Sumidoiro's Blog

01/12/2020

ISABEL, TÃO LINDA!

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:59 am
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♦ Vivências

Vamos relembrar Maria Helena Cardoso(1), mais conhecida como Lelena, seu nome de carinho. Clarice Lispector chamou-a de “escritora fina”, que sabia “pegar numa asa de borboleta sem quebrá-la”. Nasceu na cidade de Diamantina (MG), em 24.05.1903. Ainda com um ano de idade, levaram-na para Curvelo (MG), onde permaneceu por largo período da juventude.

Curvelo antiga e Maria Helena Cardoso.

Do seu livro Por onde andou meu coração(2), um apanhado de memórias aos nove anos de idade:

      Em 1912 – “Dona Isabel a argentina, veio para Curvelo recomendada por doutor Alberto, político local. Quando se teve notícia na cidade de que viria morar nela uma estrangeira, toda população ficou alvoroçada. Quem seria aquela mulher? Que espécie de relações seriam as suas com o político? Viria mesmo pelo bom clima, ou estaria tísica, como acontecia com todos que vinham de fora com a desculpa do clima? 

Quem sabe não seria uma aventureira, amante do tal político e com quem as famílias do lugar não deviam assim entreter relações? Outros, porém, supunham-na uma mulher de categoria, que realmente estaria à procura de um clima bom para a tuberculose. A verdade é que ninguém sabia de coisa alguma e tudo não passava de conjecturas, sendo a sua chegada esperada com a maior ansiedade, pois as opiniões se dividiam e todas as hipóteses eram válidas.

Dona Isabel, porém, chegou inesperadamente, burlando a curiosidade geral. Seu desembarque foi presenciado apenas por Fraterno, o chefe da estação, Pedro de Sá Rosa, o carteiro, e um ou dois empregados de menor categoria.

Por onde andou meu coração (Ediouro, 2ª Edição).

No dia seguinte, espalhou-se a nova pela cidade: chegara a tal estrangeira e Pedro carteiro, que a vira, dizia que era bonita, elegante vendo-se que estava habituada a um certo luxo. A curiosidade não teve mais limites. Ninguém, principalmente as mulheres, falava noutra coisa e era o assunto nas casas, nas lojas, nos encontros nas ruas. ‘Já viu a estrangeira? Pedro carteiro disse que é linda e muito chique.’ […]

Enquanto o povo falava, discutia, indagava e toda espécie de conjectura, Dona Isabel, indiferente à curiosidade que suscitava, mantinha-se tranquila em casa, levando uma vida de repouso. Com exceção das empregadas ou de uma ou duas pessoas que vinham a negócio, não entrara ainda em contato com pessoa alguma da cidade. […] 

Nada se podia dizer dela e a população fechar os olhos diante da possibilidade de que fosse uma mulher de ‘vida airada’, uma mulher à-toa. Em pouco tempo, tornou-se uma figura estimada de todos, não havendo senhora que não desejasse ser sua amiga, frequentar sua casa, ver seus vestidos decantados pelas companheiras, ouvi-la conversar com seu engraçado sotaque de estrangeira.

Mamãe*, desde o início, foi partidária de que se devia acolhê-la, pois se tratava de uma pessoa doente, necessitada de carinho. Fez logo relações com ela, desprezando a opinião que pudessem ter os seus conterrâneos. Visitava-a amiúde, cada vez mais, apreciava suas belas qualidades. De vez em quando, levava um de nós em sua companhia. Para mim, Isabel era uma fada. Jamais vira mulher tão bonita e vestida com aquela riqueza. […] — * Maria Wenceslina (Nhanhá) Netto Cardoso.

Parecia uma princesa e, em Curvelo, nenhuma mulher, nem de longe, se assemelhava a ela, nem mesmo as filhas de Siô Sérgio Barbosa, que eram muito ricas, nem Dê, com toda sua beleza. Ninguém com aquele porte elegante, passo leve. Seguia acompanhada de perto pela empregada e, quando passava pelo de crianças aglomeradas para vê-la, sorria para nós, quando não nos afagava os cabelos. Ficava a olhá-la até que se perdesse ao longe, depois da linha do trem de ferro. 

Avião modelo Blériot, em Belo Horizonte, e piloto Darioli.

A última vez que a vi foi no voo de Darioli(3). Tinham anunciado um aviador italiano, que viria voar em Curvelo. Era um espetáculo inédito aquele e todo mundo se alvoroçou. Viria de trem com seu avião e levantaria voo de um campo perto da estação. A cidade toda se preparou para a grande festa. Não se falava de outra coisa e, em casa, não parávamos de fazer perguntas à mamãe a respeito: um avião, como era? Voava mesmo, tinha asas como passarinho? O aviador não tinha medo?

Fausto e Dauto [irmãos de Lelena(4)] eram os mais impressionados e resolveram tentar uma uma experiência. Sob as vistas de Dauto, Fausto subiu a uma goiabeira e, de lá, de um dos galhos mais altos atirou-se ao solo, de braços abertos. Fraturou a clavícula e deu um grande susto à mamãe, que perdeu toda a graça. Olhava o menino, com um ombro mais baixo que o outro, e suspirava:

– Logo agora isso foi acontecer, para tirar minha graça.

Mesmo assim não quis perder o acontecimento, nos levando a todos. Como o campo de onde Darioli levantaria voo era perto da casa de Dona Isabel, ficou combinado que iríamos até lá. Quando chegamos, muitas pessoas já estavam sentadas à porta, conversando animadamente.

Mamãe dirigiu-se conosco ao interior da casa e abraçando Dona Isabel comunicou-lhe a sua preocupação pelo acontecido com Fausto. Enquanto ela respondia à mamãe, procurando tranquiliza-la, eu a olhava com admiração. Ela estava tão linda naquela tarde fria. Um vestido de veludo preto, realçando sua pele pálida, os grandes olhos brilhantes, os cabelos castanho-claros arranjados negligentemente. Afagou-nos a todos e, juntos, nos dirigimos para a porta da rua.

Maria Wenceslina (Nhanhá), retratada por Emeric Marcier, e Lelena.

Não demorou muito e saímos para o campo. Me lembro de alguém que me puxava pela mão, para que andasse mais depressa. O espetáculo me assombrou e me deu medo. Temia a todo instante que aquele pássaro grande caísse em cima da gente e me encolhia toda junto de mamãe.

Não me lembro mais da volta, nem tenho ideia se jamais revi Dona Isabel.

Desapareceu de Curvelo; não sei se voltou à sua terra ou se morreu. Durante muito tempo, quando passava pela linha do trem ou pulava dormente*, olhava aquela casa fechada, aonde fora tantas vezes, e que então me parecia estranha. Onde estaria Dona Isabel, tão linda?” — * Dormente: peça de madeira onde se apoiam os trilhos.

••••••

INTRÉPIDO DARIOLI

O italiano Ernesto Darioli chegou no Rio de Janeiro, ao final do ano de 1911, com o propósito de dar espetáculos aéreos e formar aviadores, dizendo de outro modo, pilotos de aviões. Para quem quisesse assistir as peripécias das decolagens e dos pousos, eram cobrados ingressos. 

Avião, naquele tempo, se dizia aeroplano. Explicando sua utilidade, o jornal “A Noite”, de 06.11.1911, publicou uma nota:

“O atual momento é de largos horizontes para a aviação. Já se sabe o que valem e o que fazem na guerra* os aeroplanos, com os resultados obtidos pelos aviadores italianos, que têm feito admiráveis trabalhos, a ponto de obrigar o governo […] a aumentar seu contingente de aparelhos, aceitando os serviços de todos os aviadores que queiram seguir para o teatro de operações. — * A Itália foi o primeiro país a usar aviões de combate, no transcurso da guerra contra o Império Otomano (29.09.1911 a 18.10.1912).

Toda gente está vendo com clareza que, se o Brasil, atualmente, nada tem a respeito de aviação, precisa ter quanto antes um serviço que nos equipare às nações que os têm em tão adiantado progresso.

Isso, porém, não se faz do pé para a mão; é preciso, […] organizar, instalar, manter a escola de aviação com professores idôneos, com aparelhos mais modernos, com oficinas de reparação, com hangars próprios […]

Naturalmente que os dirigíveis militares, como o Zeppelin, custam caríssimos. Mas os aeroplanos, agora largamente empregados em todos os exércitos adiantados, são mais baratos e mais práticos […]

Público nas tribunas do Prado Mineiro.

Continua a nota:

Está nesta capital, há alguns dias, o aviador italiano Ernesto Darioli, educado na escola de Blériot e que está esperando, também, o seu aparelho que é daquele fabricante. 

Darioli fez vários vôos com sucesso na Europa, tendo voado 140 km sobre o mar, em Boulogne-sur-Mer, na França […] O aviador […] é um rapaz forte e simpático, disposto à luta e capaz de fazer alguma coisa. Já foi apresentado à direção do Aeroclube Brasileiro.”

Lúcio Cardoso, no tempo do ginásio.

PONTO A PONTO

Imediatamente, Darioli passou a fazer demonstrações no Rio de Janeiro e, depois, em outros lugares. No estado de Minas Gerais, o primeiro evento foi em Juiz de Fora e, em seguida, na capital Belo Horizonte.

Neste segundo ponto, ocorreram seis sobrevoos, entre os dias 21 de abril a 29 de junho, utilizando a pista do hipódromo denominado Prado Mineiro*. Na do dia 25 de abril, devido a um malogro na aterrisagem, o aeroplano colidiu com um barranco e uma das asas se quebrou. Por sorte, Darioli sofreu apenas ferimentos leves e logo lhe prestaram socorro médico. * Atualmente, abriga a Academia da Polícia Militar de Minas Gerais.

Em seguida aos compromissos de Belo Horizonte, o artista dos ares passou por Sete Lagoas (MG), onde fez uma demonstração no dia 9 de julho de 1912. De lá, se encaminhou para Curvelo, no norte mineiro, e foi justamente dessa vez que a menina curvelana viu o “pássaro grande”.

Dias depois, no 14 de agosto, houve uma emoção ainda maior. Dona Nhanhá daria à luz Joaquim Lúcio Cardoso Filho, futuro autor do romance “Crônica da casa assassinada”. No dia 27 de outubro de 1912, o festejado bebê foi levado à pia batismal, tendo como padrinhos os tios maternos Pedro de Souza Netto e Alzira (Dazinha) de Souza Netto.

Neste ponto, revelo aos leitores: Pedro de Souza Netto(5) é meu avô materno e padrinho de batismo.

Pesquisa, texto e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

——

(1) CARDOSO, Maria Helena – (Diamantina (MG), *24.05.1903 / Rio de janeiro, †24.05.1997) Farmacêutica, trabalhou no Hospital Samaritano do Rio de Janeiro.

(2) “Por onde andou meu coração” – Nas livrarias em 4ª edição, pela Editora Civilização Brasileira.

(3) DARIOLI, Ernesto Umberto Giovanni – italiano (*1881 / †?).

(4) Filhos de Joaquim Lúcio Cardoso (*1874 / †08.09.1938) e Maria Wenceslina de Souza Netto (*12.05.1877 / †1955): [Regina Cardoso (*22.04.1900 / †27.10.1975), Fausto Cardoso (*16.01.1902 / †27.02.1961), Maria Helena Cardoso (*24.05.1903 / †24.05.1977), Adauto Lúcio Cardoso (*24.12.1904 / †20.07.1974), Maria de Lourdes Cardoso (*11.02.1907), Joaquim Lúcio Cardoso Filho (*14.08.1912 / †28.09.1968)]. // Adauto Lúcio Cardoso – advogado; político, deputado federal e ministro do Superior Tribunal Federal.

(5) NETTO, Pedro de Souza – farmacêutico prático e poeta. Casado com Francisca Gomes dos Santos (nome de solteira) / Filhos: Maria Nazareth*, Virgínia, Leopoldina, Eudóxia, Helena, Zuleika**, Pedro Júlio, Lúcia Tereza, Carlos Alberto; todos com sobrenome de solteiros Souza Netto. // * Maria Nazareth Netto de Paula, casada com Eduardo Vianna de Paula, pais do autor deste Blog: Eduardo Vianna de Paula Filho. — ** Zuleika Angel Jones (Zuzu Angel, designer de moda), casada com Norman Angel Jones.

7 Comentários »

  1. Eduardo, fico agradecida por receber seus posts, sempre muito elucidativos. Ydernéa

    Comentário por Ydernéa — 01/12/2020 @ 8:41 pm | Responder

    • Ydernéa:
      Seu estímulo me dá forças para continuar escrevendo. Muito obrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/12/2020 @ 8:56 pm | Responder

  2. Eduardo,

    Nada como fazer parte da história. Eu já sabia de seu carinho pela Lelena. A descrição que Clarice Lispector faz dela — “escritora fina” que sabia “pegar numa asa de borboleta sem quebrá-la” — é de uma beleza sem igual. Lúcio Cardoso, eu o conheci e a seus livros, antes de conhecer você, mas só foi possível conhecê-lo um pouco melhor por meio de nossas conversas e ao ler a biografia de Clarice Lispector, que o amou apaixonadamente. A sua sensibilidade e a sua capacidade de expressar os sentimentos, Eduardo, são heranças que lhe deixaram seus antepassados, aprimoradas ao longo de sua vida.
    Com o carinho do Pedro Borges

    Comentário por Pedro Faria Borges — 02/12/2020 @ 10:24 am | Responder

    • Pedro:
      Seus comentários passaram a fazer parte do meu Blog. Volta e meia, algum leitor me pergunta: “- Pedro já comentou?”
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/12/2020 @ 3:26 pm | Responder

  3. Parabéns pelos detalhes.

    Comentário por GERALDO ANTONIO COSTA — 03/12/2020 @ 12:34 pm | Responder

    • Geraldo:
      Muito obrigado, seu apoio é importante.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/12/2020 @ 1:06 pm | Responder

  4. “Por onde andou meu coração” e “Minha vida de menina”, o último de Helena Morley, introduziram-me nas Minas Gerais. Minha vida de menina, por relembrar a minha meninice em Areia, PB, é meu livro de cabeceira. Em Paris, lia trechos dele, quando a saudade batia.
    Seu texto me fez ir mais ao fundo nas Minas, com fatos que desconhecia.
    Recentemente, Helena Solbergh e eu fomos homenageadas pelo Festival de Cinema Aruanda e participamos de duas “lives”. Ela dirigiu “Vida de Menina”, adaptação para o cinema do livro de Helena/Alice. Pode ser visualizado no YouTube.
    Abraços
    Vania

    Comentário por Vania Perazzo Barbosa Hlebarova — 03/01/2021 @ 11:21 am | Responder


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