Sumidoiro's Blog

01/03/2020

COMIGO MESMO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:27 am

♦ Na minha presença.

Post - Farmácia medievalAtendimento numa farmácia medieval.

      Como de hábito, estive a me reunir com o amigo Leonel Vince, um autêntico espiritualista. No bar Lua Cheia é onde sempre estamos a trocar ideias e eu a lhe pedir conselhos. Volta e meia faço isso, quando me sinto inseguro com alguma coisa.

Pois outro dia, me senti aflito com a enormidade de remédios que estava a tomar e sem os resultados esperados. Já havia perdido a conta das repetidas dores de cabeça e nas juntas, e um mal-estar generalizado. Já trocara, inúmeras vezes, de médicos e medicações, mas sem sucesso.

Tomado por esses desconfortos e quando externei meus sofrimentos ao Leonel, fui aconselhado a procurar o doutor Amin. Na sua opinião, estaria muito bem qualificado para resolver definitivamente os meus problemas, uma vez que, além de médico, dominava a filosofia. Vai daí que, para que eu chegasse até ele, me repassou o endereço do consultório. Marquei hora e, no momento aprazado, ao nos vermos frente a frente, fui tomado de surpresa, pois ele me disse:

“- Sou libanês, como você pode deduzir pelo meu nome, formado em medicina e filosofia, em outras eras, aqui e alhures. Não precisa me tratar por doutor, diga apenas Amin Mesmo. E não se assuste, sou um espírito incorporado em você mesmo.”

Na sequência, dando início à consulta propriamente dita, o doutor investigou meu corpo de ponta a ponta, enquanto eu esperava otimista o diagnóstico. Até que, não tardou, pude ouvir as primeiras palavras sobre o exame. Ou seja, eu falando sobre mim mesmo, na minha presença. Nesse momento, ele se manifestou, ou seria nos manifestamos? Entenda como quiser:

“- Meu caro paciente* – disse –, vou começar falando como filósofo. Tenho a convicção de que somos perecíveis, como todo mundo. De uma hora para outra, com dores ou sem dores, qualquer um de nós pode passar desta para melhor, ou para pior, dependendo de cada um.” — * Do latim patientem, aquele que sofre, que padece.

Eu já sabia, mas tinha me esquecido desses detalhes. Então, numa segunda etapa, falou mais como médico e revelou:

“- Nunca espere resultados milagrosos dos fármacos. Você sabe o que são, não é? Se não sabe, pergunte a uma enciclopédia.”

E ainda acrescentou:

“- Desculpe-me a franqueza, mas sou assim mesmo. Você tem vivido num tremendo quiprocó. Saia logo desse embaraço! Pare com essa “remedama*”!” — * Remédios em exagero, na fala popular.

Realmente, a consulta mexeu com minha caixola, digo, a cabeça e os meus brios. Sentindo-me mais aliviado, descartei a ideia da eternidade terrena. E mais, quando me despedi do doutor Amin Mesmo, tratei de esclarecer, por conta própria (!), sobre o que seria esse tal de quiproquó, bem como os fármacos. / — Assinado, Eu ou A. M.

••••••

Farmácia medieval e φαρμακείο (farmácia) na Grécia atual.

PHARMAKON / FÁRMACO

A palavra fármaco, tomada na sua origem, pode significar tanto veneno quanto remédio. É derivada do grego pharmakon* (φάρμακον), termo que nomeia aquilo que pode remover impurezas.(1)  * Latim: pharmaco. / Farmácia: grego, φαρμακείο (pharmakeia).

Na filosofia, tem três significados, remédio, veneno e bode expiatório. Nos dois primeiros sentidos, refere-se aos termos usuais da farmacologia e toxicologia; no terceiro, refere-se ao ritual do sacrifício humano. Na Bíblia, o bode expiatório era o animal – um inocente –, no qual se despejavam os pecados para que fosse esparramá-los no deserto.

Bebida em “O trinfo de Baco”, por Diego Velazquez. Santo remédio ou veneno?

Nas artes, de modo geral, o pharmaco se desdobrou em múltiplos e ambíguos significados. Isto se vê na literatura, na pintura, no teatro, na música, etc. e tal. Pode representar tanto o belo quanto o feio, o bom ou o ruim, o certo ou o errado, e assim por diante. Ou seja, o remédio ou o veneno, ou ambos ao mesmo tempo.

←  O bode que remedia os pecados.

Por sua vez, o filósofo grego Platão(*) disse que a linguagem é um pharmaco, desde que pode ser um remédio para o conhecimento, porém de outra maneira pode ser um veneno. Nos diais atuais, seu pensamento está cintilante quando se vê, entremeio às gentilezas, a linguagem venenosa disseminada em todos os ambientes.  * Platão: (*428 ou 427 a.C. / †348 ou 347 a. C.)

Ainda na Grécia, havia o costume de se administrar um pharmaco. Recebiam-no algumas pessoas escolhidas entre a população, para que expurgassem os crimes e os pecados coletivos. Esses eram banidos da sociedade, perdiam a cidadania e nunca podiam retornar ao seu lugar.

Um nome afim a pharmaco e proveniente de Atenas, é o ostracismus, apropriado para lavrar sentenças. Se um cidadão tivesse seu poder ou mérito colocado sob suspeição, podia ser condenado ao ostracismo(2) . Nesses casos, o indivíduo era banido por dez anos do convívio social. Assim, o primeiro ateniense a ser condenado ao ostracismo foi o genial Hiparco*, parente do tirano Pisístrato. A penalidade teve origem no governo desse segundo. A palavra ostracismo deriva do grego οστρα (ostra) e Ὀστραϰισμὸς / ostrakismos. Isso porque os sufrágios dos cidadãos juízes eram anotados em ostras marinhas.  * Hiparco: astrônomo, construtor de máquinas, cartógrafo e matemático (* 190 a.C. / †120 a.C.).

Em Siracusa*, também na Grécia antiga, havia o petalismo**, que condenava a um exílio de cinco anos. Análogo ao ostracismo, era aplicado aos cidadãos perturbadores da liberdade pública. Tratava-se de uma instituição mais rigorosa que o ostracismo, desde que os cidadãos proeminentes de Siracusa podiam banir uns aos outros. A penalidade, petalismo – de πέταλον (pétala / folha) –, tinha esse nome porque era escrita em uma folha de oliveira.(3)  * Hoje, Siracusa pertence à Sicília, Itália. 

Quid pro quo nas artes: rei Rodolfo II, como se fosse o deus das quatro estações (4)

QUID PRO QUO / QUIPROCÓ

No início do século XVI, a locução latina quid pro quo designava algo obtido de um farmacêutico, quando havia a substituição de uma fórmula por outra. No latim, ao pé da letra, quid pro quo significa uma coisa pela outra. Com o passar do tempo, adquiriu mais um sentido, o de confusão. Desse modo, passou a se manifestar nas artes, na filosofia, nas relações humanas, etcétera e tal. E, atualmente, até nos contextos legais.

Cabe lembrar que, há algum tempo nos USA, a expressão tem a ver com algo que seja de interesse público ou nos contextos comerciais. Nesses casos, quando se troca um bem ou serviço por outro de igual ou semelhante valor. Mas também é usada nos contextos jurídicos. Por exemplo, quando um procurador faz uso do quid pro quo para colher informações de alguns criminosos a troco de um benefício, mas visando esclarecer crimes de outros.

Também advogados costumam utilizar o quid pro quo, quando entre eles e seus clientes há a negociação de algumas vantagens em troca de outras. É uma espécie de toma lá da cá, mas não deve ser confundido com propina ou suborno.

Afinal de contas, fica nítido, a justiça brasileira não ficou para trás. Já existe na legislação um pharmaco similar ao quid pro quo: a “delação premiada”. Verdade é que, em todos os casos, com criatividade ou por imitação, sempre se encontram maneiras de remediar, aqui e acolá. Ainda bem!

Por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

——

(1) O bode expiatório – pharmaco – alimentou a literatura dos poetas gregos arcaicos. Tanto a arte de Esopo*, quanto a de Hipônax e de Tirteu, estão impregnadas dessa idéia do pharmaco. Trata-se de um fenômeno religioso e cultural que perpassou toda a cultura grega. / O bode expiatório, geralmente, era escolhido entre os rejeitados da sociedade. Podia ser um escravo, um homem ou uma mulher, muito feios ou aleijados. Em Atenas, havia pharmaco de todo tipo, para atender a todas as demandas. Naqueles rituais, de uma maneira simbólica ou de fato, havia uma morte purificadora das cidades. / * Esopo foi, pela tradição grega, um escravo. Contudo, é mais citado nas “Fábulas de Esopo” (a maioria com personagens antropomórficos, ou seja, animais). Outrossim, o autor era a própria personificação de um pharmaco, desde que era escravo, feio e falava mal. Ou seja, contrariava os ideais gregos da beleza, liberdade e do bom discurso.

(2) Ostracismo tem como sinônimos: banimento, desterro, exílio, exclusão, repúdio, etc. / As pessoas escolhidas para o ostracismo eram aquelas que, por seu suposto poder e brilho, pudessem tirar força da tirania. / Obra de Hiparco de Niceia: 1° catálogo de estrelas, divisão do dia em 24 horas, precessão dos equinócios, distinção entre ano sideral e ano trópico, maior precisão da distância terra-lua e da obliquidade da eclíptica, invenção da trigonometria e dos conceitos de longitude e latitude geográficas, inventor do teodolito.

(3) SAINT-EDME, Théodore Bourg – “Dictionnaire de la Pénalité dans toutes les parties du monde connu”, 1828, tome cinquième.

(4) Rodolfo II, imperador romano, amava ser retratado. O pintor Arcimboldi, recriou sua imagem como se fosse Vertumnus,  o deus das estações, melhor dizendo, da vida vegetal, crescimento e da variação das estações. / Giuseppe Arcimboldi (Milão, *05.04.1526 / Milão, †11.07.1593).

8 Comentários »

  1. Eduardo, este foi dos melhores posts que você escreveu. Valeu muito para minha compreensão, muito didático.
    “O senhor te abençoa e te guarda. Manifesta em ti sua Divina Graça e que tenha de ti misericórdia. O SENHOR TE ABENÇOA.”
    Marilda

    Comentário por Maria Marilda Pinto Correa — 02/03/2020 @ 5:35 pm | Responder

    • Marilda:
      Para mim, o hábito de ler e escrever faz com eu tenha melhor compreensão do mundo e das pessoas.
      Muito obrigado,
      Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/03/2020 @ 6:02 pm | Responder

  2. Eduardo, quando você se referiu a esse texto, pensei que seria apenas acerca da etimologia da palavra “quiproquó”, mas você foi muito além. A primeira parte do texto me fez lembrar de um escrito de Montaigne sobre a medicina que, na época, me fez pensar muito. Ninguém melhor do que cada um de nós para saber de nós mesmos, mas, para isso, é necessário, estar atento, observar continuamente o que somos e em que nos tornamos a partir de nossas atitudes, de nossas crenças, de nossa alimentação e do domínio que temos sobre nosso corpo. Alguém já disse (se não me engano, foi Rousseau) que o corpo, quando está bem, obedece e, quando está mal, comanda. O jogo que você faz com as palavras é brilhante! “Amim Mesmo” é genial!

    Comentário por Pedro Faria Borges — 03/03/2020 @ 11:33 am | Responder

    • Pedro:
      Como sempre e repetindo agora, seu comentário é uma extensão do que escrevo.
      Muito obrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/03/2020 @ 12:48 pm | Responder

  3. Saudações! Meu caro, como havíamos debatido, Pharmaco demais gera quiprocó…(risos). Boa noite e até amanhã.

    Comentário por Marcel Giuliano — 05/03/2020 @ 9:09 pm | Responder

    • Marcel:
      Tomemos nossos remédios, desde que não piorem nossas vidas tão passageiras.
      Muito obrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 05/03/2020 @ 10:13 pm | Responder

  4. Eduardo:
    A medicina evoluiu muito, mas continua tendo seus limites. Os episódios, ou melhor, as catástrofes mais recentes nesta área, para mencionar apenas duas, tais como o Alzheimer e agora o Coronavirus, estão aí como evidências.
    Dito isto, fico a pensar que, conquanto saibamos que esforços imensos estejam sendo feitos para debelar estas catástrofes desse nosso mundo, hoje muito mais do que globalizado, certamente que teremos espaço para o *Doutor Amin Mesmo*. Ou, então – e por que não? – até mesmo para *Idi Amin* mesmo”… Con mis saludos y mi fuerte abrazo desde mi bunker.

    Comentário por stevantoledo — 21/03/2020 @ 11:51 pm | Responder

    • Estevam:
      Tudo é limitado, não é?
      Muito abrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 22/03/2020 @ 2:53 pm | Responder


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