Sumidoiro's Blog

01/05/2014

A FESTA DO BARÃO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:46 am

♦ Era sábado, 11 de outubro de 1884

E agora se fala de uma pessoa notável, que viveu no século XIX. Por atitudes e ações, e mais sua cativante simpatia, tornou-se exemplar figura humana. Foi assim que qualificou-se para ganhar a admiração de quem o conhecia, desde as pessoas mais simples até o imperador d. Pedro II. Seu nome: Francisco de Paula da Fonseca Vianna.

Post - Visconte & rioFrancisco de Paula, o barão, depois visconde do Rio das Velhas.

Pela colaboração na organização dos batalhões de Voluntários da Pátria, que lutaram na guerra com o Paraguai, recebeu o título de barão do Rio das Velhas, em 25.04.1867, por decreto imperial. O relato de uma festa, em uma das suas fazendas, é pequena amostra do seu jeito de ser. Publicou o jornal “Liberal Mineiro”:

Manifestação de apreço e Quinze cartas de liberdade

“A fazenda do Bom Jardim, do Exmo. Sr. Barão do Rio das Velhas, tornou-se, no dia 11 do corrente, solar do cavalheirismo e da liberdade. O Barão […] eminente chefe liberal do 4º distrito, querendo dar uma demonstração de apreço ao benemérito senador Ignacio Martins(1), pelo ato imperial da sua escolha, ofereceu-lhe um jantar, para o qual convidou numerosos amigos. O dia 11 foi de vera festa para todos os amigos do preclaro cidadão.

Muitos amigos o foram receber em sua fazenda, denominada Quilombo, distante três e meia léguas da fazenda do Bom Jardim. Durante o trajeto, de espaço em espaço, eram encontrados grupos de cavaleiros, de sorte que, ao chegar a cavalgada no arraial de Matozinhos, foram contados cento e dezesseis cavaleiros. No arraial de Matozinhos, muitos fogos subiram aos ares e a banda de música do maestro João Coelho Ferreira, em sons festivais, saudou o manifestado. Do arraial, seguiram todos para Bom Jardim e, desde que foram avistados, numerosas girândolas e a mesma banda de música fizeram repercutir, pelas quebradas das serranias, os festejos e alegrias de todos os corações.

A fazenda do Bom Jardim estava coberta de louçanias* (*ornatos). As flores variegadas, as moças formosas e mais de duzentos cavalheiros, dos mais distintos das cercanias, cheios de almo prazer, formavam daquele solar uma residência encantada, onde ostentava-se com o seu divo sorriso de agasalho, como anjo tutelar, a Exma. Baronesa do Rio das Velhas.

Post - Matozinhos - Bom JardimMatozinhos e fazenda do Bom Jardim, no mapa de 1950.

Às cinco horas, serviu-se o jantar. Lúculo, o histórico gastrônomo da Roma tribunícia, ali estaria à vontade e a bel-prazer. As iguarias mais finas e profusas desafiavam os convivas, ao lado dos generosos falernos* (*vinhos). Logo após a primeira coberta, levantou-se o Exmo. Barão do Rio das Velhas e, em discurso cheio de amistosos conceitos, declarou que, oferecendo ao senador Ignacio Martins aquele jantar, procurava dar a maior demonstração do seu prazer de amigo, por vê-lo elevado ao senado, e que, para perpetuar aquele dia, conferia carta de liberdade a dez escravos.

O entusiasmo, naquele momento, excedeu a todos os limites e frenética, e geral saudação, foi dirigida aos dois beneméritos cidadãos, senador Ignacio Martins e Barão do Rio das Velhas.

O senador Ignacio Martins, com as lágrimas do prazer nas vozes, agradeceu a demonstração de amizade que, disse ser para ele a primeira e mais importante que recebera em sua vida, e que, para comemorá-la de maneira condigna, conferia liberdade à sua escrava Olinda, de 19 anos de idade.

Aplausos gerais cobriram aquela declaração, sendo levantados sucessivos e repetidos vivas ao senador Ignacio e ao Barão do Rio das Velhas. Foi naquele momento que teve a palavra o Dr. Vaz Pinto(2) que, em frases animadas e entusiásticas, saudou a confraternização da amizade e da liberdade no amplexo que davam os dois mineiros, que eram honra de sua pátria e que, por sua vez, em homenagem às virtudes preclaras da Exma. Baronesa do Rio das Velhas, conferia plena liberdade à sua escrava Leopoldina.

A corrente elétrica do entusiasmo dominou toda a reunião e novos vivas foram levantados ao senador Ignacio e ao Barão e Baronesa do Rio das Velhas. Seguiram-se os seguintes brindes: (continua no fim do texto).

Muitos outros brindes ainda seguiram-se, quando a orquestra, no grande salão, anunciou que as danças iriam começar. O prazer tinha tocado ao seu auge. Todo o vasto solar era dança, música e risos. No grande salão, seguiam-se ininterruptas as quadrilhas, lanceiros, polcas e valsas. Além, em sala reservada, um grupo de guapos e folgazões moços de fibra de aço e assomos de iridente (*brilhante) alegria dançavam o pitoresco e galhofeiro crequeché(3)Mais além, os camaradas(4) dançavam o animado cateretê e, ainda adiante, os pretos, recordando os adustos palmares africanos, dançavam o quindobe.

No meio da animação geral, ao terminar a segunda quadrilha, entrou o Exmo. Barão do Rio das Velhas acompanhado dos libertos e pediu ao Exmo. Senador para entregar-lhes as cartas de liberdade. Foi o grande, o solene momento. Todos os olhos convergiram para os que há pouco eram escravos e agora estavam livres, em honra a um grande cidadão. Todos fortes e robustos, destacando-se, dentre eles, Júlio, o que sempre foi pajem predileto do Exmo. Barão, que quis mostrar com esta liberdade, que em homenagem ao cidadão senador, dava liberdade à melhor peça dos seus escravizados.

O senador Ignacio convidou os libertos a receberem as suas cartas e, nessa ocasião, pediu-lhes que, ainda uma vez, beijassem a mão protetora do Exmo. Barão do Rio das Velhas e que, na sociedade em que irão entrar, lembrassem sempre de imitar as grandes virtudes da casa de que saíam.

Post - Barão & IgnacioSenador Ignacio Martins. / Barão e baronesa do Rio das Velhas. 

A comoção tornou-se geral e houve o silêncio eloquente dos grandes atos, que só foi interrompido pelo Exmo. Barão do Rio das Velhas, declarando que, além das liberdades conferidas, dava mais à liberdade a escravizada Josepha. Aplausos gerais partiram de todos os ângulos do vasto salão e, naquele momento, o senador Ignacio Martins deu a palavra ao Dr. Vaz Pinto. […] (Ele) saudou os amigos da humanidade ao advento da pátria livre, recordando os fatos mais memoráveis das festas da província de Minas desde os tempos coloniais e, concluindo seu discurso com a frase de Saint-Hilaire(5): “Se há país no mundo que possa passar sem outro país, é Minas Gerais.”

Ao concluir, o Dr. Vaz Pinto o seu discurso, o coronel José de Souza Vianna(6), dominado de entusiasmo, declarou que libertava os seus escravos João e Felícia. Houve aplausos gerais ainda, usando da palavra o Dr. Vaz Pinto para saudar o distinto coronel que, naquele momento, confraternizava com o seu Exmo. irmão em alma e coração. Em seguida, continuaram os festejos até ao amanhecer, sempre animados e alegres. Honra ao benemérito Barão do Rio das Velhas. Honra ao senador Ignacio Martins.

São este os nomes dos libertos: Júlio, de 28 anos de idade; Beatriz, de 40; Úrsula, de 30; Venâncio, de 35; Felisbina, de 34; José, de 50; Antônio, barbeiro, de 50; Theotonio, de 60; Severiano, de 55; Mafalda, de 45; Josepha, de 28; Olinda, de 19; Leopoldina, de 36; Felicidade, de 40 e João, de 38.

OS BRINDES: Do senador Ignacio Martins ao coronel Francisco Gonçalves Rodrigues Lima, liberal prestimoso e amigo de inexcedível valor e, especialmente, à sua esposa, D. Maria José Vaz de Lima, geralmente respeitada e querida por todos. / Do capitão Francisco de Paula Moreira ao senador Ignacio Martins, mineiro que fazia a glória da sua pátria. / Do Dr. Vaz Pinto aos Srs. Dr. José de Assis e padre Odorico (7), ambos sacerdotes, um da ciência, outro da religião, mas ambos abrasados na mesma pira ardente, a da caridade. / Do coronel Francisco de Assis da Fonseca Vianna ao Dr. Vaz Pinto, que era orgulho da pátria que lhe tinha dado o berço. / Do senador Ignacio Martins ao capitão Paulo Vianna, um dos melhores caráteres de Minas. / Do Dr. Vaz Pinto ao Dr. Modestino Carlos da Rocha Franco (8), representado na pessoa do seu distinto filho Antônio Carlos, chefe político de elevado prestígio, amigo dedicado até o sacrifício, médico e jurisconsulto, para quem as ciências são motivos de prazer no gabinete e meios de servir a humanidade. / Do senador Ignacio Martins ao capitão Francisco de Paula Moreira, cidadão e amigo dos melhores. / Do Dr. Vaz Pinto às distintas senhoras que abrilhantavam a esplendida reunião daquele solar. / Do senador Ignacio Martins aos Srs. coronel Francisco de Assis e major Júlio Cesar, distintos e prestimosos amigos. / Do reverendo padre Odorico, que em frases eloquentes saudou ao seu amigo particular, o Exmo. Barão do Rio das Velhas, protótipo de todas as virtudes. / Do Dr. Vaz Pinto ao Coronel José de Souza Vianna (9), digno representante da lavoura, em cujo futuro descansa a pátria.”— Liberal Mineiro, Ouro Preto, de 23.10.1884

Post - Proj abolicionista“Diário de Notícias” (RJ) divulga o projeto abolicionista (04.06.1887).

A luta abolicionista

A abolição da escravatura, no Brasil, vinha acontecendo por etapas. O primeiro passo fôra em 04.09.1850, com a lei Eusébio de Queiroz, que extinguiu o tráfico. Vinte e um anos mais tarde, em 28.09.1871, veio a lei do Ventre Livre, que tornou livre os filhos de escravos nascidos daquela data em diante. Em 28.09.1885, pela lei Saraiva-Cotegipe ou Lei dos Sexagenários, seriam libertados quem contasse mais de sessenta e cinco anos de idade. Mas a questão servil não estava ainda resolvida em sua totalidade e, por isso, durante os anos de 1886 e 1887, retomaram-se os debates com veemência. Diversas propostas foram então apresentadas na câmara dos deputados e no senado, na tentativa de encontrar uma solução definitiva à questão. Apesar dos fortes interesses contrariados, era chegado o momento em que não havia mais como retroceder e a liberdade total tinha de acontecer em breve.

É nesse contexto que entra a festa do barão como um acontecimento deveras especial, transcendendo o mero evento social. E é importante colocar que o anfitrião era ativo político liberal, de longa data, desde os tempos da denominada revolução dos Luzias, em 1842. Na verdade, junto com a homenagem a Ignacio Martins, pretendia-se agitar a bandeira da abolição da escravatura, uma das metas do Partido Liberal. A entrega das cartas de liberdade foi nesse sentido, porque o movimento estava na ordem do dia dos debates políticos. E os resultados não tardariam, pois em 1887, o senador Ignacio Martins tornou-se signatário de um projeto pela abolição.

Este é o projeto, assinado no Paço do Senado, em 03.06.1887:

” — Art. 1º  − Aos 31 de dezembro de 1889, cessará de todo a escravidão no Império. / § 1º − Está em vigor, em toda a sua plenitude e para todos os seus efeitos, a lei de 7 de novembro de 1831. / § 2º – No mesmo prazo, ficarão absolutamente extintas as obrigações de serviços impostos como condição de liberdade e a dos ingênuos (crianças), em virtude da lei de 28 de setembro de 1871. / § 3º – O governo fundará colônias agrícolas para educação de ingênuos e trabalho de libertos à margem dos rios navegados, das estradas e do litoral. / Nos regulamentos para essas colônias se proverá à conversão gradual do foreiro ou rendeiro do Estado, em proprietário dos lotes de terra que utilizar a título de arrendamento. / Art. 2º – Revogam-se as disposições em contrário. […] Dantas(9) – Affonso Celso – G. S. Martins – Franco de Sá – J. R. de Lamare – F. Octaviano – C. De Oliveira – Henrique d’Avila – Laffayette Rodrigues Pereira – Visconde de Pelotas – Castro Carreira – Silveira da Motta – Ignacio Martins – Lima Duarte.”

Detalhe importante é que havia uma sugestão de reforma agrária, como está anotado no parágrafo 3º, do projeto de lei: “O governo fundará colônias agrícolas […] à margem dos rios navegados, das estradas e do litoral.” Ou seja, seriam terras em locais de boa acessibilidade, para que os assentados pudessem escoar sua produção. E mais, teriam a oportunidade de ser tornarem verdadeiros proprietários, mas havia uma particularidade que teria contribuído para levar o projeto ao fracasso, pois dizia: “… se proverá à conversão gradual do foreiro ou rendeiro […] em proprietário dos lotes de terra que utilizar…”. Haveria bônus mas também ônus, pois teriam que pagar pelo uso da terra.

Post - Ignacio no jornalO projeto da abolição repercutindo no jornal conservador de Ouro Preto.

Naqueles dias de 1887, candidatos e partidos políticos faziam campanha de eleições para o senado, marcadas para 27 de junho. Como não podia deixar de ser, os conservadores aproveitaram a oportunidade para fustigar os liberais, usando contra eles o tema da pretendida abolição da escravatura. Os jornais deram cobertura ao assunto e publicaram inúmeras cartas de fazendeiros, revoltados com a perspectiva de perderem a mão de obra escrava. Na defesa nos seus interesses, os radicais contrariados não mediam as palavras. Para se ter uma ideia, basta ler um protesto, publicado no “Diário de Notícias” (RJ), de 19.06.86, assinado por “um lavrador liberal”, atacando violentamente o projeto assinado pelo senador Ignacio Martins (reprodução abaixo). Havia até ameaça de morte, imitando do que acontecera com Abraham Lincoln, em 15.04.1865, assassinado com um tiro na cabeça por um defensor do escravagismo.

Post - Protesto proj Dantas“Diário de Notícias”, violento ataque ao projeto Dantas, assinado também por Ignacio Martins.

Embora o projeto liberal não tenha vingado, serviu para atiçar as brasas na fogueira pela libertação dos escravos. Pouco tempo depois, houve o inevitável desdobramento das inúmeras ações que estavam em curso. Em 13.05.1888, pressionada pelos clamores que vinham de todos os cantos do país, a princesa Isabel − filha de d. Pedro II − assinou a Lei Áurea, abolindo a escravidão no Brasil. Um número enorme de fazendeiros protestou pela perda dos seus “bens”, mas nem todos, claro. Sem dúvida, mais um dia de festa e de muita alegria, também para Francisco de Paula da Fonseca Vianna, então visconde do Rio das Velhas, por mérito e por graça de d. Pedro II.

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A lei áurea

Com apenas dois artigos, a lei nº 3.353, diz:

“Declara extinta a escravidão no Brasil – A Princesa Imperial Regente, em nome de Sua Majestade o Imperador, o Senhor D. Pedro II, faz saber a todos os súditos do Império que a Assembleia Geral decretou e ela sancionou a lei seguinte:

Art. 1º: É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil. /  Art. 2º: Revogam-se as disposições em contrário.

Manda, portanto, a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da referida Lei pertencer, que a cumpram, e façam cumprir e guardar tão inteiramente como nela se contém.

O secretário de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e interino dos Negócios Estrangeiros, Bacharel Rodrigo Augusto da Silva, do Conselho de Sua Majestade o Imperador, o faça imprimir, publicar e correr. Dada no Palácio do Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1888, 67º da Independência e do Império. // Princesa Imperial Regente/ Rodrigo Augusto da Silva — Carta de lei, pela qual Vossa Alteza Imperial manda executar o Decreto da Assembleia Geral, que houve por bem sancionar, declarando extinta a escravidão no Brasil, como nela se declara. / Para Vossa Alteza Imperial ver. Chancelaria-mor do Império — Antônio Ferreira Viana. / Transitou em 13 de maio de 1888. — José Júlio de Albuquerque.”

Post - Pr Isabel

← Princesa Isabel

Diferentemente da “Lei Áurea”, o projeto que fora apresentado pelo grupo liderado pelo conselheiro Dantas e assinado também por Ignacio Martins, em 03.06.1887, previa o assentamento dos escravos libertos. Realmente, foi uma omissão desastrosa ter deixado milhares de indivíduos ao abandono. No livro “Centenário de Antônio Prado”, editado em 1942, Everardo Valim Pereira de Souza comentou sobre as consequências negativas. Assim escreveu:

“Segundo a previsão do Conselheiro Antônio Prado, decretada de afogadilho […] seus efeitos foram os mais desastrosos. Os ex-escravos, habituados à tutela e curatela de seus ex-senhores, debandaram em grande parte das fazendas e foram ‘tentar a vida’ nas cidades; tentame […] que consistia em: aguardente aos litros, miséria, crimes, enfermidades e morte prematura. Dois anos depois […] da lei, talvez metade do novo elemento livre havia já desaparecido! Os fazendeiros dificilmente encontravam ‘meieiros’ que das lavouras quisessem cuidar. Todos os serviços desorganizaram-se; tão grande foi o descalabro social. A parte […] de São Paulo que menos sofreu foi a que […] havia já recebido alguma imigração estrangeira; O geral da Província perdeu quase toda a safra de café por falta de colhedores!”

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Post - Visconde miniatO visconde do Rio das Velhas

Francisco de Paula de Souza Vianna nasceu em 02.04.1815, na fazenda dos Angicos que, na época, pertencia à freguesia de Santa Luzia e estava no município de Sabará. Foi o filho primogênito de José de Souza Vianna e Maria Cândida de Assumpção da Fonseca Ferreira; neto de Bernardo de Souza Vianna e Angélica Maria Pacheco Ribeiro. (veja os Posts “A família de Bernardo”, “Dumont, Vianna & Cia.” e “José e Maria”)

Casou-se, com Maria Cândida de Salles, em 18.06.1835, filha do tenente Francisco de Salles Rocha e de Carlota Joaquina de Salles − a baronesa do Rio das Velhas. Uniu-se, em segundas núpcias, em 17.05.1879, com Ana Cândida Fonseca Vianna, sua sobrinha, filha do major Antônio Ribeiro da Fonseca e de sua irmã Bernarda Cândida de Souza Vianna.

Quando eclodiu a denominada Revolução Liberal, em 1842, Francisco de Paula era tenente da Guarda Nacional e vereador suplente em Sabará. Naquela oportunidade, participou da sessão da câmara municipal e, conjuntamente, aderiu ao movimento revolucionário. Logo após, foi nomeado, pelo governo sedicioso, major da 1ª região de Sabará.

Em 1848, foi nomeado tenente-coronel chefe do 2º batalhão da Guarda Nacional de Sabará. Mais tarde, foi comandante da Guarda Nacional de Santa Luzia e Curvelo. Em 1867, pelo auxílio prestado na organização dos voluntários da Guerra do Paraguai, recebeu o título de barão do Rio das Velhas, por decreto imperial de 25.04.1867. Na política, militou no Partido Liberal e foi eleito, em várias legislaturas, vereador em Sabará e Santa Luzia, e nesta presidente da câmara.

Por ocasião da visita de d. Pedro II a Minas Gerais, em 1881, recepcionou o imperador, com toda fidalguia, em sua residência de Matozinhos e, como agradecimento, foi agraciado por Sua Alteza com duas honrarias: a comenda da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo e o título de visconde do Rio das Velhas(10).

Como agricultor, foi proprietário das fazendas do Mocambo e Bom Jardim(11). Nas suas atividades de homem do campo, empresário e político, muito contribuiu para o desenvolvimento da região onde atuou. Foi um dos fundadores da Companhia Industrial Sabarense − fábrica de tecidos − e é considerado um dos fundadores da cidade de Pedro Leopoldo (MG).

Post - Falec viscondeDuas datas para o falecimento, na sepultura dia 17, no obituário dia 16.

Desde que recebeu o título de barão, não mais assinou seu nome próprio. Tinha um sobrinho homônimo, Francisco de Paula da Fonseca Vianna(12), e, muitas vezes, os dois são confundidos. Mesmo em documentos oficiais, passou a ser conhecido, como Barão do Rio das Velhas e, depois, Visconde do Rio das Velhas. Falecido antes de completar oitenta anos de idade, ficaram duas anotações de datas do óbito. A lápide do seu túmulo anota o falecimento no dia 17.02.1893. O jornal “Minas Gerais”, editado em Ouro Preto, de 27.02.1893, publicou um obituário no qual o chama por Francisco de Paula Souza Vianna(!) e escreve dia 16, para o falecimento.

Quanto ao sobrenome Souza Vianna, trata-se de um equívoco do jornal, mas há uma explicação: vários irmãos do visconde assinavam desse modo. Sua irmandade: Antônio de Souza Vianna (*1816), Maria Cândida da Assunção (Fonseca ou Souza ?) Vianna (*1817), Joaquim de Souza Vianna (*1818), Cândido José de Souza Vianna − gêmeo (*1819), José de Souza Vianna Júnior − gêmeo (*1819), Bernardo de Souza Vianna (*1820), Joaquina Cândida de Souza Vianna (*1821), Bernarda Cândida de Souza Vianna (*1822) − também sogra do visconde, Francisco Xavier de Souza Vianna (*1823), Manoel da Fonseca Vianna (*1824), Maria Cecília de Souza Vianna (*1825), Maria Luiza de Souza Vianna (*1826), Francisco de Assis da Fonseca Vianna (*1829) e Tristão da Fonseca Vianna (*1830).

 

Texto e arte de Eduardo de Paula

Colaboração: Carlos Aníbal Fernandes de Almeida (Espaço Cultural Nilde Fernandes) 

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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Veja também, neste Blog: “A FAMÍLIA DE BERNARDO” e “NOTÍCIA DE JOSÉ E MARIA”. No Blog http://docsdosumidoiro.wordpress.com/ : GENEALOGIA SOUZA VIANNA (I)”

(1) MARTINS, Ignacio Antonio de Assis − Visconde de Assis Martins, (Sabará, *16.11.1839 / †02.03.1903).  Advogado, juiz e político. Filho de Francisco Assis Martins Costa e Eufrasia Assis. Casou-se com Angelina Silvina Moreira, viúva de Theodoro Barbosa da Silva. Foi deputado provincial, deputado geral e senador do Império do Brasil de 1884 a 1889.

(2) CUNHA, Antônio Vaz Pinto Coelho da – (Sabará, *1836 / Rio de Janeiro, †1894) – Advogado, juiz de direito,  professor, deputado, romancista e teatrólogo.

(3) Crequeché é o mesmo que reco-reco. São nomes de instrumentos de percussão, que produzem som pela fricção de uma vareta sobre um pedaço de madeira ou bambu, com sulcos transversais abertos para esse fim; é o feitio mais conhecido do instrumento. Na Bahia, encontra-se um outro tipo: uma mola de aço estirada sobre uma caixa de 10 cm x 15 cm. Em Piracicaba, São Paulo, é comum aparecer a mola estendida sobre uma tábua. Atrita-se o arame com uma haste de ferro, onde se enfiam tampas de garrafas, que produzem ruído peculiar ao ser tocado o instrumento. Aparece em várias manifestações musicais afro-brasileiras, como candomblé, moçambique, etc. O instrumento é usado no acompanhamento de músicas carnavalescas, principalmente na bateria das escolas de samba. É também chamado, em vários cantos do pais, de ganzá, raspador, casaca, catacá, caracaxá, querequexé, reque-reque, etc.

(4) Camarada = trabalhador braçal.

(5) SAINT-HILAIRE, Augustin François César Prouvençal de – (Orleans, *04.10.1779 / Orleans, †03.09.1853) Botânico, naturalista e viajante francês.

(6) VIANNA, José de Souza (Júnior) − Irmão do visconde do Rio das Velhas. Filho de José de Souza Vianna e Maria Cândida de Assumpção da Fonseca Ferreira. 

(7) DOLABELLA, Padre Odorico Antônio − Vigário de Lagoa Santa.

(8) FRANCO, Modestino Carlos da Rocha − Médico, juiz de paz, político (Partido Liberal) e fazendeiro, em Santa Luzia.

(9) DANTAS, Manoel Pinto de Souza − (*21.02.1831 /†29.01.1894) Senador (Partido Liberal) e conselheiro (integrante do Conselho de Estado; presidente do Conselho de Ministros, em linguagem moderna seria Primeiro Ministro).

(10) Imperial Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo − Antiga ordem honorífica brasileira, originada da portuguesa Ordem Militar de Cristo, que remonta à medieval Ordem de Cristo. Foi a segunda ordem imperial brasileira com mais titulares, logo atrás da Imperial Ordem da Rosa. Premiava militares e civis. Título recebido por decreto de 15.06.1881 e carta de 25.06.1881. / Visconde do Rio das Velhas: título recebido em 07.03.1885.

(11) Fazendas do Mocambo e do Bom Jardim − Ambas estão situadas do município de Matozinhos (MG).

(12) VIANNA, Francisco de Paula Fonseca (Sobrinho) − Filho de Cândido José de Souza Vianna e de Brígida Honorina Gonçalves Moreira da Silva.

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01/04/2014

MISTÉRIOS DA LAGOA GRANDE

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 6:30 am

♦ Ou a invenção da Lagoa Santa

Na metade do século XVIII, um médico italiano, residente em Sabará (MG) visitou o lugar onde hoje está a cidade de Lagoa Santa (MG). Ouvira falar de um lago, cujas águas operavam milagres e foi esse o motivo que o fez se deslocar até aquele sítio, distante cerca de oito léguas de onde residia. De fato, ficou impressionado com o que viu e disse ter constatado, confirmando as propriedades extraordinárias daquelas águas. Decidiu então publicar um relato sobre o assunto, que também revela como surgiu o nome da atual cidade de Lagoa Santa. Sumidoiro’s Blog transcreve o texto tal como foi republicado, em 1892, no jornal “Minas Geraes”(1)

Para melhor entendimento, aqui dividiu-se o trabalho em três partes, colocando título em cada uma e acrescentando as notas relacionadas ao fim da página. Também dividiu-se em maior número de parágrafos. Está preservada a ortografia original. 

Post - Notuno lagoenseNoturno de Lagoa Santa.

PARTE I: COMO TUDO COMEÇOU

“Relação historico-medica que no descuberto das aguas mineraes da Lagôa Grande

Offerece,

À Magestade Del-Rey Fidelissima D. João V, Antonio Cialli Romano. Mestre em Artes, Dor. Em Medicina pela Universidade de Roma, approvado pelo conselho mór de S. Magestade e socio da Pontificia Academia Hyacinthina com o particular emprego de Botanico.

A impulsos da Divina Providencia mais que por dilligencia humana se publicarão, no mez de março de 1749 as prodigiozas virtudes das aguas mineraes da Lagôa Grande.

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Post - Rosa ventosHé situado este Lago na altura de 19 graos e 172 (?), e sete leguas distante da Comarca Real cabeça da comarca do Sabará correndo pelo Rio das Velhas abaixo, entre a fazenda (do) coronel Fausto Pereira e Silva e o sitio chamado o Fidalgo(2).

Correm as suas aguas do Sudoeste para Nordeste, em hua amena campina livre de morte e mattos, fazendo de circumferencia (em figura quazi triangular) 32,20 braças e de diametro, na parte mais larga, perto de hua milha. Nascem estas aguas com temperados graos de calor, no qual agradavelmente se conservão nos mezes todos do Estio. Se correm as estaçõens do anno o seu ordinario e regulado typo; mas assim que volta o Sol para o Tropico de Cancer, com muita facilidade se vem reduzidas ao commum estado deste elemento, por não ser possivel no debatimento dos ares, e vento frios conservar aquella immensa vastidão de aguas o proprio grao de calor com que nascem, e do mesmo sol recebem.

E hé tão certo este pensamento, que a mesma experiencia o comprova: quando em Mayo principião estas aguas a esfriar manifestamente se alcança mettido o corpo em banho, serem ainda quentes as aguas inferiores estando as superficiaes mais frias; e pelo contrario, quando em 7bro* (*setembro) se tornão a experimentar quentes, acha o corpo mais temperadas as da superficie, qua as ultimas. Motivo que me fez em varias conferencias requerer se rebaixasse o Leyto do seu desaguadouro para na maior correnteza destas aguas se diminuir tão sobre abundante Rio: de que emanarião para o bem publico alem de muitas, tres consequencias utilissimas.

A primeira que esgotado assim muita parte de tão extenso Lago, se descobriria o seu nascimento, aonde executariamos as observaçõens que faltão. A segunda que conservando-se em mais limitada porção de aguas o mineral que as imprença se executaria nos effeitos mais efficaz a sua valentia. A terceira finalmente seria poder-se em menos quantidade de agua melhor conservar o calor que das entranhas da terra, e da actividade do sol se lhes communica.

Da surgente deste Lago não se vê manifesto sinal, nem em toda sua circumferencia a Corrente algúa de outra agua que nelle se comumunique menos em tempos de chuvas as vertentes daquela vasta planicie que no mesmo Lago forçosamente desagõao especialmente.

Post - Sabará - L Santa

← Cerca de oito léguas por rodovia, de Sabará a Lagoa Santa.

Da parte do Sul quasi no seu principio se observa em tempo de seca hum lagadiço que no Inverno corre não com pequenas aguas no mesmo Lago.

He tãobem de notar-se que não se vê nas suas aguas passaro algú dos que nas aguas paludosas sao comuns e assim mais por tradição do primeiro povoador consta que nunca pôde na sua fazenda conservar raça algúa do gado immundo, porque emagrecendo com aquellas aguas se via crescer mais para a morte que para os frutos da conveniencia e do gosto.

São estas aguas dotadas de admiravel gosto, e de hua claridade tão diafana que não só em vidros serve admiração, mas entrando-se no mesmo Lago em Canoa, coinspetaculo certamente agradavel se divisa em altura de muitas braças vagar diversa qualidade de peixes, e quasi se podem contar as ervas de que é alcatifado o seu fundo. He este na parte mais alta de 18 até 20 palmos em alguas partes de pedregulho que perto da praya se acha cuberto de muito limo e juncos, entre os quaes se observão huas bolas amarellas formadas daquelle musgo a que vulgarmente chamão aguas vivas.

Incriveis e quasi encarecimentos parecem os prodigios que tem obrado este musgo e a mesma agua não só neste mesmo seo natural ms. em partes distantissimas onde com extraordinarios empulsos se remettem, como referirey em narração aparte por notas de pessoas fidedignas que me tem por cartas comunicado.

Se não quiser attribuir-se a disposição da divina providencia o dillatar, e guardar o descobrimento de hum thezouro tão grande para este tempo em que mais se carecia nestas terras de hua prodigiosa Piscina que destruisse os invensiveis achaques endemicos deste continente que vão fazendo tão deploraveis estragos não só nos Ethiopes, mas ainda nos Europeus. Poder-se ha dizer que a rudez e o sem discurso do primeiro povoador deste sitio Felipe Rodrigues de Macedo foy a unica causa de estar até o dia de hoje encuberta tão grande utilidade, ao mesmo tempo que desde o instante da sua primeira chegada a este sitio acha do beneficio destas aguas o mais portentosos effeito que esperar pudesse dos auxilios da Medecina.

Post - OrelhaAs águas prodigiosas desobstruíram os ouvidos de Felipe Rodrigues.

Chegou a este sitio o dito Felipe Rodrigues no anno de 1733, vindo da Bahia tão carregado de lue celtica(3) que contava em seu corpo setenta e duas gomas abertas, cujas cicatrizes eu examiney em que esgotara por muitos anos o seu cabedal e da medecina. Tinha por costume, e unico alivio de tão penosa molestia lavar-se a miudo em agua temperada, o que, continuando por espaço de tres mezes nas aguas deste Lago, se achou no fim delles, primeiro livre da molestia do que se imaginasse melhorar.

Restaria à mais crassa rudez, por não dizer a mais inhumana ingratidão este prodigio para se constituir incessante pregoeiro das virtudes destas aguas, ainda que não tivesse experimentado que a rebeldia da sua queixa não havia nos mais potentes auxilios da medecina mostrado a mais leve melhora. Porém, tão rude foi o seu discurso que entendeu fortuito o que era mais que prodigioso.

Quiz, todavia, o Céo dar-lhe segundo toque, com que experimentasse a valentia do bem que tinha entre maons, e permettio que cahisse em hua surdez quasi total, de forma que nem as vozes, em tom mediano, nem os sinos, em algua distancia percebia. Descontentissimo viveu neste achaque algus meses, até que fez o acazo o que não obrava o discurso: e foi, que indo banhar-se na Lagôa, quazi à noite, e ficando-lhe nos ouvidos hua pequena gotta de agua, pareceu-lhe que (ao darem-lhe estes uns estalos) se lhe dissipava de repente um panno que tinha para se lhe formava a queixa, effeyto que o incitou a botar nos ouvidos a miudo a mesma agua que na repetição de poucos dias sarou totalmente tão importuna molestia. Não direy que formasse a este 2o prodigio algum conceyto das aguas porque tãobem não cuydou em communicallo.

Post - Igr N S SaúdeMatriz de Nossa Senhora da Saúde − Lagoa Santa (demolida), nome retirado do lago milagroso.

Pelo que parece quis o Céo confundir a sua ignorancia com os exemplos dos mesmos irracionaes. Reparou que quasi todas as madrugadas se sentia nas aguas hum não ordinario sussurro; observou a causa, e vio que uma grande Anta hia lentamente nadando no Lago: não penetrando o misterio fez ao pobre bruto espera para matallo, e podendo ser impossivel (supposta a dilatada circumferencia do Lago) cahir no lugar da vigia um animal tão circunspecto, permettio o Céo que fosse morrer aos pés do cassador para advirtir-lhe mostrando-se chea de chagas huas cicatrizando, e outras de todo fexadas, que os proprios irracionais movidos do natural instincto buscavão o tesouro que elle desprezava.

Erão passados já sete annos que vivia neste Sitio Felipe Roiz desfructando o trabalho de uma pequena engenhoca tendo em sua companhia hum mulato forro; indo este hum dia a cassa por divertir-se, e chegando ao caminho do Rio das Velhas reparou gemendo entre as ervas pouco afastado da estrada hum negro que examinando poude proferir apenas ter sido de um Manoel Neto Covas que o expulsara de sua fazenda e catyveiro por incapaz para o trabalho em razão de huma queyxa verdadeyramente horrorosa e incuravel frequentissima nos Negros chamada vulgarmente – quigilia(4)– sendo as verdadeiras chagas cancrosas ditas dessas como discutirei em um tratado que tenho entre mãos das queixas endemicas e proprias da America.

Movido o mulato da charidade chrystã conduzio no seo cavalo o Negro á fazenda mais proxima para lembrar-lhe o nome de Deus do que para curallo: puzerão-o em huma casa em que costumava guardar o milho, porém como fosse inaturavel o fetido das chagas o mandarão lavar-se a miudo no Lago, em cujas aguas que achava tepidas não duvidava deter-se por dillatado espaço o enfermo.

Poucas semanas contava de banhos, quando repararão que mais desembaraçado passeiava e que as chagas tinhão já outra apparencia, até que admirarão finalmente indo as melhoras em conhecido augmento, estar em poucos mezes de todo livre, e extinta tão horrorosa queyxa.

A este sucesso principiou o dito Felipe Rrodrigues a olhar para estas aguas com algum reparo, e a applicar a qualquer ferida não só dos seus escravos, mas ainda dos proprios cavallos e mais gados a pura lavagem daquellas aguas com tão feliz successo, que com os mesmos vizinhos se jactava de ser livre da pensão de curar qualquer queyxa cutanea com remedios da botica em quanto vivesse na vizinhança da Lagôa grande.

Post - Banho na lagoaO rude Felipe Rodrigues nunca mais deixou de banhar-se na Lagoa Grande.

Cansado pois, parece se mostrou o Céo de ter na mão de tão ingrato possuidor por tanto tempo inutil hum bem tão grande; e assim houve de succeder que vindo o dito Felipe Rodrigues a aconselhar-se com o Dr. Simão Pereira e Castro sobre a disposição que o obrigavão os seus credores a fazer da fazenda em que vivia, achou o dito letrado em deploravel e lastimozo estado por cauza de um espantoso formigueyro(5), que em horriveis chagas lhe tinha consumido a musculatura toda das nadegas.

Vivia o sobredito Dr. procul a litteris et a negotiis no retiro da fazenda de seu Tio o Coronel Fausto Pereira feyto quasi cadaver vivente, ou novo Lazaro não lhe permettindo a sordicie das chagas mais decente ornato que huas brancas vestimentas, nas quaes as moscas, e outros viz insectos fazião horroroso matiz, ao mesmo tempo que o estrago das chagas lhe tinha impossibilitado na debilidade das pernas todo o movimento.

Commiserado o Felipe Rodrigues do estado do enfermo se não he que movido de superior impulso, narrou ao doente e a seu Tio os cazos acontecidos mostrando-lhes as cicatrizes das feridas, bastou isto para persuadir os discursos de ambos a que se experimentassem aquelles banhos, e com effeito poucos contava ainda o pobre paralytico em hua tina (por não poder transportar-se a propria mãy da agua) quando principiou a admirar as chagas com outra apparencia e dando já as menos asquerozas mostras de hua perfeyta cicatrização.

Post - Lagoa em 1865 Década de 1860: ocupação das margens e lançamento de dejetos nas águas (Foto de Eugen Warming).

Succedeo neste tempo passar pela fazenda do Coronel Fausto Pereira o Padre Frey P. Antonio de Miranda Religiozo da Sagrada ordem de N. S. do Carmo afim de despedir-se, por fazer tenção recolher-se naquella frota a Portugal por causa de suas molestias; achou que o Dr. Simão Pereira estava na Lagôa usando de banhos, e movido ou de curiosidade do que lhe dicerão das aguas, ou de affesso* (*assesso ?), fez caminho por aquelle sitio, e saudado o enfermo não sabia resolver-se se erão mais acertados os parabens, e as suspençoens de tão grandes melhoras: prorompeo sempre que devia fazer-se observação e experiencia fisica da qualidade de tão prodigiozas aguas.

E com efeito retirando-se para esta Villa, publicando em cada parte o portento que presenciara não só no sobredito Dr., mas em outros alguns enfermos que á fama das suas melhoras tinhão acudido, anciozamente me buscou expondo-me com indicuação não só o que observava, mas communicando-me tãobem huas cartas que com observações novas lhe remettera o dito Coronel persuandindo-o a que quisesse aproveytar-se dos beneficios destes banhos antes que se recolhesse para Portugal; o que posto me pesuadio a que juntamente me quisesse transferir a aquelle lugar para que, para bem e utilidade publica, houvesse de examinar com os experimentos chymicos a qualidade das agoas no que condescendi sem muita força prevenindo-me dos meyos que a Arte ensina.

Antes porem de passar aos experimentos, examiney primeiramente os enfermos que se achavao naquelles banhos; investiguey as cauzas das suas moletias, e conferi o modo com que alcançavão melhoras. Já neste tempo se contavão quasi 50 pessoas cujo pequeno numero mais attendivel fazia a espantoza qualidade das proprias queyxas.

Haviam formigueyros horrorosos que já deviao mundificar. Havião espinhas ventosas de muitos annos (que já tinhao por vezes frustado a valentia do azougue(6) fixamente cicatrizando nas mais leves, e abstergindo os labios nas que tinhão cariados os ossos. Havião chagas antiquissimas nas pernas com demarcadas inchaçoens, que a poucos banhos resolvidos de todo, promettião no absterso da chaga muy proxima a cura. Havião morfeas, e quigilias com dedos ja consumptos ocularmente cicatrizando.

De queyxas externas não passavao de quatro ou cinco enfermos huns com opillaçoens(7), outros com lienteria(8) já de annos e, outros com dores arthriticas que sem diferença tãobem melhoravão. Tão claros, e univocos efeitos destas aguas me fizeram seguramente affirmar aos circumstantes, que o mineral dellas não podia ser senão vitriolico(9), ainda que nas experiências chimicas se conhecerião os mais adjunctos que o acompanhassem.”

Post - Lagoa à noiteCom súplicas ao céu, muitas curas na santa lagoa.

PARTE II: A DEFESA DE CIALLI

“Passando aos experimentos e tentativas que varios auctores referem para estas averiguaçoens, specialmente os que espoem Hoffmanno no tractado – De elementis aquarum mineraliu rectedijudicandis, et examinandis – corresponderão todos para se poder mais que firmemente segurar, que tres são os mananciaes das virtudes destas aguas. O 1o hua não ordinaria porção de parte etherea que as faz sobremodo subtiz, leves, e penetrantes. O 2o hum vitriolo volatil, e livre de suas particulas fixas, e terrestres. O 3abundandes partes de ferro.

Estas tentativas com exacção exporey em hua dissertação chimico-medica que deste descuberto determino publicar quando puder ter junto hum mappa (que estou fazendo para lhe annexar) dos casos mais dignos que nestas aguas aconteceram não só alcansando com o beneficio dos seus banhos a saude, mas ainda dos que cegamente fiados na sobrenatural virtude do remedio, ou peyorarão na queyxa encontrada á qualidade da agua, ou de todo acabarão a vida na brutal cegueyra da sua teyma.

Por hora permitta-me Vossa Magestade Licença de fazer hum recupilado rezumo do poderozo triunvirado destas aguas para mayor clareza dos effeitos que se tem experimentado.

Na boa philosofia experimental reduzindo-se á analysi chimica qualquer agoa como outro qualquer corpo e descobrem nella tres principios constitutivos. O primeiro e principal hé a mesma substancia aquoza elemental pura, e despida de todo e qualquer corpo estranho que nos giros subterraneos se lhe possa annexar; mas natural, e na sua primitiva simplicidade com que foy do Altissimo creada no primeiro instante da creação das couzas.

O 2o he hua parte etherea que não consiste senão naquelle primeiro ente productivo, e vivificante, que nas entranhas da terra infundio a Divina Omnipotencia para dar a alma vegetativa ás plantas, aos mineraes, ás pedras etc. sendo por concluzão este spirito a cauza movente e o principio productivo de quanta variedade de couzas das entranhas da terra se vê brotar, e manar não só nos vegetaes, mas ainda naquelles portentosos phenomenos que nos subterraneos admiramos produzir-se.

Este spirito agente pois, e este ethereo principio he o que acompanha as aguas todas desde a sua primeira e instantanea origem em mayor ou menor quantidade; e este he no sentir dos melhores Fisicos e naturaes o que ao passar das mesmas aguas por minerais soluveis solta deles a parte mais volatil, a mais subtil e spirituoza que fica impregnando a substancia elemental das mesmas aguas: digo a que chamamos aquoza.

Post- BecheriusBeccher, chamado também Becherio.

Assim o sente o doutissimo Becherio(10) Phyd. Subter. Sect. 2 Cap. 4. – Potiur aquarum mineralium pars constate ex acido terrae centrali inexhauribili, cui minima mineralium pars est admixta – e o celeberrimo Hoffmanno(11), com mais individual noticia e clareza explica o mesmo phenomeno: pelo qual pressupondo não poder-se o ether communicar, nem ficar unido se não em partes sulfureas, conclue que esse ente volatil e ethereo das aguas ao passar pelos mineraes, leva comsigo, e fica impregnado se com as partes sulphureas do mesmo mineral, que são as que podem fazer as aguas participantes de sua virtude e qualidade – Quemadmodum vero oether suam sedem, vim, atque virtutem maxime collocatam habet in sulphure; et hoc triplex est pro trium regnorum de veritate etc. – Intellegimus itaque per minerarium aquarum spiritum substantiam valde tenuem, fluidam admodum que elasticam, atque volatilem cum universali mineralium suphures ente combinatam, omnes que inferiores terrarum tractus divagantem. Anima quasi est mineraliu hic spiritus… Hic proeter labentibus aquis in terrae visceribus sed ingerit, in iis sistitur, easdem que medica virtute imbuit; ac instruit – Hoffan. in Dissert. De elem. aquar. diped. §18.

De cuja solidissima doutrina se seguem dous corollarios: o primeiro, que não poderá haver agua mineral se não com aquelle mineral, no qual a parte etherea das mesmas aguas ache particulas sulphureas, de sorte que todo aquelle subterraneo que não contiver em si particulas semelhantes, ainda que por elle passe qualquer agua não ficará esta participando de sua qualidade e virtude.

Assim o defende o mesmo Hoffm em hua particular dissertação physico medico chimica por estas palavras – Primo autem notandus venit communy ille erro dari aquas medicatas que aurum, argentum, plumbum stadnum antimonium etc. Contineante hoc enim mera sunt figmenta, utpote, metale nise fuerint soluta, atin sal conversa, nonpossunt ingressum hebere in ipsan aquam, vel cum ea miscere non regire licet vitriolum auriargenti, nequi antimomi in terri viscoribus; hinc quoque nunquam reperies dicta metalla in ulla aqua – Do que bem se conhece quanto erram os que attribuem as aguas quantos mineraes se crião nas entranhas da terra, fazendo muitas aguas antimoniaes, mercuriais e até com pedra hume, como já publicarão nesta America em certa agua que no Rio das Mortes disem examinarão.

O 2o collorario he, que de balde se cansão aquelles Medicos intentão faser artefactas quaesquer aguas mineraes para curar em propria casa os achaques que nas nativas se curão; e a rasão he, que ainda que se ajuntem com proporção na qualidade e quantidade os mesmos materiaes que pela analyse se descobrem nas nativas, com tudo falta-lhes serem volatizadas daquelle ethereo volatil, e inimitavel principio que a Divina Onipotencia infundio nas nativas e o qual se a fisica exprime natal pode nas tentativas de suas demonstrações patentear, e mostrar não cabe na alçada da mais sublimada chimica copiar da Sabedoria infinita que a produsio.

Post - Hoffmannus & BoerhaaveHoffmann, chamado também Hoffmanno, e Boeerhaave.

O effeito nas aguas produz este ethero principio he fazellas mais ou menos leves conforme a mayor ou menor quantidade que nellas for communicada: no nosso corpo porem prodigiozos são os efeitos que delle nassem, porque penetrando com a sua volatilidade e tenuidade as veas, não deyxa canal nem parte a que não se introduza, não deixa oagam* (*orgam ?), cuja secreção não provoque, nem viscozidade ou estranheza na massa dos humores que possa perturbar no equilibrio das separaçoens a economia da nossa saude que não dissolva, encaminhe a evacuar-se pelos excretorios e crivos competentes.

Post - AntaEra uma enorme anta, na qual Felipe Roiz (Rodrigues) viu feridas curadas.

Não he diferente o que deste remontado Alkast descreve o citado Hoffm. na ja allegada Dissertação ponderando as suas virtudes e efficacia. De cuja authoridade sem grande força de argumento ficará provado como participando as agoas da Lagôa de porção não ordinaria e commum deste sublimado spirito ethereo, devem naturalmente fazer os prodigiozos efeitos de desobstruir, a delgaçar com a valentia que se tem admirado nas invenciveis curas que tem feito.

O 3o e ultimo pricipio constitutivo que nas agoas descobrem as tentativas phisicas, he hua substancia ou corpo solido, que deste, ou aquelle mineral e subterraneo extrahio o 2principio, e ente ethereo das proprias aguas deyxando-o na sua aquoza substancia.

Quaes sejam os unicos metaes que o grande Hoffm. convem se podem achar nas aguas entre todo o vasto genero de metaes consta das suas palavras que transcrevo merecendo gravarem-se em bronze com letras de ouro para desterrarem os prejuizos em que commumente cahe a mayor parte dos Medicos – sed hoec de confictis et falso medicatis a quis immersis elementis san quae revera in societatem illarum transeunt, et in iis continentur exponemus. Initia autem faciemus a metallis, inter quae si utilitatem et usum spectamus, principatu obtinet Mars, cujos vena, Plinio etiam olim notante, omnim metallorum laguissima est, et in Germania nusquam non ocurrit: quinino argilae, omnes que rubicundoe bolaris terrae non nisi martialis prosapiae sunt… Poro ex metallorum familia cuprum quandoque cum aquis connubium imto. Et proeter hoec duo metalla nulla alia e minaeralibus acquis erui, et semulari posunt, licet omnibus vetigiis indagentur – HOFFMAN. DISSERT. de element. aquar., etc. § 42, et 44.

O que suposto para tornarmos ao terceiro principio que nas agoas da Lagôa grande assinamos, e temos demonstrado em varias experiencias, passaremos a averiguallo com a necessaria clareza. Dicemos ja serem estas aguas impregnadas de vitriolo e ferro, os quaes justamente se podem chamar de dous potentes corroborantes e adelgassantes da Medecina pela soluvel e penetrante natureza de que são dotados.

Forma-se o vitriolo se aquelle ente productivo que ja mostramos nos §§ antecedentes infuzo nas entranhas da terra para ser a primeira causa movente e eficaz de todo o vegetal, sensitivo, e fossil se, digo, tendo adquerido nos giros subterraneos hua qualidade acida, ajuntar a si particulas sulfureas e marciaes.

O profundissimo Theodoro Muykent na sua collectanea chimica fallando do vitriolo diz que he composto de hua aura ou spirito acido suphureo, que une em si as partículas metallicas, e marciaes – Coetera vero simplicia, quae sub nomine salium recensentur non sunt revera salia, verum mineralia constantia fumo sulphuris acido, qui particulas metallicas et minerales in poris suis latentes habet, vitriolum –in PROLEGOMENIS CHIM. pag. 14; e com a costumada clareza o ja citado Hoffm.

O vitriolo nascido do mesmo acido suphureo ou primeiro ente universal que juntou a si as particulas do ferro, e assim composto passa a mostrallo como se misture, e se comunique com as agoas – Si vitriolis natalis dispicimus, nascitur hoec ex sulphurius acido, quod omnium mineraliu sal est universale, et ex ferri substantia. Dum videlicet acidi sulphudis habitus qui ex inferiori terrarum tractu sursum rapiuntur per labentis aquas contigunt, et ramentis terreo – martialibus per illas dispersis se se associant, et sic principiu quoddam vitriolicum, efficiunt in ipsis aquis – Loco Silva citato § 44.

Post - Padres na lagoaArcebispo d. Antônio S. Cabral e seus padres, na Lagoa Santa (Foto de Gines Gea Ribera – 1923).

O mesmo ferro concordao todos os chimicos não ser senão hum composto de saes vitriolicos misturado com partes suphureas e terrestres, assim o descreve Lemery no seu curso chimico cap. 7 – el hierro es un metal muy poroso composto de sal vitriolado de azufre, y de tierra – Hoffmanno, reconhecendo estes mesmos saes vitriolicos na composição do ferro, o julga pelo metal mais soluvel nas aguas, pois se dissolve mais que outro algum ao leve toque de leve menstuo – Nullu quoque ex metallorum censu est, quod tam prompte a quovis acido dissolvatur, quam ferrum; qui a ipsa a qua ob permixtu ethereum principium, et universale sal prompte illud aggreditur, ejus que scobem imbibit. Loco cit. § 42.

Logo podemos dizer que, sendo uniforme a natureza e virtude destes dous mineraes, concorrendo ambos para a structura de algum composto como no impregnar das aguas da Lagôa Grande serve o concurso e ajuntamento de ambos para se remontarem reciprocamente as proprias virtudes; e por este se augmentão, e se perfeyçoão mais as vitriolicas do mesmo ferro, e desta conclusão manifestamente se alcança qual potentissimo desobstruente e efficassissimo corroborante rezulte do triunvirato destes principios nas aguas da Lagôa Grande para a infallivel cura de infinidade de queyxas internas e externas que precizem das duas indicaçoens de corroborar e desobstruir.

Nem pareça paradoxo o dizer-se que nestas duas indicaçoens corroborar e desobstruir se segue a cura de infinidade de queyxas: porque de hua relaxação nos solidos, que só se cura corroborando, e de hua viscozidade e crassidão nos liquidos que só se remedea desobstruindo e adelgaçando, se mostra na boa medecina originarem-se muitas queyxas que na escola antiga se reduzirão a muy diversas cauzas.

E com effeito he hoje como principio certo, induvidavel, e provado na Medecina, que para a perfeyta economia da nossa vida, he preciso conservar-se hum proporcionado equilibrio entre aquella força e elasticidade com que os solidos impellem o sangue para a circulação, e a reacção com que o mesmo sangue hade rebater, e rezistir o impulso dos ditos solidos – Sanguine pulso aortam et arterias resistit… conica ejusdem arterie figura, curvatura, ejus, vis que elastica… hac ininqua se contrait vi, urget sanguinem alias guieturum fluet inde sanguis fluore haude interrupto – BOERHAAVE(12) Instil. Med. § 215.

E tanto assim, que se faltar ou diminuir esta elasticidade, e impulso aos solidos para obrigar ao sangue ao se perenne movimento, e cahirem em hua debilidade laxidão pela qual fiquem vencidos do peso dos mesmos humores, claro fica que parando estes ou naquella parte ou nesta se verá no seu restagno a verdadeira cauza das apoplexias, paralizes, cephalgias, cephaleas, vertigens, erysipelas, inchaçõens, diabetes, faltas de ver e ouvir a que se chama ser atoniam etc. e com estas ao mais todas, que debaixo da mesma relaxação pondera agudamente o citado Boerhaave nos seus aphorismos cognoscendis et curandis morbis § 24 et. Cap. morbi fibra debilis et laxa; as quaes unicamente se deve auxiliar attendendo a força amortecida e fraca dos solidos, e corroborando-os no seu tono para que possão reassumir os liquidos, e reduzillos a sua proporcionada circulação.

Post - MelancoliaMergulhos na lagoa debelavam achaques melancólicos.

Nem menos patente he para preverter a economia animal hum viscozo, crasso e tenaz que se costuma gerar nos nossos humores, porque da sua ineptidão à circulação e movimento rezulta o equilibrio das separaçõens, e filtaraçoens desconcertos innarraveis. Querendo o citado Boerhaave ponderar no capitulo desta cauza as queyxas que dela nascem, as reparte em duas classes, hua nas primeiras vias, outra no sangue Ita in loco citatu et 99 § 69 cap. morbi a glutinoso Spontaneo.

Os effeitos que nas ditas vias produz este glutinoso são preverter as digestõens, destroçar o appetite, entumecer o stomago, encher de flatulencias o ventre, e de viscozidades os intestinos, constipar o curso, e finalmente os meyos de separar-se e depurar-se o chylo, a bilis, e succos in primis cos facii prostatum appetitum, repletionit sensum, comitum nauseam, vomitum, ingesti cruditatem, bilis inertiam, ejus inviscationem, et consuptionem pituitae stomachico et intestinalis ortum alcum tardam, et tumentem, impedimenta chyli parandi, prefeciente secernendi – BOERIHAAVE loco citato § 71.

Cujos vicios só bastam para dahi manar hua fonte de muitos rebeldes achaques como são obstrucçõens, hyppocondrias, melanccholias, manias, delirios melancholicos, iterias, lienterias, colicas periodicas, nephritides etc. De cujas queyxas he univoca e uniforme a indicação curativa, porque premissas à medida das circunstancias em alguns dos ditos achaques hua diversa preparação, em todas genericamente se deve influidir, attenuar, adelgaçar, e desobstruir para radicalmente curallas.”

Post - D. João V

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PARTE III: CONCLUSÃO

“A respeyto da queyxa ou achaque e da sua cauza; finalmente em muitos se carecia prohibir o uzo interno das aguas por não induzir nos humores demaziada tenuidade e adelgaçamento.

Mas o absurdo mais lamentável foy o crer-se que a virtude santa das aguas não admettia consorcio de outro corpo, e que todo o estanho de si expulsava: levado o povo destas premissas foy ladeando a Lagôa de banhos e ranchos, com que pela serventia, lavagem de irracionaes, e despejos das mais immundicies se virão logo conspurcadas as aguas, erreduzido o lago a hua verdadeira cloaca.

Vendo eu tão abominavel cegueyra compadecido della recorri ao Senado da villa Real com um memorial, em que expendi a preciza providencia de que necessitava, e com effeyto se prevenirão as disposições tanto para o governo civil, como para o regimem medico. Para os achaques contagiozos se demarcarão os lugares mais perto ao dezaguadouro para que assim se separassem dos mais enfermos: prohibirão-se as lavagens das roupas e animaes no mesmo lago. Finalmente da metade da Lagôa para sima se prevenio se não uzassem ranchos nem banhos para sem escrupulo se poderem beber as aguas.

Estas e outras ordens se arbitrarão, e todavia se dera a execução, porque o nosso exm. general movido do seu incansavel cuidado chegou a visitar este sitio, e actualmente informado destas precizões, as corroborou com outros decretos que a sua alta comprehensão julgou necessarios.

Mas que importa srs.; o maior desvello deve ser sobre o conservar estas aguas na sua natural pureza, e livra-las das impuridades com que se contaminam; mas não é possivel que isto se execute sem que das margens da Lagôa se tirem os ranchos e se prohibão os banhos da sua circumferencia; porque do primeiro segue-se ficarem nas margens as imundicies que resultam dos usos domesticos, e forçosamente nas chuvas passa a contaminar as aguas; e do segundo resulta ás mesmas um inexplicavel veneno com as superfluidades naturaes e morbosas que na ocasião dos banhos emanão dos proprios corpos.

Post - Banho

Banho na lagoa, melhor que remédio da botica.

Sem ordem de vossa magestade não podia o senado edificar os banhos formaes no sangradouro da lagôa o que era preciso a evitar aquelle damno, e assim o remediou indirecté prohibindo nas margens ranchos de vivenda, e permettindo ao pé dos banhos edificar ranchos.

A estes inconvenientes remedeia Vossa Magestade se com a sua magnanima grandeza convier em que se edifiquem os banhos no sangradouro da mesma Lagôa. Os arbitrios necessarios para esta obra os representará a Vossa Magestade o alto entendimento do nosso Exmo. General a quem justamente incumbem negocios de tanto pezo. Só pois com o Soberano auxilio de Vossa Magestade se poderá conservar este portentozo thezouro para alivio de tantos mizeraveis pobres que a elle recorrem, que de outra sorte será desvanecida a opinião que merece reduzindo-se esta piscina em verdadeira cloaca de contagiosas e pestilentes enfermidades.

Da real grandeza de Vossa Magestade esperão estes povos se perpetue este prodigiozo manancial no estabelecimento dos banhos thermaes, e de hum hospital para os pobres para que com o instituto, norma e regimen necessario se faça a appplicação devida das aguas, em falta da qual se experimentão absurdos e successos sinistros, porque fiados os enfermos na virtude que suppoem sobrenatural do remedio fazem dele uzo em toda a estação, em quaesquer queyxas e sem sujeição alguma aos preceitos da arte, do que se segue que huns se não curem, outros se reduzão a estado deteriorado por falta de conselho ao mesmo passo que são inumeraveis os que testemunham prodigios quando se sugeytão ao discurso de quem os guie, pois nem tudo he para todos.

Com este beneficio se verão no feliz Reynado de Vossa Magestade descubertas neste continenti as caldas mais eficazes de toda a Europa, e consequentemente terá a Real pessoa de Vossa Magestade quantos enfermos nestes banhos sararem, tantas fervorozas supplicas ao Céo pela vida e saude de Vossa Magestade cuja Real pessoa guarde mesmo Céo como os seus mais fieis vassallos lhe pedimos e necessitamos.

Seu mais humilde vassallo. O DR. ANTONIO CIALLI”

Post - Lagoa Santa panorâmicaAs águas de Cialli, outrora milagrosas. 

Transcrição, notas e arte de Eduardo de Paula

• Clique com o botão direito e leia mais: “Prodigiosa Lagoa”. 

(1) Jornal “Minas Geraes”, Ouro Preto (MG), edições: 21.04.1892 / 29.04.1892 /13.05.1892. / Aviso junto à publicação: “Conservamos a orthographia do documento”.

(2) Fidalgo − antigo arraial, próximo a Lagoa Santa; hoje, fazenda do Fidalgo. Não confundir com o novo arraial do Fidalgo, junto à lagoa do Sumidouro. O nome tem a ver com o lugar onde foi assassinado, pelo bandeirante Borba Gato, o fidalgo espanhol d. Rodrigo Castel Blanco. Leia o Post “Visita ao Sumidouro”.

(3) Lue celtica = doença venérea.

(4) Quigília − O mesmo que quizila ou gafeira, espécie de morfeia. Veja o Post “Prodigiosa Lagoa”.

(5) Formygueiro − formigueiro = bicheira.

(6) Azougue = mercúrio.

(7) Opillaçoens − opilação = ancilostomiase, infecção causada por vermes, que atinge o homem e vários mamíferos e se caracteriza por anemia grave.

(8) Lienteria − diarreia em que se expelem os alimentos com digestão incompleta.

(9) Vitriolico − vitriólico, de vritríolo, ácido sulfúrico.

(10) BECCHER, Johann Joachim – (Speyer, Alemanha, *06.05.1635 / Londres , Inglaterra, †??.10.1682) – Médico e alquimista. Foi sobretudo autodidata, assim mesmo agraciado, em 1661, com o grau de MD (Medicinæ Doctor), da Universidade de Mainz. Em 1663, foi nomeado professor de medicina na mesma instituição. Entre os anos de  1664 a 1666, permaneceu em Munique, onde instalou um laboratório, mas, em 1666, foi obrigado a deixar a cidade. Partiu então para Viena e, em 1666, o rei Leopoldo I nomeou-o assessor comercial do império. Em 1669, organizou, com a holandesa Companhia das Índias Ocidentais, uma colônia na América do Sul. Mais tarde, foi nomeado camarista do conde Zinzendorf, em Viena. Naquela oportunidade, estabeleceu uma oficina que contava com um laboratório químico, para fabricação de pigmentos, bem como para trabalhar lã, seda e vidro. Em 1678, transferiu-se para a Holanda, onde vendeu, à cidade de Haarlem, um projeto para uma máquina de produzir carretéis com fios de casulos de seda. Em 1679, a convite do príncipe Rupert, dirigiu-se à Inglaterra, com a finalidade de inspecionar as minas de estanho e cobre da Cornualha. / Cialli diz “Becherio”.

(11) HOFFMANN, Friedrich – (Halle, *16.02.1660 / Halle, †12.11.1742) – Foi um dos mais célebres autores médicos do século XVIII e chamado de “segundo Hipócrates” ou de “Esculápio halense”. Ficou conhecido, sobretudo, pelas suas ideias fundamentadas em um modelo da medicina, semelhante ao que seu colega Hermann Boerhaave desenvolveu, na cidade de Leiden, e que considera o corpo humano como uma máquina hidráulica, governado por leis mecânicas. / Cialli diz “Hoffmanno”.

(12) BOOERHAAVE, Herman (Boerhaaven) – ( Voorhout, *31.12.1668 – Leiden, †23.09.1738), médico, botânico e humanista neerlandês. Considerado fundador do ensino clínico e do hospital acadêmico moderno. Sua principal realização foi demonstrar a relação dos sintomas com as lesões. / Obteve, em 1689, o título de doutor em filosofia na Universidade de Leiden. Com a tese “De distinctione mentis a corpore”, críticou as doutrinas de Epicuro, de Thomas Hobbes e de Spinoza. Estudou medicina, obtendo o título de doutor, em 1693, na antiga Universidade de Harderwijk. Durante sua formação, estudou em incontáveis livros de medicina e também a praticou. Também aprendeu tudo o que havia sobre botânica e química. / Em 1709, assumiu o posto de professor titular de medicina e, logo depois, de botânica na Universidade de Leiden. Esse foi apenas o início de uma brilhante e profícua carreira acadêmica. Morreu de maneira dolorosa, em Leiden, no ano de 1738.

01/03/2014

O CAVALEIRO DA LUA (III)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:15 am

♦ Duas vidas aos tropeços

Nasceu em 1801, na Dinamarca, uma criança depois batizada como Peder Nicolaj. Sua mãe chamava-se Anna Catharina Fifcher e seu pai Peder Olivarius Claufen. A família Claufen participava de uma associação de comerciantes(1), de Copenhagen, e teve condições de oferecer a educação fundamental para que o garoto se transformasse em notável autodidata. Desde o momento em que o pequeno Peder veio ao mundo, agiram também as forças do destino para que fosse escrita uma intrincada, controvertida e polêmica história de vida.

Post - Bebê ClausenO bebê Peder Nicolaj, nascido em berço de ouro (cena imaginária).

As primeiras marcas do inusitado logo começaram a aparecer. O batizado ocorreu na casa dos pais, em 1801, mas o registro(2) foi anotado somente em 1802, dizendo que Peder Nicolaj era filho de Peder Olivarius Claufen e Anna Catharina Fifcher, exatamente assim. Ora, o sobrenome Claufen – muito comum na Dinamarca – quer dizer filho de Nicolaj (Clau é diminutivo de Nicolaj; fen é filho). Naquela época, escrevia-se o “j” por “i” e o “f” por “s”. Ao transcrever para outros idiomas, que não o dinamarquês, em lugar do “f”, escreveu-se duplo “s”. Na dança das letras foi que o Claufen virou Claussen e Peder virou Peter.

No inicio do século XIX, o personagem chegou ao Brasil, no Rio de Janeiro, em busca da fortuna. Apresentava-se como Peter Claussen e, de tanto lhe perguntarem “Peter, o quê?”, em certo momento, decidiu facilitar as coisas, mudando tudo radicalmente. Passou então a se identificar, eventualmente e segundo as conveniências, como Pedro Claudio Dinamarquez, embora não coubesse a tradução Claudio no lugar de Claussen, pois apenas soava semelhante.

Post - BatizadoBatismo de Peder, que virou Peter, que virou Pedro, que virou Chevalier…

A inspiração de Sumidoiro’s Blog, ao lhe dar mais um nome, ou melhor, o título de “Cavaleiro da Lua”, veio do seu final de vida internado num hospital de lunáticos, em Londres. Por estar imbuído de um projeto de vida de ambições desmedidas, acabou sendo levado a essa tragédia. Só muito recentemente é que tem sido possível recuperar a sua história, em parte divulgada nos dois Posts anteriores, desta sequência. Certamente, ainda deve existir mais coisas escondidas.

No Brasil, suas rotas de aventuras começaram pelo Rio de Janeiro, onde chegou como fugitivo da justiça, segundo palavras de Peter Lund a Eugen Warming(3), quando ambos trabalhavam em Lagoa Santa. Nos primeiros dias, conseguiu se empregar como soldado raso e, depois, trabalhou como vendedor ambulante. Durante a guerra do Brasil com a Argentina prestou serviços como espião. Suas ações prosseguiram, sobretudo, em Minas Gerais. Ali, fixou-se na região de Ouro Preto, exatamente na vila de Cachoeira do Campo, onde foi comerciante. Entre os anos de 1829-1830, ganhou um bom dinheiro com o comércio de escravos. Em 1831, fez no jornal “O Universal”, uma oferta de venda de tecidos em varejo e atacado, o que denota que possuía um negócio de expressivo vulto.

Post - Cachoeira do CampoCachoeira do Campo, com igreja matriz de N. S. de Nazaré, em imagem antiga.

Mais tarde, e por algum tempo, foi fazendeiro na região central do estado, onde adquiriu a fazenda denominada Porteirinhas, situada entre as vilas de Curvelo e Taboleiro Grande (hoje, Paraopeba). Nessa propriedade, criava gado, ao mesmo tempo em que tocava lavoura de mandioca e cana. Provavelmente, também produzia alguma aguardente. Entretanto, seu maior retorno financeiro vinha pela exploração das riquezas de grutas da região, que eram o salitre, vendido para fábricas de pólvora, e os fósseis, exportados para a Europa. A fazenda foi colocada à venda em 1835, Claussen estava com planos de alçar voos mais altos.

Post - Dois anúnciosJornal “O Universal”: Claussen vende fazendas para comprar fazenda e depois vende a Porteirinhas.

Desse modo, de tanto lidar com ossos, fingiu-se de arqueólogo, e, de tanto procurar minerais, fantasiou-se de geólogo. E se aventurava nas ciências naturais, de modo geral. A partir daí, devido à sua personalidade impetuosa e boa lábia de comerciante, conseguiu vender a imagem de cientista, chegando a ser sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro(4). Suas atividades comerciais sempre foram muito conflituosas, tanto na Europa quanto no Brasil, frequentemente gerando polêmicas, fracassos nos negócios e também embates na justiça. Aliás, é por demais sabido que as relações com seu conterrâneo, o famoso naturalista e paleontólogo Peter Lund, azedaram desde os primeiros momentos quando se conheceram.

Post - Volff & SchuchClaussen, negociante briguento, morador em Cachoeira do Campo: não tem parente no Brasil.

O homem era briguento. Claussen andava sempre metido em empreendimentos que envolviam altas somas de dinheiro e suas confusões, voluntárias ou involuntárias − não se sabe − acabavam nos jornais. Evidentemente, não há como julgar cada caso, nem dizer de que lado estava a razão, mas eram sinais que denotavam a personalidade alvoroçada do dinamarquês. Certa feita, um tal de Luiz Fernandes Volff, que se passava por seu primo, obrigou-o a fazer uma denúncia num jornal, pois andava por toda a província de Minas Gerais, fazendo dívidas em seu nome.

Um anúncio sobre esse conflito, mandado publicar(5) por Claussen, em janeiro de 1831, acrescentou um detalhe sobremaneira revelador, pois afirmava categoricamente que não tinha, até então, nenhum parente no Brasil. Em 1838, o acusador foi Roque Schuck, afirmando que Claussen não fora correto nos negócios entre os dois. Do mesmo modo, através da imprensa(6), Claussen contestou o oponente.

Post - TigresAssinatura de Peter Claussen e detalhe da carta sobre a venda dos tigres.

Claussen esteve na Europa em 1840 e, depois retornou com uma encomenda que gerou uma tremenda confusão. Eram duas onças, que pretendeu enviar ao Museu de História Natural de Paris, em 1842. Os passageiros do barco protestaram, quando souberam que poderiam ter as feras por companhia de viagem, redundando no cancelamento da remessa. Em correspondência(7) aos administradores do museu, em 09.05.1842, ele desculpou-se, dizendo:

“O atraso do navio Achille [do] Capitão Semieux, me permite ainda de avisá-los que o mesmo não quis se encarregar de levar a bordo os dois Gatos-Tigre* (*onças), que eu já havia embarcado […]. Os motivos alegados pelo dito Capitão, para esta recusa, advém do fato de que diversos passageiros alegaram que esses Tigres eram ferozes (o que não era o caso), e chegaram até a ameaçar de não mais comprar passagem a bordo, caso persistíssemos a conservar esses animais.” 

BRILHO EUROPEU

A grande jogada de Claussen foi quando decidiu retornar definitivamente à Europa, para vender uma série de invenções, a principal delas o “flax-cotton”, um linho trabalhado de maneira a assemelhar-se ao algodão. Dessa vez, se apresentou ao público e autoridades com o honroso título de cavaleiro (“chevalier”, em francês), que ganhara no Brasil. Virou então o homem de três nomes: Chevalier Claussen, Pedro Claudio Dinamarquez e Peter Claussen, podendo ser tratado de um desses modos, à escolha do freguês.

Aproveitou então a oportunidade para mostrar o produto têxtil na “Great Exibition”, uma feira que aconteceu em Londres, no “Crystal Palace”, durante o ano de 1851. Sua apresentação causou muita admiração entre pessoas do ramo e, também, ao príncipe Albert, marido da rainha Victoria, da Inglaterra.

Post - Crystal Palace pavilO público encantado com as novidades no “Crystal Palace”.

O jornal “The Examiner”, de 07.07.1851, publicou a notícia de uma visita real à feira, quando o príncipe manifestou sua admiração pelas novidades de Claussen. Uma opinião valiosa, porque ele tinha sólidos conhecimentos sobre o cultivo e a industrialização do linho(8). Um resumo do texto:

“Uma manhã luminosa e bonita marcou o início da segunda semana econômica (de ingresso barato) no Palácio de Cristal e, já uma hora antes do horário de abertura, os acessos […] tinham um aspecto de alegria e animação. Multidões foram caminhando em sua direção − alguns em veículos , outros a pé − e, como foram chegando em grupos, até lá pelas dez horas não havia multidões consideráveis à espera. Quando as portas foram abertas, o fluxo ocorreu de modo impetuoso e contínuo, de modo que, já na primeira hora, quinze mil pessoas tinham entrado no prédio. Lá pelas 14 horas, não menos que trinta e nove mil haviam sido contadas.

Post - Amostras

Amostras de linho e “flax-cotton” apresentadas no “Crystal Palace”.

Sua Majestade e o príncipe Albert, com a princesa Louisa, chegaram ao edifício cerca das nove e meia horas, adentrando às seções de alimentos, vegetais e produtos animais crus; e armas e acessórios, na parte de trás da galeria do lado sul. Foi esta a primeira ocasião em que a Rainha e o Príncipe visitaram o Palácio de Cristal (Crystal Palace), com o propósito específico de encontrar-se com os expositores. […] Por volta de trezentos estiveram presentes e os visitantes reais dedicaram um tempo considerável − cerca de uma hora − à inspeção de três seções que tiveram oportunidade de examinar. Entre os objetos, na galeria do Sul, que atraíram a atenção da comitiva real estava o estande do Chevalier Claussen, no qual são mostrados exemplares ilustrativos dos vários casos em que o linho, quando tratado pelo seu processo recentemente patenteado, pode ser aplicado.

O Principe Albert, que durante vários anos dedicou sua atenção ao cultivo e preparação do linho, evidenciou o mais profundo interesse pelo assunto. Ao manifestar o desejo de testemunhar o processo pelo qual a fibra poderia ser transformada em um material semelhante ao algodão, foi prontamente atendido por M. Claussen. Um punhado de linho, em estado bruto, de cor escura, foi colocado em um tubo de vidro, no qual havia uma solução fraca de carbonato de sódio e, tendo lá permanecido durante alguns segundos, foi transferido para outro recipiente contendo uma solução de cloreto de bário. Imediatamente, começou a expandir-se, crescendo todas as direções, como uma esponja, pela ação mecânica dos gases produzidos pela reação química das substâncias utilizadas.

Post - Prince AlbertPríncipe Albert e detalhe do jornal “The Examiner”.

O linho foi, assim, transformado em um material semelhante ao algodão. Sua Majestade e o Príncipe, manifestaram sua admiração pela simplicidade de todo o processo, passando a examinar os vários artigos apresentados pelo Chevalier Claussen, que tinham sido fabricados a partir da fibra tratada. Aí incluindo os fios formados somente de linho, ou misturado com algodão já fiado, tingidos de várias cores; chita, produzida a partir dos fios; e flanela, e pano, também feitos de uma mistura de linho e lã. E os fios, produzidos dentro desse processo, somente com linho, permitem ser industrializados na produção de tecidos.”

DEPOIS DA FEIRA

Parecia que tudo andaria às mil maravilhas, porque os inventos de Claussen, aparentemente, teriam grande aceitação e o dinheiro necessário não faltaria. Mas o sucesso na feira, não refletiu da maneira esperada nos ambiciosos empreendimentos, que já estavam em andamento. Houve um momento em que, à portas da falência, a saída encontrada foi a oferta de ações e outros papéis ao público, visando gerar recursos. O corretor londrino Matthew Plews foi encarregado da venda desses papéis na Inglaterra, Irlanda e Bélgica, que somavam vultosa importância(9). Mas, de repente, houve um contratempo e Claussen se acidentou, sofrendo uma queimadura nos pés, que o obrigou a procurar socorro em um hospital. Precipitaram os acontecimentos um pontapé que desferiu num enfermeiro e, desse ponto em diante (leia o Post “O cavaleiro da Lua – II”), a roda da fortuna começou a girar ao contrário e o acidentado logo foi transferido para um asilo de lunáticos, e depois outro, até o fim de tudo.

Post - AçõesClaussen vende papéis para fazer dinheiro.

Sua mulher, Claudina de Britto Claussen, que havia retornado ao Brasil, doente e em busca de auxílio pelo marido, manifestou-se inconformada com os acontecimentos que presenciara, desde a internação no primeiro hospital (leia o Post “O cavaleiro da lua – II”) . Para ela, não haveria maiores justificativas que recomendassem a transferência para um hospital de alienados mentais. É de se dar crédito às suas palavras, porque hoje se sabe que foram cometidas muitas imprudências nesses antigos hospitais. E, para o historiador fica a dúvida: Claussen estava realmente louco, ou fizeram-no louco? E por quê?

A morte, como indigente, fez com que fosse sepultado no cemitério do “Stone House Hospital”, em lugar ainda não identificado. Ali, no meio de alguns túmulos decrépitos, o cavaleiro descansa junto a um punhado de companheiros de infortúnio. O hospital, hoje transformado em condomínio residencial, pode ser visualizado pelo “Google Maps”, colando na janela de busca a referência numérica em negrito: 51.445076, 0.245164. O cemitério pode ser visualizado ao norte, escondido sob um arvoredo, em 51.447218, 0.241845.

Post - Stone House antigoComplexo de “Stone House”, onde Claussen faleceu. 

DÚVIDAS E REVELAÇÕES

Ao fazer o pedido de naturalização brasileira, em 09.04.1834, Claussen vivia com Claudina na fazenda Porteirinhas, e o fez na câmara municipal de Curvelo, mencionando que era casado. Evidentemente, já estaria ali havia algum tempo pois, naquele mesmo ano, o paleontologista Peter Lund lhe fizera uma visita, quando Claussen lhe passou muita informação sobre a região. Qual seria a idade do casal nessa época?

Quanto ao alegado casamento, é preciso considerar algumas questões. Nos grandes municípios, o registro civil teve seu início por volta do ano de 1875 e, até então, quem cuidava disso era a igreja, que criava obstáculos ao matrimônio entre pessoas católicas e acatólicas. É o que levou o dinamarquês a declarar e assinar, naquela oportunidade, que “professava a religião Catholica Romana”. Mas, pergunta-se, haveria sinceridade nas suas palavras? Fatos futuros viriam contradizê-lo.

Outro ponto a ser esclarecido é a idade verdadeira de Claudina. Pelo obituário publicado na imprensa, sabemos que faleceu em junho de 1863, no Rio de Janeiro, dizendo que estaria com quarenta anos de idade (veja “O cavaleiro da lua – II”). Idade de mulher quase sempre é um enigma; teria ela realmente quantos anos? Há contradição com um documento oficial do censo inglês, que anotou contar quarenta e três anos, em 1861. O levantamento foi realizado em 07.04.1861, por domicílio, verificando cada pessoa residente.

Os dados de Claudina foram os seguintes: “Westminster (bairro onde residia) […] De Britto de Claussen (sobrenome) / Head (cabeça do casal) / Mar (Married = casada) / 43 (idade) / Brezil (Brasil). O marido, naquela data, estava internado no hospício e Claudina se apresentava como cabeça do casal.

Post - De Brito De ClaussenAnotação no censo, 1861: – Westminster / De Britto de Claussen / Head / Mar / 43 / Brezil – .

Continuando: 1861 menos 43 é igual 1818, que seria o ano do seu nascimento. Talvez esta contagem seja mais confiável, mas vamos deixar nossa querida biografada em paz e ainda lhe pedimos desculpas pela indiscrição.

Também pergunta-se: por quê Claudina morreu sozinha (veja “O cavaleiro da lua – II”), ao desamparo dos familiares brasileiros? E vejam que tinha família em condições de socorrê-la! Certa feita, quando se preparava para viajar, do Rio de Janeiro com destino à Europa, solicitou às autoridades brasileiras permissão para embarcar. No despacho da repartição de polícia, datado de 17.06.1840, foi dada a autorização tratando-a como casada mas, no documento de identidade, constava o nome que sempre assinara como solteira. Seu prenome composto, sonoro e delicado, carregava um sobrenome poderoso, ela era Claudina Candida de Britto Ribeiro de Andrade! Denota que não seria uma pobretona e pertenceria a família possuidora de alguma fortuna.

Embora não se tenha um registro de nascimento, a sequência de fatos, datas e sua respeitável assinatura são suficientes evidências para dizer que Claudina é natural da região de Cachoeira do Campo. Com mais certeza, pode-se deduzir que passou sua infância nessa vila.

Post - Saidas do portoDois recortes do “Diario do Rio de Janeiro”: 19.06.1840 e 13.07.1840.

Já se sabe que Peter nasceu em 1801, portanto era dezessete anos mais velho que Claudina. Prosseguindo nessa linha de raciocínio, descobre-se que, de fato, ele vivia com uma adolescente na fazenda Porteirinhas. Para se ter uma ideia, em 1833, ele tinha trinta e dois anos de idade e ela quinze anos (!). E tem mais, como haviam se “casado” em Cachoeira do Campo, algum tempo antes − tudo fala nesse sentido −, entende-se que o dinamarquês madurão enfeitiçou a menininha e retirou-a de casa abruptamente, talvez contra a vontade dos pais. Embora as uniões dessa natureza, com mulheres tão jovens, fossem corriqueiras na época, o fato é que o noivo era um estrangeiro misterioso e com uma vida pregressa já um tanto complicada.

Diante disso, teria a família rompido com Claudina? E mais outra suspeita: se foi identificada na imigração com o nome de solteira, estaria formalmente casada? Serviriam estas constatações para explicar o seu fim de vida ao abandono, tuberculosa, internada no Hospital da Gamboa? Há muito ainda a esclarecer mas, ao final das contas, o que vale é que era apaixonada pelo marido.

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Post - Porteirinha riachoPorteirinhas: paisagem com riacho (por Peter Brandt).

Retorno a Porteirinhas

História e geografia caminham juntas. A fazenda de Claussen ainda existe, certamente em menor extensão, mas com o mesmo nome, sendo que o local exato pode ser visualizado pelo “Google Maps”, onde ainda pode-se ver o Riacho Fundo, que corre em direção a Curvelo. Para tanto, basta copiar e colar, na janela de busca, a seguinte referência numérica: -18.913500, -44.452897, apenas a parte anotada em negrito. Naquele ponto, há uma pista de pouso com as seguintes coordenadas: 18º 55′ 02″ S / 44º 27′ 16″ W.

Porteirinhas abrangia vasta extensão de terra, como revela o anúncio de venda publicado no “O Universal”, em 1835, e sua área seria “para cima de quatro legoas”. A medida, também denominada légua em quadra ou légua de sesmaria, correspondia a um quadrado de 6 km de lado. Para efeito de comparação, a área total seria maior do que a soma de quatro quadrados com essa dimensão. Portanto, terra que não acabava mais! No mesmo anúncio se dizia estar distante “3 legoas do Curvello”, dado que confere com a anotação apontada pelo “Google Maps”.

Post - Antigo quartelQuartel dos Dragões D’El Rey, que abrigou os militares originários do Regimento Regular de Cavalaria.

Retorno a Cachoeira do Campo

Post - Placa quartel

Placa da fundação do quartel de Cachoeira do Campo.

Cachoeira do Campo é distrito de Ouro Preto, Minas Gerais. Situa-se a 18 km da sede do município e a 72 km de Belo Horizonte. O primeiro nome do lugar foi “Cachoeyra”, assim chamado pela gente da bandeira de Fernão Dias, devido a existência de uma cascata de águas cristalinas, no riacho Maracujá. O primeiro morador foi um aventureiro, chamado Manoel de Mello, ali chegado em 1680. O impulso inicial para o desenvolvimento do povoado se deu no ano de 1700, quando faltaram alimentos em Ouro Preto. Em consequência, inúmeras pessoas procuraram aquelas terras para plantar.

Cachoeira do Campo foi também palco de acontecimentos marcantes na história de Minas Gerais. Uma delas durante a Guerra dos Emboabas, entre 1708 e 1709, cuja motivação foi uma disputa pelo controle das minas de ouro. Naquele conturbado momento, foi sagrado pelo clamor popular, na matriz de Nossa Senhora de Nazaré, o primeiro governador “eleito” da história das Américas, Manuel Nunes Viana, o líder os emboabas(11). Como desdobramento desse conflito, a coroa portuguesa determinou a criação da Província de São Paulo e Minas de Ouro (1709). O capitão Antônio de Albuquerque foi, então, nomeado seu governador, tendo como capital Mariana.

Em 1720, Felipe dos Santos foi um dos líderes da denominada Sedição de Vila Rica, contra a instalação das casas de fundição e a cobrança do quinto do ouro. Um episódio notável dessa revolta ocorreu em Cachoeira do Campo, com a prisão de Felipe enquanto pregava a revolta na praça da matriz. Logo depois, esse precursor da Inconfidência Mineira foi julgado, condenado à morte e enforcado, em Ouro Preto, no dia 15 de julho.

Post - Col Dom BoscoColégio Dom Bosco, antigo quartel e coudelaria; e o riacho Maracujá.

Em 1772, o general d. Antônio de Noronha, capitão-geral da Capitania das Minas Gerais mandou construir, em Cachoeira do Campo, um quartel para abrigar o Regimento Regular de Cavalaria, que acabara de ser criado e de cujo efetivo participou o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. O agrupamento foi a célula mater da Polícia Militar de Minas Gerais(10). No ano de 1816, decidiu-se adaptar a edificação para ali instalar a coudelaria(12) imperial e que foi inaugurada em 29.07.1819. Aquele foi o maior centro de criação de cavalos de raça da província, laboratório para a gênese de algumas das raças equinas mais famosas do Brasil.

Na primeira metade do século XVIII, com influência e muito dinheiro, uma poderosa aristocracia dominava Cachoeira do Campo, de tal modo que construíram inúmeros prédios que, para os padrões da época, eram considerados suntuosos. A pompa e o luxo, então, tomaram conta do lugar, nessa mesma época em que ali viveram Claudina e Peter.

Post - Terra CachoeiraEm Cachoeira do Campo, José d’Araujo Britto teve Peter Claussen como vizinho.

Em um livro de registro de terras(13), encontra-se uma anotação reveladora, lavrada pelo vigário Joaquim José de Sanct’Anna, que diz:

“O abaixo assignado possue uma porção de terras denominadas – ? – nesta Freguezia da Cayxoeira do Campo, que devidem pelo nascente por muro de Antonio Joaq.m Flores, e Eufrazia Maria de Jezus, pelo puente* (*poente) por muro, e terras que forão de Pedro Dinamarquez, pelo sul devide por muro, e vallo do Campo da Cruz do Monge, e pelo norte devide com terras de Ritta Parreira, pelo Açude, e vallo acima e estas levarão quatro alqueires pouco mais, ou menos. / Caychoeira do Campo, 25 de Setembro de 1855 / José d’Araujo Britto”

As informações mostram que Pedro Claudio Dinamarquez possuiu terras em Cachoeira do Campo. Seria uma chácara e, também, onde ficava sua casa de morada? E por quê não? O homem misterioso necessitava de lugar protegido, para preservar dos olhares curiosos seus segredos e maquinações. Dá-se ideia da localização: nas cercanias do campo da Cruz do Monge, que é onde está, até hoje, a capela de São Sebastião da Cruz do Monge, no arrabalde da Vila Alegre. E vale mais uma pergunta: o proprietário do referido terreno, José d’Araujo Britto, seria parente de Claudina de Britto?

Post - Cachoeira do Campo ruaRua em frente à matriz de N. S. de Nazaré.

O charme do Chevalier

A fantasia de chevalier foi longe demais, divulgada principalmente pela imprensa europeia. Sem dúvida, dava mais charme tratá-lo dessa forma, mas encobria a origem brasileira da comenda. O fato é que o Cavaleiro da Lua foi agraciado, em 05.05.1844, pelo imperador d. Pedro II, com o título de Cavaleiro da Ordem de Cristo, como mostra a ilustração abaixo. José Carlos Pereira de Almeida Torres, assinou o documento, pela Secretaria de Estado e Negócios do Império(14).

Post - Claussen cavaleiroPedro Claussen, Cavaleiro da Ordem de Cristo, agraciado por d. Pedro II.

A vila fantasma

O hospital de “Stone House” foi adaptado, para dar lugar a um condomínio residencial. Aqui, pode ser feito um passeio pelas ruínas da vila fantasma.

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Texto e arte de Eduardo de Paula

Colaboração: Jean-Claude Clausen Lagrange / Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella.

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(1) “Guild” – Inúmeros profissionais, na Dinamarca, se organizavam criando associações denominadas “guilds”. Cada ocupação, tinha uma conotação com o “status” social do profissional e algumas atividades de comércio tinham mais prestigio que outras. O objetivo de cada uma dessas “guids” era cuidar do treinamento de aprendizes e, também, controlar a prática comercial nas várias localidades. Mas nem todos os comerciantes pertenciam às “guilds” e muitos conseguiam receber treinamento fora dessas associações. Usualmente eram estabelecidas em cada cidade.

(2) O batismo foi anotado em livro da igreja de Trinitatis, Copenhagen. − Fonte: Arquivo “Family Search” – Denmark, Church Records, 1484-1941, København, Sokkelund, Trinitatis (1793/1811) -, imagem 147. Arquivo disponibilizado por Jean-Claude Clausen Lagrange. / A igreja de Trinitatis está na área central de Copenhagen; é uma edificação do século XVII. Durante sua existência, sofreu um grande incêndio, em 1728, e foi reconstruída. Durante o bombardeio pelos ingleses, em 1807, foi novamente incendiada e, depois, outra vez recuperada.

(3) WARMING, Johannes Eugenius Bülow – (Mandø, *03.11.1841 / Copenhagen, †02.04.1924). Botânico, mais conhecido como Eugenius Warming, professor na Universidade de Copenhagen, foi diretor do Jardim Botânico dessa cidade. Viveu no Brasil entre 1863 e 1866, trabalhando como secretário particular de Peter Wilhelm Lund, em Lagoa Santa (MG).

(4) Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro − Pedro Clausen, sócio correspondente, naturalista, como consta na revista do referido instituto.

(5) “O Universal”, Ouro Preto, 31.01.1831

(6) “O Universal”, Ouro Preto, 28.04.1838.

(7) “Rio le 9 Mai 1842 / Messieurs les Professeurs Administrateurs du Muséum d’Histoire Naturelle à Paris / Messieurs, / Le retard du Navire l’Achille Cap. Semieux, me permet encore de vous prévenir que celui-ci n’a pas voulu se charger d’emporter à son bord les deux Chats-Tigres que j’avais déjà embarqués, comme il conste de la lettre ci-jointe de Monsieur le Consul de France dans cette Capitale. Les motifs allégués par le dit Capitaine pour un tel refus provient de ce que plusieurs passagers se sont permis de dire que ces Tigres étaient féroces (ce qui n’est point les cas), et qu’ils sont allés jusqu’au point de menacer de ne plus prendre passage à son bord dans le cas où l’on persisterait a y conserver plus longtemps ces animaux. Il a par conséquent fallu me soumettre à ce contretemps, mais par première bonne occasion ces animaux vous parviendront infailliblement et ainsi j’espère que ceci n’influera en rien sur l’acceptation de ma traite du 4 Mai de f 4000 que je recommande à votre protection. / Je suis, Messieurs, avec la plus haute estime. / Votre très humble et obéissant / Serviteur / P. Claussen”

(8) Em sua fazenda no Windsor Park, junto ao castelo de Windsor, o príncipe Albert cultivou várias espécies de linho. O castelo de Windsor, situa-se na cidade de mesmo nome, condado de Berkshire.

(9) “Manchester Examiner”, 02.05.1855, anúncio de venda de ações e outros papéis.

(10) A edificação do antigo estabelecimento militar data de 09.06.1875 e recebeu o nome de Quartel dos Dragões D’El Rey e contava com uma fazenda. Ao correr do tempo, teve várias serventias e abrigou, até recentemente, o Colégio Dom Bosco. Hoje funciona como Centro de Convenções Dom Bosco.

(11) Guerra dos Emboabas – Foi um conflito, ocorrido de 1707 a 1709, nas Minas Gerais, pelo direito de exploração das recém-descobertas jazidas de ouro. O embate deu-se entre os desbravadores paulistas e os forasteiros, que vieram depois da descoberta das minas. Os primeiros, porque haviam descoberto os tesouros, se julgavam no direito de explorá-los com exclusividade. Já o outro grupo, era heterogêneo, composto de portugueses e migrantes das demais partes do Brasil, sobretudo da costa leste nordestina, e tinha como líder Manuel Nunes Viana. Essa gente era denominada pelos paulistas como “emboabas”, pejorativamente. Nessa demanda, em novembro de 1708, Cachoeira do Campo foi palco de sangrenta batalha e os paulistas foram derrotados. Pouco tempo depois, Manuel Nunes Viana, aclamado por seus pares, montou um verdadeiro teatro e foi “eleito”, melhor dizendo, autodeclarou-se governador das Minas Gerais.

(12) Coudelaria − O nome vem de “coudel”, que é o mesmo que capitão de cavalaria; por sua vez, “capitão” vem de cabeça (do latim “caput”), porque é o chefe que pensa e comanda.

(13) Arquivo Público Mineiro – Nossa Senhora de Nazaré da Cachoeira do Campo, série registro de terras, notação TP-1-050, p. 37, doc. 488.

(14) Detalhes de documento fornecido pelo genealogista Hugo Forain Júnior. Fonte: Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. // A Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo foi, originalmente, uma ordem religiosa e militar, criada em 14.03.1319, pela bula papal Ad ea ex-quibus, de João XXII, que assim acedia ao pedidos do rei d. Dinis. Com essa denominação, tornou-se herdeira das propriedades e privilégios da Ordem do Templo, ou Ordem dos Templários. A cruz, seu símbolo característico, tremulou nas velas das caravelas portuguesas que exploravam os mares desconhecidos.

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