Sumidoiro's Blog

15/10/2014

NOS PASSOS DO IMPERADOR (VI)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:29 am

♦ Passagem pelo Caraça 

O casal imperial d. Pedro II e dona Tereza Cristina, partiram do Rio de Janeiro, no dia 21.03.1881, sábado, às 6 horas da manhã, para conhecer Minas Gerais. O imperador cuidou de escrever um diário de viagem e também a imprensa deu grande cobertura à visita. Parte desses acontecimentos são aqui revividos por Sumidoiro’s Blog(1), em continuação ao Post anterior.

No dia 11 de abril, à noitinha, a caravana havia atingido um dos pontos mais aguardados da viagem, o colégio do Caraça. O dia seguinte foi dedicado a conhecer o famoso educandário.

Post - Caraça p M. NorthColégio do Caraça com a igreja mais antiga (por Marianne North).

Post - D Pedro miniDiário — 12 (terça-feira) – Acordei às 6h. Fui tomar banho no rio. De volta, admirei as montanhas por detrás da casa, entre as quais a chamada Carapuça. Esqueci-me de falar ontem da bonita aldeola do Sumidouro, antes de subir a serra. As casas pequenas, com seus quintais floridos, estavam caiadas de novo e tudo respirava alegria. O nome de Caraça provém ou da forma de caraça de uma das montanhas ou de um português que morou perto da serra, a que davam a alcunha de Caraça. Assim ouvi do padre Clavelin.

Referiu-me ele que se supunha que frei Lourenço, terceiro de São Francisco e fundador do Caraça pertencia à família Távora e, por isso, fugira para o Brasil. O capitão-general de Minas, Bernardo José Lorena, tratava-o com muita estima e deixou-lhe uma baixela. Acharam o testamento de frei Lourenço, que parece desmentir a lenda dos Távoras. Frei Lourenço comprou a primeira terra a faiscadores, doou-a a d. João VI, que mandou vir frei Leandro e Viçoso, a quem deu a terra, com o princípio de edificação da capela que se constrói no lugar da antiga, construída por frei Lourenço. Seis janelas de cada lado – que fizera frei Lourenço.

Post - Irmão Lourenço

Irmão Lourenço, fundador do Caraça.

Depois houve uma licença de meu pai para adquirirem mais terra e, enfim, há pelo menos uma que possui a congregação, sob o nome de outrem. Respondi a Clavelin que era preciso regularizar a situação. Todo o terreno forma quase um círculo de um e meio de diâmetro (?). Na saleta onde escrevo há bons livros pertencente ao padre Clavelin, ou padre Sipolis(2), alguns de história natural. São quase 8h e vou para a missa que disse* (*celebrará) Clavelin no refeitório anterior ao atual. A casa tem um pequeno pátio com algumas flores, feto* (*samambaia) arborecente.

Estive na biblioteca, onde achei bons livros e edições antigas, chamando minha atenção a “Crônica de Eusébio”(3), de 1483; Veneza, impressor Arnoldt Augustensis. Há aí uma pequena coleção de minerais, quase todos de Minas. Altura do Caraça sobre o nível do mar 1.300m, pelo ipsômetro(4) de Gorceix. Aqui dizem que são 1.600. O maior frio foi já de mais 4ºC e o calor de 23 a 25. Depois fui para as aulas. Comecei pela de direito canônico. Tive que protestar contra o modo por que o professor Chavanaz(5) combatia o direito do “placet”.

Depois ele estranhou que um monarca católico protestasse contra a doutrina e eu tive de dizer que, talvez, fosse mais católico do que ele e era tolerante, quando ele se mostrava intolerante. Expliquei sempre ao padre Clavelin, que parece-me excelente pessoa, como eu ressalvava o direito unicamente contra abusos de autoridade eclesiástica, que não deviam ficar dependentes da única apreciação daquela.

Assisti a todas as classes, onde gostei, em geral, do modo por que os estudantes respondiam; desagradando-me as de álgebra e aritmética. Os professores, a meu pedido, chamavam os mais adiantados. O filho do Peixoto de Souza, de Caeté, não traduziu e regeu mal Justinus. Enquanto jantavam, fui ver a oficina do padre Boavida(6), que está fora missionando. Admirei aí o seu trabalho de órgão. A madeira preta das teclas é belíssima. Visitei outra partes do estabelecimento. As interrogações nas classes terminam às 4¾.

Post - Igreja CaraçaCaraça: interior do santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens. 

Jantar. Subida ao pequeno morro de pedra do Calvário, de onde a vista é belíssima, sobretudo do lado da montanha da Carapuça, com matizes róseos e violáceos do por do sol. Olhei bem para todas as montanhas que cercam o edifício. Ontem, mostraram-me o pau de jacarandá a que se arrimava o irmão Lourenço e não Fr.(7), quando Saint-Hilaire(8) o viu aqui. Fui depois por um caramanchão onde está o chamado quiosque, até a represa de água em que espelhava a lua. A noite está belíssima.

O edifício, para maior largueza dos alunos, carece ainda de bastantes obras. Tem gasto já bastante com a igreja, que ficará muito elegante. Vi muitos bem feitos capitéis e socos de pedra daqui, por três canteiros(9), sob a direção de um mestre, sendo um daqueles Joaquim Martins, português, e os outros fulanos Vidal, espanhóis. Avistei do calvário a horta, muito viçosa, tem bois para carreto e trezentos para corte. Compram o milho, agora, por 1 a 2$000 o alqueire, mas já chegou a 4, e o feijão a 7 ou 8, o saco. O carreto é necessariamente caro.

Post - Pe Clavelin

Padre Clavelin.

Voltei de meu passeio por dentro da cozinha, que não é má, menos o fogão, que não é econômico. Visitei a farmácia, dirigida por um padre. Tem pequena enfermaria perto de cada dormitório e quartos para doentes graves. O médico, dr. Figueiredo, vem de quinze em quinze dias, quando não seja chamado para qualquer caso extraordinário e grave. O lugar passa por muito (?). As chuvas vêm do lado do N.O. Logo há sarau literário. Chegou hoje correio do Rio, com diários até 8 (dia).

Reuniram-se os professores e os estudantes na capela que se constrói, iluminada com velas em lustres de papel. O espetáculo era muito belo. Dirigiram-me discursos em francês, Clavelin; latim e grego – o grego de Constantinopla – professor de história e geografia; hebraico, o padre Lacoste(10); espanhol, um empregado da casa, ex-oficial de cavalaria espanhol(11); inglês, o professor de inglês(12); português, o desta língua(13) e italiano; um estudante, Tertuliano Ribeiro de Almeida, que pronunciou tão mal como o de inglês(14).

Cantaram uns versos franceses, antes de oferecerem um ramo com os versos acompanhados de flores pintadas, pelo professor de desenho, à imperatriz. Tocou a banda dos alunos, que é sofrível. São mais de 9h e vou deitar-me, que saio amanhã, logo que clarear. Ia me esquecendo de dizer que, na volta da represa, vi araucárias e disse-me Clavelin que, no tempo da visita do meu pai, ainda existia uma alameda delas plantadas pelo irmão Lourenço. — DIÁRIO: continua na próxima postagem.

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Flores para Cristina

Um repórter da “Gazeta do Norte” acompanhou a comitiva e relatou(15) a homenagem a dona Cristina: “Em seguida, o padre Antônio José Teixeira, um seminarista e três estudantes do colégio cantaram os seguintes versos, dedicados a S. M. a imperatriz”:

Post - Simple bouquet

SIMPLES BUQUÊ 

À nossa Soberana / Oferecemos hoje / A vós, dos corações, a rainha / De nossos jardins o fruto. 

É um buquê / Simples e elegante / De flores da natureza / E do ardor de nosso coração / A mais pura imagem. 

Eis a violeta / Humilde pequena flor / Nela se reflete / Vossa amável doçura. 

Receba este ramo / Do jasmim cheiroso / Vossa mão delicada e branca / A quem sofre estender. 

O lírio do vale / Nos é outra dádiva, / Sua flor imaculada / Simboliza Bourbon.(*) 

Aceitai esta rosa, / Rainha de todas as flores, / Tal como ela acaba de se abrir, / Vós reinais sobre os corações. 

E a flor que assim chamamos, / Lembrai-vos de mim, / Vos repetirá que em tudo / Vós tendes nossa fé.

* A imperatriz era uma Bourbon. Data do início do século XIII, a origem da importante família, que tem como símbolo a flor-de-liz (lírio).

Nem tudo são flores

O mesmo repórter da “Gazeta do Norte” também presenciou o conflito do “placet”, envolvendo o imperador:

“Vou referir [-me a] um fato que se deu aqui, na aula de teologia e direito canônico, que é regida pelo padre lazarista João Chavanat. Fa-lo-ei sem comentários, porque é um verdadeiro ferro quente, no qual não porei a mão. Foi assim: o professor, arguindo naquela aula um aluno, perguntou-lhe quantos poderes conhecia. O aluno, respondendo que o civil e eclesiástico, acrescentou que ambos eram independentes, mas que o primeiro era sujeito ao segundo; aduzindo ao professor que o poder civil estava sob o eclesiástico por vir de Deus. Sua Majestade declarou que protestava contra esta doutrina, na qualidade de representante do poder civil e por ser ela contraria a constituição do Estado.”

Post - Pe Chavanat

Padre Chanavat.

E, nos arquivos(16) do Caraça, registra-se mais detalhes da confusão:

“A discussão, porém, não se alongou. O padre Clavelin, que acompanhava o imperador na inspeção das aulas, preocupado com a confusão que ia se formando, desconversou e encaminhou o Imperador para que continuasse a visita ao colégio.

No entanto, pouco depois, no horário do recreio, dom Pedro passeava novamente com o padre Clavelin e acabou se encontrando com o padre Chanavat, que não perdeu a oportunidade de dizer: ‘Não admito o protesto de Vossa Majestade. É escandaloso um Monarca católico protestar contra a Doutrina da Igreja diante de um Seminário Maior’. Diante disso, o Monarca apenas replicou, antes de continuar sua visita com o Padre Superior: ‘Sou mais católico que o senhor. Sou católico tolerante, ao passo que o senhor é intolerante’.

Em Ouro Preto, perguntado sobre o incidente no Caraça, Sua Majestade, reconhecendo que não poderia ser outro o ensinamento ministrado no Seminário, apenas respondeu: “O padre Chanavat é um sacerdote digno da batina que veste e da cátedra que ocupa”.

Troca de gentilezas

Ainda os arquivos do santuário do Caraça mais detalhes da visita:

“À noite, houve uma sessão solene, dentro da igreja ainda em construção. Ao imperador foram dirigidos discursos em nove línguas, aos quais Sua Majestade respondeu na língua em que foi saudado. Depois, houve apresentação de poesias, homenagem à imperatriz e execução de músicas pela banda do colégio.
No dia 13, logo pela manhã, d. Pedro II e sua imperial comitiva desceram a serra, em direção a Catas Altas. Antes de sua partida, Sua Majestade deixou para o Caraça a importância de 500$000 de esmola para as obras da igreja, com a qual foi comprado o vitral central. Deixou também 400$000 para serem distribuídos aos pobres de São João do Morro Grande (hoje, Barão de Cocais).

Além dessas doações, prometeu enviar um pintor para registrar em uma tela a beleza do Caraça, como ficou anotado no livro de crônicas da casa:

‘Sua Majestade o Imperador, achando-se no adro da igreja, desenhou, por seu próprio punho, a lápis, as montanhas que ficam de frente à casa, tomando-lhe cuidadosamente todos os nomes. […] Prometera S. M. mandar da corte um pintor para tirar-lhe a vista da formosa cascata, que, em seus encantos, o maravilhara no caminho, como também a da casa e das serranias que a rodeiam, como lembrança de sua visita’.

Como forma de gratidão, o Caraça ofereceu ao imperador seu mais antigo livro: Crônica de Eusébio, de 1483, que encontra-se arquivado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.”

Post - Caraça & livroPágina da “Crônica de Eusébio” (ano 1483). / Santuário e prédio da biblioteca (à direita), antes do incêndio.

Post - Sumidoiro MARCA

O incêndio

Uma triste história do Caraça começou com um grito de alerta, às 3 horas da madrugada de 28.05.1968, terça-feira, lançado por um aluno que se encontrava recolhido à enfermaria do colégio. O moço havia sentido cheiro de fumaça e foi acudido pelo padre disciplinário, que constatou a irrupção de um enorme incêndio. Um fogareiro elétrico, esquecido ligado na sala de encadernação, foi o responsável pelo início do fogo.

A maior preocupação de todos, desde o primeiro instante, foi salvar o tesouro de livros da biblioteca, com cerca de trinta mil exemplares. Mas as chamas poderosas rapidamente se alastraram, atingindo o Museu de História Natural, que guardava muito material inflamável, depois propagando-se para cômodos do primeiro e segundo andares, inclusive salas de aulas, teatro e, finalmente, atingindo o terceiro andar onde ficavam os dormitórios.

Quando o fogo foi debelado, constatou-se que ficou a salvo a igreja, por situar-se ligeiramente afastada e mais protegida do foco do sinistro. Do inestimável acervo bibliográfico quase nada sobrou. Por isso, bem fizeram os padres anos antes, quando decidiram presentear o imperador com o mais antigo livro da coleção. Em boa hora salvou-se uma preciosidade, graças a Deus!

Post - Caraça após incêndioCaraça após o incêndio.

O nome e um pouco de história

Em certo ponto da serra do Espinhaço, próximo à cidade de Catas Altas (MG), destaca-se dramaticamente na paisagem uma íngreme elevação, com um recorte que se assemelha a uma enorme cara. Daí talvez derive o nome aumentativo Caraça. O local era conhecido desde o início do século XVIII, apenas como um lugar no mapa da Província de Minas onde, provavelmente, teria existido um garimpo.

Por outro lado, estudos acadêmicos têm sugerido que a palavra viria do tupi-guarani, para dizer desfiladeiro ou bocaina, acidente geográfico que lá realmente existe. De qualquer forma, tudo são hipóteses, o que dá liberdade a Sumidoiro’s Blog de optar pela que é mais poética. Caraça é um perfil humano desenhado na montanha pela mão do Criador, para deleite dos caminhantes!

A história da fundação do também denominado Santuário do Caraça começa com um homem misterioso, que arribou por aquelas plagas e ali comprou grande sesmaria(17). Dizem ter sido um fugitivo, nobre português, e perseguido pelo marquês de Pombal, porque teria participado de um complô familiar, liderado por d. Francisco de Assis Távora, que redundara em um atentado contra d. José I(18).

Post - Tortura - J M Távora

Quebrando ossos de José Maria, filho de d. Francisco de Távora.

O rei sobreviveu, mas a vingança foi terrível, os acusados – os Távoras – foram torturados juntamente com seus comparsas, depois queimados e seus corpos lançados ao mar (leia último tópico, abaixo). Contudo, o assunto permanece controverso e, embora tenha ocorrido um processo criminal, nunca se chegou à plena verdade.

Havia, então, suficientes motivos para a decisão desse homem escapar de Portugal. O fugitivo seria Carlos Mendonça de Távora que, por volta de 1760, passara primeiramente pelo Arraial do Tejuco – hoje Diamantina (MG) – trabalhando em mineração. Ali, se dizia filiado à Ordem terceira de São Francisco e trabalhava na mineração com o nome de irmão Lourenço de Nossa Senhora. Como suas atividades não prosperaram naquele lugar, transferiu-se para a região de Catas Altas (MG), onde adquiriu terras, entre 1768/1770. Ali chegando, optou por realizar um projeto que lhe aproximasse mais de Deus e, para isso, decidiu construir num lugar ermo, ao pé da serra, uma pequena igreja e, em anexo, aposentos para religiosos e uma casa de hospedagem para romeiros: Ermida e Hospício* de Nossa Senhora Mãe dos Homens. Assim foi que passou a dedicar sua vida à penitência e ao atendimento de peregrinos. — * Ermida = pequenina capela em lugar ermo; hospício = hospedaria.

Na primeira etapa do empreendimento, irmão Lourenço erigiu uma capelinha de madeira, inaugurada em 10.08.1774, onde rezou-se missa para alguns romeiros e operários. Um marco anota 1775 como ano de início da construção dessa ermida, depois utilizada até 1876, quando foi demolida para dar lugar à atual igreja.

De cada lado da ermida havia uma construção de dois andares, com seis janelas cada uma, para as acomodações de hospedagem. Em torno, havia um corredor em forma de ferradura, que abrigava altares, representando alguns passos da Paixão de Cristo. Do lado esquerdo, ficava o claustro, com pequena torre e sino. Compunha a parte frontal um adro, cercado por balaústres e uma escadaria. Na entrada dois pilares sustentavam a tribuna, onde ficava um órgão.

O irmão Lourenço ali viveu o resto da sua vida, falecendo em 27.10.1819, com cerca de 96 anos de idade. O vigário de Catas Altas, que o atendeu nos últimos momentos de vida, dirigiu-lhe palavras tranquilizadoras, dizendo que podia morrer em paz, pois Deus não abandonaria a obra do Caraça. Isso de fato aconteceu, com o envio de missionários para dar continuidade ao seu trabalho.

Post - Caraça primeira igrejaAntiga ermida do irmão Lourenço.

Em seu testamento, de 1806, deixou escrito:

“Sou senhor e possuidor de uma sesmaria de terras […] sitas na Serra do Caraça […] onde à minha custa e com esmola dos fiéis, edifiquei uma capela com o título de Nossa Senhora Mãe dos Homens e São Francisco das Chagas, com todos os seus pertencentes, ornamentos, imagens, alfaias, santuário de várias relíquias, um corpo de São Pio, mártir; de que e de todos os meus bens que me pertencem fiz oferecimento por mim a Sua Alteza Real, para estabelecimento de um hospício de missionários […] Declaro que minha vontade sempre foi e é de que todos os referidos meus bens fossem para estabelecimento e residência de missionários e, não podendo conseguir-se para este fim, que, em tal caso, servisse para seminário de meninos, onde aprendessem as primeiras letras e mais artes, ciências e línguas”.

Post - Caraça George GrimmPaisagem com o novo Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens (por George Grimm, 1885).

Os seguidores de irmão Lourenço permaneceram fiéis sua vontade mas, com o passar do tempo, as instalações tiveram de ser ampliadas, pela crescente demanda de alunos, seminaristas, professores, serviçais e romeiros. Desse modo, o Caraça foi crescendo em tamanho das instalações e fama, tudo isso devido ao empenho de várias administrações. Quando assumiu a direção superior o padre Clavelin (1867/1885), decidiu-se fazer uma reforma radical, qual seja, a de substituir a primitiva ermida por um templo mais imponente.

Em 1876, teve início a demolição, logo em seguida dando início às obras. Em 27.05.1883, dois anos após a visita do imperador, estava tudo finalizado, sendo então consagrado o atual santuário. No ano de 1885, atendendo pedido de d. Pedro II, o pintor George Grimm(19) esteve no Caraça e pintou uma paisagem mostrando o templo neogótico recém erigido. A torre em agulha apontando para o céu!

Post - Suplício TávorasCadafalso em que foram executados os fidalgos (Torre do Tombo, PT).

O fim nos inimigos do rei 

Na Torre do Tombo, em Lisboa, estão arquivados documentos do chamado Suplício dos Távoras:

“A 13 de Janeiro de 1759, há 250 anos, foram executados os acusados de estarem implicados no atentado ao rei D. José I, ocorrido uns meses antes, a 3 de Setembro de 1758. Após um processo sumário, a sentença final, proferida a 12 de Janeiro de 1759, no Palácio da Ajuda, considerou o veredicto que todos os réus eram, de fato, culpados. O documento (acima) apresenta o patíbulo montado em Belém, no qual foram sacrificados e mortos D. Francisco de Assis de Távora e D. Leonor (marqueses ‘velhos’ de Távora), José Maria de Távora, Luís Bernardo de Távora (filhos dos Marqueses de Távora), D. José de Mascarenhas (duque de Aveiro), D. Jerônimo de Ataíde (conde de Atouguia), Manuel Alvares Ferreira (guarda roupa do duque de Aveiro), Brás José Romeiro (cabo da Esquadra da Companhia do Marquês de Távora), João Miguel (moço de acompanhar o duque de Aveiro) e José Policarpo de Azevedo, queimado figurativamente em estátua, porque andava foragido.” – Manuscritos da Livraria, nº 1103, f. 447.

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• Clique com o botão direito e veja todos, “Nos passos do imperador” – de I a VIII) – I  | II  | III |  IV  | V | VII | VIII 

 Compilação, adaptação, comentários e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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(1) Fonte do Diário: “Anuário do Museu Imperial”, vol. XVIII, 1957, versão e notas por Hélio Vianna. // Sumidoiro’s Blog corrigiu e atualizou grafias de palavras, alterou pontuações, tanto na transcrição do Diário, quanto nos noticiários da imprensa, preservando a integridade do conteúdo. Ainda acrescentou notas e ilustrou.

(2) SIPOLIS, Miguel Maria – Superior do Caraça de 1854 a 1857 e de 1862 a 1867

(3) CESAREA, Eusebio di – (*c. 265 / c.†340) – “Chronicon id est temporum breviarium”, Erhardus Ratdolt, Veneza, 13.08.1483

(4) Ipsômetro – Aparelho desenvolvido em inícios do século XIX, usado para medir a altitude de um lugar, através da diferença nele indicada pela temperatura em que a água entra em ebulição.

(5) CHAVANAT, João Gualberto – (Saint-Synphorien-sur-Oise, França, *12.07.1840 / Mariana, MG, †11.08.1899) Padre lazarista (vicentino). D. Pedro II equivocou-se escrevendo Chavanaz.

(6) BOAVIDA, Luiz Gonzaga – Posteriormente tornou-se diretor do Caraça.

(7) “…o pau de jacarandá a que se arrimava o irmão Lourenço e não Fr...” = o bastão de jacarandá no qual se apoiava o irmão Lourenço e não frei.

(8) SAINT-HILAIRE – Augustin François César Prouvençal de – Francês (Orleáns, *04.10.1779 / Sennely, †03.08.1853), naturalista e viajante.

(9) CANTEIRO – artista ou artesão que esculpe em pedra.

(10) LACOSTE, Henri – lente de teologia dogmática.

(11) MICOLTA, Vicente – professor de desenho.

(12) TEIXEIRA, Antônio José – professor de inglês, padre.

(13) ORNELAS, Aristides – professor de de latim, italiano e português (desta língua, como disse d. Pedro II).

14) O imperador sempre respondeu, na mesma língua, a cada aluno que ouvia.

(15) GAZETA DO NORTE, Ceará – em 08.051881, ed. 99.

(16) Arquivos do Caraça, fonte: http://www.santuariodocaraca.com.br/

(17) Sesmaria – Lote de terra inculta ou abandonada, que os reis de Portugal entregavam aos povoadores para que as cultivassem; tornavam-se, então, sesmeiros.

(18) Atentado dos Távoras – O evento não foi suficientemente comprovado em seus pormenores. Contudo, as execuções se consumaram, provocando devastadora repercussão em Portugal. A execução de uma família da primeira nobreza de fato constituiu um choque. A futura rainha d. Maria I ficou muito afetada pelos acontecimentos e há quem diga que contribuíram para terminasse seus dias louca.

(19) GRIMM, Joahann George – (Alemanha, *1846 / Palermo, Itália, †24.12.1887) Pintor, decorador de interiores, pintor de paredes, carpinteiro, professor de artes.

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01/10/2014

NOS PASSOS DO IMPERADOR (V)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:53 am

♦ De Matozinhos a Sabará e retorno a Ouro Preto 

O casal imperial d. Pedro II e dona Tereza Cristina, partiram do Rio de Janeiro, no dia 21.03.1881, sábado, às 6 horas da manhã, para conhecer Minas Gerais. O imperador cuidou de escrever um diário de viagem e a imprensa deu grande cobertura à visita. Parte desses acontecimentos são aqui revividos por Sumidoiro’s Blog(1), em continuação ao Post anterior. Depois de passar por Lagoa Santa e Matozinhos, o Diário descreve o retorno, cujo percurso foi por caminho diferente da ida, passando pelo Capão – atual Vespasiano – e continuando até Santa Luzia. Dali, voltou a Ouro Preto, por caminho diferente ao da ida.

Post - Santa Luzia & retr Pedro IISanta Luzia: A – igreja matriz; B – casarão onde, em 9 de abril, foi acolhido d. Pedro II.

Em 9 de abril, o imperador madrugou para a longa viagem de volta – cerca de 70 km –, de Matozinhos a Santa Luzia. Saída às 6:00 h e chegada às 10:30 h da manhã. Transporte nessa rapidez certamente foi de caleça* (*carruagem), cuja velocidade variava em torno de 16 km por hora. 

Post - D Pedro mini

RUMO A SANTA LUZIA

Diário — ABRIL  9 (sábado)  – … O caminho é por chapadão, descendo-se todavia para passar o ribeirão da Mata (em Vespasiano, antigo Capão) e o Córrego Sujo(2); e outros poucos lugares, até a grande descida para a ponte de Santa Luzia. Desse alto, onde Gorceix mostrou massas anfibólicas(3), a vista é belíssima, descobrindo-se ao longe a cidade de Santa (Santa Luzia) sobre uma montanha. Aí cheguei à 10½. Almoço. 12h. Igreja matriz; as duas aulas em salas estreitas, agradando-me somente a de meninos(4). Câmara e cadeia de alçapão na mesma casa ruim. Padrões métricos mal conservados. Soldados de espingarda, mas sem baioneta, nem sabre.(5) Misericórdia* (*Santa Casa de…) em mesquinha casa(6) fundada pela baronesa de Santa Luzia, com apólices que o marido deixou por testamento. Fiquei em excelente casa que foi dos barões de Santa Luzia(7) e agora pertence a filha do segundo barão(8), casada com o deputado Frederico de Almeida. Recebeu-me o tio, desembargador aposentado Antônio Roberto de Almeida, sua mulher e família. O doutor Modestino é filho do segundo barão.

Saí às 2 e pouco conversando com Roberto de Almeida; Modestino, presidente da Câmara, e João Alves dos Santos(9), tio de José Alves dos Santos, que vi em Mogi Mirim (SP). A renda da Câmara é de menos de dois contos por ano! João Alves disse-me que o melhor é levar a estrada de ferro até a barra do rio das Velhas. Gorceix disse-me, em caminho, que cinquenta litros de milho compram-se de 2 a 4$000, quando as estradas estão más e que, em Arassuaí, oitenta litros vendem-se por oitocentos réis. Tenho notado a grande diferença entre a forma do solo e vegetação das duas margens (do rio das Velhas). A esquerda de chapadões e árvores pequenas e a direita muito acidentada, e com árvores grandes, e de muito maior viço.

Post - Curral del Rei 1896       Curral del Rei e serra do Curral, em 1896. Ao fundo, à esquerda, igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem.

RUMO A SABARÁ

O caminho, até descer para Sabará, tem aspectos belíssimos de um lado, até as terras do lado do Serro e Diamantina, e de ouros a serra da Piedade com seu morro recortado de itabirito como o Donner Kugel, que se vê das montanhas que dominam o lago Hallstatt e a serra do Curral, avistando a povoação de Curral del Rei (atual Belo Horizonte). A cidade de Santa Luzia avista-se até menos de duas léguas de Sabará. A trovoada e diversas mangas(10) de água, do lado do serro (serra) do Curral, destacando-se do grosso das nuvens fiapos destas, com formas extravagantes e os raios do sol dando às montanhas, por entre nuvens, cores variadíssimas, tornava a paisagem encantadora.

Ao descer para Sabará, começou a cair chuva. O sol transformava num monte de ouro o (ilegível) da capela, creio que do Bom Jesus. Desabou, por fim, uma trovoada de água açoitada fortemente pelo vento. Cheguei molhado como um pinto à casa do coronel Jacinto(11) pouco antes das 6h. Recebi cartas de Saraiva e de Dantas, ambas do dia 3. Jantar. Vou, daqui a pouco, a um teatrinho particular. Veio um fulano Viana, da parte do diretor do Morro Velho, para acompanhar-me à mina de Cuiabá(12) da mesma companhia. O professor primário de Sabará tem também aula noturna, percebendo 25$000 de gratificação por mês.

Ontem à noite, quando eu voltava para Lagoa Santa, fuzilava do lado do sul, de onde veio igualmente a trovoada desta tarde. No caminho de Santa Luzia para cá, vimos granito alterado. Na margem oposta do rio da Velhas, segundo Gorceix, não se observa granito. Nos terrenos granitóides ou grés decompostos, crescem as maiores e mais viçosas árvores. A imperatriz disse-me ter-lhe falado uma francesa, que parece ser madame Toulon, que se fez conhecida por ter pertencido à companhia dramática francesa, que representou no São Januário.

Post - Teatro SabaráTeatrinho de Sabará.

O teatrinho não é feio e muito melhor que o de Barbacena. Representaram duas peças, de dois e um ato, e sofrivelmente para curiosos. Faltam 25′ para meia-noite.

10 (domingo) – Acordei. Vou ouvir missa no oratório da casa (do coronel Jacinto) e sair às 6h. Fui a casa onde morava habitualmente monsenhor José Augusto. Pertence-lhe assim, como outras, ao pé (próximas). Queria mostrar uma imagem da Nossa Senhora das Dores de seu oratório. É grande, porém não tem nada de notável. Na sala de retratos de Saldanha Marinho(13); (do) bispo do Ceará, hoje arcebispo da Bahia(14); (de) Ferreira Lages* (*Lage)(15); (do) marquês de Barbacena(16), (do) Gordon(17) e creio que mais outros; rede para a sesta. Segui para a matriz. A mais bonita igreja, internamente, que tenho visto. Duas galerias laterais com arcos a que correspondem os altares. Côro elegante. Obra de talha dourada de bom gosto. Quadros na sacristia de que o melhor é o da ressurreição. Penso que são os que Saint-Hilaire elogia.

Post - Sabará igr NS Conceição-Sabará: igreja de Nossa Senhora da Conceição.

RUMO A CUIABÁ

Continuei para Cuiabá. Atravessam-se os rios Gaia e Cuiabá, onde não há ponte e, com a cheia, serão intransitáveis. No caminho, o comendador Viana, mandado pelo Morrison, disse-me que pedras de calçada, ao sair de Sabará, tinham 75% de ferro; que uma mina perto desse ponto consumiu 1.000 mil contos a uma companhia sem proveito e que havia pés de café de cem anos, dando setenta a oitenta barris de vinho um vinhedo da casa de um italiano, porque tem uva branca e preta muito boas.

Às 8 (h), pequeno arraial, quase abandonado de Pompéu(18), onde houve mina de ouro. 8¾ (h). Cuiabá, onde me esperava Morrison. Almoço. Pouco antes da 10 (h), fui ver turbina de queda de água de 50 pés, correndo 250 pés cúbicos por minuto, com força de 55 cavalos que comprime o ar, que move as brocas do túnel. Passei pelos pilões, sistema antigo. A mina dá, por hora, 2½ oitavas ou menos por tonelada. O sistema é o antigo. Está assentando vinte pilões de novo sistema.

Entrei no túnel a que faltam, ainda,  200 a 300 br.* (*braças) até chegar ao veeiro, tendo já 400 br. de comprimento e boa largura, e altura. Vi trabalhar duas brocas. Podem trabalhar quatro. Fura, cada uma, polegada por minuto, ou pouco mais de minuto, duzentos e cinquenta pancadas por minuto. Num mês se abrem 13 a 15 braças de túnel. A pedra do túnel é xistosa. O chão do túnel fica a 45 metros, se não me engano, inferior ao alto da montanha. O veeiro corre (…no sentido) N.O.- S.E.

RUMO A CAETÉ

Às 11 (h) segui viagem. Há logo grande subida. Bela vista, terreno muito montanhoso. Despediu-se Morrison. Vista da serra da Piedade com o cimo dentado. Cobriam-no, em parte, as nuvens. Bastante calor que ameaçava chuva, sendo indício de tempo incerto o nublamento do cimo da Piedade. Encontro de caetenses (caeteenses). Conversei largamente com o coronel Agostinho dos Santos, casado com uma irmã do finado dr. João Pinto Moreira(19), sobrinho do visconde de Caeté(20). Esta região é mineira e criadora. Não vejo agora o capim gordura (Tristigios glutinosa – antes Melinis multiflora) que abundava no terreno que atravessei para ir à gruta da Aldeia.

Post - Matriz CaetéMatriz de Caeté – Nossa Senhora do Bom Sucesso.

Na volta para Sabará, à tarde, descobri o pico de Itabira. Viu-se, por fim, em parte, a matriz de Caeté, numa depressão do terreno e, descendo aí, cheguei às 2h 6′. Vi, no alto da serra da Piedade, a capela (leia o Post “No palco da vila”) e indicaram-me, em posição inferior, o asilo fundado pelo vigário de Caeté, Domingos José Evangelista, de quem o coronel Santos diz muito bem, assim como do juiz municipal Melo, de Pernambuco. O coronel tem dois filhos no Seminário de Mariana, Carlindo de tal Santos; e Santos de tal Santos(21). Às 3¼ (h), matriz. É grande e elegante externa e internamente. Duas colunas que sustentam o coro e as pias são de serpentina das circunvizinhanças, segundo ouvi a Gorceix.

Aulas de meninos regidas por professora casada e de meninas. Casas muito acanhadas. Agradou-me mais a de meninas. A casa da câmara é decente. Os padrões não se guardam aí! Cadeia em parte (?) de alçapão, porém melhor que a de Santa Luzia. Livros escritos irregularmente e falta o de termos de visita. Guardas com clavina. O serviço da polícia, na província, é muito mal feito. Gorceix disse-me ter trazido pedras de sua excursão, quando o deixei em Sabará.

Logo que cheguei a Caeté, falei com o vigário aposentado Jacinto. Homem muito inteligente e dado às boas letras. Pregou aqui por ocasião de minha coroação e recebeu meu pai. Tomei um banho morno e, às 6½ (h), jantarei. Tenho me esquecido de dizer que me falam de magabeiras desde que deixei Sabará, porém ainda não vi nenhuma.  Já exportaram da província borracha da mangabeira(22), segundo ouvi ao monsenhor. Vi bons papos também aqui (bócio endêmico) e o vigário tem princípio dele. Aparecem, sobretudo, em gente de cor, talvez pela comida. Em Cuiabá, mina que estava abandonada, recomeçaram os trabalhos que visitei só há três anos.

Visitaram-me três das asiladas da serra da Piedade com a diretora. São trinta e nove pobres, e dez que pagam alguma coisa. Também falei a Lott e não Lottis, e a outro sócio português. Que o Descoberto (minas do…) dá pouco ouro por ora. Lott está no Brasil desde 1835 e é casado com brasileira(23). O vigário aposentado deu-me cópia da memória de uma décima (estrofe de dez versos), em português e latim do senador Gomide(24). Estava com muito sono e custou-me a chegar às 9h.

Post - Santa Luzia a Ouro PretoCaminho do imperador.

11 (2ª fª) 5h – Acordei. Tomei banho frio na banheira. Ontem li Saint-Hilaire, as pinturas que ele elogia na matriz do Sabará são do coro e não as da sacristia que, aliás, parecem-me melhores. O vigário de Caeté, ontem, ao jantar, disse que uma tia dele tinha sido amiga da irmã Germana(25), milagrosa de que fala Saint-Hilaire. O vigário, apesar de inteligente, parece-me crendeiro. À 6h parto para o Caraça. O vigário dá-me cópia da inscrição da matriz. Lenda do vigário Henrique Pereira, que a ela se refere e vem publicada no almanaque mineiro. Em Caeté, há um chafariz de pedra de 1800. A capela do alto da serra da Piedade não foi feita por esforços do vigário, mas sim há mais de um século.

RUMO A GONGO SOCO

Ao sair da cidade de Caeté, apreciei a vista que é bonita. A casa do barão de Catas Altas, João Batista Coutinho(26), duas vezes cunhado de São João Marques(27), por suas mulheres. Dono do Gongo Soco que, talvez, desse 300.000 contos de ouro. Era pródigo atirando moedas ao povo. Belo mato. Lavra abandonada de Luís Soares(28), marido de Bárbara Horta Barbosa, irmã mais velha de d. Antônia. Mulher caçadora de veados e que se vestiu de militar, para fingir que prendia o oficial legalista André Saturnino da Costa Pereira, em nome de José Feliciano(29). Aí, também, ia o Barbacena(30) e monsenhor José Augusto, que me contou histórias da irmã Germana, nascida na Roça Nova e que, depois da morte (de) seu diretor espiritual, o padre José Gonçalves, recolheu-se a Macaúbas.

Post - Casa barão Catas AltasCasa do barão de Catas Altas, em Gongo Soco (foto de 1913).

Aí a visitou monsenhor com o bispo Viçoso(31). José  Augusto trocou seu traje com o de outrem e a irmã Germana só deixou a rigidez catalética ao contato das mãos de José Augusto, não sucedendo o mesmo com o vestido de padre. Referiu-me casos de aparente adivinhação de uma afilhada sua, muito nervosa, que vive em São João del Rei, curada com banhos de mar. Ficou de ma apresentar, assim como dar o parecer do dr. Gomide sobre a irmã Germana, que era tida por santa, o que fez com que o povo se fizesse levantar contra Gomide, por causa do parecer.

Edifícios estragados de Gongo Soco. Lugar curioso, por causa das escavações antes de chegar àqueles e à Casa Grande, que julgo ter sido a do engenho do Gongo Soco. Caminhos sobre a ganga, terra argilosa misturada com itabirito, que é composta de quartzo, óxidos de ferro e de manganês e, às vezes, argila branca, indício de ser aurífera. A jacutinga é a itabirito friável. Antes do lugar de Luís Soares, passei pela casa de João Soares do Pari. Há nesta casa bonitos trabalhos de junco, formando os tetos dos aposentos, segundo o monsenhor. Na conversa com Gorceix,  aprendi bastante que ele reputa os quartzitos com ouro, de grãos diminutíssimos, em sua massa de formação mais antiga que os de grãos grossos, tendo-se ouro depositado na massa dos primeiros quartzitos – ou itabirito – por dessulfurização produzida pelo calor, podendo, à causa do tempo, ser substituída pela distância de origem do calor.

Hei de ler o trabalho de Pissis – Les soulevements au Brésil – publicado nas Memórias de Ciências(32). Gorceix também explicou-me porque não havia árvores frondosas em terreno de salitre; o o terreno é aí pouco permeável às raízes.

Post - Gongo Soco 1Arraial de Gongo Soco, em 1839 (por Ernst Hasenclever – acervo de Regina Harlfinger).

Cheguei ao lindo campo onde serpeia o ribeirão do Socorro, que vai desaguar engrossado no Piracicaba, afluente do Doce. Tenho visto bastante capim gordura. Parei aí, no lugar chamado Ilha, porque o rodeiam o ribeirão e um riacho afluente dele. Queria ver o sistema primitivo de separar o ferro do minério. Botam carvão, acendem-no em uma espécie de buraco de fogão de alvenaria e, depois, camadas alternadas de jacutinga (itabirito aurífero em decomposição) e carvão, até encherem o vão. Depois de 4 horas, tiram a lapa de ferro, separando com martelo a borra. O ventilador é de água e também o monjolo martinete, que bate o ferro e serve também de laminador por esse modo.

Disse-me o neto de um fulano Marques(33), dono agora do estabelecimento que separa até doze arrobas de ferro por dia. Gorceix disse-me que se vende, nas circunstâncias de 2 a 3$000 a tonelada e, no Ouro Preto, por 12. O carvão também chega a quarenta e tantos mil réis, no Ouro Preto, por tonelada, custando doze, se não me esqueço, perto dos lugares onde fazem onde em covas ou caeiras ou medas, preferindo o primeiro sistema para o sistema primitivo. A ganga* (*resíduo não aproveitável), por sua porosidade, é preferida para os fornos catalães* (*fornos rústicos). A forja que visitei pareceu-me a de Tubalkain.

CHEGADA A MORRO GRANDE

Custou-me a apanhar a liteira, apesar de trotar bastante. Diversos cavaleiros, entre eles Afonso Pena(34), vieram a meu encontro. A caravana entrou reunida, de novo, em Morro Grande, pouco depois 11½ (h). A igreja é pelo risco da de Caeté. Saint-Hilaire teve razão de falar dela. Almocei e falei a diversas pessoas, às filhas de um irmão do barão de Catas Altas e viúva de outro irmão de João Alves de Souza Coutinho, que com ela casou aos oitenta anos e procurou-me em São Cristóvão (palácio de …), com um pedido de comenda, tendo sido guarda de honra e acompanhado meu pai nesta província; do barão de Cocais, casado com uma prima, a viúva, mãe do Modesto da Aninha, o juiz municipal de Santa Bárbara de Salvador Albuquerque do Pau Amarelo, um representante da mina de Cocais, que não dá, agora, nem 3% de ouro em tonelada; a câmara municipal de Santa Bárbara e outras pessoas.

Post - Gogo Soco 2Mineração de Gongo Soco, em 1839 (por Ernst Hasenclever – acervo de Regina Harlfinger).

PASSAGEM POR BRUMADO

Em caminho, depois de sair de Caeté, conversei com o engenheiro da mina do Descoberto, cujo nome soou-me como Geech. Diz ele que espera que a mina renderá muito. Pareceu-me inteligente. Esteve empregado em diversas minas do oriente. Julgo ter-lhe ouvido que estão abrindo túnel para encontrarem o veeiro. Partida de São João, à 1½ (h). O caminho margeia o rio. Ponte da barra do Caeté, perto de onde se encontram os rios São João, continuação do Socorro e outro que vem do lado do Caeté.

Depois, margeia-se o rio de Brumado. Escavações curiosas de explorações antigas de ouro. A povoação do Brumado tem suas casas, sendo a principal a que pertenceu a Sebastião Pena, avô do deputado. Aí parou meu pai. Disse-me o deputado que havia na casa bonitas pinturas. Pouco adiante, despediu-se ele, depois de dizer-me que a principal indústria atual destas várzeas é a criação de mares. No município de Santa Bárbara o número de crias anual é de dois a três mil. Avistam-se elevadas e pitorescas montanhas de formas pouco comuns de rocha, mas que não contém ferro.

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Post - Caraça por JCColégio do Caraça, com a velha igreja, como viu d. Pedro II (por J. Códea).

Retornando a Ouro Preto, o ponto alto do percurso foi o famoso colégio do Caraça. A chegada foi em 11 de abril, à noitinha. O imperador dedicou todo o dia seguinte a conhecer o educandário. 

Post - D Pedro mini

Diário

CHEGADA AO CARAÇA

ABRIL   11 (2ª fª) – … Desde que se começa a subir a serra do Caraça cresce a beleza da paisagem e, do alto, descobre-se vastíssimo horizonte e, depois, uma das mais belas cascatas que eu conheço, que forma lençóis e tanques, e corre depois em fundo vale, estreitado pelas montanhas de que já falei. Nunca admirei lugar mais grandiosamente pitoresco do que este. O caminho passa por cima de uma cascata que parece sumir de repente(35).

Continuei, como anteriormente, por dentro da mata e por cima das pedras. Felizmente, o belo luar sempre deixa ver um pouco o lugar, por onde se anda mesmo debaixo de árvores e, num lugar de grandes lagos, perigoso para liteira, alumiava a lua com todo seu esplendor. O cruzeiro fulgurava em nossa frente e, à esquerda, vênus (planeta) faiscava quase sobre a montanha. Não posso escrever tanta beleza. Por fim, dobrando uma ponta do morro, aparece de repente o edifício do Caraça iluminado e de que descem pela encosta duas filas de luzes. Altíssimos rochedos em anfiteatro formavam o fundo do quadro. Era belíssimo, mas a lua e as estrelas elevam-me os olhos a maior altura.

Apeei-me e subi com as filas das luzes. Passei pela capela que constroem e cuja arquitetura agradou-me. Tomei meu banho, depois de conversar um pouco com o superior Clavelin(36) e diversos professores, sobretudo com o nascido em Constantinopla, de família grega(37). Jantar às 7¾. Depois informei-me dos estudos com o superior. Tenho muito que fazer amanhã. Vi no caminho muitas flores e árvores de madeira de lei, como tatajiba (ou tatajuba) e óleo vermelho.  DIÁRIO: continua na próxima postagem.

Post - Caraça hojeCaraça e santuário atual. Ao fundo, à direita: ruína da biblioteca incendiada.

• Clique com o botão direito e veja todos, “Nos passos do imperador” – de I a VIII) – I  | II  | III  | IV  | VI  | VII | VIII  

Compilação, adaptação, comentários e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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(1) Fonte do Diário: “Anuário do Museu Imperial”, vol. XVIII, 1957, versão e notas por Hélio Vianna. // Sumidoiro’s Blog corrigiu e atualizou grafias de palavras, alterou pontuações, tanto na transcrição do Diário, quanto nos noticiários da imprensa, preservando a integridade do conteúdo. Ainda acrescentou notas e ilustrou.

(2) O córrego Sujo é afluente do ribeirão da Mata, cuja bacia compreende os municípios de Capim Branco, Confins, Esmeraldas, Lagoa Santa, Matozinhos, Pedro Leopoldo, Ribeirão das Neves, São José da Lapa, Vespasiano e Santa Luzia, onde deságua no rio das Velhas.

(3) Anfíbolo – substância assim chamada por se assemelhar a outros minerais. É essencialmente composto de sílica, de cal e de magnésio, mas pode conter óxido de ferro, óxido de manganês. Cristaliza em prismas oblíquos de base romboidal. F. gr. Amphibolos (ambíguo).

(4) A manifestação do imperador, sobre o mau aproveitamento escolar dos alunos de Santa Luzia, provocou comentário de um político conservador, que estava presente: “- Governo de Liberais, majestade!”

(5) Baioneta – arma branca que se adapta na extremidade do cano da espingarda ou fuzil; sabre – arma branca, reta ou curva, com lâmina afiada só de um lado.

(6) Hospital São João de Deus – ainda existente -, fundado em 1840, por Manoel Ribeiro Viana (*1767 †1844), que tornou-se primeiro barão de Santa Luzia.

(7) Imponente residência situada no centro histórico de Santa Luzia – rua Direita -, denominada Solar da Baronesa.

(8) FRANCO, Quintiliano Rodrigues da Rocha – (*1788 †1854), 2° barão de Santa Luzia (em 1846), casado com a viúva do primeiro barão, Maria Alexandrina de Almeida.

(9) SANTOS, João Alves dos – (*Jaboticatubas, MG / †Jaboticatubas), filho do tenente- coronel Francisco Alves dos Santos Vianna – senhor de engenho, e de Maria Cecília de Souza Vianna (irmã de Francisco de Paula Fonseca Vianna, o visconde do Rio das velhas).

(10) Manga de água ou tromba d’água; por extensão, chuva de pouca duração.

(11) D. Pedro II, como também seu pai d. Pedro I, foram recebidos no solar de Jacinto Dias, que atualmente abriga a prefeitura de Sabará. A construção, de 1773, havia pertencido ao padre José Corrêa da Silva. Esse religioso foi acusado de crimes de inconfidência, entre eles de manter em Sabará “um colégio jesuítico” em sua residência, chamado pelo povo de Colégio São Roque, e que funcionava como uma espécie de sociedade literária. Portador de uma imensa biblioteca com vários títulos de autores jesuíticos (então censurados), Corrêa da Silva era o líder intelectual do grupo e foi acusado de atacar verbalmente o rei e o marquês de Pombal.

(12) Cuiabá, atualmente denomina-se Mestre Caetano (distrito de Sabará).

(13) MARINHO, Joaquim Saldanha – Líder maçônico, jornalista, sociólogo e político. Quando foi presidente da Província de Minas (1865/1867), mandou construir, uma ponte de madeira em Sabará, para transpor o rio das Velhas. O engenheiro foi Henrique Dumont, pai do aviador Santos Dumont.

(14) SANTOS, Luiz Antônio dos – (Angra dos Reis (RJ), *03.03.1817 / Bahia, 11.03.1891) Marquês do Monte Pascoal.

(15) LAGE, Mariano Procópio Ferreira – (Barbacena, 23.06.1821 / Juiz de Fora, †14.02.1872) Engenheiro e político, construtor da primeira estrada pavimentada do país, a União e Indústria, entre Petrópolis e Juiz de Fora.

(16) HORTA, Felisberto Caldeira Brant Pontes de Oliveira – (Mariana, *19.09.1772 / †13.06.1842) Militar, diplomata e político; primeiro visconde com grandeza e marquês de Barbacena.

(17) GORDON, James Newell – Superintendente da “St. John d’el Rey Mining Co.”, mina de Morro Velho.

(18) Pompéu – Atualmente é um bairro de Sabará, situado no centro do distrito de Mestre Caetano. Foi fundado,  no alvorecer do século XVIII, pelo paulista José Pompéu, um dos primeiros descobridores do ouro. Dizem os historiadores que teria sido morto pelos revoltosos Emboabas, em 1708.

(19) MOREIRA, João Pinto – (Caeté, *15.05.1836 / Caeté, †09.02.1876) Advogado e deputado provincial e geral.

(20) VASCONCELOS, José Teixeira da Fonseca – (Santa Quitéria *c. 1770 / Caeté, †10.02.1838) Médico, advogado, juiz e político; primeiro presidente da província de Minas Gerais e senador do império.

(21) SANTOS, Santos e – O mesmo nome e sobrenome.

(22) A mangabeira – hancornia speciosa – fornecia um tipo de látex com o qual produziram borracha e guta-percha, produto que foi muito usado pelos dentistas, em obturação e moldagem dentária.

(23) LOTT, Edward William Jacobson – (Exeter, Devon, Inglaterra, *04.06.1812 / Caeté, †1900), casado com Maria Theresa Caldeira Brant, neta de Felisberto Caldeira Brant, o Contratador de Diamantes; avô do marechal Henrique Batista Dufles Teixeira Lott.

(24) GOMIDE, Antônio Gonçalves – (*1770 †1835) Médico; senador do império por Minas Gerais.

(25) Veja o Post “No palco da vila” – abril, 2012.

(26) COUTINHO, João Baptista Ferreira de Souza Azeredo – (†1839) Capitão-mor e primeiro barão de Catas Altas. Proprietário de Gongo Soco.

(27) LEME, Pedro Dias Paes – (*1722 †1868) Marquês de São João Marcos; descendente do bandeirante Fernão Dias Paes. Foi casado com Rita Ricardina de Souza Coutinho da Cunha Porto e, depois, com Mariana Carolina de Souza Coutinho da Cunha Porto, ambas filhas de José Alves da Cunha Porto e de Mariana Perpétua de Souza Coutinho.

(28) GOUVEIA, Luiz Soares de (nome completo). 

(29) CUNHA, José Feliciano Pinto Coelho da – (*01.12.1792 / †09.07.1869) Militar e político brasileiro; primeiro e único barão de Cocais. / Participou do movimento da Independência, em 1822, e, em 1830, elegeu-se deputado geral do Império. Em 1833, fundou a Companhia de Mineração Brasileira da Serra de Cocais, associado aos ingleses da “National Mining Company”. Em 1835, foi noeado governador da província de Minas Gerais. Durante a Revolução Liberal, de 1842, foi nomeado pelos revoltosos seu comandante-chefe, lutando ao lado de Teófilo Ottoni, cônego Marinho e outros.

(30) PONTES, Felisberto Caldeira Brant – (*18o2 †1906) Segundo visconde de Barbacena, filho do marquês de Barbacena.

(31) VIÇOSO, Antônio Fereira – (*1787 †1875) conde da Conceição, sétimo bispo de Mariana.

(32) PISSIS, Pierre Joseph Aimé – (França, *17.05.1812 / Santiago do Chile †21.01.1889) Geólogo, geógrafo, desenhista e pintor. A obra citada foi publicada pela Académie des Sciences de L’Institut National de France.

(33) MARQUES, Manoel Martins (nome completo).

(34) PENA, Afonso Augusto Moreira – (Santa Bárbara, *30.11.1847 / Rio de Janeiro, †14.06.1909. Advogado e jurista. Deputado geral de de 1882 a 1885; Ministro da Guerra, Agricultura e Justiça; Governador de Minas Gerais, vice-presidente e presidente da República.

(35) Sumidouro é a denominação do lugar onde essas águas desaparecem.

(36) CLAVELIN, José Júlio – (*07.04.1834 †07.04.1909) Francês, padre lazarista (vicentino).

(37) COLLARO, Socrate – O padre se dizia natural da Pérsia, atualmente Irã.

 

15/09/2014

NOS PASSOS DO IMPERADOR (IV)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:28 am

♦ Visitando Lagoa Santa e Matozinhos 

O casal imperial d. Pedro II e dona Tereza Cristina, partiram do Rio de Janeiro, no dia 21.03.1881, sábado, às 6 horas da manhã, para conhecer Minas Gerais. O imperador cuidou de escrever um diário de viagem e a imprensa deu grande cobertura à visita. Parte desses acontecimentos são aqui revividos por Sumidoiro’s Blog(1), em continuação ao Post anterior.

Post - Lagoa Santa praçaPraça central de Lagoa Santa com a matriz de Nossa Senhora da Saúde.

Vindo de Sabará, em 6 de abril, o imperador passou parte do dia em Macaúbas (Santa Luzia), conhecendo as rotinas do antigo recolhimento, que funcionava também como convento e escola de meninas. Depois de jantar, recolheu-se bem cedo, às 9 e pouco da noite. A partir do dia seguinte, iria conhecer o lugar onde viveu o naturalista e paleontólogo Peter Lund(2), e as grutas de Lagoa Santa e Matozinhos. Para isso, teve de retornar no rio das Velhas até a altura de Pinhões e descer na margem esquerda, dali tomando o caminho que levava até Lagoa Santa.

Post - D Pedro miniDiário

ABRIL — 7 — (5a fa) Acordei, às 5. Chegaram ontem os diários do Rio, de 3. Saída às 3¼, até o embarque. Passagem do rio* (*das Velhas), na barca. Partida a cavalo, da margem oposta, às 6h 20′. Bom e lindo caminho. A vista de um alto descobre largo horizonte: Serra do Curral; Pico de Itabira(3); Serra da Piedade. Vim me informando de diversas árvores. O chapadão parece, pelo solo e arvoredo, o de São Francisco, saindo de Piranhas(4). Pequi, fruto de caroço espinhoso, que deve comer-se com cuidado para não ferir a boca e a língua. Barbatimão, que contém muito tanino; pau-terra, casca adstringente, boa para diarreia; bolsa-de-pastor, de casca boa para hidropsia. Depois vi a lobeira, de linda flor; e apanharam dois araticuns, num só ramo. Há os maiores.

Esquecia-me de dizer que, até o embarque, conversei com o padre Lana , muito doente de pericardite (veja ao final: “Memória do padre Lana”). Disse-me que o Instituto de Macaúbas tem seiscentos alqueires de terra. Num lugar chamado Retiro plantam cana, milho, etc. Vi outro padre, Castro, de guedelhas pretas* (*cabelos negros, longos e despenteados), cuja fisionomia revela hipocrisia e mais um que esteve em Petrópolis e missiona* (*prega).

Post - Macaubas - L SantaDe Macaúbas a Lagoa Santa. Em azul: rio das Velhas.

Às 8h ½, avistei a Lagoa Santa do alto de um morro. Lembrei-me do lago de Nicéia* (*na Ásia Menor), cujo aspecto é contudo mais pitoresco, ainda que mais risonho o da lagoa. Já antes tinha descoberto uma parte desta. Vieram pessoas a meu encontro e, entre elas, o dr. Inácio(5) e o barão do Rio das Velhas(6), que muito se parece com o dr. Bonifácio de Abreu(7). É irmão do deputado Fonseca Vianna(8), que já morreu. Monsenhor José Augusto disse-me ter já visto duas seriemas perto de Queluz. Neste caminho, aparecem muitas assim, como emas, estas sobretudo do lado do retiro de Macaúbas.

Post - Pequi & araticumPequi, por fora e por dentro. / Araticum.

A lagoa não corre em meses de seca, que são sobretudo os de julho e agosto. Atravessei o desaguadouro ao chegar ao povoado. As águas correm agora e vão ter ao rio das Velhas, quatro ou cinco léguas abaixo de Macaúbas. A entrada da povoação foi por entre hastes e ramos de bananeiras e outras plantas, algumas floridas, que produziam aprazível efeito.

Almoço, às 10h. Saída, às 11. Igreja* – insignificante, edificada há oitenta anos (*igreja de Nossa Senhora da Saúde). Casa do Lund(9). Percorri-a toda, vendo o quarto onde ele morreu de uma constipação, depois de bastante tempo doente. Falei com Nereu(10), que Lund protegeu desde menino, sendo o pai deste, a quem pedi também informações, leitor de português de Lund; e P. V. Roepstorff cand. fil., secretário dele, desde 1876. Lund vinha, em 1827, para a ilha da Reunião(11), por tísico em segundo grau; porém, tendo de passagem melhorado de saúde, no Rio de janeiro, só tornou em 1830 à Dinamarca. Piorou de saúde e voltou, em 1832, ao Brasil, viajando até Goiás, por Uberaba.

Post - Diário - IVDetalhe de página do Diário.

Fixou-se na Lagoa Santa, em 1834, de onde não saiu mais. Todos dizem ser lugar muito sadio, havendo muitos centenários, um de 137 (anos de idade), tendo morrido há pouco tempo, conforme refere o barão do rio das Velhas. Lund vivia muito retirado e quase que não lia em seus últimos anos. Anteriormente, gostava da companhia de senhoras e de música, cujos preceitos ensinou a Nereu. Este foi seu herdeiro dos bens no Brasil, tendo deixado em Copenhague mais duzentos contos fracos. Escrevia frequentemente ao professor Reinhart, mas sua correspondência e todos os manuscritos foram remetidos para Copenhague. Nereu deu-me notas escritas a respeito de Lund e prometeu-me cópia do testamento de Lund, em dinamarquês, e de suas últimas disposições.

O jardim tem muitas plantas que Lund plantou e removeram para uma casinha que, aí, está sua biblioteca. Não é pequena e compõe-se de obras importantes em anos atrasados, sobretudo relativas que ele cultivava. Perguntei muito se tinha deixado filho ou criara alguma relação afetuosa neste lugar. Responderam-me positivamente que não. Era de proceder castíssimo e muito esmoler. O pai de Nereu contou que, lendo a Lund “As Meditações do Conselheiro Bastos”(12) e, chegando a uma passagem em que estava S. Gregório, ele o mandara parar, assim como noutro lugar, que pareceu-me referir-se à doutrina religiosa. Parece que Lund só tinha a religião natural. Também o pai do Nereu lhe lera, com muito prazer dele, “Paulo e Virgínia”(13).

Post - LobeiraLobeira, o arbusto com a fruta de lobo e sua flor.

Duas escolas, ambas em edifícios acanhados, tendo a de meninas cento e três! Agradou-me algum tanto a professora, contudo, apesar de ser irmã do cura, as meninas não sabem explicar a doutrina. Aproveitei a ocasião para repetir que a doutrina religiosa deve-se ensinar somente na casa paterna e na igreja, ou templo, quando se possa ensinar aí, o que não sucede ainda no Brasil. São 2 (h), vou navegar a lagoa. Dizem-me que, há três anos, nos meses de julho, agosto e setembro, sobretudo, e de oito em oito dias, às vezes, sentiam-se estrondos e abalos de terra, às vezes com o intervalo oito minutos – os estrondos  que pareciam partir de N. E. – e se ouviam em Lagoa Santa e mais longe, e os abalos no lugar da Quinta do Sumidouro, e em sentido horizontal, batendo as vidraças e quebrando-se garrafas.

Post - Nereo & Mulher

Nereo (assim assinava) e esposa.

A lagoa tem, em alguns lugares, bastante fundo, e referem que, para o lado sul, surge uma mina que dá água à lagoa, de que não há notícia que não existisse. Não pude ver a edificação que está no fundo da lagoa, para o lado do povoado, porque há bastante água agora e o céu não estava claro(14). Na volta do passeio da lagoa, que é muito piscosa, não pegando contudo peixe nos anzóis, durante as paradas de barco, mandei que se dirigissem para a banda do escoamento, que não pude ver, por causa do juncal. Dizem ter ¾ de légua de comprido.

Chegada à casa às 4 (h). O Nereu deu-me, em casa do Lund, apontamentos que devem ser exatos. Logo que cheguei a Lagoa Santa, recebi carta de Gorceix dando-me informações sobre o que tenho de ver amanhã e depois. Chegada à casa às 4h. Descanso até o jantar, às 6h, porém, mesmo deitado pensarei e escrevo sobre a viagem. O barão do Rio das Velhas acha fácil a navegação de Macaúbas para baixo e, contudo, nesse trecho é que há as corredeiras onde Liais(15) correu risco. Da foz do Paraúna para baixo, ninguém aponta dificuldades e, dizem todos, que o terreno às margens do rio é fácil para o leito da estrada de ferro. Assim não me pareceu do rio, nem de Macaúbas até Lagoa Santa; verei, na volta para Sabará, quanto se pode julgar andando pela estrada ordinária.

Post - Quero casar“Eu quero me casar”, lundu que alegrou uma noite de d. Pedro II.

O tempo tem estado quente, desde a descida de Ouro Preto para a bacia do S. Francisco, à excessão das primeiras horas da navegação no rio das Velhas. Ouvi ainda sobre Lund que, no momento de ir-lhe ler os diários, o pai do Nereu achou sobre a mesa diversos óculos. Perguntou a Lund para que estavam ali e respondendo-lhe este que, talvez, precisasse de algum para ler-lhe, o que verificou logo, pelo clarear das letras dos diários encheram-lhe os olhos de lágrimas, ou por gratidão ou pelo desgosto da fraqueza da vista. O mesmo pai do Nereu avisou Lund de que um criado deste, de nome Foulon(16), de nacionalidade francesa, o furtava. Lund não quis acreditar mas, por fim,  declarou que, com efeito, via-se obrigado a despedir o Foulon que lhe furtara, talvez cinco contos.

Lund constituiu a Nereu uma pensão vitalícia com sobrevivência de 60$000 mensais à mulher, que principiou a gozar ainda na vida daquele e deixou-lhe no testamento o que possuía no Brasil: dinheiro e duas casas na Lagoa Santa. Depois do jantar, conversei. Veio Nereu com seu violão, sendo acompanhado pela irmã e a mulher. Ele toca com seu gosto e a irmã tem voz agradável e bem afinada. A mulher também cantou agradavelmente o lundu(17) mineiro “quero me casar, quero me casar”. Amanhã tenho de partir para a lapa da Aldeia, às 5h da madrugada. Vou tomar chá e dormir. São 9h.

Post - L Santa - Matozinhos - S LuziaDo Fidalgo Velho para Mocambo e, depois, Matozinhos. Detalhe: Mocambo. Em azul: rio das Velhas. 

VISITANDO AS GRUTAS

• O imperador não foi suficientemente explicito nos relatos. Por isso, em muitos pontos, é necessário apelar à imaginação. É importante, também, levar em consideração o que toca a espaço e tempo, senão as descrições ficam carentes de sentido. Ao final desta postagem, Sumidoiro’s Blog faz comentário procurando trazer mais luzes à narrativa de d. Pedro II.

Post - D Pedro miniDiário

ABRIL — 8 (6ª fª) – 5 h. Saída para a gruta da Aldeia. Chapadão de bela vista de madrugada. Engenho Fidalgo(18). Lapinha(19) pequena, povoação onde se explora uma gruta e bem situada; Poção, engenho de cana; Mocambo, idem, uma das cinco* (*fazendas) do vínculo da Jaguara(20). O caminho tinha sido preparado e estava bom. Quase sempre havia mais ou menos sombra antes de Mocambo e depois ainda, pois o caminho atravessava capoeiras mais ou menos espessas. Passa-se junto ou pouco longe de cinco ou seis depósitos de água das chuvas que, disse-me meu guia, Antônio Fonseca Vianna(21), secam depressa.

Post - Fazenda Mocambo MatozSede da fazenda do Mocambo.

Cheguei à gruta às 11 (h). Bonito mato a precede. Desce-se até defronte do rochedo de calcário pouco cristalino, entremeado de finas camadas de areia. A parte fronteira semelha um magnífico arco ou pórtico, com púlpito externo e um buraco parecendo uma rosácea. Raízes ou trepadeiras que parecem cordas pendem dessa fachada de igreja gótica e insinuam-se por entre as falhas da rocha. Estes cipós são cheios de sal, que sobre eles deposita a água, creio que nitrato de potassa, porque ele abunda no interior dessas grutas onde o apanham.

Post - Cerca GrandeMaciço da Cerca Grande.

À direita, fica a entrada da gruta, que (a) cobre uma espécie de chapéu de chaminé. Belos estalactites na primeira sala, semelhando uma imensa juba e outras bambinelas* (*cortina franjada de janela); passagem reptante* (*desafiadora, difícil) para a segunda sala, que é grande. Há uma parte nesta onde o teto tem cor esverdeada, originada por protococos* (*gênero de algas). Sobre a sala grande há um andar e, penso, que também outro inferior. Gorceix mandou abrir um buraco no fundo da sala grande, porém nada encontrou, senão a entrada provável do andar inferior.

Post - Rocha dos índiosInscrição no Rochedo dos Índios, em Cerca Grande (foto: Erika Bányal).

Na noite passada, já tinha um pequeno osso que eu trouxe. Estive na gruta (por) duas horas, tendo almoçado antes fora dela, debaixo das árvores. A água era salitrosa. Encontrei aí um Manuel Simeão dos Reis, que disse-me como Lund, em companhia, encontrara (?) o esqueleto na gruta da Escrivania(22). Simeão tirava salitre e, depois de achar os dedos dos pés e o resto do esqueleto, procurando mais dera com o crânio. A camada de salitre é relativamente moderna. 2h 10′. Volta de certa altura, seguiu-se outro caminho, pelo lado do Sumidouro, que vi ao longe, à direita, assim como a Quinta, do mesmo nome, num desbarrancado. Chegada às 8h 20′ (em Matozinhos). Comi alguma coisa. São perto de 10h.

Post - ponte Sta LuziaSanta Luzia e a antiga ponte de madeira.

ABRIL — 9 (sábado) 6h – Partimos para Santa Luzia. Esqueceu-me falar de algodoais bonitos que vi. Do junco que cresce às margens da Lagoa Nova, fazem diversas obras em que comerciam. Nereu mandou-me as obras de Lund, que pus à parte em sua livraria. Hei de levá-las para mandar traduzir as que tratam de fósseis, enviando cópia ao Gorceix. Dois dos repórteres(23) foram ver as grutas mais próximas, porém, penso que as acharam cheias de água. Gorceix voltou à Lagoa Santa, às 10 da noite. É preciso subir escada para entrar na gruta da varanda, de onde extraem salitre, com a terra de que ele viu separar nitrato, por meio de água em coadouro.

O barão do Rio das Velhas, ao sair da casa onde pousa, caiu da escada de pedra, de grande altura. Feriu bastante a testa(24) e contundiu fortemente o olho esquerdo. Tem vomitado. Fui vê-lo antes de sair. — DIÁRIO: continua na próxima postagem.

 Post - Casa do barãoSolar do barão do Rio das Velhas (em Matozinhos) onde hospedou-se d. Pedro II.

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FATOS E LENDAS

Post - Sumidoiro MARCA

Pelas palavras do Diário, deduz-se que, quando o imperador referiu-se à gruta da Aldeia, designava o lugar denominado aldeia do Mocambo. Próxima à essa aldeia, havia também a fazenda do Mocambo(25). Ao escrever que Quase sempre havia mais ou menos sombra antes de Mocambo…”, tornou evidente que esse era seu destino. A gruta que visitou estaria localizada naquela região, exatamente no importante maciço da Cerca Grande, o que justificaria o especial interesse em conhecê-la.

Poção seria fazenda dos Poções, que estava no caminho (vide mapa). O correspondente da “Gazeta de Notícias” – (RJ), enviou ao jornal a seguinte nota: “Lagoa Santa, 7 – […] S. M. o Imperador, a comitiva e o Dr. Gorceix pretende visitar amanhã a Lapa, aldeia distante 33 kilometros.” Pois sim, nessa distância se achava a lapa ou gruta da aldeia do Mocambo.(26)

Anotou o imperador que a chegada à gruta se deu às 11:00 h e a visitação durou duas horas. Depois, do lado de fora, à sombra de uma árvore, houve o almoço. Às 2:10 h, a caravana continuou viagem para a cidade de Matozinhos, distante pouco mais de 15 km, considerando a estrada hoje existente. D. Pedro II escreveu: “Volta de certa altura, seguiu-se outro caminho, pelo lado do Sumidouro, que vi ao longe, à direita, assim como a Quinta, do mesmo nome…” Aí, cometeu-se um equívoco, pois o Sumidouro fica à esquerda. O imperador chegou a Matozinhos às 8:20 da noite, para pernoitar no solar do barão do Rio das Velhas.

Post - Relógio do ImperadorEspaço e tempo no percurso Lagoa Santa – Santa Luzia.

Cabe observar outro detalhe no Diário. O visitante anotou que esteve em terras de Mocambo, mas isto não quer dizer que tenha chegado até a sede da propriedade. Entretanto, corre uma lenda de que teria pernoitado na fazenda do Mocambo onde, depois, promoveram uma grande festança em sua homenagem. Sem dúvida, isso é fruto de pura criatividade, mas que foi tomando ares de verdade.

A fantasia chegou ao ponto de ser publicada num jornal, dizendo que “o requinte da recepção ao […] monarca ganhou fama […] É que o barão […] providenciou o que melhor havia no além-mar, para a hospedagem de tão ilustre visitante. Desde louças inglesas, até o puro linho irlandês, sedas de Damasco, pratarias do reino, alfaias do oriente, além do reforço de sua adega com finos vinhos”, etc. Contudo, não houve tal homenagem, nem lá e em lugar nenhum. Após a chegada a Matozinhos, o imperador resumiu tudo em breves palavras: “Comi alguma coisa. São perto de 10 h.” 

Ainda disseram que teria sido convidado para uma caçada “nos campos que antecedem os campos na margem esquerda do rio das Velhas”, e que, para impressioná-lo, mandaram “escravos e perreiros que marcassem as praias com rastros de veados, por intermédio de uma pata de que se guardava dependurada de um dos capitéis da varanda da herdade”. Outra vez falsearam os acontecimentos, pois não haveria tempo para a tal caçada, principalmente porque o rio corre à leste do Mocambo, a  muitos quilômetros de distância. Então já é tempo de colocar as coisas nos devidos lugares.

De qualquer forma, o imperador não deixou de manifestar o agradecimento pelas cortesias que lhe foram prestadas pelo barão – Francisco de Paula. Algum tempo depois, elevou-o a visconde do Rio das Velhas.

Post - Carta de ViscondeDiploma do visconde do Rio das Velhas (Francisco de Paula da Fonseca Vianna).

MOCAMBO E CERCA GRANDE

A gruta da Cerca Grande é o sítio arqueológico mais importante da região de Matozinhos, cujo maciço tem 2 km de comprimento, com sete entradas e treze aberturas para o exterior. Foi uma das primeiras que Peter Lund visitou(27), junto com seu desenhista Peter Brandt(28) e, logo, ambos se encantaram com o que viram. Está em um rochedo de pedra calcária possui uma face íngreme e se estende, do lado posterior, junto a uma várzea que é inundada pela águas das chuvas. São imponentes algumas das suas paredes internas, que chegam a mais de trinta metros de altura e magníficas pinturas rupestres. São muito antigas e algumas parecem ter mais de oito mil anos de idade.

Ali foram encontrados também fósseis humanos, de animais, e artefatos dos habitantes primitivos da região. Denominavam a elevação de Rochedo dos Índios, talvez assim chamada por imaginarem que as inscrições e desenhos, encontrados no seu interior, tivessem sido feitos por “selvagens”. O local era muito conhecido pelos habitantes da região, de onde retiravam salitre, especialmente para a fabricação de pólvora.

Com emoção Lund descreveu seu primeiro contato com a Lapa dos Índios: “Julguei ter diante de mim as ruínas de um vetusto palácio de gigantes e meus olhos demoraram-se na contemplação de uma série de altas arcadas escavadas na asa esquerda, como se esperasse descobrir aí, os vestígios de seus habitantes misteriosos.”

Post - Rochedo Índios modifRochedo dos Índios no Mocambo – Indianerklippen ved Mocambo (d’après P. Brandt).

Em um desenho, Peter Brandt representou um momento em que ele e Lund, montados a cavalo, chegam ao Rochedo do Índios (ilustração acima). Ao pé da elevação, há um pequeno casario, provavelmente habitações dos mocambeiros(29), os negros da Aldeia do Mocambo. Em linha reta, Cerca Grande está a pouco mais de 10 km da cabeceira da pista do aeroporto de Confins e a 13 km da região central de Lagoa Santa. A localização de Mocambo e Cerca Grande pode ser vista pelo Google Maps, colando na janela de busca as coordenadas em negrito: -19.544626, -43.994148 .

Post - O PharolMEMÓRIA DO PADRE LANA

• Falecido em Macaúbas, em 20.12.1886.

No jornal “O Pharol”, de Juiz de Fora (MG), 08.09.1892:

“Eu era seminarista e tinha apenas vinte e um anos de idade. Um de meus professores, que de perto conhecia o padre Lana, citava este nome como um tipo de virtudes e como homem ilustrado, digno, sob todos os pontos de vista, de ser imitado. […] Desejava ardentemente conhecer o padre Lana, que de tanta fama gozava […]

O leitor já sabe que o virtuoso sacerdote […] era capelão e diretor do convento de Macaúbas. Aí residiu trinta e sete anos, santificando a todos que a ele achegavam. Era a alma do convento e dele sempre dependeu a boa administração do estabelecimento. […] Descrever a viva impressão que senti ao ver o padre Lana, na porta da capela do convento, é-me quase impossível, atenta a ideia preconcebida que dele eu fazia […]

Alto magro, corado, cabelos brancos e flutuantes sobre as espáduas, trêmulo como um levita* (*diácono) no dia da ordenação; titubeante e quase sem poder ler a oração do cerimonial episcopal, estava de pé no limiar da porta a figura majestosa do padre Lana, que me fazia lembrar aqueles anacoretas* (*penitentes que vivem na solidão) de que nos falam as crônicas do ermo da Tebaida* (*região do Egito).

Simples no trato, dócil na conversação, resoluto e firme nas respostas, humilde na discussão, o velho quase octogenário se impunha a seus colegas, sem ter essa pretenção […] Possuía vastos conhecimentos de história natural e classificava com facilidade as plantas de nossa flora. Estudando dia e noite, padre Lana não teve a veleidade de conquistar um título científico e os louros de suas lucubrações. Nenhum escrito legou-nos esse inimitável sacerdote […]

Já alquebrado pelos anos e minada sua existência por contínuas enfermidades, o virtuoso padre Lana deixou esta terra por onde passou fazendo o bem e foi-se para a vida da eternidade. Apenas correu a notícia da sua morte, o povo das freguesias vizinhas começou a afluir ao convento de Macaúbas. Todos disputaram à porfia a entrada da porta, para vê-lo e beijar-lhe as mãos, já que não se estendiam para distribuir benefícios aos pobres. Cada um queria possuir uma relíquia, uma lembrança de tão virtuoso sacerdote […]” – Padre João Emílio Ferreira da Silva (fundador do Asilo João Emílio, de Juiz de Fora).

Post - Óbito padre LanaObituário do padre Lana: jornal “A Província de Minas”, Ouro Preto, 29.01.1887, p. 1.

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• Clique com o botão direito e veja todos, “Nos passos do imperador” – de I a VIII) – I  | II | III  | V | VI  | VII  | VIII 

Compilação, adaptação, comentários e arte por Eduardo de Paula

— Imagens cartográficas deste Post foram retiradas de mapa do Departamento Geográfico de Minas Gerais, 1950

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella / Colaboração: Carlos Aníbal Fernandes de Almeida 

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(1) Fonte do Diário: “Anuário do Museu Imperial”, vol. XVIII, 1957, versão e notas por Hélio Vianna. // Sumidoiro’s Blog corrigiu e atualizou grafias de palavras, alterou pontuações, tanto na transcrição do Diário, quanto nos noticiários da imprensa, preservando a integridade do conteúdo. Ainda acrescentou outras notas e ilustrou. // Sumidoiro’s Blog teve acesso à reprodução do manuscrito original, referente ao trecho Macaúbas – Lagoa Santa – Matozinhos – Santa Luzia.

(2) LUND, Peter Wilhelm – Naturalista e paleontólogo dinamarquês (veja o Post “Bendita Lagoa Santa”, agosto, 2011).

(3) Engano de d. Pedro II, o pico de Itabira não é visível de Macaúbas.

(4) Piranhas é município ao oeste do Estado de Alagoas.

(5) MARTINS, Ignacio Antônio de Assis − Visconde de Assis Martins, (Sabará, *16.11.1839 / †02.03.1903). Advogado, juiz e político. Filho de Francisco Assis Martins Costa e Eufrásia Assis. Casou-se com Angelina Silvina Moreira, viúva de Theodoro Barbosa da Silva. Foi deputado provincial, deputado geral e senador do Império do Brasil, de 1884 a 1889.

(6) VIANNA, Francisco de Paula da Fonseca – Nasceu em 02.04.1815, na fazenda dos Angicos que, na época, pertencia à freguesia de Santa Luzia e estava no município de Sabará. É o filho primogênito de José de Souza Vianna e Maria Cândida de Assumpção da Fonseca Ferreira; neto de Bernardo de Souza Vianna e Angélica Maria Pacheco Ribeiro (veja os Posts “A família de Bernardo”, maio, 2011 – “Dumont, Vianna & Cia.”, março, 2012 – e “Notícia de José e Maria”, dezembro, 2013).

(7) ABREU, Bonifácio Francisco de – (Barra, *29.11.1819 / †30.07.1887) Barão da Vila da Barra, médico, político e poeta. Coronel-cirurgião honorário do exército, por serviços prestados durante a Guerra do Paraguai. Foi Presidente das províncias do Pará, em 1872, e de Minas Gerais, em 1876. Sócio do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia.

(8) VIANNA, Antônio da Fonseca – (*1816 / †1871) Médico, deputado provincial (1858/1861) e geral (1861/1868). 

(9) A casa de Peter Lund está situada na região mais central de Lagoa Santa. Foi sendo descaracterizada com várias reformas e, atualmente, abriga um grupo escolar.

(10) SANTOS, Nereo Cecílio dos – (*15.05.1852 / †13.09.1922) Filho adotivo e secretário de Peter Lund (veja o Post “Querido filho Nereo”, setembro, 2011).

(11) Ilha da Reunião – Departamento francês, localizado a leste de Madagáscar, no oceano Índico. A principal é uma das duas maiores ilhas Mascarenhas, sendo sua vizinha mais próxima a Maurícia. Possui várias dependências, em torno de Madagáscar, no Índico e no canal de Moçambique. A capital é Saint-Denis.

(12) BASTOS, José Joaquim Rodrigues de – “Meditações ou discursos religiosos”, Lisboa, 1842.

(13) SAINT-PIERRE, Jacques-Henri Bernardin de – Autor (francês) publicou “Paulo e Virgínia”, em 1788. O clássico da literatura universal representa o ideal do iluminismo, que defendia uma sociedade perfeita onde a felicidade dependeria do respeito aos direitos humanos.

(14) Casa d’água – Versão tropical de casa em estilo norueguês, edificada por Peter Brandt (desenhista de Lund), que estava situada junto ao sangradouro da lagoa. 

(15) LIAIS, Emmanuel – (*15.02.1826 / †05.03.1900) Botânico, astrônomo, explorador e político francês.

(16) FOULON é o correto, mas Hélio Vianna leu e escreveu Toulon. Em Lagoa Santa, vivia a família de um francês, Foulon, proprietário de uma estalagem. O criado citado poderia tratar-se de um familiar dessa pessoa.

(17) Lundu ou lundum, gênero musical e dança folclórica de origem afro-brasileira, criada a partir dos batuques dos escravos.

(18) Engenho Fidalgo – Fazenda junto à cidade de Lagoa Santa. O nome tem origem no sítio próximo, onde foi assassinado o fidalgo espanhol d. Rodrigo de Castel Blanco, a mando do bandeirante Borba Gato (veja o Post “Visita ao Sumidouro”, janeiro, 2014).

(19) Lapinha – Lugarejo, entre Lagoa Santa e a Quinta do Sumidouro, onde existe uma gruta, que também foi pesquisada por Lund.

(20) Jaguara – Fazenda sede do Vínculo da Jaguara, hoje pertencente ao município de Matozinhos (veja o Post “A fazenda de muita história”, janeiro, 2012).

(21) Filho da irmã do visconde do Rio das Velhas, Bernarda Cândida de Souza Vianna (bt 24.09.1822) e do major Antônio Ribeiro da Fonseca.

(22) Escrivania – Lapa localizada na fazenda de mesmo nome, em Prudente de Morais (MG).

(23) Repórteres que acompanharam a comitiva de d. Pedro II: José Carlos de Carvalho, ex-oficial tenente da marinha, da “Gazeta de Notícias”; J. Tinoco, do “Jornal do Comércio”; e J. de Vasconcelos, do “Cruzeiro”.

(24) Anotação de pé de página (p. 89), por Hélio Vianna, na transcrição do Diário: “… o Imperador, sabendo que o Sr. Barão do Rio das Velhas caíra, às 4 horas da madrugada, de uma escada, ferindo o rosto, foi visitá-lo, encarregando o Senhor barão de Maceió de prestar-lhe os socorros […] (que) julgou grave o estado do enfermo, pois hoje, pela manhã, já apresentava […] sintomas de congestão cerebral. O barão de Maceió, dr. Antônio Teixeira da Rocha, era o médico imperial da câmara, que acompanhava suas majestades. Conservou o visconde do Rio das Velhas, na testa, a marca daquele ferimento, conforme pode ser vista em sua fotografia“.

(25) Fazenda do Mocambo – desmembrada do antigo Vínculo da Jaguara (veja o Post “Dumont, Vianna & Cia.”, março, 2012).

(26) “Gazeta de Noticias”, 11.o4.1881, p.1.

(27) O historiador Pedro Ernesto de Luna Filho, citando a primeira passagem de Lund e Brandt pela lapa de Cerca Grande, faz a referência: “Em seguida visitaram a Lapa d’Aldeia…” e nada mais acrescenta. Fonte: tese de pós-graduação “Peter Wilhelm Lund: o auge das suas investigações científicas e a razão para o término das suas pesquisas” (USP, 1967, p. 116).

(28) BRANDT, Peter Andreas – Veja os Posts “Bendita Lagoa Santa” , agosto, 2011 – e “Os olhares de Brandt”, fevereiro, 2013.

(29) Mocambeiro – Aquele que se foragia ou morava em mocambo [refúgio] (diz-se de ou do escravo); quilombeiro.

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