Sumidoiro's Blog

15/01/2017

A VOZ POPULAR

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 9:03 am

♦ Com o perdão do cacoete

post-bacalhau

Mensagem às amigas e aos amigos:

Agora vou lhes contar uma doideira que presenciei. Aliás, tem sido a coisa mais comum hoje em dia nesse hospício, visto que o mundo está de cabeça para baixo e quase toda gente pirou. Foi assim:

Dias atrás, chegava ao meu clube e duas jovens funcionárias estavam a tratar das suas obrigações. Uma disse para outra:

” – Você vai ficar aqui observando, tipo me avisar.”

Entendeu? Eu, por sorte, entendi. Eureca! Assim, pude enriquecer meu vernáculo, de modo a me adaptar aos tempos modernos e tirar a pecha de ultrapassado.

Assim é que, usando a receita, estou agora a me comunicar. Minha rotina tem sido chegar ao clube e cumprimentar meus amigos dizendo oi, tipo dar bom-dia. Depois, trato de vestir minha sunga, tipo entrar na piscina. Em seguida, tento dar umas braçadas, tipo nadar. Lá pelo meio-dia, sempre me dirijo ao vestiário, tipo trocar de roupa. Finalmente, retorno à minha casa, tipo almoçar.

Mas, outro dia, tive uma contrariedade, devido ao meu hábito de variar o cardápio, tipo almoçar fora. O restaurante do Porto é o meu preferido. Assim, em nova visita e tendo boa companhia, lá usei o mesmo cacoete. Tão logo folheei o cardápio, não tive dúvida e assim pedi modernamente ao Manoel, garçom natural do Porto:

“- Para mim, peixe, tipo bacalhau e uma bebida, tipo vinho.”

De pronto, o gentil atendente esclareceu, tipo curto e grosso, no feitio dos portugueses. Todos sabem que eles não são muito afeitos às metáforas. E foram suas palavras:

“-  Peixe tipo bacalhau o ‘sinhoire’ encontra na feira e groselha infelizmente nós não temos. Se quiseres bacalhau do Porto posso ‘trazeire’ e, também, vinhos do Douro e do Alentejo, entr’outros.”

Ora pois! Aqui no Brasil, é mesmo tudo diferente do além-mar. Então, terminado o bacalhau, estava eu meio que saindo do restaurante, tipo esperando o troco, quando, de soslaio, ouvi uma conversa na mesa vizinha, meio que falando assim:

“- Menina, comprei uma blusa tipo meia lisa, mas estou arrependida.”

Disso, bateu-me a dúvida, será que ela teria comprado blusa ou meia? Porém, chegada a vez da outra falar, tudo ficou pior:

“- Querida, eu acho mais bonita tipo lisa do que listrada.”

Jesus, socorro! Creio em Deus padre… O que liso tem a ver com listrado? No meu caso, prefiro tipo listrada e ainda faço questão que seja tipo lisa. Gosto do tecido suave ao toque. Por outro lado, creio eu, listrado é mais jovial. Ai que alegria, se eu pudesse usar uma camisa bem lisa, tipo seda, porém tipo listrada!

Finalmente, já sentindo uma indigestão no pensamento, retirei-me do restaurante do Porto. Mas, lá da calçada, ainda percebi as amigas tipo conversando ao celular. Com quem estariam se comunicando? O Chacrinha(1) dizia que “quem não se comunica, se trumbica” e até cheguei a acreditar. Embora não tire a razão do humorista, agora baixou-me a dúvida, pois estou a ver que tem gente que se comunica mal, tipo se trumbica.

De qualquer modo, não abandonem o tipo. Dizem alguns dos melhores linguistas que a língua é viva e nela tudo é aceitável, nem que seja tipo superar a falta de vocabulário. Ou seja, tipo a voz do povo é a voz de Deus! Entendeu? Então, quando lhes faltar fôlego ou quiserem ser modernos, usem a mágica palavrinha, abusem e fiquem numa boa. Tipo num tou nem aí.

Minhas queridas e meus queridos, “good afternoon”tipo boa-noite. Tipo amém nós todos, com um abraço do autor, tipo amigo.

Por Eduardo de Paula

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(1) MEDEIROS, Abelardo Barbosa de (Chacrinha) – (Surubim, Pernambuco, *30.09.1917 / Rio de Janeiro, †30.06.1988) Apresentador de programas de auditório – rádio e tv – , de enorme sucesso da década de 1950 a 1980. Entre outras, autor da célebre frase: “Na televisão, nada se cria, tudo se copia”.

01/01/2017

O SÍNDICO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 12:01 am

♦ Em nome da mãe

post-o-sindico

post-tudo começou com Maria lavadeira, honesta e trabalhadeira, e dona de uma grande alma. Nascera de pai desconhecido e, daí, veio o seu sobrenome, nessa terra dos sem estirpe. Fôra adereço inventado, buscando os complementos no céu e, nessa regra, batizada como Maria do Divino Espírito Santo. Assim é que se fazia com os bastardos.

A mesma música que tocaram para sua mãe, movimentaram os passos da vida que lhe foi possível. Desse modo, sem fugir à partitura, Maria teve um filho e, do pai, só ela teve conhecimento. Mas, logo, veio a decepção. Enquanto ainda amamentava o neonato, o companheiro falhou na palavra e trocou-a por outra. Depois, quando o pimpolho foi tomando corpo – graças a Deus! –, ela vislumbrou nele um grande porvir.

Por isso, tratou logo de batizá-lo, para ter a proteção do Senhor, tal como ela. E, para isso, escolheu um nome de bom futuro: Bartoleu José do Espírito Santo. Nessa hora, o Divino, dela própria, ficou para trás, descartado. E lá foi Maria, lavando roupa, juntando seus trocados e comprando lápis, cadernos, livros e borracha, na esperança do menino, um dia, virar doutor.

A primeira etapa do projeto, a contento funcionou. Bartoleu conseguiu fazer o primeiro e segundo graus, numa escola da pátria educadora(1). Com isso, ganhou diploma de analfabeto funcional(2). E, então, foi fazer vestibular. Primeiro tentou ser médico, não conseguiu… Depois, tentou ser advogado, não conseguiu… Tentou ser engenheiro, não conseguiu… Quando já estava quase desistindo, teve uma inspiração e pensou numa coisa menos importante. Tentou ser, professor… Não conseguiu!

Naquela altura dos acontecimentos, já estava lá com seus 30 anos de idade, e baixou tristeza. O jeito foi chorar no colo da mamãe. Sorte é que Maria era mulher forte, com visão de futuro e experiência do passado. Por isso, havia guardado um dinheirinho na poupança, durante anos, o qual foi presenteado a Bartoleu, para trazer de volta sua alegria.

Com isso, teve ele como comprar um apartamento a prestação, porque já lhe passava ideia de ter esposa. O desejo de se casar no cartório e na igreja já o perseguia há muito tempo. Queria mudar a regra da sua mãe. Desejava colocar uma pá de cal nessa família de gente sem estirpe. Mas, ao mesmo tempo, tinha muita fé de que iria repassar para os seus descendentes o sagrado sobrenome, inspirado no Santo Espírito.

Tudo foi caminhando bem, namorou e casou-se, de papel passado. Até que chegou o dia em que mudou-se para um apartamento novinho. Quando se instalou na habitação, passou a ter nova experiência de vida. Estava a conviver numa comunidade mais sofisticada, andava de elevador, onde ninguém olhava um para o outro. Lá tinha play-ground, ambiente muito seguro e discreto para os moradores fazerem fofocas e, especialmente, praticar o máximo desse lazer: falar mal uns dos outros.

Mas, é claro, Bartoleu tinha educação de berço e não era dado a qualquer tipo de mau comportamento, por isso sempre permaneceu na sua: mudo! Cumprimentava a todos. Quando queria passar, pedia licença, dava bom-dia e, também, boa-tarde, a porteiros, faxineiras e ao carteiro.

Contudo, lá do prédio, o resto do povo não compreendeu seu modo de ser e, alguns, taxavam-no de capiau. Outros, achavam que era simplório, meio ingênuo, mas, quando estava ausente, chamavam-no de bobo. Começaram até a debochar do seu sobrenome Espírito Santo. Diante disso, o ofendido tomou uma atitude drástica. Fez uma circular aos condôminos e disse que passaria a se chamar Bartoleu José.

Contudo, sua alegria durou pouco. No prédio, morava um bando de adolescentes que, ao saberem que eliminara parte da sua identificação, deram-lhe o apelido de Zé-Sem-Espírito. Mas, como todos sabem, “sem espírito’ serve também para dizer sem graça, não é? E, desse modo, a vida do Bartoleu José virou um inferno.

Mas, o sofrido José não desistiu e, para impor autoridade, decidiu ser síndico. Não conseguira ser médico, advogado ou professor, mas haveria de comandar um condomínio! Foi eleito, por unanimidade de votos e comunicou a façanha, por carta, à mamãe Maria, àquela altura já bem velhinha. Estava ele orgulhoso de poder dizer que, finalmente, era uma autoridade. Porém, não estava livre de preocupações, pois sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que mostrar serviço.

Os dias foram passando, mas o apelido Zé-Sem-Espírito pegou e nunca mais desgrudou. A salvação do síndico neófito, na tentativa de apagar as maledicências, seria demonstrar competência. Nesse sentido, resolveu pedir auxílio a um sábio morador, um velho que, desde que ali chegara, havia lhe dado a mão e gentis boas-vindas. A dificuldade primeira, que atormentava o Zé e não o deixava nem dormir, era como comandar uma reunião.

Porém, o velho sabia o caminho das pedras e deu-lhe um bom conselho: “- Liga a tv e assiste os debates do Supremo.” Melhor escola não poderia existir e o empossado síndico devorou, com olhos e ouvidos, as aulas on-line. Pois bem, depois de algum tempo, o aluno sentiu-se muito bem preparado, mas havia uma palavra que não ficou ao alcance da sua sensibilidade: data venia(3).

Então, voltou ao velho e pediu explicações. Sem tardar, o amigo condômino mostrou-se muito prestativo e, com sua primorosa didática, passou a explicar. Olha! Data venia é do latim. É um jeito educado de dizer que não concorda, sem ofender. Também de refutar ou dizer o contrário. E avisou: nesses debates, todos querem mesmo é vencer e, sempre há um que pretende ser o campeão. Mas nunca se pode passar a impressão de estar sendo mal-educado com o inimigo. A regra é essa, primeiro você sopra, depois morde.

A princípio, o Zé não entendeu bem e pediu: “- Explica melhor.”

O velho então disse: “- Vou ser mais explícito” – e foi continuando. “- Olha! Se você precisar dizer, por exemplo, que não está levando a pessoa a sério, fala: data venia, e acrescenta qualquer coisa que, assim, nunca ofende. Junta a palavra cachimônia, juro que ficarão estupefatos.” 

Dito isso, o síndico, até então desamparado, entendeu e ficou todo cheio de si, esperando a estreia. Chegado dia e hora da primeira reunião, o Zé, de peito aberto, deu início à sua sessão inaugural. Ao correr do tempo, cada participante queria dar o ar da sua graça e sucederam-se palavras e mais palavras. Tudo ia correndo muito bem. Um dizia acho isso, outro dizia acho aquilo, um terceiro dizia aquilo outro…

Era um achismo total mas, certamente, deixando as soluções por conta do administrador recém-vindo. Entretanto, o síndico, mesmo munido de toda boa-vontade, começou a ficar aflito com tanto palpite e já sabendo que as cobranças viriam.

Porém, de repente, o Zé acordou e percebeu que um dos condôminos estava a fim de lhe criar obstáculos, talvez por puro sadismo. Então, lembrou-se do que aprendera e apelou para as palavras mágicas. E, em alto e bom som, pronunciou:

“- Data venia, pela sua cachimônia*, não estou levando o senhor a sério…” — * Mente, cabeça, inteligência, intelecto, sagacidade, perspicácia. (4)

E sabe que funcionou? Deu um branco geral, ninguém entendeu nada, a reunião mudou de rumo, e todos até esqueceram o que estavam ali a fazer. Daí, foi dada a partida para a conversa virar uma barafunda, os homens falando de futebol e as mulheres da novela das 8. Até que foi encerrada a sessão, sem pé, nem cabeça e, muito menos, conclusões. E lavrou-se tudo em ata.

No dia seguinte, o Bartoleu José do Espírito Santo postou no correio uma carta para dona Maria do Divino. A primeira frase foi essa: “- Mamãe, venci!”

Texto e arte por Eduardo de Paula

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post-cachimo%cc%82nia(1) Pátria educadora: slogan de um antigo governo.

(2) Analfabetismo funcional: incapacidade de compreender textos simples. A deficiência ocorre quando as pessoas, mesmo capacitadas a decodificar minimamente as letras – geralmente frases, sentenças, textos curtos e os números –, não desenvolvem habilidade de interpretação de textos e de fazer operações matemáticas.
(3) DATA VENIA, no dicionário: expressão respeitosa com a qual se inicia uma argumentação, contrariando a opinião de outrem; com a devida licença.

(4) Cachimônia (imagem ao lado) – “Suplemento ao Vocabulário Portuguez e Latino”, pelo padre doutor Rafael Bluteau, Lisboa, 1721. / fazenda = dinheiro.

30/11/2016

A SANTA E O CARRASCO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:14 am

♦ Como dói!

É uma história de vida e de morte… Permanece nas memórias populares de Curvelo – sertão de Minas Gerais –, e vem de tempos do século XIX, desde quando nasceu uma menina, que depois virou santa. Na sua juventude, ela presenciou cenas de horror no enforcamento de escravos. À mesma época, houve um famoso carrasco. As vidas dos dois se entrecruzaram. 

Post - Reginalda & Fortunato Reginalda (idealização), capela de N. S. do Rosário (demolida em 1912) e Fortunato no leito de morte.

HISTÓRIA DO CARRASCO

O algoz chamava-se Fortunato José – um mulato – e fora convocado para passar a corda no pescoço de um escravo negro, condenado à pena máxima. A vítima ganhara notoriedade por ter matado o trisavô de Guimarães Rosa(1). Famoso escritor, ele guardou memórias familiares de um desses enforcamentos. São suas palavras:

“… parece que o último enforcamento em patíbulo público, em Minas, se deu foi no Curvelo, com um preto que matara seu senhor, meu trisavô materno.”

Trata-se do escravo Celestino Crioulo que, por engano, tirou a vida de sinhá Beatriz Maria de Jesus, mulher do seu senhor Francisco de Assis Guimarães. A execução não foi a última em Curvelo, como pensou Guimarães Rosa, mas esteve entre as derradeiras no Brasil. De fato, o renomado, competente e mui requisitado Fortunato retornou a Curvelo, a fim de ceifar mais vidas. Quem conta alguns detalhes é Enny Guimarães de Paula(2), também trineta da vítima, desse modo:

“… Celestino Crioulo tinha o mau costume de pegar coisas alheias. Sinhá Beatriz quando o apanhava em flagrante, mandava surrá-lo no tronco. Tendo acontecido isso mais de uma vez, ele enraivecido desejou matá-la. […] arquitetou um plano: levaria o patrão ao canavial que existia pertinho da casa, e lá o agrediria […] Francisco gritaria e a esposa iria socorrê-lo […] nessa hora […] a mataria. Mas não aconteceu assim […] ao dar a paulada no sinhô Chico, exagerou na força […] ele caiu semimorto […] deu outras pauladas e facadas para acabar de matá-lo e fugiu”. — A palavra crioulo designa o negro sul-americano, filho de negros.

Post - SurraSurrando o escravo (d’àprès A. Agostini)

E continua:

Beatriz, descobrindo o acontecido, ficou revoltada […] Logo após o enterro do marido, reuniu todos os escravos e empregados da fazenda e foram procurar […] Encontraram Celestino bem no fundo de uma mata. […] Bateram muito, […] muito mesmo e, depois, o levaram para Curvelo para ser julgado.”

Mas como aconteciam esses teatros dos horrores? Há vários relatos sobre enforcamentos e a alguns deles, senão todos, Reginalda poderia ter presenciado. O historiador Antônio Gabriel Diniz(3) escreveu:

“O carrasco Fortunato exercitou seu horroroso ofício em Curvelo por três vezes. Dos livros de atas da Câmara Municipal consta que, reunida a dez de setembro de 1850, ela deliberou sobre um ofício do Juiz Municipal do termo, que lhe cientificara haver o presidente da Província ordenado o cumprimento da sentença que condenara a forca o escravo Celestino Creoulo”.

O juiz sentenciou, o governador reconheceu e encaminhou a decisão à municipalidade que, depois dos prós e contras, continuou movimentando a roda da morte. Esta foi uma anotação encontrada por A. G. Diniz:

“No dia seguinte, foi expedido ao fiscal distrital o seguinte ofício: ‘Ilmo. Sr. – Fazendo ver à Câmara Municipal desta Vila, ao Dr. Juiz Municipal deste Termo que se desse execução à sentença do Juiz que condenou à morte o preso Celestino Creoulo, pelo assassínio perpetrado por ele em seu senhor Francisco de Assis Guimarães, cumpre que V. S. designado, quanto antes, faça levantar no Pau da Reforma em lugar por V. S. designado, a competente forca, assim como dará todas as providências a respeito. Deus guarde VS. Vila de Curvelo, onze de Setembro de 1850. Ilmo. Snr. Fiscal do Distrito desta Vila.  (L. 8 do Of., aberto aos 10.3.1847)

O enforcamento de Celestino ocorreu entre setembro e outubro de 1851, junto a uma árvore conhecida como Pau da Reforma, situada na rua do Pelado, local descampado, onde habitualmente montavam os circos que chegavam à cidade.

O assassinato de Francisco de Assis Guimarães ocorreu na vila de Tabuleiro Grande(4), município de Curvelo e, para o enforcamento, o erário arcou com as despesas. Conforme consta em uma anotação do arquivo de A. G. Diniz, ficaram restos a pagar, quitados no ano seguinte:

“P. 34 1852 – Maio 8 – Pelo procurador da Câmara foram pagas as despesas que se fizeram com a execução da sentença que condenou à pena de morte o réu Celestino – 25$200

Post - Contas forcaDespesas para o enforcamento: transcrição do historiador Antônio Gabriel Diniz.

No mesmo arquivo, há anotação na folha 42, que deve referir-se à execução do condenado João Paulo Pereira(5). Pelo procedimento, ocorrido em setembro de 1852, houve a seguinte despesa:

Fls 42 – 7bro (setembro) 25 – Pagou o município a diária do Algoz (Fortunato), qdo. partiu (retornou) para Ouro Preto – 1$720”.

Depois, houve o enforcamento de Cassemiro Pereira da Silva e há a seguinte anotação:

Pg. 79 – 17 abril 1854  Pagamento a Francisco José dos Santos o feitio de uma escada de aroeira lavrada para a forca 7$000
Pg. 79 – Pagamento para o dito por duas taboas para a mesma forca 2$000 
Pg. 80 – Pagamento por 2 esteios de aroeira para a mesma forca 3$000
Pg. 85  27 abril – 1854 – Pagamento para quanto pagou de barbante para a corda com que se tem de executar na pessoa de Cassemiro Pereira da Silva – 1$500
Feitio da corda – 1$500
Por 2 galinhas $500

Post - Enforcado CurveloCena (imaginária) do enforcamento junto ao Pau da Reforma. 

O PERFIL

O escritor Gustavo Barroso(6) escreveu sobre o verdugo Fortunato e também traçou um perfil dos carrascos brasileiros:

“Quando tivemos a pena de morte no Brasil, isto é, desde os tempos coloniais até o fim do Império, o instrumento usado para as execuções foi a forca. Mesmo para crimes políticos. Assim ocorreram, por exemplo, Bequimão, o Tiradentes, Ratcliff, Metrovitch, Frei Caneca e outros. ///

Foi d. Pedro II quem aboliu, não juridicamente, mas de fato, o funcionamento da forca no Brasil, comutando todas as penas de morte em prisão perpétua, depois do erro judiciário que levara ao patíbulo o inocente fazendeiro campista Mota Coqueiro.

Carrasco oficial, titulado, funcionário público, nunca houve no nosso pais. Por isso, os executores, das altas obras da Justiça eram outros criminosos, que ganhavam por se sujeitarem ao odioso mister certas vantagens, ou, na generalidade dos casos, pobres escravos. Como a maioria dos que padeceram morte natural na forca, para empregar a expressão jurídica da época, foram escravos, vê-se que uns desses infelizes enforcavam os outros. ///

Entre esses carrascos à força, condenados a galés ou míseros escravos, às vezes também condenados, o mais famoso foi o de Ouro Preto, que serviu a Mariana, Bonfim, Serro, Conceição, Leopoldina, S. João Nepomuceno, Mar de Espanha, Barbacena, Sabará, Curvelo, Pitangui, S. João d’el Rei, Baependi, Queluz, Campanha, Caldas, Pouso Alegre, Araxá, Piranga, Jacuí, Três Pontas e Uberaba, em Minas […] chamava-se Fortunato José e nascera no ano de 1817, na Cidade de Lavras, como escravo de João Paiva. A viúva deste, D. Custódia, criou o negrinho com a maior bondade, mas ele era de natureza má e, na adolescência, se entregou a todos os vícios. Aos 25 anos de idade, matou sua senhora e protetora a cacete, porque o repreendera.

Condenado à morte em Ouro Preto, capital da Província, no ano de 1832, apelou da sentença para o governo da regência, pedindo-lhe fosse comutada em prisão  perpétua sob a condição de sentenciar condenados os sentenciados à forca. Obteve o que solicitou e, até 1871, exerceu suas hediondas funções, que começara pelo natal de 1833. ///

Post - AcorrentadoNo seu número de 17 de julho de 1877, o periódico daquela cidade, ‘Mosaico Ouropretano’, contou algumas coisas interessantes da sinistra vida desse verdugo: tinha grande repugnância em enforcar mulheres; observava que os sentenciados, na maioria, não se resignavam com a morte, subindo ao patíbulo revoltados, mesmo contra os confessores que os acompanhavam e procuravam consolá-los; sofria de reumatismos e desejava, como última inspiração, obter a liberdade, para morrer sossegado em qualquer canto. O carrasco de Ouro Preto foi um dos últimos do velho Brasil”.

O memorialista Pedro Nava(7), em seu “Baú de Ossos”, fala de Fortunato, dizendo:

“Era mulato e belo mulato. Vi seu retrato, morto, no antigo Museu Racioppi (Ouro Preto), daquela cidade, e impressionou-me sua fisionomia serena, de traços finos, barba e cabelos brancos destacando-se sobre a pele escura. Parecia, mal comparando, aquela imagem de São Pedro dormindo, que o Aleijadinho fez para os Passos de Congonhas. […] Pois esse Fortunato de cara de santo era verdadeiro tigre e deve ter sido o inspirador do poeta serrano Antônio Augusto Queiroga, no seu poema ‘O Carrasco’. Queiroga foi seu contemporâneo e deve tê-lo visto uma vez que ele enforcou no Serro do Frio(8)”.

Eu o vi sem turbar-se
Da vítima infeliz galgando os ombros,
Com frenesi não visto,
Áridos olhos, o semblante alegra
Contar suspiros, numerar-lhes as ânsias…! 
                                                         — Antônio Augusto Queiroga

HISTÓRIA DA SANTA

Naqueles tempos difíceis, as injustiças não tinham cor, mas os negros e mestiços eram os que corriam mais riscos de morrer na forca. Mesmo depois extinta a pena de morte, por vontade de d. Pedro II, em 1876, outros sofrimentos permaneceram. Vivendo na pobreza e a na miséria, surgiu uma personagem simbólica dessa época, a mendiga Siá Reginalda.

post-reginalda-capelaReginalda (idealização); ao fundo, capela de N. S. do Rosário (demolida em 1912).

Do que se falou sobre ela, quase tudo é bem verdade, talvez um pouco seja lenda. Para começar, há o nascimento de uma menina, em 23 de maio de 1835, domingo de Petencostes. Batizada como Reginalda, desde quando veio à luz viveu no desamparo, enfrentando todo tipo de dificuldades.

O curvelano Eduardo Canabrava Barreiros(9) a conheceu por relatos que ouvira. Ele nasceu em 1908. Ela faleceu em 08.10.1909(10), com 84 anos de idade. Em uma crônica, publicada em 1988, contou quem era Reginalda:

“Quando Siá Reginalda ria: tinha riso de amargura, resignação, humildade e doçura. Percorria toda a cidade, a serviço dos pobres, dos doentes, dos que tinham fome, frio, miséria física ou padecimento moral. Ia de casa em casa. Penetrava em todos os lares de Curvelo, sem aviso prévio, sem pedir licença, livremente casa adentro, sempre cantarolando o “Bendito louvado seja” (hino popular ao Santíssimo Sacramento). Andava sempre com um terço na mão ou dependurado no pescoço. Quando não cantava o “Bendito”, rezava em voz alta o terço.

Nas casas, ao perceber sinal de abastança, levava o que ofereciam. Em caso contrário, deixava lá o que trazia. E logo saía, em busca de mais um pouco. Era considerada a “Abelha do Amor” de que fala o epitáfio. Sabia agir no momento certo e conforme as circunstâncias. Dava a quem pedia ou precisava. Para si nada pedia, mas sempre para os outros. E tudo que ganhava destinava aos pobres e desvalidos. Um voto que fizera: não guardar para o dia seguinte, coisa alguma que lhe dessem.

Carregava uma cesta (frasqueira grande, tecida de bambu) com duas tampas, abrindo uma de cada lado. O que em uma entrava, na outra saía. O que ganhava dos ricos ou abastados, ia principalmente para as vazias mãos de pobres, doentes e mendigos, e para ela quase nada.

Dava não apenas sobras de comida, sapatos usados, sobras de remédios ou vestes rotas. Dava também consolo e carinho. Para cada um, sempre tinha uma palavra de conforto, de fé e de piedade. Se via alguém sofrer, junto também sofria. Teve passado de pecadora, mas isso a ninguém chocava. Fora, outrora, de vida irregular, até ganhou alma pura e santa. Então, diante de tanta virtude e beleza moral, para ela toda Curvelo se inclinou, do mesmo modo que o poeta, quando se extasia perante a flor nascida no charco.

Post - Egipcíaca

← Santa Maria do Egito (por José de Ribera, detalhe).

Seu rosto era enfeitado por um sorriso exótico, que refletia seus antigos dias de queda e de pecados, tormentos no entanto sublimados. Sim, sublimados, pois aprendera a cantar, para sempre, um louvor ao Santíssimo, o “Bendito”. Uma espécie de “Magnificat”, o mesmo que cantava Santa Margarida pelas ruas de Cortona ou Santa Maria do Egito(11), nas areias batidas de sol…”

As palavras de Barreiros, dizem do “riso de amargura” que havia em Reginalda. Por isso, é preciso lembrar de um acontecimento presenciado por ela, quando tinha apenas apenas 17 anos de idade, o enforcamento de um escravo. Depois vieram mais dois e, certamente, tais fatos concorreram para construir o seu sorriso.

Em 1969, o jornal Curvelo Notícias publicou depoimento de Regina Nunes(12), sobrinha-neta de Siá Reginalda que, aos 79 anos de idade vivia em Inimutaba (MG). Portanto, tinha nascido em 1890 e, na época do falecimento de Reginalda, estava com 19 anos de idade. Ao padre Alberto Vieira de Araújo, que a entrevistou, disse:

“A mãe de Reginalda chamava-se Catarina América da Cunha. Era dona de uma pensão para viajantes baianos e tropeiros. A titia nunca fez referência a seu pai. Daí, ser de opinião geral que a mãe de titia, por não ter se casado, teria sido mãe solteira.

Reginalda tinha um irmão mais velho, Rodrigo José da Cunha. Estudou na Bahia, às expensas de um compadre de América, foi mestre de música da igrejinha do Rosário(13), desde 1836, onde tocava violoncelo. Foi também também tabelião. Tornou-se alcoólatra inveterado, tendo falecido em Paracatu. Havia mais três irmãs: Josefina, Antoninha e Maria Luísa que, juntamente com Reginalda – a caçula –, cantavam no coro da capela.”

Post - Carolina & AntônioCarolina e o marido, tenente-coronel Canabrava.

“Quando era ainda muito jovem, ficou noiva e estava prestes a casar-se, mas foi caluniada frente ao noivo por uma tal de Ana, fazendo com que o casamento fosse cancelado. Para sua infelicidade, tempos depois, ela ‘perdeu-se’ com outro homem. Desse relacionamento, teve uma filha de nome Antônia e, com ela, continuou vivendo com a mãe Catarina. Durante o dia, para se sustentar, trabalhava como doméstica na casa do coronel Francisco França Canabrava(14) e de sua mulher, Carolina(15). Esse casal deu-lhe muito apoio. Porém, chegou a hora em que teve de deparar-se com uma nova tristeza, quando a filha Antônia morreu tuberculosa, aos 24 anos de idade.”

“Nos últimos anos de sua vida, Reginalda viveu num pequeno barraco nos fundos de uma morada da rua Joaquim Felício, antigo beco do Siô Levindo. Enquanto ali esteve, recebeu todo carinho e trato da esposa de Allu Marques(16) e, também de Emílio Machado(17). Até seu sepultamento foi providenciado por eles.”

“Aquela Ana, a Siá Aninha, que me caluniou e atrapalhou meu casamento, depois sofreu muito. Ficou leprosa e todo mundo passou a fugir dela. Assim mesmo, quando estava para morrer, fui estar com ela no quartinho onde morava. Passei então a lhe oferecer cuidados, dava-lhe banhos e recolhia os pedaços de carne podre que caiam do seu corpo. Dei-lhe roupas, limpei seu quarto e, nos seus momentos finais, levei um padre para sacramentá-la. Pouco depois, a coitadinha, confessou, comungou… e morreu, nos meus braços.”

Ainda, no decorrer da entrevista, Regina Nunes mostrou uma relíquia, dizendo:

Post - Regina Nunes“Este é o crucifixo que a titia trazia em suas mãos no momento da morte. E há, também, o terço de contas que trazia pendurado ao pescoço, está com meu irmão que o guarda como relíquia.”

← Regina Nunes

E a depoente completou, fazendo um retrato falado de Reginalda, ao mesmo tempo acrescentando uma lembrança da morte do escravo:

“Siá Reginalda era de estatura mediana, seu rosto pequeno e redondo, e o pescoço comprido. Os olhos eram escuros e brilhantes, um tanto amendoados; os cabelos pretos, densos e corridos. Sua pele era era bronzeada, escura. A boca rasgada, com lábios finos era expressiva e a voz de sonoridade grave. Do lado direito da face, à altura do olho, trazia de nascença u’a mancha cor de chocolate que se estendia pela face, a qual sempre estava encoberta por densa cabeleira. Possuía uma beleza singular.

Titia, quando pequena, era uma menina nervosa e muito sensível, como outras que são criadas em ambiente de pensão. Sua mãe levou-a para assistir ao enforcamento de um criminoso, chamado Celestino. Era um escravo, crioulo, grosso, mal-encarado, que havia estrangulado seu siô. A pobre menina, depois que presenciou aquele sacrifício, foi vitimada por um trauma tão profundo que, meses a fio, não conseguia ficar sozinha. À noite, acordava gritando de pavor, por estar revendo a cena da tragédia. Pela vida inteira rezou pela alma de Celestino.”

Pois tudo isso é verdade. “Celestino et Reginalda, dominus vobiscum” – que o senhor esteja convosco – … Amém!

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• Ouça o “Magnificat” que cantava Reginalda:

O senhor fez em mim maravilhas!
Santo é o seu nome!
O senhor fez em mim maravilhas!
Santo é o seu nome! 
                                                         — etc…

Pesquisa, texto e arte de Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

• Leia mais, clique com o botão direito e veja: “Nascido para matar” , “Fortunato algoz”.

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(1) ROSA, João Guimarães – (Cordisburgo, *27.06. 1908 / Rio de Janeiro, †19.11.1967) Médico, contista, novelista, romancista e diplomata. Formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, em 1930; tornou-se capitão-médico, por concurso, da Força Pública do Estado de Minas Gerais. Estreiou na literatura em 1929, com o conto “O mistério de Highmore Hall”, na revista “O Cruzeiro”; diplomata por concurso realizado em 1934; fez carreira na diplomacia. / Eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 06.08.1963. / Obra prima: “Grande Sertão: Veredas”.

(2) PAULA, Enny Guimarães de (Belo Horizonte, *26.02.1920 / Belo Horizonte, †27.11.2010) Filha de Carlota Moreira Guimarães e João Lima Guimarães.

(3) DINIZ, Antônio Gabriel – (*01.09.1891 / †26.10.1969) Escrivão e oficial de registro de imóveis, em Curvelo; historiador, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.

(4) Tabuleiro Grande – Distrito criado por divisão do termo de Curvelo; instalado em 31.07.132. Em 30.08.1911, passou a chamar-se Paraopeba (MG).

(5) Em reportagem da “Gazeta de Notícias” (RJ), edição de 02.11.1889, por José Ferreira de Araújo: “… É esta a longa série dos seus sinistros trabalhos: […] A 23 de agosto, seguiu para o Curvelo, onde enforcou o réu João Paulo Pereira, recolhendo-se a 27 de setembro.”

(6) BARROSO, Gustavo Adolfo Luiz Guilherme Dodt da Cunha – (Fortaleza, *29.12.1888 / Rio de Janeiro, †03.12.1959) Advogado, professor, museólogo, político, contista, folclorista, cronista e ensaísta.

(7) NAVA, Pedro da Silva – (Juiz de Fora, *05.06.1903 / Rio de Janeiro, †13.05.1984) Médico e escritor.

(8) Serro Frio ou Serro do Frio: antigo nome da atual cidade do Serro (MG).

post-eduardo-canabrava-barreiros(9) BARREIROS, Eduardo Canabrava – (Curvelo, *11.07.1908 / Rio de Janeiro, †1981) Historiador, ilustrador e cartógrafo (imagem à esquerda). / Texto “Siá Reginalda”, jornal “A Tribuna”, Curvelo, nº 39 – 03.09.1948. 

(10) Siá Reginalda está enterrada no cemitério municipal das Palmeiras (Curvelo).

(11) Santa Maria do Egito, também chamada Santa Maria Egipcíaca. Padroeira das prostitutas arrependidas. Nasceu no século V, no Egito. É venerada especialmente nas igrejas católica, copta, ortodoxa e anglicana. / Clique com o botão direito e veja mais: “As casas das arrependidas”.

(12) NUNES, Regina: entrevista em “Curvelo Notícias”, n° 42.maio.1969.

(13) Capela do Rosário – Antigo templo de Curvelo; foi demolido e, no mesmo sítio, foi construído o Santuário de São Geraldo.

(14) CANABRAVA, Antônio Francisco França – (Tabuleiro Grande, *? / Itabira, †27.07.1904) Tenente-coronel da Guarda Nacional e tenente-coronel honorário do Exército Brasileiro. Foi um dos fundadores da Santa Casa de Caridade de Curvelo.

(15) CANABRAVA, Carolina – Quando solteira, assinava Carolina Maria da Circuncisão. Irmã do capitão Evaristo Antônio de Paula e do coronel Tertuliano Ferreira Penna, filhos de Antônio Dias Ferreira e Euphrosina Alves da Fonseca.

(16) MARQUES, Raimunda de Souza – segunda mulher de Allu Vianna Marques. Farmacêutica, filha de Amélia Francisca de Souza e Antônio Vicente Vianna de Souza. Quando os pais de Raimunda faleceram, ela transformou a casa paterna em lar para crianças desamparadas. Com essa decisão e contando com a colaboração de outros curvelanos, fundou-se o Orfanato Santo Antônio.

(17) MACHADO, Emílio – Comerciante em Curvelo (vulgo: Capitãozinho). Proprietário da casa Emílio Machado, fundada em 1913. Vendia molhados e gêneros de todo o país, material elétrico, hidráulico, tecidos, perfumarias, louças, ferragens, chapéus e calçados. / Emílio atribuía dois milagres a Reginalda e assumiu a construção do seu túmulo no cemitério das Palmeiras.

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