Sumidoiro's Blog

01/03/2014

O CAVALEIRO DA LUA (III)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:15 am

♦ Duas vidas aos tropeços

Nasceu em 1801, na Dinamarca, uma criança depois batizada como Peder Nicolaj. Sua mãe chamava-se Anna Catharina Fifcher e seu pai Peder Olivarius Claufen. A família Claufen participava de uma associação de comerciantes(1), de Copenhagen, e teve condições de oferecer a educação fundamental para que o garoto se transformasse em notável autodidata. Desde o momento em que o pequeno Peder veio ao mundo, agiram também as forças do destino para que fosse escrita uma intrincada, controvertida e polêmica história de vida.

Post - Bebê ClausenO bebê Peder Nicolaj, nascido em berço de ouro (cena imaginária).

As primeiras marcas do inusitado logo começaram a aparecer. O batizado ocorreu na casa dos pais, em 1801, mas o registro(2) foi anotado somente em 1802, dizendo que Peder Nicolaj era filho de Peder Olivarius Claufen e Anna Catharina Fifcher, exatamente assim. Ora, o sobrenome Claufen – muito comum na Dinamarca – quer dizer filho de Nicolaj (Clau é diminutivo de Nicolaj; fen é filho). Naquela época, escrevia-se o “j” por “i” e o “f” por “s”. Ao transcrever para outros idiomas, que não o dinamarquês, em lugar do “f”, escreveu-se duplo “s”. Na dança das letras foi que o Claufen virou Claussen e Peder virou Peter.

No inicio do século XIX, o personagem chegou ao Brasil, no Rio de Janeiro, em busca da fortuna. Apresentava-se como Peter Claussen e, de tanto lhe perguntarem “Peter, o quê?”, em certo momento, decidiu facilitar as coisas, mudando tudo radicalmente. Passou então a se identificar, eventualmente e segundo as conveniências, como Pedro Claudio Dinamarquez, embora não coubesse a tradução Claudio no lugar de Claussen, pois apenas soava semelhante.

Post - BatizadoBatismo de Peder, que virou Peter, que virou Pedro, que virou Chevalier…

A inspiração de Sumidoiro’s Blog, ao lhe dar mais um nome, ou melhor, o título de “Cavaleiro da Lua”, veio do seu final de vida internado num hospital de lunáticos, em Londres. Por estar imbuído de um projeto de vida de ambições desmedidas, acabou sendo levado a essa tragédia. Só muito recentemente é que tem sido possível recuperar a sua história, em parte divulgada nos dois Posts anteriores, desta sequência. Certamente, ainda deve existir mais coisas escondidas.

No Brasil, suas rotas de aventuras começaram pelo Rio de Janeiro, onde chegou como fugitivo da justiça, segundo palavras de Peter Lund a Eugen Warming(3), quando ambos trabalhavam em Lagoa Santa. Nos primeiros dias, conseguiu se empregar como soldado raso e, depois, trabalhou como vendedor ambulante. Durante a guerra do Brasil com a Argentina prestou serviços como espião. Suas ações prosseguiram, sobretudo, em Minas Gerais. Ali, fixou-se na região de Ouro Preto, exatamente na vila de Cachoeira do Campo, onde foi comerciante. Entre os anos de 1829-1830, ganhou um bom dinheiro com o comércio de escravos. Em 1831, fez no jornal “O Universal”, uma oferta de venda de tecidos em varejo e atacado, o que denota que possuía um negócio de expressivo vulto.

Post - Cachoeira do CampoCachoeira do Campo, com igreja matriz de N. S. de Nazaré, em imagem antiga.

Mais tarde, e por algum tempo, foi fazendeiro na região central do estado, onde adquiriu a fazenda denominada Porteirinhas, situada entre as vilas de Curvelo e Taboleiro Grande (hoje, Paraopeba). Nessa propriedade, criava gado, ao mesmo tempo em que tocava lavoura de mandioca e cana. Provavelmente, também produzia alguma aguardente. Entretanto, seu maior retorno financeiro vinha pela exploração das riquezas de grutas da região, que eram o salitre, vendido para fábricas de pólvora, e os fósseis, exportados para a Europa. A fazenda foi colocada à venda em 1835, Claussen estava com planos de alçar voos mais altos.

Post - Dois anúnciosJornal “O Universal”: Claussen vende fazendas para comprar fazenda e depois vende a Porteirinhas.

Desse modo, de tanto lidar com ossos, fingiu-se de arqueólogo, e, de tanto procurar minerais, fantasiou-se de geólogo. E se aventurava nas ciências naturais, de modo geral. A partir daí, devido à sua personalidade impetuosa e boa lábia de comerciante, conseguiu vender a imagem de cientista, chegando a ser sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro(4). Suas atividades comerciais sempre foram muito conflituosas, tanto na Europa quanto no Brasil, frequentemente gerando polêmicas, fracassos nos negócios e também embates na justiça. Aliás, é por demais sabido que as relações com seu conterrâneo, o famoso naturalista e paleontólogo Peter Lund, azedaram desde os primeiros momentos quando se conheceram.

Post - Volff & SchuchClaussen, negociante briguento, morador em Cachoeira do Campo: não tem parente no Brasil.

O homem era briguento. Claussen andava sempre metido em empreendimentos que envolviam altas somas de dinheiro e suas confusões, voluntárias ou involuntárias − não se sabe − acabavam nos jornais. Evidentemente, não há como julgar cada caso, nem dizer de que lado estava a razão, mas eram sinais que denotavam a personalidade alvoroçada do dinamarquês. Certa feita, um tal de Luiz Fernandes Volff, que se passava por seu primo, obrigou-o a fazer uma denúncia num jornal, pois andava por toda a província de Minas Gerais, fazendo dívidas em seu nome.

Um anúncio sobre esse conflito, mandado publicar(5) por Claussen, em janeiro de 1831, acrescentou um detalhe sobremaneira revelador, pois afirmava categoricamente que não tinha, até então, nenhum parente no Brasil. Em 1838, o acusador foi Roque Schuck, afirmando que Claussen não fora correto nos negócios entre os dois. Do mesmo modo, através da imprensa(6), Claussen contestou o oponente.

Post - TigresAssinatura de Peter Claussen e detalhe da carta sobre a venda dos tigres.

Claussen esteve na Europa em 1840 e, depois retornou com uma encomenda que gerou uma tremenda confusão. Eram duas onças, que pretendeu enviar ao Museu de História Natural de Paris, em 1842. Os passageiros do barco protestaram, quando souberam que poderiam ter as feras por companhia de viagem, redundando no cancelamento da remessa. Em correspondência(7) aos administradores do museu, em 09.05.1842, ele desculpou-se, dizendo:

“O atraso do navio Achille [do] Capitão Semieux, me permite ainda de avisá-los que o mesmo não quis se encarregar de levar a bordo os dois Gatos-Tigre* (*onças), que eu já havia embarcado […]. Os motivos alegados pelo dito Capitão, para esta recusa, advém do fato de que diversos passageiros alegaram que esses Tigres eram ferozes (o que não era o caso), e chegaram até a ameaçar de não mais comprar passagem a bordo, caso persistíssemos a conservar esses animais.” 

BRILHO EUROPEU

A grande jogada de Claussen foi quando decidiu retornar definitivamente à Europa, para vender uma série de invenções, a principal delas o “flax-cotton”, um linho trabalhado de maneira a assemelhar-se ao algodão. Dessa vez, se apresentou ao público e autoridades com o honroso título de cavaleiro (“chevalier”, em francês), que ganhara no Brasil. Virou então o homem de três nomes: Chevalier Claussen, Pedro Claudio Dinamarquez e Peter Claussen, podendo ser tratado de um desses modos, à escolha do freguês.

Aproveitou então a oportunidade para mostrar o produto têxtil na “Great Exibition”, uma feira que aconteceu em Londres, no “Crystal Palace”, durante o ano de 1851. Sua apresentação causou muita admiração entre pessoas do ramo e, também, ao príncipe Albert, marido da rainha Victoria, da Inglaterra.

Post - Crystal Palace pavilO público encantado com as novidades no “Crystal Palace”.

O jornal “The Examiner”, de 07.07.1851, publicou a notícia de uma visita real à feira, quando o príncipe manifestou sua admiração pelas novidades de Claussen. Uma opinião valiosa, porque ele tinha sólidos conhecimentos sobre o cultivo e a industrialização do linho(8). Um resumo do texto:

“Uma manhã luminosa e bonita marcou o início da segunda semana econômica (de ingresso barato) no Palácio de Cristal e, já uma hora antes do horário de abertura, os acessos […] tinham um aspecto de alegria e animação. Multidões foram caminhando em sua direção − alguns em veículos , outros a pé − e, como foram chegando em grupos, até lá pelas dez horas não havia multidões consideráveis à espera. Quando as portas foram abertas, o fluxo ocorreu de modo impetuoso e contínuo, de modo que, já na primeira hora, quinze mil pessoas tinham entrado no prédio. Lá pelas 14 horas, não menos que trinta e nove mil haviam sido contadas.

Post - Amostras

Amostras de linho e “flax-cotton” apresentadas no “Crystal Palace”.

Sua Majestade e o príncipe Albert, com a princesa Louisa, chegaram ao edifício cerca das nove e meia horas, adentrando às seções de alimentos, vegetais e produtos animais crus; e armas e acessórios, na parte de trás da galeria do lado sul. Foi esta a primeira ocasião em que a Rainha e o Príncipe visitaram o Palácio de Cristal (Crystal Palace), com o propósito específico de encontrar-se com os expositores. […] Por volta de trezentos estiveram presentes e os visitantes reais dedicaram um tempo considerável − cerca de uma hora − à inspeção de três seções que tiveram oportunidade de examinar. Entre os objetos, na galeria do Sul, que atraíram a atenção da comitiva real estava o estande do Chevalier Claussen, no qual são mostrados exemplares ilustrativos dos vários casos em que o linho, quando tratado pelo seu processo recentemente patenteado, pode ser aplicado.

O Principe Albert, que durante vários anos dedicou sua atenção ao cultivo e preparação do linho, evidenciou o mais profundo interesse pelo assunto. Ao manifestar o desejo de testemunhar o processo pelo qual a fibra poderia ser transformada em um material semelhante ao algodão, foi prontamente atendido por M. Claussen. Um punhado de linho, em estado bruto, de cor escura, foi colocado em um tubo de vidro, no qual havia uma solução fraca de carbonato de sódio e, tendo lá permanecido durante alguns segundos, foi transferido para outro recipiente contendo uma solução de cloreto de bário. Imediatamente, começou a expandir-se, crescendo todas as direções, como uma esponja, pela ação mecânica dos gases produzidos pela reação química das substâncias utilizadas.

Post - Prince AlbertPríncipe Albert e detalhe do jornal “The Examiner”.

O linho foi, assim, transformado em um material semelhante ao algodão. Sua Majestade e o Príncipe, manifestaram sua admiração pela simplicidade de todo o processo, passando a examinar os vários artigos apresentados pelo Chevalier Claussen, que tinham sido fabricados a partir da fibra tratada. Aí incluindo os fios formados somente de linho, ou misturado com algodão já fiado, tingidos de várias cores; chita, produzida a partir dos fios; e flanela, e pano, também feitos de uma mistura de linho e lã. E os fios, produzidos dentro desse processo, somente com linho, permitem ser industrializados na produção de tecidos.”

DEPOIS DA FEIRA

Parecia que tudo andaria às mil maravilhas, porque os inventos de Claussen, aparentemente, teriam grande aceitação e o dinheiro necessário não faltaria. Mas o sucesso na feira, não refletiu da maneira esperada nos ambiciosos empreendimentos, que já estavam em andamento. Houve um momento em que, à portas da falência, a saída encontrada foi a oferta de ações e outros papéis ao público, visando gerar recursos. O corretor londrino Matthew Plews foi encarregado da venda desses papéis na Inglaterra, Irlanda e Bélgica, que somavam vultosa importância(9). Mas, de repente, houve um contratempo e Claussen se acidentou, sofrendo uma queimadura nos pés, que o obrigou a procurar socorro em um hospital. Precipitaram os acontecimentos um pontapé que desferiu num enfermeiro e, desse ponto em diante (leia o Post “O cavaleiro da Lua – II”), a roda da fortuna começou a girar ao contrário e o acidentado logo foi transferido para um asilo de lunáticos, e depois outro, até o fim de tudo.

Post - AçõesClaussen vende papéis para fazer dinheiro.

Sua mulher, Claudina de Britto Claussen, que havia retornado ao Brasil, doente e em busca de auxílio pelo marido, manifestou-se inconformada com os acontecimentos que presenciara, desde a internação no primeiro hospital (leia o Post “O cavaleiro da lua – II”) . Para ela, não haveria maiores justificativas que recomendassem a transferência para um hospital de alienados mentais. É de se dar crédito às suas palavras, porque hoje se sabe que foram cometidas muitas imprudências nesses antigos hospitais. E, para o historiador fica a dúvida: Claussen estava realmente louco, ou fizeram-no louco? E por quê?

A morte, como indigente, fez com que fosse sepultado no cemitério do “Stone House Hospital”, em lugar ainda não identificado. Ali, no meio de alguns túmulos decrépitos, o cavaleiro descansa junto a um punhado de companheiros de infortúnio. O hospital, hoje transformado em condomínio residencial, pode ser visualizado pelo “Google Maps”, colando na janela de busca a referência numérica em negrito: 51.445076, 0.245164. O cemitério pode ser visualizado ao norte, escondido sob um arvoredo, em 51.447218, 0.241845.

Post - Stone House antigoComplexo de “Stone House”, onde Claussen faleceu. 

DÚVIDAS E REVELAÇÕES

Ao fazer o pedido de naturalização brasileira, em 09.04.1834, Claussen vivia com Claudina na fazenda Porteirinhas, e o fez na câmara municipal de Curvelo, mencionando que era casado. Evidentemente, já estaria ali havia algum tempo pois, naquele mesmo ano, o paleontologista Peter Lund lhe fizera uma visita, quando Claussen lhe passou muita informação sobre a região. Qual seria a idade do casal nessa época?

Quanto ao alegado casamento, é preciso considerar algumas questões. Nos grandes municípios, o registro civil teve seu início por volta do ano de 1875 e, até então, quem cuidava disso era a igreja, que criava obstáculos ao matrimônio entre pessoas católicas e acatólicas. É o que levou o dinamarquês a declarar e assinar, naquela oportunidade, que “professava a religião Catholica Romana”. Mas, pergunta-se, haveria sinceridade nas suas palavras? Fatos futuros viriam contradizê-lo.

Outro ponto a ser esclarecido é a idade verdadeira de Claudina. Pelo obituário publicado na imprensa, sabemos que faleceu em junho de 1863, no Rio de Janeiro, dizendo que estaria com quarenta anos de idade (veja “O cavaleiro da lua – II”). Idade de mulher quase sempre é um enigma; teria ela realmente quantos anos? Há contradição com um documento oficial do censo inglês, que anotou contar quarenta e três anos, em 1861. O levantamento foi realizado em 07.04.1861, por domicílio, verificando cada pessoa residente.

Os dados de Claudina foram os seguintes: “Westminster (bairro onde residia) […] De Britto de Claussen (sobrenome) / Head (cabeça do casal) / Mar (Married = casada) / 43 (idade) / Brezil (Brasil). O marido, naquela data, estava internado no hospício e Claudina se apresentava como cabeça do casal.

Post - De Brito De ClaussenAnotação no censo, 1861: – Westminster / De Britto de Claussen / Head / Mar / 43 / Brezil – .

Continuando: 1861 menos 43 é igual 1818, que seria o ano do seu nascimento. Talvez esta contagem seja mais confiável, mas vamos deixar nossa querida biografada em paz e ainda lhe pedimos desculpas pela indiscrição.

Também pergunta-se: por quê Claudina morreu sozinha (veja “O cavaleiro da lua – II”), ao desamparo dos familiares brasileiros? E vejam que tinha família em condições de socorrê-la! Certa feita, quando se preparava para viajar, do Rio de Janeiro com destino à Europa, solicitou às autoridades brasileiras permissão para embarcar. No despacho da repartição de polícia, datado de 17.06.1840, foi dada a autorização tratando-a como casada mas, no documento de identidade, constava o nome que sempre assinara como solteira. Seu prenome composto, sonoro e delicado, carregava um sobrenome poderoso, ela era Claudina Candida de Britto Ribeiro de Andrade! Denota que não seria uma pobretona e pertenceria a família possuidora de alguma fortuna.

Embora não se tenha um registro de nascimento, a sequência de fatos, datas e sua respeitável assinatura são suficientes evidências para dizer que Claudina é natural da região de Cachoeira do Campo. Com mais certeza, pode-se deduzir que passou sua infância nessa vila.

Post - Saidas do portoDois recortes do “Diario do Rio de Janeiro”: 19.06.1840 e 13.07.1840.

Já se sabe que Peter nasceu em 1801, portanto era dezessete anos mais velho que Claudina. Prosseguindo nessa linha de raciocínio, descobre-se que, de fato, ele vivia com uma adolescente na fazenda Porteirinhas. Para se ter uma ideia, em 1833, ele tinha trinta e dois anos de idade e ela quinze anos (!). E tem mais, como haviam se “casado” em Cachoeira do Campo, algum tempo antes − tudo fala nesse sentido −, entende-se que o dinamarquês madurão enfeitiçou a menininha e retirou-a de casa abruptamente, talvez contra a vontade dos pais. Embora as uniões dessa natureza, com mulheres tão jovens, fossem corriqueiras na época, o fato é que o noivo era um estrangeiro misterioso e com uma vida pregressa já um tanto complicada.

Diante disso, teria a família rompido com Claudina? E mais outra suspeita: se foi identificada na imigração com o nome de solteira, estaria formalmente casada? Serviriam estas constatações para explicar o seu fim de vida ao abandono, tuberculosa, internada no Hospital da Gamboa? Há muito ainda a esclarecer mas, ao final das contas, o que vale é que era apaixonada pelo marido.

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Post - Porteirinha riachoPorteirinhas: paisagem com riacho (por Peter Brandt).

Retorno a Porteirinhas

História e geografia caminham juntas. A fazenda de Claussen ainda existe, certamente em menor extensão, mas com o mesmo nome, sendo que o local exato pode ser visualizado pelo “Google Maps”, onde ainda pode-se ver o Riacho Fundo, que corre em direção a Curvelo. Para tanto, basta copiar e colar, na janela de busca, a seguinte referência numérica: -18.913500, -44.452897, apenas a parte anotada em negrito. Naquele ponto, há uma pista de pouso com as seguintes coordenadas: 18º 55′ 02″ S / 44º 27′ 16″ W.

Porteirinhas abrangia vasta extensão de terra, como revela o anúncio de venda publicado no “O Universal”, em 1835, e sua área seria “para cima de quatro legoas”. A medida, também denominada légua em quadra ou légua de sesmaria, correspondia a um quadrado de 6 km de lado. Para efeito de comparação, a área total seria maior do que a soma de quatro quadrados com essa dimensão. Portanto, terra que não acabava mais! No mesmo anúncio se dizia estar distante “3 legoas do Curvello”, dado que confere com a anotação apontada pelo “Google Maps”.

Post - Antigo quartelQuartel dos Dragões D’El Rey, que abrigou os militares originários do Regimento Regular de Cavalaria.

Retorno a Cachoeira do Campo

Post - Placa quartel

Placa da fundação do quartel de Cachoeira do Campo.

Cachoeira do Campo é distrito de Ouro Preto, Minas Gerais. Situa-se a 18 km da sede do município e a 72 km de Belo Horizonte. O primeiro nome do lugar foi “Cachoeyra”, assim chamado pela gente da bandeira de Fernão Dias, devido a existência de uma cascata de águas cristalinas, no riacho Maracujá. O primeiro morador foi um aventureiro, chamado Manoel de Mello, ali chegado em 1680. O impulso inicial para o desenvolvimento do povoado se deu no ano de 1700, quando faltaram alimentos em Ouro Preto. Em consequência, inúmeras pessoas procuraram aquelas terras para plantar.

Cachoeira do Campo foi também palco de acontecimentos marcantes na história de Minas Gerais. Uma delas durante a Guerra dos Emboabas, entre 1708 e 1709, cuja motivação foi uma disputa pelo controle das minas de ouro. Naquele conturbado momento, foi sagrado pelo clamor popular, na matriz de Nossa Senhora de Nazaré, o primeiro governador “eleito” da história das Américas, Manuel Nunes Viana, o líder os emboabas(11). Como desdobramento desse conflito, a coroa portuguesa determinou a criação da Província de São Paulo e Minas de Ouro (1709). O capitão Antônio de Albuquerque foi, então, nomeado seu governador, tendo como capital Mariana.

Em 1720, Felipe dos Santos foi um dos líderes da denominada Sedição de Vila Rica, contra a instalação das casas de fundição e a cobrança do quinto do ouro. Um episódio notável dessa revolta ocorreu em Cachoeira do Campo, com a prisão de Felipe enquanto pregava a revolta na praça da matriz. Logo depois, esse precursor da Inconfidência Mineira foi julgado, condenado à morte e enforcado, em Ouro Preto, no dia 15 de julho.

Post - Col Dom BoscoColégio Dom Bosco, antigo quartel e coudelaria; e o riacho Maracujá.

Em 1772, o general d. Antônio de Noronha, capitão-geral da Capitania das Minas Gerais mandou construir, em Cachoeira do Campo, um quartel para abrigar o Regimento Regular de Cavalaria, que acabara de ser criado e de cujo efetivo participou o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. O agrupamento foi a célula mater da Polícia Militar de Minas Gerais(10). No ano de 1816, decidiu-se adaptar a edificação para ali instalar a coudelaria(12) imperial e que foi inaugurada em 29.07.1819. Aquele foi o maior centro de criação de cavalos de raça da província, laboratório para a gênese de algumas das raças equinas mais famosas do Brasil.

Na primeira metade do século XVIII, com influência e muito dinheiro, uma poderosa aristocracia dominava Cachoeira do Campo, de tal modo que construíram inúmeros prédios que, para os padrões da época, eram considerados suntuosos. A pompa e o luxo, então, tomaram conta do lugar, nessa mesma época em que ali viveram Claudina e Peter.

Post - Terra CachoeiraEm Cachoeira do Campo, José d’Araujo Britto teve Peter Claussen como vizinho.

Em um livro de registro de terras(13), encontra-se uma anotação reveladora, lavrada pelo vigário Joaquim José de Sanct’Anna, que diz:

“O abaixo assignado possue uma porção de terras denominadas – ? – nesta Freguezia da Cayxoeira do Campo, que devidem pelo nascente por muro de Antonio Joaq.m Flores, e Eufrazia Maria de Jezus, pelo puente* (*poente) por muro, e terras que forão de Pedro Dinamarquez, pelo sul devide por muro, e vallo do Campo da Cruz do Monge, e pelo norte devide com terras de Ritta Parreira, pelo Açude, e vallo acima e estas levarão quatro alqueires pouco mais, ou menos. / Caychoeira do Campo, 25 de Setembro de 1855 / José d’Araujo Britto”

As informações mostram que Pedro Claudio Dinamarquez possuiu terras em Cachoeira do Campo. Seria uma chácara e, também, onde ficava sua casa de morada? E por quê não? O homem misterioso necessitava de lugar protegido, para preservar dos olhares curiosos seus segredos e maquinações. Dá-se ideia da localização: nas cercanias do campo da Cruz do Monge, que é onde está, até hoje, a capela de São Sebastião da Cruz do Monge, no arrabalde da Vila Alegre. E vale mais uma pergunta: o proprietário do referido terreno, José d’Araujo Britto, seria parente de Claudina de Britto?

Post - Cachoeira do Campo ruaRua em frente à matriz de N. S. de Nazaré.

O charme do Chevalier

A fantasia de chevalier foi longe demais, divulgada principalmente pela imprensa europeia. Sem dúvida, dava mais charme tratá-lo dessa forma, mas encobria a origem brasileira da comenda. O fato é que o Cavaleiro da Lua foi agraciado, em 05.05.1844, pelo imperador d. Pedro II, com o título de Cavaleiro da Ordem de Cristo, como mostra a ilustração abaixo. José Carlos Pereira de Almeida Torres, assinou o documento, pela Secretaria de Estado e Negócios do Império(14).

Post - Claussen cavaleiroPedro Claussen, Cavaleiro da Ordem de Cristo, agraciado por d. Pedro II.

A vila fantasma

O hospital de “Stone House” foi adaptado, para dar lugar a um condomínio residencial. Aqui, pode ser feito um passeio pelas ruínas da vila fantasma.

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Texto e arte de Eduardo de Paula

Colaboração: Jean-Claude Clausen Lagrange / Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella.

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(1) “Guild” – Inúmeros profissionais, na Dinamarca, se organizavam criando associações denominadas “guilds”. Cada ocupação, tinha uma conotação com o “status” social do profissional e algumas atividades de comércio tinham mais prestigio que outras. O objetivo de cada uma dessas “guids” era cuidar do treinamento de aprendizes e, também, controlar a prática comercial nas várias localidades. Mas nem todos os comerciantes pertenciam às “guilds” e muitos conseguiam receber treinamento fora dessas associações. Usualmente eram estabelecidas em cada cidade.

(2) O batismo foi anotado em livro da igreja de Trinitatis, Copenhagen. − Fonte: Arquivo “Family Search” – Denmark, Church Records, 1484-1941, København, Sokkelund, Trinitatis (1793/1811) -, imagem 147. Arquivo disponibilizado por Jean-Claude Clausen Lagrange. / A igreja de Trinitatis está na área central de Copenhagen; é uma edificação do século XVII. Durante sua existência, sofreu um grande incêndio, em 1728, e foi reconstruída. Durante o bombardeio pelos ingleses, em 1807, foi novamente incendiada e, depois, outra vez recuperada.

(3) WARMING, Johannes Eugenius Bülow – (Mandø, *03.11.1841 / Copenhagen, †02.04.1924). Botânico, mais conhecido como Eugenius Warming, professor na Universidade de Copenhagen, foi diretor do Jardim Botânico dessa cidade. Viveu no Brasil entre 1863 e 1866, trabalhando como secretário particular de Peter Wilhelm Lund, em Lagoa Santa (MG).

(4) Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro − Pedro Clausen, sócio correspondente, naturalista, como consta na revista do referido instituto.

(5) “O Universal”, Ouro Preto, 31.01.1831

(6) “O Universal”, Ouro Preto, 28.04.1838.

(7) “Rio le 9 Mai 1842 / Messieurs les Professeurs Administrateurs du Muséum d’Histoire Naturelle à Paris / Messieurs, / Le retard du Navire l’Achille Cap. Semieux, me permet encore de vous prévenir que celui-ci n’a pas voulu se charger d’emporter à son bord les deux Chats-Tigres que j’avais déjà embarqués, comme il conste de la lettre ci-jointe de Monsieur le Consul de France dans cette Capitale. Les motifs allégués par le dit Capitaine pour un tel refus provient de ce que plusieurs passagers se sont permis de dire que ces Tigres étaient féroces (ce qui n’est point les cas), et qu’ils sont allés jusqu’au point de menacer de ne plus prendre passage à son bord dans le cas où l’on persisterait a y conserver plus longtemps ces animaux. Il a par conséquent fallu me soumettre à ce contretemps, mais par première bonne occasion ces animaux vous parviendront infailliblement et ainsi j’espère que ceci n’influera en rien sur l’acceptation de ma traite du 4 Mai de f 4000 que je recommande à votre protection. / Je suis, Messieurs, avec la plus haute estime. / Votre très humble et obéissant / Serviteur / P. Claussen”

(8) Em sua fazenda no Windsor Park, junto ao castelo de Windsor, o príncipe Albert cultivou várias espécies de linho. O castelo de Windsor, situa-se na cidade de mesmo nome, condado de Berkshire.

(9) “Manchester Examiner”, 02.05.1855, anúncio de venda de ações e outros papéis.

(10) A edificação do antigo estabelecimento militar data de 09.06.1875 e recebeu o nome de Quartel dos Dragões D’El Rey e contava com uma fazenda. Ao correr do tempo, teve várias serventias e abrigou, até recentemente, o Colégio Dom Bosco. Hoje funciona como Centro de Convenções Dom Bosco.

(11) Guerra dos Emboabas – Foi um conflito, ocorrido de 1707 a 1709, nas Minas Gerais, pelo direito de exploração das recém-descobertas jazidas de ouro. O embate deu-se entre os desbravadores paulistas e os forasteiros, que vieram depois da descoberta das minas. Os primeiros, porque haviam descoberto os tesouros, se julgavam no direito de explorá-los com exclusividade. Já o outro grupo, era heterogêneo, composto de portugueses e migrantes das demais partes do Brasil, sobretudo da costa leste nordestina, e tinha como líder Manuel Nunes Viana. Essa gente era denominada pelos paulistas como “emboabas”, pejorativamente. Nessa demanda, em novembro de 1708, Cachoeira do Campo foi palco de sangrenta batalha e os paulistas foram derrotados. Pouco tempo depois, Manuel Nunes Viana, aclamado por seus pares, montou um verdadeiro teatro e foi “eleito”, melhor dizendo, autodeclarou-se governador das Minas Gerais.

(12) Coudelaria − O nome vem de “coudel”, que é o mesmo que capitão de cavalaria; por sua vez, “capitão” vem de cabeça (do latim “caput”), porque é o chefe que pensa e comanda.

(13) Arquivo Público Mineiro – Nossa Senhora de Nazaré da Cachoeira do Campo, série registro de terras, notação TP-1-050, p. 37, doc. 488.

(14) Detalhes de documento fornecido pelo genealogista Hugo Forain Júnior. Fonte: Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. // A Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo foi, originalmente, uma ordem religiosa e militar, criada em 14.03.1319, pela bula papal Ad ea ex-quibus, de João XXII, que assim acedia ao pedidos do rei d. Dinis. Com essa denominação, tornou-se herdeira das propriedades e privilégios da Ordem do Templo, ou Ordem dos Templários. A cruz, seu símbolo característico, tremulou nas velas das caravelas portuguesas que exploravam os mares desconhecidos.

01/02/2014

O CAVALEIRO DA LUA (II)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:39 am

♦ Um grito de socorro

No início da década de 1860, um homem maduro e bem apessoado foi recolhido a um asilo de loucos, na periferia de Londres. O doente costumava sentar-se cabisbaixo, quase mudo e apático, durante dias ou semanas, em um canto do seu quarto solitário. Com frequência, tinha explosões de excitação repetindo frases incoerentes, nas quais pronunciava com clareza apenas a palavra “flax-cotton”. Chevalier Claussen, assim chamavam o infeliz.

Post - Claussen & Stone HouseO sofrimento do Cavaleiro da Lua (montagem sobre foto recente de “Stone House”).

Era dinamarquês e batizado como Peter Nicolas, em 1801, filho de Peter Olivarius Clausen mas, depois, acrescentou um “s” ao sobrenome, para soar como duplo “s”, como se fala em dinamarquês. É voz corrente que Peter Nicolas Claussen veio para a América do Sul fugindo da justiça e em busca de fortuna, mas é certo que esteve primeiramente pelo Brasil, quanto contava pouco menos de vinte anos de idade. Em seguida, visitou o Uruguai e Argentina em breve temporada, retornando ao Brasil, onde construiu a maior parte de sua história de vida, a qual pode ser melhor conhecida no Post anterior, “O cavaleiro da lua (I)”.

Post - Tear ClaussenDurante algum tempo, viveu em Curvelo (MG), onde foi fazendeiro e, dizendo-se casado com uma brasileira, pediu e obteve a naturalização brasileira. Nesse ato, fez um requerimento assinando como “Pedro Claudio Dinamarquez”. Sua mulher chamava-se Claudina Cândida de Britto Claussen, mas não se tem nenhuma informação sobre o lugar onde nascera e nem quem seriam seus pais.

← Tear manual circular de Claussen.

Tendo feito várias invenções, a mais importante o produto têxtil que denominou “flax-cotton”, Claussen decidiu retornar à Europa, no final da década de 1840 e, no ano de 1851, deslocou-se para a Dinamarca, Inglaterra e França, onde apresentou a novidade mas, pelo seu invento, obteve apenas honrarias e nenhum apoio de ordem prática. Entre outras coisas, alguns biógrafos disseram que naquela estada europeia teria se casado, pela segunda vez, com uma jovem francesa. Entretanto, trata-se de uma enorme falsidade, como revelam os documentos agora encontrados. Pois que sirva esta revelação como mais um alerta, para mostrar que existem “fábricas de história”!

O personagem, que já demonstrara ser um colecionador de insucessos, vislumbrara oportunidades na Feira Internacional de Londres, em 1851, que aconteceria no Hyde Park. Lá apresentou o “flax-cotton”, com todo estardalhaço possível e, realmente, a invenção repercutiu pelo mundo. Entretanto, o processo mostrou-se defeituoso, porque Claussen era de fato um pseudo-inventor, especialista em reciclar ideias alheias e, na sua impetuosidade, sempre queria resultados imediatos que nunca chegavam a bom termo. No caso do “flax-cotton”, se tivesse sido capaz de vender esse linho fantasiado de algodão, teria virado na verdade um gênio do “marketing”.

Post - Correio MercantilCarta de Claudina de Britto Claussen, no Correio Mercantil (detalhe).

Chegou ao ponto que, ao que parece, o próprio Claussen sentira a aproximação da hora da verdade e passou a ter crises de mau-humor, com suas naturais consequências. Numa delas, se acidentou e procurou atendimento médico. A partir daí, quem escreveu a história foi sua mulher, Claudina Cândida de Britto Claussen que, retornando ao Brasil, com saúde precária, pediu auxílio pelo marido. Seu grito de socorro foi publicado em correspondência ao “Correio Mercantil”, do Rio de Janeiro, de 03.04.1863, e revela os momentos finais do Cavaleiro da Lua, o inventor que foi internado em um hospital de lunáticos londrino.

O grito de Claudina:

SOCORRO!

“Senhor redator — Li, nas colunas do seu jornal, de 27 de março próximo passado (ano de 1863), um trecho tendente* (*referente) à descoberta do cavaleiro Pedro Claussen, sobre o linho e todas as outras plantas fibrosas, transformadas por processos químicos ao estado de poderem ser misturadas com lã, seda e algodão; e fiadas nas máquinas de fiar algodão. Em resposta ao seu artigo supracitado, cabe-me dizer que estas descobertas se realizaram perante a Sociedade Real de Agricultura de Londres e muitas outras; e no Grande Júri da Grande Exposição de Londres, em 1851, que as aprovou plenamente, obtendo ele, da Grã-Bretanha, com a proteção* (*endosso) do parlamento, a patente inglesa, assim como em todos os outros países da Europa e da América.

Formaram-se companhias em Paris, por meio das quais se verificou a realidade e excelência desta descoberta, fabricando-se, com essas matérias primas, combinadas em várias proporções, tecidos de todas as castas, que granjearam as pessoas que se dedicaram a essas manufaturas um produto real.

Post - Hosp S Bartolomew“Saint Bartholomew’s Hospital”, conhecido também como “Barts”.

Infelizmente, porém, como costuma acontecer em quase todas as descobertas grandiosas, o seu autor, meu marido Pedro Claussen, por circunstâncias muito complicadas e impossíveis de serem aqui explicadas, se achou na posição de ser obrigado, por uma queimadura que teve no pé, a entrar no hospital S. Bartolomeu, em Londres. Sendo meu marido de um caráter arrebatado, a violência de suas dores o fez sair, por um instante, fora de si, dando com o pé uma pancada no enfermeiro que o curava. Nesse momento, usou-se para com ele de todos os meios, os mais cruéis, metendo-se-o em uma camisa de força, estado em que o conservaram por mais de dois meses. Em todo esse tempo, era acometido de grandes acessos de febres, durante os quais variava.

No fim desse tempo, foi transportado para a casa de saúde dos alienados ‘Cambre Viel House’ (Camberwell House), dirigida pelo Dr. Paulo (John Hayball Paul), nos arredores de Londres. Lá, achando-se rodeado de alienados de todos os gêneros, suas faculdades mentais subiram* (*sofreram) uma pequena alteração, que a liberdade e o gozo* (*prazer) de reunir-se à sua família, entregue aos seus exercícios habituais, que formavam todo o alimento e encanto de sua vida, faziam desaparecer incontinente. Máxime* (*principalmente) regressando ao seu país adotivo, onde passou toda a sua mocidade e poderia, então, prestar grandes serviços, continuando em sua carreira de descobertas, em que ele fazia consistir toda a poesia e a felicidade desta vida.

Post - Camberwell & dr Paul“Camberwell House Asylum”, hospital de doentes mentais e dr. John Hayball Paul.

Eu, sua mulher, tenho feito todos os esforços possíveis para melhorar sua posição* (*situação), até que uma grave moléstia pôs-me na impossibilidade de dar passadas para o complemento do meu projeto, mas tenho em meu poder documentos preciosos e algumas amostras de matéria prima, assim como de alguns tecidos.

À vista destas declarações e do estado em que me acho, sujeita a findar meus dias antes de completar minha missão, aproveito o ensejo do momento das suas publicações, para fazer subir ao governo de meu país estas minhas revelações sinceras desse estado de coisas, a respeito das citadas descobertas, que têm marcado uma época célebre no progresso das ciências do século, produzindo reformas tão grandiosas e rendosas, em um ramo tão importante das indústrias nacionais, como os tecidos, e bem assim de seu inventor, cuja reclamação para seu país adotivo, além de ser um ato louvável de humanidade, seria uma fonte de prosperidade e utilidade, para um país como este, em que abundam tantos produtos vegetais, de que se pode fazer fontes de riqueza e renda nacional, pela exportação para os países da Europa que os não possuem.

Post - Hospital da GamboaHospital de Nossa Senhora da Saúde (Gamboa).

Aproveito pois o ensejo, como digo, para erguer minhas vozes no leito da enfermidade e mesmo – quem sabe? –, já junto à morte, para fazer chegar ao conhecimento dos sábios administradores do estado que o cavaleiro Pedro Claussen, que tem feito a admiração e entusiasmo dos sábios do século; e que por seus inventos ficou senhor de milhões, se acha hoje esquecido do mundo, recolhido como alienado em ‘Comber Viel House’ (Camberwell House), em Londres. E, de onde retirá-lo, só caberá ao governo brasileiro a glória, que até aqui pode ter, ainda mesmo por intermédio de recursos a outras nações.

Sua esposa, que se acha hoje enferma na casa de Saúde do morro da Saúde.

Claudina de Brito Claussen”

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Post - RetratosDois retratos e uma carta

O desapreço pela arte e patrimônio cultural é tradição brasileira. Não fora isso, os rostos de Claudina e Peter talvez pudessem ser hoje conhecidos, através de dois retratos. O “marchand” Ruqué, do Rio de Janeiro, anunciou (imagem ao lado), no “Correio Mercantil” (23.04.1863), a venda dessas pinturas, exatamente nos dias em que Claudina esteve internada em tratamento de saúde. Fica evidente que, ao dispor de bens de alto valor sentimental, a infeliz senhora revelava a dificuldade financeira pela qual estaria passando.

Sua correspondência denota fluência verbal e vocabulário bastante satisfatório, considerando o nível geral de instrução das mulheres da época. Entretanto, apesar do seu perfil de pessoa aparentemente preparada e desenvolta, isto não bastaria para vencer as dificuldades de viver sozinha num pais estrangeiro. Deve ter passado maus momentos na Inglaterra, doente e distanciada do marido durante seu recolhimento em Camberwell.

Post - Hospital & obituárioEntrada antiga do Hospital de Nossa Senhora da Saúde. / Obituário, “Correio Mercantil”.

O fim de cada um

No Rio de Janeiro, Claudina esteve internada no antigo Hospital de Nossa Senhora da Saúde, onde normalmente eram acolhidos indigentes e ao qual se referiu como “casa de Saúde do morro da Saúde”. Esse estabelecimento, também conhecido como Hospital da Gamboa, foi edificado numa elevação, próxima à praia de mesmo nome, na região portuária, o morro da Gamboa e não morro da Saúde, como ela se referiu. Ela faleceu vitimada por tuberculose pulmonar, três mêses após a divulgação do apelo em prol do marido e foi sepultada em 26 de junho de 1863. Completara quarenta anos de idade, portanto nascera em 1823. O “Correio Mercantil”, de 28.06.1863, publicou o obituário.

Post - Hospital de indigentesO hospital para indigentes, Nossa Senhora da Saúde ou Gamboa, em duas publicações do sec. XIX.

A história de Claussen ainda não foi completamente revelada. Em 30.12.2013, o pesquisador Jean-Claude Clausen Lagrange divulgou importante informação: “Possuo o registro de sua morte em 1872. Dois obituários do mesmo ano, em jornais ingleses, confirmam que e o Chevalier Claussen faleceu com setenta e dois anos de idade. A ficha médica não traz data de nascimento completa, apenas o ano. De outros internos do hospital existe data de nascimento, por inteiro. A data anotada foi transferida do hospital que, pela primeira vez, cuidou de Claussen e transferida para os arquivos dos manicômios de Camberwell e Stone House.”

Post - Stone HouseComplexo de “Stone House”.

A última morada

Depois de algum tempo, Claussen foi transferido de Camberwell para outro nosocômio, conhecido como “The City of London Lunatic Asylum”. Este foi inaugurado, em 1862, para abrigar duzentos e vinte pacientes pobres. Em 1924, trocaram seu nome para “City of London Mental Hospital” e, em 1948, para “Stone House Hospital”. Atualmente, a sólida edificação é uma ruína razoavelmente bem preservada e, em dezembro de 2013, foi anunciada a intenção de transformá-la em um condomínio particular, com duzentas e cinquenta e cinco unidades residenciais.

post-placa-stone-housePlaca alusiva à fundação do “City of London Mental Hospital”.

O asilo funcionava sob a forma de comunidade autônoma e seguia modelo típico do século XIX, contando com uma pequena fazenda, uma capela, uma ala para doenças infecciosas e um cemitério. O conjunto de edifícios está localizado em Dartford, a 25 km de Londres, que é a mais importante cidade do condado de Kent. Bem próximo, ainda existe o cemitério, denominado “Bow Arrow Lane Cemetery”, onde enterravam os pacientes falecidos. O campo-santo está ao abandono e tudo que resta são algumas decrépitas sepulturas, tomadas pelo mato. Ali está sepultado Peter Claussen, desde 1872, mas sem identificação do túmulo. Sua história de solidão começara ainda em vida, pois Claudina havia falecido nove anos antes, pouco tempo depois de sua internação em Camberwell.

Se, algum dia, descobrirem sua sepultura, não se esqueçam que o Cavaleiro da Lua era naturalizado brasileiro. E, se lhe presentearem com uma lápide, por favor, acrescentem estas palavras: “Aqui jaz o curvelano Pedro Cláudio Dinamarquês”.

• Clique com o botão direito e veja todos, “O cavaleiro da lua” I  | III 

Texto e arte de Eduardo de Paula

O CAVALEIRO DA LUA (I)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:38 am

♦ Ou Pedro, que virou curvelano. 

No início da década de 1860, um homem maduro e bem apessoado foi recolhido a um asilo de loucos, em Camberwell(1), na periferia de Londres. O doente costumava sentar-se cabisbaixo, durante dias ou semanas, quase mudo e apático, em um canto do seu quarto solitário. De vez em quando, tinha explosões de excitação repetindo frases incoerentes, nas quais pronunciava com clareza apenas a palavra “flax-cotton”. Cavaleiro Claussen, assim chamavam o infeliz.

Post - Cavaleiro Claussen“Flax-cotton! Flax-cotton!”

Era natural da Dinamarca e batizado como Peter Nicolas, em 1801, filho de Peter Olivarius Clausen(2). É  voz corrente que veio para a América do Sul fugindo da justiça e em busca de fortuna, mas é certo que chegou primeiramente ao Brasil, quanto contava pouco menos de vinte anos de idade. Fisicamente, foi descrito(3) em um livro de registro de estrangeiros, do Rio de Janeiro, como sendo de constituição normal, com rosto redondo, olhos azuis, cabelos louros e barba. Foi soldado, vendedor ambulante e espião na época da guerra entre Brasil e Argentina. Embora não tivesse formação apropriada, também se envolveu com a investigação científica e esta foi a atividade mais marcante de sua vida.

Logo adaptou seu sobrenome para soar como duplo “s”, como se fala em dinamarquês: Claussen. Na década de 1820, Peter Nicolas Claussen acompanhara o botânico e naturalista alemão Friedrich Sellow(4), em uma expedição ao Uruguai, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Naquela oportunidade, fez sua iniciação em ciências naturais. Algum tempo depois, decidiu trabalhar por conta própria e foi viver em Cachoeira do Campo, nas proximidades de Ouro Preto (MG). Mudou-se de novo, quando adquiriu a fazenda Porteirinhas, no município de Curvelo (MG), onde plantou lavoura de mandioca e cana. Ao mesmo tempo, explorava salitre e recolhia fósseis nas inúmeras grutas da região, que vendia para colecionadores na Europa. Foi, sem dúvida, um mercenário e aventureiro, como demonstrou no decorrer da vida.

Post - F PorteirinhaFazenda Porteirinhas, de Claussen (desenho de Peter Brandt).

Mais tarde, passou a assinar Pedro Claudio Dinamarquez e se casou com Claudina Candida de Britto(5), reivindicando a naturalidade brasileira. Para tanto, entrou com um pedido à câmara municipal de Curvelo, no dia 09.04.1834, nos seguintes termos:

“Termo de declaraçam feita pelo extrangeiro Pedro Claudio Dinamarquez, na forma da Ley da Naturalizaçam. // Aos nove dias do mez de Abril de mil oitocentos e trinta e quatro, […] na sala das Seções da Camara Municipal desta Villa do Curvello, […] compareceu Pedro Claudio, natural do Reino de Dinamarca, requerendo ser admittido à fazer a declaraçam determinada na ley […] ao que foi admittido pela Camara sem mais formalidade em razão de ser cazado com Brasileira; […] declarou que professava a religião Catholica Romana, que sua Patria é o reino da Dinamarca, é o mesmo oriundo de Copenhagen, […] e que pretende fixar seu domicilio no Brasil, cuja declaraçam fazia a fim de dar principio a sua naturalizaçam, por quanto sendo cazado com Brasileira a Ley lhe facilitava os meios. Para constar mandou o Presidente da Camara lavrar este termo, […] eu Manoel Pereira da Silveira, Secretario da Camara, o escrevi. (a) João Marcianno de Lima, Presidente. (a) Pedro Claudio Dinamarquez.” (6)

Post - P DinamarquezRequerimento de Pedro, que virou curvelano.

O também dinamarquês e famoso paleontólogo Peter Lund(7), quando chegou a Curvelo, em 10.10.1834, ficou conhecendo Claussen, que lhe sugeriu a exploração arqueológica de grutas, onde havia muitos fósseis. Tiveram breve período de convivência, pois logo se desentenderam e Lund mudou-se para Lagoa Santa (MG), levando consigo um auxiliar de Claussen, o desenhista norueguês Peter Andreas Brandt(8). De qualquer maneira, ficou devedor do conterrâneo, por lhe ter mostrado aquelas que chamou de “cavernas de ossos”.

Claussen permaneceu em Curvelo até 1837, mas retornou a Cachoeira do Campo, morando na localidade pelo menos até 1839. Durante esse período, fez também pesquisas geológicas e continuou mantendo contatos com Lund, tendo ambos trocado informações e favores. Em 1840, associou-se ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro como correspondente, tendo frequentado algumas reuniões. Em uma delas, o seu membro-fundador, brigadeiro Raimundo da Cunha Mattos(9), apresentou uma proposta para que Claussen examinasse misteriosas pinturas descobertas em uma lapa de Minas. A ata da 39ª sessão, que contou com a presença de Claussen, informa:

“… Pedindo a palavra o Sr. Pedro Clausen, fez sciente ao Instituto que […] copiara as principaes pinturas existentes nas rochas […] da dita gruta, […] Leu-se então uma carta na qual […]  fazia a descripção da […] gruta, […] acompanhava a carta 4 desenhos coloridos […] da Lapa das Pinturas, […] Presando infinitamente o valioso serviço prestado pelo Sr. Pedro Clausen, o Instituto approvou que os desenhos fossem remettidos […] para serem publicados […] O mesmo Sr. Clausen apresentou um mappa Geologico da Provincia de Minas Geraes, levantado por elle durante 16 annos de trabalho…” (10)

Post - mapa ClaussenAo fundo mapa  do quadrilátero ferrífero (detalhe) e palavras na ata do Instituto Histórico.

Pelo comunicado de Claussen ao Instituto, é possível deduzir que, logo depois do seu contato com Sellow, passou a trabalhar no mapa geológico. Ainda no ano de 1840, decidiu deixar o Brasil, como anunciou o secretário cônego Januário da Cunha Barbosa, no relatório(11) da 2ª Seção Pública do IHGB, de 27.11.1840, ao dizer que “partia para a Dinamarca o nosso sócio o Sr. Claussen, que de bom grado se encarregou de levar os nossos agradecimentos, os nossos diplomas e revistas” à Sociedade dos Antiquários do Norte, estabelecida na capital daquele país. O mapa do quadrilátero ferrífero, foi publicado em 1841.

No ano de 1842, Claussen retornou ao Brasil e, em 1843, declarou ter encontrado uma rica mina em Sete Lagoas (MG). A referência(12) está no “Diccionario Geographico, Histórico e Descriptivo, do Império do Brazil”:

“MELANCIA – Sitio da provincia de Minas-Geraes, no territorio de Sete-Lagoas, onde o naturalista Pedro Claussen achou em 1843 uma mina riquissima de cobre, chumbo e prata de que apresentou as amostras ao presidente da provincia Soares Andrea.” 

Trata-se da fazenda das Melancias, em Sete Lagoas (MG), propriedade de descendentes do curvelano Alcibíades de Paula(13), cujas terras, na época de Claussen, eram mais extensas, incluindo a Lapa do Chumbo, onde hoje se explora uma pedreira calcária. Alguns historiadores impropriamente designam o local como “lugarejo”, embora ali não existisse um aglomerado de casas habitadas para merecer tal título.

O autor deste Post conheceu a fazenda no início da década de 1940 e viu, junto à sede, ruínas de uma fábrica de tecidos com teares de madeira. Tratava-se da Companhia Industrial Melancias, produtora de tecidos de algodão, crus e tintos(14). Então, pode-se concluir que o nome Melancias era explicitamente atribuído à fazenda, pela sua notória importância.

Post - MelanciasFazenda das Melancias em dois tempos: primeira metade do século XX e década de 1960. 

Lund e Claussen enviaram muitos fósseis para a Europa. O cientista Charles Darwin(15) teve conhecimento das coleções e ambos foram citados com admiração na sua obra “A origem das Espécies”, em 1859. O material mostrou-se muito útil para o embasamento da sua teoria da evolução. Ao tratar da relação entre animais do mesmo tipo, em diferentes lugares do planeta, referiu-se à América Latina, escrevendo:

” … Este parentesco é ainda mais evidente na maravilhosa coleção de ossos fósseis produzida pelo senhor Lund e Claussen nas cavernas de Brasil. Fiquei muito impressionado com esses fatos que insisti enfaticamente, em 1839 e 1845, sobre esta ‘lei de sucessão de tipos’ − sobre ‘esse maravilhoso parentesco, no mesmo continente, entre os mortos e os vivos’.”

Post - Charles DarwinCharles Darwin: “… maravilhosa coleção produzida por Lund e Claussen…”

Na sua sina de colecionador de insucessos, Claussen foi condenado em um processo de falência, em Londres, no ano de 1847. Mais um embate com a justiça, pois havia fugido para o Brasil por motivo de uma fraude. A notícia foi publicada(16) no periódico “The Jurist”:

“Londres, 08 de dezembro – Peter Claussen: Newman Street, Oxford Street, em Middlesex, fabricante, negociante e vendedor ambulante. Em 20 de dezembro, às 12:30h e 25 de janeiro, às 11:30h; Corte de Falências do Tribunal de Justiça de Londres: Of. Assist. Turquand; Sols. Lawrence & Co., Old Jewry-chambers – Executado em 07 de dezembro.” 

Possuindo conhecimento científico informal mas qualificado, Claussen empenhou-se no estudo de manufaturas têxteis. É muito provável que sua iniciação nas artes da tecelagem tenha ocorrido nos tempos de plantador de algodão em Curvelo. A cidade foi um polo pioneiro e irradiador da indústria de tecidos no Brasil.

Sua investida na área têxtil foi uma tentativa de se livrar da situação de instabilidade financeira em que vivia. Depois de anos de investigações, chegou à conclusão de que a fibra de linho − planta largamente cultivada na Europa −, poderia suprir as necessidades de matéria prima têxtil do continente. Convenientemente trabalhada, seria economicamente mais vantajosa que o algodão importado e, portanto, poderia substituí-lo. O produto recebeu o nome de “flax-cotton”; traduzindo: algodão de linho.

Post - Crystal Palace“Crystal Palace”, sede da “Great Exibition”.

Claussen transferiu-se para a Europa, no final da década de 1840, e tentou promover várias de suas invenções, além do “flax-cotton”. Já no início da década seguinte, a imprensa lhe deu muita publicidade, embora tenha também falsificado sua história de vida. Assim, prestigiosas publicações criaram a fantasia de que, quando viajou para a França, conseguiu ser introduzido na corte francesa e lhe deram o título de cavaleiro, Chevalier, como se diz em francês. Mas, na verdade, ganhara honraria semelhante no Brasil, aquela que era conhecida como Imperial Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo(17). Este é o motivo pelo qual o cavaleiro da Ordem de Cristo foi transformado em Chevalier, quando chegou na Europa. No seu país natal e na França, obteve apenas honrarias, mas nenhum apoio de ordem prática.(18)

Na Inglaterra, o semanário “The Spectator” deu grande cobertura aos feitos de Claussen, ao mesmo tempo fabricando algumas inverdades, que perduram até hoje nas suas biografias. Uma delas dizendo que, quando estivera na França, casara-se pela segunda vez(19), com uma jovem francesa. Entretanto, há provas de que Claudina foi o derradeiro e mui dedicado amor de sua vida, como este Blog revelará no próximo Post.

Desanimado diante dos insucessos e pressionado pela pobreza, o cavaleiro vislumbrou uma oportunidade na Feira Internacional de Londres, em 1851, que aconteceria no Hyde Park. Então, ali apresentou o “flax-cotton” com todo estardalhaço possível. Para isto, preparou uma série de amostras de artigos confeccionados com o novo produto, mostrando em detalhes como foram processados. O jornalista norte-americano Horace Greeley(20) visitou a feira e ficou impressionado com um tear circular, que Claussen também apresentou no evento. E publicou um comentário:

“M. Claussen tem também um tear circular na feira, no qual sacos e meias podem ser tecidos sem costura […] Esse tear pode ser operado manualmente com facilidade (claro, vapor ou água é mais barato) e funciona com rapidez e sem falhas. Menciono isto apenas como prova do seu gênio inventivo e para corroborar a favorável impressão que me causou. Não vi nada mais inventivo, no imenso departamento dedicado à maquinaria inglesa, do que esse tear.”

Claussen tentara vender sua criação para fábricas da Irlanda, situadas em Kildinan. Nessa época, trocou cartas(21) pedindo apoio ao diretor do Museu da Indústria Irlandesa, em Dublin, sir Robert Kane. Em uma delas, datada de 25.08.1851, e enviada de Londres, escreveu:

“… Mr. Thomas Graves […] tem interesse em minha patente, para Kildinan, com o propósito […] de preparar seda em escala de produção e, tendo total confiança nele, escrevi-lhe […] para tudo preparar, de modo que possas investigar completamente e tenha como informar sobre a viabilidade do meu processo. […] Eu já encomendei o maquinário necessário para ser enviado a Kildinan e, em alguns dias a fábrica de Mr. Dargan está em condições, para que seja feita sua inspecção. […] Solicito que escreva a (Mr. Graves) […] manifestando seu interesse na efetivação. […] Solicito a inclusão do meu folheto sobre ‘Flax’. / P. Claussen.

Post - Claussen to KaneCorrespondência de Claussen pela venda da patente do “flax-cotton”.

Na promoção do invento, Claussen argumentava que a produção seria extremamente simples e muito mais segura que o método até então usado. Os fabricantes se alvoroçaram com a novidade, mas agradeceram as propostas e continuaram trabalhando da mesma maneira. Preferiram usufruir da mão de obra barata de operários semi-escravos que, frequentemente, eram vítimas de gravíssimos acidentes operando máquinas de tecnologia primitiva. Alegavam que o novo processo exigiria grandes adaptações nas fábricas. Também os produtores de Lancashire disseram(22)“Por que vamos usar esse tecido, se temos algodão em abundância?” Claussen ainda insistiu: “A longo prazo é mais conveniente, pois pode-se usar matéria prima nacional e máquinas a vapor, abandonando o rude trabalho manual.” 

Há muito tempo era conhecido o alto risco desses acidentes, principalmente nas máquinas de cardagem do algodão movidas a rodas d’água. Tais fatos, certamente, motivariam a adoção dos novos processos. Mas a argumentação de Claussen soou como a voz do pregador no deserto, encerrada a feira seu esforço caiu no vazio.

O pensador Karl Marx(23) conheceu a máquina que compunha o badalado invento de Claussen e referiu-se a ela na sua obra “O Capital”, de maneira crítica: “o tear circular que, operado pela mão de um único trabalhador, tece 96 mil malhas por minuto, será uma mera ferramenta.” Marx, foi um dos que se horrorizou com as tragédias que se repetiam na indústria de tecidos. Também fez referência às fábricas que operavam em Kildinan:

“Em uma fábrica de separação de fibras, em Kildinan, perto de Cork, ocorreram entre 1852 e 1856, seis acidentes fatais e sessenta mutilações; cada uma delas  poderia ser evitada com o uso dos mais simples equipamentos, ao custo de alguns ‘shillings’. […] Os sérios acidentes […] são horripilantes. Em muitos casos, uma quarta parte é arrancada do tronco e também ocasiona morte ou miserável incapacidade e sofrimento.”

Post - Marx & CapitalKarl Marx conheceu o tear de Claussen e as indústrias de Kildinan.

A denúncia de Marx não era novidade. Uma investigação feita pelo parlamento britânico, em 1832, mostrou as condições desumanas a que submetiam aquela gente que tocava a indústria. Nesse mesmo ano, Michael Sadler, membro do parlamento britânico, foi encarregado de fazer uma investigação nas fábricas e cuidou de entrevistar operários. Seu relatório destacou uma vítima de acidentes, Mary Bucktrout, uma menina de 14 anos de idade:

“Ela estava trabalhando na sala de cardagem da fábrica de linho de Mr. Holdsworth, em Leeds, e sofreu um acidente quando retirava resíduos de fibras da máquina, por ordem do contramestre, o qual − diz ela − certa feita ameaçou multá-la em seis “dimes”, se não cuidasse de manter sua máquina limpa. Ela perdeu, por isso, em um acidente, o braço direito, um pouco abaixo do cotovelo e o polegar da mão esquerda. Seu chefe deu-lhe então um “shilling” e seu pai, que é um pobre operário, com cinco filhos, viu-se obrigado a sustentá-la desde então.” (24)

(Leia mais sobre Mary no fim da página)

Quando morou na Leicester Square, em Middlesex – um condado na periferia de Londres –, Claussen já procurava promover seus inventos. Talvez o primeiro tenha sido um propulsor para barcos a vapor, com a patente concedida em 23.07.1846 e registrada em 23.01.1847:

“Peter Claussen, de Leicester Square, no condado de Middlesex, […] um aparelho para propulsão e exaustão; e para comprimir ar e corpos aeriformes. […] Esta invenção […] para […] propulsão de vasos ou barcos pela popa […] barcaças, carruagens e veículos, por meio de rodas com polias ligadas ao navio ou carro, para ser movido e impulsionado por vapor ou outra força motriz, através da fixação de uma corda ou corrente em cada extremidade da estrada ou canal, e passando-a sobre as rodas de polia…” (25)

Post - Claussen propulsorPropulsor inventado por Claussen.

Outra criação foi um método de preservação das lavouras de batatas, que eram muito atacadas por doenças. Sua fórmula recebeu aplausos no meio científico e entre os agricultores. No “33o Encontro da British Association”, realizado em 1853, Claussen apresentou um relato, dizendo:

“… eu estava envolvido em realizar vários experimentos sobre o efeito do sulfato de cal sobre substâncias vegetais […] fiquei surpreso que a decomposição não tivesse ocorrido nas partes […] que haviam sido submetidas à ação do sulfato, enquanto que aquelas que não tinham sido tratadas foram completamente deterioradas. Entre os vegetais experimentados estavam algumas batatas…” (26)

Post - Claussen potatoesSobre o agrotóxico de Claussen. 

Dois anos depois, em 1855, na mesma Bristish Association, Claussen apresentou mais três informes, com os seguintes títulos:

1On the Hancornia speciosa, Artificial Gutta-Percha and Índia Rubber; 2 –  On the Employment of Algae and Other Plants in the Manufacure of Soaps; 3 –  On Papyrus, Bonapartea and other Plants wich can furnish Fibre for Paper Pulp.” (27)

O primeiro, versava sobre a Hancornia speciosa, uma árvore que conheceu no Brasil, a mangabeira, produtora de um tipo de látex, com o qual pretendia fabricar borracha e guta-percha, este um produto que foi muito usado pelos dentistas, em obturação e moldagem dentária. O segundo, sobre a utilização de algas e outras plantas na produção de sabão. O terceiro, sobre a fabricação de papel a partir de fibras de diversas plantas, especialmente da Bonapartea juncoidea, muito comum na Austrália.

Bem antes de Claussen, os indígenas conheciam as propriedades do vegetal. Também os viajantes cientistas Spix e Martius(28), durante a viagem que fizeram pelo Brasil (1817-1820), conheceram e escreveram sobre a mangabeira e o seu fruto, a mangaba:

“…nas regiões quentes e secas do sertão […] é cultivada […] como nas províncias da Bahia, Pernambuco e Ceará, junto com a goiabeira e o ananás. Contém suco leitoso, pegadiço, rico de resina que, endurecida, talvez pudesse ser utilizada como goma-elástica comum. Com os frutos, costuma a gente do lugar preparar um refresco agradável e nutritivo que, entretanto, se tomado em demasia daria colorido à pele e à esclerótica.”

Post - Claussen jornaisNa imprensa, o fracasso do “flax-cotton”.

Sem dúvida, a criação do “flax-cotton” repercutiu pelo mundo, despertando muito interesse na agricultura e indústria têxtil. Entretanto, o processo mostrou-se defeituoso, quando foi submetido a testes. Dois jornais da cidade de Boston (USA), o “New England Farmer” e o “Atlantic News”, noticiaram as conclusões negativas. Na verdade, Claussen era um pseudo-inventor, especialista em reciclar ideias alheias e, se tivesse sido capaz de vender o linho fantasiado de algodão, teria virado um gênio do “marketing”.

Muitas adversidades começaram a surgir a partir de um incêndio ocorrido em uma fábrica de Claussen, instalada em Bromley. A publicação “Anual Register”, de 1854, anotando os acontecimentos do ano, relembrou o acontecimento:

“Fevereiro – ” […] Cerca de 5:30h da tarde, ocorreu um incêndio na “Fábrica de linho, cânhamo e juta”, em Bromley, que foi quase totalmente dstruída. O local, pavimentado quase totalmente de terra, compreende a fábrica principal, casas de máquina, salas de aprendizes, salas de secagem e um grande depósito. O fogo foi percebido, primeiramente, por um garoto empregado na fábrica […] Quando o telhado desabou, uma tremenda chuva de faíscas foi lançada ao ar, caindo em cima das pilhas de juta e cânhamo no quintal […] Ao mesmo tempo, o vento soprou com força e em poucos minutos várias pilhas de cânhamo e outros artigos estavam em chamas. Ao longo da noite toda a redondeza foi inteiramente iluminada pela luz intensa do fogo, que não foi extinta somente na noite seguinte. […]” 

Post - Claussen incêndioIncêndio na fábrica, início das derrotas.

O festejado Chevalier, que fez tanto barulho por quase nada, está amplamente citado no semanário “The Spectator”(29), em 1862, num artigo sobre a indústria têxtil europeia, cujo foco era a crescente dependência à matéria prima importada, o algodão. O título do artigo é “King Cotton” − Rei Algodão − e, nas primeiras linhas descreve o lunático de Camberwell.

Post - The Spectator“The Spectator” revela o fim do homem infeliz.

É muito possível que a ideia do “flax-cotton” tivesse sido inspirada na criação da irlandesa Lady Moira(30) − Elizabeth, condessa de Moira −, terceira esposa do Earl of Moira(31), homem dito afável e conquistador. Em 1775, Lady Moira converteu refugos de linho e cânhamo em algodão. No anuário da “Transactions of the Society of Arts” (1783), foram publicadas cartas, assinadas por seu marido, informando que as fibras eram fervidas num meio alcalino, ou numa solução de soda extraída de algas e depois lavadas. Lady Moira era pessoa muito admirada como antiquária e pelo vasto conhecimento que tinha sobre tecelagem e produção de vestimentas, como também por ser uma incentivadora das artes literárias.

Portanto, 76 anos antes do estardalhaço de Claussen na Feira Internacional de Londres, o “flax-cotton” já havia sido inventado por uma senhora deveras muito inteligente, capaz e bem intencionada. Dando sua contribuição para chegar mais perto da verdade, o dr. George C. Schaeffer(32) − químico, norte-americano −, em artigos para o “United States Patent Office”, sobre suas pesquisas de fibras (1852/1854), fez referência ao então muito comentado “flax-cotton”, de Claussen, dizendo que um método semelhante foi usado pelos chineses por muitos séculos.

Post - Lady MOIRA lettersNotícia no anuário: Lady Moira (retrato) produziu “flax-cotton”, em 1775. 

Apesar do seu empenho, nenhum dos projetos espetaculosos de Claussen vingou, mas assim mesmo não desistiu. Já psicologicamente estremecido e falido, continuou lutando em busca do sucesso. Até que sofreu um acidente e teve que ser intenado em um hospital para tratamento. Alí sua saúde degenerou-se, sendo então transferido para o asilo de loucos de Camberwell e, depois, para o de Stone House, onde permaneceu até a morte, em 1872. O tempo todo, durante sua internação, o lunático repetia obcecadamente: “flax-cotton, flax-cotton”… (33)

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Texto e arte de Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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Post - Mary BucktroutMary Bucktrout, uma menina de 14 anos de idade

Por Michael Sadler (*03.01.1780 †29.07.1835), membro do Parlamento Britânico.

“Ela estava trabalhando na sala de cardagem da fábrica de linho de Mr. Holdsworth, em Leeds, e sofreu um acidente quando retirava resíduos de fibras da máquina, por ordem do contramestre, o qual − diz ela − certa feita ameaçou multá-la em seis “dimes”, se não cuidasse de manter sua máquina limpa. Perdeu, por isso, em um acidente, o braço direito, um pouco abaixo do cotovelo, e o polegar da mão esquerda. O chefe deu-lhe então um “shilling” e seu pai, que é um pobre operário, com cinco filhos, viu-se obrigado a sustentá-la desde então.

Ela havia trabalhado por dois anos na mesma fábrica. Mary é uma menina muito interessante e está matriculada, atualmente, na St. John’s School, sob os cuidados do dr. Hook, vigário de Leeds, recebendo instrução para que possa dirigir uma escola infantil.

Fiquei extremamente satisfeito em ouvi-la fazendo uma leitura e vendo sua redação. A maneira como empunha sua caneta é bastante curiosa. Para tanto, ela usa um aparato feito de couro, que imita dois dedos de uma luva de mão esquerda, estes são fixados juntos e conjugados a um pequeno tubo que recebe a caneta, de maneira que possa movê-la no ato de escrever. Nessa escola, há também uma governanta que perdeu um braço, acidentada em uma fábrica.”

Fonte: DODD, William  “The factory system illustrated”, Frank Cass and Company Ltd., Oxfordxire, 1968, p. 20 e 21.

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(1) Camberwell House Lunatic Asylum, aberto em janeiro de 1846. Por volta de 1859, o hospital possuía 318 internos, eram 247 indigentes e 71 particulares.

 (2) Claufen (“f” soando como duplo “s”) = Claussen (klauˀsən): patronímico dinamarquês significando filho (sən) de Klau (diminutivo de Nicolau). Curiosamente, o personagem era duas vezes Nicolau (Nicolas Clausen).

 (3) HOLTEN, Birgitte & STERLL, Michael − “P. W. Lund e as grutas com ossos em Lagoa Santa”, Editora UFMG,  2011, p. 133 a 143.

 (4) SELLOW, Friedrich − (Potsdam, *1789 / Brasil †??.10.1831) – Faleceu por afogamento do rio Doce, aos 42 anos de idade. 

 5) BRITTO, Claudina Cândida de − (*1823 † ?.06.1863) − “Pedro Cláudio, naturalista, 33 anos, em 1840 viajou para Antuérpia junto com a esposa Claudina Cândida de Britto, de 22 anos…” / Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, Registro de Estrangeiros, col. 417, v. 7, fl. 34 − Fonte: HOLTEN, Birgitte & STERLL, Michael – “P. W. Lund e as grutas com ossos em Lagoa Santa”, Editora UFMG, 2011, p. 133.

 (6) Arquivo Público Mineiro − CV-003: Atas da Câmara Municipal de Curvelo.

 (7) LUND, Peter Wilhelm − (Copenhagen, *14.06.1801 / Lagoa Santa, †25.05.1880) – Vide também os Posts “Bendita Lagoa Santa” e “Querido filho Nereo”

 (8) BRANDT, Peter Andreas − (*1792 / Lagoa Santa, †1862).

 (9) MATTOS, Raimundo José da Cunha − (Faro, *02.11.1776 / Rio de Janeiro, †1839) Militar (brigadeiro) e historiador luso-brasileiro.

 (10) “Revista Trimestral de História e Geografia (IHGB)”, tomo II, 05.04.1840, p. 270.

 (11) “Revista Trimestral de História e Geografia (IHGB)”, 2ª edição (em 1858), tomo II, suplemento, ano 8 (1840), p. 578.

 (12) SAINT-ADOLPHE, J. Cr. Milliet de − “Diccionario Geographico, Histórico e Descriptivo, do Império do Brazil”, Paris, 1845, p. 83

 (13) PAULA, Alcibíades de – (Curvelo, *02.12.1872 / Sete Lagoas, †28.10.1924) Filho do capitão Evaristo Antônio de Paula e de Ritta Cassimira Pereira da Silva. Vide os Posts “O capitão e a Doença de Chagas” e “O capitão e sua família”. // Ladislau Netto, em “Investigações Históricas e Scientificas sobre o Museu Imperial e Nacional do Rio de Janeiro” (1870), escreve na página 86: “O proprio Claussen, […] deixando-se iludir pelo aspecto de uma galena ferrifera de Melancias, perto de Sabará, mandou-a ao ministro do Imperio como mineral de prata.”

(14) Companhia Industrial Melancias: operava com 960 fusos, 49 teares e produzia 40.000 mil metros anuais de tecidos. Fonte: “Anuário de Minas Gerais”, 1906, edição n° I.

 (15) DARWIN, Charles Robert − (Shrewsbury, *12.02.1809 / Downe, Kent, †19.04.1882) Naturalista britânico. Primeira edição do seu livro “A Origem das Espécies”: 1859 (“On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life”).

 (16) “The jurist”, London, vol. XI, nº 570, 11.12.1847, p. 506.

(17) O genealogista Hugo Forain Jr. encontrou o documento de concessão do título de Cavaleiro, no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.

 (18) “Chambers’s Journal  of  popular literature, science and arts”, London and Edinburgh, vol. XVIII, 20.12.1862, p. 388 a 390. 

 (19) Semanário “The Spectator”, Londres, 16.08.1862, p. 907.

 (20) GREELEY, Horace – “Glances at Europe: in a series of letters from Great Britain, France, Italy, Switzerland, etc.”, New York, Dewitt & Davenport, 1851, p. 52.

 (21) Great Britain Parliament − “Accounts and papers of the House of Commons”, 1852, vol. 24, p. 378.

 (22) Semanário “The Spectator”, Londres, 16.08.1862, p. 907.

 (23) MARX, Karl − “CAPITAL, a critique of political economy”: Tradução da 3ª edição alemã por Samuel Moore e Edward Aveling , editada por Frederick Engels, revista e ampliada de acordo com a 4ª edição alemã por Ernest Untermann, 1906, p. 406 e 527.

 (24) DODD, William −“The  factory system illustrated”, Frank Cass and Company Ltd., Oxfordxire, 1968,  p. 20 e 21.

 (25) “The patent journal and inventor’s magazine”, vol. II, de 28.11.1846 a 22.05.1847, Ed. Charles Barlow and Philip Le Capelain (The Patent Office), London, p. 638 e 639: “Peter Claussen, of Leicester Square, in the county of Middlesex, gentleman, for improvements in methods of an apparatus for proplelling and exhausting and copressing air and aeriform bodies. Patent dated July 23rd, 1846, Enrolled January 23rd, 1847. – This invention … etc.”

 (26) “Report of the twenty-third meeting of Bristish Association for the advancement of science”, (Hull, September, 1853) – John Murray, Albemarle St., 1854, p.38.

(27) “Report of the twenty-fifth meeting of Bristish Association for the advancement of science”, (Glasgow, September, 1855) John Murray, Albemarle St., 1856, p.103 e 104.

 (28) SPIX, Johann Baptist (*1781 +1826) & MARTIUS, Carl Friedrich von (*1794 †1868) − “Viagem pelo Brasil”, vol. II, Itatiaia, 1981, p. 107.

 (29) Semanário “The Spectator”, Londres, 16.08.1862, p. 907.

 (30) RAWDON, Elizabeth (Lady Moira) − (*23.03.1731 †11.04.1808) Filha de Selina Shirley e Theophilus Hastings.

 (31) RAWDON, John − (*17.03.1720 †20.06.1793) Primeiro “Earl of Moira”. Foi um “peer” irlandês, título nobiliárquico da“Peerage of Ireland”, sendo “earl” uma palavra vem do norueguês antigo “jarl” e é equivalente a conde.

 (32) SHAEFFER, George Christian − (* 08.12.1814 †04.10.1873) Engenheiro, químico e geólogo norte-americano. / Fonte: “35ª Covocação, 2ª Seção, Documento nº 35 – Relatório da Comissão do Congresso dos Estados Unidos (01.03.1865): “Investigações para testar a praticabilidade de cultivar e preparar linho ou cânhamo como substituto do algodão”

(33) Internação em Camberwell foi divulgada pelo semanário “The Spectator”, Londres, 16.08.1862, p. 907. 

 

 

 

 

 

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