Sumidoiro's Blog

01/06/2020

SEM SUBTERFÚGIOS

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:52 am

Palavras de Jorginho

Vista de Belo Horizonte, tomada do adro da capela de Nossa Senhora da Soledade.

Nasci em 23 de abril* e fui batizado na capela de Nossa Senhora da Soledade(1)situada no alto de uma serra de Sabará. A santa é também conhecida como Nossa Senhora das Dores. Nesse contexto, minha mamãe, devota da mãe do menino Jesus e de São Jorge, desejava que meu nome fosse exatamente Jorge de Jesus. — * Dia de São Jorge, aquele que matou o dragão.

Entretanto, no cartório, papai forçou que fosse Giorgio, apenas Giorgio, por esnobismo e incredulidade. Ainda fez mais, colou em mim um carroção de sobrenomes inventados. Na sua cabeça, havia a ideia de que tais nominativos abririam caminhos para glórias. Mais adiante, quando comecei a ter consciência de algumas coisas, cheguei a imaginar que fosse um príncipe. Pura inocência de minha parte.

Mas foi assim que percorri as várias estradas da vida, carregado de responsabilidades, uma vez que não poderia decepcionar papai. De fato, fiquei rico e, como consequência, tive a necessidade de assinar documentos de toda sorte. Com muita frequência, era obrigado a escrever o nome por completo, a tal ponto que sentia comichões no braço, no punho e nos dedos.

E não ficava só nisso, vez ou outra, o esforço redundava em falta de ar, dores no peito e pontadas no coração. Em meio a toda essa aflição e também devido ao avanço da idade, chegou o momento em que senti necessidade de procurar um cardiologista. Contudo o diagnóstico me surpreendeu, porque não foi encontrada qualquer alteração na minha saúde física. Mas saí do consultório com uma recomendação, a de que procurasse um psicólogo.

Na verdade, não levei o médico a sério, porém, passei a visitar mamãe com mais frequência. Comigo, ela sempre foi generosa em carinhos e me chamava de Jorginho. Nessa toada, toda vez que ficávamos juntos, desapareciam minhas angústias e dores. Naqueles momentos, de fato provisoriamente, me sentia curado de tudo. Mas a ânsia de crescer e de fazer dinheiro não me abandonava, e isso se prolongou durante décadas.

Até que, lá pelos meus cinquenta e tantos anos de idade, tive a sensação de que estaria a um passo da morte. Felizmente, a luz divina me iluminou e fui instado a procurar meu confessor. O nosso encontro foi frutuoso e a ele pude revelar minha vida de torturas. Resultou que, ao final da conversa, minha salvação foi anunciada nas palavras do padre amigo, foram incisivas e diretas:

“- Quer saber de uma coisa? Faça como muitos fizeram, tal como Antônio de Abreu Guimarães(2), conhece a vida dele? Está nos livros de história.”

A isso respondi:

“- Confessor, sempre fui pessoa de pouca leitura. Sei não!”

Ao que ele prontamente esclareceu:

“- Olha, foi um homem que começou do nada e amealhou uma fortuna inimaginável. Tornou-se proprietário da maior fazenda das Minas Gerais e passou por semelhantes desventuras existenciais, como você. Ao fim da vida, se salvou pela interferência do seu confessor, que lhe recomendou vender todos os seus bens, dedicar o dinheiro a obras de caridade e, em seguida, se internar num mosteiro. Faça o mesmo!”

O aviso me tocou fundo. Senti que, nas coisas materiais, havia me expandido além dos limites e que chegara a hora de encolher. Não tive alternativa, minhas dores estavam tão intensas que assumi o recado, somente falhei em procurar um mosteiro. Pois bem, antes de tudo, lhe pedi uma orientação relativa aos bens que estava disposto a vender e sobre as assinaturas nos documentos. Seria muito sofrido escrever meu nome completo, tantas as vezes como seriam necessárias. Mas, até para isso, meu conselheiro tinha a solução. Disse:

“- Seja mínimo, assine seu nome simplificado.”

Não entendi muito bem e voltei a perguntar:

“- Na minha sincera ignorância, devo fazer “rúbricas?”

Vai daí que ele respondeu, curto e grosso:

“- Não é “rúbrica”, é rubrica. Essa palavra vem de rubro, ou seja, vermelho. Melhor dizendo de terra rubra. Antigamente, entre outras coisas, servia para dizer de pequenas regras escritas em vermelho nos breviários(3).”

Assim sendo, imbuído de forte propósito, fui em frente e alcancei minha salvação lançando rubricas aos milhares. Contudo, sob a forma mais reduzida e despojada do meu nome, apenas Gio. E para manter a tradição, usei tinta vermelha.

Agora, nesse ponto da minha confissão, sem subterfúgios desejo revelar aos leitores:

“Eu era infeliz e não sabia.”

Atenciosamente, Gio.

P.S. – Alerto que, embora tenha adquirido o hábito de assinar em vermelho, não aderi ao comunismo. Apenas me tornei muito caridoso. Amém!

Manuscrito medieval: “Livro de Boas Maneiras”, mostrando duas linhas em rubrica.

Por Eduardo de Paula

——

(1) Capela de Nossa Senhora da Soledade, situada no Morro da Soledade (Sabará – Minas Gerais). Leia mais, clique: “No alto daquela serra.” / Nossa Senhora da Soledade, também chamada Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora da Agonia, etc. É sempre representada com uma expressão dolorida, contemplando o filho morto na cruz ou então com ele morto em seus braços. Dela nasceu a temática artística da Pietà. // Poema medieval da Pietà (1499) — “Stabat Mater dolorosa iuxta crucem lacrimosa dum pendebat Filius [De pé, a mãe dolorosa junto da cruz, lacrimosa, via o filho que pendia] / Cuius animam gementem contristatam et dolentem pertransivit gladius [Na sua alma agoniada enterrou-se a dura espada de uma antiga profecia] / O quam tristis et afflicta fuit illa benedicta Mater Unigeniti [Oh! Quão triste e quão aflita entre todas, Mãe bendita, que só tinha aquele Filho], etc.”

(2) GUIMARÃES, Antônio de Abreu ⌈imagem ao lado⌋ – (nascimento: final do Século XVIII / morte: início do século XIX). Ele próprio afirmou ser “natural da vila de Guimarães, solteiro, homem de negócio e que no “Brasil na menor idade, esperançado tão somente na providência do Altíssimo”, ou seja, em estado de pobreza. Proprietário da fazenda da Jaguara, latifúndio que se estendia da atual Matozinhos (MG) até as proximidades de Curvelo (MG)./ Leia mais, clique: “Promessa Furtada”.

(3) RUBRICA (verbete traduzido do dicionário francês LITTRÉ): • Terra vermelha usada por cirurgiões no passado para debelar sangramentos. • Espécie de giz vermelho que os carpinteiros esfregam numa corda, com a qual marcam o que deve ser cortado. / • Títulos dos livros de direito, civil e canônico, que antigamente costumavam ser escritos em vermelho. / • Na Igreja, os títulos e as regras, segundo as quais devem ser celebradas a liturgia e o ofício divino, em missais, rituais, breviários, etc., porque eram comumente escritos em letras vermelhas. Pequenas regras, geralmente impressas em vermelho no corpo do breviário, as quais ensinam o que dizer nas várias épocas do ano e a cada hora canônica. / • Por extensão: título e data que, nos jornais, indicam o local de onde vieram as notícias. • Coloquialmente, métodos, regras e práticas antigas.

7 Comentários »

  1. Seu texto me surpreendeu. Pensei que fosse ler, considerando o que você vinha comentando, o resultado de pesquisas sobre a cor vermelha. Parece-me que “Sem subterfúgios” é apenas um aperitivo do que você ainda tem na cartola. A surpresa foi ótima. Já lhe disse que, quando você mistura realidade e imaginação, seus textos ficam muito instigantes e nos prendem. Gostei da lição sobre a palavra rubrica, que grande parte acha que é “rúbrica”, talvez por analogia com outras palavras como “fábrica”, “rúcula”, “rústico”… Continuo na expectativa de mais coisas sobre o “vermelho”. Um grande abraço.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 01/06/2020 @ 5:21 pm | Responder

    • Pedro:
      Prefiro a imaginação à realidade. Já percebi que o dia-a-dia, sem imaginação, é muito chato. No atual momento, quando estamos cercados pelo Corona, procuro alívio na imaginação.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/06/2020 @ 7:19 pm | Responder

  2. Muito bom, Eduardo! Como sempre um esmero de texto!

    Comentário por João Vianna — 02/06/2020 @ 7:36 am | Responder

    • Olá João:
      Vamos em frente, driblando o Corona.
      Muito obrigado Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/06/2020 @ 9:31 am | Responder

  3. EDUARDO, muito interessante seu post. Está uma relíquia.
    Marilda

    Comentário por Marilda — 03/06/2020 @ 8:52 pm | Responder

    • Marilda:
      Que bom você ter gostado.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/06/2020 @ 6:15 pm | Responder

  4. Achei o texto. O link estava certo,mas eu não via os nomes dos textos ao lado. Obrigada. O texto é do jeito que gosto. Cheio de informações novas para mim, como a origem da palavras rubrica;. Olha, eu estou com problema parecido, mas por motivo oposto. Gio ficou só no material. E eu só no espiritual. Faz o mesmo mal. Faltando dinheiro…Chegando gastos inesperados… Meu corpo doi demais: fibromialgia. Já me foi recomendado uma psicologa. E até comecei, mas o SUS suspendeu o atendimento. E eu só posso ir pelo SUS.
    Há outros problemas de ordem familiar, mas muito pessoal para postar aqui. Fico so na parte da falta da grana porque é bem o oposto do Gio. Ele enriqueceu. por só pensar em enriquecer, não sabia compartilhar. E eu, mesmo na carência, continuo mantendo as doações que fazia antes. Sem me queixar. Gosto de compartilhar. Aprendi com meu pai que ter posses sem compartilhar não tem o menor valor. Por isso sua chácara era aberta para todos. Era um salão de festas gratuito para a cidade. O que será que um confessor me diria? Estou até pensando em procurar um. E estou falando sério.

    Comentário por sertaneja — 24/11/2020 @ 11:58 am | Responder


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