Sumidoiro's Blog

01/05/2020

BRAÇOS CRUZADOS

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:35 am

♦ Na história e na etimologia

Falando em greve, nos remetemos à antiga França. A viagem começa em um terreno aberto, junto à margem direita do rio Sena. É um logradouro de Paris onde se pisa na greve.

Na antiga grève, não valia cruzar os braços, muito antes pelo contrário.

Esse lugar ainda existe, evidentemente modificado, e nele está assentada a sede da municipalidade, uma imponente construção de três andares. Ao longo do tempo, o conjunto passou por ampliações e reformas. É muito frequentado, atrai multidões de turistas, não é um lugar qualquer e chamam-no Place de l’Hôtel de Ville (Praça da Prefeitura). Ademais, seja lá no edifício ou ao ar livre, sempre estão a ocorrer eventos de todos os gêneros, culturais, esportivos, lúdicos e políticos.

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      No começo do século XII, o espaço do qual falaremos abrigava o Marché de la Grève (Mercado da Greve), onde negociavam madeira, trigo, feno, vinho, etcétera e tal. A maioria dos produtos chegavam e saíam pelo rio Sena, logo ao lado. Ademais, por ser zona de comércio, era frequentado por pessoas à procura de trabalho, fosse como diaristas ou horistas. Nesse contexto, ficaram conhecidas como grévistes (grevistas), um significado quase oposto ao atual.

Praia marítima formada por areia e seixos rolados (grève). / Seixos rolados.

O termo grève, indica a etimologia, quer dizer terreno contínuo misturado com pedras miúdas e areia, ao longo do mar ou de um grande rio. Essa é uma definição do grande dicionário francês Littré. Com a explicação, entende-se que grève é “seixo rolado misturado com areia”, em tradução para o português. Assim sendo, no Marché de la Grève havia um piso com seixos e areia compactados sobre a terra. Esse pavimento se prolongava até  a margem do rio Sena.

A OCUPAÇÃO DO “MARCHÉ”

No ano de 1357, a prefeitura de Paris ali ocupou um modesto edifício, que foi sendo reconstruído a partir de 1533. Nesse segundo momento, a iniciativa se deveu aos prepostos* da confraria dos mercadores de Paris. Porém, por quase 200 anos e sob as ordens de diversos interessados, a ampliação prosseguiu por etapas, até o término em 1628. Assim mesmo, depois de pronta, entenderam que merecia mais reformas e acréscimos, e assim aconteceu. A praça do mercado havia também trocado de nome, ao passarem a dizer Place de la Grève (Praça da Greve). — * Prévôts des Marchands: no latim, praepositi mercatorum.

Marché de la Grève, em 1583.

Em diversas épocas, por determinação dos donos do poder – reis, nobres, eclesiásticos e políticos – o local foi utilizado para reuniões que atraíam grande público. Por exemplo: o anúncio do nascimento de um príncipe, uma vitória de repercussão nacional ou mesmo qualquer evento que despertasse as emoções populares. Infelizmente, serviu também como palco para a execução de autores de crimes graves. Eis os vários tipos de condenação a que eram submetidos:

– À forca, as pessoas comuns. – À decapitação, por machado ou espada, as pessoas de distinção. – À fogueira, os hereges, bruxas e bruxos. – À tortura na roda e depois prisão, aqueles que cometiam ofensas de lesa-majestade.

A primeira execução da qual se tem conhecimento foi a de Margeritte Porette, em 1310, condenada por heresia e queimada viva. Depois, veio a de Jeanne Daubenton, da seita dos turlupins*, submetida à mesma agonia, em 1372, bem como a feiticeira Catherine Deshayes, em 1680. Mais adiante, em 1721, foi a vez do famoso bandoleiro Cartouche(1), espancado e torturado na roda** até a morte. — * Turlupins: seita autodenominada Sociedade dos Pobres ou de Comunhão da Pobreza. / ** Aparato circular que servia para esticar o corpo do indivíduo.

Tortura e morte de Damiens na Place de Grève.

Na Place de Grève, ocorreu a execução de Robert-François Damiens(2), em 28.03.1757, condenado pela tentativa de assassinar o rei Louis XV. O procedimento ocorreu sob a forma de suplício, ou seja, além dos espancamentos, foram destruindo o homem lentamente. Pedaços do seu corpo eram retirados com uma pinça em brasa e, em seguida, queimavam a lesão com enxofre. Enquanto isso, obrigavam o supliciado a empunhar a faca com a qual tentou cometer o regicídio.

Ademais, de acordo com o ritual, onde já lhes faltavam as carnes foram derramando nos orifícios chumbo e cera – ambos derretidos –, óleo e resina ferventes. O pouco que sobrou de Damiens foi arrastado por quatro cavalos até uma fogueira e, quando tudo virou cinzas, as lançaram o resíduo ao vento. Com esses requintes de maldade, foi a última pessoa a ser executada na França.

Contudo, uma nova ferramenta surgiu para substituir as tradicionais técnicas de matar, ou seja, com a guilhotina. A primeira decapitação ocorreu na mesma Place de Grève, em 25.04.1792, quando deram fim ao ladrão contumaz Nicolas Jacques Pelletier. Meses antes*, para roubar 800 libras, ele atacara com vários golpes de faca um transeunte na rua Bourbon-Villeneuve, em Paris (hoje, trecho da rua  de Aboukir). — * Em 14.10.1791.

Execução na guilhotina da Place de Grève.

Tempos depois, ao chegar o ano de 1822, a Place de Grève foi aposentada como palco da morte. Os derradeiros espetáculos tiveram como personagens quatro sargentos – Bories, Goubin, Raoux e Pommier – em 21.09.1822, executados por terem se envolvido numa conspiração contra o monarca Louis XVIII.

Nos momentos finais, reunidos ao pé do cadafalso, os condenados se abraçaram. Raoux foi o primeiro a subir ao cadafalso e, quando o amarram no pranchão de madeira, ele gritou em voz alta: “Viva a liberdade!” As mesmas palavras repetiram Goubin e Pommier. Por sua vez, Bories, antes de submeter ao sacrifício, lançou palavras fortes à multidão:

“Saibam que é o sangue de seus filhos que derramamos hoje.”

A partir daí, o palco da morte foi transferido para outro logradouro, a cerca de 4km de distância. Como consequência, o ato entrou para a história carregado de simbolismo político. Nove anos depois, em 21.09.1831, aniversário da morte dos sargentos, ocorreu uma manifestação pública na Place de Grève, convocada por Lojas Maçônicas. Por volta de 4 horas da tarde, na mesma plataforma da guilhotina, foi assinada uma petição em prol da abolição da pena de morte. * “Rive Gauche”: Margem Esquerda.

Meses depois, fazendo a mesma reivindicação, a Sociedade dos Amigos do Povo apresentou uma ampla petição ao governo. Contudo, foram atendidos apenas em mínima parte, com a guilhotina sendo transferida para a Barrière Saint-Jacques. O primeiro executado no novo endereço foi um tal de Désandrieux, condenado pela tentativa de assassinato contra o senhor Aillaux, um homem de oitenta e quatro anos.

Morte na guilhotina da Barrière Saint-Jacques.

A primeira execução, no novo endereço, ocorreu em 03.02.1832, envergonhadamente. Sim, porque de uma maneira bastante secreta, distante das multidões. Quem deu uma ideia do acontecimento foi o escritor Victor Hugo que, na época tinha 30 anos de idade. A narrativa está no romance “Le dernier jour d’un condamné“. Usando a 3ª pessoa do plural, diz assim:

“Em Paris, estamos voltando ao tempo das execuções secretas. Como não ousamos mais decapitar na Place de Grève […] e como estamos com medo, e como somos covardes, eis o que fazemos. Recentemente, tiramos de Bicêtre* um homem condenado, um homem chamado Désandrieux, acreditamos.

Colocamos em uma espécie de cesto para ser arrastado sobre duas rodas, todo fechado, trancado com corrente e cadeado. Vigiado por um policial pela frente e outro por trás. Silenciosamente e sem multidão, deixamos o pacote na barreira deserta de Saint-Jacques. Chegando lá, eram oito horas da manhã e, no mesmo dia, uma guilhotina recém fabricada foi erguida. Como expectadores, uma dúzia de garotinhos trepados em montes de pedras ao redor da máquina inusitada.

Rapidamente, o homem foi retirado do cesto, sem lhe darem tempo para respirar. Furtivamente, astutamente, vergonhosamente, sua cabeça estava escondida. Isso chamam de ato público, solene de alta justiça. Zombaria vil!”. * “Bicêtre”: nome de um hospital prisão.

Sopa comunista: tradição operária de servir alimentação durante o estado de greve.

A NOVA GREVE

Nessa história da greve, surgiu outra componente, quando bem antes da Revolução Francesa*, começaram a formatar o que levou o nome de sindicalismo revolucionário, o qual vinha seguidamente colecionando estímulos. Um deles, a lei* de Le Chapelier(3) serviu de estopim para gerar revoltas entre comunidades profissionais, vários camponeses e trabalhadores de modo geral. Nesse sentido, a lei proibia que exercessem livremente suas atividades. — * Em 05.05.1789. / ** Em  14.06.1791.

Mais adiante, a lei Chapelier foi abolida, mas em dois tempos. Primeiro pela lei Ollivier, que aboliu o delito de coalizão*, em 1864. Depois, pela lei Waldeck-Rousseau* que legalizava os sindicatos, em 1884, de modo que esta serviu para estimular as reivindicações classistas. — * Pierre Marie René Ernest Waldeck-Rousseau, político francês.

Até que, em algum momento por volta de 1845 / 1850, chegou a vez da palavra greve adquirir um novo sentido, qual seja, o de se afastar do trabalho visando alguma melhoria. Para tanto, em inúmeras praças e por toda parte, os protestadores encontram lugares muito apropriados para suas ações. Por isso, não resta dúvida de que a Place de Grève é a mãe da palavra grève, com o significado de paralisação.

Na França, em 1891, com o reconhecimento das associações de trabalhadores permitiu-se reunir em praça pública, seja para reivindicar ou para protestar, sem necessidade de autorização do governo. Assim nasceram os movimentos sindicais pautados pela ideia de que qualquer ganho, afinal de contas, é obtido do estado.

Um fato importante é que, no limiar do século XX, e especialmente após a 1ª Guerra Mundial, houve forte politização da greve que, entre outras coisas, contribuiu para o nascimento do Partido Comunista Francês*. Os adeptos, como símbolo adotaram a bandeira vermelha. — * “Parti Communiste Français”: fundado em 1920.

1917, São Paulo: manifestação grevista com bandeiras negras, inspirada nos ideais anarquistas.  

A primeira greve geral (4) do Brasil, em 1917 – durante a 1ª Guerra Mundial –, foi liderada por imigrantes, principalmente italianos, mas devidamente amalgamada pelas ideias anarquistas, em voga tanto na Itália como na França. Como símbolo, os adeptos haviam adotado a bandeira negra instituída pelo anarquismo(*). Trata-se de um movimento político oriundo das lutas operárias que ocorreram na Europa, no final do século XIX. Quanto ao ideário, fora assimilado de Mikhail Bakunin, um teórico russo, que renegava fortemente qualquer religião. Uma frase revela seu pensamento:

“Todas as religiões, com seus deuses, semideuses, profetas, messias e santos, são resultado da fantasia e credulidade de homens que ainda não atingiram o total desenvolvimento e personalidade das suas capacidades intelectuais.”

Essas ideias ecoaram pelo mundo, uma vez que as relações entre sindicatos, empregadores e governo vinham se deteriorando desde o final do século XIX. Até que, impetuosamente, em junho de 1919, várias greves de metalúrgicos eclodiram na região de Paris. Os protestadores reivindicavam aumentos de salários, os quais estavam congelados desde 1914, embora a inflação estivesse em forte alta. Assim sendo, naquele momento, houve a união de anarquistas e comunistas, com o objetivo de derrubar o que lhes impunham os capitalistas.

——

Atualmente e muito bem fundamentado, Bernard Vivier (5) – diretor do Instituto Superior do Trabalho –, afirma que a França é o país mais grevista do mundo. Diz ele: “Somos um país que sempre teve uma cultura da greve como estágio impulsionador do progresso social.”

Texto, tradução e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

——

 (1) CARTOUCHE, Louis Dominique – (*1693 / †28.11.1721) Também conhecido como Bourguignon, Petit e Lamarre. Durante a regência de Philippe d’Orléans, causou pânico entre a população, principalmente a de Paris. Após sua execução, centenas de supostos cúmplices foram capturados.  Dentre eles, mais de setenta foram condenados à morte. Outros foram condenados  a trabalhos forçados nas galeras* (*navios mercantes), ao banimento* (*expatriação) ou à prisão.

(2) DAMIENS, Robert- François  – (*09.01.1715 / 28.03.1757) Francês, camponês.

(3) Lei de Le Chapelier – Autor: Issac René Guy le Chapelier. Aprovada no início da Revolução Francesa, em 14.06.1791, em defesa da livre empresa e da iniciativa privada, proibindo a união de camponeses, trabalhadores e as paralisações de suas funções. Estipulava vultosas multas em dinheiro e privação dos direitos de cidadania, podendo chegar até a pena de morte.

(4) Greve Geral no Brasil – Originada no Cotonifício Crespi, com a decisão de paralisar a produção em duas das fábricas, tomada pelas operárias tecelãs. Na pauta de reivindicações estava a abolição do trabalho noturno das mulheres, a proibição do trabalho de menores de 14 anos, etc. Logo em seguida, o movimento se estendeu para outras categorias da cidade e do país. Em São Paulo, foi mantido por 36 dias, apesar da forte repressão da Força Pública. / Cotoníficio Crespi: inaugurado em 1897, no bairro da Mooca; fundador Rodolfo Crespi.

(5) VIVIER, Bernard – Diretor do “Institut Supérieur du Travail”, organismo que, desde 1969, cuida de relações sociais e sindicais (França).

8 Comentários »

  1. Soberba postagem! Um cavalheiro de escol, o senhor! Abraços respeitosos.

    Comentário por Corintiano Voador — 01/05/2020 @ 2:59 pm | Responder

    • Corintiano:
      Muito obrigado pelo estímulo.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/05/2020 @ 4:19 pm | Responder

  2. Prezado Eduardo,
    Como as pessoas, as palavras têm vida e história. Algumas, mesmo contra o desejo de puristas, entraram para a nossa língua e tiveram momentos de glória. Uma dessas palavras, conforme brilhante pesquisa sua, é “greve”, que, em época de desemprego e pandemia, como todos nós, também se encontra em quarentena. Qual será seu futuro? Não sei nem me arrisco a dar palpites neste mundo de tantos especialistas. Observo e procuro aprender e, enquanto isso, vou me ilustrando com seus escritos. Obrigado, meu amigo!

    Comentário por Pedro Faria Borges — 02/05/2020 @ 11:14 am | Responder

    • Pedro:
      Sim, as palavras têm vida e são criaturas do homem. Portanto, é bom ter cautela com as palavras. Elas podem mostrar, camuflar e até mesmo confundir. Quer saber? Pergunte à palavra, mas não vale a pena tirar conclusões à primeira vista.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/05/2020 @ 5:04 pm | Responder

  3. Eduardo
    Puxa vida, eu que morei em Paris e passei por esses locais, agradeço que me ofereça a história completa – por vezes horrível – que eles encerram.

    Comentário por Vania — 29/05/2020 @ 7:21 am | Responder

    • Vania:
      Da última vez que estive em Paris, tive uma visão muito bonita do prédio do Hotel de Ville. Foi num fim de tarde ensolarado mas, eu também, sequer imaginei qual seria a importância do lugar.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 29/05/2020 @ 2:37 pm | Responder

  4. Agradeço pelo aprendizado principalmente sobre a origem da palavra greve. Muito interessante.

    Comentário por sertaneja — 04/12/2020 @ 2:03 pm | Responder

    • Olá Sertaneja:
      Pois é! Certo dia, coloquei meus pés na “Greve”, aquela praça de Paris, mas ainda não sabia da história do lugar, nem da palavra. Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/12/2020 @ 4:15 pm | Responder


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