Sumidoiro's Blog

01/07/2019

NO BORDEL FILOSÓFICO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:28 am

♦ Nasce a arte moderna

Durante a Fase Azul1901 a 1904 –, Picasso esteve obcecado pela cor que repetiu em seus quadros. Logo depois, veio a Fase Rosa – 1904 a 1906, quando houve o predomínio de uma tonalidade derivada do vermelho, somada a toques de azul e amarelados. Em sequência, surgiu o Cubismo, uma fase de grandes inovações.

Demoiselles d’Avignon (detalhe).

Enquanto na Fase Azul a temática girou em torno da miséria, abandono e sofrimento, na Fase Rosa o foco foi tanto na alegria quanto na tristeza, mostrando figuras de palhaços, arlequins e carnavalescos. Até que, em 1907 e ainda tirando partido do rosa, Picasso deu um salto para a criação do Cubismo(1) com o quadro “Les demoiselles d’Avignon”uma obra prima, porém carregada de tristeza.

REMEMORANDO O AZUL

Entre o final do século XIX e início do século XX, enquanto Picasso se iniciava como pintor, a degradação dos costumes e a miséria dominavam o ambiente europeu. Tanto na Barcelona de sua juventude e na Paris, ambas por onde andou, conheceu bem as prostitutas que se tornaram personagens recorrentes nos seus quadros.

Quando esteve em Paris, entre os anos de 1900 e 1901, seu grande amigo Carlos Casagemas envolveu-se numa relação amorosa com uma modelo profissional e prostituta, frequentadora da casa de bailes Moulin de la Galette. Chamava-se Germaine Gargallo que, ao desprezar o moço apaixonado, levou-o a cometer a loucura de tentar matá-la. Contudo, ao fracassar no seu intento, imediatamente cometeu suicídio com um tiro na cabeça. Quem estava presente vivenciou uma noite trágica num restaurante parisiense, em 17 de fevereiro de 1901.

Depois da perda do amigo e tomado pela tristeza, Picasso procurou um modo de externar seus sentimentos. Passou então a pintar em azul, cor que melhor representava seu estado de espírito. Assim surgiu o conjunto de quadros da denominada Fase Azul, sempre explorando a temática do sofrimento. A primeira pintura da série recebeu o título de Casagemas no Caixão*. — * Clique e leia: “Terapia em azul”.

Fernande Olivier, amante de Picasso & Bateau Lavoir (c. 1910).

A VIDA EM ROSA

A construção da Fase Rosa teve início no ano de 1904, quando vivendo em Paris e mal falando o francês, Picasso teve a sorte de conhecer Fernande Olivier, seu primeiro e mais sério amor. Jovem e bonita, era modelo, coreógrafa e pintora. Ambos coabitaram no ateliê conhecido como Bateau-Lavoir, onde inúmeras vezes ela posou para Picasso. Pelo menos por palavras dela, houve sinceridade no amor. Nesse meio tempo, a alegria e o otimismo que, de certa forma faltavam ao pintor, Fernande lhes trouxe de volta. Bem mais tarde, em 1931, escrevendo no Journal Littéraire, Paul Léataud relembra um encontro que tiveram:

Ela me falou de Picasso. Dele guarda excelentes lembranças. […] Era muito bom para ela, embora a estivesse traindo. Um verdadeiro pai. Mesmo nos dias em que nada havia para comer, ele encontrava um meio de ser gentil, um frasco de perfume, por exemplo, 3 francos, em todo caso uma gentileza. Ela era jovem, sem experiência na vida e tudo terminou tragicamente. Partiu com 11 francos na bolsa, desistindo de tudo, até mesmo o que lhe pertencia. Uma loucura! Entretanto ficou conhecida como madame Picasso, hoje rica, tranquila, muito bem de vida.”

Picasso, Fase Rosa: Nus (detalhe)  & Autoretrato.

Esse foi o jeito de Picasso, durante toda a vida: imprevisível e voluntarioso. E sempre lutando pela sua afirmação como artista, mas em meio a novas aventuras amorosas. Contudo, durante o inverno de 1906 e por volta dos seus 25 anos de idade, lhe vieram à memória os tempos de juventude em Barcelona. Especialmente um bordel, situado no bairro antigo da cidade, pertinho da loja onde costumava comprar materiais de pintura. Suas vivências naquela casa, lhe ajudaram a compor um famoso quadro, que só foi terminado em 1907.

De início, a inspiração o conduziu a uma série de croquis que, finalmente, resultaram num óleo sobre tela. O trabalho mostra cinco mulheres despidas, prostitutas de um bordel do Carrer d’Avinyó ou Rue d’Avignon, em francês. Para a elaboração de uma das figuras, Fernande Olivier serviu de modelo.

Detalhes em três estudos: estudante, cão, pasta e crânio, e vasos com flores.

Outras duas figuras de homens, um cão e mais dois vasos de flores, que constavam dos estudos iniciais, foram eliminados. Em 1939, Picasso fez alguns esclarecimentos sobre isso, dizendo que, num deles, a figura central seria a de um marinheiro, rodeado por mulheres nuas, comida e flores. E mais, do lado esquerdo, participando do grupo, havia um estudante de medicina com um crânio na mão. Ou seja, uma insinuação sobre os males de saúde que acometiam as prostitutas. A propósito, dizem que Picasso tinha pavor das doenças venéreas. Na versão final, permaneceram apenas cinco mulheres e um cesto com frutas numa mesa.

Pois bem, tão logo ficou pronto o quadro, Picasso lhe deu o nome de O Bordel de Avignon, sendo que, mais tarde, seu amigo André Salmon o rebatizou como O Bordel Filosófico, apesar dos protestos do autor.

Como se sabe, em qualquer processo criativo não há regras, nem fronteiras e as influências podem surgir de todo lado. Por isso mesmo, o Bordel da pintura nasceu às vistas de três amigos: Guillaume Apollinaire, Max Jacob e André Salmon. Assim é que, num momento de descontração e com sarcasmo, todos resolveram brincar com as prostitutas da pintura, como revelou(2) o próprio Picasso, em 1933:

“Dissemos um montão de ironias a propósito desse quadro. Uma das mulheres seria a avó de Max. A outra Fernande Olivier e, depois, Marie Laurencin*, todas no bordel de Avignon.” — * A amiga Marie Mélanie Laurencin, também pintora.

SIMBOLISMO AFRICANO

O quadro das prostitutas de Avignon (à esquerda), medindo 2,43m × 2,34m, é classificado como uma das primeiras expressões de uma nova corrente artística. Representou um rompimento com o Realismo e com os cânones acadêmicos, ainda em voga na época, em favor da desconstrução das figuras – pessoas, animais e objetos. Devido à sua configuração, é de se acreditar que Picasso buscou alguma referência nas Banhistas, de Cézanne, pintadas pouco tempo antes.

Tradicionalmente, o Demoiselles tem sido classificado de outra maneira na crítica de arte, como sendo o primeiro quadro da Fase Negra, uma vez que o autor teria sido influenciado pelas máscaras rituais do Congo e da Costa do Marfim.

São elas oriundas de culturas africanas, onde as pessoas convivem com a ideia de que, se as vestirem, nelas se incorpora o espírito que representam. O procedimento ocorre em cerimoniais acompanhados de músicas e danças, que são um meio para religar a tribo com o além e os espíritos dos antepassados. Esses eventos também podem se constituir em ritos de iniciação, casamento, fertilidade e reprodução, entre outros.

De fato, observando o quadro das Demoiselles, vê-se que essas máscaras guardam semelhanças com os rostos das duas figuras à direita do quadro. Contudo, Picasso sempre negou tal possibilidade, dizendo que havia se inspirado em antigas esculturas ibéricas, uma vez que, somente ao final de 1907, descobrira as esculturas da África. Assim mesmo, apesar da negativa, inegavelmente as imagens têm semelhanças, tanto no estilo quando nos propósitos ritualísticos.

Estudo para as Demoiselles e máscara africana.

Verdade é que, ao pintar as Demoisseles, Picasso ainda estava marcado pelas experiências que o levaram a produzir a Fase Azul e, depois, na Fase Rosa, principalmente os horrores da morte. Nesse sentido, as Demoiselles continuam refletindo as tristezas que permaneciam atreladas ao espírito do autor.

NASCE O CUBISMO

A Fase Africana marca o período em que Picasso começou a configurar o Cubismo ou, melhor dizendo, o Proto-Cubismo*. Ainda assim, com resquícios da morte e da negatividade. Esses foram os primeiros e mais evidentes passos para o surgimento da Arte Moderna, que se desdobrou em inúmeros estilos, os quais enaltecem tanto o belo quanto o feio. — * Proto: prefixo oriundo do grego, para designar o que vem primeiro.

Guernica: 3,49m por 7,76m & Picasso.

Mais tarde, já em 1937, Picasso promoveu uma reviravolta, pintando um painel essencialmente político, a Guernica. Com essa obra, estava a protestar contra o bombardeio ocorrido na cidade espanhola de Guernica. Mas, de fato, realizou-a mediante encomenda dos nacionalistas espanhóis, depois que aviões da Alemanha nazista e da Itália fascista bombardearam a cidade, transformando-a em ruínas.

A obra foi apresentada, pela primeira vez, no Pavilhão da República Espanhola, na Exposição Universal de Paris, em 1937. Mais adiante, numa manifestação pessoal, Picasso traduziu sua revolta ao dizer que o painel era “uma declaração de guerra contra a guerra e um manifesto contra a violência”.

Por sua vez, um renomado jornalista e escritor espanhol* trouxe mais explicações, ao dizer que Picasso “não pintou a Guernica por patriotismo, nem por democracia; pintou por muitíssimo dinheiro”, mas que foi uma “encomenda da República”. Na verdade, os fatos revelam que Picasso se envolveu na política mais por interesse do que por idealismo. Não era exatamente um patriota, nem comunista de verdade, apesar de intitular como tal. — * Guterréz, Arturo Pérez-Reverte.

Picasso fez sua adesão ao Partido da “Renascença” francesa (outubro/1944).

Lança mais luz sobre o assunto um depoimento de Picasso, publicado no jornal L’Humanité – do partido comunista – em 29.10.1944, que diz:

“Minha participação no Partido Comunista é a continuação lógica de tudo e da minha vida, de todo meu trabalho. Como tenho orgulho de dizer, nunca considerei a pintura como uma arte de mero prazer, de distração. Queria, pelo desenho e pela cor – uma vez que estas eram minhas armas –, penetrar cada vez mais no conhecimento do mundo e dos homens, para que esse conhecimento nos libertasse a cada dia mais. Tentei dizer, do meu jeito, o que considerava o mais verdadeiro, o mais justo, o melhor e, naturalmente, o que sempre foi mais bonito. Os maiores artistas conhecem bem.

Sim, estou ciente de ter sempre lutado, com a minha pintura, como um verdadeiro revolucionário. Mas, agora, entendo que isso não é suficiente. Aqueles anos de opressão terrível me mostraram que tinha que lutar não só com minha arte, mas com tudo, partindo de mim…

Então, me dirigi ao Partido Comunista sem qualquer hesitação, porque, no fundo, com ele estava desde sempre. […]

Picasso, o comunista milionário, morreu em Mougins (Côte d’Ázur), em 08.04.1973. Dois dias mais tarde e atendendo sua vontade, foi enterrado no terreno do seu castelo situado na comuna de Vauvenargues(3).

Texto, tradução e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

——

(1) CUBISMO – Começando pela pintura, o movimento provocou uma revolução nas artes plásticas, na arquitetura e na música. As obras cubistas representam formas multifacetadas, decompostas de tal maneira como se o artista as observasse de diferentes pontos de vista. São plenas de simplificações, as quais acabaram por influenciar o surgimento de várias modernidades, entre elas, as artes geométricas e abstratas. Pablo Picasso, juntamente com Georges Bracque, são considerados os fundadores do cubimo. (Ao lado, pintura cubista, por Picasso.)

(2) Fonte: STEIMBERG, Leo – “The Philosophical Brothel”, ensaio em “Art News”, 1972. / Revisado e acrescido com retrospecto, em 1988.

(3) Vauvenargues, departamento de Bouches-du-Rhône, distante cerca de 200km de Mougins.

10 Comentários »

  1. Nada de novidade , mas sempre é bom ver comentários acerca de Picasso. Tive a honra de conhecê-lo pessoalmente.

    Comentário por Maria Marilda Pinto Correa — 01/07/2019 @ 12:01 pm | Responder

    • Sim, gosto abordar assuntos sobre Picasso.
      Muito obrigado Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/07/2019 @ 1:59 pm | Responder

  2. Eduardo, obrigado, parabéns pela belíssima aula de historia da arte. Um abraço, Arthur.

    Comentário por Arthur José Diniz — 01/07/2019 @ 3:51 pm | Responder

    • Arthur:
      Ao conhecer a pessoa do pintor mais de perto, compreendemos melhor sua obra.
      Muito obrigado, Eduardo

      Comentário por sumidoiro — 01/07/2019 @ 4:02 pm | Responder

  3. Eduardo, vou repetir as palavras do Arthur: “obrigado, parabéns pela belíssima aula de história da arte”. Só uma vida tão cheia de aventuras poderia deixar-nos uma obra como a de Picasso. O compromisso maior do artista é com a sua criação, o resto são conveniências. Mas, como você disse, ao conhecer a pessoa do pintor mais de perto, compreendemos melhor sua obra. É isso que você nos possibilita com “No Bordel Filosófico”.
    Grande abraço!

    Comentário por Pedro Faria Borges — 01/07/2019 @ 5:45 pm | Responder

    • Pedro:
      À medida que trocamos ideias, agitamos o pensamento e vamos em frente. Então, fé em Deus e pé na tábua! Obrigado pelo empurrão. Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/07/2019 @ 7:16 pm | Responder

  4. Tornou-se lugar comum agradecer por suas postagens. Particularmente, esta me fez muito bem, estava meio triste e…
    Vania

    Comentário por VANIA PERAZZO BARBOSA HLEBAROVA — 04/07/2019 @ 11:23 am | Responder

    • Vania:
      Possuo três remédios para evitar tristeza. Leitura, música e dedicação à escrita. Não está à venda na farmácia e nem tem contra indicação. Experimente!
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/07/2019 @ 5:56 pm | Responder

  5. Para mim, pouco importa o que estava na cabeça de Picasso ao pintar Guernica. O que importa é a obra acabada, magnífica, e o que ela diz para nós. Claro está que nem todos sentem a mesma coisa. Mas é impossível negar que é algo revolucionário. Sinceramente penso, mas posso estar pensando errado, que aqueles que logo reagiram dizendo coisas como não ter sido por patriotismo e sim por dinheiro, foram movidos apenas por… inveja.

    Comentário por sertaneja — 25/02/2021 @ 2:35 pm | Responder

    • Sertaneja:
      Você tem razão. Para o espectador, o que importa é a obra em si. Por outro lado, quando estudamos história da arte, há que se fazer uma análise crítica. O objetivo seria conhecer o autor mais intimamente e entender, pelo menos em parte, o que o levou a produzir uma obra de arte ou, em vez disso, talvez uma porcaria.
      Muito obrigado pelo comentário,
      Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 25/02/2021 @ 2:59 pm | Responder


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