, São João, São Pedro e São Paulo eram momentos que ficariam nas memórias de todos nós. A leitura deste seu texto, trouxe água à boca ao lembrar-me dos bolos, dos doces, dos quentões, naquelas noites frias de junho. Na maioria das vezes, só conseguimos ir adiante retornando ao passado.
    Um grande abraço!

    Comentário por Pedro Faria Borges — 01/06/2019 @ 11:43 am | Responder

    • Pedro:
      Pois é! As festas juninas estão na nossa história. Que saudades me trazem…
      Muito obrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/06/2019 @ 2:03 pm | Responder

  2. Eduardo, estou encantadíssimo com sua escolha e erudição. Maravilhoso! Muito obrigado, Arthur.

    Comentário por Arthur José Diniz — 01/06/2019 @ 3:46 pm | Responder

    • Arthur:
      Erudição? Bondade sua… Na verdade, curiosidade demais que me acompanha e me faz viver.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/06/2019 @ 8:23 pm | Responder

  3. Eduardo, Seu post está maravilhoso.
    Excelente escolha para a época do ano.
    Parabéns!
    Maria Marilda

    Comentário por Maria Marilda Pinto Correa — 04/06/2019 @ 12:15 pm | Responder

    • Marilda:
      Participei de muitas festas juninas, daquelas de antigamente. As memórias me ajudaram muito nesse texto.
      Muito obrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/06/2019 @ 3:43 pm | Responder

  4. Superbe, formidável, como diriam os franceses.! Este seu texto faz-me lembrar da também famosa Festa do Amendoim, lá em Ouro Preto. Êta trem bão, Sô!!!! Parabéns, e gracias Eduardo.

    Comentário por Estevam de Toledo — 11/06/2019 @ 12:28 am | Responder

    • Estevam:
      As festas juninas de outrora ficaram inesquecíveis. Precisamos recolocar autenticidade nessa tradição.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 11/06/2019 @ 10:08 am | Responder

  5. Eduardo, meu muito obrigada. Ydernéa

    Comentário por Ydernéa — 08/12/2020 @ 12:27 pm | Responder

    • Ydernéa:
      Sinto-me honrado por ter uma leitora como você.
      Um abraço do E$dardo.

      Comentário por sumidoiro — 08/12/2020 @ 1:05 pm | Responder

  6. Como gostei de saber mais sobre a origem da nossa quadrilha! Houve um tempo em que as festas eram celebradas quase todos os dias, aqui em Montes Claros, no mês de junho. Dancei muitas quadrilhas. Meu pai era excelente marcador, falando esse francês que você divulgou. Era misturado com ordens em português também. “Caminho da roça”, “lá vem chuva!” Uma turma de dinamarqueses, trabalhando aqui, lá no ano de 69, se encantou com a quadrilha. Meu pai organizou uma só para eles dançarem. Foi uma festança. Depois, fez também para um casal de franceses, que deram gargalhadas com o francês do meu pai. Lembro que faziam também o “Casamento da roça”.

    Comentário por sertaneja — 05/03/2021 @ 8:42 pm | Responder

    • Sertaneja:
      Valeu! Seu comentário está ótimo.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 05/03/2021 @ 9:30 pm | Responder


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