Sumidoiro's Blog

01/11/2019

NO RASTRO DO ESNOBE

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 6:15 am

♦ Aparências para enganar

O esnobe sempre existiu. Porém, até certo momento, não havia palavra que o definisse como tal. Somente no século XVIII, pelo que se sabe, foi melhor formatado e identificado com o auxílio do adjetivo snob. Depois da invenção desse “selo de identidade”, ficou mais fácil detectá-lo em qualquer lugar e condição.

No teatro, cada qual com sua vaidade: o casal burguês, mais o snob, a filhinha e a mamãe.

      Antes de existir a palavra, no ano de 1670 Molière mostrou um snob de corpo inteiro. Fez isso na peça teatral O Burguês Fidalgo(1), que se desenvolve em torno de monsieur Jourdain, filho de um plebeu, mercador de tecidos, porém extremamente ambicioso. Por isso mesmo, se esforça para ser aceito como fidalgo e adentrar na aristocracia. Com esse propósito, começou encomendando roupas suntuosas a um alfaiate.

Pois bem, lá na oficina é atendido pelo auxiliar que, ao tomar suas medidas, o trata ironicamente como Vossa Excelência. Porém, sem notar que era puro fingimento, Jourdain se transfigura diante de tantas lisonjas que lhe são dirigidas. Numa segunda etapa do seu projeto, depois de bem vestido, se dedica a aprender algumas artes inerentes aos aristocratas: dança, música, esgrima e filosofia.

O Burguês Fidalgo dentro do seu invólucro.

No decorrer da encenação, quando outros personagens lhe dirigem deboches em série, a plateia ri sem parar. Isso se repete até o último quadro, quando em meio a uma profusão de salamaleques, há uma explosão de gargalhadas. Assim é que, ao mostrar que sempre falta autocrítica ao esnobe, a peça serve também como lição de psicologia.

A propósito, há outro ensinamento, porém vindo do abade de Jazente(2), que viveu em Portugal no século XVII. No seu Poema Heráldico, vai fundo nas raízes humanas e mostra que o esnobismo tem valor nenhum. Fala assim:

Qualquer homem como eu tem quatro avós,  
Esses quatro, por força, dezesseis,  
Sessenta e quatro a esses contareis,
Em só três gerações que expomos nós.  
Se um homem só dá tanto cabedal,
Dos ascendentes seus que farão mil?  
Uma província? Todo o Portugal?
Por essa conta, amigo ou nobre vil,
Sempre és parente do Marquês de Tal
E também do porteiro Afonso Gil.

NA INGLATERRA

Uma notável contribuição para delinear o esnobe surgiu na Inglaterra, no ano de 1750. É encontrada no poema “Snob versus Snip”(3), onde Snob é um sapateiro e Snip um alfaiate. Em tradução interpretativa, dizem alguns versos:

Snob sapateiro era orgulho da cidade,
Inveja e imitação dos rapazes;
As garotas nunca lhe faziam cara feia,
Por isso esteve com a donzela Nancy. 

Até aspirou o perfume dos seus lábios,
Que parecia até vir de manteiga firme. 
E disse o que outro não seria capaz,
Ao ver a pele macia sobre sua carne. 

Nancy era também amada por Snip,
Alfaiate que ousou e a atacou com beijos,
Tantos que que o aceitou como vencedor,
Esse Snip, o sortudo que com ela se casou.

Em resumo, o texto mostra a disputa entre dois “sem nobreza”, Snob e Snip, ambos querendo conquistar Nancy. Porém, como não surtiram efeito as estratégias primeiro, Snip acabou por ganhar a parada. Sabe-se que, devido à repercussão do poema, em 1796 a palavra snob passou a ser usada como gíria na Universidade de Cambridge. Mais tarde, a partir de 1831, propagou-se para rotular pessoas comuns desejosas de aparecer a todo custo.

Esnobe atordoado aguardando a carruagem.

Entre as tentativas de explicar a palavra, há uma dizendo que Snob ou S’Nob seria uma redução de sine nobilitate, em latim. Por outro lado, é sugestiva a analogia com isn’t noble – que quer dizer não é nobre, em inglês – soando como snob. Foi o escritor inglês William Thackeray(4), no seu livro “The Book of Snobs”, de 1848, quem efetivamente propagou a palavra. No último capítulo, diz:

[…] Agora, a curiosidade pública está desperta para os snobs! Pois a palavra snob conquistou seu direito de participar do vocabulário das pessoas corretas. Por outro lado, sua completa definição pode ser impossível. Mas, pelo menos, podemos definir o espírito, o humor ou o charlatanismo – ou seria falsidade? – do que ela representa. Apesar de tudo, todos sabem do que se trata.

Algumas semanas atrás, vivi um momento feliz ao lado de uma jovem senhora. Em torno de uma mesa, estava o pobre Jawkins discursando de maneira ridícula e pretensiosa. Então, comecei a traçar sobre a imaculada toalha de u’a mesa, os contornos de duas letras [S … B], ao mesmo tempo chamando a atenção do nosso vizinho.

Então, um sorriso tocou os lábios dessa jovem, uma vez que ela compreendeu imediatamente. Seu raciocínio preencheu o vazio que havia entre os dois rabiscos. Entretanto, com uma reserva cautelosa, o seu olhar de aprovação confirmou o que vinha de sua mente, Jawkins era de fato um esnobe. Mas, por outro lado, não é tão fácil definir o que essas mulheres possam retirar de uma palavra.

Quanto a você, caro leitor, se é capaz de sentir uma graça picante a se refletir nos lábios, quando desse monossílabo escapa, tenho certeza de que também não ficaria sério. […]

“- Oh, Mr. Snob! Parece estar tristemente satírico!” – Book of Snobs //  W. Thackeray.

NA FRANÇA

Numa tradução francesa(5) do The Book of Snobs (c. 1860), por Georges Guiffrey(6), há uma introdução nesses termos:

“Mas, primeiro, o que é um snob? Se deseja saber, não será no dicionário porque a palavra ainda não recebeu seu passaporte acadêmico. Apesar disso, nada é mais comum que aquela “coisa”. Em síntese, aqui está o que constitui o snob. Abarca um pouco de todo o ridículo da natureza humana ao qual se misturam alguns grãos de estupidez, muita fanfarronice, uma certa dose de trivialidade e pretensão, com o tempero da grossura e mesquinhez no paladar. Sobremaneira, nele se nota completa ausência daquilo que é belo, nobre e distinto. São esses os ingredientes que faz um esnobe perfeito. Então, como vemos, é quando a grossura chega à sua extrema expressão na mente e no corpo.

Além disso, os snobs não têm distinção de sexo, são de todos os tipos: eles não têm pátria, são cidadãos do mundo. Circulam há muito tempo em todos os patamares da escala social. São despejados nas ruas, mas insistem em voltar para os salões. Se quiser conhecer um snob, olhe ao seu redor. Porém, tome cuidado, porque os olhos do seu próximo podem lhe servir de espelho, como diz Fígaro(7), e para que nele não tenha o dissabor de enxergar um snob onde você menos espera.

Entretanto, até agora, os snobs não receberam um nome que os abranja totalmente, mas isso não afetou muito sua quantidade e existência. Por ouro lado, pela considerável posição que ocupam no mundo, é nossa obrigação conhecer suas características para cumprimentá-los quando os encontrar. O senhor Thackeray, romancista espirituoso da língua inglesa, já assumiu a responsabilidade de esclarecer sobre essa figura. 

Diz ele que, na Grã-Bretanha, os snobs são praticamente do mesmo tipo, em todos os lugares, exceto por algumas diferenças no código de vestimenta e nas cores favoritas. Ainda falta aparecer um colorista inteligente para pintar os snobs franceses. De qualquer maneira, os snobs ingleses servirão para nos dar uma ideia geral da espécie.” 

Casal esnobando e velha em preparo para esnobar (em The Book of Snobs).

Como se vê, foi na Inglaterra que se firmou a ideia de que ser Snob é uma bobagem. Porém, ela foi redesenhada com mais ironia na França e, de lá, transportada para Brasil. Na língua portuguesa, o personagem foi rebatizado como esnobe. Ainda na França, surgiu uma variação feminina, a snobinette, garota descontraída e habituée* dos ambientes chiques. E havia também outra, a snobinette d’amour. Nesse caso, o “d’amour” – do amor – é adjetivo que se encaixa em umas garotas para lá de descontraídas. — * Frequentadora assídua.

DO LADO DE CÁ

No Brasil, usaram as artes de enganar para virar a palavra snob pelo avesso. Por isso mesmo, tem servido para rotular coisas supostamente especiais e sofisticadas. É fácil conferir, basta dar uma espiadela pelas cidades e pelos campos, onde há snobs para todos os gostos. Ou seja, enorme variedade de produtos com a marca snob.

“Snobinette d’Amour” se aprontando para uma noite de esnobações e prazeres.

Ainda em Paris, criaram um sinônimo na medida, para definir brasileiros deslumbrados. Então, passaram a dizer rastaquouère, traduzido em português como rastaquera.

E não parou por aí, em 1866, o compositor Jaques Offenbach(8) entrou na onda com a ópera bufa La Vie Parisiene, cuja estreia ocorreu no Palais-Royal. No quadro Le Rondeau du Brésilien o público conheceu o comportamento do rastaquouère, depois reinterpretado em outras peças. Uma cançoneta, de 1884, é exemplo perfeito:

[…] Zou é um galante rastaquera,
Um brasileiro inflamável,
Levando vida aventurosa,
No mundo parisiense,
Zou está em todas 5 o’cloques,
Zou tem um alfaiate muito chique, […]
Zou tem diamantes, pérolas, berloques,
Finalmente Zou, um homem chique!
[…]
Aqui, Zou! Verdadeiro rastaquera!

Zou rastatá, Zou rastaquera.
Olha ele! […](9)

Porém, de modo algum, os brasileiros se abalaram com a zombaria. No ensolarado Brasil e sabendo todos que o bom-humor prolonga a vida, a brincadeira foi muito bem recebida. E, para que não pairem dúvidas, vamos a uma divertida definição de Millôr Fernandes(10): “Esnobar é exigir café fervendo e deixar esfriar”.

Finalmente, clique e conheça um rondeau do rastaquouère:

Je suis Brésilien, j’ai de l’or,| Sou brasileiro, eu tenho ouro,
Et j’arrive de Rio-Janeire | E estou vindo do Rio-Janeiro
Plus riche aujourd’hui que naguère,| Mais rico hoje do que antes |
Paris, je te reviens encor! | Paris, a ti voltarei outra vez! — Etc.

——

Texto, tradução e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

——

(1) O Burguês Fidalgo – “Le Bourgeois gentilhomme”: comédia em forma de balé, com diálogo falado, música e dança. Estreia em  14.10.1670, na presença do rei Luís XIV e sua corte.

(2) VASCONCELLOS, Paulino Antônio Cabral de – (Amarante, *06.05.1719 / †20.11.1789), poeta português, conhecido como Abade de Jazente.

(3) “Snob Versus Snip” – em “The Universal Songster”, London, 1825, vol. 1, p. 305.

(4) THACKERAY, William Makepeace – (Calcutá, *18.07.1811 / Londres, †24.12. 1863). Romancista.

(5) “Le livre des Snobs” – Librarie Hachette, c. 1860. / Tradução francesa.

(6) GUIFFREY, Georges-Maurice – (Paris, *16.12. 1827 / Gap, França, †12.09.1887). Literato e politico francês.

(7) Fígaro, o barbeiro – Personagem da comédia “Le Barbier de Séville”, do dramaturgo francês Pierre Beaumarchais.

(8) OFFENBACH, Jacques – (Colônia, *20.06.1819 / Paris, †05.10.1880) Compositor e violoncelista.

(9) “Le Vrai Rastaquouère”, por Paulus / música de Lamart, Paris, 1894.

(10) FERNANDES, Millôr Viola – (Rio de Janeiro, *16.08.1923 / Rio de janeiro, †27.03.2012) Desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, poeta, tradutor e jornalista. Publicou pela primeira vez na revista O Cruzeiro.

8 Comentários »

  1. Eduardo, longe de mim os esnobes, e Deus me ajude a não ser um deles. Neste mundo em que vivemos, o olhar do outro tem tanta importância que, com muita frequência, esquecemo-nos de nós mesmos e passamos a vida representando um papel que só nos cansa e nos torna ridículos diante daqueles que têm um pouco mais de lucidez.
    No Brasil, como você bem observou o esnobe se tornou esnobe, modelo de vida para muitos. Inverteram, mas, com essa zombaria, tiraram um pouco da carga negativa que a palavra “esnobe” carrega. Quando a riqueza vem sem a cultura ou a cultura, sem a riqueza, há o ridículo ou a frustração. Essa última frase é só para provocar, nem sei se é verdadeira.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 01/11/2019 @ 11:08 am | Responder

    • Pedro:
      Entendo que a palavra é auxiliar dos nossos sentidos. Sempre que quero saber, procuro perguntar à palavra, porque ela sempre tem algo a dizer.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/11/2019 @ 2:30 pm | Responder

  2. Eduardo
    Que delícia seu curso de snobismo! Por aqui, lembra da Socila que ensinava boas maneiras às mulheres que não estavam à altura do Hugh Society?
    Um abraço
    Vania

    Comentário por Vania Perazzo Barbosa Hlebarova — 03/11/2019 @ 6:12 pm | Responder

    • Vania:
      Aqui na minha Belo Horizonte, conheço a senhora que trouxe a Socila para a cidade. Ela não é esnobe, muito antes pelo contrário. Por isso, creio que não deve levar minha “aula” ao pé da letra.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/11/2019 @ 7:56 pm | Responder

  3. Uma aula muito interessante!

    Comentário por Vanda Souto — 04/11/2019 @ 7:36 pm | Responder

    • Vanda:
      Quando me deparei com o tema, não imaginava a extensão da história do esnobe. Aprendi demais com essa pesquisa!
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo

      Comentário por sumidoiro — 04/11/2019 @ 8:07 pm | Responder

  4. E aqui vejo o verbo esnobar. Fulano deu a maior esnobada, que seria como demonstrar superioridade.

    Comentário por sertaneja — 25/01/2021 @ 10:23 pm | Responder

    • Sertaneja:
      É isso mesmo, os fatos históricos confirmam como nasceu a palavra.

      Comentário por sumidoiro — 25/01/2021 @ 11:08 pm | Responder


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