Sumidoiro's Blog

01/03/2021

ELA SABIA FRANCÊS

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:54 am
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♦ No Internato Cassão

Memórias de uma ex-aluna, abrem uma janela para revelar qual foi a primeira escola feminina de Belo Horizonte, o Colégio Cassão. Um internato, onde estudou Maria Helena, conhecida como Lelena, seu nome de carinho. É disso que vamos tratar. 

À direita: professora Áurea Palermo, depois de casada.

Remetendo ao início do século XX, a aluna fala do seu tempo de ginásio:

      “[…] Áurea, a professora de francês do colégio, era querida das alunas, não havendo matéria que se estudasse tanto, exercícios que fossem mais caprichados, pois todas queriam agradá-la.

Magrinha, elegante, de estatura mediana, dentes perfeitos e brancos, voz suave, maneiras delicadas com as alunas, sempre impecável, modesta nas suas roupas, saia curta e justa, blusas claras, bem lavadas e passadas, cinto largo de couro na cintura, era para nós um tipo de beleza e de elegância, apesar dos óculos de míope que usava. Isso, a nosso ver, não a enfeava, antes dava-lhe certo charme.

Eram três as irmãs Palermo, todas professoras no colégio: Aurora, Áurea e Aurete, filhas de um viúvo que as internara ali desde pequeninas. Tinham crescido, estudado e se formado, passando de alunas a professoras.

Aurora, a mais velha, mansa e triste, a mais apagada das três, lecionava o curso primário. Aurete, a do meio, quase tão criança quanto as alunas, alegre, inteligente, cheia de vida e graça, ensinava geografia. Conhecia tão bem a matéria que dava aulas lendo o jornal do dia, enquanto de pé, em frente ao mapa, a aluna discorria sobra a lição.

A qualquer engano, porém, sobre a localização de uma cidade, rio ou vulcão, embora de olhos baixos e mergulhada na leitura, levantava a cabeça e, tomando a régua, apontava a direção certa. Quanto a Áurea, a predileta, tinha todas as qualidades possíveis: bonita, inteligente, culta, meiga, a sua afeição era disputada por toda classe.

A mocidade das três irmãs escoava-se lentamente dentro das paredes daquele colégio e só tinham notícias da vida lá fora, através das externas na hora do recreio, no pátio que dava para a sala de dona Romualda. […] Como devia ser maravilhosa a vida lá fora, diziam as internas, suspirando, ansiosas por aquele mundo sedutor, além daqueles muros. Os castelos que faziam para quando saíssem dali!

Aurete queria um noivo que lhe desse uma vida de festas e de liberdade e, tamanha era sua obsessão, que se a campainha da porta principal do colégio soava, parava instantaneamente de falar, o ouvido à escuta, os olhos numa interrogação muda, dizendo depois de um pequeno silêncio:
– É alguém que vem me pedir em casamento.

Mas não era só ela que sonhava: Sinhazinha, Lourdes Mata, todas tinham o seu sonho para um dia, não sabiam qual.

Áurea sonhava com o seu amor, o seu príncipe encantado, que viria buscá-la naquela prisão. Apaixonara-se por Marcelo, filho de uma das melhores famílias de Belo Horizonte, vivendo daquele sonho. Vira-o algumas vezes na rua, tivera com ele um flerte e só pensava nele, nos seus grandes olhos cheios de doçura, na felicidade de falar com ele, de segurar suas mãos.

A classe toda acompanhava o caso, vivendo a paixão como se fosse dela. Se Marcelo ia a uma festa, no domingo seguinte, Aurea ficava sabendo como se tinha apresentado, com quem tinha dançado, as vezes que o fizera, se fora de “par colado” ou não. […]

Só Aurora não desejava, não esperava nada. Sempre melancólica, de olhos baixos, inteiramente desinteressada pelo que se passava fora dos muros do colégio, concentrava sua vida naquelas irmãs, pelas quais não hesitaria em fazer os maiores sacrifícios.

Colégio Cassão, região central de Belo Horizonte.

Não era apenas as alunas que adoravam Áurea. Entre as diretoras, o seu prestígio também era grande: o prestígio da graça, da inteligência. Ninguém escapava às suas maneiras suaves e cativantes. Se adoecia, era uma inquietação no colégio todo: Áurea estava doente. Dona Romualda, que naquelas ocasiões não permitia a sua permanência no dormitório comum, ia transferi-la para um quarto na residência da diretoria.

Que rebuliço na sala, todos queriam ver a sua passagem, nos braços da diretora, embrulhada no cobertor, muito pálida, os cabelos soltos, um sorriso triste nos lábios. Um sussurro de amor corria pela classe. Seríamos capazes dos maiores sacrifícios para que nos dirigisse uma palavra apenas. Era uma paixão coletiva, à qual não escapei […]

Interessada em agradar Áurea, me adiantei rapidamente em francês, matéria que estudava com o maior prazer. Queria ser notada e, em pouco mais de um ano de estudos, obtive o meu intento. Como prêmio por ser aplicada, me confiou a orientação do estudo das classes mais atrasadas do que a minha. Exultei de alegria com a distinção concedida a poucas e, então, mais do que nunca, queria estar sempre entre as primeiras. […] Que felicidade!

Numa tarde, Áurea entrou na sala, correu os olhos por lá, encaminhou-se para o meu lado, onde parou, debruçando-se sobre a carteira:

– Maria Helena, como você vai ser transferida para a sala de dona Romualda, vamos começar logo com as lições de francês.

Antes que pudesse me refazer do susto (tinha horror de mudar de sala), retirou de uma pilha de cadernos, que carregava numa das mãos, um livro fino, de capa amarela (Primeiro Guyau), que abriu e me mandou ler na primeira página(1). Sem ousar desobedecer, comecei gaguejando a soletrar as palavras, cuja pronúncia ela corrigia e, ao final, para quem nunca tinha lido francês, me desembaracei mais ou menos.

Depois da leitura, foi a vez da aula de gramática e do primeiro verbo: avoir (ter), que me fez conjugar em todos os tempos, juntamente com ela, me deixando a certa altura, para que continuasse sozinha, o que fiz sem errar. Olhou-me sorrindo e falou com surpresa:
– Já tinha estudado antes?
    – Não senhora.
– Então, como sabe ler direito?
    – Leopoldo(2), meu tio, já estudou e, como estuda alto, acabei aprendendo também. […]”

———

      • Agora, alguns detalhes sobre as personagens e o Colégio.

← Maria Helena Cardoso (Lelena) — Natural de Diamantina (*24.05.1903 / †24.05.1977), tendo vivido em Curvelo (MG) e, depois, em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Graduada em Farmácia, autora do livro “Por onde andou meu coração” – memórias – (1967), de onde se extraiu a presente narrativa, e mais, “Vida-Vida” (1973) e “Sonata Perdida” (1979). / Filha de Joaquim Lúcio Cardoso e Maria Wenceslina Netto Cardoso. / Irmãos: Regina Cardoso, Fausto Cardoso (médico), Adauto Lúcio Cardoso (Presidente da Câmara dos deputados, Ministro do STF), Maria de Lourdes Cardoso e Joaquim Lúcio Cardoso Filho (autor de “Crônica da casa assassinada”, etc.). / Prima, em segundo grau, do autor deste Blog (por parte de mãe).

Irmãs Palermo – Áurea (*1894 / †24.03.1990), de três irmãs, a do meio. As duas outras, Aurora (*1892 / †1955) e Aurette (*1897 / †1983), filhas de Maria Celeste Guimarães(⊗) e Giovanni Battista Palermo, italiano de Cosenza. Com o falecimento da esposa, Giovanni internou as filhas no Colégio Cassão. Depois de formadas, continuaram morando no educandário, dando em troca o trabalho como professoras. — Filha de Francisco Cândido da Silva e Anna Augusta da Cruz. Nascimento: Sabará, MG, *1878 / Morte: Sabará, †16.11.1902.

Colégio Cassão – Fundado em Ouro Preto, pelas irmãs Leopoldina Cassão e Romualda Cassão, depois transferido para a capital Belo Horizonte (MG), logo após sua inauguração (em 1897). — Leopoldina Cassão (*1867 / †18.04.1964), filha de Libânia de Almeida e Manoel Bernardes da Cunha Cassão, faleceu aos 97 anos de idade. Seus restos estão depositados no Cemitério do Bonfim (BH), quadra 19, carneiro 92. — Romualda Cassão (*1873 / †10.08.1974), com a mesma filiação, faleceu aos 101 anos de idade. Seus restos estão depositados no Cemitério do Bonfim (BH), dividindo o mesmo carneiro com a irmã. — Ao falecerem, ambas residiam na rua Sergipe, atrás da Igreja da Boa Viagem.

Pesquisa, texto e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

——

(1) “Cours Moyen / La première Année de lecture courante” / par M. GUYAU — Première Partie: “Devoirs de l’enfant et de l’homme – 1. L’union dans la famille.La grappe de raisin. → Une mère donna à sa fille une grappe de raisin; la jeune fille, après l’avoir prise, songea que cette grappe ferait plaisir à son frère et la lui porta. / Le frère la prit et dit: – Mon père, qui travaille là-bas, doit être fatigué: portons-lui cette grappe rafraîchissante. / Le père prit la grappe à son tour, puis, apercevant sa femme non loin de là, il s’empressa de venir près d’elle pour la lui offrir. / C’est ainsi que la grappe de raisin, après avoir fait le tour de la famille, revint dans les mains qui l’avaient donnée. Heureuse la famille ou l’union règne! C’est l’image de l’union qui doit régner entre tous les enfants d’une même patrie. // Maxime: Soyons unis par l’affection, et nous serons heureux.”

[TRADUÇÃO] “Curso Médio / Primeiro ano de leitura corrente” / por M. GUYAU – Primeira Parte: “Deveres da criança e do homem – 1. A união na família. – O cacho de uvas. → Uma mãe deu à filha um cacho de uvas; a menina, depois de pegá-lo, achou que esse cacho iria agradar ao irmão e o levou para ele. / O irmão pegou e disse: – Meu pai, que trabalha ali, deve estar cansado: vamos levar para ele este cacho refrescante. / O pai então pegou o cacho e, em seguida, vendo sua mulher não muito longe dali, apressou-se em aproximar-se dela para oferecê-lo. / É assim que o cacho de uvas, depois de ter percorrido a família, voltou às mãos que o tinham dado. Feliz é a família feliz onde reina a união! É a imagem da união que deve reinar entre todos os filhos de uma mesma pátria. // Máxima: Sejamos unidos pelo afeto e seremos felizes.” /// ADOTADO, na França, no nível correspondente à antiga primeira série ginasial do Brasil.

(2) SOUZA NETTO, Leopoldo – (Rio de Janeiro, †15.01.1967). Quando ainda vivia em Curvelo, tornou-se professor de português. Ao mudar-se para o Rio de Janeiro, acompanhando a família, passou a lecionar no Colégio Dom Pedro II. Nunca se casou. Ao lado, aviso para sua missa de 7º dia de falecimento. / “Correio da Manhã”, edição de 22.01.1967. / (Tio avô do autor deste Blog.)

6 Comentários »

  1. Prezado Eduardo,
    Durante um bom tempo, trabalhei no Colégio Pitágoras, Rua Timbiras, 1375, sem imaginar que, ao lado, era a sede do Colégio Cassão, primeiro internato feminino de Belo Horizonte. Soubesse disso naquela época, tenho certeza de que teria tido mais inspiração para ministrar as minhas aulas de português. Gostei de ler o texto da Maria Helena e de perceber, mais uma vez, o carinho seu por essa prima. Fiquei com vontade de ler “Por onde andou meu coração”, vontade de saber os caminhos desse coração tão delicado e, ao mesmo tempo, tão determinado e sábio.
    Um grande abraço,
    Pedro

    Comentário por Pedro Faria Borges — 02/03/2021 @ 9:43 am | Responder

    • Pedro:
      Gostei o seu comentário. Entendo que há mistérios na vida que ainda não sabemos compreender. Você ter pisado muitas vezes na mesma calçada das irmãs Cassão, deixa-me, de novo, com uma pulga atrás da orelha.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/03/2021 @ 11:32 am | Responder

  2. Obrigada pelo post que me remeteu aos anos de ginásio, quando estudei francês com uma professora dedicadíssima.
    Motivar a recordação é um privilégio e você faz isso muito bem. Um abraço, Ydernéa

    Comentário por Ydernéa — 02/03/2021 @ 5:28 pm | Responder

    • Ydernéa:
      Disseram eu acreditei: recordar é viver. Agora, recordo para continuar vivendo, mas selecionando o que não vale a pena viver de novo.
      Muito obrigado e um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 02/03/2021 @ 7:14 pm | Responder

  3. Encantador. Cheguei a ver as cenas e o rosto da professora. Uma coisa eu não entendi. Elas moravam dentro do colégio? Não podiam sair? Por que era prisão para elas?

    Comentário por sertaneja — 03/03/2021 @ 2:28 pm | Responder

    • Sertaneja:
      O colégio tinha internato. Lelena estudava como externa.
      Um abraço do Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 03/03/2021 @ 2:47 pm | Responder


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