Sumidoiro's Blog

01/02/2021

SUBVERSÕES

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:27 am
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♦  Na política e na arte

No final do século XIX, em Paris, surgiu o Impressionismo, marco inicial da pintura moderna. Pouco tempo depois, alguns artistas criaram o Neo-Impressionismo. A reinvenção recebeu nomes alternativos: Cromo-luminarismo ou Pontilhismo. Ademais, serviu para fazer política.

“Le cirque”, última obra de Seurat, carregada de cinzas (detalhe).

O primeiro quadro impressionista mostrou o sol nascente, no porto de Le Havre – França –, no dia 13 de novembro de 1872. O autor, Claude Monet(1), bem soube transportar para a tela um espetáculo singular, que recebeu o título de “Impression, Soleil Levant” – Impressão, Sol Nascente. Daí, surgiu o estilo que recebeu o nome de Impressionismo.

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      Doze anos depois, 1884, houve o desdobramento do estilo em um grande equívoco estético, fruto da leitura afobada do livro “Modern Chromatics”*, do físico Ogden Rood(2). Naquele momento, outro pintor, até então impressionista, cismou de lançar na tela uma imagem produzida por milhares de pontinhos, um de cada vez: seu nome Georges Seurat(3). — * Primeira edição em 1879. 

A obra recebeu o título de “Un dimanche après-midi à l’Île de la Grande Jatte” *, tornando-se fundadora do Neo-Impressionismo. Daí para a frente, alguns pintores passaram a imitá-lo, mas todos na mesma toada, subvertendo fundamentos da ótica e da percepção. — * “Um domingo, à tarde, na ilha da Grande Jatte” (1884-1886).

O fato é que, para dar por finalizado o quadro do “Dimanche…”, dois anos se passaram, evidentemente, com a emoção se esvaindo ao longo desse tempo. Mais ainda, ao contrário do que o autor imaginava, que seria produzir a luz, tornou as cores apagadiças. Assim mesmo, decidiu atribuir ao estilo o nome alternativo de Cromo-luminarismo.

Neo-Impressionismo: “A colheita das maçãs”, tentativa frustrada de Pissaro (1888).

Os delírios cromáticos, tanto de Seurat, bem como dos seus seguidores, foram estimulados por vários críticos de arte. Contudo, de modo geral, os resultados estéticos se mostraram pífios. O fato é que esses pintores estavam a lidar com tintas, mas admitindo que cor-matéria* (*tintas) e cor-luz fossem a mesma coisa, o que não é verdade. Vai daí que, um entusiasmado pontilhista chamado Paul Signac, sem saber com o que estava lidando, deitou elogios ao errado como se certo fosse. Suas palavras:

“Pintores neo-impressionistas são aqueles que instauraram e, depois, a partir de 1886, desenvolveram a técnica dita como divisão, empregando como modo de expressão a mistura ótica de tons e cor.

Esses pintores, respeitosos das leis permanentes da arte, que são o ritmo, a medida, o contraste, foram levados a essa técnica pelo desejo de conseguir um máximo de luminosidade, de coloração e de harmonia, que não lhes pareciam possíveis de se obter por outra forma de expressão.” * Explicando a obra de Seurat, em um texto de 1911.

A manifestação de Signac trazia uma série de inconsistências, começando com o que dizia ser “divisão”. No caso, o ocorrido é o que se chama mistura subtrativa – nada de divisão –, onde tudo tende para o escurecimento, ou seja, o preto. Isso tem semelhanças no processo das imagens impressas em papel, para jornais, revistas, livros, etc. Inversamente, no caso das luzes, se diz mistura aditiva, porque ela sempre tende para o branco. Isso é o que ocorre, por exemplo, nas telas dos aparelhos de televisão, nas luzes de teatro, etc.

Ademais, não caberia dizer mistura de cor e tom, uma redundância, desde que tom já é cor. De resto, o que produz o tom é a mistura de um matiz com um cinza. E, quanto às tais leis permanentes da arte, não caberia dizer que são o ritmo, a medida e o contraste. Ritmo é um movimento regular e periódico, não é lei. Medida também não é lei e, do mesmo modo, o contraste. Na verdade, uma palavra mais abrangente e que serviria para indicar uma lei permanente da arte, seria harmonia.

Nas luzes, a soma tende para o branco. / Nas tintas, a soma tende para o preto.

Por sua vez, o crítico de arte Huysmans(4), logo de início condenou o tal Pontilhismo, dizendo:

“Desnuda essas figuras das pulgas coloridas que as cobrem; por baixo não há nada, nenhum pensamento, nenhuma alma, nada”.

Em meio a essa confusão, líderes do Impressionismo, como Monet e Renoir(5), se recusaram de expor com Seurat. Contra a nova estética, também se manifestou Camille Pissaro(6) que, por algum tempo, trocara o Impressionismo pelo Neo-Impressionismo. Numa carta, escrita em 1896, ele apontou como estava errada a teoria neo-impressionista, dizendo:

“Tendo experimentado essa teoria durante quatro anos e tendo agora a abandonado, embora depois de dolorosas e obstinadas tentativas, e visando recuperar […] o que tinha aprendido, não posso mais me aceitar como um daqueles neo-impressionistas que abandonou sua origem e perdeu tempo em prol dessa estética diametralmente oposta […] Ao descobrir que seria impossível me manter fiel às minhas emoções e, consequentemente, captar a vida e o movimento […] tive então que desistir.”

“Colina de Jalais” [Pontoise], de Pissaro, quando era impressionista (1867/detalhe).

NEO & POLÍTICA

Somando em desfavor do Neo-impressionismo, havia também o notório envolvimento político que atingia inúmeros pintores. A história mostra como tudo ocorreu, quais foram as consequências e mais, elas ainda não se apagaram, estão aí, a se projetar nos dias atuais.

Pois bem, na Europa do início do século XX, estavam efervescentes dois movimentos políticos, o Anarquismo e o Comunismo, tendo seus preceitos contaminado a cultura e as artes em geral. Por conseguinte, vários pintores neo-impressionistas ou mesmo de outras correntes artísticas, assimilaram uma ou outra ideologia, fazendo com que suas obras adquirissem um caráter propagandístico.

← “Le démolisseur”, arte política, Paul Signac.

Nítidas eram as intenções e elas se manifestavam na temática da obra, bem como nos seus títulos. O propósito seria induzir uma revolução social mas, nem por isso, havia sinceridade naquelas pregações. Certa feita, o próprio Signac chegou a admitir como eram frágeis suas convicções, pois afirmou que seria tão somente um anarquista romântico.

Entretanto, para colocar mais lenha na fogueira, o crítico de arte e jornalista Félix Fénéon(7) fez sua parte. Desempenhava dois papéis, um de ideólogo do movimento neo-impressionista e, outro, de agente da revolução social anarquista. Também escreveu textos teóricos sobre cor(8), pautados especialmente nas concepções do citado Ogden Rood. Contudo, do mesmo modo que os pintores, não estava preparado para interpretar o que lera.

Por ser adepto ferrenho do Anarquismo, Féneón se orgulhava de um dos seus símbolos – sem cor –, uma Bandeira Negra. Na prática, durante suas atividades na política, estabeleceu ligações com alguns terroristas e, por isso, logo foi levado à prisão. O motivo veio da tolice de colaborar na fabricação de explosivos. Ele, como toda sua gente, sonhavam em destruir a burguesia e o poder constituído. Contudo, por parte de Fénéon, havia uma completa contradição, justamente porque os incentivadores das artes eram aqueles pertencentes à burguesia.

Félix Fénéon. / Anarquistas e Bandeira Negra, França, 01.maio.1906.

Para complicar a situação, em abril de 1894, com a colaboração indireta de Fénéon, ocorreu a explosão de uma bomba no restaurante Foyot, em Paris. A casa era frequentada pela elite da sociedade, gente apreciadora e consumidora das artes. Uma das vítimas foi o senhor Laurent Tailhade(9), dito como poeta polemista, panfletário, anarquista, maçom e inimigo do clero. Creiam, esse homem, dias antes, havia aplaudido o sucesso de um atentado à Câmara dos Deputados. Suas palavras:

“O que importa de vagas humanidades, desde que o gesto seja belo?”

Tailhade e Violette, garota de programa, no atentado do Foyot. / Laurent Tailhade.

PARA A FRENTE

Adentrando no século XX, novas mudanças nas artes passaram a ganhar força. E, como sempre, lá estava a política a impulsionar artistas e intelectuais. Pois sim, em 1909, chegou a vez do Cubismo(11), criação do genial pintor Pablo Picasso(10). A obra fundadora foi “Les demoiselles d’Avignon” e vinha carregada de conotações políticas, uma vez que o autor sofria de ímpetos esquerdistas*. Estava então aceso o sinal verde para experimentações artísticas demolidoras, algumas influenciadas diretamente pelo Cubismo. — * Num certo momento, Picasso aderiu ao Partido Comunista.

Compunha o cenário daquele momento, o Anarquismo, que ainda estava vivo e forte. Era defendido, notadamente, pelos líderes Jean Grave(12), Élisée Reclus(13) e Émile Pouget(14), herdeiros das ideias do primeiro anarquista da história, o pensador Pierre-Joseph Proudon(15), envolvido na Revolução Francesa*. Todos, enquanto estiveram ativos, fizeram o diabo, acompanhados de um punhado de intelectuais e pintores seguindo seus passos. — * De 1789 a 1799: período de intensa agitação política e social, redundando na instituição da República.

Um trio da pesada: Jean Grave, Élisée Reclus e Émile Pouget.

O trio iria, também, marcar presença na barafunda da Primeira Guerra Mundial, iniciada em 28 de julho de 1914 e que fora motivada por ação de um louco(16). Na iminência da deflagração do conflito, Jean Grave, sendo o mais afoito, tomara a iniciativa de formalizar seu apoio aos Aliados*. Paralelamente, junto ao anarquista Piotr Kropotkin(17), cuidaram da redação do Manifesto dos Dezesseis, depois assinado por personalidades do movimento libertário anarquista. Nesse documento, de 28 de fevereiro de 1916, apoiavam o confronto contra o Império Alemão e os demais Impérios Centrais(18). — * Aliados: Império Britânico, França e Império Russo.

Porém, com a guerra já em andamento, começaram a ocorrer divergências entre anarquistas e comunistas. Ou seja, sem nenhuma surpresa, estava instalada a baderna ideológica, fruto de divergências e falta de rumos na cúpula do movimento. Tudo isso serviu também de fermento para inflar o trágico conflito transnacional.

Verdade é o que dizia Kropotkin, de que os artistas eram “instrumentos” da revolução, sendo peças indispensáveis para o sucesso de qualquer conquista política. Suas palavras:

“Vocês, poetas, pintores, escultores, músicos, se entendem sua verdadeira missão e os próprios interesses da própria arte, venham conosco. Coloquem a sua caneta, o seu lápis, o seu cinzel, as suas ideias, à serviço da revolução.” — * No jornal Le Révolté: “Um apelo ao jovens”, 1880.

O ocorrido nos anos do final da década de 1960, com o festival político-musical de Woodstock (USA), confirma o poder da arte para mover as multidões. Abbie Hoffman(19), agitador social e anarquista, co-fundador do Partido Internacional da Juventude (“Yippies”), foi o mais notável entre os líderes do movimento. Cabe notar que as ideias virulentas de Woodstok rapidamente se espalharam, ganhando mais força a partir da década de 1970.

Entretanto, desde logo em Woodstock, os acontecimentos foram mostrando que o paraíso sonhado não era assim tão bom. Aqui vai um relato(20):

“Registraram-se duas mortes (uma por overdose de heroína, outra de atropelamento por um trator), dois partos (um dentro de um carro no trânsito, outro num helicóptero a caminho do hospital) e quatro abortos.”

Pois bem, aquele nascedouro deu origem a incontáveis motivadores políticos intitulados como artistas, eles próprios convictos de que iriam criar um mundo melhor. Outros, que também se diziam artistas, mesmo sem ter noção do que se passava, entraram na onda devido a algum inconformismo ou, apenas, com vontade de aparecer. Na verdade, eram ingênuos ou mal-dotados e parece que tudo continua do mesmo jeito. Agora, formam verdadeiras hordas e sempre encontram algum espaço para se manifestar, seja nas mídias, nos muros e, até mesmo, em alguns salões de arte.

DADAÍSMO

Voltando aos acontecimentos do início do século XX, vê-se que, tanto o anarquismo quanto o comunismo, se mostraram poderosos para manipular os artistas. Nesse sentido, não custa repetir, inúmeros pintores do pós Neo-Impressionismo passaram a receber tais influências.

Entre todos, notáveis foram os que se formaram em torno do Dadaísmo, o suprassumo da balbúrdia na arte, que pautava tanto pela negação do passado, quanto a do presente. Esse movimento surgiu durante a Segunda Guerra mundial, quando um grupo formado por artistas de vários gêneros e intelectuais, de modo geral, se reuniu em Zurique para fundar o movimento intitulado Dada. Nesse caso, cada guerreiro das artes usava a arma do deboche.

O exótico Tristan Tzara. / Urinol dadaísta de Marcel Duchamp; título “A fonte”.

O ponto de reuniões do grupo fundador foi o Cabaret Voltaire, criado por Hugo Ball(21) e Emmy Hennings(22), tendo sua inauguração ocorrido em 1916*. O nome da casa foram buscar na sátira de Voltaire(23), cujo título é “Cândido ou o Otimismo”. Nessa narrativa do notável filósofo, se contrapõem ingenuidade e esperteza, desprendimento e ganância, caridade e egoísmo, delicadeza e violência, amor e ódio. — * 05 de fevereiro de 1916.

Hennings, tendo como seu ídolo Voltaire, se incluía como filósofo iluminista(24). De fato, os ideais de Voltaire cabiam muito bem na receita do dadaísmo. Voltaire foi também propagandista das ideias liberais, subproduto do Iluminismo. defendendo o amplo direito de expressão e a liberdade política. Frequentava a Société du Temple(25), que reunia libertinos* e livre pensadores. — * Libertino: aquele que é apologista e praticante do prazer sem limites.

Naquela época, século XVIII, importantes avanços na economia, na cultura e na ciência, levaram à crença de que o progresso traria a plena felicidade. Hoje se sabe que não é bem assim. Ademais, embora afirmasse que todo indivíduo tem o direito de acreditar na igualdade entre os semelhantes, Voltaire tinha veemente desprezo pelo povo.

Aqueles que abraçaram o movimento artístico, proposto como renovador, ficaram conhecidos como dadaístas. Eram escritores, poetas, pintores, etcétera e tal, liderados por Tristan Tzara(26). Juntaram-se a eles dois desertores do serviço militar alemão, Hugo Ball e Hans Arp(27). Na qualidade de mais afoito do trio, Tristan logo tratou de escrever um Manifesto, de onde se retiram estas palavras:

Dada nada significa. / Se acharmos fútil e não perdermos tempo com uma palavra, que não quer dizer nada… O primeiro pensamento que passa pelas cabeças é bacteriológico: de encontrar sua origem etimológica, histórica ou psicológica, pelo menos. Ficamos sabendo no jornal, que os negros Krou chamam o rabo da vaca sagrada de DADA. O cubo e a mãe, em uma determinada parte da Itália, são DADA. Um cavalo de madeira e a enfermeira, dupla afirmação em russo e em romeno, é DADA. Sábios jornalistas veem isso como uma arte para bebês, outros, santos jesuschamandoascriancinhas do dia, o retorno ao primitivismo seco e barulhento, barulhento e monótono. […]

Qualquer trabalho pictórico ou plástico é inútil; esta fábula da humanidade. […] Sou contra os sistemas, o mais aceitável entre os sistemas é aquele onde não há princípio algum. […] Eu destruo as gavetas do cérebro […]” — Tristan Tzara.

Ao mesmo tempo, as imprudências subvertiam os preceitos da boa escrita. Por exemplo, na sua obra “L’oeil cacodylate”, o dadaísta Francis Picabia(28) fez uma foto-colagem sobre tela, onde violenta o alfabeto. Nela, em péssima grafia, abusou do I maiúsculo, colocando em todos o pingo do minúsculo. Aliás, o mau exemplo pegou, virou moda, e está hoje disseminado entre os analfabetos funcionais.

Pingos nos Is maiúsculos, em “L’oeil cacodilate”, colagem de Picabia.

Desde então e já faz bastante tempo, tem se espalhado pelo mundo um punhado de “artistas” sem compromissos estéticos*. Porém, se assim pode ser dito, se alvoroçam em praticar as estéticas do absurdo, talvez a maioria, pois não se encaixam em qualquer estilo. Seus parâmetros são pessoais e indefinidos, mais que isso, pautados pelo vale-tudo. Nesse sentido, esses autores se sentem liberados para mudar de ideia quando bem entenderem e sem qualquer justificativa. * Estética: ciência que determina o caráter do belo, na natureza e na arte; filosofia das belas-artes.

Pois bem, a história mostra que o anarquismo parece ser imortal e se ramifica por todo lado. De acordo com o que disse Murray Bookchin(29), comuno-anarquista norte-americano (falecido em 2006), em todo o mundo está presente um anarquismo que corre paralelamente à arte, o de “estilo de vida”. Sua opinião:

“Estranhamente, muitos anarquistas de estilo de vida, agem como os visionários da Nova Era. Têm uma capacidade notável de imaginar que podem mudar tudo e tendem a levantar fortes objeções quando são solicitados a, verdadeiramente, mudar qualquer coisa na sociedade, exceto quando é para cultivar uma maior ‘autoexpressão’. Nesse caso, têm devaneios místicos e transformam seu anarquismo em uma forma de arte, depois recuando para o quietismo social.

Se tal abordagem comunalista parece ser tão formidável, chego a suspeitar de que, para os anarquistas de estilo de vida, a batalha já está perdida. Entendo que, se a anarquia possa significar tão-somente uma estética de “autocultivo”, um motim excitante, um grafite em spray, ou um heroísmo personalista, alimentados por um “imaginário” autoindulgente, eu teria pouco a ver com isso. Quando a contracultura dos anos 60 se desdobrou na cultura da Nova Era – dos anos 70 –, ela se tornou um modelo para estilistas e butiques burguesas, quando o personalismo teatral esteve muito em moda.” — * Em “What is Communalism? The Democratic Dimension of Anarchism”.

“Intervenção urbana” em um muro de Paris.

Os anarquistas de estilo de vida, admiram e praticam a arte anônima e urbana. Mas, as designações de “estilo” têm variado, como intervenção urbana, grafite, pichação consciente, arte sabotagem, terrorismo poético, etc. Ou seja, em largo sentido, tudo bem cabe no conceito de anarquia, com política ou sem política. Quando chega aos extremos do absurdo, a sociedade nomeia a falsa arte como vandalismo.

Hoje em dia, as estéticas do feio e do absurdo estão à vista por toda parte, porém, tornando o mundo mais desagradável. E pior, data venia, tem gente que gosta do que se faz e ainda incentiva esses “dadaísmos”.

Por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

• EM TEMPO – No Brasil, o dadaísmo surgiu forte em 1922, principalmente através da literatura, com Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia, que participavam do Grupo dos Cinco, fundadores da Semana de Arte Moderna. Na pintura, Anita Malfatti e Tarsila do Amaral. / Macunaíma, a obra mais notável de Mário de Andrade, de cunho político e dadaísta, abusa da anarquia e do deboche, mostrando-se demolidora do orgulho nacional, ou seja, da brasilidade.

• Leia mais, clique: “Apagão em Paris”“No bordel filosófico” e “Terapia em Azul”.

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(1) MONET, Oscar-Claude – (Paris, *14.11.1840 / Giverny, França, †05.12.1926). O mais célebre pintor impressionista. Considerado o pai do movimento.

(2) ROOD, Ogden Nicholas – (Danbury, USA, *03.02.1831 / Manhattan, †12.11.1902). Físico.

(3) SEURAT, Georges – (Paris, *02.12.1859 / Paris, †29.03.1891). Considerado, junto a Cézanne, Gauguin e Van Gogh, um dos pintores em mais evidência do Pós-impressionismo. Contudo, não se pode confundir o gênero com o Neo-impressionismo.

(4) HUYSMANS, Charles-Marie-Georges – mais conhecido como Joris-Karl Huysmans (Paris, *05.02.1848 / Paris, †12.05.1907) Escritor e crítico de arte.

(5) RENOIR, Pierre-Auguste – (Limoges, França, *25.02.1841 / Cagnes-sur-Mer, França, †03.12.1919.

(6) PISSARRO, Jacob Abraham Camille – (Ilha de Saint-Thomas, Antilhas Holandesas, hoje, Ilhas Virgens, USA , *10.07.1830 / Paris, †13.11.1903).

(7) FÉNÉON, Félix – (Turin, Itália, *29.03.1861 / Châtenay-Malabry, França †29.02.1944). Jornalista e crítico de arte. Depois de servir como soldado da infantaria, conseguiu um emprego de redator do Ministério da Guerra, em Paris, onde atuou entre 1881 e 1894.

(8) Fénéon tratou do Neo-impressionismo no seu livro “Les Impressionistes” (1866), dedicando um capítulo a Cammille Pissarro, Georges Seurat, Paul Signac e Lucien Pissarro. / Página 19. // Além de Fénéon, estiveram solidários ao movimento os críticos Arsène Alexandre et Antoine de la Rochefoucauld.

(9) TAILHADE, Laurent – (França, *16.04.1854 / †02.11.1919). Poeta satírico, anarquista, polemista, ensaísta e tradutor.

(10) PICASSO, Pablo Ruiz – (Málaga, Espanha, *25.10.1881 / Mougins, França, †08.04.1973). // Em 29.10.1944, o jornal L’Humanité – do partido comunista francês – publicou um depoimento de Picasso: “Minha participação no Partido Comunista é a continuação lógica de tudo e da minha vida, de todo meu trabalho. […] Queria, pelo desenho e pela cor – uma vez que estas eram minhas armas –, penetrar cada vez mais no conhecimento do mundo e dos homens, para que esse conhecimento nos libertasse a cada dia mais. Tentei dizer, do meu jeito, o que considerava o mais verdadeiro, o mais justo, o melhor e, naturalmente, o que sempre foi mais bonito. […] Sim, estou ciente de ter sempre lutado, com a minha pintura, como um verdadeiro revolucionário. […]

(11) O cubismo surgiu no início do século XX, revolucionando as artes plásticas, com reflexos na arquitetura, na literatura e na música. Desenvolvido a partir de 1907, principalmente por iniciativas de Pablo Picasso e Georges Braque.

(12) GRAVE, Jean – (Breuil-sur-Couze, França, *16.10.1854 / Vienne-en-Val, França,  †?.12.1939). Inicialmente socialista, se tornou comunista libertário, a partir de 1880.

(13) RÉCLUS, Jean Jacques – (Sainte-Foy-la-Grande, França, *15.03.1830 / Torhout, França,  †04.07.1905). Geógrafo e militante anarquista. Membro da Comuna de Paris e da Primeira Internacional dos Trabalhadores.

(14) POUGET, Émile – (Pont-de-Salars, França, *12.10.1860 / Palaiseau, França, †21.07.1931). Anarco-comunista, anarco-sindicalista e antimilitarista.

(15) PROUDHON, Pierre-Joseph – (Besançon França, *15.01.1809 / Paris, †19.01.1865). Polemista, jornalista, economista, filósofo, sociólogo e político. Membro do parlamento francês.

(16) Em 28.06.1914, domingo, por volta de 10h45, Francisco Fernando – herdeiro da Áustria, Hungria, Croácia e Boêmia – e sua esposa, foram mortos em Sarajevo, capital da província austro-húngara da Bósnia e Herzegovina, pelo jovem terrorista Gavrilo Princip – 19 anos de idade –, membro da Jovem Bósnia e do grupo terrorista Mão Negra. O acontecimento foi decisivo para o desencadeamento da Primeira Guerra Mundial.

(17) KROPOTKIN, Piotr – (Moscou, *09.12.42 / União Soviética, †08.02.1921). Geógrafo, explorador, zoólogo, antropólogo e teórico do Comunismo Libertário. Filho do príncipe Aleksey Kropotkin, rejeitava a vida na corte; prestou serviço militar na Sibéria. Lá, teve o primeiro contato com o movimento anarquista, criado pelo russo Mikhail Bakunin, que propunha a destruição da estrutura social vigente. // Bakunin, nascido em 1814, participou de quase todas as revoltas populares na Europa do século XIX. Junto com Karl Marx, foi um dos personagens mais influentes do movimento internacional de trabalhadores. Assim mesmo, era persona non grata para os comunistas, pois considerava que um estado socialista manteria a opressão ao operariado e camponeses, mas com outro nome.

(18) Impérios Centrais ou Potências Centrais: designação atribuída à coligação formada entre Alemanha e Áustria-Hungria, durante a Primeira Guerra Mundial, à qual se juntariam o Império Otomano e a Bulgária.

(19) HOFFMAN, Abbie – (Worcester, USA, *30.11.1936 / Solebury Township, USA, †12.04.1989) Escritor e psicólogo. ••• WOODSTOCK – o termo se refere ao público que, em 1969, do dia 15 ao 20, se reuniu no Woodstock Music and Arts Festival, nos terrenos de uma fazenda dos Estados Unidos. Também se diz Woodstock Nation (Nação Woodstock), comunidade tratada como “baby boomer generation”. Em inglês, “baby” é bebê; “boomer” é satanás ou espírito do mal. O termo é frequentemente substituído por “hippie generation”. Seus propósitos eram os de defender a “contracultura”, o esquerdismo, o ativismo político, o rompimento com as categorias tradicionais dos gêneros humanos, a adoção do vegetarianismo, a produção de uma nova música para as multidões, o incentivo à política do “paz e amor” e a liberação do uso de drogas.

(20) Fonte: “O Observador”, Portugal. Aqui: https://observador.pt/2016/06/27/woodstock-41-imagens-do-primeiro-festival-do-sexo-livre/

(21) BALL, Hugo – (Pirmasens, Alemanha, *22.02.1886 / Sant’Abbondio, Suíça, †19.09.1927). Poeta , escritor e filósofo. Considerado como inventor da poesia fonética. / Poesia fonética: gênero de composição na qual os aspectos fonéticos da linguagem se sobrepõem aos valores semânticos e sintáticos convencionais, podendo, inclusive, não fazer uso das palavras. Na forma, se aproxima a uma composição musical.

(22) HENNINGS, Emmy – (Flensburg, Alemanha, *17.01.1885 / Lugano, Suiça, †10.08.1948). Escritora, poeta, romancista e artista de cabaré.

(23) AROUET, François-Marie (pseudônimo: Voltaire) – (Paris, *21.11.1694 / Paris, †30.05.1778). Filósofo iluminista, escritor, ensaísta e deísta. O deísta é aquele que assumiu uma posição filosófica que rejeita a revelação, admitindo que a razão e a observação da natureza são suficientes para estabelecer a existência de um Ser Supremo, ou seja, o Criador do Universo.

(24) Iluminismo: movimento intelectual e filosófico, que esteve em evidência entre 1715 a 1789, depois seguido pelo romantismo. / Ainda na época do Iluminismo e como consequência, surgiu o liberalismo, que foi enaltecido por filósofos e economistas.

(25) SOCIÉTÉ DU TEMPLE – Sociedade literária e filosófica, que surgiu no fim do século XVII. Seus membros se reuniam no Enclos du Temple (Recinto do Templo ou Recinto dos Templários), de Paris. Outrora, espaço murado e com várias edificações, que abrigou a Ordem dos Templários da França. O complexo arquitetônico foi destruído e dele pouco resta.

(26) TZARA Tristan – judeu, nascido Samuel ou Samy Rosenstock (Moinesti, Romênia, *16.04.1896 / Paris, †25.12. 1963). Poeta. Seu pseudônimo, numa tradução livre, quer dizer “Triste Terra”, adotado como protesto ao tratamento recebido pelos judeus da Romênia.

(27) ARP, Hans Peter Wilhelm – dito como Jean Arp, (Strasbourg – hoje na França -, *16.09.1886 / Basiléia, Suíça, †07.06.1966). Naturalizado francês. Co-fundador do Dadaísmo e, em seguida, se aproximando do Surrealismo.

(28) PICABIA, Francis-Marie Martinez – (Paris, *22.01.1879 / Paris, †30.11.1953). Pintor e poeta. Estudou em Paris, na École des Beaux-Arts e na École des Arts Décoratifs. Influenciado pelo impressionismo e pelo fauvismo, especialmente os de Picasso e Sisley. De 1909 a 1911 esteve vinculado ao cubismo e foi membro do grupo “Puteaux”, onde conheceu os irmãos Marcel Duchamp, Jacques Villon, Suzanne Duchamp e Raymond Duchamp-Villon. Em 1913 viajou aos Estados Unidos, onde entrou em contato com o fotógrafo Alfred Stieglitz e o grupo Dada estadunidense. Em Barcelona, publicou o primeiro número da revista dadaísta “391” (1916) contando com colaboradores como Guillaume Apollinaire, Tristan Tzara, Man Ray e Arp. Em Paris, cria com André Breton (surrealista) a revista “491”.

(29) BOOKCHIN, Murray – (Nova Iorque, *14.01.1921 / Burlington, USA, †30.06.2006). Filósofo político, orador, comuno-anarquista, organizador sindical e educator. Pioneiro no movimento político ecológico, formulou e desenvolveu a teoria da Ecologia Social e do Planejamento Urbano, dentro do pensamento anarquista e ecologista.

6 Comentários »

  1. Nada entendo do assunto. Sobre Arte apenas olho, gosto ou não gosto. Meu pai comprou uma coleção quando eu ainda era criança chamada Museus da Europa. Eu amava aqueles livros. Passava horas olhando as reproduções e lendo sobre os artistas. Tinha meus sete, oito anos… E descobri que os meus preferidos eram os impressionistas. Eram os mais bonitos para meus olhos infantis. Eu viajava dentro da pintura. O mesmo digo para o neo-impressionismo. Pissaro! Pelo texto me parece que ele estava “errado”.
    Eu sei o que você quis dizer. Para mim ainda importa o resultado final. Mesmo quando pretendem outra coisas.
    Me lembrei do meu tio João que errou a receita de um doce de manga. Deixou queimar. Mas nunca mais conseguiu fazer um doce mais saboroso do que aquele. Sucesso total.

    Um dos artistas se destacou para mim olhando aquelas reproduções: Van Gogh. As pessoas caçoavam: “era um louco, cortou a orelha, se matou…” Estou falando sobre meus familiares comentando enquanto olhavam os livros. Eu via uma alma pura e uma sensibilidade além da conta. Além disso seu estilo era único. Acho que nem precisava assinar nada. Suas telas eram sua assinatura.

    Sobre a turma de Woodstock..Bem, é a minha. Uma vez hippie, ou metida a hippie (que era como me chamavam) sempre metida a hippie. Mas meu festival preferido continua sendo o de Monterey em pleno Verão do Amor. E… all you need is love!

    Comentário por sertaneja — 01/02/2021 @ 3:22 pm | Responder

    • Sertaneja:
      Pissaro começou no Impressionismo, passou pelo Neo-impressionismo, viu que estava errado e voltou ao Impressionismo. É um magnífico impressionista!
      Em tudo concordo com você.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/02/2021 @ 4:26 pm | Responder

  2. Eduardo, para deixar um comentário que valesse a pena, eu precisaria conhecer melhor o assunto e ler mais vezes o seu texto. Apesar de longo, prendeu-me a atenção e pude aprender muita coisa. Vou ler outras vezes o texto e, se acontecer de surgir algo que me pareça útil, volto a lhe escrever.

    Comentário por Pedro Faria Borges — 04/02/2021 @ 11:23 am | Responder

    • Pedro:
      Seu comentários são sempre valiosos. Sei que o tema tem complexidades e pode sugerir desdobramentos. Foquei nas artes plásticas, que é um assunto que conheço melhor, então posso dizer que a política tem destruído a arte. Para tocar em nossas almas, há que, primeiramente, buscar o sublime!
      Muito obrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 04/02/2021 @ 3:59 pm | Responder

  3. Com relação ao assunto tratado, sou apreciadora, visitante de museus e galerias. Ao apreciar um quadro, especialmente, a emoção do momento me impede de questionar a técnica, pois não tenho elementos para discuti-la. Gosto ou não gosto, sou leiga no assunto. Agradeço seu post, pois ele abriu-me mais uma janela.

    Comentário por Ydernéa — 06/02/2021 @ 10:38 am | Responder

    • Ydernéa:
      Quem bom saber que a leitura lhe foi útil.
      Muito obrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 06/02/2021 @ 2:29 pm | Responder


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