Sumidoiro's Blog

01/07/2014

NASCIDO PARA MATAR

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 12:00 am

♦ O homem que mandava embora

Num jornal do Rio de Janeiro, de 02.11.1889, contaram um pedaço da história de Fortunato, o mais famoso carrasco de Minas Gerais, falecido seis anos antes. O relato é veraz, embora contenha pequenas falhas de informação, e se confirma através de testemunhos em inúmeras publicações na imprensa de Ouro Preto (MG). O autor(1), jornalista renomado, escreveu para a “Gazeta de Notícias”:

Post - Fortunato & forcaFortunato, a vida para ele era coisa de somenos importância.

O CARRASCO FORTUNATO

Por José Ferreira de Araújo

“Era um homem jovial, o verdadeiro tipo desses bons tropeiros dos sertões de Minas que, à noite, nos pousos, divertem os camaradas rasgando uma chorada chula na viola, enquanto, ao longe, pasta a boiada. Quem não conhecesse a terrível história daquele homem, ao vê-lo risonho, de bentinhos e patuás ao peito, sempre a falar em Deus e Nossa Senhora, estaria longe de julgar que era ele o célebre carrasco, terror da província de Minas Gerais.

O crime não deixara naquele rosto as estrias do remorso. O sangue que ele derramava, por conta da justiça, não lhe produzia no espírito impressão alguma. Fizera-se carrasco como quem se faz sapateiro. Enforcar um homem era, para ele, como se deitasse umas tombas* (*remendasse sapatos). Chamava-se Fortunato e foi o último carrasco que tivemos. Usava de uma frase especial para dizer que havia justiçado um criminoso: “- Mandei-o embora”. 

A vida, para ele, era coisa de somenos. E, se o quisessem ver alegre, era dizer que preparasse para ir enforcar um réu. Nas vésperas da execução, mostrava-se Fortunato de uma expansibilidade extraordinária. Ria, falava consigo mesmo, gesticulava e punha-se até a cantarolar. Para o criminoso, a quem tinha de mandar embora, era ele de uma ternura quase paternal. Tinha, então, extremos de delicadeza e, falando-lhe, uma doçura verdadeiramente feminil na voz.

No momento, porém,  em que deitava a corda ao pescoço do miserável, dilatavam-se-lhe os olhos e brincava-lhe no rosto uma alegria feroz. Os gestos eram então sacudidos e nervosos. Rápido como um relâmpago, cumpria o seu degradante e infame dever, recuperando, logo depois, a calma e a tranquilidade de um justo.

Dormia aquele homem como pode dormir quem nunca teve um mau pensamento, nem praticou uma ação indigna. Tinha amor ao ofício e exercia-o com prazer. Era um tipo digno de estudo, o carrasco Fortunato; e, graças à obsequiosidade de pessoa que o conheceu, podemos hoje oferecer aos leitores alguns dados sobre a vida desse sinistro personagem, que figurou em tantas tragédias judiciárias.

Post - Cadeia O PretoCadeia de Ouro Preto, morada fixa de Fortunato.

Fortunato nascera em 1811, em Lavras, na província de Minas Gerais. Era filho de Jerônimo e Engrácia, escravos como ele, de Antônio Carlos Garcia. Era negro e tinha bastos bigodes. As barbas, em carapinha, emolduravam-lhe o rosto cheio e arredondado. O olhar era vivo e cintilante. As orelhas apresentavam tamanho fora do natural, e como que se moviam quando ele falava com animação. O abdome, volumoso e crescido, bem como mas costas notavam-se duas grandes cicatrizes. Tinha sessenta e duas polegadas* (*1,57m) de altura, era analfabeto e apresentava um aleijão na mão esquerda.

Fortunato era estimado na fazenda pelo seu humor folgazão e porque sabia entreter os seus míseros companheiros de cativeiro, por meio de histórias que ele contava com certa graça. Um dia, porém, revoltado por ter sido castigado, premeditou um assassinato e o executou com a maior calma. Foi vítima do miserável uma infeliz mulher, sua senhora, de nome Anna Custódia de Souza, esposa do fazendeiro Garcia. Recolhido à prisão, e transferido depois para a cadeia de Ouro Preto, foi ele condenado a galés perpétuas(2), como incurso no grau máximo do art. 192 do código criminal, em virtude do art. 194 do código do processo, por sentença datado de 13 de novembro de 1868, tendo havido apelação, que não foi decidida.

Post - No leito de morteFortunato esperando a morte, na cadeia de Ouro Preto (foto: Arquivo Público Mineiro).

Tinha ele vinte e quatro anos de idade, em 1835, quando fez a sua estreia como carrasco. Estava preso, mas não tinha sido ainda condenado. É esta a longa série dos seus sinistros trabalhos:

– No dia 20 de março de 1835, seguiu de Ouro Preto para Itabira, onde enforcou um criminoso, voltando a 2 de junho de 1840 para a sua prisão. Foi uma estreia auspiciosa. Fortunado mostrou-se orgulhoso ao ver que, nesse dia, era alvo dos olhares da multidão e trabalhou limpamente. Sim, ele nascera para aquilo!

– A 26 de setembro de 1840, seguiu para Caeté, onde foi cumprir o seu fatal dever, recolhendo-se a 1 de outubro de 1843.

– A 21 deste último mês, seguiu para Piranga, onde executou o réu Antônio Cabra, voltando a 30 do mesmo mês.

– A 6 de novembro, seguiu para Itabira, recolhendo-se a 20 do mesmo mês.

–  A 10 de outubro de 1846, partiu para Três Pontas, regressando a 18 de novembro.

– A 1 de dezembro, desse ano, seguiu para Pitangui, onde enforcou o réu Balduíno, escravo de Antônio Nunes Carneiro, regressando a 20 de janeiro de 1847.

– A 1 de março, seguiu para Barbacena, onde executou o réu Fernando José de Araújo, regressando a 20 do mesmo mês.

– A 30, ainda desse mês, seguiu para o Piauhy (Pium-i), regressando a 20 de junho de 1847.

– A 23 de janeiro, seguiu para a Conceição do Serro, regressando a 20 de fevereiro de 1849.

– A 26 de maio, seguiu para Uberaba onde fez diversas execuções, recolhendo-se a 28 de julho, do mesmo ano.

– A 5 de outubro, seguiu para S. João Nepomuceno, regressando a 30 de novembro.

– A 18 de dezembro, ainda de 1849, seguiu para o Serro, onde executou o réu José Africano, recolhendo-se a 15 de janeiro de 1850.

– A 26 de fevereiro, seguiu para Araxá, voltando a 28 de abril.

– A 27 de setembro, seguiu para o Curvelo, a fim de executar o réu Celestino, regressando a 17 de outubro (leia o Post “Vida e morte”).

– A 11 de novembro, seguiu para S. João Del Rei, para executar o réu João, escravo de Francisco José Antônio Guimarães, seguindo dali para Barbacena, a 4 de dezembro, para executar o réu Antônio Moçambique, e recolhendo-se a 20 de janeiro de 1851.

– A 30 de junho, de 1852, seguiu de novo para S. João Del Rei, para executar o réu Fortunato Crioulo, recolhendo-se a 31 de julho.

– A 23 de agosto, seguiu para o Curvelo, onde enforcou o réu João Paulo Pereira, recolhendo-se a 27 de setembro.

– A 7 de outubro, seguiu para Mar de Espanha, a fim de executar o réu Germano e recolheu-se a 9 de novembro.

– A 6 de maio de 1853, seguiu para Rio Preto, a fim de executar os réus Marcelino Crioulo e Antônio Malvadão, assassinos de seu senhor, Luiz José de Paula, e recolheu-se a 10 de junho.

– A 1 de julho, seguiu para Curvelo, onde executou o criminoso Cassimiro Pereira da Silva, regressando a 1 de setembro.

– A 7 de outubro, seguiu para Barbacena, regressando a 8 de novembro.

– A 16 de julho de 1854, seguiu para Curvelo, recolhendo-se a 4 de agosto.

– A 5 de setembro, seguiu para Mar de Espanha, regressando a 10 de outubro.

– A 17 de novembro, seguiu de novo para Mar de Espanha, onde executou os réus Antônio Cabinda, Antônio Angola e Pedro Noddão, voltando a 30 de dezembro.

– A 18 de maio de 1855, seguiu para Jacuí, recolhendo-se a 1 de junho.

– A 19 do mesmo mês, seguiu para Pouso Alegre, onde enforcou o réu José, escravo, regressando a 20 de julho.

– A 8 de outubro, seguiu para Piranga, onde executou os réus Antônio Bento Monteiro e Inês, escrava, regressando a 21 de outubro de 1856.

– A 4 de novembro, seguiu para Caldas, regressando a 30 de dezembro.

– A 16 de novembro de 1857, seguiu para Leopoldina, onde executou os réus David, Amâncio* (*ou Américo), Vicente e Joaquim, recolhendo-se a 13 de janeiro de 1858.

– A 14 desse mesmo mês, seguiu para Mariana, onde enforcou o célebre criminoso José Joaquim Gomes da Fonseca, mais conhecido como Tira-Couro, regressando a 20, ainda desse mês.

– A 7 de abril, seguiu para Sabará, a fim de executar os réus Peregrino e Rosa* (*as rés Peregrina e Rosa), recolhendo-se a 20 de abril.

– Finalmente, a 19 de julho, seguiu para Diamantina, onde enforcou o réu Arcanjo, regressando a 20 de setembro, desse mesmo ano de 1858.

Post - Final de vidaNo “Provincia de Minas”, 19.07.1883: um abraço no crucificado.

Ainda exerceu ele seu funesto ofício em diversas localidades, tendo-lhe passado pelas mãos mais de cinquenta criminosos. Um ano depois da sua última execução, começou Fortunato a mostrar-se amodorrado, tristonho, sombrio, manifestando, a cada momento, a profunda saudade que tinha dos belos tempos em que trabalhava. 

– Vocês querem então que eu morra? – dizia ele muita vezes aos guardas da prisão. – Então, não há por aí mais ninguém a quem eu tenha de mandar embora? Já não se faz mais justiça nesta terra? 

Pouco a pouco, foi Fortunato perdendo a robustez da sua musculatura de aço e aquela constante jovialidade que fazia dele um carrasco alegre. A definhar lentamente, chegou Fortunato até a idade de setenta e dois anos, e faleceu a 9 de julho de 1883, deixando de si tristíssima recordação na província de Minas Gerais. Dele se pode dizer que foi um homem que soube exercer limpamente o seu miserável ofício, pois o fazia como se não houvesse nascido para outra coisa. Em Minas Gerais, tornou-se lendário o sinistro nome desse carrasco, de quem damos hoje o retrato.” (* Desenho na abertura deste Post.)

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Post - Gazeta do NorteUm repórter da “Gazeta do Norte”(3), que acompanhou o imperador d. Pedro II em sua viagem a Minas Gerais, no ano de 1881, deu outro testemunho, embora com alguma divergência ao relato de José Ferreira de Araújo:

“Não deixarei de citar o nome do carrasco que, ainda hoje, vive e é preso daquela cadeia* (* de Ouro Preto). Chama-se Fortunato, é filho de Lavras, desta provincia. Tem, hoje, 72 anos. Entrou para a cadeia a 7 de Junho de 1833, começando a servir de carrasco em 1835. Foi condenado a galés perpetuas por ter assassinado sua mulher Anna Custodia de Jesus. Tinha então 25 annos. Até 1877 fez 89 execuções em diversos pontos das provincias do Rio de Janeiro e Minas. Fortunato vive na enxovia* (*cárcere escuro e úmido) das galés e, como ha grande curiosidade em vê-lo, esconde se quasi sempre para não ser chamado, visto e interrogado. Pede sempre esmola no fim de qualquer conversa com algum visitante.” 

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UM EPISÓDIO

contado por um homem ilustre, que conheceu de perto o carrasco:

Por Diogo de Vasconcellos

“Em junho de 1870, dia que não me lembro, às 10 horas da manhã, subiam pela rua do Ouvidor de Ouro Preto (atual rua Cláudio Manuel), alguns deputados provinciais, quando encontram uma escolta conduzindo dois presos, um deles Jeremias, condenado à morte e o outro, Fortunato, o carrasco. Iam para Uberaba, onde se devia fazer a execução.

Avistando os deputados, Jeremias atirou-se aos pés de um deles, o meu inolvidável amigo, dr. Ignacio de Assis Martins(4)“- Pelo amor de Deus! Valei-me! Vou para a forca!” Impressionados e comovidos, os deputados seguiram, dali mesmo, para o palácio.

Eu era, então, o secretario do governo(5)“Diogo – dizia-me o Ignácio – vimos aqui te pedir para entender-se com o presidente; que mande recolher a escolta, escolta que leva o desgraçado para a forca, até que o imperador despache a petição de graça que vamos redigir.”

Post - Pça TiradentesDiogo de Vasconcellos, Ignacio Martins e praça Tiradentes, Ouro Preto, final do sec. XIX.

Os deputados, imediatamente, saíram e foram para a assembleia. Em menos de duas horas, eu recebia a petição que, sem demora, mandei preparar na secretaria, para seguir pelo correio, que partia às 2 horas e levava dois dias a chegar ao Rio. Entretanto, ao passo que os deputados trabalhavam na petição, me entendi com o presidente que, então, era o meu velho mestre e amigo dr. José Maria Correia de Sá e Benevides.

Eu mesmo estava surpreendido, por ignorar a partida de Jeremias. É verdade que, por minhas mãos, tinha passado a ordem para se fornecer ao chefe de polícia uma força, que conduzisse presos a Uberaba, mas não me passava pela mente se tratar de semelhante destino. Imagine-se, pois, minha aflição. O presidente observou-me que, em todo caso, a escolta se achava em marcha e não era regular o expediente que eu solicitava. Além disso, ponderou-me que, em se tratando de uma petição, ao imperador, parecia inconveniente antecipar com o despacho.

Nesse caso, expedisse eu a ordem reservada ao comandante da escolta para ir demorando a marcha, falhando pelo caminho, de modo a ganhar tempo. Esta ordem transmitida ao coronel César, comandante do corpo, foi logo cumprida por um portador, que a entregou em Queluz (Conselheiro Lafaiete). Efetivamente, a escolta dobrou os dias em caminho e mais não se demorou por ter-lhe sido insuficiente a provisão das tropas. Chegaram finalmente a Uberaba.

Ali, a população horrorizada se opôs à execução, por modos indiretos. Não houve carpinteiro que preparasse a forca, nem se achou madeira em parte alguma. O comandante da escolta, porém, mandou, não sei por qual capricho, os soldados ao mato e, ele mesmo com um destes, que entendia do ofício, erigiu o terrível patíbulo. Mas não havia, nem houve, quem lhe vendesse a corda.

E os dias passavam, sem chegar a notícia da petição de graça. Finalmente, o comandante mandou a Franca um soldado comprar corda mas, com tal felicidade que, no dia em que ele chegou a Uberaba, também chegou o correio, trazendo, no Diário Oficial, a comutação da pena. O juiz municipal, que estava aterrado pelo dever de presidir a execução, saltou de contente. Suspendeu a execução e esperou o decreto. Jeremias voltou para Ouro Preto a cumprir sua pena de galés perpétuas.

Surgindo, porém, a república, o marechal Deodoro expediu um decreto do governo provisório, mandando por em liberdade todos os réus condenados em virtude da famosa lei draconiana, de 10 de julho de 1835. Ora, o Jeremias foi um deles e eu o vi livre em minha casa, na Água Limpa, lembrando-se da parte que tomei na sua tragédia.

Hoje, 13 de maio… Felizes vós, ó moços, que não vistes a escravidão e que não vereis manchando a luz de vossos olhos, a triste e horrenda figura dos patíbulos! Seja a glória da geração a que pertenço, ter preparado para vós uma pátria mais ditosa!” — Escrito em Belo Horizonte, em 13.05.1908.

Post - ForcaO teatro do horror

Nos atos de violência, tais como esses aqui narrados, não há como rotular uns de anjos e outros de demônios. Aqueles criminosos, em sua grande maioria, eram negros e pobres, e que viviam sob o jugo cruel do regime escravista. Foram levados ao crime justamente pela opressão a que eram submetidos. Também é preciso que se diga que a igreja católica foi partícipe e muito oportunista nesse teatro do horror. Sempre havia um padre ao lado do cadafalso, não apenas para encomendar a vítima, mas também para pronunciar discursos, que empolgavam a multidão presente ao espetáculo.

A imprensa de Ouro Preto(6), após o enforcamento do facínora Tira-Couro, deu notícia: “Ante hontem, 16 do corrente, foi executada, em Marianna, a sentença de pena ultima, imposta ao réu José Joaquim Gomes da Fonseca […] Fomos informados de que o réu manifestara grande resignação, e que, do alto do patibulo, pedira perdão a todos que se achavão presentes ao acto. Assistiram-no e acompanharão os rvm. os srs. padre Carnaglioto e o conego Roussin, recitando este, ao findar-se a execução, um discurso analogo, que muito comoveu ao numeroso auditorio.”

Esse vaidoso orador, o cônego José de Souza e Silva Roussin(7), era um ferrenho escravagista e vivia criando problemas por onde passava. Um dos seus incontáveis atos de destemperança foi manter sob cativeiro uma freira − Antonia Clara de Abreu e Lima −, ex-escrava, liberta há mais de vinte anos.

Como já foi dito, o algoz Fortunato dirigiu-se a Leopoldina, em 16.11.1857, para fazer um dos seus servicinhos. Naquela oportunidade, enforcou quatro indivíduos − David, Américo, Vicente e Joaquim −, que haviam assassinado o norte-americano Michael Jackson (veja ilustração abaixo). Valha-nos Deus, esse nome parece que não traz sorte!

Post- Condenados a forcaTrecho do relatório do governo da província, 1858.

O jornal “Correio de Minas”, de 04.05.1857, havia noticiado a morte do estrangeiro:

“Em dias de Setembro, foi assassinado no Districto de S. José do Parahyba, o americano Michael Jackson, por escravos que conduzia para vender. O respectivo subdelegado deo prontas providencias, tanto para arrecadação dos bens, que deixava o morto, como para a prisão dos réos, em numero de 7, dos quaes foi um absolvido, e 6 condenados à morte pelo Jury da Villa Leopoldina.”

Post - ForcaO caso de Rosa e Peregrina

Ÿ Pouca lenda e muita história

Moradores de Sabará, o brigadeiro Jacinto Pinto Teixeira e sua mulher Maria do Carmo Pinto Teixeira, viviam na rua Direita com suas escravas Peregrina, Luísa, Tecla, Balbina, Quitéria e Jesuína. Diziam que a esposa, apesar de muito bonita, era ruim feito uma caranguejeira. Certa feita, compraram uma nova escrava, de nome Rosa, mas o marido cometeu a imprudência de dizer que a jovem tinha lindos dentes e belo sorriso. Foi o bastante para despertar ciúmes em Maria do Carmo. Bastou que Jacinto saísse em viagem, Maria do Carmo passou a executar um plano elaborado em sua mente doentia, mandou seus capangas arrancarem os dentes de Rosa e, no retorno do marido, entregou-lhe numa bandeja o presente macabro.

As demais escravas, que viviam sob o jugo do casal, revoltadas com a barbaridade cometida, arquitetaram o plano de matar Maria do Carmo. Assim, no momento aprazado, revoltadas e enfurecidas, derrubaram a patroa a golpes de machado e mão de pilão, debaixo da escada do casarão ainda existente na rua d. Pedro II. E não deu outra, o corpo da megera caiu inerte ao chão, desfigurado ao ataque das assassinas, fato que ocorreu no dia 05.06.1856.

Post - Rosa & Peregrina condenadasApelação não atendida das condenadas Rosa e Peregrina (“Correio Official de Minas”, 12.11.1857).

A polícia aprendeu todas, mas imputou a culpa às escravas Rosa e Peregrina que, apavoradas, logo em seguida, conseguiram escapar, buscando refúgio na casa do padre, advogado e poeta José Marciano Gomes Batista. A doçura do bardo e o socorro da fé não foram suficientes para lhe darem guarida, e acabaram na prisão. O mesmo ocorreu com as demais escravas que, denunciadas, foram submetidas a julgamento. Mas tiveram a infelicidade de cair nas mãos do inflexível juiz Quintiliano José da Silva(8).

No dia 12.02.1858, o presidente da província, comunicou ao juiz de Sabará que Rosa e Peregrina não haviam recebido clemência e ordenou que fossem tomadas as providências finais. E, em 12.08.1856, saiu a ordem de execução de Rosa e Peregrina, autoras do homicídio; as demais, foram condenadas à pena de sessenta açoites cada uma e, também, à de portarem soldada ao pescoço uma argola de ferro, como sinal de infâmia. Só escapou a escrava Quitéria que, por sorte, na hora fatídica, encontrava-se atada pelos pés ao tronco.

Post - Catacumbas Sabará

O portão das catacumbas.

Foi, então, convocado o carrasco Fortunato, para cuidar da etapa final do justiçamento, o qual se consumou no dia 14.04.1858, em patíbulo montado no terreno das catacumbas, situadas em frente à igreja do Carmo de Sabará.

Daquela feita, o carrasco agiu com desleixo, porque, logo após o enforcamento, ao recolher-se o corpo de Rosa, constatou-se que ainda estava viva. Há uma explicação para isso. Conta-se que Fortunato não era afeito a enforcar mulheres, pois se abalava ao ver a terrificante imagem de sofrimento estampada em seus rostos. Vai ver que descuidou-se na hora de apertar o laço e teve de retornar com Rosa ao cadafalso para finalizar o serviço, assim aumentando o sofrimento dela e dele.

Mas a história não terminou aí. O bárbaro acontecimento gerou uma lenda na cidade de Sabará e, até hoje, dizem que se ouve, em certas horas noturnas, gemidos e clamores de inocência vindos do antigo cemitério da igreja do Carmo, onde desencarnaram a tão sofrida escrava. Houve um tempo em que chegaram a considerá-la santa, principalmente no meio da população de origem africana, pois socorreria os pobres nas aflições e doenças.

Então? O ciúme doentio de d. Maria do Carmo, ao interpretar mal o elogio a uma dentadura, fez desandar a tragédia. Sua atitude serviu apenas para semear sofrimentos e provocar uma sucessão de mortes, começando com a dela. E vejam que o marido era um ancião – mais de oitenta anos de idade –, doente e decrépito! Passados dezessete meses do seu assassinato, veio a morte do brigadeiro e, finalmente, as de Rosa e Peregrina. Abaixo seguem os registros dos óbitos:

Post - Óbito Maria do CarmoRegistro de d. Maria do Carmo – Livro de óbitos de Sabará, 1840-1875, p. 71 v.

“Aos seis de Junho de mil oitocentos, e cincoenta, e seis nas Catacumbas da Veneravel Ordem 3a da Senra do Carmo se deo sepultura a Ex.ma Dona Maria do Carmo Pinto Teixeira, Cazada com o Ex.mo Brigadeiro Jacintho Pinto Teixeira, não recebeo Sacramentos por ser sua morte violenta, assassinada por suas escravas, foi incomendada Parochialmente com Solemnidade e assistencia mais de cinco Sacerdotes de que fes este assento / O Vigr.o Ecomd.o Antonio José Vianna” 

Post - Jacinto falecimentoRegistro de Jacinto – Livro de óbitos de Sabará, 1840-1875, p. 81.

“Aos desaseis de Novembro de mil oitocentos, e cincoenta e sete nas Catacumbas da Veneravel Ordem terceirada Senr.a do Carmo se deo sepultura ao Exm.mo Brigadeiro Jacintho Pinto Teixeira, Viuvo, de idade de mais de oitenta anos, faleceo de infermidade interior, so foi absolido, e ungido por lhe faltar a sensação; foi Parochialmente incomendado com Solemnidade, e a assistência mais de quatro sacerdotes, com a encomendação da Orde˜* (*ordem ) pelo padre Mestre* (*professor) Antonio Firmino Roussin na falta do Commissario de que fez este assento / O Vigro Encom.do Antonio José Vianna”

Post - Rosa & Peregrina falecimentoRegistro de d. Rosa e Peregrina – Livro de óbitos de Sabará, 1840-1875, p. 83.

“Aos catorze de Abril de mil oitocentos, e cincoenta e oito no Cemiterio desta Matriz se deo sepultura as duas Rés, Roza, e Peregrina, Crioulas, condenadas por justiça a pena ultima, que sofrerão, pella hostilidade com q. matarão a sua Senra, escravas do Brigadeiro Jacintho Pinto Teixeir.a, e foram sufradas* (*sofreram a pena), e encomendadas / O Vigr.o Encomdo Antonio José Vianna”

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Transcrição, texto e arte de Eduardo de Paula

Colaboração: Ivana Maria Aguiar Ribeiro / Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

 

• Clique com o botão direito e veja a sequência: “Fortunato algoz”.

(1) ARAÚJO − José Ferreira de Souza (Rio de Janeiro,†21.08.1900) − Foi dos mais conceituados jornalistas das últimas três décadas do século XIX. Era respeitado internacionalmente e gozava de imenso prestígio entre seus colegas brasileiros, e também estrangeiros. Durante muitos anos trabalhou como redator chefe da “Gazeta de Notícias” do Rio de Janeiro.

(2) Galé − prisão e/ou prisão com trabalho forçado.

(3) “Gazeta do Norte”: Fortaleza (Ceará), 26.04.1881, p. 2.

(4) MARTINS, Ignacio Antonio de Assis − Visconde de Assis Martins, (Sabará, *16.11.1839 / †02.03.1903). Advogado, juiz e político. / Veja o Post “A festa do barão”.

(5) VASCONCELLOS, Diogo Luís de Almeida Pereira de − (Mariana, *08.05.1843 / Belo Horizonte, †?.06. 1927) Historiador, político, jornalista e advogado.

(6) “Correio Official de Minas”, Ouro Preto, 18.01.1858, p. 4.

(7) ROUSSIN, José de Souza e Silva − Cônego, professor e político. Vereador em Ouro Preto e deputado pela Província de Minas Gerais.

(8) SILVA, Quintiliano José da Silva − (Curral d’El Rei, *23.12.1802 / †1889) Magistrado, político e presidente da província de Minas Gerais (de 17.12.1844 a 20.12.1847).

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01/06/2014

REPORTAGEM POLICIAL

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:11 am

♦ Dois bandidos que fizeram história

No Brasil, os primeiros noticiários sobre o mundo do crime sugiram na metade do século XIX. Naquele tempo, ainda não existia a especialização de repórter policial. As informações provinham das publicações dos tribunais de justiça e de correspondentes que, necessariamente, não eram jornalistas. Os informantes ouviam a voz corrente e, dependendo da qualificação criminal do facínora, a própria população se empolgava em dar sua contribuição aos relatos, temperando a seu modo os acontecimentos. Temores à parte, ter na sua história pelo menos um bandido famoso era uma glória para cada vila ou cidade.

Post - EnforcadoUM BANDIDO CHAMADO VIDAL

Julho de 1855 — “No dia 3 do mez passado, na villa de Curvello, indo o delegado de policia Antonio José Soares(1) passar uma revista à cadeia, foi assaltado e morto pelos presos, que se evadirão todos (eram oito), menos um que foi preso pelo povo. As boas qualidades do morto e a boa opinião de que geralmente gozava, interessárão a todos na vingança de sua morte e, por isso, não duvido acreditar que os assassinos estarão brevemente presos e serão punidos com todo o rigor das leis.”

N. B. – Vejo agora no ‘Bom Senso’, de hoje, que a esforços dos dignos 1° suplente de delegado do Curvello, Felicissimo de Souza Vianna; o subdelegado de Trahiras, Antonio Rodrigues Lima, fôra preso o facinora Vidal, um dos principaes assassinos do delegado Soares.”

* Enviado de Ouro Preto, em 02.08.1855 − Publicado no “Correio Mercantil”, Rio de Janeiro, 08.08.1855 

Junho de 1868 (seção de 05.06.1860, do Tribunal da Relação, Rio de Janeiro) — “N. 3.320 − Curvello − Appellante, Vidal Rodrigues da Costa; appellada, a justiça. − Juizes, todos os presentes, menos o Srs. Simoes da Silva e Mascarenhas − Julgarão unanimemente improcedente a appellação, confirmando-se a sentença do jury, condemnando pela terceira vez à morte o appellante, réo do assassinato na pessoa do delegado de policia Antonio José Soares, em occasião de visitar a cadêa.”

* Publicado no “Correio Mercantil”, Rio de Janeiro, 06.06.1860

Post - Postal Curvelo Curvelo antiga em cartão postal.

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Em 1819 − voltando no tempo −, começa a história de um moço ingênuo, nascido na região do Sumidouro e que se transformou em

UM BANDIDO CHAMADO VENENO

Do jornal “O Progresso”, de Sabará.

“Joaquim Domingues Soares(2), por alcunha o Veneno, natural da Lapinha, pequena aldêa da freguezia da Lagôa Santa, nasceu de pais pobres, que apenas puderam ensinar-lhe as primeiras letras, sem dar-lhe a mais pequena doutrina. Desde seus primeiros annos, mostrou máo genio. Era teimoso irascivel e impetuoso. Este genio era reprimido à força de castigos corporaes que seu pai, Domingos Soares, lhe inflingia cheio de raiva, pois tambem foi e é, ainda hoje, de uma indole indomavel.

É bem conhecido que este systema de educação produz o effeito contrario, na maior parte das crianças. Por outro lado, a mãi de Joaquim Soares, mulher santa, que de seu marido tem soffrido todos os máos tratos que um coração barbaro póde inventar, afagava este filho, com um amor tão terno que mais do que elle chorava os castigos que seu pai lhe fazia. Joaquim tinha e conservou até a morte a maior dedicação, o amor filial mais extremoso para com sua mãi e, muitas vezes, chegou a ameaçar seu pai por causa dos seus rigores para com ella.

Em 1833, em uma fogueira de Santo Antonio, no arraial de Santa Luzia, se commetteu um homicidio. Joaquim Veneno, então de 14 annos, foi nelle compromettido. Defendeu-se no jury, onde provou que nenhuma parte teve neste delicto e foi absolvido. Correndo sempre a redeas soltas, já porque não temia os castigos do pai, já porque tinha a protecção da mãi, raras vezes se dava um facto criminoso em Santa Luzia que nelle não se comprehendesse* (*envolvesse) o Veneno. Diversos processos crimes teve contra si mas, de todos triunfou, porque sempre foi muito protegido.

Post - Santa Luzia antigaSanta Luzia antiga com prédio do fórum em primeiro plano.

O excesso com que amava, protegia e socorria sua infeliz mãi; a dedicação e amizade com que se prestava a todos com se ocupavão; a caridade que usou sempre com os pobres e, ultimamente, o amor, o extremo com que tratava a uma honesta e interessante moça, com quem se ligou pelos laços matriomiaes, lhe ganharão as afeições de todos os que o conhecião e Joaquim Domingues, aproveitando estas boas disposições, se atirou ao commercio, com tanta facilidade que, em pouco tempo, se apresentou possuidor de uma meia duzia de contos de réis.

O veneravel José de Oliveira Campos, patriarcha de Santa Luzia, por quem ainda chorão os habitantes desta villa, bem como todos que tiverão a fortuna de o conhecer, tinha por caixeiro a um fuão* (*fulano) Camello, homem velho, probo e caracter sisudo. Mandou-o a certas cobranças e, um celebre Nequinha, do logar Ignacia Carvalha* (*São José da Lapa), o matou para roubar! Campos, para vingar a morte do seu fiel caixeiro e amigo, fê-lo processar e, ao pai de Joaquim Domingues, encarregou a arriscada diligencia da prisão do facinora. Joaquim offererece-se a acompanhar seu pai, que recusa, por conhecer o perigo da empreza* (*iniciativa) a que se sujeitou pelo prestigio de Campos mas, o filho, fingindo obedecer, acompanha de longe a seu pai e salva-lhe a vida, tirando com um tiro de clavinote* (*carabinazinha) a do malvado Nequinha que, com uma facada, lhe havia posto as tripas à mostra. Esta acção digna de louvor foi tão bem aceita geralmente que nem processo se formou.

Continuou Joaquim Domingues a sua carreira commercial, sempre com felicidade, até que, no arraial de Tacuarassú* (*Taquaraçu), travou inimizade com um José Marianno, homem cheio de vícios e defeitos, entre os quaes o de gostar das cousas alheias. Joaquim cobrava deste homem a ridicula quantia de 5$000. Elle lh’os pretendeu pagar com injurias e com um desafio que, para os habitantes de Santa Luzia, foi e é, ainda hoje, o maior insulto: ‘- Venha cá essa perrada* (*canalhada, cachorrada) de Santa Luzia, que quero ensina-la!’ Estas palavras, pronunciadas por José Marianno, reveladas a Joaquim, talvez bem comentadas, exacerbarão-no, ao ponto de jurar vingar-se.

A intriga cresceu. Uns diziam a Joaquim: ‘- Não passe por tal estrada que José Marianno lá está de emboscada a sua espera.’ Por essa mesma estrada é que Joaquim passava. Outros dizião-lhe: ‘– José Marianno prometteu arrancar-lhe as barbas e torcer-lhe as orelhas.’ Um dia, e deste dia data toda a desgraça de Joaquim Domingues…

Encontra-se este o seu inimigo sentado com uma arma de fogo ao lado da estrada que, de Tacuarassú segue para Santa Luzia. Grita-lhe de longe que se retire, que quer passar, José Marianno põe-se a pé no meio da estrada… Arrojar o animal para este lado, engatilhar a pistola, dispara-la sobre o peito e lança-lo morto por terra, foi obra de um momento.

Joaquim havia precedentemente bebido bastante vinho. Apresentou-se em casa do subdelegado Antonio Ferreira Torres, que mora a pouca distancia, em tal estado de alteração e desvario que o subdelegado o desconheceu à primeira vista e, depois, o reputou louco. Elle narrou todo o occorrido à autoridade, que o deixou em paz. Desde então, mudou-se a sorte do infeliz Joaquim. As intrigas ferverão, as mentiras apparecerão e, uma delas, causou toda a sua ruina. Persuadirão ao juiz de direito desta comarca, Dr. Q. J. da Silva(3) que Veneno jurára assassina-lo. Mentira revoltante, contra a qual protestou sempre aquele desgraçado. Mas, enfim, isto tornou-se uma crença para aquelle juiz que, na sala do jury desta cidade, disse: ‘Se eu encontrar o Veneno, disparo-lhe um tiro, sem mais nem menos, porque não quero morrer!’

A justiça justamente perseguia o criminoso. Este, com razão, fugia à justiça mas, as perseguições, as commissões dadas a criminosos seus inimigos de o prenderem, a paralysação de interesses e a vida sobressaltada que levava, eram males que Joaquim procurava suavisar, à força de bebidas alcoolicas, a que foi se habituando tanto que, perturbado o sensorio, veiu entregar-se à prisão nesta cidade, onde um habil medico o declarou louco. Melhorou, foi submetido a julgamento em Caeté e condenado a galés* (*prisões com trabalho forçado) perpetuas, de cuja sentença appelou e, tendo de ser de novo julgado, antes disso teve ocasião de fugir da cadêa do Ouro Preto.

Post - Ouro Preto cadeiaCadeia de Ouro Preto, lugar de muitos prisioneiros perpétuos.

O nimio* (*demasiado) amor que tinha à sua mulher e à sua mãi prevaleceu, ao conselho de amigos e até de inimigos, para que se retirasse para longe. Perseguido fortemente pela justiça, elle se reuniu a outros criminosos e, na companhia destes e de outros companheiros da fuga, estabeleceu sua residencia na Lapinha, onde zombava da força publica, muitas vezes commandada pelo proprio delegado desta cidade, Dr. F. L. C. Belem. Tão grande foi o empenho pela prisão deste homem que, um Xico Preto e um Thomaz de Barros, qua a voz publica aponta como insignes criminosos, formárão parte da força incumbida desta diligencia e acompanhavão o delegado.

Em um dos assaltos à casa em que morava o criminoso, a força publica se cobriu de opprobio e de vergonha, conduzindo, entre outros objectos, a carteira do mesmo, que guardava algum dinheiro. Animado pela sua coragem e pela fidelidade dos companheiros, igualmente destemidos, e, mais que tudo, pelas bebidas espirituosas, Joaquim Domingues fórma o ousado projecto de acommetter a força e, tres homens, elle, Caixeta e Camillo Caiano(4), se apresentão em frente da mesma. E com tal bravura se portão, que terião pegado a mão, dentro do rancho, que lhes servia de quartel aos soldados se, ao approximarem-se delle, Caixeta não fosse gravemente ferido!

Retirarão-se e, desde esse dia, se dispersarão. Joaquim Veneno procurou as fazendas do Pompéo, no municipio de Pitangui; Caiano homisiou-se(5) no Páo-Grosso* (*Baldim), nova povoação no districto de Getitibá* (*Jequitibá), fundada pelo capitão B. M. de Almeida; e do Caixeta não temos noticia. Na fazenda da Soledade(6) permaneceu aquelle por algum tempo, até que resolveu-se a retirar-se para mais longe. Tencionava internar-se pelos sertões da Bahia e o Sincurá(7) era o ponto escolhido. Comprou uma porção de bestas novas e as amansava, e arreiava para conduzir cargas para aquelle logar. Apareceu-lhe haí Camillo Caiano, oferecendo-se-lhe para seguir em sua companhia e ajuda-lo no trabalho da tropa. Joaquim recusa-se e dá-lhe dinheiro para que se retire. Elle, porem, demora-se sob frivolos pretextos e lhe paga a generosa dadiva com um tiro, do qual morreu logo.

Post - Notícia do assassinatoA morte do delegado, no “Correio Mercantil” do Rio de Janeiro (08.08.1855).

Reunem-se muitas pessoas e marchão ao encontro de Camillo, que é encontrado e não se aterra com a presença de tantos homens armados que o querem prender. Antes ameaça com a morte ao que chegar. Um filho do capitão Soares, que há pouco foi morto na cadêa de Curvello pelos presos ahi detidos, é o primeiro que o lança por terra ferido por uma bala, disparada com mão segura. Imediatamente, uma descarga de de dezoito armas deixão o cadaver do perverso gretado como uma renda!

Tal foi o fim do homem que tantos sustos causou e que tantos incommodos deu às autoridades, que seu nome lá vem (virá) na folhinha noticiosa de 1858. Tal o fim do perverso Caiano! Ajuizem agora os homens imparciaes por esta veridica exposição, se Joaquim Domingos Soares foi aquelle monstro pintado pelos jornaes publicos, ou se foi simplesmente um homem que a falta de educação e más companhias tornárão desgraçado.” 

* Publicado no Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 29.11.1857

Post - Fuga do VenenoVeneno sempre em fuga.

Contra o Veneno

As más línguas, melhor dizendo, os fofoqueiros de Sabará, haviam atribuído ao Veneno uma suposta ameaça de morte ao juiz Quintiliano José da Silva. Pelos relatos dos jornais da época, o magistrado levou o assunto a sério e, temeroso do que pudesse acontecer consigo, passou a perseguir o bandido, impiedosamente, mobilizando forças poderosas contra ele. O “Correio Official de Minas”, de 23.02.1857, descreve uma caça ao bandido e seus comparsas, em 1857, motivada por solicitação do referido juiz:

“… o tenente […] Frederico Augusto da Silva Brandão, incumbido de prender o réo Joaquim Domingues Soares Barbosa, […] conhecido pela alcunha de Veneno, já sentenciado pelo crime de homicidio (que se evadio com outros da cadêa desta capital, em julho de 1856) partira com uma pequena escolta para a povoação da Lapinha, […] onde não encontrou o dito réo, […] e que havendo-se retirado para a Alagoa Santa, distante 1½ legoa, fora ahi acometido às 7 horas da noite, de 6 do corrente, n’um rancho onde pousara com a escolta por um bando de pessoas armadas, à testa das quaes, presume-se, ter estado o mesmo Veneno; resultando dahi um conflicto com tiros de fuzilaria, de parte a parte, que durou duas a tres horas. O tenente Brandão e dous dos soldados […] ficarão levemente feridos, e os vestigios deixados pelos agressores, que se debandarão, induzem a crer que soffrerão não pequeno estrago. […]

O dr. Francisco Leite da Costa Belem, […] delegado de policia do termo, tencionava mandar renovar a diligencia […] e o exmo. presidente (da província) logo que recebeo estas noticias, determinou que o […] chefe de policia partisse para aquelle termo […] afim de dar as providencias que as circunstancias exigirem, mandando pôr a sua disposição, alem da força já destacada em Sabará, quarenta praças do corpo fixo com tres officiaes, sendo um delles o coronel Bruce(8).”

Post - AlmasAlmas (Angueretá), onde Caiana matou Veneno (Mapa de E. Canabrava Barreiros).

A favor do veneno

Apenas a voz do valoroso médico e deputado Anastácio Symphronio de Abreu(9), de Sabará, se levantou para defender o desamparado Veneno. No seu entendimento, o dito facinoroso, mais que tudo, era vítima de uma sociedade injusta e, principalmente, da antipatia de Quintiliano, o juiz atemorizado. É preciso que se diga que, o deputado Symphronio e o juiz padeciam de antipatia mútua e, sempre que havia oportunidade, Symphronio espezinhava Quintiliano. Tal como ocorreu na seção de 23.07.57, da Assembleia Provincial, ao fazer uma indagação ao colega deputado Dias de Gouveia:

“- Queira o nobre deputado dizer-me se não houve abuso desse juiz de direito* (*Quintiliano), ausentando-se como ausentou para sua fazenda da Serra Negra, por mais de ano, deixando o Sabará, e as partes sem saberem em que lugar iriam encontra-lo, porque, quando dirigiam-se a Serra Negra, não o encontravam, por ter ido para Mattosinho, fazenda da […] d. Isabel, sogra do sr. dr. Quintiliano; e, quando era procurado […] já ele se tinha retirado para aquela outra, de dessa não saia nem…”

E continuou, fustigando o adversário:

“- Se tem dito nesta casa, ora que era para se acautelar do Veneno, ora por incommodo de saude em sua familia. Pois acredita o nobre deputado que, em uma roça, se possa estar mais abrigado dos insultos de um assassino, do que numa cidade, como a do Sabará? E que, em uma fazenda, tão distante […] como é a da Serra Negra, dos recursos médicos, se possa tratar melhor os doentes? E, se havia esse mêdo do Veneno, e essas molestias na família, como é que o dr. Quintiliano andava de viagem da sua fazenda para aquela de Mattosinho, e também para Santa Quitéria?

Prosseguindo, deu sua versão sobre a ojeriza do Quintiliano contra o Veneno:

”- …Dizem que o sr. dr. Quintiliano expoz sua propria vida para prender o criminoso – Veneno – em Mattosinho. Senhores, não é exato o fato como se relatou. O caso foi conforme passo a refferir. Chegando o sr. dr. Quintiliano ao arraial de Mattosinho […] sei que havia missa e concurso de povo que a ella assistia. Soube o sr. Quintiliano que o Veneno achava-se na igreja ou dentro do […] arraial. Procurou o sr. juiz de direito pelo […] major Luiz Nogueira, subdelegado do districto, para dar ordem de prisão, exigindo que […] acompanhasse a diligencia, ao que não acedeu, porque o major, conhecendo bem as disposições em que sempre se acha o […] Veneno, que estava então acompanhado de alguns mais ou menos dispostos como elle, cumprio seu dever, dando uma portaria, para que se prendesse o […] Veneno, ou por que fosse avisado ou porque desconfiasse, retirou-se logo, ficando o dr. Quintiliano mal satisfeito […] Passou-se pois o facto como acabo de referir […] Os senhores deputados sabem disso por informações e eu ouvi […] do major Nogueira.”

Mais adiante, interferiu o deputado Augusto Gama:

“- Mas o Veneno já está condenado.”

Respondeu Symphronio, enaltecendo as qualidades humanas do bandido:

“- Está condemnado, é verdade, mas este facto da sua condemnação não lhe tirou as qualidades de dedicado e sincero amigo, que ouço dizer tem elle; eu não o conheço, sei disto por ter ouvido de pessoas que o conhecem de perto e que sentem o estado a que se acha reduzido esse infeliz homem.”

Acrescentou o deputado Lima Duarte:

“- Proteje criminosos…”

E respondeu Symphronio:

“- Senhores, porque um individuo cometteu um crime e se acha condemnado, deve por isso ser odiado ou aborrecido de todos? Eu não duvido proteger algum criminoso, mas há de ser essa protecção derivada da lei, prestando-me para fiador nos casos admissiveis. Há muitos anos habito o Sabará, nunca me dirigi a uma autoridade para pedir o menor favor a respeito de criminosos, ou em qualquer outro sentido, que signifique pedir-lhe para não cumprir com as obrigações do seu cargo. É esta a minha norma de conducta. Censurou-se uns vivas que foram dados em referência à minha pessoa, enxergou-se, no procedimento daquelles que os deram, manifestações subversivas…”

Ponto final

Post - No relatórioExtrato do relatório do presidente da província de Minas Gerais.

O último dia do Veneno aqui na terra foi confirmado pelo delegado de polícia de Curvelo, pois o evento ocorreu no distrito de Almas, hoje denominado Angueretá, lugar também conhecido por Soledade, porque alí existe a capela de Nossa Senhora da Soledade. No “Correio Official de Minas”, de 09.11.1857, foi noticiado:

“De participação official, recebida do delegado de policia […] do Curvello, consta que a 21 de outubro pp., às 6 horas da tarde, foi assassinado o réo Joaquim Domingues Soares Barbosa, vulgo Veneno, por seu companheiro Camillo Braga, conhecido por Cayanna, sendo este logo morto em acto de resistencia, por uma escolta dirigida pelo inspetor de quarteirão Placidino José Soares, no Porto do Choro…”

Colando a referência numérica em negrito -19.015069, -44.732256, na janela de busca do Google Maps, pode-se ver o local onde mataram o Veneno, junto à Cachoeira do Choro, no rio Paraopeba.

O relato desses acontecimentos constaram do relatório do presidente da província(10) à Assembleia Legislativa Provincial, apresentado na seção ordinária de abertura dos trabalhos de 1858 (ver imagem acima). A publicação oficial confirma e traz mais luz aos fatos. É tudo verdade! E serve esta exemplar história para reavivar a memória de alguns e de alerta a outros. Pena de morte e prisão perpétua já existiram no Brasil e, nem por isso, o crime deixou de existir. E nem as injustiças! E nem o temor à violência, embora revestido com um certo prazer em desfrutar o trágico espetáculo, no quintal do vizinho, claro.

Compilação, texto e arte de Eduardo de Paula

Revisão: Berta Viana Palhares Bigarella

 ———

(1) SOARES, Antônio José − Foi vice-presidente da câmara municipal de Curvelo, de 07.01.1837 a 07.01.1841. Conhecido como Antônio Ambrósio. Fonte: Arquivo Público Mineiro, CV 02, p. 181.

(2) No relatório da presidência da província, apresentado à Assembleia Legislativa Provincial, em 1858, o facínora é denominado Joaquim Domingues Soares Barbosa (ver imagem ao fim do texto).

(3) SILVA, Quintiliano José da − (natural do Curral D’El Rei, bt *23.121807, em Santa Quitéria / Rio de Janeiro, †25.08.1889). Casado com Maria Isabel de Paula Barbosa da Silva. Foi juiz de direito da Comarca do Rio das Velhas e político, chegando a presidente da província de Minas Gerais. Filho do capitão Miguel José da Silva Fernandes e de Anna Filipa de São Tiago. Matriculou-se na Universidade de Coimbra, em 31.10.1827, voltando ao Brasil no ano seguinte e bacharelando-se em direito, em 1832, em São Paulo, na primeira turma da escola do Largo São Francisco. Foi deputado provincial, deputado geral, vice-presidente e, depois, presidente da Província de Minas. Quando foi deputado provincial, participou da Revolução Liberal de 1842, lutando do lado dos conservadores.

(4) No relatório da presidência da província, apresentado à Assembleia Legislativa Provincial, em 1858, o facínora é denominado Camillo Braga, vulgo Caiana. Faz sentido, porque caiana é uma qualidade de cana de açúcar muito cultivada em Minas Gerais.

(5) Homiziar − ato de esconder alguém ou algo da ação da justiça. / Etimologia: lat. homicidĭum,ĭi ‘homicídio’, através de omezidĭo (doc. em textos lat. de 1252) na acp. de ‘dar guarida, esconder à ação da justiça’; omezio (sec. XIII) é f. divg. de homicídio (sec. XV), que mantém o signf. orig. lat. retomado por via culta; ver homin(i)-; f. hist. 1244 omezio, 1252 homizio top., sec. XV omizio.

(6) O texto refere-se à fazenda Soledade, nas cercanias de Curvelo, mas parece tratar-se de pequeno equívoco do autor; na verdade, seria capela da Soledade. Hoje, o lugar se chama Angueretá e, ali, ainda existe uma capela dedicada a Nossa Senhora da Soledade, erigida por volta de 1674. Não confundir com aquela outra capela, de mesmo nome, situada entre as cidades de Sabará e Santa Luzia, no alto de uma serra.

(7) Sincurá = Sincorá − cadeia de montanhas e vale situados no estado da Bahia, integrante da chapada Diamantina. Na região encontram-se a cidades históricas de Lençóis, Mucugê, Igatu e outras.

(8) BRUCE, João Guilherme − Tenente-coronel, comandante do corpo de guarnição de Ouro Preto.

(9) ABREU, Anastácio Symphronio Gonçalves de − (*entre 1815-20 / †1883), filho do capitão José Gonçalves de Abreu e de Rosa Maria de São Felix. Veja o Post “Dois Anastácios”.

(10) CAMPOS, Carlos Carneiro de (Visconde de Caravelas) − Salvador, *01.11.1805 / Rio de Janeiro, †28.04.1878.

01/05/2014

A FESTA DO BARÃO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:46 am

♦ Era sábado, 11 de outubro de 1884

E agora se fala de uma pessoa notável, que viveu no século XIX. Por atitudes e ações, e mais sua cativante simpatia, tornou-se exemplar figura humana. Foi assim que qualificou-se para ganhar a admiração de quem o conhecia, desde as pessoas mais simples até o imperador d. Pedro II. Seu nome: Francisco de Paula da Fonseca Vianna.

Post - Visconte & rioFrancisco de Paula, o barão, depois visconde do Rio das Velhas.

Pela colaboração na organização dos batalhões de Voluntários da Pátria, que lutaram na guerra com o Paraguai, recebeu o título de barão do Rio das Velhas, em 25.04.1867, por decreto imperial. O relato de uma festa, em uma das suas fazendas, é pequena amostra do seu jeito de ser. Publicou o jornal “Liberal Mineiro”:

Manifestação de apreço e Quinze cartas de liberdade

“A fazenda do Bom Jardim, do Exmo. Sr. Barão do Rio das Velhas, tornou-se, no dia 11 do corrente, solar do cavalheirismo e da liberdade. O Barão […] eminente chefe liberal do 4º distrito, querendo dar uma demonstração de apreço ao benemérito senador Ignacio Martins(1), pelo ato imperial da sua escolha, ofereceu-lhe um jantar, para o qual convidou numerosos amigos. O dia 11 foi de vera festa para todos os amigos do preclaro cidadão.

Muitos amigos o foram receber em sua fazenda, denominada Quilombo, distante três e meia léguas da fazenda do Bom Jardim. Durante o trajeto, de espaço em espaço, eram encontrados grupos de cavaleiros, de sorte que, ao chegar a cavalgada no arraial de Matozinhos, foram contados cento e dezesseis cavaleiros. No arraial de Matozinhos, muitos fogos subiram aos ares e a banda de música do maestro João Coelho Ferreira, em sons festivais, saudou o manifestado. Do arraial, seguiram todos para Bom Jardim e, desde que foram avistados, numerosas girândolas e a mesma banda de música fizeram repercutir, pelas quebradas das serranias, os festejos e alegrias de todos os corações.

A fazenda do Bom Jardim estava coberta de louçanias* (*ornatos). As flores variegadas, as moças formosas e mais de duzentos cavalheiros, dos mais distintos das cercanias, cheios de almo prazer, formavam daquele solar uma residência encantada, onde ostentava-se com o seu divo sorriso de agasalho, como anjo tutelar, a Exma. Baronesa do Rio das Velhas.

Post - Matozinhos - Bom JardimMatozinhos e fazenda do Bom Jardim, no mapa de 1950.

Às cinco horas, serviu-se o jantar. Lúculo, o histórico gastrônomo da Roma tribunícia, ali estaria à vontade e a bel-prazer. As iguarias mais finas e profusas desafiavam os convivas, ao lado dos generosos falernos* (*vinhos). Logo após a primeira coberta, levantou-se o Exmo. Barão do Rio das Velhas e, em discurso cheio de amistosos conceitos, declarou que, oferecendo ao senador Ignacio Martins aquele jantar, procurava dar a maior demonstração do seu prazer de amigo, por vê-lo elevado ao senado, e que, para perpetuar aquele dia, conferia carta de liberdade a dez escravos.

O entusiasmo, naquele momento, excedeu a todos os limites e frenética, e geral saudação, foi dirigida aos dois beneméritos cidadãos, senador Ignacio Martins e Barão do Rio das Velhas.

O senador Ignacio Martins, com as lágrimas do prazer nas vozes, agradeceu a demonstração de amizade que, disse ser para ele a primeira e mais importante que recebera em sua vida, e que, para comemorá-la de maneira condigna, conferia liberdade à sua escrava Olinda, de 19 anos de idade.

Aplausos gerais cobriram aquela declaração, sendo levantados sucessivos e repetidos vivas ao senador Ignacio e ao Barão do Rio das Velhas. Foi naquele momento que teve a palavra o Dr. Vaz Pinto(2) que, em frases animadas e entusiásticas, saudou a confraternização da amizade e da liberdade no amplexo que davam os dois mineiros, que eram honra de sua pátria e que, por sua vez, em homenagem às virtudes preclaras da Exma. Baronesa do Rio das Velhas, conferia plena liberdade à sua escrava Leopoldina.

A corrente elétrica do entusiasmo dominou toda a reunião e novos vivas foram levantados ao senador Ignacio e ao Barão e Baronesa do Rio das Velhas. Seguiram-se os seguintes brindes: (continua no fim do texto).

Muitos outros brindes ainda seguiram-se, quando a orquestra, no grande salão, anunciou que as danças iriam começar. O prazer tinha tocado ao seu auge. Todo o vasto solar era dança, música e risos. No grande salão, seguiam-se ininterruptas as quadrilhas, lanceiros, polcas e valsas. Além, em sala reservada, um grupo de guapos e folgazões moços de fibra de aço e assomos de iridente (*brilhante) alegria dançavam o pitoresco e galhofeiro crequeché(3)Mais além, os camaradas(4) dançavam o animado cateretê e, ainda adiante, os pretos, recordando os adustos palmares africanos, dançavam o quindobe.

No meio da animação geral, ao terminar a segunda quadrilha, entrou o Exmo. Barão do Rio das Velhas acompanhado dos libertos e pediu ao Exmo. Senador para entregar-lhes as cartas de liberdade. Foi o grande, o solene momento. Todos os olhos convergiram para os que há pouco eram escravos e agora estavam livres, em honra a um grande cidadão. Todos fortes e robustos, destacando-se, dentre eles, Júlio, o que sempre foi pajem predileto do Exmo. Barão, que quis mostrar com esta liberdade, que em homenagem ao cidadão senador, dava liberdade à melhor peça dos seus escravizados.

O senador Ignacio convidou os libertos a receberem as suas cartas e, nessa ocasião, pediu-lhes que, ainda uma vez, beijassem a mão protetora do Exmo. Barão do Rio das Velhas e que, na sociedade em que irão entrar, lembrassem sempre de imitar as grandes virtudes da casa de que saíam.

Post - Barão & IgnacioSenador Ignacio Martins. / Barão e baronesa do Rio das Velhas. 

A comoção tornou-se geral e houve o silêncio eloquente dos grandes atos, que só foi interrompido pelo Exmo. Barão do Rio das Velhas, declarando que, além das liberdades conferidas, dava mais à liberdade a escravizada Josepha. Aplausos gerais partiram de todos os ângulos do vasto salão e, naquele momento, o senador Ignacio Martins deu a palavra ao Dr. Vaz Pinto. […] (Ele) saudou os amigos da humanidade ao advento da pátria livre, recordando os fatos mais memoráveis das festas da província de Minas desde os tempos coloniais e, concluindo seu discurso com a frase de Saint-Hilaire(5): “Se há país no mundo que possa passar sem outro país, é Minas Gerais.”

Ao concluir, o Dr. Vaz Pinto o seu discurso, o coronel José de Souza Vianna(6), dominado de entusiasmo, declarou que libertava os seus escravos João e Felícia. Houve aplausos gerais ainda, usando da palavra o Dr. Vaz Pinto para saudar o distinto coronel que, naquele momento, confraternizava com o seu Exmo. irmão em alma e coração. Em seguida, continuaram os festejos até ao amanhecer, sempre animados e alegres. Honra ao benemérito Barão do Rio das Velhas. Honra ao senador Ignacio Martins.

São este os nomes dos libertos: Júlio, de 28 anos de idade; Beatriz, de 40; Úrsula, de 30; Venâncio, de 35; Felisbina, de 34; José, de 50; Antônio, barbeiro, de 50; Theotonio, de 60; Severiano, de 55; Mafalda, de 45; Josepha, de 28; Olinda, de 19; Leopoldina, de 36; Felicidade, de 40 e João, de 38.

OS BRINDES: Do senador Ignacio Martins ao coronel Francisco Gonçalves Rodrigues Lima, liberal prestimoso e amigo de inexcedível valor e, especialmente, à sua esposa, D. Maria José Vaz de Lima, geralmente respeitada e querida por todos. / Do capitão Francisco de Paula Moreira ao senador Ignacio Martins, mineiro que fazia a glória da sua pátria. / Do Dr. Vaz Pinto aos Srs. Dr. José de Assis e padre Odorico (7), ambos sacerdotes, um da ciência, outro da religião, mas ambos abrasados na mesma pira ardente, a da caridade. / Do coronel Francisco de Assis da Fonseca Vianna ao Dr. Vaz Pinto, que era orgulho da pátria que lhe tinha dado o berço. / Do senador Ignacio Martins ao capitão Paulo Vianna, um dos melhores caráteres de Minas. / Do Dr. Vaz Pinto ao Dr. Modestino Carlos da Rocha Franco (8), representado na pessoa do seu distinto filho Antônio Carlos, chefe político de elevado prestígio, amigo dedicado até o sacrifício, médico e jurisconsulto, para quem as ciências são motivos de prazer no gabinete e meios de servir a humanidade. / Do senador Ignacio Martins ao capitão Francisco de Paula Moreira, cidadão e amigo dos melhores. / Do Dr. Vaz Pinto às distintas senhoras que abrilhantavam a esplendida reunião daquele solar. / Do senador Ignacio Martins aos Srs. coronel Francisco de Assis e major Júlio Cesar, distintos e prestimosos amigos. / Do reverendo padre Odorico, que em frases eloquentes saudou ao seu amigo particular, o Exmo. Barão do Rio das Velhas, protótipo de todas as virtudes. / Do Dr. Vaz Pinto ao Coronel José de Souza Vianna (9), digno representante da lavoura, em cujo futuro descansa a pátria.”— Liberal Mineiro, Ouro Preto, de 23.10.1884

Post - Proj abolicionista“Diário de Notícias” (RJ) divulga o projeto abolicionista (04.06.1887).

A luta abolicionista

A abolição da escravatura, no Brasil, vinha acontecendo por etapas. O primeiro passo fôra em 04.09.1850, com a lei Eusébio de Queiroz, que extinguiu o tráfico. Vinte e um anos mais tarde, em 28.09.1871, veio a lei do Ventre Livre, que tornou livre os filhos de escravos nascidos daquela data em diante. Em 28.09.1885, pela lei Saraiva-Cotegipe ou Lei dos Sexagenários, seriam libertados quem contasse mais de sessenta e cinco anos de idade. Mas a questão servil não estava ainda resolvida em sua totalidade e, por isso, durante os anos de 1886 e 1887, retomaram-se os debates com veemência. Diversas propostas foram então apresentadas na câmara dos deputados e no senado, na tentativa de encontrar uma solução definitiva à questão. Apesar dos fortes interesses contrariados, era chegado o momento em que não havia mais como retroceder e a liberdade total tinha de acontecer em breve.

É nesse contexto que entra a festa do barão como um acontecimento deveras especial, transcendendo o mero evento social. E é importante colocar que o anfitrião era ativo político liberal, de longa data, desde os tempos da denominada revolução dos Luzias, em 1842. Na verdade, junto com a homenagem a Ignacio Martins, pretendia-se agitar a bandeira da abolição da escravatura, uma das metas do Partido Liberal. A entrega das cartas de liberdade foi nesse sentido, porque o movimento estava na ordem do dia dos debates políticos. E os resultados não tardariam, pois em 1887, o senador Ignacio Martins tornou-se signatário de um projeto pela abolição.

Este é o projeto, assinado no Paço do Senado, em 03.06.1887:

” — Art. 1º  − Aos 31 de dezembro de 1889, cessará de todo a escravidão no Império. / § 1º − Está em vigor, em toda a sua plenitude e para todos os seus efeitos, a lei de 7 de novembro de 1831. / § 2º – No mesmo prazo, ficarão absolutamente extintas as obrigações de serviços impostos como condição de liberdade e a dos ingênuos (crianças), em virtude da lei de 28 de setembro de 1871. / § 3º – O governo fundará colônias agrícolas para educação de ingênuos e trabalho de libertos à margem dos rios navegados, das estradas e do litoral. / Nos regulamentos para essas colônias se proverá à conversão gradual do foreiro ou rendeiro do Estado, em proprietário dos lotes de terra que utilizar a título de arrendamento. / Art. 2º – Revogam-se as disposições em contrário. […] Dantas(9) – Affonso Celso – G. S. Martins – Franco de Sá – J. R. de Lamare – F. Octaviano – C. De Oliveira – Henrique d’Avila – Laffayette Rodrigues Pereira – Visconde de Pelotas – Castro Carreira – Silveira da Motta – Ignacio Martins – Lima Duarte.”

Detalhe importante é que havia uma sugestão de reforma agrária, como está anotado no parágrafo 3º, do projeto de lei: “O governo fundará colônias agrícolas […] à margem dos rios navegados, das estradas e do litoral.” Ou seja, seriam terras em locais de boa acessibilidade, para que os assentados pudessem escoar sua produção. E mais, teriam a oportunidade de ser tornarem verdadeiros proprietários, mas havia uma particularidade que teria contribuído para levar o projeto ao fracasso, pois dizia: “… se proverá à conversão gradual do foreiro ou rendeiro […] em proprietário dos lotes de terra que utilizar…”. Haveria bônus mas também ônus, pois teriam que pagar pelo uso da terra.

Post - Ignacio no jornalO projeto da abolição repercutindo no jornal conservador de Ouro Preto.

Naqueles dias de 1887, candidatos e partidos políticos faziam campanha de eleições para o senado, marcadas para 27 de junho. Como não podia deixar de ser, os conservadores aproveitaram a oportunidade para fustigar os liberais, usando contra eles o tema da pretendida abolição da escravatura. Os jornais deram cobertura ao assunto e publicaram inúmeras cartas de fazendeiros, revoltados com a perspectiva de perderem a mão de obra escrava. Na defesa nos seus interesses, os radicais contrariados não mediam as palavras. Para se ter uma ideia, basta ler um protesto, publicado no “Diário de Notícias” (RJ), de 19.06.86, assinado por “um lavrador liberal”, atacando violentamente o projeto assinado pelo senador Ignacio Martins (reprodução abaixo). Havia até ameaça de morte, imitando do que acontecera com Abraham Lincoln, em 15.04.1865, assassinado com um tiro na cabeça por um defensor do escravagismo.

Post - Protesto proj Dantas“Diário de Notícias”, violento ataque ao projeto Dantas, assinado também por Ignacio Martins.

Embora o projeto liberal não tenha vingado, serviu para atiçar as brasas na fogueira pela libertação dos escravos. Pouco tempo depois, houve o inevitável desdobramento das inúmeras ações que estavam em curso. Em 13.05.1888, pressionada pelos clamores que vinham de todos os cantos do país, a princesa Isabel − filha de d. Pedro II − assinou a Lei Áurea, abolindo a escravidão no Brasil. Um número enorme de fazendeiros protestou pela perda dos seus “bens”, mas nem todos, claro. Sem dúvida, mais um dia de festa e de muita alegria, também para Francisco de Paula da Fonseca Vianna, então visconde do Rio das Velhas, por mérito e por graça de d. Pedro II.

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A lei áurea

Com apenas dois artigos, a lei nº 3.353, diz:

“Declara extinta a escravidão no Brasil – A Princesa Imperial Regente, em nome de Sua Majestade o Imperador, o Senhor D. Pedro II, faz saber a todos os súditos do Império que a Assembleia Geral decretou e ela sancionou a lei seguinte:

Art. 1º: É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil. /  Art. 2º: Revogam-se as disposições em contrário.

Manda, portanto, a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da referida Lei pertencer, que a cumpram, e façam cumprir e guardar tão inteiramente como nela se contém.

O secretário de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e interino dos Negócios Estrangeiros, Bacharel Rodrigo Augusto da Silva, do Conselho de Sua Majestade o Imperador, o faça imprimir, publicar e correr. Dada no Palácio do Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1888, 67º da Independência e do Império. // Princesa Imperial Regente/ Rodrigo Augusto da Silva — Carta de lei, pela qual Vossa Alteza Imperial manda executar o Decreto da Assembleia Geral, que houve por bem sancionar, declarando extinta a escravidão no Brasil, como nela se declara. / Para Vossa Alteza Imperial ver. Chancelaria-mor do Império — Antônio Ferreira Viana. / Transitou em 13 de maio de 1888. — José Júlio de Albuquerque.”

Post - Pr Isabel

← Princesa Isabel

Diferentemente da “Lei Áurea”, o projeto que fora apresentado pelo grupo liderado pelo conselheiro Dantas e assinado também por Ignacio Martins, em 03.06.1887, previa o assentamento dos escravos libertos. Realmente, foi uma omissão desastrosa ter deixado milhares de indivíduos ao abandono. No livro “Centenário de Antônio Prado”, editado em 1942, Everardo Valim Pereira de Souza comentou sobre as consequências negativas. Assim escreveu:

“Segundo a previsão do Conselheiro Antônio Prado, decretada de afogadilho […] seus efeitos foram os mais desastrosos. Os ex-escravos, habituados à tutela e curatela de seus ex-senhores, debandaram em grande parte das fazendas e foram ‘tentar a vida’ nas cidades; tentame […] que consistia em: aguardente aos litros, miséria, crimes, enfermidades e morte prematura. Dois anos depois […] da lei, talvez metade do novo elemento livre havia já desaparecido! Os fazendeiros dificilmente encontravam ‘meieiros’ que das lavouras quisessem cuidar. Todos os serviços desorganizaram-se; tão grande foi o descalabro social. A parte […] de São Paulo que menos sofreu foi a que […] havia já recebido alguma imigração estrangeira; O geral da Província perdeu quase toda a safra de café por falta de colhedores!”

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Post - Visconde miniatO visconde do Rio das Velhas

Francisco de Paula de Souza Vianna nasceu em 02.04.1815, na fazenda dos Angicos que, na época, pertencia à freguesia de Santa Luzia e estava no município de Sabará. Foi o filho primogênito de José de Souza Vianna e Maria Cândida de Assumpção da Fonseca Ferreira; neto de Bernardo de Souza Vianna e Angélica Maria Pacheco Ribeiro. (veja os Posts “A família de Bernardo”, “Dumont, Vianna & Cia.” e “José e Maria”)

Casou-se, com Maria Cândida de Salles, em 18.06.1835, filha do tenente Francisco de Salles Rocha e de Carlota Joaquina de Salles − a baronesa do Rio das Velhas. Uniu-se, em segundas núpcias, em 17.05.1879, com Ana Cândida Fonseca Vianna, sua sobrinha, filha do major Antônio Ribeiro da Fonseca e de sua irmã Bernarda Cândida de Souza Vianna.

Quando eclodiu a denominada Revolução Liberal, em 1842, Francisco de Paula era tenente da Guarda Nacional e vereador suplente em Sabará. Naquela oportunidade, participou da sessão da câmara municipal e, conjuntamente, aderiu ao movimento revolucionário. Logo após, foi nomeado, pelo governo sedicioso, major da 1ª região de Sabará.

Em 1848, foi nomeado tenente-coronel chefe do 2º batalhão da Guarda Nacional de Sabará. Mais tarde, foi comandante da Guarda Nacional de Santa Luzia e Curvelo. Em 1867, pelo auxílio prestado na organização dos voluntários da Guerra do Paraguai, recebeu o título de barão do Rio das Velhas, por decreto imperial de 25.04.1867. Na política, militou no Partido Liberal e foi eleito, em várias legislaturas, vereador em Sabará e Santa Luzia, e nesta presidente da câmara.

Por ocasião da visita de d. Pedro II a Minas Gerais, em 1881, recepcionou o imperador, com toda fidalguia, em sua residência de Matozinhos e, como agradecimento, foi agraciado por Sua Alteza com duas honrarias: a comenda da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo e o título de visconde do Rio das Velhas(10).

Como agricultor, foi proprietário das fazendas do Mocambo e Bom Jardim(11). Nas suas atividades de homem do campo, empresário e político, muito contribuiu para o desenvolvimento da região onde atuou. Foi um dos fundadores da Companhia Industrial Sabarense − fábrica de tecidos − e é considerado um dos fundadores da cidade de Pedro Leopoldo (MG).

Post - Falec viscondeDuas datas para o falecimento, na sepultura dia 17, no obituário dia 16.

Desde que recebeu o título de barão, não mais assinou seu nome próprio. Tinha um sobrinho homônimo, Francisco de Paula da Fonseca Vianna(12), e, muitas vezes, os dois são confundidos. Mesmo em documentos oficiais, passou a ser conhecido, como Barão do Rio das Velhas e, depois, Visconde do Rio das Velhas. Falecido antes de completar oitenta anos de idade, ficaram duas anotações de datas do óbito. A lápide do seu túmulo anota o falecimento no dia 17.02.1893. O jornal “Minas Gerais”, editado em Ouro Preto, de 27.02.1893, publicou um obituário no qual o chama por Francisco de Paula Souza Vianna(!) e escreve dia 16, para o falecimento.

Quanto ao sobrenome Souza Vianna, trata-se de um equívoco do jornal, mas há uma explicação: vários irmãos do visconde assinavam desse modo. Sua irmandade: Antônio de Souza Vianna (*1816), Maria Cândida da Assunção (Fonseca ou Souza ?) Vianna (*1817), Joaquim de Souza Vianna (*1818), Cândido José de Souza Vianna − gêmeo (*1819), José de Souza Vianna Júnior − gêmeo (*1819), Bernardo de Souza Vianna (*1820), Joaquina Cândida de Souza Vianna (*1821), Bernarda Cândida de Souza Vianna (*1822) − também sogra do visconde, Francisco Xavier de Souza Vianna (*1823), Manoel da Fonseca Vianna (*1824), Maria Cecília de Souza Vianna (*1825), Maria Luiza de Souza Vianna (*1826), Francisco de Assis da Fonseca Vianna (*1829) e Tristão da Fonseca Vianna (*1830).

 

Texto e arte de Eduardo de Paula

Colaboração: Carlos Aníbal Fernandes de Almeida (Espaço Cultural Nilde Fernandes) 

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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Veja também, neste Blog: “A FAMÍLIA DE BERNARDO” e “NOTÍCIA DE JOSÉ E MARIA”. No Blog http://docsdosumidoiro.wordpress.com/ : GENEALOGIA SOUZA VIANNA (I)”

(1) MARTINS, Ignacio Antonio de Assis − Visconde de Assis Martins, (Sabará, *16.11.1839 / †02.03.1903).  Advogado, juiz e político. Filho de Francisco Assis Martins Costa e Eufrasia Assis. Casou-se com Angelina Silvina Moreira, viúva de Theodoro Barbosa da Silva. Foi deputado provincial, deputado geral e senador do Império do Brasil de 1884 a 1889.

(2) CUNHA, Antônio Vaz Pinto Coelho da – (Sabará, *1836 / Rio de Janeiro, †1894) – Advogado, juiz de direito,  professor, deputado, romancista e teatrólogo.

(3) Crequeché é o mesmo que reco-reco. São nomes de instrumentos de percussão, que produzem som pela fricção de uma vareta sobre um pedaço de madeira ou bambu, com sulcos transversais abertos para esse fim; é o feitio mais conhecido do instrumento. Na Bahia, encontra-se um outro tipo: uma mola de aço estirada sobre uma caixa de 10 cm x 15 cm. Em Piracicaba, São Paulo, é comum aparecer a mola estendida sobre uma tábua. Atrita-se o arame com uma haste de ferro, onde se enfiam tampas de garrafas, que produzem ruído peculiar ao ser tocado o instrumento. Aparece em várias manifestações musicais afro-brasileiras, como candomblé, moçambique, etc. O instrumento é usado no acompanhamento de músicas carnavalescas, principalmente na bateria das escolas de samba. É também chamado, em vários cantos do pais, de ganzá, raspador, casaca, catacá, caracaxá, querequexé, reque-reque, etc.

(4) Camarada = trabalhador braçal.

(5) SAINT-HILAIRE, Augustin François César Prouvençal de – (Orleans, *04.10.1779 / Orleans, †03.09.1853) Botânico, naturalista e viajante francês.

(6) VIANNA, José de Souza (Júnior) − Irmão do visconde do Rio das Velhas. Filho de José de Souza Vianna e Maria Cândida de Assumpção da Fonseca Ferreira. 

(7) DOLABELLA, Padre Odorico Antônio − Vigário de Lagoa Santa.

(8) FRANCO, Modestino Carlos da Rocha − Médico, juiz de paz, político (Partido Liberal) e fazendeiro, em Santa Luzia.

(9) DANTAS, Manoel Pinto de Souza − (*21.02.1831 /†29.01.1894) Senador (Partido Liberal) e conselheiro (integrante do Conselho de Estado; presidente do Conselho de Ministros, em linguagem moderna seria Primeiro Ministro).

(10) Imperial Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo − Antiga ordem honorífica brasileira, originada da portuguesa Ordem Militar de Cristo, que remonta à medieval Ordem de Cristo. Foi a segunda ordem imperial brasileira com mais titulares, logo atrás da Imperial Ordem da Rosa. Premiava militares e civis. Título recebido por decreto de 15.06.1881 e carta de 25.06.1881. / Visconde do Rio das Velhas: título recebido em 07.03.1885.

(11) Fazendas do Mocambo e do Bom Jardim − Ambas estão situadas do município de Matozinhos (MG).

(12) VIANNA, Francisco de Paula Fonseca (Sobrinho) − Filho de Cândido José de Souza Vianna e de Brígida Honorina Gonçalves Moreira da Silva.

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