Sumidoiro's Blog

01/01/2021

DEPOIS DE GUTEMBERG

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:52 am
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♦ Atrelado ao antes

No ocidente, antes da invenção da tipografia, a informação circulava quase que só pela oralidade, tão poucas eram as pessoas que sabiam ler e escrever. Palavras no papel atingiam um público muito limitado, desde que os manuscritos custavam caro.

Johannes Gutenberg e sua Bíblia com 42 linhas por coluna de página.

   Letra e tipo são palavras que costumam ser usadas como sinônimos, embora sejam coisas distintas. Letra é um caractere do alfabeto; tipo é uma peça de metal, onde uma letra, um signo ou um símbolo estão configurados em relevo.

——

      Por volta do ano 360 d.C., surgiu na Europa um estilo de letras que é usado até os dias atuais. Seu criador foi um godo – ou gótico, o bispo de nome Ulphilas*, ao fazer uma tradução da Bíblia para a sua língua mãe, a gótica, pertencente ao grupo germânico. — * Em latim, Ulphilas significa “filhote de lobo”. Em português, se diz Úlfilas. / ** Língua extinta.

Para desenhar os caracteres, a referência primária foram as runas*, letras arcaicas de godos e vikings. Delas poucas restam, sendo encontradas em gravações sobre rochas, túmulos e objetos de metal ou madeira. Ao longo do tempo, o estilo gótico de Ulphilas foi se desdobrando em variadas configurações. — * Runa: significa secreto.

Runas em caixa de osso de baleia (início do sec. VIII). / Gótico de Ulphila, 360 d.C.

No final do século VIII, por encomenda do imperador do imperador Karolus Magnus*, ocorreu um fato extraordinário, a criação de uma variante muito especial do estilo gótico. O encarregado para o trabalho foi o monge Albinus Flaccus(2), diretor da escola da Catedral de York, na Inglaterra. Seu nome se traduz como Albino Flácido**, fazendo entender que seria muito claro e franzino. Mas isso é irrelevante, desde que possuía admirável envergadura intelectual. — * Em português, Carlos Magno. / ** Também chamado de Ealhwine, Alchoin ou Alhwin. Em português, Alcuíno de York.

Orientados por Albinus, monges escribas desenharam um conjunto de caracteres, que ficou conhecido como letras carolinas, nome em homenagem a Karolus Magnus. Eram letras miúdas, ancestrais das minúsculas, que passaram a compor o alfabeto romano*. Muito merecida a lembrança ao imperador, desde que era muito culto, falava latim, compreendia o grego e tinha algumas noções de siríaco. Tudo isso, apesar de nunca ter adquirido plena capacidade de ler e escrever. Ademais, foi um incentivador da educação, da literatura e do conhecimento. — * O mesmo que alfabeto latino.

No curso do século XII, foram ocorrendo variações no formato das Carolinas, quando passaram a denominá-las, genericamente, como góticas textualis ou textura, isto é, boas para “tecer palavras”.

Tipos no estilo adotado por Gutenberg e página da Bíblia, com iluminura e rubrica (2).

Na tipografia, o estilo textualis* começou a ser introduzido em 1450, na Alemanha. Isso ocorreu justamente com Gutenberg(3), quando adotou essas letras para fundir tipos** móveis e com os quais imprimiu exemplares da Bíblia. O processo de reprodução, sem precedentes no mundo ocidental, permitiu a popularização do livro. A partir do século XVI, a textualis se propagou enormemente, tanto na escrita impressa, quanto na manuscrita. — * Do latim > TEXTUS: tecido e texto; TEXERE: tecer; TEXTURA: textura. / * Tipo: letra em relevo que funcionava como carimbo.

Na Alemanha, em certo momento, a textualis sofreu variações e outro nome, era dita como Letra Negra, Fraktur ou Schwabacher. No processo evolutivo dessas textualis, algumas foram adquirindo feições semelhantes a um traço vertical, ou quase. Em paleografia, chamam isso de minim, palavra derivada do latim minimum, que se traduz por menos ou muito pequeno. Entretanto, em certas associações, a leitura do conjunto se torna extremamente difícil. Por exemplo, quando há sequências de n, ni, nu, ui, mu, mi e in, assim podem resultar em um minim. — * Embora a palavra faça lembrar a cidade de Schwabach, não há evidências que possam associá-la ao estilo de letras, pois lá não existia impressor e, muito menos, fundidor.

Minim: “mimi numinum niuium minimi…”

Alguém exemplificou o minim com a frase escrita em gótico: “mimi numinum niuium minimi munium nimium uini muniminum imminui uiui minimum uolunt”. A tradução é: 

“Os menores mimos dos deuses da neve não cumprem nada demais em suas vidas, senão com o grande dever de proteger dos efeitos do vinho.”

LETRA E PODER

No contexto geral da comunicação, as letras têm cumprido seu papel, qual seja, como ferramentas poderosas para agilizar os meios de comunicação. Nas mãos de quem as utiliza, nem sempre a verdadeira intenção aparece, pode estar camuflada. Às vezes, são usadas de maneira contraditória ou equivocada, mas a mensagem sempre se espalha, com maior ou menor força. Em resumo, saber usar as letras é uma arte, pelo bem, pelo mal, pela paz ou pela guerra, coisa séria!

Serve de exemplo o que ocorreu na Alemanha, na primeira metade do século XX. Pois sim, durante a Segunda Guerra mundial, Martin Bormann(4), secretário de Hitler e controlador do fluxo da mídia (meios de comunicação), determinou que a fraktur seria modelo para a escrita comum nacional (ilustração abaixo).

Porém, algum tempo  depois, passou a renegá-las, dizendo que seriam Letras Judaicas de Schwabacher. Daí, como consequência, emitiu uma circular, em nome do Führer, assim resumida:

“Em relação ao chamado estilo Gótico, é errado entender que seja uma fonte alemã. Na verdade, os tipos consistem em Letras Judaicas de Schwabacher. Exatamente porque os judeus tomaram o controle dos jornais […] e das lojas de impressão, com a introdução da imprensa e, por tal motivo, essas letras foram fortemente introduzidas na Alemanha.

“Nenhuma potência no mundo será capaz de derrubar esta Alemanha novamente”. 

Hoje, o Führer decidiu, em uma reunião com o líder Max Amann, na casa impressora de Adolf Müller, que o Antiqua deve ser considerado o estilo de letra normal, de agora em diante. Aos poucos, todos os produtos de impressão têm que ser alterados para este tipo de letra normal. Do mesmo modo, para os livros escolares e que, nas escolas, apenas esse tipo de letra normal será ensinado.

As autoridades deverão se abster de utilizar as Letras Judaicas Schwabacher no futuro. Certificados de nomeação, sinais de trânsito e similares só serão produzidos no tipo de letra normal. Em nome do Führer, o Sr. Amann deverá, primeiramente, modificar os papéis e revistas, usando a fonte normal, os quais ainda estão espalhados no estrangeiro […] – Assinado M. Bormann*” — * Também chefe da Chancelaria do Partido Nazista.

O fato é que, ao dizer que as Schwabacher seriam letras de judeus, Bormann estava incorrendo em erro, desde que estava a desconhecer a história e que o estilo nascera pelas mãos do godo Ulphilas.

Circular de Bormann abolindo a Schwabacher.

Nos dias atuais, as antigas góticas ainda são bastante usadas, não para textos corridos, como nos tempos de Ulphila, nem de Gutenberg, nem como durante o Terceiro Reich*. Agora, têm servido para construir marcas e logotipos, pretendendo denotar tradição, nobreza, confiabilidade, força, coragem, etcétera e tal. É o caso dos títulos de periódicos, como o New York Times; ou os escudos de motoqueiros; ou marcas de cerveja; ou caracterizar conjuntos de música heavy metal, e por aí afora. — * Período e regime da Alemanha nazista.

LETRAS HUMANISTAS

A Antiqua, que Bormann escolheu e determinou como padrão oficial, esteve disseminada nos séculos XV e XVI. Ademais, serviu para nomear, de modo geral, variações ditas como humanistas. Nesse caso, a palavra tem dois sentidos. Primeiramente, porque sugerem os movimentos gestuais das mãos humanas, aqueles que ocorrem nos manuscritos. Em segundo lugar, porque tipógrafos que as criaram ou adotaram, haviam abraçado o ideário humanista*, na época do Renascimento. — * Humanismo: movimento intelectual da época renascentista, centrado na valorização do homem.

A primeira letra humanista foi criada pelos tipógrafos Sweynheym & Pannartz(5), em 1465, na Itália. Acredita-se que Sweynheym trabalhou com Gutenberg, entre 1461 e 1464. Ambos eram clérigos leigos e trabalhavam em uma oficina tipográfica, no mosteiro beneditino de Subiaco, perto de Roma.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é post-primeira-humanista-1.jpg Primeiras letras humanistas, por Sweynheym & Pannartz.

Também na Itália, nasceram as humanistas inclinadas, de tipografia. A primeira, em 1501, de autoria do tipógrafo e editor Aldo Manuzio(6), também adepto das ideias humanistas. Atribuem a ele a criação do ponto e vírgula (;), como também os livros de bolso.

Teve como colaborador Francesco Griffo(7), encarregado de produzir as punções*. Logo depois, vieram a se separar e, em 1503, Griffo elaborou sua versão de caracteres inclinados. O estilo recebeu o nome de Grifo (em português). As criações, de ambos autores, serviram para fundar o gênero que ficou conhecido como Itálico. Desde então, um risco sob as palavras passou a servir como marcação tipográfica, que indica compor ou destacar em Grifo ou Itálico. — * Punção: peça de aço, utilizada para gravar o molde em baixo relevo.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é post-itacc81lica-antiqua.jpgLetras itálicas de Manuzio e Griffo. /  Letras no estilo Antiqua.

Há curiosidades subjacentes aos caracteres propriamente ditos. Trata-se dos glifos, um conjunto de signos e também símbolos, usados na escrita. A palavra glifo vem do grego (γλύφα), que significa escultura ou gravura. São incontáveis, pois a cada dia aparece um ou outro. Por exemplo: √, ©, ∞, ¶, #, }, $ e ainda há mais, com destaque para o &, que veio de ET*, em latim. Na forma, percebe-se que é um abraço de e com t. * Em português, substitui conjunção e.

O glifo & foi inventado por Marcus Tullius Tiro*, escravo de Marcus Tullius Cicero**, mais tarde, tornado liberto. Além de escritor e calígrafo, teria sido o inventor do primeiro sistema taquigráfico. Utilizava-o para transcrever rapidamente as falas do seu senhor. Cicero faz referências a ele em suas cartas, dizendo de quão proveitosa teria sido sua ajuda no trabalho e nos estudos. * Tiro (morte: c.4 a.C.) / ** Cicero: advogado, político, escritor orador e filósofo (*03.01.106 a.C. / †07.12.43 a.C.).

Há mais um glifo interessante, o arroba – @ – que vem de longe e se desdobra em inúmeros significados. A palavra arroba está no árabe como الربع\ e se pronúncia ar’rub, para dizer “quarta parte”. No período colonial brasileiro, a arroba correspondia a ¼ de quintal, ambas medidas de massa.

A primeira grafia do @ conhecida é do ano de 1345, como inicial da palavra amém*. Outra grafia é encontrada na Idade Média, quando usavam para representar ad, em latim, e que possui vários significados, como “direção, aproximação, para”, etc. — * Em tradução para o búlgaro, da obra bizantina “Crônica de Manasses”.

Do ano de 1448, há um registro de embarque de trigo, de Castilha para Aragão, usando @ como símbolo de medida. Mais adiante, em 1563, um comerciante de Florença, numa correspondência, indagou sobre uma quantidade em @ de vinho. Bem mais tarde, no século XVII, o glifo @ passou adquirir o significado comercial de “à”, como em “à taxa de”.

O ET trasformado em &. / O @ na palavra “amém” (Crônica de Manasses, em 1345).

Em resumo: no século XV, com Gutenberg, a letra virou tipo de metal. Agora, há quem a chame de tipo digital. E mais, já ganhou asas e foi para o espaço, nas redes de internet.

Pesquisa, texto e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

Clique e veja mais: As letras dos imperadores“.

——

(1) ALCUIN of York – ( York, Northumbria, *c.740 / Tours, França, †19.05.804) Poeta, escritor, teólogo, matemático, etc.

(2) Iluminura: pintura decorativa em cores vivas, aplicadas nos manuscritos medievais. / Rubrica: nos códices antigos, era um destaque do texto em vermelho (rubro).

(3) GUTENBERG, Johannes – (Mainz, *c. 1400 / Mainz, †03.02.1468) Viveu nos tempos do Sacro Império Romano-Germânico. Entre outras criações, inventor da prensa para impressão, do tipo móvel e de uma tinta para tipografia; joalheiro e gravador. // Foi o segundo, no mundo, a usar a impressão por tipos móveis, por volta de 1439, após o chinês Bi Sheng, no ano de 1040.

(4) BORMANN, Martin – (Wegeleben, *17.06.1900 / Berlim, †02.05.1945) Oficial da Alemanha Nazista; chefe da Chancelaria do Partido Nazista; além de secretário privado de Adolf Hitler, controlador do fluxo de informação e responsável pelos acessos ao Führer.

(5) SWEYNHEYM, Conrad (morte, 1477) & PANNARTZ, Arnold (morte, c. 1476).

(6) MANUTIUS, Aldus Pius – (Brassiano, nascido entre 1449-1452 / Veneza, †06.02.1515).

(7) GRIFFO, Francesco (ou Francesco da Bolonha) – (*1450 / Bolonha, †1518).

10 Comentários »

  1. Sigo aprendendo com seus textos. E de forma curiosa com histórias bem interessantes. Essa do Terceiro Reich foi impressinante. Até onde ia o anti semitisto…Ia ao máximo.
    Mudando de assunto observe se não houve algum tipo de invasão aqui porque alguém fez um comentário sobre um comentário que fiz. E o comentário é bastante conhecido, as mesmas palavras usadas em outros comentários que vejo sempre por ai. Enfim, é alguem que posta a mesma coisa sempre. Não era resposta ao que eu tinha comentado. Bom checar porque pode ser virus ou algo parecido.

    Feliz Ano Novo!

    Comentário por sertaneja — 01/01/2021 @ 2:16 pm | Responder

    • Sertaneja:
      Fico feliz ao saber que você gostou do texto. Qual é o comentário e onde, do suposto invasor?
      Desejo-lhe também um Feliz Ano Novo.
      Do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/01/2021 @ 6:56 pm | Responder

  2. Vou vivendo e aprendendo. Obrigada, Ydernéa

    Comentário por Ydernéa — 02/01/2021 @ 12:20 pm | Responder

    • Ydernéa:
      Eu também vou aprendendo, quando pesquiso e escrevo.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/01/2021 @ 3:10 pm | Responder

  3. Eduardo, muito interessante seu trabalho.
    Pouca gente sabe esta interpretação,
    Parabéns !
    Maria Marilda

    Comentário por Maria Marilda pinto correa — 02/01/2021 @ 7:19 pm | Responder

    • Marilda:
      Acompanho o personagem Gutenberg desde os tempos da minha meninice, quando lia o Tico-Tico.
      Muito obrigado pelo estímulo. Um abraço do
      Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/01/2021 @ 7:48 pm | Responder

  4. Aproveitando para desejar um feliz 2021, digo que como sempre me deliciei com seu texto conciso, objetivo e elegante que traz à tona tantas informações importantes. Na era da internet, a tendência é apagar as origens. Obrigada por garimpar essas preciosidades!
    Grande abraço.
    Vania

    Comentário por VANIA PERAZZO BARBOSA HLEBAROVA — 03/01/2021 @ 11:03 am | Responder

    • Vania: Sinto-me feliz quando recebo suas notícias e comentários. Agradeço seus estímulos. Desejo-lhe felicidades no Ano Novo.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/01/2021 @ 12:12 pm | Responder

  5. Eduardo, saber usar as palavras é, como você disse, uma arte, e você, além das cores e dos traços, também entende das palavras. Este é mais um texto para ser guardado, consultado com frequência. Aprendi muito. Sou-lhe grato. Um grande abraço e um ano realmente novo para você, sempre com disposição para nos brindar com suas pesquisas.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 07/01/2021 @ 11:09 am | Responder

    • Pedro, mais uma vez, digo que seus comentários dão-me coragem para continuar pesquisando e escrevendo. Retribuo seus votos de Ano Novo e lhe envio um muito obrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 07/01/2021 @ 12:10 pm | Responder


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