Sumidoiro's Blog

01/05/2017

RIO ANTIGO (I)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 10:08 am

♦ A cidade e o Doutor Água Fria

Em 12 de dezembro de 1843, o médico francês Yvan Melchior-Honoré embarcou no porto de Brest(1), acompanhando uma missão oficial francesa que se dirigia ao oriente. Relatando sua viagem, escreveu “De France en Chine”, com um capítulo dedicado à passagem pelo Rio de Janeiro, que fazia parte do trajeto. Fez uma primeira escala na ilha de Tenerife e, em seguida, pisou em terra na então capital do Brasil. Seu texto vale como um documento histórico(2)

Post - Rio _ TaunayBaía de Guanabara (por F. E. Taunay, 1828).

No dia 28 de janeiro [1844], avistamos a costa do novo mundo. Assentado na frente do navio, contemplei essa terra misteriosa e fecunda, terra de florestas virgens e palmeiras que, em sonhos de minha infância, nela vislumbrei miragens poéticas. Tal como um jogo bizarro da natureza, o cume das montanhas – à esquerda da barra do Rio de Janeiro – desenham a forma de um gigante deitado de costas. Tudo é prodigioso nessa terra, onde as árvores elevam-se até 30 metros de altura, onde os rios assemelham-se a braços de mar e onde os portos são baías imensas.

La Sirène* (*o navio Sereia) lançou âncora às 5 horas da tarde. A calmaria havia retardado e por muito tempo, a entrada na enseada. Abriram-se as velas senão quando a brisa refrescou, assim deixando para trás a montanha do Pão de Açúcar. Os fortes de Santa Cruz e de Villegaignon foram avistados no meio da enseada, ocupada por navios de todas as nações e sulcada por pesadas chalupas* de pescadores, e por esbeltas canoas dos negros. * Chalupa: embarcação maneira, com um só mastro (Dicionário da armada portuguesa, 1841).

Post - Dr Yvan

← Yvan Melchior-Honoré

A baía do Rio é um pequeno mar interior, cujas águas beijam timidamente os pés das belas ilhas que nela se abrigam. A limpidez e transparência dessas águas só é superada pelo ar puro do entorno. Pudemos admirar o espetáculo que se desenrolava nesse imenso porto, o mais seguro que há no mundo, ornado com uma floresta de mastros, com fileiras de casas brancas nas duas margens e verdes montanhas a emoldurar a cena.

Nessas regiões tropicais, o dia se extingue rapidamente para dar lugar à noite. Isso deixou-nos logo mergulhados numa escuridão profunda, que apagaram todas as coisas que a pouco víamos. Porém, num instante, um cinturão circular se alumiou com mil fogos, vindos das lanternas dos navios e das casas do Rio, e da Praia Grande* (*atual Niterói). Aos nossos olhos, tal como nas óperas, surgiu de improviso uma dessas iluminações feéricas.

Devido ao avançado da hora, tomei a primeira canoa para me conduzir à terra. Ansioso estava de começar o dia seguinte percorrendo o belo país. Como já era noite e não havendo tempo para buscar outra alternativa, instalei-me num estabelecimento francês, o hotel Pharoux*, lugar de encontro de todos os viajantes europeus. — * Edificado e inaugurado em 1816, pelo francês Louis Pharoux. 

Sem perda de tempo, ocupei-me então a desfrutar da felicidade de estar com os pés no chão, procurando mil pequenas satisfações, incompatíveis com a vida à bordo. Da água límpida, do sorvete, das frutas e de um jornal impresso pela manhã. Bastantes para fazerem-me esquecer completamente um mês de privações, tédio e enjoos marítimos.

Post - Hotel Pharoux _ RioHotel Pharoux, no largo do Paço Imperial (demolido em 1959).

Desde o primeiro olhar, o Rio de Janeiro surpreende e provoca interrogações ao europeu. De qualquer maneira, fui prevenido sobre o espetáculo que estava a me esperar. Assim mesmo, na manhã seguinte, ao botar os pés fora do hotel Pharoux, fui tomado de perplexidade, vendo as ruas inteiramente invadidas pela população negra. Sem planejar, detive-me diante de toda aquela gente desnuda, principalmente criados. Não havia como deixar de contemplar as legiões de negros, a agitarem-se debaixo de um sol de fogo, como diabos* num braseiro. — * Ato falho, denotando preconceito.

A cena bizarra que vi, não se assemelhava a nenhuma das minhas demais lembranças. Diante de mim, havia também uma multidão de homens carregando pesados fardos. Eles recitavam, repetidamente, um monótono refrão: “- Que calor! Que mal!” Em seguida, um deles respondia em tom grave e duro: “- Está bem! Está bem!” Agitando uma matraca de som desagradável, assim procedia. Imaginei estar assistindo a alguma iniciação misteriosa ou qualquer cerimônia de um culto infernal.

Logo que livrei-me daquela primeira impressão, comecei a percorrer as diversas ruas da cidade. O Rio foi construído à beira do mar, ao pé de uma colina que domina a paisagem. As casas, alinhadas em escrupulosa simetria, são belas construções. Contudo, a exagerada largueza das ruas expõe os habitantes a um calor excessivo. A população perfaz 450.000 mil habitantes, sendo que cerca de dois terços são escravos negros e o restante repartindo-se igualmente entre brancos e mulatos.

Post - Largo do PalácioLargo do Paço Imperial – edifício à esquerda –, com chafariz – à direita – (por Débret).

Como o próprio nome indica, é sobre o largo do Palácio* que se estende o edifício imperial, modesto castelo que nada tem de especial. É praça muito bela, embora um pouco despojada. Uma fonte, da qual jorra água em abundância, corre para o lado do mar. No seu entorno, estariam ainda por plantar alamedas de árvores, mas permanece a sensação de vazio. — * Paço.

Os monumentos públicos, tais como o palácio da câmara dos deputados, o senado e a bolsa, nada têm para merecer a atenção do viajante. Porém, nunca é demais repetir: todo o tempo, a variada e barulhenta multidão que circula pelas ruas, mais uma miríade de novidades, estão a despertar nosso interesse!

De um lado, pode-se ver as negras de Angola, portando, à maneira oriental, um xale exuberante sobre seus ombros nus. Algumas há bizarramente tatuadas, cujos braços são ornados com braceletes de cobre. Por toda parte vi mulatas – desde o mais claro ao mais escuro tom de pele –, de olhos langorosos e ardentes, a exibirem variadas e expressivas fisionomias.

Além do mais, veem-se trajes de todas as nações e grã-finos vestidos com luvas. Causa admiração haver tanta gente possuidora da absurda coragem de, mesmo submetidas aos 36 graus de calor, aprisionarem seus corpos em roupas de lã, muito justas, apertando seus pescoços com lenços pretos e revestindo os dedos com um couro elástico de cabrito* (*luva).

O Rio possui aquela animação de cidade comercial em busca do progresso. Ademais, a diversidade da população lhe proporciona um caráter particular. É de se notar que a prosperidade dessa grande urbe assenta-se tanto no trabalho quanto no luxo, duas condições para a existência das modernas sociedades.

Post - Rua Ouvidor _ 1890Rua do Ouvidor, 1890.

A rua do Ouvidor, que é a rua Vivienne* do Rio, abriga lojas de grande beleza. Tudo da moda parisiense, da mais elegante, da mais delicada, ali se encontra em profusão. Novidades, as mais caprichosas, estão a alimentar as fantasias dos consumidores. Até um francês pode sentir-se em casa, pois há nessa rua roupas e botas francesas, e, da mesma procedência, livros. Ainda, para completar, o que é ainda mais francês: as modistas parisienses… — * Rua histórica e elegante de Paris, no 2ème arrondissement.

Há como fazer também o câmbio de moedas. Por outro lado, a maneira como os comerciantes tratam seus fregueses não passa despercebida. Para cativá-los, sabem usar linguagem polida, notadamente quando negociam com os vendedores da nossa nação, fazendo com que ambos possam tirar o melhor proveito na transação.”

Post - Rua Direita _ RioRua Direita, atual 1º de Março (por Rugendas).

Um objetivo — O viajante Yvan tinha o especial propósito de conhecer, entre outras coisas, a natureza tropical. Para tanto, foi ao encontro de um colega, médico e naturalista. Assim diz no seu relato:

depois desse primeiro e rápido olhar sobre a vila, fui encontrar-me com um botânico muito instruído, o doutor Ildefonso Gomes. Trouxe uma carta de recomendação que foi-me dada em Paris, por um dos seus melhores amigos. A morada do doutor fica a pequena distância da cidade, assentada num vale estreito, bem sombreado e regada por um riacho de água límpida.

Seu aspecto nada deve às outras charmosas habitações, tão numerosas nos arredores do Rio. Um enorme portão, coberto por uma trepadeira, indicou-me a casa do doutor. Ela está assentada ao pé de uma colina plantada com cafezais. Longa alameda conduz à residência sede, margeada por palmeiras, goiabeiras, mimosas e limoeiros À esquerda, à sombra de árvores gigantescas, estão as casas dos negros e, à direita, no fundo do vale, vê-se um milharal e uma horta.

Um grande terraço coberto está situado logo à entrada, sendo utilizado tanto como recanto de estudo, quanto de repouso. Nesse lugar, numerosas pranchas, cobertas por livros científicos, recentemente publicados na França, confirmam minha opinião sobre o saber e o interesse científico do meu excelente confrade.

Um amplo salão, mobiliado com um imenso divã de junco, boas cadeiras, um belo piano e um elegante pedestal, abre suas largas portas sobre o referido terraço. Uma sala de jantar é contígua ao salão: espaçosa e bem arejada, e está bem separada das cozinhas. Atrás dessas peças, há outras fechadas, cujo acesso não é permitido aos olhares estranhos. Enfim, completa a elegante habitação uma pequena e graciosa capela, onde um padre reza missa aos domingos.

Post - Frutas _ Albert EckoutFrutas tropicais, regalos ao paladar do dr. Yvan (por Albert Eckout).

O doutor deu-me a melhor acolhida. Sob suas ordens, uma jovem negra trouxe, numa bandeja de prata, larga e pesada, copos de limonada, vinho de laranja e diferentes licores do país. Para minha surpresa, já era chegada a hora do jantar brasileiro (às duas horas da tarde), de modo que convidaram-me a sentar à mesa da família, o que aceitei com prazer.

Em outras circunstâncias, pouparia o leitor de tomar conhecimento de minhas sensações gastronômicas. Mas, não importa onde estivermos, creio ser importante descrever a cor local… Assim sendo, acredito que devo falar da minha primeira refeição nessa cidade tropical.

O doutor, sentado à cabeceira da mesa, fez-me assentar à sua direita. Para começar, serviu uma sopa, cujo singular tempero aromático excitou meu paladar. Um enorme pedaço de carne de boi veio em seguida, acompanhado de farinha de mandioca cozida, junto a um caldo, e mais um molho de pimenta para acentuar o gosto. A esse primeiro serviço sucederam-se ovos e um prato de verduras cozidas, tão arduamente temperadas que, se fossem ingeridas de atropelo, poderiam parecer carvão em brasa.

Felizmente, para aliviar o ardor dos pratos anteriores, sucedeu-se uma salada de pepinos acebolados, servida junto a uma enorme galinha. O pão apareceu à mesa apenas em pensamento. Contudo, apesar do receio de cometer uma indignidade, digo preferir esse tão vulgar alimento ao caldo de mandioca. Bebemos água pura em grandes goles e, em taças, o vinho Madeira, e o de Lisboa sem misturar água. Ao fim da refeição, serviram bananas, mangas, goiabas, cajus e um doce de coco, que fizeram-me esquecer os por demais tropicais sabores dos condimentos brasileiros.

Post - Aqueduto_ Thomas EnderVista do Rio de Janeiro com o aqueduto do Carioca, ao fundo (por Thomas Ender).

Tão logo deixamos a mesa, o doutor propôs-me subir ao Corcovado, cujo cimo estávamos a ver acima de nossas cabeças. Trouxe-me uma montaria e, depois de alguns minutos, vi-me cavalgando no caminho que conduz à célebre montanha. Faltam-me palavras para descrever toda minha admiração. Eu havia conhecido as criaturas do solo americano apenas em nossos jardins botânicos, aprisionadas em frascos de vidro. Ali, fora da natureza, estendem seus ramos no clima artificial que lhes é oferecido. Nessa nova experiência, fiquei arrebatado ao presenciar o ímpeto vigoroso dessa vegetação, vivendo no seu próprio habitat.

Senti-me feliz e confortável ao sentir o ar morno. E respirei com mil perfumes a me enlouquecer. Ali, brincavam borboletas, grandes como pássaros, e pássaros brilhantes como borboletas. Os primeiros colibris que vi fizeram-me gritar de alegria, buscavam pólen no domo florido da mata. Persegui um coleóptero* (*besouro) e saltei em direção a uma planta em flor. Capturei um daqueles grandes morphos de asas azuladas, cujo vôo errante dificulta quem quiser alcançá-lo. Mas fiz tudo isso com ânimo e agilidade de um jovem.

O caminho da montanha é quase todo margeado por um grande canal, condutor de água potável para a cidade. Esse aqueduto* é obra imensa, do qual se orgulham os habitantes do Rio. É construído com pedras gigantescas e tem mais de uma légua de extensão. Tem cerca de 1 metro de largura e sua altura do solo não excede a 2 metros, exceto na zona urbana, onde é suportado por mais de 20 elegantes e elevados arcos. Aos intervalos, no seu trajeto, foram dispostas estreitas aberturas, para permitir que os fazendeiros das vizinhanças possam ali buscar a água necessária às suas necessidades e aos viajantes para saciar a sede. — * Leia ao final: “O carioca”.

Encontramos jovens negras com seus vasos de argila vermelha, a os encherem usando metades de cabaça ou de cocos. Efusivamente, nos ofereceram o líquido dos potes que carregavam na cabeça e sem cobrar nada por isso.

Post - Cabana CorcovadoAbrigo no alto do Corcovado, com ponte para ligar dois platôs (por Débret).

Depois de 3 horas de marcha, chegamos ao topo da montanha, que destaca-se como uma enorme protuberância no relevo. Ela insinua-se como uma imensa corcova ou corcunda e, daí, surgiu o nome Corcovado*. Naquele patamar, há uma depressão que não se pode ultrapassar com segurança. Em vista disso, o imperador d. Pedro I mandou construir ali uma ponte de madeira, que não mais existe. Surpreendi-me ao constatar vestígios dela, tanto numas barras de ferro cravadas na rocha, no ponto mais alto da montanha, quanto nas ruínas de uma antiga coberta. É uma espécie de abrigo permanente, que o imperador mandou construir. — * Onde está instalado o monumento do Cristo Redentor.

Dizem que o soberano, devido à sua alma selvagem, ao sofrer por certas paixões, tais como as decorrentes de um amor contrariado, da inveja, do ciúme ou de alguma aversão, era amiúde tomado por uma cólera incontrolável. Nesses casos, fatalmente, tanto o ciúme quanto o ódio logo emergiam. E, para controlar a raiva que tendia a crescer, gostava de se refugiar nessa rocha isolada. Lá, contemplando um dos mais belos cenários do universo, acalmava o espírito agitado, identificando-se com o magnífico espetáculo.

Post - Rio visto CorcovadoCentro do Rio de Janeiro, visto do Corcovado (por Débret).

O pico do Corcovado, que se levanta íngreme desde o solo, atinge não menos que 800 metros de altura. O abismo que o rodeia é coberto por uma vegetação vigorosa, ocultando os perigos. Desse ponto de vista, abre-se um horizonte que parece infinito e nota-se, principalmente, o casario pintado de branco, esparramando-se pela cidade. A pouca distância, veem-se as montanhas vizinhas, entremeadas de vales profundos. E, também, o jardim botânico e os lagos interiores, mais a baía, os telhados dos edifícios, as inúmeras ilhas e, por fim, o mar na sua imensidão. Em qual outro lugar do mundo poderia o olhar humano captar, ao mesmo tempo, tantas e tão grandiosas maravilhas?

Já era noite quando descemos do Corcovado mas, de repente, em meio às plantas, vimos surgir milhares de vagalumes*, que nos iluminaram com sua fosforescência. Haviam-me prevenido sobre esse fenômeno, mas sua magnificência surpreendeu-me. Nessa oportunidade, o senhor Gomes não conseguiu impedir-me de sair à caça desses insetos bizarros. Mas, prosseguimos na nossa rota, até chegar à parte da trilha que domina o vale do Anhanguera**. Os vagalumes se multiplicaram, a tal ponto que chegamos a acreditar que, abaixo de onde estávamos, existiria uma enorme cidade iluminada. — * O mesmo que pirilampos. / ** Morro do Anhanguera, no parque nacional da Tijuca. Os bairros da Tijuca e Usina situam-se nesse vale.

Naquele ponto, o nosso bom doutor, pela necessidade de visitar um paciente não muito longe dali, deixou-me aos cuidados do seu negro Gil Blas*, o mesmo encarregado de guardar minhas conquistas da floresta. Desse ponto, o escravo conduziu-me por caminhos estreitos e irregulares, para chegar logo ao Rio. — * Leia ao final: “O doutor e seu criado”.

Post - Teatro S P AlcântaraTeatro de São Pedro de Alcântara (por Loeillot, 1835).

E, para finalizar um dia de muitas ocupações, naquela mesma noite fui visitar o teatro de São Pedro de Alcântara*, maravilha artística da capital, onde se apresenta todo ano uma companhia italiana. O imperador d. Pedro I, grande admirador da música e ele próprio compositor – tal como Frederico da Prússia –, empenhou-se na construção dessa sala(3) e, também, da composição da orquestra, e da companhia que haveria de encantar seus ouvidos. Durante todo seu reinado**, acredita-se, aquele teatro, distante 2.000 milhas da Europa, poderia rivalizar-se com os de Paris, Milão e Nápoles. — * Hoje, João Caetano. / ** D. Pedro I abdicou em 07.04.1831, retirando-se para Portugal. Na época da visita, o imperador já era d. Pedro II, que contava 18 anos de idade.

Mas, que pena! Quando o visitei, o teatro era nada mais que uma bela sala, onde se apresentava um conjunto medíocre, contando com o auxílio de uma orquestra também medíocre. Assisti a uma apresentação de Norma. A prima dona, ainda bonita menina, representava muito bem a má conduta que era atribuída à personagem, a grande sacerdotisa. A atriz pareceu-me a única digna de elogios. A sala, mal iluminada, tinha muitos espectadores. Os binóculos eram utilizados, tal como em Paris. Os leques eram passionalmente agitados e roubavam a cena. As lanternas fumacentas emitiam uma luz avermelhada.

E, não fossem os negros assentados nas cadeiras ao fundo e mais algumas figuras heterogêneas, teria eu imaginado estar em algum teatro de província da França. Os camarotes são bem espaçosos, a sala possui forma oval com as extremidades cortadas. O palco tem, à sua frente, um camarote esplendidamente decorado, reservado ao imperador.

Além do italiano, o Rio possui um teatro francês, onde se apresentam peças de vaudeville e drama. Ali detestei os atores, mas achei as atrizes bonitas. Pareceu-me serem elas o atrativo principal, para assegurar algum sucesso a todas as encenações. Verdade é que, por serem homens a maioria dos espectadores, aplaudiam mais por galanteria.”

O dr. Yvan permaneceu por mais algum tempo no Rio (continua no próximo Post).

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SumA gênesis do carioca

No século XVI, o mercenário alemão Ulrich Schmidl(4), integrante da expedição de Pedro Mendoza(5), percorreu terras da América do Sul e pôde vivenciar inúmeras experiências. Delas, fez um relato em “A admirável navegação realizada pelo Novo Mundo entre o Brasil e o Rio da Prata, entre os anos 1534 e 1554”. A primeira edição foi publicada em 1567. O texto faz referências aos índios carios, com o complemento de uma ilustração. De outro modo, são ditos carijós. Eles viviam em tribos que multiplicavam-se por vasta extensão da costa leste.

Pouco depois, em 1556, um jovem sapateiro e seminarista francês, Jean de Léry(6), acompanhou um grupo de ministros e artesãos protestantes em uma viagem ao Rio de Janeiro. Naquele tempo, era a denominada França Antártica – colônia francesa –, então estabelecida na baía de Guanabara. Disse Léry também ter encontrado os carios, que viviam junto a um rio. Sua aldeia tomava o mesmo nome de um curso d’água: o lugar Kariauh bè.

Post - Página LéryA palavra carios, na página 350 do livro de Léry (edição de 1578).

O viajante Léry(6) escreveu a “História de uma viagem à terra do Brasil”, onde revela a palavra, assim:

“Kariauh-bè — Nessa aldeia assim dita ou nomeada, que é o nome de um pequeno rio, do qual a aldeia toma o nome, em razão dela estar assentada perto, é entendida como morada dos Karios, sendo composto este nome de Karios e auq – que significa casa –, e, ao apor-se os e ajuntar-se auq, será Kariauh e be: é o artigo do ablativo, que significa o lugar que procuramos ou queremos ir.” (7)

Por sua vez, os portugueses passaram a dizer Carioca, ao denominar o mesmo rio. Portanto, a explicação para a palavra carioca pode ser mesmo esta: “a morada dos carios”. Desse modo expressa tanto o nome do curso d’água, quanto o gentílico do Rio de Janeiro.

Quando sequer existia cidade, as águas do Carioca* já eram bem conhecidas e muito utilizadas. Em sua foz, na atual praia do Flamengo, abasteciam-se de água os navios que ali aportavam. Em virtude disso, a região era conhecida como Aguada dos Marinheiros. E para captar água do rio Carioca, construíram o aqueduto que levou o mesmo nome. Começava na floresta das Paineiras, chegando ao reservatório do morro de Santo Antônio. No meio do caminho, no lugar denominado largo da Carioca, existiu um chafariz, originalmente com 16 bicas e que depois foi ampliado. — * Rio Carioca é do gênero masculino e carecem ser explicadas as demais flexões para “da Carioca”.

O doutor e seu criado

No Rio de Janeiro viveu, por longos anos, o anfitrião do dr. Yvan, o dr. Antônio Ildefonso Gomes de Freitas(8), casado com Rita Carolina Nascentes Pinto. Era natural de São Miguel do Piracicaba (MG)hoje, Rio Piracicaba –, situada no vale do Rio Doce. Filho de Josefa Tomásia Cupertino Gomes e do capitão Antônio Gomes de Abreu e Freitas, fazendeiro culto, que dominava o francês, o italiano e o latim. Esse homem, na sua propriedade de nome Rochedo, fabricava ferro; noutra, a fazenda de Itajuru, costumava receber gente importante e intelectuais, muitos convidados pelo dito filho.

Mesmo antes de estudar medicina, o jovem Antônio Ildefonso já mostrava vocação pelo estudo das ciências naturais. Levado por esse interesse, acompanhou a expedição do barão Langsdorff(9); e de outra, sob o comando de Auguste de Saint-Hilaire(10) que, no livro “Voyage dans les provinces de Rio de Janeiro et de Minas Geraes”, dedicou-lhe algumas palavras:

“Nosso amigo, o sr. Antônio Ildefonso Gomes veio ao nosso encontro na povoação de Catas Altas. […] À tarde, chegamos a Itajuru, onde morava o pai do sr. Ildefonso, que nos recebeu com a maior amabilidade. A habitação […] é das que se chamam fazendas, nome reservado às propriedades rurais de certa importância… […] O pai do sr. Gomes fora um dos mais ricos mineradores da província e eu próprio vi […] uma escavação* (*cata de ouro) que o tornara possuidor 3 milhões de cruzados.

Julgando que sua jazida era inesgotável, […] esbanjara o ouro, à medida que o extraía do solo. Se era padrinho de uma criança, fazia à comadre um presente de 10 mil cruzados. Dava festas e não se preocupava com o futuro. Entretanto, perdeu em pouco tempo 500 escravos. Sua jazida se esgotou; a brilhante fortuna evaporou-se e o sr. Antônio (Ildefonso) Gomes foi obrigado a se entregar ao comércio para resgatar a herdade do seu pai.

[Certa feita, o sr. Gomes, pai de Ildefonso] fora encarregado de observar a conduta de um administrador de uma habitação. Este, para se desembaraçar de uma vigilância inoportuna, denunciou-o como sendo assassino de um homem que havia desaparecido. À força de investigações e grandes dispêndios, o sr. Gomes acabou por descobrir que o indivíduo, de cuja morte o acusavam, retirara-se para os confins da província de Goiás. Descoberto na calúnia, o denunciador perdeu o emprego e caiu em profunda miséria. Mas, conhecedor do caráter generoso de quem quisera infelicitar, foi a ele que recorreu na adversidade. E o sr. Gomes sustentou-o de modo digno, até o último momento de sua vida.

Post - JornalAs virtudes de Ildefonso no “Correio Mercantil” (RJ).

Se o sr. Antônio (Ildefonso) Gomes não sucedeu seu pai na fortuna, herdou-lhe as virtudes. E, realmente, é um dos homens mais dignos que tenho encontrado em minha vida. É impossível encontrar melhor pai e quem possa honrar mais a paz e a justiça; ter alma mais pura e piedade mais sincera. Estudou no seminário de Mariana*. Compreende bem o latim, o italiano e o francês, e sua conversação é atraente e espirituosa. Escutava-me com interesse, quando lhe falava da França e da minha família, e comprazia-se, por sua vez, em ensinar-me sua língua e informar-me sobre os costumes do país.” — * Mariana: primeira capital de Minas Gerais.

Devido aos tratamentos que preconizava, com a utilização da hidroterapia, Antônio Ildefonso ficou também conhecido como Doutor Água Fria. Foi também um dos pioneiros do uso da homeopatia no país, tendo sido um dos dez fundadores da Academia Médica Homeopática do Brasil, em 04.10.1847. Em 1848, publicou um “Manual de hidro-sudo-terapia”, ensinando como curar inúmeras doenças através de suadouros, água fria, regime e exercícios.

Post - Jornal 1O médico homeopata no “Correio Mercantil” (RJ). Pobre não paga.

O dr. Antônio Ildefonso foi sempre muito sensível às questões sociais e às misérias humanas. Foi com essa postura que exerceu a medicina, privilegiando os pacientes e praticando a caridade em prol dos mais desassistidos. Além disso, mostrou-se ferrenho defensor da abolição da escravatura. Ao ser eleito deputado, amiúde manifestava-se nesse sentido.

Movido por esse mesmo espírito, atribuiu o nome de Gil Blas ao seu servidor, imaginando que ele pudesse, eventualmente, ter um futuro luminoso. Infere-se que a inspiração tenha vindo de um personagem da novela picaresca* “Gil Blas de Santillana” (11)– ambientada na Espanha – e escrita no início do século XVIII. — * Picaresco = burlesco, ridículo; próprio de pícaros – pessoas astutas e dissimuladas –; personagens típicos da literatura espanhola dos séculos XVII e XVIII; antes de tudo, os picarescos são grandes mentirosos.

Post - Gil BlasUm assaltante toma algumas moedas de Gil Blas, logo na saída para Salamanca. 

Na ficção, Gil Blas, filho de um cavalariço e de uma moça simples, nascido em Santillana del Mar – Cantábria – fora criado por um tio, em Oviedo, até os 17 anos de idade. Pois nesse momento, afim de avançar nos estudos, o protetor decidiu enviá-lo para Salamanca. Contudo, ao empreender a viagem, montado numa mula e dispondo de umas poucas moedas, levava também consigo sua santa inocência. Assim sendo, enfrentou várias vicissitudes: perdeu seu dinheirinho, sua montaria e foi escravizado por uma corja de bandidos. Mais adiante, quando se viu liberto, foi obrigado a trabalhar de criado para vários patrões.

Porém, com o correr do tempo e graças à sua inteligência, passou a conhecer melhor o mundo e as gentes. Todas, desde a ralé, passando pelos nobres e inclusive os eclesiásticos. Contudo, disso soube tirar proveito, de modo que acabou por galgar a posição de favorito do rei de Espanha e, também, tornou-se secretário do primeiro ministro. Até que, como recompensa por seu competente trabalho, adquiriu fortuna e foi viver retirado num castelo, como coroação de todos os seus sonhos.

Caminho para as nuvens

Agora, falando um pouco de d. Pedro I…  Como príncipe regente, passou a governar o Brasil, desde que seu pai d. João VI retornou a Portugal, em abril de 1821. Mas logo foi tomado pela ideia de emancipar o país e, também, procurou proteger a costa brasileira – de Cabo Frio ao Rio de Janeiro –, instalando mirantes para vigiar inimigos que pretendessem atacar pelo mar. O pintor Jean Baptiste-Débret, em sua obra de textos e desenhos “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil” (12), descreveu como foi feita uma instalação com o referido objetivo, no alto do morro do Corcovado. Na sua construção, houve efetiva participação do imperador. Resumindo Débret:

Post - Incisão

Incisão numa árvore: término da trilha (Débret).

“… [d. Pedro I] preocupou-se em aplicar seus conhecimentos […] de modo a estabelecer um caminho que pudesse ser percorrido a cavalo, através da densa vegetação virgem […] Pessoalmente responsável por essa empresa, todos os dias, desde o nascer do sol, ele dirigiu os trabalhos com habilidade, tomando consciência da natureza do solo, de modo a atingir em pouco tempo o seu propósito. Fez, em seguida, uma balaustrada no alto da montanha, onde há um pequeno platô de granito, separado por uma fenda entre um pico e outro – mais adiante –, mas que pôde ser alcançado por uma pequena ponte de madeira.

Graças ao difícil trabalho, foi possível ao viajante chegar naquele ponto culminante e admirar o cenário, que abrange tanto o interior como o exterior da baía, donde se vê o Cabo Frio e a Ponta Negra. Os demais limites são as montanhas ao longe. Desde então, o passeio ao Corcovado tornou-se um dos passeios da corte, dos estrangeiros e do resto da população trabalhadora que ali passa os domingos.

Perto do cume da montanha e próximo da fonte de água mais elevada, há uma clareira aberta na mata, apropriada para uma breve parada e destinada tanto para os momentos em que o imperador deseje acampar, quanto para aqueles dias em que a corte queira fazer um piquenique. Note-se que, numa determinada árvore, há uma incisão* feita pelas mãos do imperador: IP / 18 ⋅ 22 2 ⋅ 24 — * Interpretação: Imperador Pedro / 22 fevereiro / 1824.

Contudo, à época do falecimento* da sua mulher – a imperatriz Leopoldina –, já havia a civilização europeia importado também seus abusos. Desse modo, alguns colonos estrangeiros, marginais e soldados desertores brasileiros, constituíram brigadas armadas, recrutando também alguns negros fugitivos, e foram viver ao pé do Corcovado. E, pelas dificuldades de eliminar esses malfeitores, que inquietavam os moradores desse lado do aqueduto, considerado pouco seguro, pouco a pouco renunciaram ao costume dos passeios ao Corcovado. Em seguida e pelos mesmos motivos, o posto de telégrafo (com sinalização por bandeiras) foi abandonado, logo desaparecendo o resto de sua frágil construção.” — * Falecida em 11.12.1826.

Texto, tradução, pesquisa e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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(1) Brest – cidade francesa, localizada na região da Bretanha, sede do departamento de Finistère.

(2) MECHIOR-HONORÉ, Yvan – (Digne-les-bains, France, *06.03.1806 / Carros, France, †15.04.1873) Médico, político e viajante.

(3) O primeiro teatro construído no local, outrora denominado Campo dos Ciganos (hoje, praça Tiradentes), inaugurado em 12.10.1813, levou o nome de Real Theatro de São João, em homenagem ao príncipe regente d. João VI. O responsável pelo projeto foi o marechal-de-Campo João Manoel da Silva. Anos depois, foi renomeado como Theatrinho Constitucional (1824). / Em 25.03.1824, quando se comemorava o juramento da constituição do Império do Brasil e durante a representação do drama a “Vida de Santo Hermenegildo”, irrompeu um incêndio provocado involuntariamente por um ator, que reduziu a construção a quase nada. Reconstruído, sucessivamente tomou as denominações de Imperial Theatro São Pedro de Alcântara (1826), Theatro Constitucional Fluminense (1831), Theatro São Pedro de Alcântara (1839) e, finalmente, Teatro João Caetano (1923).

(4) SCHMIDL, Ulrich – (Straubing, *1510 / Regensburg, +c 1579-81) Soldado e viajante. Autor de “História verdadeira de uma viagem curiosa feita por U. Schmidl”, Frankfurt, 1567. É um relato da sua participação da conquista e colonização do rio Paraná, durante 20 anos. Uma das primeiras crônicas sobre os territórios e povos da Argentina e Paraguai de hoje.

(5) MENDOZA, Pedro – (Guadix, Granada, *c1499 / Canárias, Oceano Atlântico, †23.06.1537) Militar de origem nobre, primeiro governador do Rio da Prata e fundador de Buenos Aires.

(6) LÉRY, Jean de – (Côte-d’Or, France, c.*1536 / Suíça, †c.1613) Pastor, missionário, escritor e membro da igreja reformada de Genebra, na fase inicial da Reforma Calvinista.

(7) LÉRY, Jean de – “Histoire d’un Voyage fait en la Terre du Brésil, autrement dite Amérique”, editor Antoine Chuppin, La Rochelle, 1578, p. 350.

(8) FREITAS, Antônio Ildefonso Gomes de – (São Miguel do Rio Piracicaba, MG, *1794 / Rio de Janeiro, RJ,†29.10.1859)

(9) LANGSDORFF, Georg Heinrich von – (Wöllstein, *18.02.1774 / Freiburg im Breisgau, †29.06.1852) Naturalizado russo. Foi médico, diplomata, naturalista e explorador. Esteve no Brasil pela primeira vez em 1803, retornando à Europa em 1820. Em 1822, outra vez chegou ao Brasil, como embaixador da Rússia no Rio de Janeiro. Em 1824, percorreu Minas Gerais numa expedição; em 1825, a São Paulo; em 1826, ao Mato Grosso. Seu périplo encerrou-se em 1829, depois de passar pelo Pará, quando então retornou ao Rio de Janeiro.

(10) SAINT-HILAIRE, Augustin François César Prouvensal de – (Orléans, France *04.10.1799 / Sennely, France †30.09.1853) Botânico e explorador.

(11) LESAGE, Alain-René – (Sarzeau, France, *08.06. 1668 / Boulogne-sur-Mer, France, †17.11.1747) Romancista, teatrólogo e tradutor. Sua obra mais conhecia é “LHistoire de Gil Blas de Santillana”, publicada em quatro volumes, entre 1715 e 1735. // O famoso crítico literário Jean-François de La Harpe (*1739†1803) disse que Gil Blas é uma obra prima, um daqueles livros que vale a pena ler e reler, e sempre com gosto, por ser um modelo moral e porque representa a vida humana. Expõe personagens e situações, de modo a permitir sempre extrair delas alguma lição. A máxima de tão excelente livro deveria ser utile dulci* (*o útil misturado com o agradável), porque está todo temperado com um humor de boa qualidade.” // Esse estilo literário surgiu na Espanha, durante o período de transição do Renascimento para o Barroco – no denominado Século de Ouro –, e floresceu na Europa dos séculos XVII e XVIII. Mas não desapareceu de todo, pois continua a influenciar a literatura moderna. Contudo, os precursores do gênero picaresco são ainda mais antigos. Um dos textos conhecidos data de 1554: é a novela “La vida de Lazarillo de Tormes y de sus fortunas y adversidades”, de autor anônimo.

(12) DÉBRET, Jean-Baptiste – (Paris, *18.04.1768 / Paris, †28.06.1848) Desenhista, pintor e professor de arte. Membro da Missão Artística Francesa (1817) e fundador da Academia de Artes e Ofícios, mais tarde Academia Imperial de Belas-Artes, onde lecionou. / Obra citada: “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil” – Tomo III – Impresso por Firmin Didot Frères, Paris, 1839.

01/04/2017

O INVENTOR DO PASSADO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 12:14 am

♦ A arte de fabricar verdades

Desamparada, a mãe enrolou o seu recém-nascido em uma manta puída e o depositou na Roda dos Enjeitados(1). Pensara muito antes de tomar a dolorosa decisão, sabendo que nunca mais iria vê-lo. Do outro lado do muro, irmã Divina da Luz recebeu-o com carinho.

post-inventor-passadoPátio de um Recolhimento dos Expostos, Itália (por Giannino Grossi)

O bebezinho fora colocado num receptáculo giratório da Casa dos Enjeitados, também chamada Recolhimento dos Expostos. Do lado de fora não se via quem estava do lado de dentro e vice-versa. Do abandonado nunca se saberia nada, nem da sua mãe e, muito menos, do pai. Estava fadado a viver ignorando de onde viera, ou seja, ficaria plenamente órfão e, mais que isso, receberia o rótulo de bastardo.

post-ao recém-chegado, para garantir de vez um lugar no céu, trataram de administrar-lhe o primeiro sacramento. E, de modo a auxiliar na escolha de nome e sobrenome, pesquisaram num velho almanaque, fonte de variadas sugestões. Também levaram em conta o estardalhaço que o inocente fazia ao chorar, a plenos pulmões. Resultou que optaram por atribuir-lhe um nome germânico, Astolfo, o mesmo que Haistulf*, ou seja, o que tem a violência de um lobo. — * Haist(i) = força, violência + ulf = lobo.

Cumpridas as preliminares de praxe e já na pia batismal, acrescentaram-lhe as marcas de fingimento, pois as de família, seja a da mãe ou do pai, nunca as teria. Desse modo, usando do dito artifício, atribuíram ao recém-chegado pomposos nome e sobrenomes: Astolfo Magno dos Anjos. Contudo, ao correr dos dias, ficou conhecido simplesmente como Astolfinho.

Sem dúvida, a identidade mais singela lhe caia melhor, visto que, tanto por feitio e também pelo modo de agir, conseguia irradiar ternura e simpatia. Tais dons sempre o ajudaram a conquistar quaisquer pessoas. E foi por isso que sempre conviveu bem feliz, entre freiras, coleguinhas e todos mais que frequentavam o Recolhimento.

Naquele refúgio, melhor dizendo, naquele couto*, recebeu rudimentos de leitura e escrita, e mais algumas habilidades para enfrentar o futuro, ou seja, quando o remetessem à sociedade extramuros. Mas, ao chegar o momento de se afastar do Recolhimento, ainda era meninote e um completo coitadinho**, e preso dentro de si mesmo. Contudo, não havia alternativa, senão por os pés na estrada… — * Couto: refúgio. / Em galego: acoutar = estabelecer os limites de algo. / ** Coitado e coitadinho vêm de acoutado / Acoitado: aquele que está preso ou recolhido em um couto; por isso, diminuído, humilhado e desprezado.

post-meninoAo desligar-se do convívio com as freiras, Astolfinho estava muito bem de espírito, porém com o cérebro semivirgem. E, no afã de construir o futuro, precisou experimentar de tudo. Seria, certamente, o mais imprevisível e emocionante pedaço da sua trajetória.

Porém, não andava muito satisfeito com o rótulo de Astolfo. E vai que, em certo momento, fazendo leituras noutro almanaque, deparou-se com um nome insinuante: Desidério! Significa desejo, vontade, cobiça, ambição e mais alguma coisa.

Pois bem, como nos tempos antigos era livre trocar de nome, assim o fez. Nem havia cartórios para anotar qualquer coisa… No máximo, colocava-se um aviso no jornal e pronto! E, com essa liberdade, o visionário Astolfo Magno dos Anjos, transformou-se em Desidério Magno dos Anjos. Logo depois, aboliu o dos Anjos, por melhor sonoridade e porque estava a perder a fé.

Mas, uma angústia sempre o atormentava, qual seja, o desejo de conhecer os pais. Até que alguém recomendou-lhe pesquisar nos meandros dos registros vitais da igreja, onde constam batizados, casamentos, óbitos e inventários. Ao mesmo tempo, foi avisado de que, antes, precisava adestrar-se no conhecimento da história geral. Assimilou as sugestões e, por conta própria, passou a mergulhar em livros paroquiais e das bibliotecas.

Até que, numa dessas leituras, Desidério Magno deparou-se com um personagem famoso, cujo nome era igualzinho ao que haviam-lhe atribuído no batizado. Tratava-se de Astolfo, rei dos longobardos(2), que tivera um filho chamado Desidério, também seu sucessor, em 756. Para ele – bastardo Desidério –, que outrora fora Astolfo, essas duas homonímias famosas surgiam como tremendas coincidências. Parecia até coisa de bruxaria!

Dai, o investigador penetrou na história do rei Desidério, resumidamente, mas ficou horrorizado com a impetuosidade e desmandos cometidos por aquele mesmo, o filho, e por seu pai Astolfo. E dizem que a essa gente tudo era permitido, somente por terem sangue azul. Pois bem, em 768, Desidério chegou ao cúmulo de nomear um papa, por sua conta e risco. Foi o antipapa Filipe, que durou apenas um dia, o domingo, 31 de julho.

Ele, o bastardo Desidério Magno, católico, educado num abrigo de religiosas, não poderia suportar mais esses novos aborrecimentos, justo por causa daqueles barbudos, a dupla de longobardos. Por outro lado, a descoberta foi útil, tendo provocado uma reviravolta em sua vida. Isso porque decidiu: “- Se o outro foi rei, eu também posso…” Assim, devido a esse impulso, pôde desvelar algumas fantasias comumente agregadas aos nomes, sobrenomes, títulos e outros fingimentos paralelos. Deduziu que aparências e rótulos sempre podem enganar, d’onde tirou bela lição, e bom proveito.

Então, fortalecido com o arnês* dos novos saberes, o Desidério Magno decidiu fazer sua revolução pessoal, livre de compromissos ou quaisquer gestos de nobreza, pois bem sabia que o seu sangue era vermelho. E assim foi em frente, perdendo as vergonhas e os escrúpulos que ainda lhe restavam. Nessa toada, sem pestanejar, decidiu transformar-se em produtor de mentiras de largo espectro. Primeiramente, montou uma tenda, que chamava de oficina, onde passou a produzir histórias de estirpes e, também, desenhava brasões. – * Arnês: armadura de guerreiro, que cobria da cabeça aos pés.

Ao mesmo tempo, para ganhar mais algum dinheirinho, tratou de advogar como rábula* e a imiscuir-se na política, nisso fingindo salvar os pobres (!). Além do mais, obrava de consultor sentimental, de escritor fantasma(3) e ainda praticava outras estrepolias, como a de evocar a colaboração dos mortos, aludindo ter poderes mediúnicos. — * Rábula: advogado sem diploma.

Com isso tudo, tornou-se então um respeitado profissional da mentira. E, para completar, nas horas vagas, mas apenas por distração e vontade de flutuar, fazia-se de romancista e poeta. Porém, entre seu vasto rol de ocupações, a que mais apreciava era a de inventor do passado, habilidade muito afim à da genealogia, esta adquirida por experiência própria.

Assim foi que, fazendo as mais variadas tramoias, reinou absoluto no pedaço. Desse modo, sentiu-se um tanto feliz, ganhou bastante dinheiro e, de contrapeso, um monte de pecados. E, para completar, adotou um lema: “o futuro não se adivinha; o presente mal se entende; e o passado, é fácil, a gente inventa”. Nem por isso desistiu de procurar sua mãe e seu pai.

Por Eduardo de Paula

Casa da Roda (vila de Almeida, Portugal):

post-roda-de-almeida

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(1) A Roda dos Expostos ou dos Enjeitados é uma invenção antiga, com a finalidade de receber recém-nascidos em instituições de caridade. Em Portugal, as rodas surgiram a partir de 1498, através das Irmandades da Misericórdia. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa foi pioneira nesse atendimento. Segundo as Ordenações Manuelinas, de 1521, e confirmadas pelas Ordenações Filipinas, de 1603, as câmaras municipais deveriam arcar com o custo de criação do enjeitado, caso esta não tivesse a Casa dos Expostos e nem a Roda dos Expostos. A câmara assumia a obrigação, até que o exposto completasse 7 anos de idade. No Brasil, as primeiras Santas Casas de Misericórdia a instalarem rodas foram as de Salvador (1726) e a do Rio de Janeiro (1738). / Foram caindo em desuso mas, com aperfeiçoamentos, estão em plena revivência na Europa e, até mesmo, na China.

(2) Longobardos ou lombardos – Povo germânico, originário da Europa setentrional, que colonizou o vale do Danúbio e, depois, invadiu a Itália bizantina, em 568. Entre eles, era costume usar barbas longas e, daí, vem a designação longobardos. / O último rei longobardo foi Desidério, duque da Toscana, que conseguiu conquistar Ravena, encerrando à presença bizantina no norte da Itália. / Em 774, Desidério rendeu-se a Carlos Magno – primeiro imperador dos romanos –, e foi este que unificou, e levou o progresso à maior parte da Europa ocidental. O Papa João Paulo II a ele se referiu como Pai da Europa.

(3) Escritor fantasma ou “ghost-writer”: redator de discursos ou textos para outrem, o qual permanece no anonimato.

01/03/2017

UM NOME CÁ, OUTRO ACOLÁ

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:14 am

♦ Alguma história de Viana

Há maneiras de conhecer a história de um nome. Uma delas, é perguntando à palavra, pois ela sempre terá algo a revelar. Aqui fala-se de nomes que, ao mesmo tempo, podem ser sobrenomes e têm servido para designar tanto lugares, quanto pessoas.

post-viana-castelo-cidadePraça frei Gonçalo Velho, Viana do Castelo (início do século XX)

Vamos então começar indagando a Viana. Como se sabe, desde os tempos do paleolítico(1) a Península Ibérica foi habitada e, bem depois, ali formaram-se os iberos*. Posteriormente, há pelo menos 1000 anos a.C., chegaram os celtas, que se miscigenaram, resultando nos chamados celtiberos(2). Gregos, fenícios e cartagineses** também estiveram no território sul, mas apenas com feitorias comerciais. — * Ibero vem de Ebro, rio que atravessa a Espanha no sentido noroste-sudeste / ** Cartago: cidade fundada pelos fenícios no norte da África. Cresceu e tornou-se uma “nação”, que entrou em conflito com os romanos.

Ao correr do tempo, os dominadores da região foram trocando-lhe o nome. Os fenícios chamavam-na Ofiusa; os gregos, Ibéria; os romanos, Hispânia; os muçulmanos, El Andaluz; e, os judeus – paralelamente –, Sefarad. No século XII ganhou o nome Espanha. — Topônimo: nome próprio geográfico.

post-cita%cc%82nia-vianaRuínas da citânia em Viana do Castelo, atrás da basílica de Santa Luzia.

Os celtas eram povos tribais e viviam em aldeamentos fortificados, aos quais os romanos denominaram citânias. Tem-se notícia da presença deles, no noroeste de Portugal, por volta do ano 700 a.C. Ali, edificaram várias aldeias e, a cada domínio, atribuíram um nome.

Muitas estavam no território do atual distrito de Viana do Castelo – Portugal –, entre os rios Douro e Minho. Nesta região, num sítio à beira mar e no alto de uma colina*, os celtas edificaram uma citânia, donde se avista a embocadura do rio Lima, nascente em terras de Espanha. E, como normalmente acontece, àquele lugar atribuíram um topônimo. — Morro de Santa Luzia. 

Como se verá, esse nome Viana é o mesmo da vila de Viana da Foz do Lima ou Viana do Minho. Atualmente, é Viana do Castelo, cidade e distrito de mesmo nome. Em 218 a.C., teve início invasão da Hispânia pelos romanos e o último território a ser conquistado por eles foi a região noroeste, somente em 138 a.C. Isso ocorreu sob o comando do general Decimus Junius Brutus. Ele, partindo do sul, marchou para o norte, atravessou o rio Douro, o Lima e o Minho*, e conseguiu dominar toda a região. — Em latim: Durius, Limia e Minus.

Os homens dessa expedição, diz a lenda, acreditavam na existência de um rio maldito. Quem entrasse em suas águas teria a memória apagada e seria remetido ao inferno. Pois bem, aqueles ingênuos, ao avistarem o Lima, julgaram estar ali o tal rio que, na mitologia, tinha o nome Lethes. Então, tomados de pavor, recusaram-se a prosseguir a caminhada.

post-rio-lethesTravessia do rio Lethes (tapeçaria de Almada Negreiros).

Diante do impasse e com o dever de encorajar seus comandados, Brutus tomou a si o heroísmo de derrubar o mito. Assim, montado em seu cavalo, enfrentou a arriscada travessia e conseguiu chegar sem nenhum transtorno à outra margem. De lá, tomou fôlego e chamou seus homens pelo nome, um a um, felizmente, todos atravessaram incólumes.

Desse modo, o mito se desfez, mas a fantasia impregnou-se no imaginário dos vianenses. Tanto que, na cultura popular de Viana do Castelo, estão ainda hoje a reverenciar o Lethes*, ou “oblivionis flumen”, em latim. 

Na mitologia grega, aludem ao inferno e ao seu governante, ambos como Hades. Pois o Lethes seria um dos cinco rios que fluíam para aquele submundo. Em grego moderno, lete significa esquecimento e aleteia, é o seu oposto, para dizer “verdade”, no sentido de revelação. A palavra letargia(3) tem a mesma origem e quer dizer estado de profunda e prolongada inconsciência.

A TRADIÇÃO

Os celtas faziam dos campos e das florestas os seus templos, onde cultuavam os deuses da natureza. Contudo, com a chegada dos romanos, foi introduzida na Península Ibérica a doutrina cristã, a qual foi se amalgamando às práticas religiosas locais. Por isso mesmo, as tradições de origem celta ainda permanecem no cotidiano de comunidades de Espanha e Portugal.

Entre elas, está presente na maior festa popular de Portugal, a romaria de Nossa Senhora da Agonia, que tem sido comemorada desde 1772. Nos dias 20 de agosto – feriado municipal – e durante o correr da semana, os homens do mar, vindos da Galícia e de todo o litoral português, dirigem-se a Viana do Castelo para participar das festas onde são praticados rituais cristãos e pagãos. — Baiona está situada na Galícia, comunidade autônoma da Espanha. 

post-romaria-ns-agoniaCena da Romaria de N. S. da Agonia, tradição céltico-cristã.

COMO ERA A HISPÂNIA

A geografia da região ibérica está descrita em mapas do século XVII. Além da costa norte de Portugal, portanto já na Espanha, têm-se assinaladas várias ilhas com o nome de Yslas de Bayona – ilhas de Baiona – e, também, a cidade de Baiona(4). O cartógrafo W. J. Blaeu, em mapa de 1634, mostra as mesmas Baionas e a Baiona, bem em frente à boca do rio Vigo. Mais para o sul, vê-se o Minus (Minho) e o Limia (Lima), já em PortugalNa foz deste último, estava plantada a vilazinha de Viana, que transformou-se na atual cidade de Viana do Castelo. — Baiona: hoje, na Galícia, comunidade autônoma da Espanha. / Da foz do Minho à foz Lima: c. 60 km. / De Baiona à foz do Minho: c. 60 km.

Contudo, devido a similitudes históricas, etimológicas e sonoras, ficam evidentes as origens comuns dos habitantes das cidades de Baiona (na Galícia, Espanha) e Viana (em Portugal). Mas há outras a acrescentar: notadamente Baiona (no País Basco, França), Bienne (no Cantão de Berna, Suíça) e Vienne* (no departamento de Isère, França).  * Vienne é antiga capital de gauleses, particularmente denominados alóbroges (povo celta).

Agregados aos termos toponímicos, chamam à atenção os sufixos onna, enna ou anna – com um ou dois enes – , que seriam de origem celta, como aceitam historiadores e etimólogos. Segundo eles, esses sufixos referem-se a água corrente ou água viva e se agregam aos topônimos de lugares à beira d’água. De fato, todas essas cidades estão junto ao mar, rios ou lago. Tudo isso serve para entender o significado do nome Viana (em Portugal), foco deste texto.

post-baiona-_-minho-_-limaPortugal e Espanha: em mapa de Willem Janszoon Blaeu, 1634 (à direita detalhe ampliado).

Além do mais, a todos ouvidos, esses topônimos soam com muita semelhança. É o que se chama betacismo, quando B e V passam a ter o mesmo som. Na “Orthographia da Lingoa Portuguesa” (1576), explica-se a afinidade dos nomes(5):

“O que muito mais se vê nos Galegos e entre alguns portugueses, d’entre Douro e Minho, que, por vós e vosso, dizem bos e bosso, e, por vida, dizem bida. E quase todos os nomes em que há uma consoante mudam em b, e como se o fizessem às avessas, os que nós pronunciamos por b, pronunciam eles por v.”

O fenômeno ocorre particularmente nas línguas românicas, como o castelhano, galego, catalão, occitano, língua sarda, dialetos do norte de Portugal e alguns dialetos do sul da Itália. Também em várias línguas, como no grego e hebreu antigos(6).

post-b-v“Orthographia da Lingoa Portugueza”, Nunes do Lião: a troca do b por v.

A VIANA PORTUGUESA

Oficialmente, a vila de Viana foi criada pelo quinto rei de Portugal, Afonso III, em 18.06.1258. A Carta de Foral(7), diz:

“… quero fazer um povoado, no lugar chamado Átrio*, na foz do Lima, à qual de novo imponho o nome de Viana.” — * Nome dado pelos invasores romanos; do latim atrium = porta principal, pórtico.

Pois bem, quando se escreveu de novo imponho o nome”, é porque o toponímico já existia e, portanto, seria bem antigo. Continuando o raciocínio: à direita do rio Lima, bem junto ao Atlântico, há o forte de Santiago da Barra – também denominado castelo* –, que data da mesma época de d. Afonso III.  Ver destaque ao final deste texto.

Mais tarde, no reinado Felipe I de Portugal, a edificação foi remodelada, tendo as obras terminado em 1896. Em um mapa de L. J. Waghenaer, de 1583, o forte, ou castelo, está nele destacado. Entre muitas, essa é uma das comprovações da antiguidade e da origem do Castelo, incorporado ao toponímico: Viana do Castelo.

post-viana-casteloMapa (1583) de L. J. Waghenaer: flecha indica o castelo de Viana.

ALÉM DO ATLÂNTICO

Após o descobrimento, portugueses em grande número dirigiram-se ao Brasil, imaginando encontrar o paraíso. Alguns, a fim de buscar riqueza, mas com ideia fixa em retornar. E, se lhes bafejasse a fortuna, poderiam viver no luxo para sempre, lá em Portugal. Outros, mesmo voltando montados no dinheiro, abominavam a terra que os acolhera, denominando-a como “quintos dos infernos”. Faziam o xingamento pelas agruras sofridas, de toda natureza – entre elas os famosos bichos-de-pés –, mas, principalmente, pelo imposto de 1/5 que lhes obrigavam a pagar.

Uma enormidade deles desembarcou no Brasil como imigrante ou a serviço temporário, mas também por deportação. Nesse último caso, eram criminosos, condenados ou não pelos mais variados delitos. Porém, tanto uns como outros, limpos ou sujos, deixaram suas marcas na formação da nacionalidade brasileira.

post-batismo-nunes-vianaRegistro de batismo de Manoel [Manuel] Nunes [Vianna] (Torre do Tombo, Lisboa).

UM NOME QUE VEIO DE LÁ

No Brasil, desde os primeiros tempos, os sobrenomes familiares foram proliferando-se, mas sem controle, pois não existia registro civil. Com essa liberdade, o sobrenome Viana foi um dos que mais se multiplicou. Caso emblemático é o que aconteceu com Manuel de tal, filho de um casal humilde: João Nunes e Maria da Costa. Ele nasceu em Santa Marinha de Lodares, comarca de Penafiel, bispado do Porto.(8) Ainda muito moço, em busca da fortuna, chegou às terras brasileiras. Não disse a que vinha, mas logo ficaram sabendo a que veio.

Depois de viver muitas aventuras no país que o acolhera, Manuel, pediu o Hábito de Cristo, que foi-lhe concedido pelo Santo Ofício. Para isso, investigaram sua genealogia e, ao ser constatado que não tinha origem em mouro ou judeu, deram-lhe atestado de “pureza de sangue”. Preliminarmente, fizera uma solicitação aos inquisidores de Lisboa. Logo após alguma investigação, houve o primeiro informe oficial, nestes termos:

“Coimbra / Pertende servir ao S. Offo (Santo Ofício) Manoel Nunes Vianna n.al (natural) da freg. (freguesia) de S. (Santa) Marinha de Lodares Comca (Comarca) de Penafiel Bispado do Porto e mdr (morador) na Va de S. João de Elrey comca (comarca) do Rio das Mortes. / Filho de João Nunes e de Maria da Costa ambos mdr (moradores) da da (dita) frega (freguesia) de S. Marinha de Lodares…”* — * Documento arquivado na Torre do Tombo, Lisboa.

Ao pé da anotação acima, o notário do Santo Ofício, considerando o sangue limpo, escreveu:

“… Provendo os reportorios della, nella não achava o delato de culpa alguma a Manoel Nunes Vianna…” — * Assinou o promotor Pedro Carneiro de Figueiredo […] Coimbra, 22 de maio de 1769.

post-n-vianna-hab-cristo“Pertende servir ao S. Off.o (Santo Ofício) Manoel Nunes Vianna…” (Torre do Tombo).

Pois bem, tão logo chegara ao país, no início do século XVIII e em data que permanece imprecisa, Manuel quis aliviar-se da lonjura de Portugal. Para isso, buscou uma boa lembrança da pátria, incorporando em si o sobrenome Viana, retirado de Viana do Castelo, a cidade onde passara a juventude*. Desse modo, fez-se chamar Manuel Nunes Vianna. — * Viana do Castelo sempre foi movimentado porto de mar e rio, e de muito comércio.

Contudo, suas ações serviram tanto para lustrar quanto para deslustrar o nome – ou sobrenome, como queiram –, e ganhou também fama de ser um celerado*. Apesar disso, lutando contra gente que também não era de boa bisca, tornou-se um benemérito, pois colaborou com a fundação do estado de Minas Gerais(9). O Manuel era inteligente, impetuoso, velhaco, déspota e visionário. — * Celerado: facínora, criminoso.

Esse emigrante tornou-se um dos personagens mais controvertidos da história brasileira e sua biografia tem intrigado a muitos pesquisadores. Vez por outra, tentam redesenhar o homem que se transformou num mito.

Não se sabe por qual porto adentrou ao país, embora digam que foi algum do nordeste. De lá, escolhendo bom caminho, dirigiu-se ao o sul, viajando pelo rio São Francisco. Ele viveu sob três reinados, de d. Afonso VI – o vitorioso (1656 a 1683), de d. Pedro II – o pacífico (1683 a 1706) e de d. João V – o magnânimo (1706 a 1750). Nasceu em 01.02.1667 e faleceu em 21.01.1738, em Salvador (BA), portanto, aos 71 anos de idade.*

Quando passou pela Bahia, aproximou-se de Isabel Guedes de Brito, uma rica fazendeira, que o encarregou de administrar seu imenso patrimônio rural. As terras estendiam-se da atual cidade de Xique-Xique (BA), chegando à divisa com Minas Gerais. Cuidou também da cobrança de foros*, àqueles que exploravam as minas das propriedades. Desse modo, nessa sua primeira atividade, aprendeu as regras de como comportar-se como um régulo* mas, de fato, seus objetivos eram maiores. — * Foro: tributo aplicado sobre utilização um bem. / ** Régulo: pequeno rei.

Assim sendo e movido por ambições desmedidas, atravessou a fronteira baiana e adentrou nas Minas Gerais. Bem próximo à divisa – hoje, Arraial de Manga –, junto ao rio Japoré, construiu um enorme edifício em madeira, que era tido como “um verdadeiro castelo de armas”. Chamavam-no Castelo da Tábua, sede da fazenda de mesmo nome. Por coincidência, surgiu esse Vianna construindo um castelo no Brasil, ele mesmo vindo da Viana do Castelo, de Portugal.

post-minas-casteloPonto vermelho: Arraial de Manga. / Triângulo amarelo: “Castello Tabua de M.el Nunes Viana”.

Passado algum tempo e já devidamente encastelado, decidiu Nunes Vianna abrir as asas sobre vasta extensão do território das Minas. Desse modo, seu poder – para o bem ou para o mal – foi rapidamente se estendendo do extremo norte da província*, até a região da vila de Caeté**, nas redondezas da atual Belo Horizonte. Daquele extenso território, traficava ilegalmente gado e mercadorias até além do rio das Mortes***, mas não pagava impostos e controlava os caminhos. — * No município da atual cidade de Manga. / ** Caeté: mais de 750 km ao sul de Manga; 30 km a leste de Sabará. / *** Rio das Mortes: passa por São João del-Rei (MG).

Além do mais, o vianense havia ganhado fama de desaforado e brigão. De modo que, d. Rodrigo da Costa*, preposto de d. Pedro II de Portugal – o pacífico –, entendeu que, “por ser pessoa de valor e suficiência”, o Vianna poderia lhe ser-lhe de muita utilidade. Assim, decidiu nomeá-lo capitão-mor** da freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso (atual Caeté). Mas, na verdade, não era do caráter de Nunes Vianna submeter-se a quem quer que fosse, sequer ao governador e, por isso mesmo, continuou defendendo apenas aos seus interesses. — * Rodrigo da Costa, governador-geral do Estado do Brasil (03.07.1702 a 03.07.05.1705). / ** Capitão-mor Nunes Vianna, desde 1703.

De fato, em Caeté, onde estava a viver desde 1705, continuava com suas posses no vale do rio São Francisco. Pois bem, Nunes Vianna havia se metido na atividade de transportar e negociar gado, mercadorias e ouro, para si e para outrem. Porém, a fim de evitar a fiscalização, adotara um subterfúgio, o de percorrer rotas alternativas, de modo a fugir da cobrança dos impostos, entre eles os dos quintos* do ouro. — * Imposto do quinto = 1/5 ou 20%, muito menos que a carga tributária atual.

As imprudências de Nunes Viana chegaram a tal ponto que, em 1708, o então governador, Lencastre*, decidiu convocar outro controverso valentão, a fim de botar ordem no pedaço: o bandeirante paulista Borba Gato(10), tenente-general e guarda-mor das Minas. Chegou a tal ponto que, ao final do ano de 1708, o Borba escreveu uma carta ao governador*, denunciando Nunes Vianna, assim:

“… este homem […] não tem mais exercício (função), no Rio de São Francisco, que esperar comboios da Bahia, de uma grossa sociedade que tem naquela cidade e […] não contenta em marchar com estes para as Minas, senão convir servindo de capitania (guia) aos mais comboios, para que nenhum seja tomado do inimigo (fiscal) que, […] trata da arrecadação da Fazenda de Sua Majestade, que Deus guarde. Tanto que tem feito o seu negócio nestas Minas, passa palavra (convence) a todos os que aqui se acham com ouro, para ir por aquela estrada proibida sem pagar quintos (impostos) […] juntam-se todos e vão com ele…” — * Fernando Martins Mascarenhas de Lencastre, governador do Rio de Janeiro, de 1705 a 1709.

post-caete

← Caeté (gravura de Rugendas, 1824).

Naquelas circunstâncias, ao ser Nunes Vianna interpelado pelo Borba Gato, ele não se fez de rogado e logo deu resposta à altura. De fato, lá naquela vila do Caeté, sentindo-se mais empoderado, assumira a frente da um grupo de revoltosos e tornou-se seu comandante. De modo que instituíra um pequeno exército, com as seguintes lideranças: Manoel Nunes Vianna, chefe maior; frei Simão de Santa Tereza*, superintendente do distrito de Caeté; Sebastião Pereira de Aguiar, comandante dos praças; coronel Luiz Couto, ajudante de ordens e chefe militar; Antônio Francisco da Silva, ajudante de ordens e chefe militar; Matheus de Moura, superintendente das Minas. — * Frei Simão: fundador da igreja do Rosário, primeira capela de Caeté.

Imaginou até tornar-se o novo senhor de todas as Minas e, para isso, arvorou-se como líder político. E bem sabia bater nessa tão conhecida tecla, dizendo-se protetor dos desassistidos e também milagreiro mas, é claro, em tudo mentia. Contudo, por ser hábil nas artes do convencimento e da enganação, passou de fato a arregimentar a multidão, mas para alcançar um objetivo maior, o de ser de fato governador das Minas.

Cabe lembrar que os paulistas, por terem sido os descobridores do ouro, entendiam que somente eles, a Coroa, o superintendente e o guarda-mor das Minas tinham o privilégio da livre exploração. Queriam ser proprietários para sempre, pois se sentiam os verdadeiros donos das Minas do Ouro – atual estado de Minas Gerais – e, para eles, todos os seus contendores eram vistos como estrangeiros.

Nesse sentido, tratavam os homens de Nunes Vianna como emboabas. A palavra, então de uso corrente, é talvez oriunda da fala dos índios* e servia para designar o homem branco forasteiro. E, daí, surgiu a expressão adotada para rotular o conflito entre o estrangeiro Nunes Vianna e os paulistas, iniciado em 1707: Guerra dos Emboabas. — * Boaba ou boava: para os indígenas qualquer português, o mesmo que homem de botas; ou aquele que anda vestido. 

Porém, no decorrer dessa contenda, em 1709, as exigências dos dízimos, o controle das passagens* de rios, os direitos de entrada e a cobrança dos quintos, haviam gerado sublevações de toda ordem. Até que, no auge do conflito com as forças do governo, o chefe emboaba decidiu assumir, de vez, o comando da província. — * Passagem: posto de cobrança de impostos.

post-igr-cachoeira-do-campoIgreja de Nossa Senhora de Nazaré, em Cachoeira do Campo.

Pois bem, firme no seu objetivo, Nunes Vianna e mais os seus revoltosos, entre eles também gente de Santa Luzia e Sabará, deu início à sua marcha, saindo de Caeté – onde estava vivendo. E, de lá, prosseguiu em direção à atual Ouro Preto**, tendo feito uma parada em Cachoeira do Campo***. Ali, imediatamente, diante do adro da igreja de Nossa Senhora de Nazaré, fez um comício empolgado. A pequena multidão de emboabas presentes cobriu-o de aplausos e o Vianna, olhando para o próprio umbigo, proclamou-se “governador”. — * Lourenço de Almada, governador-geral do Estado do Brasil (03.05.1710 a 14.10.1711). / **Ainda não existia a Vila Rica, ancestral de Ouro Preto (MG). / *** Cachoeira do Campo, 20 km a oeste de Ouro Preto.

Naquele momento, havia d. Fernando Martins Mascarenhas de Lencastre assumido a governança da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro(11).

O novo governador, d. Fernando, não aceitou as impertinências de Nunes Viana e, então, dirigiu-se às Minas, em 1708, para tentar um dialogo com o inimigo. Assim, ambos marcaram um encontro em Congonhas do Campo*, contudo, antes do apontamento, em hora noturna, os emboabas gritaram um aviso de guerra: “Viva o nosso General Manuel Nunes Viana e morra d. Fernando, se não quiser voltar para o Rio de Janeiro.

Dizem que Nunes Vianna lá chegara disposto a renunciar, mas a inesperada saudação dos rebeldes assustou o governador, de modo que d. Fernando negociou o prazo de oito dias para se retirar para São Paulo.

Pouco depois, sob o comando do sargento-mor Bento do Amaral Coutinho, os homens de Nunes Vianna prosseguiram a caminhada por trilhas e matos, em direção à atual São João del Rei*. Chegando lá, tornaram a enfrentar os homens do governo que, outra vez, foram derrotados, porém depois de oito dias de escaramuças e à custa de muita pólvora. Então, devido a esse vexame, os paulistas, sentindo-se enfraquecidos, bateram em retirada e decidiram não mais enfrentar os destemidos emboabas. — Arraial Novo do Rio das Mortes, elevado a vila do São João del-Rei, em 1713.

O historiador Capistrano de Abreu(12) assim se referiu ao “governador” Nunes Vianna:

post-peregrino-da-america

← “Peregrino da América”, 1ª edição, 1728.

“… mostrou-se capaz do cargo; elevou-se de chefe de partido a cabeça de governo, criou juízes, distribuiu postos, ofícios e patentes, regularizou a concessão das minas, cobrou os quintos devidos ao régio erário, arrecadou direitos sobre os gados e fazendas importadas, sopeou a anarquia reinante. Excessos praticou necessariamente, nem com facilidade poderia evitá-lo, mas sua obra foi benéfica e, depois dela, percebe-se o arrefecimento da barbárie universal. Era, aliás, um espírito de certa cultura; gostava de ler a Cidade de Deus* e obras congêneres; às suas expensas, se imprimiu o Peregrino da América, de Nuno Marques Pereira, um dos mais apreciados livros para nossos avós do século XVIII, como provam suas numerosas edições.” — “De civitate Dei”, por Santo Agostinho.

Porém, o sonho de governança de Nunes Vianna, apesar de frutuoso, foi efêmero, porque os representantes da Coroa eram mais poderosos do que ele imaginara. Durou cerca de dois anos o seu fingimento de domínio e, assim mesmo, continuou enfrentando a autoridade do rei. Por fim, ainda no ano de 1709, abandonou de vez seu alucinado projeto de poder, em obediência ao governador do Rio de Janeiro, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho*. — * Governador das capitanias reunidas do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas do Ouro.

De certa forma, graças em parte a impertinência do emboaba Nunes Vianna, houve um grande benefício para os mineiros. Uma década depois, em 12.09.1720, foi instituída a Capitania de Minas Gerais*, liberta do domínio de São Paulo. Sua primeira sede foi a Vila Rica, que havia sido fundada em 1711. Como se vê, a roda da história não é redonda e gira aos trancos, mas vai superando pedras, barrancos e nomes. — * Primeiro governador: d. Lourenço de Almeida (1720 – 1732).

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Tu de um lado, e do outro lado
Nós… No meio o mar profundo…
Mas, por mais fundo que seja,
Somos os dois um só mundo… — Manuel Bandeira

Esse breve relato, sem a pretensão de reescrever a história, talvez sirva para iluminar fatos e mostrar curiosidades do passado. Certo é que, por orgulho de um nome, tanto Nunes Vianna, como outros milhares de imigrantes, trouxeram Viana dentro de si e puderam viver com muita liberdade e fartura, nunca d’antes vistas em Portugal. E, cada um a seu jeito, assim também o fizeram aqueles com raízes em Setúbal, Souto, Barcelos, Chaves, Bragança, Horta, Madeira, Lisboa, Coimbra, Porto, Braga, Lima… e por aí afora. É claro que o sobrenome ajudava a aliviar a saudade. E viva o Brasil!

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Mais de Nunes Vianna

Mesmo depois de destituído do poder de “governador”, Nunes Vianna continuou servindo ao governo. Em 1727, foi nomeado alcaide-mor da Vila de Maragogipe – Bahia –; no mesmo ano, escrivão de ouvidoria do Rio das Velhas – cargo vitalício. Em testamento revelou sua descendência:

“Declaro que, além de minha filha Ana Maria de São Domingos […] tenho mais quatro filhos naturais, a saber: Miguel Nunes de Souza, havido de Maria Alves de Souza, […] de um menino branco, chamado Manoel, que se acha nesta praça, em casa de Catarina Nunes, a quem entreguei para criar e tratar […] e outro menino chamado Vicente, havido de uma crioula chamada Caetana, escrava de Luiza de Figueiredo…” — Fonte: Isaias Golgher, “Guerra dos Emboabas”, 1982, p. 236.

post-assin-nunes-viannaHá duas inconsistências em algumas de suas biografias. Uma, é que seria semi-alfabetizado, outra, que seria judeu ou cristão-novo. Porém, sua assinatura é primorosa e não mostra que seria um iletrado.

Quanto, à segunda, a verdade é que o Santo Ofício esmiuçou sua vida, antes de concederem-lhe o Hábito de Cristo. E tem mais, suas filhas foram internadas em um convento de religiosas católicas, em Portugal. Há um requerimento*, emitido na vila de Santarém (PT), em 1756, em nome de Victoria Thereza Nunes Vianna e suas irmãs, religiosas professas do Mosteiro de São Domingos das Donas, da vila de Santarém, pedindo a conclusão de uma execução que pendia em juízo, onde constam estas palavras:

“…Esta causa corre em nome da Madre Prioreza do Convento de S. Domingos [] contra Miguel Nunes Vianna(13), que foi penhorado em huma morada de casas de sobrado grandes […] embargos de terceiro prejudicado Caetano […] com o fundamento de que seu pai […] Manuel Rodrigues […] fora sócio do Mestre de Campo Manuel Nunes Vianna…”

Nunes Vianna era amigo de Miguel de Mendonça Valladolid, um viajante e homem de negócios, que teria lhe ensinado orações judaicas. Esse Valladolid, ao ser processado pelo Santo Ofício, fez-lhe a vaga acusação de que seria judaizante – ou seja – mesmo não sendo etnicamente israelita, estivera praticando algumas das tradições judaicas.

post-mapa-viana-1759À esquerda: forte de Santiago da Barra ou Castelo de Viana, construído sobre uma roqueta (1759).

O castelo e Viana

Em “Portugal Antigo e Moderno” – 1882 –, de A. Pinho Leal(14), se diz:

” Desejando d. Afonso III defender a barra do Lima […] os vianenses se obrigaram, em 1253, a construir  à sua custa, uma forte torre, a deram o nome de Roqueta*, concorrendo para essa obra, assim como para o cinto de muralhas da vila, todo povo de Viana […] Em 1498, passando por esta vila o rei d. Manuel, para ser jurado em Toledo herdeiro de Castela, visitou a Roqueta, mandando ali levantar uma alta torre, guarnecida de artilharia, para a defesa da barra e, ainda, ali se vêem ar armas do Rei venturoso (e ingrato).” — Chama-se castelo roqueiro ao que é construído sobre uma rocha. Se for uma pequena rocha é roqueta. Corresponde ao francês Rochelle.

“Em 1552, o usurpador Filipe II mandou acrescentar e fechar o castelo com as competentes cortinas, defendido por cinco baluartes* e dois revelins**, e cercado de fossos. […] por ocasião da guerra civil ou da Junta do Porto (1847), d. Maria II, em prêmio à valentia dos sitiados, que se lhe conservaram fieis, elevou a vila à categoria de cidade e deu-lhe o nome de Viana do Castelo.”* Baluarte: fortificação onde muralhas formam ângulo. / ** Revelim: fortificação avançada externa.

Viana é “família que, no século XVII, instituiu a capela de Nossa Senhora de Loreto*, na igreja de Monserate, com túmulo alto de estilo normando. […] É apelido nobre deste reino, tomado desta Viana. As armas dos Vianas são – em campo d’ouro –, uma águia da sua cor.” — Uma das capelas laterais. 

O sacerdote e escritor frei Luiz de Sousa* passou várias temporadas em Viana do Castelo e, em 1619, publicou a “Vida de frei Bartolomeu dos Mártires”, quando disse:

“Estivera o arcebispo (frei Bartolomeu**) em Viana, vila das mais insignes deste reino […] terra cheia de gente rica e muito nobre, de grande tato e comércio, por uma parte, com as conquistas de Portugal, ilhas e terras novas do Brasil. Por outra, com a França e Flandres, Inglaterra e Alemanha, d’onde e para onde, recebia muitos gêneros de mercadorias e despedia outras. Para os quais tratos, traziam os moradores no mar grande número de naus e caravelas […] ” — Frei Luiz de Sousa – (*c. 1555 / †05.05.1632) // ** Frei Bartolomeu dos Mártires – (Lisboa,* 03.05.1514 / Viana do Castelo, †16.06.1590). Em Viana do Castelo, fundou (1560) o convento de Santa Cruz, da ordem de São Domingos.

Um vianense sem Viana

post-caramuru-monumentoA primeira aristocracia genuinamente brasileira tem origem em um vianense, que não tinha Viana no nome(15). Trata-se de um homem que foi aceito como fidalgo e de uma princesa índia, e ambos deixaram notável descendência. Ele foi Diogo Álvares Correia (*c.1475 / †05.10.1557), natural de Viana do Castelo. Ela Paraguassu, filha do cacique Taparica.

← Caramuru e Paraguassu, em Viana do Castelo.

Por volta de 1509, Diogo, passageiro de uma embarcação francesa naufragada, conseguiu arribar a nado numa praia do estado do Espírito Santo e tornou-se figura lendária. Seus companheiros foram mortos pelos índios mas ele, empunhando um mosquetão, derrubou um pássaro com um tiro, causando tanta admiração aos nativos que lhe gritaram o nome de “homem trovão” ou Caramuru.

Mais tarde, sua colaboração foi muito útil aos conquistadores portugueses e, por isso, d. João III deu-lhe o título de cavaleiro da casa real. Mas, também é encantadora a história de Paraguaçu que, em viagem à Europa (1527), junto ao futuro marido, foi batizada em Saint-Malot, na França, recebendo o pomposo nome de Katherine du Brézil ou, na versão brasileira, Catarina Álvares Caramuru. Assim está anotado o seu batismo:

“30, julho, 1528 – No penúltimo dia do mês, foi batizada Katherine du Brézil, e foi padrinho o nobre senhor Guyon Jamyn, reitor de Saint-Jagu, e madrinha Catherine de Granches e Franczoise Le Gobien, filha de Saint-Malo, e foi batizada por Monsenhor Lancelot Ruffier, vigário curado do lugar, no dia e ano acima. – P. Trublet”

post-batismo-paraguassuRegistro de batismo da princesa Paraguassu Kathérine du Brésil.

Paraguaçu e Caramuru tiveram dez filhos. Ao falecer, a índia foi sepultada na igreja dos beneditinos do mosteiro de São Bento, em Salvador (BA). Seu testamento está arquivado na igreja da Graça, subordinada ao mosteiro. Do casal surgiu a primeira família brasileira documentada, ou seja, a mais antiga raiz genealógica do Brasil. Deles descende gente de muita nobreza, incluindo os dos Garcia d’Ávila, da Casa da Torre.

• Leia também, clique aqui: “A família de Bernardo” “Viannas e o Castello”.

Texto, pesquisa e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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(1) Paleolítico, ou idade da Pedra Lascada.

(2) Celtiberos: origem ainda controversa, embora os romanos os considerassem como sendo mistura de celtas e iberos. As primeiras referências escritas sobre eles foram feitas pelos geógrafos e historiadores greco-latinos Estrabão, Tito Lívio e Plínio.

(3) LETARGIA, LESEIRA, LETAL – Seria admissível associar lethes com leseira, palavra do português brasileiro. No dicionário leseira é característica do que é tolo, idiota; e, também, significa asneirice, idiotice, parvoíce; e leseira é, ainda, falta de energia, de ânimo, de disposição, especialmente para agir; moleza, preguiça, indolência. / Por outro lado, lethes tem a ver com letargia, que é uma condição biológica de quietude; sono prolongado e/ou torpor, ou sonolência. / Por sua vez, a palavra letal – em latim letālis,e – também vem de lethes, significando aquilo que causa a morte.

(4) Baionas – Os romanos chamaram-nas, também, de Ilhas dos Deuses (Insulae Deodorum), outros de Insulae Siccae (Ilhas Secas) e, ainda, Ilhas Cassitérides* (Ilhas do Estanho). Atualmente, são denominadas Ilhas Cies. Devido a recentes achados arqueológicos, suspeita-se que os últimos guerreiros celtas da região as habitaram. — * As Cassitérides (em grego, Kaaaimpos) são ricas em estanho; a cassiterita é o mineral estanho (SnO2).

(5) LIÃO, Duarte Nunes do – “Orthographia da Lingoa Portuguesa”Lisboa, 1576.

(6) Castelhano ou Espanhol // Galego: falado na Galiza, comunidade autônoma da Espanha. // Occitano: o mesmo que “langue d’oc”, ou provençal (França) // Língua sarda: falada na Sardenha (Itália).

(7) Carta de Foral: documento que, na época das Capitanias, regulava direitos e deveres aos quais se submetiam seus donatários. A palavra vem do latim forum. Foro ou fórum tem o sentido original de praça pública, tribuna ou tribunal.

(8) Transcrição do registro de batismo de Manoel Nunes Vianna – “Manoel f.o leg.o de J Nunes e de sua m.er m.ors no Souto (bosque) desta frg de S marinha de Lodares naceo em o primeiro dia do mes de fevr.o de mil & seis centos e secento & sete anos & foi baptizado em os tres dias do dito mes d año foraõ padrinhos Simão (?) de Sou… (?) & Anto Gaspar m.or (morador) de Pantalião (…?…) desta freg.a e per asim pasar na verdade fis aqui este assento dia mes e anno. / Francisco Gomes” — Arquivo da Torre do Tombo, Lisboa.

(9) Manuel Nunes Vianna, durante algum tempo, foi considerado herói mineiro, mas sua história caiu no esquecimento. Quando foi construída a cidade Belo Horizonte, os revoltosos foram homenageados com um nome de uma via: rua dos Emboabas que, hoje, chama-se rua Professor Antônio Aleixo. A cidade de Caeté ainda considera os emboabas como heróis e, no ano de 2016, instituíram uma distinção honorífica, denominada “Comenda dos Emboabas”.

(10) GATO, Manuel de Borba – (*1649 +1718) Ao fim da vida, ocupou o cargo de juiz ordinário da vila de Sabará (MG). Há dúvidas se foi enterrado em Tabuleiro Grande (atual Paraopeba – MG) ou no Arraial Velho de Sabará (MG). / Genro de Fernão Dias – o descobridor das esmeraldas –, sucedeu ao sogro na administração das Minas. Foi considerado como homem arrebatado e arrogante. Por isso mesmo, caiu-lhe a suspeita de ser o autor ou mandante do assassínio do fidalgo d. Rodrigo Castelo Branco, quando este, em visita de fiscalização, ao “quartel” da Quinta do Sumidouro, foi ali assassinado. Depois do malfeito – nas palavras do historiador Paulo (da Silva) Prado – “por prudência, ou com a consciência pouco tranquila, homiziou-se nos sertões da Bahia, longe da margem direita do rio São Francisco. Ali, reza a tradição − nos sertões do rio Doce –, viveu entre a indiada, chegando a ser cacique de uma tribo. Mais tarde, contando com a proteção de amigos e da família poderosa, passou-se para as cercanias de Pindamonhangaba, num canto discreto entre a serra do Mar e a vila de Paraitinga. Ao findar o século XVII, o governador Artur de Sá e Meneses obteve-lhe o perdão real e o posto de tenente-general. Na clássica longevidade de paulista antigo, morreu aos noventa anos, na sua fazenda de Paraopeba” // Leia mais, clique aqui: http://wp.me/pS4z0-36m.

(11) LENCASTRE, Fernando Martins Mascarenhas de – Governador da Capitania do Rio de Janeiro, 01.08.1705 até 10.06.1709 – administrativamente, englobava a de São Paulo e Minas do Ouro. Em 28.02.1707, d. João V de Portugal escreveu-lhe: “Fui informado […] que […] estrangeiros vão à conquista deste Reino […] em grande número […] mais ainda nos sertões e principalmente nas Minas […] de que resulta grande prejuízo a esses Estado […] sendo devassado (devastados) pelos estrangeiros […] acrescendo também grave inconveniente […] vêm a fazer o seu comércio […] o qual […] correndo pelas suas mãos não pode deixar de padecer maiores descaminhos nos direitos devidos à minha Fazenda (receitas de impostos).” 

(12) ABREU, José Capistrano de – “Capítulos da História Colonial”, Biblioteca Básica Brasileira, Brasília, 1999, p. 157.

(13) Requerimento de Victoria Thereza Nunes Vianna e suas irmãs, anexado a um ofício (Bahia, em.10.08.1756) do vice-rei Conde dos Arcos (Marcos José de Noronha e Brito) para Diogo de Mendonça Corte Real (secretário de Estado no reinado de D. João V). Teor: “… esta cauza corre em nome da Madre Prioreza do Convento de S. Domingos das Donas de Santarem contra Miguel Nunes Vianna, que foi penhorado em huma morada de cazas de sobrado grandes. A esta execução se oppoz com embargos de terceiro prejudicado Caetano Rodrigues Soares com o fundamento de que seu pay Manuel Rodrigues Soares fôra socio com o Mestre de Campo Manuel Nunes Vianna e com effeito alcançou sentença a seu favor na instancia inferior…” (Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1913, vol. XXXI, p. 150-151.) // No testamento de  Manuel Nunes Vianna está dito: “Miguel Nunes de Souza, havido de Maria Alves de Souza…” / Naquela época, era livre trocar o nome e, a se entender desse modo, Miguel poderia também assinar Miguel Nunes de Souza Vianna ou, ainda, Miguel de Souza Vianna. Desse modo também admite Neusa Fernandes, em “500 anos de presença judaica no Brasil”, 1º capítulo, p. 72. // Em “Bandeiras e Sertanistas Baianos”, por Urbino de Souza Vianna (Bahia, *1870 / RJ, †1945), está dito sobre as filhas de Manuel que foram para Portugal: “Podemos apurar que suas seis filhas, Victoria Thereza, Izabel Ignacia, Monica do Amor Divino, Mauricia de Jesus, Quiteria Peregrina de Jesus e Maria Olinda da Soledade, professas no Mosteiro de São Domingos das Donas de Santarém, demandaram seu irmão, Dr. Miguel Nunes Vianna, por questões de heranças, vencendo-o.” (Biblioteca Pedagógica Brasileira, vol. XLVIII, 1935, p. 51-52). // Miguel Nunes Vianna teria o título de doutor pela Universidade de Coimbra. | Seus inimigos chamavam-no de Bastardão.

(14) LEAL, Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho – “Portugal antigo e moderno”, Lisboa, 1882, vol. 10, p. 334 e adiante.

(15) Escultura em bronze, por José Rodrigues, em homenagem a Caramuru e Paraguassu, instalada em 01.01.2007, na Praça da República (Viana do Castelo).

 

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