Sumidoiro's Blog

01/12/2019

OLHA A TRAPIZONGA!

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:46 am

♦ Correndo atrás da palavra

Para quem ainda não sabe, aqui está a revelação de uma coisa outrora comum no Brasil. Às vezes pode ser desordem, confusão, mixórdia ou geringonça. Porém, não é só assim, vai muito além.

Nos primórdios do desenvolvimento agrícola do país e com o intuito de otimizar a produção, introduziram u’a máquina para socar. Nesse meio-tempo, como consideravam sua aparência e funcionamento inusitados, lhe atribuíram o nome trapizonga. Depois, em linguajar mais descontraído, o mesmo termo serviu para dizer de tudo que causasse espanto.

Pilotando uma trapizonga hilária.

Para começar, é preciso dizer que, até hoje, tal como nas sociedades primitivas, se trituram grãos com o auxílio das mãos. Fazem isso utilizando u’a sobre a outra, palavra que significa pedra, e é dela que vem moinho. Outro processo é com o recurso de um cocho ou almofariz, para dentro dele pilar* – o mesmo que socar –, ou seja, batendo com o pilão. — * Pilar, verbo.

——

      Antes de chegar à trapizonga, vamos passar pelo seu parente denominado monjolo. Enquanto descansa, na colher recebe água… joga fora… e bate, e repete, continuamente. Mas quem observa sua lerdeza ritmada, sente até preguiça. Para se ter ideia, há uma descrição do viajante francês Auguste Saint-Hilaire(1) de quando, no inicio do século XIX, se deparou com o aparato em Juiz de Fora (MG). Encantado, o descreveu: 

“O monjolo, que também se chama preguiça, […] é um aparelho notável pela sua simplicidade:

Apoiada numa peça de madeira vertical e fixa, é colocada, à maneira de uma gangorra, outra peça de madeira movível e retilínea. Esta segunda é escavada numa das suas extremidades, tal como uma larga colher e, na outra ponta, é acrescentado um pilão bem resistente.

A máquina fica instalada sempre […] debaixo de uma pequena queda d’água. O líquido, ao cair […] naquela colher de um lado da viga oscilante, a faz se inclinar para esse mesmo lado, enquanto que, na extremidade oposta, o forte pilão, instalado na parte inferior da peça, vai subindo descrevendo um arco de círculo […]

Então, a extremidade escavada se inclina, a água escoa […] e o peso do pilão sobrepuja o da colher, toda vez que ela se esvazia, a máquina range, e o pilão cai pesadamente num cocho onde fica depositado o grão.” 

Poema por Raul Bopp: “Fazenda velha. Noite e dia Bate-Pilão […] Relógio triste o da fazenda…” 

Quanto à trapizonga, trata-se de aperfeiçoamento do monjolo. Melhor explicando, u’a máquina de múltiplos pilões, contudo impulsionada de outra maneira, por uma roda d’água. Não se sabe em que lugar do mundo bateram pela primeira vez. Porém, tudo indica, ambos equipamentos vieram do Extremo Oriente, trazidos para o Brasil pelos colonizadores portugueses. Como se sabe, desde 1542 eles já frequentavam as costas orientais da China.

Nesse sentido, há elementos para conhecer os ancestrais de ambos socadores, tal como lá eram utilizados. Algumas referências estão no Tratado da Agricultura(2), do chinês Wang Zhen, publicado em 1313, onde descreve uma série de aparelhos movidos a água. No Brasil antigo, a força hidráulica foi também muito utilizada, uma vez que podia tornar mais eficiente o processo agrícola. Eis que, no inventário(3) de Caetana do Rosário, falecida em 18.02.1773, constam os seguintes bens:

“… Fazenda na Serra de Camapuã com morada de casas de sobrado, cobertas de telhas, paiol, engenho de fazer farinha com 16 mãos de pilão, forno de cobre e dois moinhos, (uma) trapizonga da mamona […] Uma sesmaria com matos virges e capoeiras […] 1.750 alqueires de milho empaiolado*, 72 alqueires de feijão e 50 alqueires de mamona(4). — * Guardado em paiol.

Por outro lado, um anúncio(5) publicado na imprensa do Rio de Janeiro, em 1819, assim diz:

“Vende-se a fazenda de Matto Grosso, em serra acima, […] com fabrica de fazer assucar e agoardente, com todos os seus pertences e 2 munjolos de socar, e casa com moinho, e tudo moe com agoa, com casa cobertas de telha, e casa de farinha […] senzalas de escravos cobertas de palha*, 3 paióes de guardar milho, muita planta de cana […] muitos arvoredos de frutos, e 2.030 pés de café, quem quiser comprar dirija-se a Praia dos Mineiros […] a falar com Manoel Ferreira do Nascimento […] — * Palhoça (!).

Trapizonga de socar mamona, com sete pilões (Cambuquira, MG).

Pois bem, tal e qual o monjolo, a trapizonga trabalha sem parar, mas soca alternadamente seus pilões. Tanto um quanto outro tem sua musicalidade – ou seria algazarra? –, mas soam de tal maneira que reverberam em ritornelos* no pensamento. Além do mais, de tão provocativa que é a trapizonga, seu nome tem servido também para tratar de um monte de coisas, sejam elas materiais ou mesmo ideias. — * Ritornelo: refrão; repetição mais ou menos regular.

Assim é que, outro dia, uma pessoa trouxe o termo à baila, ao tratar de regulamentos que se refletem na prática política e jurídica. Com perspicácia, afirmou:

“São espantosas leis que regem Pindorama*, mais parecem uma trapizonga. Tanto é que, em face a um delito, podem servir para penalizar a vítima e livrar o criminoso, dependendo do estado de espírito do julgador.”* Nome que os indígenas atribuíam ao Brasil, antes da descoberta por Pedro Álvares Cabral.

De outra feita e com muita propriedade, um camponês disse assim:

“Aquele sujeito construiu uma trapizonga, quero dizer, uma buzuleta* que tem o formato de uma pipa*.” — * Buzuleta: coisa complicada, esquisita, fora do comum. /  ** Pipa de empinar ou papagaio, dependendo da região do país.

Aeroburro, a trapizonga voadora na revista O Tico-Tico (d’apres Storni, 1911).

Há mais outra a contar:

Em junho de 1904, na cidade de Curvelo (MG), houve a inauguração do trecho da estrada de Ferro Central do Brasil que atingira aquele ponto. Dias depois, um matuto que vivia nos arredores, chegou lá montado num burro. Entretanto, ao ver o trem de ferro com seus vagões chegando à plataforma, apitando e fazendo um barulhão, ficou embasbacado. Daí, falou consigo mesmo: “- Creindospadi! Não entro nessa trapizonga nem amarrado!”

Contudo, passados alguns dias e aconselhado por um amigo, admitiu que deveria experimentar tal novidade. De trem sua viagem seria mais rápida e confortável. Assim, com esse pensamento, decidiu voltar a Curvelo para fazer uma experiência, evidentemente montado no burro. Quando ali chegou, adquiriu uma passagem para o trem de carga e, em seguida, se aprumou no vagão montado no animal. Daí, aguardando a partida, permaneceu firme nos arreios. Porém, de repente, ao perceber a cena inusitada, o agente da estação o interpelou aos gritos: “- Ei, você aí! Não vai descer?”

Vai daí que, renegando o alerta, o matuto de pronto deu o troco: “- Saio não, sô! Amigo meu não viaja sozinho nesse trem doido.”

Pois bem, no estado de Minas Gerais,trem” pode servir como sinônimo de qualquer coisa e, dentre elas, mas com uma pitada de demérito, trapizonga. Em resumo, por mais que se queira, não há como levar muito a sério essas tais de trapizongas

Zé Macaco tenta vender uma trapizonga, a bota de sete léguas (O Tico-Tico, 1946, ed. 1923).

Todavia, para quem ainda não teve o prazer de conhecer, seja monjolo ou trapizonga, vale a pena uma visita, lá em meio ao turbilhão das águas!

Pesquisa, tradução, texto e arte de Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

——

(1) SAINT-HILAIRE, Auguste – “Voyage dans les Provinces de Rio de Janeiro et Minas Geraes”, 1º volume, Paris, 1830, p.106/107.

(2) Fontes || • China Informations [site]: “NONG SHU” (Tratado da Agricultura), de Wang Zhen. → O livro se divide em três partes: a primeira trata de diversos aspectos da agricultura em geral; a segunda da cultura de diferentes cereais, frutas, legumes, bambu e árvores; a terceira e parte principal, mostra uma coleção de instrumentos agrícolas e outros mais genéricos. Contém mais de 270 ilustrações. • TROMBERT, Eric – “Un moulin chinois du XIIe siècle”, em Arts Asiatiques, vol. 51, 1996, p. 81 a 95.

(3) Inventário de Caetana do Rosário (falecimento: 18.02.1773), natural do Porto (Portugal). Residente na Freguesia de Congonhas do Campo (MG), em uma fazenda ao pé da serra de Camapuã, juntamente com seu marido João Pereira Caixeta (inventariante). Data do inventário: 27.07.1773. — Citação: “Foi casada somente com ele, inventariante, de cujo matrimonio ficaram 6 filhos machos (sic) e duas femeas (sic) …” / Fonte: IPHAN – São João Del Rei (MG), ano 1773, cx. 371.

(4) Nome mamoneira / mamona – Origem em mumono (denominação do fruto em quimbundo), devido à semelhança com as folhas do pé de mamão. / Das sementes se extrai óleo combustível e lubrificante, agente purgativo (óleo de rícino), e adubo (torta de mamona).

(5) Fonte: “Gazeta do Rio de Janeiro”, 02.01.1819.

8 Comentários »

  1. Eduardo, li seu post.
    Muito bom.
    Marilda

    Comentário por Maria Marilda — 01/12/2019 @ 9:08 am | Responder

    • Marilda:
      Fico feliz com sua opinião.
      Muito obrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/12/2019 @ 2:14 pm | Responder

  2. Uma boa aventura no “léxico”, Eduardo! Trapizonga lembra a mixórdia de trem, choldra, traste, badulaque e geringonça abrç Pyramo

    Comentário por Celso Pyramo — 01/12/2019 @ 2:30 pm | Responder

    • Celso:
      Vamos reviver a trapizonga. Faz falta sua companhia.
      Muito obrigado Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/12/2019 @ 2:16 pm | Responder

  3. Eduardo, penso que trapizonga é uma boa palavra para representar o que andamos vivendo na atualidade: confusão, desordem, geringonça… Basta a frase, tirada de seu texto, para justificar o que digo: “São espantosas leis que regem Pindorama, mais parecem uma trapizonga. Tanto é que, em face a um delito, podem servir para penalizar a vítima e livrar o criminoso, dependendo do estado de espírito do julgador.” Há, no entanto, uma lição a aprender: o barulho monótono, vagaroso de uma trapizonga pode levar-nos a refletir acerca de tudo isso e a encontrar novas maneiras de viver.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 01/12/2019 @ 3:00 pm | Responder

    • Pedro:
      Concordo inteiramente com suas palavras. Quanto à trapizonga da justiça, creio que a inspiração me veio do que sinto no dia a dia. Tenho ficado atônito com o funcionamento dessa nossa máquina que gira ao contrário.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/12/2019 @ 4:25 pm | Responder

    • Realmente, trapizonga é uma boa palavra para definir nosso judiciário, que faz e desfaz, sempre com a costumeira pompa e circunstância dos “nossos” doutos operadores do direito (com minúsculas mesmo).

      Comentário por Tarcísio Americano Barcelos — 03/12/2019 @ 2:55 pm | Responder

      • Tarcísio:
        É bom saber que não estou sozinho no meu modo de sentir o Brasil.
        Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

        Comentário por sumidoiro — 03/12/2019 @ 4:11 pm


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: