Sumidoiro's Blog

01/11/2020

NA PALMA DA MÃO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:32 am
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♦ O jogo voador

Para quem viaja a Paris, conhecer um edifício muito visitado é boa experiência. Chama-se Jeu de Paume, que se traduz como Jogo da Palma da Mão. Por trás desse nome, há uma pequena bola e uma longa história, que tem a ver com a criação do Jogo de Tênis.

Não há como viver sem bolas no ar.    

      Desde já, é preciso focar na bola, que é ainda mais antiga que a roda. Como brinquedo, vem do começo da história da humanidade, segundo achados arqueológicos. As primeiras e mais elaboradas foram feitas com pelos de animais, folhas ou fibras vegetais. Apesar da singeleza, esses objetos sempre têm provocado encantamento, ao rolar ou voar, sob o impulso das mãos ou dos pés.

Hoje em dia, dentre os jogos mais comuns de bola na mão, destacam-se o basquete, o boliche e a bocha. Com um lugar especial para o vôlei*, voador feito ele só! Em paralelo, vale lembrar daquela que vai ao ar com uma simples palmada, a peteca. Sua origem é brasileiríssima, visto que é invenção dos indígenas. A palavra vem do tupi pe’teca, que traduz a ideia de dar tapa, bofetada ou bater com a mão espalmada. — * Etimologia: Volátil – que voa, que tem a capacidade de voar; Voleibol – bola que voa.

← Jogando a Pila

SAÚDE E POPULARIDADE

No limiar da era cristã, o médico e filósofo Galeno(1), homem de múltiplas sabedorias, enalteceu as vantagens dos jogos de bola, seja com as mãos ou com os pés. Assegurava que os efeitos medicinais eram extraordinários. Eliminava os humores crassos*, diminuía o volume do ventre, adelgaçava o corpo, dava consistência às carnes e elasticidade ao sistema fibroso. — * Substâncias fluidas e agressivas contidas nos organismos vivos. 

Os jogos de bolas lançadas ao ar eram muito populares entre atenienses e espartanos. Em cada ginásio, havia uma sala apropriada para sua prática. No momento em que esses jogos foram assimilados pelos romanos, receberam o nome genérico de sphaeristica*, em latim. Augusto, fundador do Império Romano, também foi um adepto de tais práticas esportivas. Alexandre, o grande, tinha sempre em sua companhia o atleta Aristonicus de Caristus**, habilidoso jogador. Em sua homenagem, lhe concedeu a cidadania ateniense e mais uma estátua em praça pública. * Do grego: σφαῖρα (sphaira), que significa esfera ou bola. / ** Natural de Eubeia, Grécia.

Em certas ocasiões, o jogo da bola trazia um sentido comemorativo, noutras, servia para descarregar agonias. Catão, no dia em que foi reprovado no Senado, mesmo assim foi bater a mão na bola no Campus Martius*. Os romanos abastados, antes de se dirigirem aos banhos públicos, praticavam essa sphaeristica. Para tanto, havia um recinto apropriado, conhecido como sphaeristerium. Também pessoas do povo praticavam tais divertimentos, mas em espaços abertos e a seu jeito, dizendo que jogavam a pila**, um dos nomes dessas bolas. — * Campo de Marte, em Roma. / ** No italiano, se transformou em palla, que significa bola ou esfera.

Contando com tantos atributos, a sphaeristica se propagou pela Europa e, especialmente, entre os franceses. Até que houve a interposição de uma elaborada peça, chamada raquette*, entre a mão e a bola, desse modo surgindo o Jogo de Tênis, mas com o nome de Jeu de Paume**. Em vários bairros de Paris, havia espaços próprios para jogar. Um dos mais distintos e frequentado pela nobreza, foi o Jeu de Paume, nome de um pequeno estádio coberto. A edificação ainda existe, atualmente abrigando variadas manifestações culturais e artísticas. Está situado na Place de La Concord. — * Raquette (francês); na sua forma primitiva, é “rachete“, significando palma da mão ou planta dos pés. / ** Paume, no sentido de palma da mão.

Edifício do Jeu de Paume, Paris, nos tempos de Napoleão III.

Primitivamente, o “tênis” foi jogado apenas com as mãos, até que houve a interposição de um aparato entre a mão e a bola. Na França, ficou conhecido como Jeu de Paume, ou seja, Jogo da Palma. Nesse caso, a raquete virou palma.

Eram de dois gêneros, o de Courte Paume*, jogado em quadras cobertas e o de Longue Paume**, jogado em quadras ao ar livre. Segundo o dicionário Littré (1873), o Jeu de Paume recebeu a designação “lusus pilae cum paume“, em 1356, época em que introduziram a primeira raquete. — * Courte Paume: quadra pequena. / ** Longue Paume: quadra grande. / *** Jogo da Pila com raquete.

Disse Heródoto, que os etruscos inventaram alguns jogos com bolas. Mais difundidos eram o da Pila Paganica(2) ou, quando a bola era menor, simplesmente o da Pila, esta preenchida com pelos* ou penas, e jogadas na aldeias por homens rústicos. Ademais, a palavra pila era usada no sentido geral de bola. Quando jogada a três, se dizia Pila Trigonalis, também feita com pelos. Outro era o da follis(3), sendo a bola preenchida com ar. Havia ainda o da Harpasta, cuja feitura e regras são desconhecidas. — * Trata-se de pelos de animais, geralmente de cavalo (pelo = pilus, em latim).

Livro de Epigramas de Martialis, editado em Veneza (1676).

A seu modo, o poeta Martialis(4), nascido na Espanha – em 40 d.C. –, escreveu sobre as bolas. Traduzindo do latim, fica assim:

Pila Paganica
Esta bola é cheia de penas, mas é dura,
Menos suave que a follis; menos compacta que a pila.

Pila Trigonalis
Se com a esquerda sabes lançar-me, sou tua,
Não sabes? Seu tolo, larga a bola.

Follis
A pouca idade me convém; ide embora rapazes:
Sou coisa de meninos e de velhinhos.

Harpasta
Esta, o molenga, que fica de pescoço grosso em vão esforço,
Logo a perde no terreno empoeirado de Antaeus*. — * Na mitologia, o gigante, filho de Poseidon e Gaia.

Ulisses em seu encontro com a princesa Nausícaa, filha do rei Alcino.

Desse natural entusiasmo pelas bolas teria surgido o Jogo de Tênis e muitos outros. Heródoto atribui a invenção dos jogos de bola aos habitantes da Lídia. O poeta Homero faz referência a um deles na Odisseia(5), quando narrou os divertimentos da princesa Nausícaa e suas servas. Diz que Ulisses – rei da Ítaca – tão logo se salvou de um naufrágio, subitamente adentrou naquela cena. Porém, antes disso, a deusa Athena havia provocado um sonho em Nausícaa, induzindo-a que se dirigisse àquele lugar. No canto VI, há esta passagem:

“… Athena penetra num sonho de Nausícaa e sugere que ela deve ir lavar sua roupa no rio. Quando Nausícaa acorda, se dirige à praia, acompanhada das suas servas, até atingir o local do lavadouro. Chegando lá, Athena provoca Nausícaa e as servas a se divertirem com um jogo de bola.”

Jeu de Courte Paume, num salão.

Por volta de 1600, sob determinação de Louis XIII, foi construído um salão para o Jeu de Paume, ao lado do seu palácio em Versalhes*. Ali, se divertia praticando a Courte Paume, mas com a devida pompa e a participação de seleta plateia. — * Distante 22km de Paris.

Para que tudo desse certo, havia um mestre instrutor que, ao mesmo tempo, arbitrava as disputas, organizava torneios e preparava as raquetes. Também fabricava as bolas tendo um núcleo de cortiça(6), envolto por uma tira de tecido e, por fora, vinha revestida com duas tiras de feltro. Para fixá-las, eram costuradas e estas deixavam marcas, semelhantes ao desenho das atuais bolas de tênis.

Mais tarde, em 1861, no reinado de Napoleão III, foi construído o Jeu de Paume de Paris. Durante a Revolução Francesa, o edifício serviu de sede para as assembleias dos revolucionários. A partir de 1909, passou a ser utilizado para exposições de artes plásticas. Atualmente, apresenta obras de arte contemporânea, principalmente nas áreas de fotografia e imagem.

Jeu de Longue Paume, no Champs Elisées, Paris.

Ao chegar em Portugal, o esporte da pila recebeu o nome de Jogo da Pela. Explica melhor o padre Bluteau, no seu dicionário de 1734:

• Pela – jogo nobre que se joga em Portugal, com alguma diferença das outras nações. Em Lisboa, joga-se em um pátio descoberto e público, em cuja porta, antigamente, havia um dístico que dizia:

Brinca de pé, insulta, transpira, desafia, labora. Se acontecer de perder, retira-te em silêncio*.* Bluteau citou em latim.

Noutros verbetes, Bluteau ajuda a ampliar o entendimento:

• Pela*, ou pelota de chumbo. / • Pelota – deriva-se do francês pelote, que é bala, ou bala pequena / • Peleja – batalha, combatimento. — * (Refere-se à Pila, preenchida com pelos.)

Disputa no estádio do Jeu de Paume, em Paris, no início do século XX.

DE LÁ PARA CÁ

O Jogo de Tênis, no estilo atual, foi elaborado pelo major Walter Clopton Wingfield(7), versão à qual atribuiu o nome de Lawn Tennis*, porque era jogado em quadras forradas de grama. A palavra tennis foi introduzida na língua inglesa lá pela metade do século XIV, buscando no francês tenez  do verbo tenir. Traduzido para o português é toma – imperativo afirmativo do verbo tomar –, dizendo o mesmo que aguente. Portanto, o tênis seria um jogo de toma lá, dá cá! Verbalmente um desafio em duas vias, avisando ao oponente que tente dar conta da bola remetida. — * Tradução, ao pé da letra: tênis de gramado aparado.

Para o Jogo do Tamborete.

No Brasil, a introdução do Jogo de Tênis ocorreu junto à do Futebol, começando em 1894, quando Charles Miller(8), técnico inglês da São Paulo Railway, Light and Power Company, trouxe suas regras e ensinou a jogar. Fez o mesmo com o Rugby e, ainda mais, fundou a Associação Paulista de Tênis.

Semelhante ao tênis, há ainda o Tamboréu, um jogo que foi introduzido no Brasil pelos irmãos Danadelli(9), italianos, por volta de 1937. Tornou-se conhecido também como Jogo do Tamborete. Na década de 1950, esteve muito difundido entre adultos e crianças. Volta e meia, se via alguém impulsionando uma pequena bola ou uma peteca, com o auxílio de uma raquete em forma de tambor. Essa prática é muito antiga noutros lugares do mundo. Na França, é denominado Jeu de Tambourin e, na Itália, Palla Tamburello.

Pois bem, o assunto não terminou… Verdade é que, em algum momento, alguém baixou a pela, bateu no pé, e estava criada a pelada. Mas não se sabe quantos anos antes de existir o futebol(11), este agora tão sofisticado nas regras.

Pesquisa, texto e arte de Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

——

(1) GALENUS, Aelius ou Claudius – (Pérgamo, Grécia, *c.129 / Sicília (provavelmente), †c. 217) Em latim Claudius Galenus e, em grego Κλαύδιος Γαληνός; mais conhecido como Galeno de Pérgamo. Médico e filósofo romano, de origem grega.

(2) Pagão – do latim paganus. O nome servia para se referir ao homem rústico, ou seja, que vivia no meio rural e, como consequência, ainda não era cristão. Em 1639, Théophraste de Renaudot (Loudun, *1586 / Paris, †28.10.1653), no livro “Troisième Centurie des Questions”, (p. 45), diz que o Jogo da Pagânica era o mais popular, comum. / A Pagânica é também ancestral do golfe.

(3) BLUTEAU, Raphael – (Londres, *04.12.1638 / Lisboa, †14.02.1734) Lexicógrafo e Religioso da Ordem dos Clérigos Regulares. Autor do “Vocabulário Português e Latino”. / O padre Raphael Bluteau, no seu dicionário de 1734, explica a palavra follis e suas afins: “FOLE – instrumento de fazer vento. Há fole de mão. de órgão, de forja. Dar aos foles, enfermidade do cavalo, assim chamada, porque a falta de respiração o obriga a mover muito os ilhais e o ventre. […] / FOLE – Pele de carneiro seca e ajustada ao modo de saco pequeno, em que os rústicos levam o trigo, ou outro grão do moinho e o trazem em farinha. Não se fizera escrúpulo de dizer folis, ou folliculus, neste sentido, porque, em Juvenal, follis se toma por bolsa feita de pele […] Segundo Vegécio, follis pecuniae quer dizer saco de dinheiro […] / FOLÍCULO – Termo médico, bolsa […] / FÔLEGO – … porque o bofe, a modo de fole, com os dois movimentos de dilatação e compressão, lança e recebe o ar […] Descanso do trabalho […] Falar sem tomar fôlego […] Andar folgado. […] / FOLGA – Descanso, ócio […]  / FOLGADO – Não molestado no trabalho […] / RESFOLEGAR – Tomar fôlego.”

(4) MARTIALIS, Marcus Valerius – (Bibilis, Espanha, d.C. 38-41 / c.103) Poeta, notável pelos seus epigramas* [*composições poéticas de estilo crítico, às vezes mordaz). Sua cidade natal pertencia ao Império Romano e dela só restam ruínas. Situa-se na atual Calatayud, província de Zaragoza.

(5) Odisseia – Poema épico do grego Homero – século IX a.C. –, que narra as  aventuras heróicas de Ulisses durante sua viagem de retorno a Ítaca”, após a Guerra de Tróia. O nome Ulisses é versão latina de Odisseu.

(6) Fonte: “Institut national de recherches archéologiques préventives”, França, 31.10.2016.

(7) WINGFIELD, Walter Clopton – (Ruabon, País de Gales, *16.10.1833 / Londres, Inglaterra, †18.04.1912) Inventor e militar britânico.

(8) MILLER, Charles – (São Paulo, *24.11. 1874 / †30.06. 1953) Em 1884, foi estudar em Hampshire, na Inglaterra, onde aprendeu a jogar futebol, rugby e críquete.

(9) DANADELLI, (irmãos) Joseph e Luigi. 

(10) Futebol – As primeiras regras escritas do futebol surgiram em 1830 – The Football Rulles – e foram criadas pelo Harrow College. Estabeleceram o número de jogadores – 11 para cada equipe –, espaços para rolar a bola, balizamento delimitando o alvo do gol, etc. No início, havia diversidade nas regras, as quais variavam de um colégio para outro. Porém, em 1848, houve uma reunião conjunta de várias escolas, quando unificaram as regras. Desde então, ocorreu um impulso na atividade esportiva, contudo, ainda limitada às classes sociais mais altas.

9 Comentários »

  1. Sua ampla visão dos assuntos tratados e a clareza da linguagem fazem com que o leitor se prenda ao assunto e dele tire grande proveito. Obrigada, Ydernéa

    Comentário por yd.hennio Lelo — 02/11/2020 @ 9:58 am | Responder

    • Ydernéa:
      Gosto de viajar na leitura e de escarafunchar arquivos. Quanto ao modo de escrever, me esforço para ser bem compreendido.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/11/2020 @ 6:58 pm | Responder

  2. Olá meu caro. Bom ler seus artigos!
    Tudo bem com você? Então a tal “pelada” do fim de semana vem da “pela”? Fato curioso e legal de saber. Forte abraço e continue nos abastecendo com valiosas informações.

    Comentário por Marcel Giuliano — 02/11/2020 @ 4:30 pm | Responder

    • Marcel:
      Estou bem e você? Está conseguindo “dribrar” o covid?
      Muito obrigado pelo comentário e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/11/2020 @ 6:55 pm | Responder

      • Sim meu amigo, estou em nova empreitada… infelizmente não deu para voltar ao hotel ! Mas estamos vivendo!!
        Um abraço e continue firme em seus propósitos.
        Abraços.

        Comentário por Marcel Giuliano — 04/11/2020 @ 5:01 pm

  3. Finalmente, aprendi de onde veio a palavra pelada, para jogo de futebol sem compromisso.

    Comentário por sertaneja — 02/11/2020 @ 9:27 pm | Responder

    • Sertaneja:
      É isso aí. Será que marquei um gol?
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/11/2020 @ 8:42 am | Responder

  4. Eduardo,

    “Na palma da mão” é um texto para ser publicado na revista do Minas Tênis Clube. Além de trazer informações muito interessantes para os praticantes do tênis, ainda estimula a prática de esportes, tão recomendada desde Galeno. Tenho certeza de que muitos aproveitariam bastante da leitura deste texto claro, preciso e tão bem fundamentado. Um grande abraço!

    Comentário por Pedro Faria Borges — 03/11/2020 @ 2:59 pm | Responder

    • Pedro:
      Pois é! Caberia nas páginas da revista?
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/11/2020 @ 3:50 pm | Responder


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