Sumidoiro's Blog

01/08/2019

ELOGIO DO LÁPIS

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:28 am

♦ Amigo em perigo

Em tempos passados, a pena de tinteiro e o lápis estavam por toda parte. De tal maneira, que tornaram-se itens de primeira necessidade. Quando se perdia uma pena ou um lápis, era como se encurtassem as mãos. Até que, por via dos progressos, quase todas as penas vieram a falecer, deixando muitos lápis desolados. Agora, ao que tudo indica, os remanescentes de ambos estão ficando definitivamente obsoletos, uma vez que as multidões têm optado pelos teclados de computador. Paralelamente, pelo abandono do lápis, tanto o desenho quanto a caligrafia estão em profundo sofrimento.

Post - Mão e lápis Lápis primitivo, encontrado em Nuremberg (Alemanha, 1630) e lápis no estilo de Conté.

      Na feitura dos primitivos lápis, utilizavam filetes de variadas substâncias sólidas. Atados em hastes, com cordões ou pele de animais, assim estavam prontos para entrarem em serviço. Eram produzidos em preto ou em cores. Com carvão natural se fazia o preto; com a pedra “lapis lazuli” o azul; com terra amarelada, o ocre; com cal, o branco; e assim por diante.

Ao longo do tempo, tornou-se um material essencial para os artistas. Leonardo da Vinci(1), foi admirável usuário dos lápis* pretos de carvão natural, mas teve outros muito a seu gosto, de “pietra di ematite” – na cor vermelha sanguínea – conhecida como “matita“**. Também usavam na forma de bastõezinhos, ditos em francês como “craie sanguine“, que se traduz como giz sanguíneo. Esse é o motivo de, no Brasil, dizerem desenho a sanguínea. — * Lápis, em latim, quer dizer pedra; ou objeto de pedra. / ** Matita, em italiano. / Hematita: óxido de ferro.

Algum tempo depois, a partir das experiências dos pintores Peter Paul Rubens(2) e, em seguida, com Antoine Watteau(3), foi ampliada a técnica do preto mais a sanguínea a ela acrescentando o branco. Essa nova maneira de representar ficou conhecida como “aux trois crayons” (aos três lápis).

Três “crayons” em dois estudos de uma mesma menina, por Watteau.

Pois bem, numa data pouco precisa, por volta da metade do século XVI, ocorreu um fato extraordinário. Durante uma tempestade em Borrowdale (região de Cumberland, Inglaterra), uma árvore foi derrubada pelo vento e teve suas raízes expostas. Logo em seguida, um pastor de ovelhas percebeu nelas uma substância negra e que lhe pareceu útil para marcar as ovelhas. Era a grafite, que recebeu o nome “wadd”. Daí em diante, esse material de rabiscar se disseminou, exatamente porque servia tanto para escrever como para desenhar.

Nesse contexto, no ano de 1832 e na mesma Cumberland, foi fundada uma fábrica do que seria o ancestral do lápis moderno. Desde então, seu uso não parou de crescer ao mesmo tempo em que iam surgindo inovações, como os lápis de cor, produzidos a partir de diversos materiais corantes.

AGORA

Devido a recentes tecnologias, todos os lápis agora correm perigo de extinção. Cada vez mais os deixam de lado, principalmente pelo advento dos mais variados aparatos digitais. Por isso, cada vez menos, se escreve à moda antiga, ou seja, o “negócio” é digitar!

Chegou ao ponto que, em alguns países, a prática da caligrafia foi oficialmente abolida(4). Em inúmeras escolas dos Estados Unidos já é uma realidade, como mostra o jornal Estado de São Paulo:

“O ensino da letra cursiva será opcional em Indiana e deverá ser banido definitivamente nos próximos anos. A decisão deve ser seguida por mais de 40 Estados americanos, que também consideram esta forma de escrever como ultrapassada. Na avaliação deles, é mais importante se concentrar no aprendizado das letras bastão. O argumento dos defensores desta lei […] é de que, hoje, as crianças praticamente não necessitam mais escrever as letras com caneta ou lápis no papel. Seria mais importante aprenderem a digitar rapidamente, já que quase toda a comunicação acontece por meio de letras de fôrma nos celulares e computadores.” — Publicado em 18.07.2011.

A imprudência educacional também já chegou à Europa, como mostra o site do Goethe Institute, da Alemanha:

“A partir de 2016, na Finlândia, as crianças não vão mais aprender a caligrafia cursiva. Na Suíça, os alunos aprendem apenas noções básicas. Também na Alemanha, a abolição da caligrafia cursiva tem sido discutida.” — Publicado em abril de 2016.

Nesse embate, com o surgimento do lápis digital, foi dispensado também a grafite. Agora, os movimentos da mão remetem informações diretamente para um desktop. E, no caso de ocorrer algum um erro, até mesmo a borracha é digital. Argumentam em uma propaganda:

” O lápis digital é mágico, intuitivo e preciso. Serve perfeitamente para desenhar, fazer rascunhos, projetos ou anotar em documentos. Com o novo lápis digital, seu trabalho ficará ainda melhor.” Dá para acreditar?

OS LÁPIS DE CONTÉ Extraído de texto e quadrinhos(5) por Glücq, Paris.

“No passado, o lápis era feito apenas com a plumbagina (grafite) de Cumberland. Serravam o torrão natural tal como se faz com uma pedra comum, de modo a formar pequenas lâminas e, depois, as revestiam com madeira, assim obtendo o lápis, que poderia variar em dureza. ••• No fim do século XVIII, a França esteve em guerra com a Inglaterra e, naquele momento, faltaram lápis. Então, Lazare Carnot – colaborador de Napoleão – convocou um dos engenheiros da campanha egípcia, Jacques Conté, lhe dando a missão de criar um lápis artificial para o serviço topográfico do exército, de modo a substituir o da Inglaterra.

Jacques Conté foi destacado engenheiro. Na batalha de Fleurus, teve a ideia de utilizar balões para observar o inimigo. A ele se deve a criação do Conservatório de Artes e Ofícios. Portanto, Carnot não poderia ter feito melhor escolha. ••• Durante a campanha do Egito, foi Conté que improvisou tudo o tocava à armada: moinhos, fornos, arsenais, etc. Dizia Monge* que ele tinha todas as ciências na cabeça e todas as artes nas mãos. Bonaparte o chamava de pilar da expedição do Egito. — * MONGE, Gaspard: matemático e educador.

Foi esse o homem a quem Carnot confiou a missão de inventar o lápis. Porém Conté, ao conduzir o trabalho, foi vítima de uma explosão no seu laboratório, que lhe provocou a perda do olho esquerdo. Apesar do imprevisto, obteve sucesso ao produzir a encomenda que veio a imortalizar seu nome, a qual foi copiada no mundo inteiro. ••• A invenção deu origem à fábrica de Crayons Conté (Lápis Conté), hoje* dirigida pelos netos do célebre engenheiro. O produto consiste na mistura, em diferentes proporções, de argila pura com pó de grafite ou, de outro modo, com óxidos metálicos coloridos, também com variadas graduações de dureza. — * Diz Glücq.

A grafite é uma variação natural do elemento químico carbono*, que se encontra depositada nos terrenos xistosos. De lá é retirada em torrões que, depois, são divididos em pequenos pedaços e, finalmente, pulverizados em moinhos de aço. ••• O pó da grafite é misturado em diferentes proporções, de modo a obter a dureza desejada. A pasta, assim composta, é introduzida numa máquina que, ao final, produz filetes com contornos redondos ou quadrados. — * Os átomos de carbono podem se organizar de outras maneiras formando substâncias diferentes, entre elas o diamante.

A madeira apropriada para fazer lápis é o cedro da Flórida, cujos troncos são fatiados em tocos, no comprimento desejado. Depois, são subdivididos em tábuas finas e, em seguida, em metades de bastõezinhos, nos quais se faz uma ranhura, a qual receberá o fio de grafite. ••• Na sequência, os operários deitam a grafite no sulco de uma das metades, à qual é colada uma segunda. Daí, se terá duas metades unidas que são quase um lápis pronto.

Assim, uma vez colado e seco, o lápis vai para uma plaina que apara as arestas e as formata tanto arredondando, quanto sextavando, tal como os conhecemos. O lápis, numa última etapa de produção, ainda recebe um verniz. ••• O acabamento brilhante é feito em várias cores, de modo a lhe dar uma aparência atraente. Desse ponto, logo que a “toillete” é terminada, o operário imprime a marca de fábrica. Então, bem vestido e decorado, o lápis pode ser posto à venda.

A palavra “crayon” vem de “craie” – giz – porque é com giz que costumam desenhar e escrever nas lousas*. Os “crayons” são de três tipos. Primeiro, o “crayon” de pedra negra, conhecido no mundo inteiro pelo nome de Crayon Conté, de melhor qualidade, com o qual os escolares e artistas desenham. ••• Segundo, o “crayon” grafite, usado em cadernos e papel comum, que é encontrado em várias durezas. Foi graças à invenção de Conté que surgiu essa grande variedade de lápis, para servir tanto ao escritor quanto ao desenhista. —  * Pequena placa de pedra ardósia, onde se escrevia com um bastãozinho. / Por extensão: quadro para salas de aula.

O terceiro tipo de Crayon Conté é o de cor, com o qual se fazem aquarelas. É o lápis por excelência das mocinhas, quando querem representar paisagens ou flores. Quanto ao lápis vermelho e o azul, são tão úteis que, sabemos, alegram todas as crianças do mundo! ••• A invenção do lápis é, portanto, bem francesa e devida a Conté. Pergunto: como podem ainda existir franceses e, especialmente, escolas francesas que usam lápis estrangeiros? Muito justamente, artistas e escolares patrióticos, usam apenas lápis da marca Conté de Paris.” — CLÜCQ, 1884.

PINCEL & PENA & PÊNSIL

Um dos ancestrais do instrumento lápis, com semelhantes utilidades, é aquele que se denomina pincel. Em latim, diziam peniculus, diminutivo de penis, ou seja, rabo. Vale lembrar que é a mesma palavra para dizer do órgão sexual de inúmeros machos. Nesses casos, ambas configurações são afins. O pincel é conhecido em outras línguas como: pennelo (italiano); pincel (espanhol); pinceau (francês); pinzel (provençal); pinsell (catalão).

Por sua vez, a pena – de escrever e desenhar –, traz o nome oriundo do latim pena, pois era feita com a pena da cauda de uma ave. Paralelamente, existe a palavra pênsil derivada de pensilis, para dizer suspenso ou pendente. Por isso é que se diz que a ponte é pênsil ou, noutro caso, que o rabo pende.

——

Pois bem, voltando ao elogio do lápis, ainda lhe cabem boas palavras, retiradas de uma conversa entre amigas: – Se lhe faltar um elástico, use dois lápis para prender os cabelos.

Tradução, arte e texto de Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

——

(1) DA VINCI, Leonardo – italiano (*1452 / †1519).

(2) RUBENS, Peter Paul – flamengo (*1577 / †1640).

(3) WATTEAU, Jean-Antoine – francês (*1684 / †1721).

(4) Publicado no “International Student News”, Bristol, United Kingdom (18.04.2019) – “Escrita Cursiva nas Escolas: Retorno ou Arte Esquecida?”: Escolas americanas estão pouco a pouco reintroduzindo o ensino da letra cursiva. Em Illinois e Ohio, estão agora oferecendo pelos menos uma classe da arte esquecida, que foi abolida por força de legislação em 2010. […] Anne Trubek, autora de “A História e Futuro Incerto da Escrita”, disse ao New York Times que o ensino da letra cursiva, obrigatório até uma década atrás, visava o desenvolvimento de uma população civilizada e educada. “As pessoas ficaram chateadas com a ideia de que você poderia parecer pouco educado se não soubesse cursivo”, disse ela. No entanto, isso tem mais a ver com “convenções, tradições e conservadorismo”. Assim sendo, ser americano é também ter capacidade de ler e escrever em letra cursiva. Vários legisladores republicanos, por trás da campanha para reviver o ensino cursivo, dizem que é necessário para a leitura de textos históricos, como a Constituição e a Declaração da Independência.

(5) L’HISTOIRE D’UN CRAYON — Série Encyclopédique Glücq — Des Leçons de Choses Illustrées – Vulgarisation de la Science et de la Industrie par l’Image Populaire (Groupe V – Feuille nº 42), 1884. [Notas e atualizações por Sumidoiro’s Blog].

8 Comentários »

  1. Eduardo, muito interessante seu comentário acerca do lápis. Já havia observado, faz algum tempo. Realmente, fica mais fácil digitar. Por outro lado, um quadro a crayon é uma maravilha e ainda se vê muitos. Recentemente, vi alguns de um artista de Santa Catarina, maravilhosos.
    Maria Marilda

    Comentário por Maria Marillda Pinto correa — 01/08/2019 @ 9:26 pm | Responder

    • Marilda:
      Não vivo sem lápis. Eterna amizade.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/08/2019 @ 9:31 pm | Responder

  2. Eduardo, você é inusitado. Só você, com esse seu amor pelas palavras e pela origem das coisas, seria capaz de nos brindar com um texto como “Elogio do lápis”. Quem estaria preocupado, na atualidade, com esse objeto? Você afirma que não vive sem os lápis e também eu, ainda que não tivesse consciência disso, também tenho meus lápis e, sem eles, não teria as minhas anotações nos livros que leio, no que observo, nas metáforas que me ocorrem nas noites de insônia. Os lápis são parte da minha memória. Sem eles, eu seria bem pior. Obrigado pelo texto!

    Comentário por Pedro Faria Borges — 08/08/2019 @ 12:04 pm | Responder

    • Pedro:
      Também agradecido fico eu, ao saber que você é admirador dos lápis. Se não os tivesse, não existiria meu Blog, pois são instrumentos essenciais para alinhavar minhas ideias.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 08/08/2019 @ 3:44 pm | Responder

  3. Eduardo:
    Parabéns pelo “Elogio do Lápis”. As coisas estão aí para serem percebidas. Só que, na maioria das vezes, percebemos a menos. Neste sentido, você faz voltar nossa atenção para o lápis.
    O “Elogio” levou-me a Jorge Luis Borges e sua poesia “Las cosas”: “El bastón, las monedas, el llavero… Cuantas cosas… nos sirven como tácitos esclavos, ciegas y extrañamiente sigilosas! Durarán más allá de nuestro olvido; no sabran nunca que nos hemos ido”.
    Levou-me, também, a um prefácio para o “Julius Caesar”, de Shakespeare. Num trecho, de autoria de Joseph Papp, se diz: ”É difícil imaginar, mas Shakespeare escreveu suas peças com uma caneta de pena de ganso, cuja ponta exigia ser afiada com frequência…” Por isso, veio à minha memória a década de 1930, quando me esforçava para escrever uma simples composição usando a caneta de metal. Por isso mesmo, fico maravilhado com Shakespeare e sua caneta de pena de ganso. Imaginei-o andando por uma rua estreita de Londres ou ou diante e um copo numa cervejaria local. De repente, chega à sua idéia uma frase, ou uma novidade qualquer. E ele se impacienta para anotá-la. Porém, sem contar uma caneta, sofre para não perder a idéia, até achar pena e pergaminho.
    Para finalizar, devo lhe dizer que sua coletânea de textos certamente daria um belo livro.
    Parabéns. Com mis saludos, Estevam.

    Comentário por stevantoledo — 15/08/2019 @ 1:02 am | Responder

    • Estevam:
      Pois é… Vamos viajar no pensamento, pois sempre encontraremos algo escondido num canto.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 15/08/2019 @ 9:47 am | Responder

  4. E eu que não sabia que já fizeram lápis com pele de animais? Acho que isso passou. Mas ainda é preciso derrubar as árvores. Por isso, até que acho bom o novo estilo. Mas o ideal seria a invenção de um lápis ecológico.
    Quanto a não mais ensinar as crianças a escrever é lamentável. Embora, no meu caso, é diferente porque tenho péssima caligrafia. Nem eu consigo ler tudo que escrevo. Quando fazia comentários sobre cinema para um jornal local, poucos conseguiam entender o que eu tinha escrito. Comecei a usar letra de imprensa. Então, tomei a decisão de aprender datilografia. Foi a solução.

    Comentário por sertaneja — 19/02/2021 @ 10:57 pm | Responder

    • Sertaneja:
      Uma das coisas mais ecológicas que existe é o lápis, feito de grafite (carvão) e madeira. Viva o lápis!
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 20/02/2021 @ 7:55 am | Responder


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