Sumidoiro's Blog

01/04/2021

FILHO DA DROGA

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:28 am

♦ O nome e sua história

De onde vem o assassino? Digo, o vocábulo. A versão mais difundida vem de Marco Polo, o viajante italiano. No século XIII, ele passou por Alamut(1), no Irã, perto da fronteira com a Pérsia, lugar que, mais tarde, ficou conhecido como Vale dos Assassinos(2). Lá conheceu um castelo, dito como Fortaleza dos Assassinos, situada no alto de uma montanha, onde vivia um homem todo poderoso, que dominava a vizinhança. * Quer dizer “ninho da águia”.

Consta dos escritos(3) de Marco Polo, na parte que começa com o título:

Sobre o Velho da Montanha; seu palácio e jardins; sua captura e sua morte.

      E assim prossegue: “Dito isso, agora direi quem é o Velho da Montanha. Antigamente, existia um distrito onde estava situada sua morada e domínio, era chamado de Mulehet, significando na língua dos sarracenos*, o lugar dos hereges e do seu povo, os Muleetitas ou detentores de princípios heréticos, tal como se aplica o termo dos Patarinos(4) para certos hereges cristãos. Esse Velho atendia pelo nome de Alo-eddin e era maometano**. — * Designação genérica dada pelos cristãos, a árabes e/ou muçulmanos. / ** Liderado de Maomé, profeta do Deus de Abraão.

Ele mandara construir um belo jardim, entremeio a duas altas montanhas, onde havia também plantado um pomar exuberante, contendo todas as variedades de frutas e vinha cercado por um belo arvoredo. Nas edificações que compunham o palácio e anexos, havia adornos em ouro e pinturas, sendo que as peças do mobiliário, em grande parte, eram revestidas de seda.

Palácio onde viviam os assassinos.

Lá, através de pequenos canais, corria água muito límpida em vários ambientes, onde sempre estavam disponíveis vasilhas com vinho, leite e mel. Para morar no palácio, levaram graciosas e belas donzelas. Sabiam cantar e tirar músicas de variados instrumentos, e estavam sempre a dançar. Mais que isso, sempre prontas para oferecer lisonjas e carícias, todas que se possa imaginar.

Essas donzelas, muito bem vestidas em ouro e seda, podiam ser vistas amiúde tomando sol no jardim, ou noutro recanto do palácio. Porém, as demais mulheres, serviçais que lá habitavam, viviam trancadas e nunca tinham acesso para fora do edifício, ao ar livre. Ora, a motivação do Velho, para formar um conjunto de edificações de tal magnitude, com tais características e impor as regras de convivência, foi consequência do que lhe teria dito Maomé. Ou seja, quem as tornasse realidade, seguindo suas recomendações, estaria atendendo à sua vontade.

O Velho dava a entender que, também, era profeta e companheiro de Maomé, e que tinha o poder de colocar no paraíso quem bem quisesse. Por outro lado, era impossível adentrar nesse ambiente sem ser chamado, porque junto à muralha que cercava o domínio – jardins e castelo –, havia uma construção fortificada e, nela, uma passagem secreta para dar acesso ao interior.

O Velho e três assassinos se divertindo com as donzelas.

Muito importante foi o fato de que, para compor a sua corte, o Velho convocava jovens de 12 a 20 anos de idade, audazes e valentes, e que denotavam ser afeitos às armas. Nesse sentido, eram escolhidos entre os que mais se destacavam lá pelas cercanias.

Com o propósito de instruí-los, o Velho fazia pregações sobre as regras e deveres para quem viesse viver naquele Jardim de Maomé. Mais que isso, de vez em quando, administrava uma droga a uns dez ou doze desses jovens, o que os levava a um estado de torpor, a ponto de parecerem meio mortos.

Logo em seguida, passados três ou quatro dias, ainda em estado de ligeira sonolência, eram conduzidos ao jardim. Até que, no momento em que acordavam, se viam frente ao Velho, que perguntava onde estiveram. Nesse momento, enfaticamente, respondiam:

‘- No paraíso, por graça de Vossa Alteza.’

Imediatamente, diante de inúmeras pessoas da corte, revelavam as memórias do paraíso que haviam visitado. Essas manifestações deixavam os ouvintes perplexos. E o Velho sempre emendava, este foi o mandamento do nosso profeta:

‘Quem defende o seu Senhor, certamente irá para o céu. E se você for obediente a mim, também terá essa graça.’

Animados por tais palavras, os jovens se sentiam prontos e honrados em receber as ordens do Velho. As consequências de tal desprendimento é que, toda vez que algum príncipe da vizinhança necessitava de algum “serviço”, podiam contar com a colaboração desses valentes servidores, os quais ficaram conhecidos como assassinos*.(5)  * Consumidores de haxixe.

O senhor de Hulagu e sua consorte.

Para atender ao Velho, estavam sempre dispostos a enfrentar qualquer perigo, mesmo correndo o risco de morrerem. Esses fatos repercutiram, de tal maneira, que o Velho se tornou um temido tirano. Ademais, nomeou dois representantes que também atendiam às suas ordens, um em Damasco* e outro no Curdistão**. Por tudo isso, qualquer pessoa, não importa quão respeitada fosse, se ganhasse a inimizade do Velho, não tinha como escapar da morte.  * Atualmente, capital da Síria. / ** Atualmente, abrange partes da Turquia, do Irã, da Síria e do Iraque.

Na escala do poder, acima do Velho, havia o senhor de Hulagu(6), que era irmão de Mangu, o grão-cã*. Vai daí que Hulagu, ao ouvir falar das loucuras daquele tirano, que também mandava roubar os que circulavam pelo país, teve forte reação. Em 1262, enviou seus soldados para sitiá-lo no castelo. O cerco durou três anos, até que, por falta de provisões, o Velho fraquejou e foi forçado a se render. Finalmente, sendo feito prisioneiro, foi condenado à morte. Mais tarde, o castelo foi desmantelado e o Jardim do Paraíso destruído.  * Grande soberano. / ** Região habitada pelos curdos

Invasão do castelo do Velho da Montanha.

• Texto compilado e reescrito, segundo traduções das “Viagens de Marco Polo”.

ETIMOLOGIA

Desde Marco Polo, se acredita que a palavra do português, assassino, teria vindo do árabe assassin, para dizer viciados em cânhamo(7). De uma das espécies dessa planta, se utilizavam as folhas para produzir o entorpecente denominado haxixe, como também o ópio. Assim sendo, quem fumava ou, de alguma outra maneira, ingeria haxixe, seria um haschichiyun(8).

Em diferentes línguas, a palavra aparece das seguintes maneiras: português → assassino; espanhol → acesino; francês → assassin; inglês → assassin; italiano → assassino; etc.

O historiador Giuseppe La Farina(9), italiano, do século XIX, afirmou que, na Europa, a palavra assassino deve ter sido introduzida no momento em que os Cruzados(10) estavam a retornar do Oriente. Disse ainda que, na Itália, o termo se aplicava àqueles que matavam por dinheiro. Nesse sentido, em Florença, havia um decreto que dizia: “Assassino che per pecúnia uccise uomo.” (“Assassino é aquele que, por dinheiro, mata um homem.”).

Trecho da Divina Comédia comentada por Landino.

Na Divina Comédia, de Dante Alighiere, edição do ano de 1487, comentada por Christophoro Landino(11) aparece a palavra assassino. Está no Canto XIX / Inferno, nesta frase:

… o perfido assessin che poiche e ficto richiama lui perche la morte cessa…” (“… o pérfido assassino, que assim se fez, reclama porque a morte cessa…).

Pesquisa, tradução e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

——

(1) Montanha de Alamut, situada na cordilheira de Elbruz. / Em 1090, o castelo que já existia – Ninho da Águia –  e foi conquistado pela Ordem dos Assassinos. / Atualmente, as ruínas estão em processo de restauração.

(2) Vale dos Assassinos: a 100 km de Teerã.

(3) Acompanhado por seu pai Niccolò e seu tio Maffeo, Marco Polo viajou por terra à China, em 1271-1275. Passou 17 anos servindo Kublai Khan (de 1215 a 1294), neto de Genghis Khan e conquistador da China, para quem realizou trabalhos na China e no sul e sudeste da Ásia. Os três venezianos voltaram para sua cidade natal pelo mar em 1292-1295. Marco Polo logo se envolveu na guerra entre Veneza e Gênova, onde equipou e comandou uma galé na marinha veneziana. Em 1296, foi levado como prisioneiro pelos genoveses e, segundo a tradição, enquanto esteve preso narrou as histórias de suas viagens a um companheiro de cela, Rustichello da Pisa, que as redigiu em francês antigo. O relato de Marco Polo não foi apenas um simples registro da viagem, mas uma descrição do mundo, uma mistura de relatório de viagem, lendas, boatos e informações práticas. Por essas razões, Les voyages de Marco Polo, às vezes, é chamada de Divisament du monde (Descrição do mundo) ou de Livre des merveilles du monde (Livro das maravilhas do mundo). — Fonte: Biblioteca Digital Mundial

(4) Patarino – Segundo o cronista de Arnolfo de Milão, o termo teria origem na palavra grega πάθος (pàthos), no sentido de “perturbação”. Nesse sentido, as várias seitas dos patarinos teriam sido de “perturbadores” da ordem.

(5) Segundo Antoine-Isaac Silvestre de Sacy, filólogo, professor de persa no “Collège de France” e estudioso da cultura árabe, em 1809, comentou sobre o nome assassino, dizendo: “Esse nome, […] é dito de várias maneiras; […] assassini, assissini e heissessini […] Basta-me dizer que todos se esvaíram, porque, sem dúvida, nunca encontraram este nome em qualquer escritor árabe.” / Sacy, ainda escreveu: “Entre os escritores orientais, os ‘assassinos’ são atualmente chamados como Ismaéliens, Molahed, quer dizer, ímpios, ou ‘baténiens‘, que significa partidários.” — Em “Mémoire sur la dynastie des assassins et sur l’origine de leur nom”.

(6) Hulagu, filho de Tolui e neto de Ghengis Khan.

(7) Há três qualidades de cânhamo, cujos nomes científicos são Cannabis indica, Cannabis sativa e Cannabis ruderalis. A primeira, natural da Ásia, é apropriada para o haxixe; a segunda, natural da América equatorial, é apropriada para a marijuana. A terceira, é a selvagem, muito disseminada na Europa e Rússia, e utilizada para fins industriais. Serve para a fabricação de têxteis, óleos e rações animais.

(8) Haxixe – Pode ser consumido fumando, normalmente com cachimbo, bongo (tubo de madeira ou bambu) ou usando vaporizador; às vezes por ingestão oral.

(9) LA FARINA, Giuseppe – (Messina, *20.07.1815 / Torino, †05.09.1863) Patriota, escritor e político italiano.

(10) Cruzados – De 1096 a 1270, foram enviadas várias expedições a Jerusalém, que estava sob domínio dos turcos e tendo como intuito reunificar o mundo cristão. Os participantes ficaram conhecidos como Cruzados.

(11) LANDINO, Christophoro – (Florença, *1424 / Borgo alla Collina, †24.09.1498) Importante humanista da renascença florentina.

6 Comentários »

  1. A cada texto um novo aprendizado cultural. Só tenho a agradecer.

    Comentário por sertaneja — 01/04/2021 @ 12:02 pm | Responder

    • Sertaneja: No próximo dia 1 de maio, trarei mais novidades. Muito obrigado, Eduardo.

      Comentário por sumidoiro — 01/04/2021 @ 3:34 pm | Responder

  2. Muito bom. Você me levou a caminhar por estradas desconhecidas. Obrigada, Ydernéa

    Comentário por Ydernéa — 01/04/2021 @ 6:24 pm | Responder

  3. Muito bom. Você me fez caminhar por estradas desconhecidas. Obrigada, Ydernéa

    Comentário por Ydernéa — 01/04/2021 @ 6:29 pm | Responder

  4. Eduardo, é impressionante como a etimologia de um vocábulo pode revelar-nos tanto a respeito da natureza humana. A origem e os caminhos percorridos pela palavra assassino, tão bem descritos por você, mostram-nos o quanto andam juntos o poder, as crenças, as drogas e os crimes. O Velho, um tirano, convocava jovens de doze a vinte anos, incutia-lhes na cabeça algumas crenças e os tornava consumidores de haxixe, sempre dispostos a enfrentar qualquer perigo, mesmo quando corriam o risco de morrer. Dizem que a História não se repete, mas as motivações humanas parecem ser sempre as mesmas. Não sei se estou certo, mas, mesmo que não esteja, obrigado pelas reflexões que seus textos provocam em mim. Um grande abraço!

    Comentário por Pedro Faria Borges — 02/04/2021 @ 5:29 pm | Responder

  5. Pedro: Um dos grandes prazeres da minha vida tem sido passear montado nas palavras. Elas me levam a lugares e fatos extraordinários. Também, às vezes, me assusto. Muito obrigado, Eduardo.

    Comentário por sumidoiro — 02/04/2021 @ 10:19 pm | Responder


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