Sumidoiro's Blog

01/10/2019

DUAS IRMÃS

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 6:22 am

♦ Unidas pelo gole

Duas irmãs, bem velhinhas, teimam em viver. Suas ancestralidades remetem ao começo do mundo. É difícil saber qual nasceu primeiro, se a Gorjeta ou a Propina.

Frente a frente com a propina.

       Outro dia, de supetão, uma ilustre autoridade brasileira sacudiu as duas. Ocorreu na tentativa de atenuar um malfeito e, desse modo, chutou a etimologia e colocou as irmãs em conflito. Exatamente ao dizer que a Propina seria uma mera Gorjeta – uma quase nada – e que ela nascera em Espanha, mas trata-se de uma completa inverdade. No frigir dos ovos, denegriu ambas e mais ofensivamente a Gorjeta, quando a colocou em nível inferior. Assim sendo, para lançar luzes sobre o assunto, vamos recorrer à história.

PROPINA

Muitas evidências indicam que a propina tem raízes na Grécia, sendo depois repassada para Roma até que, por via de Portugal, veio desembarcar no Brasil.

Na Grécia, havia o costume do simpósio – Συμπόσιον / sympósion –, ao qual se refere Platão(1) n’O Banquete. O texto mostra uma série de discursos sobre a natureza e as qualidades do amor. O objetivo dessa prática era a de reunir convivas para comer, beber, jogar e trocar ideias. Tratava-se de uma atividade meramente masculina, onde as mulheres participavam apenas para entreter e prestar serviços.

Em Roma, propinando com fundo musical.

Mais adiante, esses banquetes foram copiados pela elite de Roma, quando faziam festas chamadas de graecari ou “fazer tal como o grego”*. Nesses momentos de descontração havia a prática do ócio (otium), quando se fazia a ceia (cena), ou reuniões para comer, beber** e conversar. O ato de beber se chamava propinare, oriundo do grego προπίνω (propíno)***, mas literalmente significando “bebo antes”. — * A palavra gregário diz de quem vive em bandos; tem como sinônimo gregal = sociável. / ** O vinho era servido em kúliks, que era uma grande taça de cerâmica. Daí vem a palavra cálice. / *** Pro = antes — píno = bebo. 

← Kúliks grego.

O padre Raphael Bluteau(2), no seu dicionário de 1728, ajuda a entender a Propina:

“Parece que deriva do verbo latino propinare, que vale o mesmo que brindar a saúde de alguém e, segundo o licenciado Cobarrubias(3), era uma merenda que se dava em algumas juntas*. Hoje se dá propina em dinheiro ou em tantas varas** de pano e outras coisas usuais. Nos parlamentos da França, ainda se dá propinas de alguns frascos de vinho e, como boa alusão à palavra propina, os franceses chamam a essas propinas e outras, que se dão aos mediadores de uma compra ou venda, como Pot-de-Vin, que vale o mesmo que Pote de Vinho. — * Junta: repartição burocrática. / ** Vara: medida de extensão.

Em Portugal, dão propinas aos oficiais da Casa Real, a Tribunais e ao Reitor, Chanceleres, Lentes, Licenciados e Bedéis da universidade, etc. Também na língua latina, as propinas se explicavam por termos de beber, porque a propina ou donativo de cada Imperador, depois de eleito e de ter assumido o Império, servia para conciliar sua benevolência. Se chamava Congiarium que, em latim, significa uma certa medida de vinho e de outras coisas líquidas. Pelo que disse Quintiliano*, Congiário era palavra que insinuava ato de comum acordo e liberalidade. […] O Imperador Adriano deu ao povo propinas de bálsamo, açafrão e drogas aromáticas […] O imperador Aureliano deu pão, azeite e carne de porco, e determinara dar vinho. Finalmente, as propinas de coisas de comer e beber se mudaram em donativos de dinheiro, mas sempre conservou esse gênero de donativos com o nome Congiarium*…” — * Marcus Fabius Quintilianus: orador e professor de retórica romano. / ** Originalmente, medida referente ao volume de um vaso contendo 1 congium, usual para medir óleo e vinho.

Prosseguindo, Bluteau diz:

“Propinar – Os latinos tomaram a palavra dos gregos, os quais, nos seus banquetes, costumavam encher um copo de vinho e depois dizer tibi propino – bebo à sua saúde ou faço-lhe um brinde – bebiam bem um trago e, em seguida, davam o copo a algum dos convidados.”

Lidando com o vil metal.

No Ortolang, portal de recursos linguísticos do idioma francês, há uma definição para a Propina como Pot-de-Vin ou Pote de Vinho, que possui uma conceituação mais abrangente:

“Pot-de-Vin – Soma em dinheiro, presente ofertado clandestinamente a uma pessoa, para obter, de maneira ilegal ou ilícita, qualquer vantagem. Nos sentidos de: “por baixo da mesa”, “negociata”, etc. Citando uma importante fonte, diz que grandes advogados e políticos são procurados pelos financistas, quando têm graves dificuldades a vencer diante dos tribunais e que são habituados a praticar enormes ‘pots-de-vin’, pelos quais, em consequência, pagam magnificamente.”

Por outro lado, não há como ignorar a palavra afim que é corrupção e que traduz uma forma de ilicitude, a qual chegou ao Brasil logo após a descoberta. O costume já estava arraigado na Europa, quando pagavam propina às autoridades, fossem elas civis, militares ou eclesiásticas.

Ao correr do tempo, o descaramento chegara a tal ponto que a propina adquiriu a característica de imposto ou comissão, procedimento que acabou por se transformar em prática transnacional, qual seja, a da corrupção.

Discretamente, olhando de banda e olhando de frente.

No Brasil, em certo momento, o rei d. João VI teve que repudiar os exageros nas propinas que rolavam na Capitania das Minas Gerais. Assim foi que, num comunicado às autoridades do governo(4), determinou:

“… Faço saber a vós Juiz, Vereadores, Procurador e mais Oficiais da Vila do Carmo (atual Mariana – MG) que, sendo-me presente a grande desordem com que se despendem os emolumentos dessa Câmara, […] especialmente, o excesso com que o rendimento da Câmara se gasta em Propinas […] fui servido ordenar […] que […] se observe a despesa das Propinas: o Juiz, Vereadores, Procurador, Escrivão da Câmara dessa vila, cada um deles terá vinte mil réis de Propina em cada uma das quatro festas principais que são Corpo de Deus, Santa Isabel, o Anjo Custódio do Reino*, e o dia do Orago** da Igreja matriz dessa Vila [etc.] – Lisboa, vinte e quatro de maio de 1744…” — * São Miguel Arcanjo. / ** São João Evangelista, um dos oragos.

Taxista dedo-duro: – Poxa! Ontem, quando estava com a loirinha, deu o dobro… 

GORJETA

Quanto à gorjeta, a etimologia diz que vem do latim gurges, no sentido de sorvedouro e de gurgulio (também do latim), que é garganta, ou goela. A mesma origem tem a palavra gole. E, como desdobramento de significado, a gorgeta virou “dinheiro para comprar bebida”. Têm também afinidades as expressões “boca” – dinheiro fácil –, “boca-rica” e o diminutivo “boquinha”. Todas elas definem oportunidade de tirar proveito material de algo sem fazer esforço ou de ganhar dinheiro fácil.

Pois bem, a gorgeta ficou mais relacionada com gratificações inocentes, embora não estejam isentas de avançarem nos pecados. Nos restaurantes, barbearias e salões de beleza é muito comum fazer esse agrado. Mas isso não elimina as gorgetas grossas, com efeito de suborno e que são oferecidas sem cerimônia, com o propósito de corromper. O sentido da palavra suborno vem de ornar às escondidas (sub [debaixo] + ornar [enfeitar]), ou seja, por baixo dos panos e, de outro modo, quando é retirada de dentro das mangas ou, ainda, repassada por debaixo das mesas.

Os dois lados da gorjeta.

VARIAÇÕES

Houve época em que usaram a palavra peita para designar suborno. Hoje em dia, a toda hora, emprega-se mais suborno, procedimento que está muito em voga na sociedade. Por outro lado, no âmbito jurídico-penal, sofreu uma bifurcação tornando-a diferenciada, com os sentidos de corrupção ativa ou corrupção passiva.

Mas o assunto ainda não está encerrado… Há também palavras afins, que permeiam nesse terreno onde a ética, em certos casos, costuma desmoronar. São elas: paraguante, luvas e jetom.

Paraguante vem de guante que em espanhol quer dizer luva. Daí surge a palavra luvas, que é um “acerto” em dinheiro que se faz numa transação, o qual antigamente aparecia disfarçado dentro de luvas, ou mesmo dentro de mangas.

Jetom tem origem na ideia de ficha, representando um valor, com o qual se joga nas mesas dos cassinos. Em francês, a palavra jetter quer dizer jogar.(5)

Nesse rol, felizmente, surge um certo alívio com o alboroque (ou alborque), palavra com origem no árabe al-buruk, que se traduz por manjar singelo. De maneira adaptada, foi e ainda é praticado em Portugal e Espanha. Acompanhando a tradição, se refere ao ato das partes tomarem uma taça de vinho selando o sucesso de um negócio. Nesse caso, é tão somente um modo reverso e mais senhoril de oferecer a gorgeta, pois quem paga é o comprador. Ufa, que alívio! Saúde!

Pois bem, vai aqui uma recomendação: se for dar uma propina, pelo amor de Deus, ponha a mão na consciência e, mesmo que seja uma gorjeta, antes conte até 10.

Clique e ouça:

Pesquisa, texto e ilustração de Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

——

(1) Platão – (*428/427 a.C. / †348/347 a.C.) Filósofo e matemático grego.

(2) BLUTEAU, Raphael – (Londres, *04.12.1638 / Lisboa, +13.02.1734) Padre católico; lexicógrafo da língua portuguesa, autor do Vocabulário Português e Latino.

(3) HOROZCO, Sebastián de Covarrubias y – (*1539 / †1613) – Estudou na Universidade de Salamanca. / Sacerdote; autor de “Tesoro de la lengua castellana o española”, c. 1606/1610.

(4) Extrato do “Diário do Governo da Província de Minas Gerais”, nº XXII, ano de 1825 (Biblioteca Nacional).

(5) Jetom & Lançar: no Dicionário Houaiss — “LANÇAR, do latim lancĕo,as,āvi,ātum,āre no sentido de ‘manejar a lança, jogar a lança’; observe-se que lançar, originalmente ‘jogar a lança’, sofreu ampliação de significado, passando a designar ‘jogar qualquer objeto, arremessar, atirar’, tomando para si, deste modo, os sentidos do verbo latino jactāre, v. freq. de jacĕre no sentido de ‘jogar, atirar, arremessar, lançar’ (ver jact-), e mesmo afastando-se do significado primário; ver lanç-; fonte histórica: sXIV alãçar, sXIV lançã, sXIV lãçey, sXIV lancou, sXV lãçãdo, sXV lançades, sXV lamçou, sXV llançar“. || JATO, do latim jactus,us no sentido de ‘lançamento, arremesso, tiro, jato’; cp. jacto e a f.divg. vulg. jeito; ver jact– e jeit-“.

6 Comentários »

  1. Eduardo, você cumpre o que promete no início de seu texto: “lançar luzes sobre o assunto”. Pena que o conhecimento não melhora o comportamento das pessoas. Propina ou gorjeta, o que não falta é a ambição de muitos de querer, sem que se trabalhe, ter lucros e mais lucros. Só me resta o consolo de estar vivendo entre pessoas éticas. Parabéns pela pesquisa!

    Comentário por Pedro Faria Borges — 04/10/2019 @ 10:28 am | Responder

    • Pedro:
      A pesquisa para produzir esse texto, para mim também foi um aprendizado sobre o humano. Vivendo e aprendendo!
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/10/2019 @ 6:22 pm | Responder

  2. Eduardo, parabéns pelo interessante post. De fundo etimológico, instrutivo, sintético e de linguagem simples, o texto examina ainda palavras afins. Eu, por exemplo, já conhecia *jetom*, usada com certa frequência na linguagem da administração pública brasileira. Não sabia, entretanto, que suas origens estão ligadas ao mundo dos cassinos. Gorjeta e Propina guardam realmente similaridades e diferenças. E, por vezes, fico a pensar que as palavras, em certas situações, são capazes de gerar comportamentos excêntricos. Senão, vejamos. Faz tempo, Mr. Lai, meu ex-colega de curso, natural de Hong Kong, contou-me que os garçons de lá detestam receber gorjetas fracas. Caso o cliente lhe dê uma gorjeta de pequeno valor, o garçon – munido de um pratinho e uma moeda -, na saída acompanhará o cliente até a porta, fazendo a moeda saltitar no pratinho. Naturalmente, todos os que estiverem no restaurante ficarão sabendo que a gorjeta foi pequena. Vingança ou, no mínimo, comportamento excêntrico? E como disse Kurt Vonnegut: “É isso aí!”. Fuerte abrazo. Estevam.

    Comentário por stevantoledo — 15/10/2019 @ 3:26 pm | Responder

    • Estevam:
      Como tenho aprendido com as palavras! Vou continuar perguntando a elas.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 15/10/2019 @ 6:04 pm | Responder

  3. Como sempre aprendo o inesperado, lendo seus textos. Adorei.

    Comentário por sertaneja — 05/02/2021 @ 4:22 pm | Responder

    • Sertaneja:
      Enquanto eu tiver fôlego, vou escrevendo essas coisas.
      Muito obrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 05/02/2021 @ 4:27 pm | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: