Sumidoiro's Blog

15/08/2014

NOS PASSOS DO IMPERADOR (II)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:20 am

♦ Visitando Morro Velho

O casal imperial d. Pedro II e dona Tereza Cristina, partiram do Rio de Janeiro, no dia 21.03.1881, sábado, às 6 horas da manhã, para conhecer Minas Gerais. O imperador cuidou de escrever um diário de viagem e a imprensa deu grande cobertura à visita. Parte desses acontecimentos são aqui revividos por Sumidoiro’s Blog (1), em continuação ao Post anterior.

Post - D. Pedro II a cavaloCom bom-humor, Angelo Agostini, mostrou d. Pedro II no sobe e desce pelas montanhas de Minas.

O imperador era homem de grandes qualidades humanas, culto, observador, cultivava as delicadezas, não se julgava superior e aceitava opiniões sem preconceitos. O jornalista, ilustrador e chargista Angelo Agostini, proprietário da “Revista Illustrada”, que acompanhou a excursão, era useiro e vezeiro nas críticas a d. Pedro II mas, nem por isso, ele sentia-se incomodado. Várias cenas da viagem foram documentadas na publicação, assinadas com o pseudônimo JC ou José Códea(2).

Post - Agostini & PedroAngelo Agostini e Pedro Luiz Pereira de Sousa.

Em um dos desenhos, Agostini (JC) retrata a si mesmo, cavalgando ao lado de Pedro Luiz Pereira de Sousa(3) e coloca  a legenda: “Pedro Luiz montado n’um burrinho pequenino. O outro sou eu.” Representa no desenho também o imperador e diz: “Imperador cavallo escuro pequeno. S. M. é o único que traz chapéo alto”. Aliás, d. Pedro II portou a insinuante cartola durante toda a viagem, mas Agostini não ficou atrás, pois usou um chapéu muito engraçado, chamando a atenção de toda gente por onde passava.

DE OURO PRETO A CONGONHAS DO SABARÁ

• Congonhas do Sabará: atual Nova Lima

Diário

Post - D Pedro miniABRIL — 2 – (Sábado) 6 h, partida. Entrada na igreja de Antônio Dias. Esculturas em pedra sobre a porta. A rua que aí conduz chama-se do Alvarenga. Bela vista para o lado da cidade, ao aproximar-se do antigo jardim botânico. Lá fui. Abandonado. Belas jabuticabeiras. Ainda há pés de chá. Guardam na casa a pólvora – vinte barricas. O estado vendeu por cinco contos, a prazos, esta propriedade tão aproveitável. Teria ficado talvez melhor aí, que no Saramenha, a escola agrícola.

Subida da serra que divide as águas do rio Doce de águas do rio das Velhas. Alto da Pedra de Amolar. Vasta e bela vista. O caminho é todo muito pitoresco. Descobri, ao longe, o rio das Velhas. Chafariz do tempo do governo(4) de d. Rodrigo de Menezes, 1722, creio eu. Arraialzinho dos Taboães, com ponte.

Post - Igr Cachoeira CampoMatriz de Nossa Senhora de Nazareth, Cachoeira do Campo.

11 (h) – Cachoeira do Campo, arraial de muitas casas. Almocei; fui orar à igreja que tem dois altares laterais, que muito me agradaram por seus lavores de talha. Visitei só a coudelaria(5). Casa arrumadíssima. O arrendatário, fulano Castro, não quis responder-me claramente sobre a extensão das terras e as cabeças de gado, por causa de pequena renda que paga e, assim mesmo, sem tê-lo feito pontualmente. A terra da coudelaria é só de meu usufruto, mas a fazenda do Buraco, igualmente arrendada ao mesmo, é minha propriedade. Pensarei em aproveitá-las para colonos.

Voltei à casa, onde vi uma cadeira de forma antiga, onde meu pai se assentou e um Murta(6), de oitenta e oito anos, que lhe cuidava dos animais de viagem. Entreguei as duas cartas de alforria dadas pelo dr. Fernandes Torres(7) a dois cônjuges; ao marido, estando ausente a mulher.

O arrendatário das duas fazendas disse-me que, cada alqueire, produziu já oito carros de mantimentos. Fui ver as aulas de meninos e de meninas. Casas acanhadas. Naquela os alunos estavam ausentes, porém nesta achei meninas interrogando a uma e a professora, irmã de um Modestino, discípulo de preparatórios da Escola de Minas, pareceu-me muito inteligente.

Partida a 1½ e chegada a Casa Branca, às 4. Caminho sempre belo. Vi bem a serra de Capanema(8) e sua garganta. Foi por aí que nasceu o barão de Capanema. Orei na igreja. Jantar. Concerto, leitura dos diários do Rio, de 30, última data. Deitar às 9 h.

Post - Casa Branca paisagemPaisagem de Casa Branca com aflorações de minério de ferro (Por Marianne North, sec. XIX).

Diário

Post - D Pedro miniABRIL — 3 (Domingo) − Missa dita pelo monsenhor, pouco antes das 5 h. Partida, às 6 h 20′. Manhã fresca, com belíssima, linda paisagem. Atravesso mato de capoeira. 7½ (h). Ponte de Ana de Sá, sobre o rio das Velhas, pouco largo, raso, com pedras. Alto de Peres. Pico de Itabira(9), com suas duas pontas. Na ponte de Ana de Sá, atirei um raminho no rio. Conversei, quase todo o tempo, com o Gorceix, sobre geologia e geognosia. Chegada ao bonitinho arroio do rio das Pedras, com suas duas capelas e palmeiras, às 9 h.

Almoço. Seguimos às 10. O caminho continua pitoresco e vi,  ainda ao longe, do lado direito,  o vale de uma mina de São Vicente, cuja igreja avistara antes de chegar a Rio das Pedras(10). Atravessaram-se diversos córregos, até chegar, às 2¼, ao pequeno arraial de Santo Antônio(11), tendo observado, pouco antes, bonitas plantações de café todo carregado de frutos ainda verdes e de feijão. Atravessa-se uma ponte maior ao entrar no arraial, de onde segui, deixando atrás as liteiras, às 2½. O caminho margeia o rio das Velhas, que já faz vista aí e pode ser atravessado por canoas.

Post - Pico do ItabiritoCaravana de d. Pedro II, com pico do Itabirito – dizia-se Itabira – ao fundo (por JC).

Sítio de d. Florisbela, do lado oposto do rio, muito bonito, com suas altas macaúbas. O coco desta palmeira dá azeite, fazendo-se da polpa sabão e das folhas excelentes cordas. Esse sítio parece uma ilha de verdura. Antes de Santo Antônio, vieram ao encontro dois empregados de Morro Velho. Na longa ponte de Santa Rita, que atravessa o rio, estava o diretor de Morro Velho(12) e muita gente. Ia olhando distraído, diversas mulheres correram para mim e, espantando-se o cavalo, caí dele(13). Não foi nada, montei noutro, oferecido pelo diretor de Morro Velho e continuei a andar.

Post - Queda cavaloNa queda do cavalo, o dedo de Deus socorreu o imperador (Por A. Agostini, capa da “Revista Illustrada”).

Tomei, à esquerda, para a lavra de Assis Jardim(14). Fui até o engenho, seis pilões; couros sobre que* (*os quais) passa a água com o pó do minério e bateias que, agitadas circularmente pela mão, fazem depositar o ouro que se lavou dos couros. A água, que por eles passou, vai depositar mais longe o pó do minério que ainda se aproveitar* (*aproveita), pelo mesmo processo. Tiram quatro a seis oitavos de tonelada de minério. Por curiosidade, trabalhei um pouco de bateia.

Post - Nova Lima panoramaNova Lima, antiga Congonhas do Sabará.

Um filho de Jardim é o único que faz este trabalho. A mina, segundo me disse Gorceix, é a céu aberto, com trezentos metros de extensão e um e meio de largura. Ainda apanhei as liteiras pouco adiante, na ponte Santa Rita. Vim conversando com o diretor de Morro Velho. Passei pelo arraial de Congonhas do Sabará* (*atual Nova Lima) e cheguei à casa de residência do diretor ainda com bastante luz.

A vista do alto, de onde se desce para o arraial, é muito bela. Muita gente reunida. Só de homens empregados pela companhia há seis mil. Tomei um bom banho morno, tendo antes visto da varanda o fogo de artifício; jantei às 71/5 (7½ ?) e, pouco depois, deitei-me. Amanhã é que hei de colher informações sobre a mina. O diretor já me deu algumas. Contratou a iluminação pela eletricidade, produzida na máquina Gramme. Diz que o recurso está a extinguir-se. Dá seis a oito oitavas por tonelada; pilando, por dia, duzentos e cinquenta. Ao chegar, vi, ao lado do caminho, um depósito de pó que já fora aproveitado, mas ainda contem ouro de, talvez, cento e vinte mil toneladas.

Post - Chegada a Morro VelhoRecepção a d. Pedro II, em Morro Velho. Ao fundo a Casa Grande, onde pousou o imperador (por JC).

Diário

Post - D Pedro miniABRIL — 4 – (2ª fª) − Acordei, às 5½. Banho frio. Vai começar a tarefa do dia. Antes do almoço, às 11½: amalgamação. O ouro, talvez, não esteja todo puro, sem combinação química que impeça, em parte, a liga com mercúrio. O minério é o quartzito de piritas, uma delas muito arsenical. Por isso, segundo alegaram, deixaram de prosseguir num ensaio de hostulação* (*ustulação).

Tiram só de três a quatro oitavas em tonelada. As mesas, sobre que corre a água com o pó, são prismáticas triangulares. Depois de correr a água quinze metros, viram-nas; e a face que despejar a água e sobre que houve o depósito, lavam-na com uma manga de bomba; e essa água é que vai por a amalgamação, onde, depois de misturada com metade quase de mercúrio, é bem agitada na água; e a massa que fica, espremida através de um saco de camurça, para que saia o mercúrio livre.

Forma-se um bolo que vai ao forno sublimando-se o mercúrio, que, apesar de condensado, depois perde-se quase na razão da metade. Pilões, cento e tantos, sistema ordinário, e duas mãos chamadas de elefante que fazem o trabalho de vinte e cinco pilões. Mesas de percussão, em que a água com o pó se divide em três porções de diferente concentração. A água, que escorre das mesas, cai sobre uma espécie de bateia grande emborcada e sobre cuja parede fique* (*fica?) pó com pouca água.

O que não se aproveita vai para o que chamam praia. Como já disse, retificando, já há aí cento e cinquenta mil toneladas, onde o ouro acha-se quase na mesma proporção, porque há diversos motivos para que as águas de resíduo cheguem à praia, com a mesma ou quase a mesma condensação do princípio.

Post - Morro VelhoMorro Velho (por A. Riedel, 1868/69).

Gorceix tomou nota de tudo. A pedra vem da mina por trilhos e em vagonetes, que são puxados pela força de uma turbina; atravessam pequenos túneis. Antes do minério ir para os pilões, elefante e arrastos, que são como galgas, onde são arrastadas, por cadeias, grandes pedras; é quebrada numa máquina que trabalha como duas queixadas de ferro, cuja força muscular [ilegível] da turbina. Olhei de cima do precipício os estragos da mina que se incendiou; diz o diretor que por malefício. Na volta para casa, entrei na biblioteca. Possui boas obras inglesas, sobretudo as de viagens modernas na América do Sul e interior da África.

Saída, de novo, à 1½. Hospital, que está bem arranjado. As latrinas ficam inodoras pela queda de carvão ou terra, produzida pelo movimento. Lançam-se depois longe, e num buraco, as matérias excrementícias. Capela católica. É grande, porém pouco cuidada. Às 3, estava na boca da mina. Vesti-me como mineiro, com minha vela pregada com argila ao chapéu.

Post - Descida minaMorro Velho: o casal imperial trajado para visita à mina e a descida de elevador (por JC).

Gorceix tomou nota de tudo. A pedra vem da mina por trilhos e em vagonetes, que são puxados pela força de uma turbina; atravessam pequenos túneis. Antes do minério ir para os pilões, elefante e arrastos, que são como galgas, onde são arrastadas, por cadeias, grandes pedras; é quebrada numa máquina que trabalha como duas queixadas de ferro, cuja força muscular [ilegível] da turbina. Olhei de cima do precipício os estragos da mina que se incendiou; diz o diretor que por malefício. Na volta para casa, entrei na biblioteca. Possui boas obras inglesas, sobretudo as de viagens modernas na América do Sul e interior da África.

Saída, de novo, à 1½. Hospital, que está bem arranjado. As latrinas ficam inodoras pela queda de carvão ou terra, produzida pelo movimento. Lançam-se depois longe e num buraco as matérias excrementícias. Capela católica. É grande, porém pouco cuidada. Às 3 estava na boca da mina. Vesti-me como mineiro, com minha vela pregada com argila ao chapéu.

Começou a descida no ascensor às 3½. Movimento muito suave. Muita água escorria das paredes do poço. Em ¼* (*quinze minutos) tocávamos o fundo a 457 metros. Há outro andar inferior que vi bem dos poços, estando o fundo bem alumiado com estopa queimada, velas, magnésio, etc. O diretor queixa-se de que o veio vai a terminar, porém, a qualidade e disposão* (*disposição) das rochas parece indicar o contrário. Tem revestido o interior da mina com madeiras enormes(15) e, um deles, ficou achatado em pouco tempo, como um chapéu de pasta. De algum tempo, começaram a não escavar tudo, conservando partes da rocha como pilares, o que parece mais razoável, embora não o tivesse feito para tirarem mais ouro.

Post - Dentro da minaDentro da mina: ao centro, d. Pedro II e acompanhantes. Sentado na pedra, desenhista A. Agostini (por JC).

Demorei dentro da mina mais de 1½. Arrebentaram minas que pareciam ruído de terremoto e agitavam o ar dentro de espessas paredes de pedra. A subida fez-me igualmente bem. Antes das 6, já tomara eu um banho morno. O diretor disse-me que os empregados e operários contribuem com 1$000, por mês, para acudir aos que não podem trabalhar. É grande partidário dos trabalhadores chins* (*chineses). Antes do banho, fui com o diretor ver, posto que de longe, os três canos que formam um sifão, conduzindo  água para movimento das máquinas. A água vem da serra do Curral(16). A extensão de todos os regos é de cerca de nove léguas. O jantar foi às 7¼ e, depois, conversamos, até perto de 10.

Noite belíssima. O diretor mostrou lindos cristais de rocha achados na mina. Alguns contêm piritas que se irisam. O maior salário de empregado, nos trabalhos da mina, é de 15££ por mês. Trabalham dia e noite, em três turmas que se revezam. As brocas são pagas por empreitadas e, alguns, abrem-nas em três horas. A melhor madeira empregada é a baraúna. Não vi a capela protestante. Há escola para os meninos filhos dos trabalhadores e empregados. Na botica do hospital aviam receitas dos trabalhadores e empregados; e de todos os que têm relações domésticas com eles. — DIÁRIO: continua na próxima postagem.

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NA IMPRENSA

Post - JornalJornal “A Provincia de Minas”, de Ouro Preto:

No Morro Velho, tiveram os augustos viajantes esplêndida recepção e, a 4 do corrente, […] desceram às minas, situadas […] abaixo do nível da terra, tendo antes vestido sobre a roupa costumes de brim-lona e pondo chapéus de couro duro, com uma vela presa na copa. Antes da descida à mina, os augustos viajantes haviam visitado, além das oficinas da companhia, a capela católica, a biblioteca e o hospital. Neste, S. M. […] deixou-se pesar, verificando-se o peso de sete arrobas e onze libras* (*109 kg), dignando-se, também, assinar seu nome no livro do hospital, onde estão inscritos os dos visitantes, com menção do peso e altura. O imperador, além dos 500$ que deu para os operários da companhia, e que já noticiamos, mandou distribuir 300$ pelos pobres da freguesia de Congonhas de Sabará. Também em Casa Branca, S. M. distribuiu muitas esmolas. – Publicado em 17.04.1881

Post - Gazeta do NorteJornal “Gazeta do Norte”, de Fortaleza, Ceará:

Suas Majestade Imperiais partiram […] de Casa Branca e só pararam no lugar denominado Rio das Pedras, para almoçar. A viagem foi boa, graças aos bons caminhos. É escusado dizer que o sol atormentou-nos horrivelmente. Isso não impediu-nos de apreciar os esplêndidos panoramas de serras e contrafortes, que se avistam do alto de qualquer monte.

A viagem continuou assim, até a imensa ponte do Rio das Velhas. Além dela, achava-se muita gente, da qual faziam parte Ignacio Martins(17), o sr. P. Morrison, superintendente da S. John del-Rei Mining Company(18)  e muitos empregados da companhia.

[…] Depois que Sua Majestade se despediu do sr. Morrison, chicoteou o cavalo e, instantes depois, quando subia uma pequena elevação, olhou para trás como que para chamar alguém. Nessa ocasião, o cavalo em que ia montado espantou-se com os vestidos de umas mulheres que tinham ido postar-se em um barranco, para verem passar os augustos viajantes, e […] o imperador, perdendo o equilíbrio por causa do brusco movimento do animal, caiu de costas no chão. – Publicado em 27.04.1881

Post - Antiga casa grande Morro VelhoCasa Grande, residência do sr. Morrison, onde hospedou-se d. Pedro II.

O sr. conselheiro Lima Duarte, que já tinha aproximado […] saltou imediatamente do seu animal, mas um homem que estava ali perto, levantou logo Sua Majestade. O sr. Morrison ofereceu alguma bebida e Sua Majestade não quis aceitar senão água de Seltz(19). Sua Majestade ficou extremamente pálido. […]

Foi esplendida a recepção que tiveram […] aqui. Uma grande cavalhada acompanhou-os, desde a ponte até a entrada do arraial de Congonhas do Sabará, no fim do qual está estabelecida a companhia de mineração. As casas da companhia são tantas que formam outro arraial. Suas Majestades entram no jardim da casa do sr. Morrison entre alas de súditos ingleses, de um lado senhoras e crianças, de outro homens, que levantaram hurras […] Estão alojados em casa da companhia (imagem acima). Amanhã desceremos à mina.

Morro Velho, 4 de Abril, meia-noite – Ontem […] dei notícia da chegada de Suas Majestades a esta verdadeira colônia inglesa. […] Hoje já posso dizer, com mais segurança, que Sua Majestade nada sofreu. Serão necessários pelos menos três dias […], para o exame de tudo o que há para ver, tais e tantos são os grandes maquinismos para a extração do ouro. Sua Majestade não demora, aqui, senão o dia de hoje. É uma empresa superior às minhas forças, apesar da boa vontade que tenho, o poder dar as notícias de certas coisas que vejo. […]

Post - Casa Grande 2Outra imagem da Casa Grande, com congado de negros (por A. Riedel, 1868/69).

A viagem tem sido agradável para uns esplêndidos panoramas que se observam do alto dos morros […] e desagradável para outros que estão fatigadíssimos. Algumas pessoas […], quando apeiam do animal, mal podem ficar em pé. A companhia de mineração […] preparou uma deslumbrante recepção […]. Enfeites foram não foram preciosos, porque, como é sabido, as residências dos ingleses já são por si muito elegantes, com lindos jardins, etc.

Limitaram-se a levantar bandeiras brasileiras em diversos pontos e o pavilhão inglês em frente ao hospital da companhia. No portão do jardim da residência do sr. Pearson Morrison (imagem acima), onde se hospedaram Suas Majestades(20), liam-se as […] inscrições: “Vivam S.S. M.M Imperiais”, do lado externo e “Welcome to Morro Velho”, do lado interno. Suas Majestades estão alojados numa bela e aprazível vivenda. A casa tem, na frente e dos lados, uma espaçosa varanda; e todas as acomodações são muito confortáveis.

À noite, iluminaram-se o jardim da residência […] e as casas dependentes da companhia. Tanto a iluminação como o fogo de artifício, queimado às 9 horas da noite, agradaram muito.

Post - Seleção inglesaSeleção inglesa de futebol – Copa do Mundo, 1950 – hóspede da Casa Grande.

Hoje, às 7 horas da manhã, visitarão as oficinas da companhia. É um estabelecimento que deve ter sido montado com grande despesa e sacrifício, à vista da distância que há a percorrer de Barbacena até aqui […]. A companhia tem, no Morro Velho, quatorze empregados de categoria superior, 57 mineiros, 15 ferreiros, 12 carpinteiros, 23 pedreiros, 45 ferreiros de cor, e, talvez, 400 escravos. […]

Às 3 horas da tarde, Suas Majestades dirigiram-se para a estação, donde se desce às minas de ouro, […] vestiram […] costumes de brim-lona e puseram chapéus de couro duro, tendo uma vela de sebo espetada na copa. E assim paramentados, desceram por um aparelho elevador, composto de duas gaiolas (nome dado aqui). […] percorreram as minas, que estão situadas a 435 metros abaixo do nível da terra. […] Quem vê […], fica encantado, parece estar vendo um palácio de fadas! Não há outra frase que explique o que são as minas de Morro Velho, senão esta. É o belo horrível! – Publicado em 27.04.1881 e 28.04.1881

• Clique com o botão direito e veja todos, “Nos passos do imperador” – de I a VIII) – I  | III  | IV  | V  | VI  | VII  | VIII   

Compilação, adaptação, comentários e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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(1) Fonte do Diário: “Anuário do Museu Imperial”, vol. XVIII, 1957, versão e notas por Hélio Vianna. // Sumidoiro’s Blog corrigiu e atualizou grafias de palavras, alterou pontuações, tanto na transcrição do Diário, quanto nos noticiários da imprensa, preservando a integridade do conteúdo. Ainda acrescentou notas e ilustrou.

Post - José Códea(2) O autor dos desenhos assinou JC ou José Códea, sobrenome que, trocando o assento – côdea – significa pedaço de pão duro. Usar esse pseudônimo pode ter sido uma gozação de Angelo Agostini, ademais ele tinha vários. Na “Revista Illustrada” usou-se diversas vezes a palavra côdea no verdadeiro sentido de pão duro. O estilo, o traço e as legendas manuscritas são próprios de Agostini (ilustração à esquerda).

(3) SOUSA, Pedro Luiz Pereira de – (Araruama – RJ *13.12.1839 / †16.07.1884) Advogado, político e poeta. Patrono da cadeira n.o 31 da Academia Brasileira de Letras.

(4)  MENEZES, Rodrigo José Antônio de – (* 12.02.1750 †13.05.1807) Governou de 1780 a 1783, portanto, 1722 é data equivocada.

(5) Coudelaria, onde se criam cavalos. Origina-se de “coudel”, antiga denominação de capitão de cavalaria. O estabelecimento foi instalado em Cachoeira do Campo pelo governador d. Antônio de Noronha para melhoramento de raças equinas.  Mais tarde, sediou o Quartel dos Dragões D’El Rei. Em 1893, foi  cedido aos padres salesianos para instalarem o Colégio Dom Bosco. Atualmente, funciona como centro de convenções, lazer e turismo ecológico, com o nome de Centro Dom Bosco.

(6) MURTA, Manuel de Neves – Companheiro de caçada de d. Pedro I (pai de d. Pedro II), numa de suas viagens a Minas Gerais.

(7) TORRES, Fernandes – Filho do senador José Joaquim Fernandes Torres.

(8) Serra de Capanema, em Itabirito. O barão de Capanema – Guilherme Schüch, depois Guilherme Capanema –, nascido nesse lugar (*17.01.1824 / +28.07.1908), era filho único de Josefina Roth (suíça) e Roque Schüch (austríaco), engenheiro, mineralogista e bibliotecário da imperatriz Leopoldina, que lá esteve fazendo pesquisas mineralógicas e botânicas, em 1824. Guilherme é bisavô do político Gustavo Capanema.

(9) Pico de Itabira, porque a localidade chamava-se Itabira do Campo mas, depois, mudou para Itabirito e pico do Itabirito. Ficou então conhecida por Itabira a antiga Itabira do Mato Dentro, cidade situada a nordeste da capital Belo Horizonte.

(10) O arraial do Rio das Pedras foi um grande centro de mineração e surgiu nos primórdios da capitania. Desde 31.12.1943, passou a ser denominado Acuruí e a integrar, como distrito, o município de Itabirito.

(11) Santo Antônio do Rio Acima.

(12) MORRISON, Pearson.

(13) O repórter Tinoco, do “Jornal do Comércio”, narrou o acidente: “Depois que Sua Majestade se despediu do sr. Morrison, chicoteou o cavalo e, instantes depois, quando subia uma pequena elevação, olhou para trás como que para chamar alguém. Nessa ocasião, o cavalo em que ia montado espantou-se com os vestidos de umas mulheres, que tinham ido postar-se em um barranco para verem passar os augustos viajantes e S. M., o imperador, perdendo o equilíbrio por causa do brusco movimento do animal, caiu de costas no chão.”

(14) JARDIM, Assis – Tenente-coronel.

(15) Muita madeira era proveniente da fazenda da Jaguara, situada à beira do rio das Velhas, depois de Santa Luzia, rio abaixo.

(16) Serra do Curral – Seu nome alude a Curral d’El Rei – antiga vila –, que foi demolida para construir a atual capital, Belo Horizonte, situa-se na região leste do município. Faz parte do maciço da Serra do Espinhaço.

(17) MARTINS, Ignacio Antônio de Assis – Visconde de Assis Martins, (Sabará, *16.11. 1839 / †02.03.1903), juiz e político brasileiro. Filho de Francisco Assis Martins Costa e Eufrásia Assis. Casou-se com Angelina Silvina Moreira, viúva de Theodoro Barbosa da Silva. Bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo. Deputado provincial, deputado geral e senador do Império do Brasil, de 1884 a 1889. Leia os Posts “A festa do barão” e “Nascido para matar”.

(18) No século XIX, a Saint John Del Rey Mining Company iniciou a exploração de ouro em Congonhas do Sabará (Nova Lima). Mais de 170 anos depois, o patrimônio minerador passou a ser controlado pela Anglo-Gold, atualmente Anglo-Gold Ashanti, após a fusão com a Ashanti Goldfields, em 2004. 

Post - Água de Seltz

(19) Água de Seltz – Bebida não-alcoólica, feita com água e ácido carbônico (veja rótulo, à esquerda, de 1889). / O nome com que foi batizado o produto – Água de Seltz – e que, mais tarde, adaptaram para o conhecido Alka-Seltzer, vem das fontes de águas minerais de Neider Seltzer, na Alemanha. Foi e tem sido também chamada de soda, muito apreciada quando é bebida sozinha ou, também, misturada em diversos coquetéis alcoólicos. Tem aspecto borbulhante que provém, basicamente, da grande quantidade de gás carbônico existente na sua composição. Houve época em que os médicos a prescreviam para muitas utilidades, desde os desconfortos do aparelho digestivo, até mesmo nas descamações de pele, neste último caso* misturando-a com leite de jumenta. – *Fonte: Chamber’s Cyclopaedia, 1753.

20) A Casa Grande é um casarão do século XIX construído pela família do Padre Antônio Pereira de Freitas, um dos primeiros proprietários da Mina de Morro Velho. Quando foi adquirida pelos ingleses, serviu de moradia aos superintendentes da mineração e, no presente, está transformada em “Centro de Memória Morro Velho”, da Anglo-Gold Ashanti. Depois de receber d. Pedro II e d. Tereza Cristina, passou por grandes reformas. O príncipe de Gales, que se tornaria o rei Eduardo VIII, e o duque de York, segundo na linha sucessória, haviam chegado ao Rio de Janeiro, em 25.03.1931, em visita ao país. Naquele mesmo ano, estiveram em Morro Velho e hospedaram-se na Casa Grande. Da mesma maneira, em 1920, ali foram acolhidos o rei da Bélgica, Alberto I, e sua mulher Isabel da Baviera. Sua visita a Minas Gerais levou à criação da Companhia Belgo-Mineira. Em 1950, a residência abrigou a seleção inglesa de futebol, durante a Copa do Mundo.

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01/08/2014

NOS PASSOS DO IMPERADOR (I)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 10:02 am

♦ Ouro Preto em festa

 “Dentro de um mês, segundo noticiam as folhas da corte, SS. MM. Imperiais partirão para esta capital, que pretende honrar com sua visita, bem como outros pontos da província.” Assim noticiou o jornal “Província de Minas”, de Ouro Preto, em 27.02.1881. A viagem se confirmou, com d. Pedro II e dona Tereza Cristina partindo do Rio de Janeiro, no dia 21.03.1881, sábado, às 6 horas da manhã. Sua alteza cuidou de escrever um diário de viagem e também a imprensa deu grande cobertura à visita. Parte dos acontecimentos são aqui revividos por Sumidoiro’s Blog(1).

Post - Panorama Ouro PretoOuro Preto que encantou Pedro II. 

Post - JornalO jornal “A Província de Minas”, de Ouro Preto, publicou:

MARÇO — 27 — “… SS. MM. Imperiais partem da corte, a 26 do corrente, para esta capital, passando por Barbacena, Queluz* (*Conselheiro Lafaiete), etc., e pretendendo, d’aqui, ir a Mariana (onde assistirão as solenidades da Semana Santa), Morro Velho, Sabará, Lagoa Santa e São João del-Rei, percorrendo, depois, as estradas do oeste, Pirapetinga* (*Manhumirim) e Leopoldina. […] chegaram a esta cidade no dia 30 deste, fazendo sua entrada pelo caminho do Funil, ruas de Ouro Preto, Glória, Rosário, Tiradentes e praça da Independência, indo hospedar-se em palácio.”

Post - D. Pedro & DiárioDuas páginas do Diário e d. Pedro II em caricatura de Bordalo.

TRECHO DE QUELUZ A OURO PRETO

Post - D Pedro miniDiário

D. Pedro II

MARÇO — 30 (4ª fª) − Partida às 6 h; Carreiras − Bonita posição de vasto horizonte, para leste e, sobretudo, oeste. Encosta* (*encostada) a uma tronqueira* (*cancela de troncos), estava uma linda rapariga com sua saia e camisa, revelando formas elegantes. Dava-lhe muita graça o lenço branco de pontas pendentes, atado na cabeça. O caminho é bom, porém muito montanhoso. Passam-se diversos ribeirões, havendo uma ponte solidamente construída, todas as águas do Paraopeba.

Varginha − Casa onde se reuniram os inconfidentes. Pertencia, então, a um hospedeiro de nome João da Costa. Vi a mesa e bancos corridos, de encosto, onde se assentavam. São de maçaranduba e estão colocados na varanda. Reparando que não houvessem conversado no interior da casa, disse-me o dono dela, que havia vedetas* (*vigias) para avisá-los.

Post - Mesa & banco— Assinando José Códea, Angelo Agostini como enviado da “Revista Illustrada”, desenhou os móveis citados e escreveu: “Na casa de Manoel Alves Dutra, na Varginha, existem dois bancos e uma mesa, feitos de maçaranduba, que serviram nas conferências dos Inconfidentes, sob a direção do grande cidadão Tiradentes. Hoje, serve para comer-se boas feijoadas com cabeça de porco (tempora mutantur!).

Atravessada a ponte do ribeirão da Varginha, entra-se no município de Ouro Preto. Chegada à casa do Sperling(2), cuja mulher é sobrinha do Sepetiba (Aureliano)(3), perto do arraial de Ouro Branco, às 10 h. Vieram encontrar-me, a caminho, Gorceix(4) e outros. Gorceix já está um verdadeiro mineiro e fala, correntemente, português. Almoço, onde conversei sobretudo com Gorceix, que já conhece as principais pessoas de Minas, e segui às 11. Chuva forte, segundo dissera Gorceix, consultando o seu aneróide* (*barômetro), que traz como relógio desde o arraial do Ouro Branco, que é pequeno, com sua igreja, que não parece feia de fora, até mesmo depois de galgada a serra, que tem belos pontos de vista. Gorceix ia me mostrando as diversas rochas, quase todas de xistos micáceos* (*de mica) e cuja inclinação é de N.N.O.* (*coordenadas geográficas).

Post - José Côdea

Pedro Luiz montado n’um burrinho pequenino. O outro sou eu (José Códea ou Angelo Agostini).

Conversamos muito de geologia e mineralogia. A descida da serra do Ouro Branco é mais pitoresca do que a subida. Ao chegar ao cimo, formava-se escura trovoada, do lado da subida. Aproximando-me do arraial do Itatiaia, vi uma papuda. Monsenhor José Augusto(5) contou-me que, na freguesia do Jacaré, de que foi vigário, até as crianças nasciam de papo(6), que chamam pescoço − reparando em quem não tem pescoço. Também me disse que, indo pregar, um raio matou-lhe a besta, deixando(-o) desacordado e, depois, oito dias sem poder articular palavra e com um sinal numa das fontes, onde sentira como uma pancada, o qual durou-lhe dois anos.

A subida do Itatiaia com penhascos é muito pitoresca. O caminho para lá, do alto, também agradou-me bastante. Às 4 chegava a Falcão, onde havia uma caleça(7) onde entrei e troles(8). A descida para Ouro Preto parece a de Petrópolis. Vieram muitos cavaleiros a meu encontro e, entre eles, Pedro de Alcântara Feu, afilhado meu, que batizei, em 1840 ou 41, filho do Feu(9), do 1º de cavalaria. Às 4 h e 20′, passava por defronte da casa de d. Felicidade e, às 5½, chegada a Ouro Preto, cuja vista encantou-me. Apareceu-me, na imaginação, como Edimburgo.

A estrada que margeia o ribeirão do Carmo(10), que atravessa, em parte, uma espécie de túnel, é lindíssima. A caleça custou-lhe a subir por estas ruas de aspecto tão original e temia que pisasse alguém, pois havia imenso povo, e cordialíssimo acolhimento. Enfim, alcancei o alto do palácio, mas tive de apear-me e subir ainda um pouco. Aí, encontrei vice-presidente e bispo(11). O palácio é de construção muito característica. Parece uma fortaleza e até tem guaritas. Defronte, levanta-se a bela cadeia(12), cuja iluminação, de copos de cores e luz elétrica, logo que anoiteceu, era lindíssima.

Jantar. Recebi algumas pessoas, das 7 às 9, no belo salão do palácio, que tem excelentes acomodações. Recolhi-me às 9 e pouco, li. Desde ontem, que vejo congonha do campo* (*tipo de arbusto) e colhi um ramo florido. Vi hoje a canela de ema, planta que acende a modo de vela.

Post - Congonha & canelaCongonha do campo e canela de ema.

Post - D Pedro mini

Diário

MARÇO — 31 (5ª fª) − Ontem, houve fogo de artifício, que não foi brilhante e soltaram um balão defronte do palácio. Esta manhã, tomei um bom banho frio, num banheiro de pedra bem arranjado no fundo do palácio. Quis ler a inscrição, mas só pude distinguir − Palmensis Comes 1812(13). Cerca das 7½, saí. Dei uma volta pela cidade entrando nas igrejas − do Carmo, de cujo interior gostei, havendo na sacristia um lavatório(14) de pedra um pouco azulada, cuja escultura revela talento e, sobre a porta, esculturas do mesmo gênero, que não me agradaram tanto; e da matriz, cuja forma parece antes de teatro e onde conversei com o cura Sta. Ana(15), cuja fisionomia predispôs-me em seu favor. Do lado do Carmo, a vista para o lado das Cabeças é muito pitoresca. As ladeiras são íngremes e mal calçadas.

9½, Escola de Minas(16). Arco original, em forma de martinete* (*grande martelo) e instrumentos de mineiro. Gorceix deu sua lição durante uma hora, fazendo dois estudantes, Luís Barbosa e Paulo, reconhecer rochas que estavam sobre a mesa, mostrando ambos, sobretudo Barbosa, muita aptidão. Percorri a escola que, parece-me, muito bem montada.

Às 10½, voltei para almoçar. Por causa da demora da segunda liteira, só muito depois do meio-dia estava na matriz para o Te Deum. A música não foi muito ruim. O cônego Ottoni(17) pregou bem, embora metesse alguma literatura profana no sermão e, parecesse-me* (*pareceu-me) ouvir-lhe falar dos carvalhos, sob os quais balançavam-se os caboclos nas suas redes. Daí, fomos ao Rosário, que só se distingue por sua arquitetura externa. Corpo da igreja oval; Carmo, onde disseram-me que o lavatório era obra do Aleijadinho e, já com chuva de trovoada, a São Francisco de Assis, cuja escultura do santo, em êxtase, sobre a porta, púlpitos − principalmente o baixo-relevo da tempestade do lago Tiberíade − e figuras do teto da capela-mor; tudo obra do Aleijadinho − são notáveis.

O teto do corpo da igreja foi pintado pelo tenente-coronel Athaíde(18), amigo do Paula Cândido(19). Não pensava que fosse capaz de tanto, pois a pintura revela bastante talento no grupamento das figuras. Referiram-me que Athaíde fôra discípulo da academia de belas-artes(20).

De um dos lados da igreja, descobre-se no vale a casa de Marília de Dirceu. Fui depois à polícia, onde falta a estatística criminal e a da legislação de 1878. Há um telefone que se comunica com a cadeia e o palácio. Aí morou o ouvidor Tomás Gonzaga e, de uma das janelas, veem-se muito bem, ao longe, as da casa de Marília. Disseram-me que Gonzaga costumava passear até perto de uma igreja, no alto de uma ladeira, onde se deitava a contemplar a casa de Marília.

Post - Casa de MaríliaCasa de Marília de Dirceu (Maria Dorothea Joaquina de Seixas), demolida em 1927.

Enfim, estive na casa da câmara, que é a melhor que tenho visto em minhas viagens. Reparei somente que não guardam com cuidado os padrões de pesos e medidas. Prometi dar uma bomba de incêndio à municipalidade, comprometendo-se o presidente Domingos Magalhães de organizar uma companhia de bombeiros. Nunca se pensou nisso.

Jantar às 5. Conferência de Gorceix no salão da Assembleia, que ficou cheio. Gorceix expôs com talento as riquezas de Minas, sobretudo a do ferro, cuja quantidade calculou em oitenta e um mil milhões de toneladas, podendo a província tornar-se fornecedora de aço ao resto do mundo se, por meio de linhito(21), de que se encontram vastos depósitos em Minas, se conseguir aceitar diretamente o seu ferro. Gostei de ouvir a exposição de ideias tão civilizadoras a oitenta léguas do Rio de Janeiro, de onde, felizmente, já começou a irradiar-se o progresso a todo o Brasil.

Recebi até 9. Conversei bastante com o velho Quintiliano(22) e o juiz de direito Guimarães, que não me deram informações satisfatórias do foro de Ouro Preto. A mãe do deputado Lemos(23) é uma senhora idosa, de fisionomia distinta. Li na cama os jornais do Rio, até 29. Já deviam ter chegado os de 30, se o correio é diário como anunciaram e preveniu-me o Buarque(24).

Post - JornalJornal “A Província de Minas”:

MARÇO — 31 − … Ataviada de galas − flores silvestres das montanhas −, a velha capital mineira exulta de prazer! […] Vivam Suas Majestades Imperiais! Expressão sincera do nosso sentimento pessoal, este brado é o eco fiel das aclamações populares. […] Sobejam nobres motivos para o regozijo popular. Nestes tempos, em que o indiferentismo e a descrença pairam desoladores nos espíritos, emurchecendo-lhes fagueiras esperanças, os augustos imperantes do Brasil são, para o povo, um entusiasmo e uma fé. É que eles simbolizam o patriotismo como a púrpura, a virtude como a majestade do trono.

[…] No monarca, veem os bons cidadãos não só o chefe magnânimo […] mas, também, o tipo do patriota, sábio e infatigável, e o homem […] que, no decurso de seu reinado […] nunca transviou-se do dever impelido por paixões inconfessáveis […] Em S. M. a imperatriz, está o povo brasileiro habituado a contemplar, com respeito e admiração, todas as peregrinas virtudes, que assinalam a excelsa princesa, como um raro modelo de quanto se pode asilar de mais puro e de mais santo n’um coração de esposa e mãe.

[…] Bem-vindos sejam os augustos Imperadores do Brasil!…

Diário

Post - D Pedro miniABRIL — 1 (6ª fª) − 6 h, banho. Leitura, até 7. Visita à cadeia. Edifício bem construído, porém as prisões inferiores, sobretudo uma de galés, verdadeira enxovia; não me agradaram. Livros em regra. Disse aos presos que mandassem suas petições à presidência. O chefe de polícia disse que, um deles, está preso inocentemente, conforme a declaração de que existe certidão do culpado. Aula na cadeia, mas o ensino não é obrigatório. Os alunos são os mais morigerados e apenas trinta e seis, quando há mais de trezentos(25). Prisões que não hão de ficar às escuras, fechadas as portas das janelas, ou inabitáveis por ventania ou chuva, que entrará pelas grades. Lembrei que pusessem vidraças.

9 − Lição de Bovet(26) sobre a mineração do ouro. Morro Velho perde vinte e cinco por cento do ouro da mina e Pari quarenta por cento. Foi muito interessante a lição. Pedi-lhe notas para a minha visita a Morro Velho. Gorceix explicou-me a sua quase crença de que o diamante forma-se em veios onde há fluoretos dentro de quartzitos. Mostrou-me pedras que parecem provar isto. Examinei as coleções de diamantes, ouro, ferro, linhitos e grafite, escrevendo com um pedaço deste. As provas agradaram-me, sobretudo as de Augusto Barbosa da Silva, que é o melhor estudante de matemática. Gorceix trabalhou com bateia, em cuja fica ouro, que ele me mandará.

Post - Tereza CristinaTereza Cristina Maria, imperatriz consorte.

11 h ¼ − Depois do almoço tornei a sair, mas a cavalo. Liceu. Casa pequena. Os alunos interrogados agradaram-me. Escola normal. Casinha bonita. Não me desagradou. A professora pareceu-me inteligente. Aula primária mista, casa acanhada. Não me agradou. Há outras aulas que não pude visitar porque, de uma ao menos, os alunos retiraram-se à hora habitual.

Perto do liceu está a escola de Farmácia. Poderá ser boa somente pelos professores, que são três: física e botânica, as duas químicas, matéria médica e terapêutica. Tesouraria provincial, má casa, onde está também a biblioteca provincial, que tem boas obras, porém, em geral, já antigas e faltando as periódicas em dia, e geral; antiga Casa dos Contos. Bem construída. Aí também está o correio, mal acomodado. Vi o lugar da bala do revólver que disparou contra o gerente do Monte Socorro, o tesoureiro comprometido por um desfalque de um conto, mas que havia roubado diversas associações. A tesouraria geral carece de alguns reparos e parte do edifício é muito úmida.

Fui ver a casa de Marília de Dirceu, onde se conservam uma cadeira e o cabide, na alcova em que dormia. Cortaram os pinheiros que havia no fundo da pequena chácara. A capela em ruínas, junto à qual se reclinava Gonzaga, para contemplar a casa de Marília, tem invocação das Dores. De uma janela do fundo desta casa, descobre-se a casa da ouvidoria. Assentei-me perto dela. Voltando, entrei na igreja matriz de Antônio Dias; tem belas proporções internas.

Igreja de São Francisco de Paula − Lindíssima vista do adro para a banda da cidade e da ladeira das cabeças. Creio que foi deste lugar que se pintou o quadro que possuo. Antes de ter ido lá, visitei o quartel de polícia. Casa boa, porém até os soldados dormem em casa de pessoas da família. Hospital da Misericórdia. Pequeno, em parte mal situado, porém pareceu-me bem tratado. Jantar e recepção. Entreguei três cartas de alforria a três mulheres, por intermédio de monsenhor José Augusto e do cura de Sta. Ana, e soube que a baronesa(27), que veio com a família, alforriou seus escravos que têm servido na liteira da imperatriz. — DIÁRIO: continua na próxima postagem.

Post - PalácioO antigo Palácio do Governo, em 1897 transformou-se em Escola de Minas.

Post - JornalJornal “A Província de Minas”:

ABRIL — 3 — Ontem, às 6 horas da manhã, Suas Majestades Imperiais partiram para Sabará e outros lugares que pretendem visitar. Durante sua […] estada, não cessaram as manifestações da alegria popular, que saudaram os augustos viajantes em sua chegada aqui, notando-se na cidade, […] especialmente nas noites de 30, 31 e 1, um movimento de povo como jamais vimos entre nós.

Sua Majestade […] visitou todas as repartições públicas, escolas, hospital de caridade, etc., inquirindo do estado desses estabelecimentos, examinado alunos e alunas das escolas e revelando, em tudo e sempre, o zelo ilustrado e a infatigável atividade que a todos causa verdadeira admiração.

Na tarde de 31 de março, celebrou-se solene Te Deum na matriz […] pela chegada dos augustos viajantes e, à noite […], honraram eles com sua presença à conferência que fez, no salão da assembleia provincial, o Sr. Dr. H. Gorceix […] Todas as noites, Suas Majestades receberam, em palácio, as pessoas que quiseram ter a honra de cumprimentá-los e a quem se dignaram tratar sempre com benevolência e afabilidade.

A geral e bela iluminação da cidade, fogos artificiais, embandeiramento e ornatos das casas e rua, concorreram para o brilhantismo da festa, cuja melhor expressão, no entanto, estava na cordialidade do prazer público e no vivo entusiasmo que a todos animava. Dando pública prova de seu regozijo, pela visita imperial a Ouro Preto, algumas pessoas gradas concederam cartas de liberdade a escravos, atos meritórios, que são dos melhores para a comemoração, entre nós, de sucessos importantes e festivos.”

Post - JornalJornal “A Província de Minas”:

ABRIL — 17 − “Anteontem, sexta-feira da paixão, S. M. o Imperador perdoou a pena de galés perpétuas, que estava cumprindo na cadeia desta cidade, o condenado Joaquim, cuja petição de graça foi apresentada à Sua Majestade, com os documentos precisos, pelo redator desta folha. Joaquim, conforme já noticiamos, foi vítima de um horrível erro judiciário. Condenado à morte, deveu ao poder moderador a comutação dessa pena irreparável, na de galés perpétuas* (*prisão com trabalhos forçados), que o mesmo poder moderador acaba de lhe perdoar. Ontem mesmo foi solto, ficando, assim, devendo ao Imperador a vida e a liberdade.”

Post - JornalJornal “A Província de Minas” conta como Joaquim escapou da morte:

MAIO — 1 − … O réu, acusado de matar a seu senhor, não perpetrou realmente semelhante crime. Os tribunais, que o sentenciaram à morte, cometeram um desses formidáveis erros jurídicos que, infelizmente, não são tão raros […] Envolvido em complicada rede judicial, o mísero escravo em vão protestou a sua inocência, inutilmente derramou copiosas lágrimas, debalde invocou o testemunho de um Deus, único que podia aclarar as misteriosas profundezas daquele drama sanguinolento. As circunstâncias especiais do atentado sujeitavam o mísero a uma lei de exceção e o júri do termo de Itajubá, na noite de 23 de setembro de 1876, entendeu que esse homem não tinha mais direito à vida […]

Ainda bem que […] o Imperador mostra à pena de morte uma aversão terrível e, quase sempre, a tem comutado […] pelo menos deixa, como no caso vertente, a possibilidade de uma reparação: Joaquim não subiu à forca, mas caminhou tristemente para as galés. Parece, porém, que os gemidos […] da pobre vítima, se não calaram no ânimo dos juízes, encontraram eco numa região mais serena e elevada. Para outro escravo, de nome Camilo, comprometido no mesmo processo − e esse o verdadeiro assassino do seu senhor −, soou aquela hora terrível em que desfalecem os corações mais endurecidos. Antes de engolfar-se na eternidade, quis esse criminoso reparar o mal em que envolvera o seu desditoso companheiro e revelou ao sacerdote que o ouvira em confissão, o reverendo padre Paulo Emílio, o segredo da própria culpabilidade e o da perfeita inocência daquele no qual a justiça dos homens se obstinara em ver um co-réu […]”

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Post - Sumidoiro MARCAComentário de “Sumidoiro’s Blog”:

O IMPERADOR E OS NEGROS

Durante a estada em Minas Gerais, o imperador deu várias cartas de alforria e tirou escravos da forca, como o já citado Joaquim. Era de se esperar, pois em toda oportunidade, manifestava repulsa pela escravidão, como naquele dia em que recebeu quarenta escravos de herança, por motivo da maioridade. Mandou, então, libertar todos. Uma explicação para isso é a presença marcante de um negro na sua infância. Chamava-se Rafael (*1791 †1889), um ex-excravo, natural de Porto Alegre, que havia lutado na Guerra Cisplatina. Esse homem entrou na vida de Pedro quando ele tinha pouco mais de cinco anos de idade, tornando-se seu criado e grande amigo.

Seu pai d. Pedro I, junto com a madrasta, haviam abandonado o país, deixando para o menino um presente não desejado, a coroa de imperador. Desde então, passou a ser criado por tutores com muita rigidez, mas tinha Rafael para lhe proporcionar momentos de liberdade e descontração. Sem dúvida levou uma infância difícil, transformando-se numa pessoa tímida.

Post - D. Pedro II - 1839Menino Pedro, em 1839.

O pequeno “órfão” recebia muito afeto e apoio de Rafael, que o carregava nos ombros e lhe dava refúgio no seu quarto, quando não queria estudar. Foi um protetor incansável e extremamente abnegado. Às vezes, dormiam no mesmo quarto, quando o pequeno imperador se assustava, com medo de fantasmas e almas de outro mundo, sendo levado ao choro. Mesmo algumas atribuições femininas Rafael assumia eficazmente, como dar-lhe banho e trocar a roupa. Além disso, Pedro sempre pedia ao anjo negro que lhe contasse histórias, para ter algum divertimento.

Quando o menino não dava conta dos deveres, pedia a Rafael para o esconder, mas sempre era alertado de que seria pela última vez. Mais tarde, Pedro agradecido cuidou de dar o troco ao amigo e ensinou Rafael a ler. O personagem é descrito no livro “O Negro da Quinta Imperial”, de Múcio Teixeira, comensal do imperador por mais de trinta anos. Segundo o autor, “era um negro alto, robusto, de maneiras desembaraçadas e olhar vivo, a carapinha crescida e sempre muito bem penteada, o bigode de pontas torcidas para cima e a barba em ponta, só no queixo.” Quando d. Pedro II foi deposto, Rafael contava noventa e oito anos de idade. O anjo negro não foi comunicado imediatamente da prisão do seu amo. O livro descreve o momento em que lhe deram ciência do fato:

“Manhã sombria. Uma chuva miúda caíra pela madrugada do dia 16 de Novembro de 1889. As vastas alamedas da Quinta Imperial estavam desertas… Rafael, mal raiara a aurora, abandonou seus aposentos, nos baixos do torreão sul, e, muito tremulo, amparado por um rijo bastão, deu início ao seu passeio habitual. Velho e cansado, passara o dia anterior preso ao leito, ignorando que a República havia sido proclamada no Brasil. Vagarosamente caminhava, ouvindo o gorgeio dos pássaros e contemplando, com olhar nostálgico, os lagos sonolentos. […] Caminhava e meditava, olhando também para o passado, para a sua longínqua mocidade! Quantos sonhos desfeitos!

‘Como é triste envelhecer!’ – murmurava o velho pagem imperial. Ao chegar ao portão da Coroa, já ofegante, observou com espanto dois soldados que davam vivas a república! Sempre meditando, lentamente regressou ao Paço. Ao aproximar-se do solitário Palácio Imperial, viu o bibliotecário Raposo muito agitado, com cabelos revoltos, andando de um lado para outro lado… Rafael, muito cansado, curvado e tremulo, sempre amparado pelo seu bastão, dirigiu-se ao bibliotecário do Paço e interrogou-lhe: ‘Seu Raposo, você enlouqueceu?’ Parando diante do Rafael, o Raposo, como louco, bradou: ‘Rafael, tu não sabes que ontem foi proclamada a república e que teu senhor está preso no Paço da Cidade?’.

Rafael, atordoado, deixou cair o forte bastão, no qual a vinte anos se apoiava seu débil corpo; curvado, ergueu-se, cresceu… O seu olhar morto e nostálgico, transfigurou-se, como que iluminado por clarões estranhos. Levantou o braço direito para o céu e exclamou com voz comovente e sonora: ‘Que a Maldição de Deus caia sobre a cabeça dos algozes do meu Senhor!’

E em seguida rolou por terra, estava morto.”

O imperador não possuía escravos e sim empregados. A dedicação de Rafael explica de onde veio o apreço que d. Pedro II sempre teve pelos negros.

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Post - Insígnia P IID. Pedro II nasceu em 02.12.1825, às 2h30 da manhã, no Paço de São Cristóvão (RJ). Nome completo: Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga. Filho de d. Pedro I e Leopoldina da Áustria. / Em 07. 04.1831, d. Pedro I abdicou em favor de d. Pedro II, partindo para a Europa. / Quando fez a viagem a Minas Gerais, d. Pedro II tinha 56 anos de idade. // Esposa: Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias (*14.03.1822 †28.12.1889). Nome completo em italiano: Teresa Cristina Maria Giuseppa Gasparre Baltassarre Melchiore Gennara Rosalia Lucia Francesca d’Assisi Elisabetta Francesca di Padova Donata Bonosa Andrea d’Avelino Rita Liutgarda Geltruda Venancia Taddea Spiridione Rocca Matilde. Mãe de Afonso Pedro, Isabel, Leopoldina e Pedro Afonso.

• Clique com o botão direito e veja todos, “Nos passos do imperador” – de I a VIII) –  II  | III  | IV | V  | VI  | VII  | VIII  

Compilação, adaptação, comentários e arte por Eduardo de Paula

Colaboração: Carlos Aníbal Fernandes de Almeida / Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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(1) Fonte do Diário: “Anuário do Museu Imperial”, vol. XVIII, 1957, versão e notas por Hélio Vianna. // O roteiro completo, anotado no diário de d. Pedro II, começa com a partida na estação de São Cristóvão (Rio de Janeiro) e prossegue com a subida pela estrada da serra da Mantiqueira. Depois e em sequência, destacam-se como pontos principais: Barra do Piraí → Barbacena → São João del-Rei → Carandaí → Queluz (Conselheiro Lafaiete) → Ouro Preto → Cachoeira do Campo → Casa Branca → Congonhas do Sabará (Nova Lima) → Arraial Velho (antigo Sabará) → Sabará → Santa Luzia → Recolhimento de Macaúbas → Lagoa Santa → Matozinhos e retorno para Santa Luzia → Caeté → Caraça → Catas Altas → Santa Rita Durão → Mariana → Ouro Preto → Queluz → São João del-Rei → Barbacena → Antônio Carlos → Presídio (Visconde do Rio Branco) → Ubá → Rio de Janeiro // Sumidoiro’s Blog corrigiu e atualizou grafias de palavras (nem todas), alterou pontuações, tanto na transcrição do Diário, quanto nos noticiários da imprensa, preservando a integridade do conteúdo. Ainda acrescentou notas e ilustrou. Vale esta observação para todas as postagens da série.

(2) SPERLING, Bruno von – engenheiro do 1° distrito de Obras Públicas da Província.

(3) COUTINHO, Aureliano de Sousa e Oliveira – Visconde de Sepetiba (*1800 / †1855). Juiz e político; ministro da Justiça e dos Negócios Estrangeiros, senador do império, e vice presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Post - Gorceix(4) GORCEIX, Claude-Henri – (*19.10.1842 / †1819). Francês, mineralogista. Fundador da Escola de Minas de Ouro Preto e seu primeiro diretor (imagem à esquerda). 

(5) SILVA, José Augusto Ferreira da.

(6) Papo, o mesmo que bócio. Consequência do aumento de volume da glândula tireóide. É causado pela carência de iodo na dieta.

(7) Caleça – Carruagem de dois assentos e quatro rodas, descoberta na parte dianteira, e puxada por dois cavalos.

(8) Trole – Carruagem rústica, carro baixo usado nas fazendas e vilas, antes do advento do automóvel.

(9) CARVALHO, Teófilo Feu de – Historiador mineiro.

(10) Ribeirão do Carmo – Curso d’água que veio a dar o primeiro nome de Mariana – arraial do Ribeirão do Carmo -, cidade próxima a Ouro Preto.

(11) BENEVIDES, Antônio Maria Correia de Sá e – 8° bispo de Mariana.

(12) Cadeia – Antiga Casa da Câmara e, depois, penitenciária. Hoje, Museu da Inconfidência.

(13) Palmensis Comes refere-se ao conde de Palma, d. Francisco de Assis Mascarenhas, governador da capitania das Minas Gerais, de 1810 a 1814. / Comes: latim = companheiro, parceiro, associado; o que apoia.

(14) Lavatório da sacristia da igreja de Nossa Senhora do Carmo, obra atribuída a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

(15) SANTANA, Joaquim José – (*1814 / †1890). Vigário de Ouro Preto e vice-presidente da província em várias exercícios.

(16) Primeiramente instalada num edifício da rua Padre Rolim, em 12.10.1876, próximo à Igreja de Nossa Senhora das Mercês de Cima, a Escola de Minas ali funcionou durante cerca de 20 anos. Em 1897, foi transferida para o Palácio dos Governadores, então vago com a mudança da capital do estado para Belo Horizonte. O Palácio foi sede de governo e, ao mesmo tempo, moradia dos governadores.

(17) OTTONI, Honório Benedito – (*1837/†1902). Vigário de Carandaí, filho do coronel Tristão Vieira Ottoni, neto paterno do poeta José Eloy Ottoni e de dona Maria Rosa do Nascimento Esteves. Ordenado em 1869 e elevado ao canonicato em 12.04.1871. Mudou-se para Juiz de Fora (MG), onde abandonou a batina e abraçou a seita metodista, tornando-se dela sacerdote e casando-se com influente senhora daquela sociedade.

(18) ATHAÍDE, Manuel da Costa – (Mariana, bt. 18.10.1762 / Mariana, †02.02.1830). Mais conhecido como Mestre Athaíde, foi militar, pintor e decorador. Contemporâneo e parceiro de trabalho de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

(19) CÂNDIDO, Francisco de Paula – (Minas Gerais, *1804 /†1864). Doutor em Medicina pela Universidade de Paris em 1833. Membro Titular da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1833, sendo Presidente nos 1º e 2º trimestres de 1834. Presidente da Academia Imperial de Medicina em 1842-45 e 1852-55. Professor de Física Médica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (atual UFRJ). Deputado por Minas Gerais, Senador, Conselheiro do Império. Sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia de Belas Artes, da Academia Filomática de Paris e da Academia de Ciências Médicas de Lisboa. Médico efetivo da Imperial Câmara. Patrono da cadeira nº 20 da Academia Nacional de Medicina.

(20) Sobre a formação artística de Mestre Athaíde o que existe não passa de especulações. Há quem diga que teria sido aluno de João Batista de Figueiredo, como também de João Nepomuceno Correia e Castro e Antônio Martins da Silveira, que viviam na região.

(21) O lignito ou linhito (em Portugal, lignite ou lenhite) é um tipo de carvão com elevado teor de carbono na sua constituição (65 a 75%). Encontra-se geralmente mais à superfície, por ter sofrido menor pressão e tem cor acastanhada. A sua extração é relativamente fácil e pouco dispendiosa.

(22) SILVA, Quintiliano José da – (Curral del Rei, *23.12.1802 / †1889). Desembargador e presidente da província de Minas Gerais, de 17.12.1844 a 20.12.1847.

(23) LEMOS, Manuel Joaquim de – Deputado.

(24) MACEDO, Manuel Buarque de – (*1837 / †1881). Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, membro da comitiva de d. Pedro II.

(25) De fato, 381 alunos, sendo 10 mulheres, de acordo com reportagem do “Jornal do Comércio” (RJ).

(26) BOVET, Armand – Francês, professor de exploração de minas, docimasia e metalurgia. Escolhido por Gorceix para ministrar aulas na Escola de Minas.

(27) MAGALHÃES, Maria Leonor Teixeira de – Baronesa. Casou-se com Manuel Teixeira de Sousa, o primeiro barão de Camargos e, quando enviuvou-se foi agraciada com o título de viscondessa. Faleceu em Florença.

01/07/2014

NASCIDO PARA MATAR

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 12:00 am

♦ O homem que mandava embora

Num jornal do Rio de Janeiro, de 02.11.1889, contaram um pedaço da história de Fortunato, o mais famoso carrasco de Minas Gerais, falecido seis anos antes. O relato é veraz, embora contenha pequenas falhas de informação, e se confirma através de testemunhos em inúmeras publicações na imprensa de Ouro Preto (MG). O autor(1), jornalista renomado, escreveu para a “Gazeta de Notícias”:

Post - Fortunato & forcaFortunato, a vida para ele era coisa de somenos importância.

O CARRASCO FORTUNATO

Por José Ferreira de Araújo

“Era um homem jovial, o verdadeiro tipo desses bons tropeiros dos sertões de Minas que, à noite, nos pousos, divertem os camaradas rasgando uma chorada chula na viola, enquanto, ao longe, pasta a boiada. Quem não conhecesse a terrível história daquele homem, ao vê-lo risonho, de bentinhos e patuás ao peito, sempre a falar em Deus e Nossa Senhora, estaria longe de julgar que era ele o célebre carrasco, terror da província de Minas Gerais.

O crime não deixara naquele rosto as estrias do remorso. O sangue que ele derramava, por conta da justiça, não lhe produzia no espírito impressão alguma. Fizera-se carrasco como quem se faz sapateiro. Enforcar um homem era, para ele, como se deitasse umas tombas* (*remendasse sapatos). Chamava-se Fortunato e foi o último carrasco que tivemos. Usava de uma frase especial para dizer que havia justiçado um criminoso: “- Mandei-o embora”. 

A vida, para ele, era coisa de somenos. E, se o quisessem ver alegre, era dizer que preparasse para ir enforcar um réu. Nas vésperas da execução, mostrava-se Fortunato de uma expansibilidade extraordinária. Ria, falava consigo mesmo, gesticulava e punha-se até a cantarolar. Para o criminoso, a quem tinha de mandar embora, era ele de uma ternura quase paternal. Tinha, então, extremos de delicadeza e, falando-lhe, uma doçura verdadeiramente feminil na voz.

No momento, porém,  em que deitava a corda ao pescoço do miserável, dilatavam-se-lhe os olhos e brincava-lhe no rosto uma alegria feroz. Os gestos eram então sacudidos e nervosos. Rápido como um relâmpago, cumpria o seu degradante e infame dever, recuperando, logo depois, a calma e a tranquilidade de um justo.

Dormia aquele homem como pode dormir quem nunca teve um mau pensamento, nem praticou uma ação indigna. Tinha amor ao ofício e exercia-o com prazer. Era um tipo digno de estudo, o carrasco Fortunato; e, graças à obsequiosidade de pessoa que o conheceu, podemos hoje oferecer aos leitores alguns dados sobre a vida desse sinistro personagem, que figurou em tantas tragédias judiciárias.

Post - Cadeia O PretoCadeia de Ouro Preto, morada fixa de Fortunato.

Fortunato nascera em 1811, em Lavras, na província de Minas Gerais. Era filho de Jerônimo e Engrácia, escravos como ele, de Antônio Carlos Garcia. Era negro e tinha bastos bigodes. As barbas, em carapinha, emolduravam-lhe o rosto cheio e arredondado. O olhar era vivo e cintilante. As orelhas apresentavam tamanho fora do natural, e como que se moviam quando ele falava com animação. O abdome, volumoso e crescido, bem como mas costas notavam-se duas grandes cicatrizes. Tinha sessenta e duas polegadas* (*1,57m) de altura, era analfabeto e apresentava um aleijão na mão esquerda.

Fortunato era estimado na fazenda pelo seu humor folgazão e porque sabia entreter os seus míseros companheiros de cativeiro, por meio de histórias que ele contava com certa graça. Um dia, porém, revoltado por ter sido castigado, premeditou um assassinato e o executou com a maior calma. Foi vítima do miserável uma infeliz mulher, sua senhora, de nome Anna Custódia de Souza, esposa do fazendeiro Garcia. Recolhido à prisão, e transferido depois para a cadeia de Ouro Preto, foi ele condenado a galés perpétuas(2), como incurso no grau máximo do art. 192 do código criminal, em virtude do art. 194 do código do processo, por sentença datado de 13 de novembro de 1868, tendo havido apelação, que não foi decidida.

Post - No leito de morteFortunato esperando a morte, na cadeia de Ouro Preto (foto: Arquivo Público Mineiro).

Tinha ele vinte e quatro anos de idade, em 1835, quando fez a sua estreia como carrasco. Estava preso, mas não tinha sido ainda condenado. É esta a longa série dos seus sinistros trabalhos:

– No dia 20 de março de 1835, seguiu de Ouro Preto para Itabira, onde enforcou um criminoso, voltando a 2 de junho de 1840 para a sua prisão. Foi uma estreia auspiciosa. Fortunado mostrou-se orgulhoso ao ver que, nesse dia, era alvo dos olhares da multidão e trabalhou limpamente. Sim, ele nascera para aquilo!

– A 26 de setembro de 1840, seguiu para Caeté, onde foi cumprir o seu fatal dever, recolhendo-se a 1 de outubro de 1843.

– A 21 deste último mês, seguiu para Piranga, onde executou o réu Antônio Cabra, voltando a 30 do mesmo mês.

– A 6 de novembro, seguiu para Itabira, recolhendo-se a 20 do mesmo mês.

–  A 10 de outubro de 1846, partiu para Três Pontas, regressando a 18 de novembro.

– A 1 de dezembro, desse ano, seguiu para Pitangui, onde enforcou o réu Balduíno, escravo de Antônio Nunes Carneiro, regressando a 20 de janeiro de 1847.

– A 1 de março, seguiu para Barbacena, onde executou o réu Fernando José de Araújo, regressando a 20 do mesmo mês.

– A 30, ainda desse mês, seguiu para o Piauhy (Pium-i), regressando a 20 de junho de 1847.

– A 23 de janeiro, seguiu para a Conceição do Serro, regressando a 20 de fevereiro de 1849.

– A 26 de maio, seguiu para Uberaba onde fez diversas execuções, recolhendo-se a 28 de julho, do mesmo ano.

– A 5 de outubro, seguiu para S. João Nepomuceno, regressando a 30 de novembro.

– A 18 de dezembro, ainda de 1849, seguiu para o Serro, onde executou o réu José Africano, recolhendo-se a 15 de janeiro de 1850.

– A 26 de fevereiro, seguiu para Araxá, voltando a 28 de abril.

– A 27 de setembro, seguiu para o Curvelo, a fim de executar o réu Celestino, regressando a 17 de outubro (leia o Post “Vida e morte”).

– A 11 de novembro, seguiu para S. João Del Rei, para executar o réu João, escravo de Francisco José Antônio Guimarães, seguindo dali para Barbacena, a 4 de dezembro, para executar o réu Antônio Moçambique, e recolhendo-se a 20 de janeiro de 1851.

– A 30 de junho, de 1852, seguiu de novo para S. João Del Rei, para executar o réu Fortunato Crioulo, recolhendo-se a 31 de julho.

– A 23 de agosto, seguiu para o Curvelo, onde enforcou o réu João Paulo Pereira, recolhendo-se a 27 de setembro.

– A 7 de outubro, seguiu para Mar de Espanha, a fim de executar o réu Germano e recolheu-se a 9 de novembro.

– A 6 de maio de 1853, seguiu para Rio Preto, a fim de executar os réus Marcelino Crioulo e Antônio Malvadão, assassinos de seu senhor, Luiz José de Paula, e recolheu-se a 10 de junho.

– A 1 de julho, seguiu para Curvelo, onde executou o criminoso Cassimiro Pereira da Silva, regressando a 1 de setembro.

– A 7 de outubro, seguiu para Barbacena, regressando a 8 de novembro.

– A 16 de julho de 1854, seguiu para Curvelo, recolhendo-se a 4 de agosto.

– A 5 de setembro, seguiu para Mar de Espanha, regressando a 10 de outubro.

– A 17 de novembro, seguiu de novo para Mar de Espanha, onde executou os réus Antônio Cabinda, Antônio Angola e Pedro Noddão, voltando a 30 de dezembro.

– A 18 de maio de 1855, seguiu para Jacuí, recolhendo-se a 1 de junho.

– A 19 do mesmo mês, seguiu para Pouso Alegre, onde enforcou o réu José, escravo, regressando a 20 de julho.

– A 8 de outubro, seguiu para Piranga, onde executou os réus Antônio Bento Monteiro e Inês, escrava, regressando a 21 de outubro de 1856.

– A 4 de novembro, seguiu para Caldas, regressando a 30 de dezembro.

– A 16 de novembro de 1857, seguiu para Leopoldina, onde executou os réus David, Amâncio* (*ou Américo), Vicente e Joaquim, recolhendo-se a 13 de janeiro de 1858.

– A 14 desse mesmo mês, seguiu para Mariana, onde enforcou o célebre criminoso José Joaquim Gomes da Fonseca, mais conhecido como Tira-Couro, regressando a 20, ainda desse mês.

– A 7 de abril, seguiu para Sabará, a fim de executar os réus Peregrino e Rosa* (*as rés Peregrina e Rosa), recolhendo-se a 20 de abril.

– Finalmente, a 19 de julho, seguiu para Diamantina, onde enforcou o réu Arcanjo, regressando a 20 de setembro, desse mesmo ano de 1858.

Post - Final de vidaNo “Provincia de Minas”, 19.07.1883: um abraço no crucificado.

Ainda exerceu ele seu funesto ofício em diversas localidades, tendo-lhe passado pelas mãos mais de cinquenta criminosos. Um ano depois da sua última execução, começou Fortunato a mostrar-se amodorrado, tristonho, sombrio, manifestando, a cada momento, a profunda saudade que tinha dos belos tempos em que trabalhava. 

– Vocês querem então que eu morra? – dizia ele muita vezes aos guardas da prisão. – Então, não há por aí mais ninguém a quem eu tenha de mandar embora? Já não se faz mais justiça nesta terra? 

Pouco a pouco, foi Fortunato perdendo a robustez da sua musculatura de aço e aquela constante jovialidade que fazia dele um carrasco alegre. A definhar lentamente, chegou Fortunato até a idade de setenta e dois anos, e faleceu a 9 de julho de 1883, deixando de si tristíssima recordação na província de Minas Gerais. Dele se pode dizer que foi um homem que soube exercer limpamente o seu miserável ofício, pois o fazia como se não houvesse nascido para outra coisa. Em Minas Gerais, tornou-se lendário o sinistro nome desse carrasco, de quem damos hoje o retrato.” (* Desenho na abertura deste Post.)

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Post - Gazeta do NorteUm repórter da “Gazeta do Norte”(3), que acompanhou o imperador d. Pedro II em sua viagem a Minas Gerais, no ano de 1881, deu outro testemunho, embora com alguma divergência ao relato de José Ferreira de Araújo:

“Não deixarei de citar o nome do carrasco que, ainda hoje, vive e é preso daquela cadeia* (* de Ouro Preto). Chama-se Fortunato, é filho de Lavras, desta provincia. Tem, hoje, 72 anos. Entrou para a cadeia a 7 de Junho de 1833, começando a servir de carrasco em 1835. Foi condenado a galés perpetuas por ter assassinado sua mulher Anna Custodia de Jesus. Tinha então 25 annos. Até 1877 fez 89 execuções em diversos pontos das provincias do Rio de Janeiro e Minas. Fortunato vive na enxovia* (*cárcere escuro e úmido) das galés e, como ha grande curiosidade em vê-lo, esconde se quasi sempre para não ser chamado, visto e interrogado. Pede sempre esmola no fim de qualquer conversa com algum visitante.” 

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UM EPISÓDIO

contado por um homem ilustre, que conheceu de perto o carrasco:

Por Diogo de Vasconcellos

“Em junho de 1870, dia que não me lembro, às 10 horas da manhã, subiam pela rua do Ouvidor de Ouro Preto (atual rua Cláudio Manuel), alguns deputados provinciais, quando encontram uma escolta conduzindo dois presos, um deles Jeremias, condenado à morte e o outro, Fortunato, o carrasco. Iam para Uberaba, onde se devia fazer a execução.

Avistando os deputados, Jeremias atirou-se aos pés de um deles, o meu inolvidável amigo, dr. Ignacio de Assis Martins(4)“- Pelo amor de Deus! Valei-me! Vou para a forca!” Impressionados e comovidos, os deputados seguiram, dali mesmo, para o palácio.

Eu era, então, o secretario do governo(5)“Diogo – dizia-me o Ignácio – vimos aqui te pedir para entender-se com o presidente; que mande recolher a escolta, escolta que leva o desgraçado para a forca, até que o imperador despache a petição de graça que vamos redigir.”

Post - Pça TiradentesDiogo de Vasconcellos, Ignacio Martins e praça Tiradentes, Ouro Preto, final do sec. XIX.

Os deputados, imediatamente, saíram e foram para a assembleia. Em menos de duas horas, eu recebia a petição que, sem demora, mandei preparar na secretaria, para seguir pelo correio, que partia às 2 horas e levava dois dias a chegar ao Rio. Entretanto, ao passo que os deputados trabalhavam na petição, me entendi com o presidente que, então, era o meu velho mestre e amigo dr. José Maria Correia de Sá e Benevides.

Eu mesmo estava surpreendido, por ignorar a partida de Jeremias. É verdade que, por minhas mãos, tinha passado a ordem para se fornecer ao chefe de polícia uma força, que conduzisse presos a Uberaba, mas não me passava pela mente se tratar de semelhante destino. Imagine-se, pois, minha aflição. O presidente observou-me que, em todo caso, a escolta se achava em marcha e não era regular o expediente que eu solicitava. Além disso, ponderou-me que, em se tratando de uma petição, ao imperador, parecia inconveniente antecipar com o despacho.

Nesse caso, expedisse eu a ordem reservada ao comandante da escolta para ir demorando a marcha, falhando pelo caminho, de modo a ganhar tempo. Esta ordem transmitida ao coronel César, comandante do corpo, foi logo cumprida por um portador, que a entregou em Queluz (Conselheiro Lafaiete). Efetivamente, a escolta dobrou os dias em caminho e mais não se demorou por ter-lhe sido insuficiente a provisão das tropas. Chegaram finalmente a Uberaba.

Ali, a população horrorizada se opôs à execução, por modos indiretos. Não houve carpinteiro que preparasse a forca, nem se achou madeira em parte alguma. O comandante da escolta, porém, mandou, não sei por qual capricho, os soldados ao mato e, ele mesmo com um destes, que entendia do ofício, erigiu o terrível patíbulo. Mas não havia, nem houve, quem lhe vendesse a corda.

E os dias passavam, sem chegar a notícia da petição de graça. Finalmente, o comandante mandou a Franca um soldado comprar corda mas, com tal felicidade que, no dia em que ele chegou a Uberaba, também chegou o correio, trazendo, no Diário Oficial, a comutação da pena. O juiz municipal, que estava aterrado pelo dever de presidir a execução, saltou de contente. Suspendeu a execução e esperou o decreto. Jeremias voltou para Ouro Preto a cumprir sua pena de galés perpétuas.

Surgindo, porém, a república, o marechal Deodoro expediu um decreto do governo provisório, mandando por em liberdade todos os réus condenados em virtude da famosa lei draconiana, de 10 de julho de 1835. Ora, o Jeremias foi um deles e eu o vi livre em minha casa, na Água Limpa, lembrando-se da parte que tomei na sua tragédia.

Hoje, 13 de maio… Felizes vós, ó moços, que não vistes a escravidão e que não vereis manchando a luz de vossos olhos, a triste e horrenda figura dos patíbulos! Seja a glória da geração a que pertenço, ter preparado para vós uma pátria mais ditosa!” — Escrito em Belo Horizonte, em 13.05.1908.

Post - ForcaO teatro do horror

Nos atos de violência, tais como esses aqui narrados, não há como rotular uns de anjos e outros de demônios. Aqueles criminosos, em sua grande maioria, eram negros e pobres, e que viviam sob o jugo cruel do regime escravista. Foram levados ao crime justamente pela opressão a que eram submetidos. Também é preciso que se diga que a igreja católica foi partícipe e muito oportunista nesse teatro do horror. Sempre havia um padre ao lado do cadafalso, não apenas para encomendar a vítima, mas também para pronunciar discursos, que empolgavam a multidão presente ao espetáculo.

A imprensa de Ouro Preto(6), após o enforcamento do facínora Tira-Couro, deu notícia: “Ante hontem, 16 do corrente, foi executada, em Marianna, a sentença de pena ultima, imposta ao réu José Joaquim Gomes da Fonseca […] Fomos informados de que o réu manifestara grande resignação, e que, do alto do patibulo, pedira perdão a todos que se achavão presentes ao acto. Assistiram-no e acompanharão os rvm. os srs. padre Carnaglioto e o conego Roussin, recitando este, ao findar-se a execução, um discurso analogo, que muito comoveu ao numeroso auditorio.”

Esse vaidoso orador, o cônego José de Souza e Silva Roussin(7), era um ferrenho escravagista e vivia criando problemas por onde passava. Um dos seus incontáveis atos de destemperança foi manter sob cativeiro uma freira − Antonia Clara de Abreu e Lima −, ex-escrava, liberta há mais de vinte anos.

Como já foi dito, o algoz Fortunato dirigiu-se a Leopoldina, em 16.11.1857, para fazer um dos seus servicinhos. Naquela oportunidade, enforcou quatro indivíduos − David, Américo, Vicente e Joaquim −, que haviam assassinado o norte-americano Michael Jackson (veja ilustração abaixo). Valha-nos Deus, esse nome parece que não traz sorte!

Post- Condenados a forcaTrecho do relatório do governo da província, 1858.

O jornal “Correio de Minas”, de 04.05.1857, havia noticiado a morte do estrangeiro:

“Em dias de Setembro, foi assassinado no Districto de S. José do Parahyba, o americano Michael Jackson, por escravos que conduzia para vender. O respectivo subdelegado deo prontas providencias, tanto para arrecadação dos bens, que deixava o morto, como para a prisão dos réos, em numero de 7, dos quaes foi um absolvido, e 6 condenados à morte pelo Jury da Villa Leopoldina.”

Post - ForcaO caso de Rosa e Peregrina

Ÿ Pouca lenda e muita história

Moradores de Sabará, o brigadeiro Jacinto Pinto Teixeira e sua mulher Maria do Carmo Pinto Teixeira, viviam na rua Direita com suas escravas Peregrina, Luísa, Tecla, Balbina, Quitéria e Jesuína. Diziam que a esposa, apesar de muito bonita, era ruim feito uma caranguejeira. Certa feita, compraram uma nova escrava, de nome Rosa, mas o marido cometeu a imprudência de dizer que a jovem tinha lindos dentes e belo sorriso. Foi o bastante para despertar ciúmes em Maria do Carmo. Bastou que Jacinto saísse em viagem, Maria do Carmo passou a executar um plano elaborado em sua mente doentia, mandou seus capangas arrancarem os dentes de Rosa e, no retorno do marido, entregou-lhe numa bandeja o presente macabro.

As demais escravas, que viviam sob o jugo do casal, revoltadas com a barbaridade cometida, arquitetaram o plano de matar Maria do Carmo. Assim, no momento aprazado, revoltadas e enfurecidas, derrubaram a patroa a golpes de machado e mão de pilão, debaixo da escada do casarão ainda existente na rua d. Pedro II. E não deu outra, o corpo da megera caiu inerte ao chão, desfigurado ao ataque das assassinas, fato que ocorreu no dia 05.06.1856.

Post - Rosa & Peregrina condenadasApelação não atendida das condenadas Rosa e Peregrina (“Correio Official de Minas”, 12.11.1857).

A polícia aprendeu todas, mas imputou a culpa às escravas Rosa e Peregrina que, apavoradas, logo em seguida, conseguiram escapar, buscando refúgio na casa do padre, advogado e poeta José Marciano Gomes Batista. A doçura do bardo e o socorro da fé não foram suficientes para lhe darem guarida, e acabaram na prisão. O mesmo ocorreu com as demais escravas que, denunciadas, foram submetidas a julgamento. Mas tiveram a infelicidade de cair nas mãos do inflexível juiz Quintiliano José da Silva(8).

No dia 12.02.1858, o presidente da província, comunicou ao juiz de Sabará que Rosa e Peregrina não haviam recebido clemência e ordenou que fossem tomadas as providências finais. E, em 12.08.1856, saiu a ordem de execução de Rosa e Peregrina, autoras do homicídio; as demais, foram condenadas à pena de sessenta açoites cada uma e, também, à de portarem soldada ao pescoço uma argola de ferro, como sinal de infâmia. Só escapou a escrava Quitéria que, por sorte, na hora fatídica, encontrava-se atada pelos pés ao tronco.

Post - Catacumbas Sabará

O portão das catacumbas.

Foi, então, convocado o carrasco Fortunato, para cuidar da etapa final do justiçamento, o qual se consumou no dia 14.04.1858, em patíbulo montado no terreno das catacumbas, situadas em frente à igreja do Carmo de Sabará.

Daquela feita, o carrasco agiu com desleixo, porque, logo após o enforcamento, ao recolher-se o corpo de Rosa, constatou-se que ainda estava viva. Há uma explicação para isso. Conta-se que Fortunato não era afeito a enforcar mulheres, pois se abalava ao ver a terrificante imagem de sofrimento estampada em seus rostos. Vai ver que descuidou-se na hora de apertar o laço e teve de retornar com Rosa ao cadafalso para finalizar o serviço, assim aumentando o sofrimento dela e dele.

Mas a história não terminou aí. O bárbaro acontecimento gerou uma lenda na cidade de Sabará e, até hoje, dizem que se ouve, em certas horas noturnas, gemidos e clamores de inocência vindos do antigo cemitério da igreja do Carmo, onde desencarnaram a tão sofrida escrava. Houve um tempo em que chegaram a considerá-la santa, principalmente no meio da população de origem africana, pois socorreria os pobres nas aflições e doenças.

Então? O ciúme doentio de d. Maria do Carmo, ao interpretar mal o elogio a uma dentadura, fez desandar a tragédia. Sua atitude serviu apenas para semear sofrimentos e provocar uma sucessão de mortes, começando com a dela. E vejam que o marido era um ancião – mais de oitenta anos de idade –, doente e decrépito! Passados dezessete meses do seu assassinato, veio a morte do brigadeiro e, finalmente, as de Rosa e Peregrina. Abaixo seguem os registros dos óbitos:

Post - Óbito Maria do CarmoRegistro de d. Maria do Carmo – Livro de óbitos de Sabará, 1840-1875, p. 71 v.

“Aos seis de Junho de mil oitocentos, e cincoenta, e seis nas Catacumbas da Veneravel Ordem 3a da Senra do Carmo se deo sepultura a Ex.ma Dona Maria do Carmo Pinto Teixeira, Cazada com o Ex.mo Brigadeiro Jacintho Pinto Teixeira, não recebeo Sacramentos por ser sua morte violenta, assassinada por suas escravas, foi incomendada Parochialmente com Solemnidade e assistencia mais de cinco Sacerdotes de que fes este assento / O Vigr.o Ecomd.o Antonio José Vianna” 

Post - Jacinto falecimentoRegistro de Jacinto – Livro de óbitos de Sabará, 1840-1875, p. 81.

“Aos desaseis de Novembro de mil oitocentos, e cincoenta e sete nas Catacumbas da Veneravel Ordem terceirada Senr.a do Carmo se deo sepultura ao Exm.mo Brigadeiro Jacintho Pinto Teixeira, Viuvo, de idade de mais de oitenta anos, faleceo de infermidade interior, so foi absolido, e ungido por lhe faltar a sensação; foi Parochialmente incomendado com Solemnidade, e a assistência mais de quatro sacerdotes, com a encomendação da Orde˜* (*ordem ) pelo padre Mestre* (*professor) Antonio Firmino Roussin na falta do Commissario de que fez este assento / O Vigro Encom.do Antonio José Vianna”

Post - Rosa & Peregrina falecimentoRegistro de d. Rosa e Peregrina – Livro de óbitos de Sabará, 1840-1875, p. 83.

“Aos catorze de Abril de mil oitocentos, e cincoenta e oito no Cemiterio desta Matriz se deo sepultura as duas Rés, Roza, e Peregrina, Crioulas, condenadas por justiça a pena ultima, que sofrerão, pella hostilidade com q. matarão a sua Senra, escravas do Brigadeiro Jacintho Pinto Teixeir.a, e foram sufradas* (*sofreram a pena), e encomendadas / O Vigr.o Encomdo Antonio José Vianna”

———

Transcrição, texto e arte de Eduardo de Paula

Colaboração: Ivana Maria Aguiar Ribeiro / Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

 

• Clique com o botão direito e veja a sequência: “Fortunato algoz”.

(1) ARAÚJO − José Ferreira de Souza (Rio de Janeiro,†21.08.1900) − Foi dos mais conceituados jornalistas das últimas três décadas do século XIX. Era respeitado internacionalmente e gozava de imenso prestígio entre seus colegas brasileiros, e também estrangeiros. Durante muitos anos trabalhou como redator chefe da “Gazeta de Notícias” do Rio de Janeiro.

(2) Galé − prisão e/ou prisão com trabalho forçado.

(3) “Gazeta do Norte”: Fortaleza (Ceará), 26.04.1881, p. 2.

(4) MARTINS, Ignacio Antonio de Assis − Visconde de Assis Martins, (Sabará, *16.11.1839 / †02.03.1903). Advogado, juiz e político. / Veja o Post “A festa do barão”.

(5) VASCONCELLOS, Diogo Luís de Almeida Pereira de − (Mariana, *08.05.1843 / Belo Horizonte, †?.06. 1927) Historiador, político, jornalista e advogado.

(6) “Correio Official de Minas”, Ouro Preto, 18.01.1858, p. 4.

(7) ROUSSIN, José de Souza e Silva − Cônego, professor e político. Vereador em Ouro Preto e deputado pela Província de Minas Gerais.

(8) SILVA, Quintiliano José da Silva − (Curral d’El Rei, *23.12.1802 / †1889) Magistrado, político e presidente da província de Minas Gerais (de 17.12.1844 a 20.12.1847).

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