Sumidoiro's Blog

01/07/2017

RIO ANTIGO (III)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:34 am

♦ Passeio na serra dos Órgãos

Em 1844, o médico francês Yvan Melchior-Honoré, acompanhando uma missão oficial francesa, chegou na então capital do Brasil, em 28 de janeiro. Este terceiro Post, em seguimento ao anterior, é parte do relato que fez da sua visita.

post-serra-dos-orga%cc%83osTropeiros rumo à serra dos Órgãos (por Rugendas).

depois de alguns dias de descanso (na cidade do Rio de Janeiro), recebi com muito prazer o recado vindo do senhor(1) e senhora Lagrené, convidando-me para uma viagem que iriam empreender à serra dos Órgãos*, nas redondezas de Macacu** e Nova Friburgo. Iniciamos esse programa no dia 6 de fevereiro, pela manhã, embarcando no vapor que faz o percurso do Rio a Piedade. Logo estávamos a atravessar essa incomparável baía do Rio, semeada de ilhas sem nome. Ao passar pela Ilha do Ferro*** e pela charmosa Paquetá, toda florida, lançamos palavras e gestos de saudação. Esse pedaço de terra parecia sorrir aos viajantes, como se pedisse que visitassem suas praias. —  * Trecho mais alto da serra do Mar. / ** Cachoeiras de Macacu. / *** Ilha do Ferro, situada a leste da Ilha do Governador.

Até que chegamos a Piedade*. É uma espécie de entreposto, onde os fazendeiros podem encontrar mercadorias de necessidade e também colocam sua produção a ser enviada ao Rio, por barco a vapor. — * Freguesia de N. S. da Piedade, hoje Magé. Situada no lado oposto da baía.

post-porto-da-estrelaPorto da Estrela, no rio Inhomirim – atual Vila Inhomirim, Magé (por Rugendas).

Em certas partes do Brasil há imensos e bizarros magazines, onde armazenam objetos para serem postos à venda. Entrei num desses, em Piedade, que é uma espécie de hangar imenso e vi, empilhados do chão ao teto, tecidos de todos os tipos, roupas prontas de variados tamanhos, sapatos de todas as numerações, charutos, cigarros de variadas qualidades, champanha, vinho Bordeaux, unguentos, ferramentas para agricultura, velas, sebo, etc. Em exposição desordenada, vende-se quase tudo: bois, carneiros e, até mesmo escravos, e ao preço justo.

Foi em Piedade que encontramos os guias e as mulas, enviados pelo proprietário da fazenda da Serra, a quem faríamos uma visita. De imediato, cada um de nós foi munido com um bridão, enquanto arriavam nossas montarias. Há também a possibilidade de alugar cavalos, os quais são encontrados em grande número, contudo não acontece o mesmo com os apetrechos necessários para cavalgar.

Pusemo-nos então em rota, sob a condução de um feitor ou guia principal. Era um mulato corpulento, esbelto e forte, que tinha a cabeça envolta por um lenço de algodão azul e branco, e que portava gravemente uma enorme espora no seu pé nu. Logo que montamos nossas bestas, desabou sobre nós, furiosamente, uma chuva torrencial como só ocorre nos trópicos. Por isso mesmo, tivemos de enfrentar estradas inundadas e lamacentas.

post-baia-vista-serra-orga%cc%83osA baía vista da serra dos Órgãos (por Thomas Ender).

Essa parte do país é por demais insalubre. É tal e qual um imenso pântano, coberto por uma lâmina de água pútrida, que armazena nas plantas matérias animais em decomposição. Os miasmas que escapam desses lugares, infectados na maior parte do ano, engendram febres perniciosas de extrema violência, as quais têm dizimado a diminuta população dessas localidades tão pestilentas.

Partimos de Piedade às 5 horas da tarde e a noite logo envolveu-nos em sombras. Contudo, as claridades do céu e os pirilampos, verdadeiras lâmpadas vivas, cujas luzes acendem em intervalos, foram suficientes para alumiar o guia à nossa frente. Às 11 horas da noite, chegamos à pousada de don Gaetan – situada perto de uma vila –, onde pernoitaríamos. Naquele lugar, já se notavam as influências funestas dos pântanos da Piedade.

Por outro lado, à medida que aumenta a elevação acima do nível do mar, o clima torna-se mais saudável. Devido à altitude elevada, às vezes, em certos meses do ano, uma leve película de gelo forma-se sobre os lagos que vimos ao longo do caminho. Devido a essa friagem, a cultura de café é menos produtiva nas fazendas da região.

As costas do Brasil são protegidas por uma imensa cadeia granítica. Ela se prolonga desde o norte, atravessando as províncias do Espírito Santo, do Rio de Janeiro, de São Paulo e vai até Santa Catarina. Esse largo cinturão apresenta no seu topo saliências e depressões, às vezes intercaladas por lacunas abruptas. Parece até que o Criador ao construir tão bela natureza, acrescentou essas fortificações naturais, como se desejasse colocá-la ao abrigo de qualquer agressão.

post-faz-mandiocaCasa em propriedade rural na serra dos Órgãos: fazenda da Mandioca (por Thomas Ender).

Ao longo das terras que percorre essa cordilheira vai tomando diferentes nomes. Na província do Rio, a pequena distância da cidade, avista-se a serra dos Órgãos. O nome é devido à configuração dos rochedos que se destacam contra o céu. São formações graníticas, dispostas como tubos de órgãos. Porém, esses agudos picos não fazem apenas lembrar os instrumentos das catedrais. Pois dentre esses cilindros de pedra, sons estranhos escapam, completando a ilusão.

Também as vozes da tempestade, as árvores da floresta inclinadas pelo vento, os rugidos lúgubres das onças e os gritos dos bugios, ao percorrerem esses picos sonoros, produzem uma harmonia grandiosa. Superior às dos instrumentos fabricados pelo homem! Sentimos como se fosse a alma do universo acionando um formidável teclado. Em três quartos da sua extensão, a serra dos Órgãos é coberta por florestas virgens. Porém, a ausência de material granítico ocorre em grandes intervalos, onde há vales cultivados pelo homem. Ou, então, quando surgem bacias circulares desprovidas de árvores, nas quais bois e cavalos pastam natural e abundante erva.

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← Serra dos Órgãos, com o relevo Dedo de Deus.

O caminho que conduz da casa de don Gaetan à serra dos Órgãos é muito bonito, apesar dos terrenos acidentados que têm a se enfrentar. Então, seguimos por um atalho que serpenteia sobre o flanco de uma montanha e, à medida em que subíamos uma rampa, nossos olhares admirados começaram a abraçar um imenso horizonte. No meio da viagem, deparamos com um vale coberto de culturas, cortadas por numerosos córregos, moitas de bambu e algodoais. Ao fundo, avistava-se o mar, iluminado por um sol esplêndido. Naquele ponto, a paisagem estava emoldurada por uma cintura de rochedos negros, coroados de árvores verdes.

Logo que chegamos ao pico mais elevado o ar estava mais fresco. Ali, as espécies vegetais têm formas particulares, devido ao ambiente especial em que vivem. As borboletas também são diferentes, porém não são aqueles imensos morphos que vivem felizes no Corcovado, mas argynnis e argus.

Chegamos às 2 horas à casa do senhor Marsh – o proprietário da fazenda da Serra –, esse homem logo mostrou-se amável e distinto. Sua residência pareceu-nos confortável e bem equipada, e dele recebemos cordial e educada hospitalidade. Posso dizer algumas palavras do que deduzimos sobre nosso anfitrião…

Há cerca de uma vintena de anos, vivia no Rio um jovem negociante inglês, possuidor de grande fortuna. Morava numa residência suntuosa, muito bem montada e com numerosos escravos. Desfrutava de todo luxo, num padrão de vida de tanta opulência, que não importava se aquilo estivesse ocorrendo no novo ou no velho mundo.

De repente, esse jovem gentleman anunciou aos seus amigos que iria retirar-se para o interior, para viver no isolamento. Tivesse acontecido numa cidade francesa, certamente se assustariam com tal determinação e nem mesmo no Rio seria muito diferente. Somente os ingleses estão acostumados a conviver com esse tipo de excentricidade. Dentro dessa ótica, para eles, pareceria natural qualquer fuga para o exterior, afim de cometer suicídio ou fazer uma viagem aos antípodas.

Serra dos Órgãos: Fazenda da Serra, do senhor Marsh (por W. G. Ouseley)

Pois bem, depois de adquirir sua grande propriedade na serra dos Órgãos, esse jovem aventureiro foi tomar posse de seus domínios. E, numa atitude muito própria dos ingleses, resolveu colocar a grande fazenda a funcionar. Para isso, teve que contar com o trabalho de 300 escravos, de modo que a despesa se tornou elevada.

É bom lembrar que, na serra, situada bem acima do nível do mar, a temperatura não excede os 22 graus centígrados. Essa circunstância despertou no gentleman a ideia de estabelecer ali um caravansarai*, onde os viajantes pudessem viver algum tempo junto às belezas primitivas da natureza, mas comodamente instalados. Seria, também, uma casa de refrigério, destinada aos sofredores do Rio para que pudessem reconfortar-se sob a influência do ar fresco da montanha. Um retiro tranquilo, onde os homens fatigados desse mundo, cansados das preocupações que trazem os negócios, pudessem refugiar-se em completo isolamento. — * Pousadas para caravanas, que havia no Oriente Médio, Ásia Central e Norte da África.

Foi com essa finalidade que construiu a imensa casa, dividida em enormes apartamentos, para quem viesse com acompanhantes. Tinha também disponíveis pequenas habitações de três quartos, destinadas a quaisquer pessoas que decidissem viver longe da sociedade.

Esse filho de Albion*, educado no meio burguês, conhecia nossa literatura, era homem sem fronteiras e sabia exercer a profissão com habilidade. Além do mais, todos sabiam que era muito honesto nos negócios, de modo a não colocar o dinheiro em primeiro lugar. Com essas qualificações, conseguia administrar com sucesso seu castelo e pousada. —  * Albion: nome celta ou pré-céltico da Grã-Bretanha.
post-estrada-real

← Do Rio a Nova Friburgo, a excursão do doutor Yvan.

Contava com um gerente engravatado, usando luvas e bem vestido, que recepcionava os forasteiros e lhes oferecia gentil hospitalidade. Além disso, suprindo a falta de alguém mais próximo, essa mesma pessoa lhes servia à mesa com muita gentileza. Tinha ainda o auxílio de um vulgar açougueiro e mais um jovem serviçal para cuidar de receber os pagamentos dos hóspedes.

Logo que nossa comitiva chegou à serra dos Órgãos e para que ficássemos juntos, o gentil hoteleiro colocou à nossa disposição uma bela habitação, construída no meio da mata. Ao redor dela, haviam abatido árvores gigantescas que estavam a obstruir o acesso, o que resultou numa praça circular, convertida naturalmente em pátio.

Devido à poderosa fecundidade desse solo, os reis destronados da floresta foram substituídos por arbustos de flores brilhantes: quaresmeiras, brincos-de-princesa vermelhos, paineiras floridas, mimosas e cássias amarelas. A própria casa parecia um buquê de flores. O teto e as paredes estavam invadidos por trepadeiras de maracujá, cujos ramos penetravam pelas frestas no interior de todos os quartos. Estávamos num verdadeiro palácio de flores. O mais que víamos eram pétalas brilhantemente coloridas. O ar que respirávamos estava pleno de doces perfumes.

Por ter sido experiência de primeira vez, descrevo com cuidado esse intricado entrelaçamento de plantas, que vivem nas prodigiosas alturas. Sob a sombra de abóbadas, onde o sol mal penetra, há uma mistura de bambus, cipós e arbustos. A serra dos Órgãos é um desses lugares mais altos do Brasil, onde as plantas tentam se sobrepor umas às outras. Buscam nutrir-se com pouco de luz, mas ali também morrem. Quando se plantam algumas laranjeiras, bananeiras ou moitas de abacaxi, é certo que não se desenvolverão a contento e terão vida breve.

Os fazendeiros têm que ser hábeis para produzir nessas terras, sem a necessidade de aumentar o número de escravos. Para isso, têm procurado fazer melhoramentos em raças equinas, investir na produção de mulas e ao cultivo de frutas e legumes da Europa. A cultura de vegetais de origem europeia estava longe de dar bons resultados, nas tentativas do senhor Marsh. A maioria tinha boa aparência, mas quase todas as frutas careciam de bom sabor.

A pera perdia seu perfume e as uvas as propriedades refrescantes. A maçã, que parece mais adaptada ao clima, desenvolve-se razoavelmente, mas perde seu gosto original; o fruto têm a forma alterada e as sementes não se desenvolvem. Quanto aos outros vegetais, excetuando o feijão e a batata*, têm pouco agradecido ao solo americano mas, quase todos, me pareceram bem degenerados. — * A batata (Solanum tuberosum) é originária das regiões andinas. Lá é cultivada há 8 mil anos.

post-rio-inhomirimCaçando anta no rio Inhomirim (por Rugendas).

Na serra dos Órgãos tem-se uma agradável estada: a temperatura é deliciosa e os lugares são deslumbrantes. Nosso palácio de flores é frequentado por todas as criaturas aladas da região. Borboletas e besouros, vestidos como personagens de Perrault*, volteavam e zumbiam constantemente ao nosso redor. Papagaios, tangarás e colibris não se cansavam de visitar nossa casa. Essas delicadas aves, vestidas de brilhos, frequentavam o apartamento da senhora Lagrené mas, de tanta insistência, chegavam mesmo a cansar. — Charles Perrault, autor de contos de fadas.

Naquele lugar, tivemos o prazer de conviver com um velho médico que, além de dar assistência profissional aos hóspedes do senhor Marsh, servia de cicerone para os visitantes de mais distinção. Esse doutor tinha uns 60 anos de idade, mas era vigoroso e alerta. Sua fisionomia radiante, seu sorriso e atitudes educadas, denotavam possuir espírito elevado e bondade.

Ele nos falou de suas vivências nos quatro cantos do mundo. Fôra médico da marinha, titulado como Cavaleiro de Cristo*, diretor de explorações coloniais e, sempre que podia, procurava ser útil. Eu apreciava vê-lo nas nossas andanças falando de política, literatura e economia social. Enfim, de tudo que pode-se esperar de um homem inteligente. Sempre se dirigia a mim para discutir algum tema científico. — Honraria oriunda da antiga ordem eclesiástico-militar dos Templários.

Durante oito dias na Serra, ficamos por conta dos gostos e sugestões do senhor Marsh. Meus companheiros faziam diariamente passeios a cavalo pelos seus vastos domínios em torno da pousada. Quanto a mim, pela manhã, sempre mergulhava no interior da floresta, em busca de certos seres diminutos que vivem sob as cascas das árvores. Lembro-me bem e com alegria, dessas minhas aventuras no meio do silêncio.

Um negro cuidava de carregar minha bagagem, nela havia uma coleção sortida de redes, alicates e caixas. Eu carregava o equipamento até onde aguentava e, com uma machadinha na mão, cortava galhos das árvores. Do mesmo modo, rompia os arbustos entrelaçados de cipós que impediam meu caminhar. Com emoção, levantei as cascas de árvores caídas, onde abrigavam-se numerosos besouros. Diante de tantas surpresas, os tangarás, os pica-paus vermelhos e os papagaios chegavam a parecer aves vulgares.

post-cac%cc%a7adaCaçada na serra do Mar (por Rugendas).

O Brasil é a terra prometida dos naturalistas. As regiões montanhosas são as mais interessantes. Para aqueles que não desejarem estender demais a viagem, recomendo a querida serra dos Órgãos, onde vão encontrar tudo que possam imaginar. Costumam caçar onças nessas montanhas, a espécie carnívora mais temida das terras americanas. Para o caçador, seu enfrentamento é demasiadamente perigoso, mas há a opção pela anta, que tem maneiras mais dóceis e sociáveis. Muitas vezes, encontrei esse imenso paquiderme ao longo dos rios e na beira dos lagos. Fiz muitas vítimas entre os tatus, mas com alguma dificuldade, porque sempre estavam bem distantes de mim. O leitor certamente ficará surpreso, mas digo que as serpentes são muito raras nessa parte do Brasil.

Um réptil muito comum na serra é o iguana*, um grande lagarto, robusto, ágil e audacioso, que sobe nas árvores para caçar pequenas aves. Eu os vi atravessando as estradas, tentando capturar pequenos quadrúpedes. O senhor Marsh matou vários durante nossa estada, para servir à nossa mesa essa fina riqueza da culinária brasileira. — * Provavelmente um teiú.

Era meu propósito percorrer as alturas da serra dos Órgãos, até que chegou o esperado momento. Assim foi que, lá no cimo, consegui colocar as mãos na base dos grandes tubos de granito. Naquele momento era turva minha visão da pedra e vi nuvens transparentes movendo-se devagarinho. Em alguns instantes, percebi minha voz misturando-se com os ruídos da floresta, tal como fosse de u’a música do início do mundo, guardada naqueles nichos da pedra.

Admirei, lá embaixo, a cena magnífica de um tapete de folhagens contrastando com o mar azul. Na vasta extensão líquida, formavam-se cabos, enseadas e promontórios. E, para completar, o vento e o sol pareciam estar produzindo esculturas sobre as ondas. Porém, no meio dessa solitude, não fui capaz de perceber sequer uma habitação e isso fez surgir em mim um sentimento de tristeza. Assim, pude compreender que uma paisagem só se completará se tiver alguma manifestação da atividade humana.

post-selva-exuberanteÍndios na selva exuberante (por Rugendas).

Extenuado e sozinho, sentei-me à beira de um riacho e, de imediato, ouvi uma voz, mas não era dos escravos que me acompanhavam. Falava em inglês e contentei-me a responder com displicência, sem sequer voltar os olhos para verificar de onde vinham as palavras. Respondi como pude:

‘- Que deseja, senhor? Não compreendo o inglês.’

Ouvi a resposta:

‘- Esses franceses são engraçados!’– com um acento tipicamente britânico. ‘- Acham que todo mundo conhece sua língua. Falam apenas o francês!’

Então levantei-me, vi a pessoa e repliquei:

‘- Tem razão. Os franceses têm a pretensão de acreditar que sua língua é universal. Mas sofrem pelo descuido, sempre que metem o nariz fora da sua terra.’

Meu interlocutor plantara-se sobre um rochedo, tal e qual um caçador de camurça na borda de um precipício, rígido sobre as pernas. Vestia polainas de couro e um traje arredondado, e trazia uma enorme faca pendurada na cintura. Seu rosto rosado e de tez fina, tinha como moldura uma bela barba ruiva. Era grandão e forte, e sua aparência transmitia um jeito franco e aberto, o que contava a seu favor. Então, depois de lançar-me um olhar explorador, aquele filho de Albion anunciou:

‘- Sou mister Braone*. Você quer repousar em minha casa? Gosto muito dos franceses.’ — * Corruptela do inglês Brown ou Browne.

Daí, eu disse meu nome e, usando a mesma fórmula que adotara ao tratar comigo, acrescentei:

‘- Com muito prazer, vou descansar na sua casa. Gosto muito dos ingleses.’

Acredito que, ao exagerar na minha assertiva, devo isso à maneira bizarra como ocorreu nosso encontro.

Então, depois de atravessar uma fenda circular, cavada numa pedra de granito, pude alcançar a propriedade de mister Braone. Devo afirmar que esse moderno Prometeu gentilmente estendeu-me sua mão. Porém reconheço que, ao observar seu rosto corado, fez-me pensar que havia um abutre a roer-lhe o coração. No meu modo de entender, somente um louco, ou um sábio, poderia viver naquele isolamento. Perguntava a mim mesmo: em qual dessas categorias poderia classificar meu novo relacionamento?

O senhor Braone introduziu-me a um pequeno salão devidamente mobiliado. Era um cômodo comprido e estreito, vazado por três janelas acortinadas e mobiliado com um sofá, mais cadeiras de vime. Instalou-me diante de u’a mesa, sobre a qual estavam garrafas de vinho do Porto, licor, conhaque e rum, e havia um grande livro ao lado.

post-negras-de-debretNegras retratadas por Jean-Baptiste Debret.

Logo que me assentei, o senhor Braone, desculpando-se, retirou-se por instantes. Um quarto de hora depois voltou, conduzindo sob o braço uma jovem negra. Essa moça, que poderia ter bem uns 18 anos, estava trajada com um vestido branco e um enorme xale, do uso de algumas damas inglesas. Cobria-se com um chapéu azul, harmonizando com o resto do traje e calçada com sapatos rústicos, em couro preto, que cobriam-lhe os peitos do pés. Suas mãos vestiam luvas. Ela denotava estar muito desconfortável assim vestida.

A pobre criatura tinha um ar de pânico, expressão comum aos negros daquelas plagas. Trazia três fortes cicatrizes abaixo do nariz. Quase todos os negros a pouco introduzidos nas colônias europeias têm esses sinais, resultantes de algum ferimento que, propositalmente, costumam aplicar-lhes na juventude. Isso ajuda na constatação de suas identidades, contudo, não submetem a essa barbaridade os negros crioulos* . — * Crioulo: negro nascido e criado no Brasil.

O senhor Braone postou-se diante de mim, ainda com sua companhia apoiada nos braços e ambos inclinaram-se ao mesmo tempo. Então, referindo-se à jovem negra, disse ele: ‘- Esta é madame Braone!’

Contive o riso e cumprimentei a bizarra dupla, mas faltaram-me palavras para fazer algum comentário. O gentleman, depois de inclinar-se mais uma vez, rodopiou sobre os pés e afastou-se, levando consigo aquela singular madame Braone.

post-negra-c-xale← Negra com xale.

Ainda não havia me recuperado do susto, quando reapareceu o senhor Braone dando o braço a outra negra. Essa, mais jovem que a primeira, usava certamente os mesmos trajes que a outra desvestira, mas como a anterior era de porte mais avantajado, dessa feita parecia um vestido de cauda. O senhor Braone, fiel aos costumes do seu país, o qual estava a adotar nessas apresentações, se inclinou de novo diante de mim, dizendo:

‘- Esta é outra madame Braone.’

Diante da declaração inusitada, dessa feita não foi possível me conter e dei uma imensa gargalhada. Minha barulhenta hilaridade não incomodou o anfitrião. Contentou-se em olhar para o alto e logo exclamou:

‘- Oh! Esses franceses, se escandalizam com tudo!’

E eu retruquei:

‘- Não se escandalizam exatamente com tudo, meu caro senhor Braone, de fato os franceses se encantam com tudo!’ Por favor – acrescentei, sem poder conter o riso – quem foi o padre que abençoou o duplo casamento? Talvez possa recorrer a ele em caso de necessidade.’

Sem pestanejar, prosseguiu o senhor Braone:

‘- O padre sou eu. Casei-me por conta própria.’

‘- Meu caro senhor Braone, ao praticar esse jogo, você acabará pendurado como um cão e amaldiçoado como um judeu! A poligamia é um caso abominável e maldito.’

‘- Oh! Oh!’– disse o gentleman. ‘– Em França e Inglaterra eu estaria perdido, sim! No Brasil, não! Não serei condenado, aqui sou visto como Abraão e Jacó, e bem farei se povoar esse deserto.’

‘- Mas você é cristão, suponho…’

‘- Em Londres ou Paris, sim. Aqui sou patriarca. Conheço a Bíblia melhor que você my dear* (*meu caro). É o único livro que tenho lido há seis anos’– apontando o grosso volume sobre a mesa. ‘É dela que tiro minha única regra de conduta. A Biblia não é, como se pensa, a história de um povo. É a lei escrita, tomando como exemplo os homens na civilização, na barbárie e no patriarcado. Aqui vivo no patriarcado… Oh, não! Jamais serei condenado!’

‘- Meu caro senhor Braone, admiro sua interpretação da Bíblia, mas ela é novidade! E você compreende perfeitamente seus deveres de patriarca?’

‘- Oh, sim! Compreendo bem. Você vai ver…’

Logo em seguida, pegou um chicote que estava pendurado atrás da porta. A empunhadura desse instrumento de correção possuía um apito, do qual tirou sons agudos. Imediatamente, vi adentrar no salão cinco ou seis figurinhas grotescas, de cor marrom, que se postaram silenciosamente, lado a lado, na posição de soldados em armas. O inglês mirou-os com satisfação e, em seguida, me disse:

‘- São os pequenos Braones! Quando crescerem, deixar-lhes-ei tudo que aqui possuo: esta casa, estas montanhas, estas terras. Serão mais ricos do que se fossem filhos de escravos e, então, tratarei de me ocupar com a tarefa de povoar Sidney*… Oh! Se todos fossem iguais a mim, todas as colônias logo estariam como formigueiros!’ — * Sidney, na Austrália.

De fato, fiquei pasmo diante do senhor Braone. Até então, não podia acreditar que alguém pudesse ser tão louco, mas aparentando ser normal. Depois de um momento de silêncio, prossegui:

‘- Você bem sabe que, retornando à França, eu relatarei sua maneira de viver e as circunstâncias em que nos conhecemos, mas ninguém irá acreditar.’

‘- Oh! Certamente, não lhe darão crédito’ – replicou vivamente o gentleman. ‘- Os franceses irão considerar esses fatos por demais extraordinários para acreditar. Quanto voltar, ao dizer apenas o que viu, é claro que vão lhe acusar de ter inventado. Oh, sim!’

Essa ideia do senhor Braone feriu-me, por conter tanta franqueza. Assim, estou procurando escrever exatamente, muito exatamente o que pude ver, e não quero ser acusado de exagero.

Ao decidir ir-me embora, o senhor Braone tentou convencer-me a passar a noite com ele. Contudo, não pude atender ao seu desejo, pois meu grupo iria partir da serra na manhã seguinte e teríamos que fazer a viagem a pé, durante o dia. Diante disso, o senhor Braone conduziu-me à saída, passando pela cozinha, onde vi uma negra velha ocupada em preparar dois macacos, que tinham não mais que 60 centímetros de comprimento.

Naquele momento, disse-me o senhor Braone, mostrando a iguaria:

‘- Se desejar permanecer, eis nosso jantar!’

post-saturno-devorando← Saturno devorando o próprio filho (por Francisco de Goya).

Fiquei horrorizado! Naquele momento imaginei-me convivendo com um monstro. Os dois pequenos corpos davam a impressão de serem criancinhas. Veio ao meu pensamento aquela cena de Saturno devorando seus filhos. Mas, na sua postura impassível, o inglês tranquilizou-me, dizendo que poderia comer os macacos sem ser taxado de canibalismo. Então apenas apertei sua mão, que cordialmente me estendera…

Voltei à nossa pousada na serra e os companheiros pediram para que narrasse os acontecimentos do dia. Contei-lhes da visita ao senhor Braone, mas eles não acreditaram numa palavra sequer. Como iríamos partir no dia seguinte, não puderam verificar a veracidade dos fatos, por isso permaneceram apenas com a minha versão. Depois disso, fiquei matutando sobre a profecia do senhor Braone e, hoje, acredito que o patriarca da serra é um sábio.

No momento de deixar nossa deliciosa habitação, aproximou-se de mim um negro – era o companheiro de minhas caminhadas – e ele estendeu-me timidamente as mãos. Entendi que pedia um agrado e, então, dei-lhe algumas moedas. Mas recebeu-as sem entusiasmo e ainda mantendo a mesma expressão de súplica. Nesse caso constrangedor, lembrei-me do senhor Braone, ao dizer-me que quando um negro depara-se com um branco, sempre estende suas mãos vazias, mas não a pedir qualquer coisa de material.

Imploram, sim, algo de espiritual, uma espécie de benção(2). E o costume é dizer: ‘- Que Deus te faça Santo!’* Mas penso que mais correto seria responder a tal prática com uma atitude de sinceridade e harmonia, pois essa gente desafortunada merece. Por que não dizer?: ‘- Que Deus o faça merecedor da liberdade!’ — * Expressão antiga, semelhante ao “Que Deus te abençoe!”, mas especialmente dirigida aos negros.

Porém, estou convicto que esse voto como o precedente, ambos certamente iriam se perder no espaço e no tempo, sem qualquer eco. Isso porque, no martirológio* do Brasil, não há nenhum santo negro.” — * Lista com nomes de santos.

post-no-paraibaNatureza exuberante na região do rio Paraíba do Sul (por Debret).

NA REGIÃO DO PARAÍBA

caminho que estávamos a percorrer atravessava a serra dos Órgãos, até chegar às margens do rio Paraíba*. Nos afluentes desse rio, encontram-se populações caboclas**. Elas vivem do produto da caça e da pesca, mas dedicam-se também a algumas atividades produtivas. É nessas comunidades que a maioria dos viajantes estrangeiros têm vindo estudar os hábitos dos indígenas, pois são eles os legítimos representantes do antigo povo da terra***. Da mesma maneira, no século passado, o chevalier M. Florian pesquisou, no entorno de Paris, os hábitos arcaicos dos camponeses. — * Rio Paraíba do Sul, corre ao norte da serra dos Órgãos. // ** Caboclo: indivíduo nascido de branco e índio. // *** Índios puris e coroados.

Mantivemos nossa rota durante boa parte da jornada, até notarmos que nosso principal guia havia nos abandonado sem avisar. Certamente foi consequência da infeliz ideia de terem lhe oferecido uma dose de aguardente. Tivemos então de aguardar seu retorno e, nessa expectativa, fizemos pausa em um parador, lugar de repouso dos tropeiros dessas plagas.

No momento em que ali chegamos, havia uma caravana estacionada numa praça circular. Esse albergue primitivo compõe-se de um galpão coberto de folhas de palmeira e serve de repouso para os viajantes. Há também um curral ao lado, para prender os animais. Nessas ocasiões, as mulas são descarregadas e os negros aproveitam para preparar sua comida.

Tendo em vão esperado nosso guia, decidimos a continuar meio sem rumo, por algum tempo. Até que o encontramos tranquilamente deitado ao pé de uma árvore, desfrutando da condição de homem livre que era. Depois de retomar em segurança a caminhada, penetramos numa admirável floresta de palmeiras e samambaias arborescentes*. A presença desses vegetais anunciava que estaríamos descendo em direção às regiões mais quentes. Também a atmosfera causava essa impressão. — * Samambaiaçus. Do tupi-guarani: sama-mba = o que torce; açu = grande.

post-floresta-serra-do-marNatureza da serra do Mar (por Debret).

Durante todo tempo, atravessamos esse lugar com admiração, até chegarmos onde dois caminhos se cruzavam. Ali, encontramos um negro velho que nos orientou. Deveríamos seguir uma trilha à direita, onde haveria uma casa por perto. Diante disso e sem hesitação, adentramos numa espécie de ravina* estreita e íngreme, rodeada por árvores gigantescas. — * Escavação no solo produzida por chuvaradas.

Aos intervalos, encontramos magníficos bovinos a nos encarar com curiosidade. Quando nos aproximamos, alguns animais mostraram-se enraivecidos, outros decidiram nos acompanhar por algum tempo. Depois, foram nos abandonando, ao mesmo tempo em que lançavam olhares admirados. Contudo, a presença da criação não foi indicativa de alguma casa, pois somente a encontramos somente 1 hora depois, ao descermos uma forte rampa. Era um miserável casebre, rodeado por um enorme descampado (pasto fechado, manga), utilizado para guardar os animais. Um mulato, sua mulher e filhos eram os proprietários.

Disseram eles existir uma venda, distante 1 hora daquele lugar, cujo proprietário era Pedro Espanhol. Desse modo sendo orientados, daquela morada partimos. Depois de 12 horas de marcha, às 7 horas da noite, deparamo-nos com uma horrível habitação. Ali, uma velha e seu filho, feioso homenzinho de um pé torto, eram os únicos moradores. Tão logo nos aproximamos, apressaram-se em dizer que não podiam oferecer comida nem abrigo. O proprietário estaria ausente e não poderiam fazê-lo sem sua autorização, principalmente devido ao avultado número de viajantes que éramos. Logo disse a velha:

‘- Tomem suas montarias e sigam até a fazenda do capitão Custódio, onde poderão receber completa hospitalidade, sem que nada lhes custe. Meu filho os acompanhará, se quiserem.’

Mas ali ainda permanecemos por alguns instantes. Diante da porta de entrada havia um enlameado, onde um porco alimentava-se de restos de comida. O interior era escuro e mal-cheiroso, e não havia sequer um cobertor para servir de agasalho, nem uma cadeira para sentar. No quintal, via-se um punhado de patos e um cão sarnento acompanhando a velha.

Houve tanto empenho da mulher em nos despachar, que nos apressamos a atender seu desejo. De fato, a tal venda do senhor don Pedro Espanhol mais parecia um covil de bandidos do que um albergue. Verdade é que ficamos admirados com a sabedoria e sutileza da velha, por ter-nos afastado daquela imundície.

Depois dessa breve parada, tornamos a montar em nossas mulas, porém acompanhados do homenzinho do pé torto, novo guia da nossa cavalgada. Uma hora após a partida, chegamos à casa do capitão Custódio. A entrada da fazenda estava fechada por uma porteira. Os cães ladraram e os escravos se apressaram a receber nosso grupo, que já estava a adentrar impetuosamente. Sem tardar, o Pé Torto pediu para falar com o senhor administrador, que acorreu prontamente.

Nosso porta-voz lhe expôs as dificuldades e o desejo de encontrar uma pousada. Tão logo recebeu o pedido, o homem abriu a porteira. Daí, adentramos por um largo corredor, através do qual alguns negros nos guiaram portando tochas. O habitáculo ao qual fui conduzido era de padrão inferior ao do resto da casa. Compunham-no três pequenos cômodos contíguos, com a aparência de quartos de vestir. Ali jogamos esteiras para descansar, enquanto aguardávamos o jantar. Desde o amanhecer, nada havia entrado em nossos estômagos, senão um pouco de farinha de mandioca e uma xícara de chocolate.

Finalmente, às 10 horas, sentamo-nos à mesa. O jantar compunha-se de aves, uma porção de arroz, feijões pretos – parecendo pérolas negras – e farinha de mandioca. Tanto pela fadiga, quanto pelo sono, não conseguimos permanecer muito tempo na sala. Por isso, logo fomos nos meter debaixo das cobertas e, então, caímos em sono profundo. Logo na madrugada, às 4 horas, já estávamos de pé. Os escravos saiam das suas casas com destino ao trabalho. Ouvimos ruídos de carpintaria e pancadas em bigornas.

A fazenda lembra uma pequena vila. A habitação do capataz é circundada pelas dos escravos. Há também edificadas, todas próximas, cobertas para a preparação do chá, do café e do açúcar. O chá só começou a ser cultivado no Brasil há uns 20 anos e já apresenta considerável produção. A exportação tornou-se a mais importante graças ao seu condicionamento em caixas, no mesmo feitio daquelas que vêm da China.

Contudo, é preciso considerar que existe uma grande diferença entre o chá do Brasil e o do Celeste Império. O chá brasileiro, pelo seu aroma e azedume adstringente, nada tem em comum com o chinês. Acredito mesmo que o do Paraguai*, que de fato não é um chá, é preferível ao chá brasileiro. — * Chimarrão. 

post-moendaEngenho de açúcar (por Rugendas).

Quanto à fabricação do açúcar, penso que deixa muito a desejar. Os fazendeiros não têm noção dos atuais progressos dessa indústria, tal como ocorre na Europa. De acordo com o capitão Custódio, os equipamentos para a confecção dos produtos compõem-se apenas de uma moenda, cinco caldeiras – dispostas em série – e um aparelho destilador.

A moenda é tocada por uma roda d’água, que faz funcionar três cilindros de metal. Esse mecanismo é insuficiente para retirar das hastes toda a sacarina contida. As caldeiras, onde se faz o clareamento e o cozimento do xarope, são no processo de fundição. O espessador e a própria disposição do forno, não permitem regular o fogo de maneira conveniente. Quanto ao destilador, para produzir a aguardente – a cachaça –, é no feitio daquele construído séculos atrás por Arnaud de Villeneuve. É a mesma máquina que vimos desenhada nos livros de alquimia.

A aparelhagem deficiente e o processo tosco, fazem com que o produtor deixe de retirar da cana tudo que ela pode oferecer. Perde-se grande quantidade de substância cristalizada e seus álcoois exalam um gosto desagradável. Porém, apesar de tantas coisas negativas, compensa a fecundidade dessa terra, pois ajuda os produtores a obterem lucros consideráveis, mais do que em outros países tropicais.

As mesmas considerações sobre o açúcar, podem igualmente aplicar-se à produção do café. A polpa do fruto é muito mal aproveitada, devido ao descuido no serem ensacadas. Isso afeta o processo de fermentação, prejudicando a qualidade final do produto. Em algumas fazendas na vizinhança do Rio de Janeiro, a colheita tem sido aprimorada. Primeiramente lavam os frutos, imediatamente após a colheita. Em seguida, os remetem a um descascador, onde são separadas as partes moles das duras. Na fazenda do capitão Custódio cultiva-se um pouco de arroz e a produção tem alcançado os mesmos níveis das melhores terras da Índia. E, tal como lá, pode-se obter várias safras anuais no mesmo solo.”

Texto, tradução, pesquisa e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

CONTINUA no próximo Post. / Clique e leia mais: “Rio Antigo (I)” e “Rio Antigo (II)”

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(1) LAGRENÉ, Théodore de – (*14.03.1800 / †26.01.1862) Chefe da missão e, posteriormente, embaixador extraordinário da França na China. Casado com Warinka Doubenski – senhora Lagrené – (*1806 /†1901), que fora demoiselle d’honneur da imperatriz da Rússia.

(2) QUE DEUS TE FAÇA SANTO – Extrato do jornal “Sete d’Abril”, Rio de Janeiro, 16.12.1835, p.3: … se despedio o pobre negrinho com um Deus te faça Santo.” // Em “A Madresilva”, drama de J. S. Mendes Leal, Lisboa, 1847, p. 43: “… Deus te faça Santo… Endiabrado! E a serafina!… Ora, louvado Deus…”. / Serafina: variedade de baeta espessa, geralmente com desenhos ou debuxos.

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01/06/2017

RIO ANTIGO (II)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:44 am

♦ A cidade e os arredores

Em 1844, o médico francês Yvan Melchior-Honoré, acompanhando uma missão oficial francesa, chegou à então capital do Brasil, em 28 de janeiro.(1) Este Post é o segundo, em seguimento ao anterior, parte do relato que fez da sua visita.

post-palacio-s-cristova%cc%83oResidência imperial: Paço de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista.

NA CIDADE

logo que chegamos ao Rio de Janeiro, visitamos diversos estabelecimentos dessa grande cidade. Escalamos as montanhas, percorremos por todo lado a graciosa baía, vimos as ilhas que ela abriga e, enfim, perguntamos: ‘- Quem aqui governa?’ Enganar-se-ia aquele que imaginasse quem seriam aqueles homens postados sob os arcos do Paço Imperial*, vestidos em trajes militares e em permanente ócio. Tampouco seriam os raros padres vistos nas ruas, quem pudesse levar-nos a acreditar que tudo giraria em torno da sua força moral, à qual o povo estaria submetido. — * Palácio Imperial e sede administrativa.

Por outro lado, dúvida não resta, seria necessário procurar o poder naqueles que possuíssem propósitos mais elevados. Porém percebe-se logo que, neste país distante, poucos são os homens dedicados ao benefício do povo, embora nem agentes secundários para tanto existam. Cada indivíduo age por si só, sob sua própria vontade e seus interesses, dentro do que, aparentemente, lhes parece permitir a lei. Enquanto aguardava a apresentação da minha comitiva à sua majestade – o Imperador –, essas dúvidas tomaram conta do meu pensamento.

post-pac%cc%a7o-imperialPaço Imperial – sede do governo e casa de despachos –, no centro da cidade.

O encontro com d. Pedro II teve lugar no Paço de São Cristóvão, residência oficial, situada a pouca distância da capital, num lugar bem arejado e de uma perfeita salubridade. O Imperador possui um porte elegante, sua fisionomia é grave, embora juvenil, denotando também inteligência e bondade. Cabelos louros e olhos cobertos por longos cílios, dão ao seu rosto uma expressão de charmosa candura*. — * D. Pedro II tinha 18 anos de idade e estava recém-casado.

Sua majestade vestia dragonas de tenente-general e o traje completo fazia lembrar o velho uniforme da cavalaria. Mas não se tratava de uma vestimenta autenticamente militar, a qual faria completar sua postura naturalmente distinta. Gostaríamos de ter sentido um sinal de mais de ousadia e mais poder vindos do comandante, nesses dias de fundação do vasto e ainda mal organizado império. Além disso, sua aparência denotava pouca propensão à pratica de exercícios físicos mas, talvez, lhe faltasse a energia necessária.

Recebemos do imperador boas-vindas, com gentileza e simplicidade. Fomos também apresentados à Imperatriz e à princesa Januária*, que fala francês com extrema desenvoltura e graça. Quando estivemos no palácio, nossa acompanhante, a senhora Lagrené, permaneceu conosco por mais de 1 hora. Depois que nos retiramos, ainda ficou lá por muito tempo. Na nossa audiência, estávamos liderados pelo senhor Lagrené(2), ministro plenipotenciário e chefe da missão. Ele estava acompanhado da esposa, senhora Lagrené e duas filhas, senhoritas Gabrielle e Olga. — * Januária, irmã de d. Pedro II e filha de d. Pedro I.

post-pedro-palacioD. Pedro II, em 1842. Ao fundo: Paço de São Cristóvão, na configuração mais antiga.

O palácio de São Cristóvão não tem a mesma grandeza e magnificência de Saint-Cloud, de Neully, nem de qualquer das residências reais da França. Entretanto, tudo ali é confortável e de bom gosto. O Imperador, que ama apaixonadamente a literatura francesa, coleciona muitos livros da nossa língua e, numa sala, vimos novidades literárias da França, arranjadas sobre mesas e porta-livros.

É impossível passar pela residência imperial sem ter lembranças da mademoiselle princesa de Joinville* que, quando morou nessa casa, foi seu ornamento e deu-lhe vida. As boas memórias que deixou e o interesse pelo seu nome ainda repercute no Rio. São resultado dos seus melhores sentimentos de afeto, os mesmos que incutiu à sua nova família na França(3). — * Francisca, irmã de d. Pedro II, havia se casado.

De São Cristóvão partimos ao fim do dia e vimos numerosas viaturas passando ao nosso lado. Havia muita movimentação em torno do palácio. E não poderia ser de outra forma, o ministério fôra dissolvido e estavam a constituir outro. Para nós, isso não despertou maior interesse e, por isso, logo nos afastamos. Porém, continuamos pensando no jovem imperador, calmo e sério, em cujos ombros repousavam os destinos de um imenso império. Nessas condições, via acumular inúmeras demandas em torno de si. Consequência daquilo que havia prometido às pessoas de bom coração e inteligência elevada.

post-teresa-_-francisca-_-januariaImperatriz Tereza Cristina. / Francisca – princesa de Joinville – e Januária, irmãs de d. Pedro II.

Os brasileiros de origem portuguesa, por serem homens de raça ibérica, têm hábitos descuidados, mas são ardentes e apaixonados em suas ações. Por vezes, tornam-se exaltados e vingativos, sobretudo quando tomados pela ambição ou pelas paixões, tais como a raiva ou o amor. Por outro lado, nota-se que é próprio deles evitar convivências muito próximas. Em vista disso, em sua maior parte, vivem fechados em seu núcleo familiar. São verdadeiros santuários, onde ninguém entra com facilidade, porque mantêm as portas sempre cerradas.

Por outro lado, quando alguém se atreve a lançar um simples olhar às suas donzelas cativas, sua mulher legítima ou seu escravo, o chefe despótico redobra as precauções. Pelo lado da religiosidade, mostra-se de profunda ignorância e se atêm apenas às práticas exteriores do culto. Nesse aspecto, o guia espiritual não exerce sobre ele qualquer influência e não poderia ser de outra forma.

Nessa terra, a maioria dos padres são europeus e foram afastados da sua diocese por algum delito. É o motivo pelo qual foram recolhidos a essas longínquas paragens mas, apesar disso, continuam a demostrar falta de qualquer reserva no seu comportamento. A hierarquia episcopal é impotente para manter a disciplina e quase não existem sacerdotes nativos. A única maneira de regenerar esse corpo gangrenado, seria subordinar a administração das paróquias a uma congregação religiosa. Tomei conhecimento de que, para tentar corrigir esse péssimo estado de coisas, alguns sábios prelados haviam feito gestões no sentido de que se enviassem missionários.

post-m-yvan← Doutor Yvan Melchior-Honoré.

O enfraquecimento da fé entre a população é um sinal de deterioração do caráter nacional. Por outro lado, se vê que toda essa gente da cidade vai adquirindo, dia-a-dia, um caráter cada vez mais francês. Essa tendência é facilmente explicável, pelo fato de grande número de brasileiros terem estudado na França. As pessoas de maior influência social, tais como médicos, advogados e jornalistas, são franceses. Além do mais, devido ao hábito que têm em adquirir seus objetos dos desejos das mãos de comerciantes franceses, tais como aqueles de moda pessoal, os móveis, vinhos e tecidos, acabam então por se identificarem, cada vez mais, com o nosso estilo de vida.

Digo ainda, sem falso orgulho, que a civilização francesa penetra não apenas pelos seus próprios agentes, mas graças a certas mulheres que, ao verem aproximar seu próprio outono, fazem tudo para imitar o que há de melhor em Paris. Por isso é que se vê, em certos salões do Rio, pessoas a praticarem os mesmos hábitos fúteis de Mabille* e Chateau-Rouge**. Infelizmente, o modelo que vem de outro país, faz com que eles também adotem muitos dos seus vícios e menos das qualidades. — * “Le Bal Mabille”: salão de dança, fundado em 1831 – Paris; ainda existe. / ** Praça do “Chateau Rouge”, situada no “18º arrondissement” – Paris.

Tão numerosa é a população de origem francesa no Rio que, nos arredores da cidade, instalaram-se casas noturnas e cabarés populares, frequentados quase que exclusivamente por operários do nosso país.

post-m-delahante

← Fernand Delahante, diplomata francês.

Num dia de domingo, eu e o senhor Fernand Delahante(4), estávamos a descer do Corcovado, mas já atormentados pela fadiga. Porém, em certo momento, necessitando reparar nossas forças, saímos procurando por um repasto n’algum lugar. Por ali mesmo, alguém nos indicou uma venda, situada a alguns passos do nosso caminho. Então, subimos um aclive e deparamos com uma pequena colina coberta de árvores floridas. No momento em que nos aproximávamos da habitação, ouvimos gargalhadas e cantorias bem francesas, um anúncio de que iríamos encontrar compatriotas e com quem faríamos amizade.

Chegando lá, de fato deparamo-nos com uma quarentena de jovens operários. Havia numerosas mesas cujos apoios eram tonéis e, em torno delas, cantavam e bebiam com alegria recordando a pátria! Além do vinho e dos convivas, tudo era francês, e mais a dona do cabaré, a senhora Breissan – mulher exuberante e alegre. Ela possuía resposta pronta para qualquer pergunta e parecia ser muito querida pela clientela. Então, logo aderimos à pequena multidão e, com esses bravos e efusivos convivas, passamos a repartir prazeres. Não faltaram os temperos, nem os vinhos.

A maioria dos operários orgulhava-se da sua posição e nenhum deles se arrependia de ter abandonado seu país, por algum tempo, para fazer fortuna. Contudo, suas conversas não tinham por tema a França, embora de vez em quando denotassem saudade. ‘- Ah! Se a França tivesse o clima do Rio, a baía do Rio, os ferros e o carvão da Inglaterra!’, gritavam a uma só voz. Porém, nenhuma palavra soava de modo a acreditar que faziam isso ou algo mais pela pátria!

Mal sentamos à mesa comum, abordaram-nos com vivacidade querendo saber notícias. A cada pergunta, denotavam o mais vivo e verdadeiro amor pela terra natal. Indaguei, à senhora Breissan, se os operários de outras nações frequentavam seu estabelecimento. Ela respondeu:

post-alto-corcovadoVista do alto do morro do Corcovado (por Alfred Martinet).

‘Aparecem alguns, de vez em quando. De todo modo, aqui as coisas têm ido bem, a não ser pelo pagamento que recebemos pelo trabalho e pela precária qualidade das mercadorias, e bem como pela pouca clientela. Porém, quando o tema das conversas é a França e suas batalhas, as cabeças se esquentam, surgem conflitos, brigam e não há como se entenderem.

Outro dia, entraram em luta com uns ingleses que, embora sejam calmos na aparência, não são menos sensíveis quando se trata da honra nacional. Prefiro vê-los apartados e, se brigarem, desejo que não se machuquem.’

Essas palavras da senhora Breissan bem definem o caráter dos nossos trabalhadores no exterior. Seu calor patriótico é sempre excessivo, arrogante e mesmo um pouco selvagem. Isso se dá porque essa gente ingênua entende que somos superiores em tudo. E, em caso de discussão, não encontram argumentos que possam substituir a força muscular que Deus lhes deu. Foi nesse ambiente que passamos uma parte da tarde a contar casos, entre nossos bravos compatriotas, até que partimos, encantados com sua verve, sua franqueza e seu bom humor.”

NA TIJUCA

o dia seguinte, levantei-me às 5 horas da manhã para visitar o lugar chamado Tijuca, situado a pouca distância da cidade. O dia estava delicioso, o frescor do ar e o céu, de uma pureza admirável. Decidi então juntar-me ao pessoal do meu grupo que, não contando comigo, já havia partido. Tão logo me aprontei, escolhi um bom cavalo e saí alegremente a galope, pela estrada que conduzia ao jardim botânico. O caminho é ornado com belas habitações, próximas aos lagos interiores que se comunicam com o mar.

Depois de 1 hora de animado passeio, alcancei os companheiros num lugar muito pitoresco, chamado Gávea. Naquele momento, preparavam-se para atravessar uma extensão de água salgada denominada Lagoa*, comunicante com o mar. — * Lagoa Rodrigo de Freitas. 

post-lagoa-r-freitasLagoa Rodrigo de Freitas (por Nicola Facchinetti, c. 1884).

Éramos muitos, embora contássemos com duas pirogas longas e estreitas, as únicas embarcações que o ‘almirante desse Mediterrâneo’ nos ofereceu. Contudo, para acomodar a todos, ele usou de um estratagema que pareceu-me criativo. Colocou, sobre as pirogas, um par de pranchas largas e amarrou-as fortemente, de modo a todos transportar nesse precário veículo. Depois remou cautelosamente, para realizar a travessia do lago. As margens da lagoa são adoráveis! Em meio a flores azuis, grandes libélulas inclinam-se e banham suas cabeças na água. E há, grudadas nos arbustos, milhares de ostras brancas, que se assemelham a pétalas murchas.

Mas, tenho de confessar: naquele instante, emocionei-me com tanta beleza na natureza. Porém, a cada movimento que fazia, meus companheiros de viagem reprimiam meu entusiasmo, de modo a tornar um tanto cansativas as nossas 2 horas de navegação.

Chegando à terra, dirigimo-nos a uma plantação de café, onde encontramos negros dedicados a almoçar. Eram homens de 30 a 40 anos de idade, escuros como couro envernizado, troncudos e bem musculosos, e pouco vestidos. Uns acendiam o fogo; alguns deles, já agrupados em roda, comiam espigas de milho e conversavam. Outros tantos, permaneciam à beira do lago, recolhendo pequenos crustáceos para assar na brasa ardente.

A ração desses escravos compunha-se de farinha de mandioca, ou milho verde, e alguns crustáceos, que eram acrescentados como suplemento alimentar muito necessário. Ainda estávamos a observar essa cena animada, quando trouxeram nossos cavalos e, dali, retomamos nosso roteiro em direção à Tijuca, onde chegamos 1 hora depois.

post-cascata-da-tijucaOs dois rochedos (à esquerda) e a cascata da Tijuca (por Débret).

Em meio a essa natureza espetacular e plena de magnificência, num país cujos riachos parecem rios caudalosos, há montanhas vestidas de flores. Elas furam as nuvens com seus picos agudos. Há, também, exuberante vegetação que invade até mesmo os rochedos e que deslumbram os turistas quando chegam à Tijuca. Ali, depara-se com um curso d’água de pouca força e com uma cascata que despenca na direção de dois rochedos, de 30 pés de altura*, superpostos um ao outro, alcatifados de trepadeiras emaranhadas e árvores frondosas. — * 30 pés = 9,144m.

Os viajantes mais curiosos têm o dever de guardar essas impressões. Mas, se por ventura as revelarem a outrem, todos que quiserem repetir seus passos devem tirar suas próprias conclusões. Porém, que não sejam influenciados pelos padrões dos viciados em monomanias admirativas! Creio que foi por isso que nossos guias ficaram um pouco frustrados, diante do nosso desapontamento(4) frente a propalada beleza da floresta da Tijuca*. — * Entende-se que os viajantes transpuseram a serra por dentro da mata.

Em compensação, trataram de nos conduzir ao vale do Jacarepaguá (na vertente oposta da serra) que, segundo eles, abriga uma residência imperial*. Ah! Esse edifício é apenas um castelo de recreio, ou simplesmente uma espécie de fazenda. É uma habitação cercada por vasto jardim, onde crescem algumas espécies vegetais originárias da Índia. As lavouras de cana-de-açúcar, de milho e de arroz são o principal ornamento de um terreno fértil. Provavelmente, é pela fartura do que ali se produz, que os brasileiros chamam o lugar de celeiro imperial. — * Talvez a fazenda da Taquara (ver nota ao fim do texto).

Atravessamos Jacarepaguá sem tocar os pés na terra… Tomados pela fadiga, cobertos de poeira, queimados pelo sol, apressamo-nos, até chegar a uma habitação situada ao pé da Pedra da Gávea, montanha que se há que se ultrapassar por quem queira chegar ao Rio*. Nessa outra fazenda, recebemos amável acolhimento de uma francesa – a proprietária –, de modo que, por instantes, pudemos esquecer o cansaço da jornada. — * Retorno margeando o oceano.

Essa senhora tinha por volta de 40 anos de idade, mas aparentava menos, e mostrava-se notavelmente bela. Seus traços eram de adorável perfeição: a testa alta e lisa, os olhos grandes e negros, cobertos por longos cílios, a boca pequena, e sempre com um sorriso. Sua pele, de uma brancura diáfana, era adornada por alguns contrastes, que faziam lembrar pétalas de rosa de Bengala*. — * Flor vermelho-magenta, da região de Bengala; também nome de um corante.

post-rj-atualConcepção artística (simplificada) do Rio de Janeiro atual.

No momento em que chegamos, a bela fazendeira estava recostada num divã instalado no salão do andar térreo e iluminado por tênue claridade do dia. Vestia-se com um penhoar de musselina azul; seus braços e ombros estavam descobertos. Os cabelos negros, trançados com arte, formavam uma coroa enfeitando a cabeça.

Aos seus pés, acomodava-se uma jovem pálida, de aparência doentia e ar contrafeito. Essa pobre criatura, desgraçada, sofredora, privada dos atributos próprios da idade, contrastava com a bela e a vivaz patroa, irradiante em frescor e graça. Embora em idade outonal, a mulher permanecia com todos os charmes da juventude. Era uma demonstração das injustiças da natureza! Diante da serviçal enfastiada e da figura ao divã, meus olhos tentavam encontrar, escondido atrás de uma cortina, algum querubim* vermelho, pronto a pronunciar algumas palavras dedicadas a essa bela rainha. — * Querubins são seres angelicais, que se envolvem na adoração e louvor a Deus. 

Imediatamente, negras de porte elegante nos serviram confeitos e frutas, o que é raro no Brasil. Eram escravas de, no máximo, 20 anos de idade. Seus corpos esbeltos estavam cobertos com uma anágua branca, atada aos quadris, e mais um pano de cor viva a adornarem negligentemente os ombros.

Dizem, no Rio, que nossa bela compatriota chegou ao Brasil logo depois de ter rompido suas ligações com um dos maiores nomes literários da nossa época. A história é pouco crível e, se fosse verdade, o próprio poeta teria trazido tal fato à tona. Nos dez volumes das ‘Confissões’ (6), que ainda desejo ler, gostaria de encontrar alguma alusão à bela solitária da Pedra da Gávea.

Percorremos as terras da nossa anfitriã. É um grande cafezal, que ocupa mais de 100 escravos. Em certo momento, quando os escravos perceberam sua patroa, largaram o trabalho e acorreram rapidamente a lhe beijar as mãos. Foi uma cena bizarra ver esses negros, com três quartos do corpo nu, tocarem seu “museau”* proeminente nas mãos brancas e doces de nossa compatriota. — * Ao usar a palavra “museau” = focinho, o autor revela exacerbado preconceito. 

O curioso é que denotavam alguma satisfação em prestar a reverência, oferecida com muita humildade. A senhora, agraciada com essas homenagens, as recebia na mais perfeita indiferença. Eu diria que esse ato de submissão respeitosa acontecia sem que ela sequer notasse, tão distraída estava.

Finalmente, partimos desse charmoso isolamento ao declinar do dia. A brisa da tarde balançava as folhas das bananeiras, como se fossem imensos leques, e o frescor agradável nos fez esquecer o terrível calor que sentíamos durante a jornada. Logo que chegamos à vertente oposta da Pedra da Gávea, os desfiladeiros tornaram-se perigosos. Nossos cavalos desceram a ladeira passo a passo e, mesmo assim, vários companheiros sofreram acidentes de certa gravidade. Enfim, atingimos o Rio, depois de uma ausência de 18 horas. Passamos mais de 12 horas montados a cavalo.”

Continua no próximo Post. 

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post-sumidoiro-marcaRefúgio nos arrabaldes

No fim do ano de 1843, o imperador d. Pedro II e sua irmã, a princesa Januária, adoeceram e foram recuperar a saúde na referida fazenda da Taquara, localizada em Jacarepaguá. A imperatriz Tereza Cristina os acompanhou. Isso explica que o imperador, quando recebeu o doutor Yvan Melchior-Honoré em palácio, ainda em estado de convalescença, possa ter passado aquela impressão de que lhe “faltasse a necessária energia”, como descreveu o visitante. Saiu na imprensa:

“Tendo S. M. o Imperador partido hontem de manhã para a fazenda da Taquara, afim de que S. A. Imperial possa mais facilmente restabelecer-se da enfermidade que acaba de sofrer […] ficando (…assim) suspensas as audiencias nos Paços de S. Cristovão e da cidade…”“Jornal do Commercio”, 15.11.1843, p.1.

“S. A. I. a Sra. D. Januaria, que continua a residir na fazenda da Taquara, não compareceu na corte. Anunciamos porem com muito prazer que a augusta princesa se acha quasi de todo restabelecida. S. M. a Imperatriz que […] acompanhou constantemente a princesa imperial durante a sua grave enfermidade, assistiu ante-hontem ás festas da corte…”“Jornal do Commercio”, 03 e 04.12.1843, p.1.

“O sr. Lagrené, enviado extraordinario e ministro plenipotenciario de S. M. o rei dos Francezes […] teve hontem a honra de ser admitido com pessoas de sua comitiva, em audiencia particular, por S. M. O Imperador, no paço da Boa-Vista. […] Em seguida, o Sr. Lagrené e todas as pessoas de sua comitiva forão apresentadas a S. M. a Imperatriz, que já tinha se dignado receber em audiencia particular, e com afabilidade que lhe é propria, a Sra. de Lagrené.”“Jornal do Commercio”, 04.02.1844.

• Clique e leia os Posts: “Rio Antigo (I)” e “Rio Antigo (III)”

Texto, tradução, pesquisa e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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(1) MECHIOR-HONORÉ, Yvan – “De France en Chine”, Librarie de L. Hachette, Paris, 1855.

post-t-lagrene(2) LAGRENÉ, Théodore de – (*14.03.1800 / †26.01. 1862) – à direita, na foto (1844) à esquerda. Chefe da missão e, posteriormente, embaixador extraordinário da França na China. Casado com Warinka Doubenski – senhora Lagrené – (*1806 / †1901), que fora demoiselle d’honneur da imperatriz da Rússia. Isto talvez explique a deferência da família real com a visitante, que permaneceu em palácio depois da comitiva ter se retirado.

(3) BRAGANÇA, Francisca Carolina Joana Leopoldina Romana Xavier de Paula Micaela Rafaela Gabriela Gonzaga de – (Rio de Janeiro, *02.08.1824 / Paris, †27.03. 1898), Princesa de Joinville, quarta filha de d. Pedro I e d. Maria Leopoldina. Marido: Francisco Fernando de Orléans.

(4) DELAHANTE, Fernand – (*1822) Diplomata. Nomeado adido da Embaixada Francesa, Pequim, 1843.

(5) Naquele trecho percorrido pelo doutor Yvan, a floresta estava devastada. Desde o início do século XIX, estiveram a derrubar suas árvores, tanto para uso da madeira, bem como para plantar lavouras de cana-de-açúcar e café. Isso fez com que os mananciais secassem e a cidade passou a sofrer com a falta de água potável. A partir de 1862, d. Pedro II promoveu o reflorestamento.

(6) HOUSSAYE, Arsène – (*28.03. 1815 / †26.02.1896) Escritor, novelista e poeta. Autor de vasta e bastante medíocre obra. Encantado com as banalidades da vida social da sua época, talvez por isso mesmo, produziu literatura que obteve retumbante sucesso. Publicou “Les confessions, souvenirs dans demi-siècle – 1830/1880”, a obra citada pelo dr. Yvan Melchior-Honoré. Portanto, o autor de “De France en Chine” imaginou ali encontrar, sobre a bela rainha da Pedra da Gávea, alguma narrativa apimentada.

01/05/2017

RIO ANTIGO (I)

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 10:08 am

♦ A cidade e o Doutor Água Fria

Em 12 de dezembro de 1843, o médico francês Yvan Melchior-Honoré embarcou no porto de Brest(1), acompanhando uma missão oficial francesa que se dirigia ao oriente. Relatando sua viagem, escreveu “De France en Chine”, com um capítulo dedicado à passagem pelo Rio de Janeiro, que fazia parte do trajeto. Fez uma primeira escala na ilha de Tenerife e, em seguida, pisou em terra na então capital do Brasil. Seu texto vale como um documento histórico(2)

Post - Rio _ TaunayBaía de Guanabara (por F. E. Taunay, 1828).

No dia 28 de janeiro [1844], avistamos a costa do novo mundo. Assentado na frente do navio, contemplei essa terra misteriosa e fecunda, terra de florestas virgens e palmeiras que, em sonhos de minha infância, nela vislumbrei miragens poéticas. Tal como um jogo bizarro da natureza, o cume das montanhas – à esquerda da barra do Rio de Janeiro – desenham a forma de um gigante deitado de costas. Tudo é prodigioso nessa terra, onde as árvores elevam-se até 30 metros de altura, onde os rios assemelham-se a braços de mar e onde os portos são baías imensas.

La Sirène* (*o navio Sereia) lançou âncora às 5 horas da tarde. A calmaria havia retardado e por muito tempo, a entrada na enseada. Abriram-se as velas senão quando a brisa refrescou, assim deixando para trás a montanha do Pão de Açúcar. Os fortes de Santa Cruz e de Villegaignon foram avistados no meio da enseada, ocupada por navios de todas as nações e sulcada por pesadas chalupas* de pescadores, e por esbeltas canoas dos negros. * Chalupa: embarcação maneira, com um só mastro (Dicionário da armada portuguesa, 1841).

Post - Dr Yvan

← Yvan Melchior-Honoré

A baía do Rio é um pequeno mar interior, cujas águas beijam timidamente os pés das belas ilhas que nela se abrigam. A limpidez e transparência dessas águas só é superada pelo ar puro do entorno. Pudemos admirar o espetáculo que se desenrolava nesse imenso porto, o mais seguro que há no mundo, ornado com uma floresta de mastros, com fileiras de casas brancas nas duas margens e verdes montanhas a emoldurar a cena.

Nessas regiões tropicais, o dia se extingue rapidamente para dar lugar à noite. Isso deixou-nos logo mergulhados numa escuridão profunda, que apagaram todas as coisas que a pouco víamos. Porém, num instante, um cinturão circular se alumiou com mil fogos, vindos das lanternas dos navios e das casas do Rio, e da Praia Grande* (*atual Niterói). Aos nossos olhos, tal como nas óperas, surgiu de improviso uma dessas iluminações feéricas.

Devido ao avançado da hora, tomei a primeira canoa para me conduzir à terra. Ansioso estava de começar o dia seguinte percorrendo o belo país. Como já era noite e não havendo tempo para buscar outra alternativa, instalei-me num estabelecimento francês, o hotel Pharoux*, lugar de encontro de todos os viajantes europeus. — * Edificado e inaugurado em 1816, pelo francês Louis Pharoux. 

Sem perda de tempo, ocupei-me então a desfrutar da felicidade de estar com os pés no chão, procurando mil pequenas satisfações, incompatíveis com a vida à bordo. Da água límpida, do sorvete, das frutas e de um jornal impresso pela manhã. Bastantes para fazerem-me esquecer completamente um mês de privações, tédio e enjoos marítimos.

Post - Hotel Pharoux _ RioHotel Pharoux, no largo do Paço Imperial (demolido em 1959).

Desde o primeiro olhar, o Rio de Janeiro surpreende e provoca interrogações ao europeu. De qualquer maneira, fui prevenido sobre o espetáculo que estava a me esperar. Assim mesmo, na manhã seguinte, ao botar os pés fora do hotel Pharoux, fui tomado de perplexidade, vendo as ruas inteiramente invadidas pela população negra. Sem planejar, detive-me diante de toda aquela gente desnuda, principalmente criados. Não havia como deixar de contemplar as legiões de negros, a agitarem-se debaixo de um sol de fogo, como diabos* num braseiro. — * Ato falho, denotando preconceito.

A cena bizarra que vi, não se assemelhava a nenhuma das minhas demais lembranças. Diante de mim, havia também uma multidão de homens carregando pesados fardos. Eles recitavam, repetidamente, um monótono refrão: “- Que calor! Que mal!” Em seguida, um deles respondia em tom grave e duro: “- Está bem! Está bem!” Agitando uma matraca de som desagradável, assim procedia. Imaginei estar assistindo a alguma iniciação misteriosa ou qualquer cerimônia de um culto infernal.

Logo que livrei-me daquela primeira impressão, comecei a percorrer as diversas ruas da cidade. O Rio foi construído à beira do mar, ao pé de uma colina que domina a paisagem. As casas, alinhadas em escrupulosa simetria, são belas construções. Contudo, a exagerada largueza das ruas expõe os habitantes a um calor excessivo. A população perfaz 450.000 mil habitantes, sendo que cerca de dois terços são escravos negros e o restante repartindo-se igualmente entre brancos e mulatos.

Post - Largo do PalácioLargo do Paço Imperial – edifício à esquerda –, com chafariz – à direita – (por Débret).

Como o próprio nome indica, é sobre o largo do Palácio* que se estende o edifício imperial, modesto castelo que nada tem de especial. É praça muito bela, embora um pouco despojada. Uma fonte, da qual jorra água em abundância, corre para o lado do mar. No seu entorno, estariam ainda por plantar alamedas de árvores, mas permanece a sensação de vazio. — * Paço.

Os monumentos públicos, tais como o palácio da câmara dos deputados, o senado e a bolsa, nada têm para merecer a atenção do viajante. Porém, nunca é demais repetir: todo o tempo, a variada e barulhenta multidão que circula pelas ruas, mais uma miríade de novidades, estão a despertar nosso interesse!

De um lado, pode-se ver as negras de Angola, portando, à maneira oriental, um xale exuberante sobre seus ombros nus. Algumas há bizarramente tatuadas, cujos braços são ornados com braceletes de cobre. Por toda parte vi mulatas – desde o mais claro ao mais escuro tom de pele –, de olhos langorosos e ardentes, a exibirem variadas e expressivas fisionomias.

Além do mais, veem-se trajes de todas as nações e grã-finos vestidos com luvas. Causa admiração haver tanta gente possuidora da absurda coragem de, mesmo submetidas aos 36 graus de calor, aprisionarem seus corpos em roupas de lã, muito justas, apertando seus pescoços com lenços pretos e revestindo os dedos com um couro elástico de cabrito* (*luva).

O Rio possui aquela animação de cidade comercial em busca do progresso. Ademais, a diversidade da população lhe proporciona um caráter particular. É de se notar que a prosperidade dessa grande urbe assenta-se tanto no trabalho quanto no luxo, duas condições para a existência das modernas sociedades.

Post - Rua Ouvidor _ 1890Rua do Ouvidor, 1890.

A rua do Ouvidor, que é a rua Vivienne* do Rio, abriga lojas de grande beleza. Tudo da moda parisiense, da mais elegante, da mais delicada, ali se encontra em profusão. Novidades, as mais caprichosas, estão a alimentar as fantasias dos consumidores. Até um francês pode sentir-se em casa, pois há nessa rua roupas e botas francesas, e, da mesma procedência, livros. Ainda, para completar, o que é ainda mais francês: as modistas parisienses… — * Rua histórica e elegante de Paris, no 2ème arrondissement.

Há como fazer também o câmbio de moedas. Por outro lado, a maneira como os comerciantes tratam seus fregueses não passa despercebida. Para cativá-los, sabem usar linguagem polida, notadamente quando negociam com os vendedores da nossa nação, fazendo com que ambos possam tirar o melhor proveito na transação.”

Post - Rua Direita _ RioRua Direita, atual 1º de Março (por Rugendas).

Um objetivo — O viajante Yvan tinha o especial propósito de conhecer, entre outras coisas, a natureza tropical. Para tanto, foi ao encontro de um colega, médico e naturalista. Assim diz no seu relato:

depois desse primeiro e rápido olhar sobre a vila, fui encontrar-me com um botânico muito instruído, o doutor Ildefonso Gomes. Trouxe uma carta de recomendação que foi-me dada em Paris, por um dos seus melhores amigos. A morada do doutor fica a pequena distância da cidade, assentada num vale estreito, bem sombreado e regada por um riacho de água límpida.

Seu aspecto nada deve às outras charmosas habitações, tão numerosas nos arredores do Rio. Um enorme portão, coberto por uma trepadeira, indicou-me a casa do doutor. Ela está assentada ao pé de uma colina plantada com cafezais. Longa alameda conduz à residência sede, margeada por palmeiras, goiabeiras, mimosas e limoeiros À esquerda, à sombra de árvores gigantescas, estão as casas dos negros e, à direita, no fundo do vale, vê-se um milharal e uma horta.

Um grande terraço coberto está situado logo à entrada, sendo utilizado tanto como recanto de estudo, quanto de repouso. Nesse lugar, numerosas pranchas, cobertas por livros científicos, recentemente publicados na França, confirmam minha opinião sobre o saber e o interesse científico do meu excelente confrade.

Um amplo salão, mobiliado com um imenso divã de junco, boas cadeiras, um belo piano e um elegante pedestal, abre suas largas portas sobre o referido terraço. Uma sala de jantar é contígua ao salão: espaçosa e bem arejada, e está bem separada das cozinhas. Atrás dessas peças, há outras fechadas, cujo acesso não é permitido aos olhares estranhos. Enfim, completa a elegante habitação uma pequena e graciosa capela, onde um padre reza missa aos domingos.

Post - Frutas _ Albert EckoutFrutas tropicais, regalos ao paladar do dr. Yvan (por Albert Eckout).

O doutor deu-me a melhor acolhida. Sob suas ordens, uma jovem negra trouxe, numa bandeja de prata, larga e pesada, copos de limonada, vinho de laranja e diferentes licores do país. Para minha surpresa, já era chegada a hora do jantar brasileiro (às duas horas da tarde), de modo que convidaram-me a sentar à mesa da família, o que aceitei com prazer.

Em outras circunstâncias, pouparia o leitor de tomar conhecimento de minhas sensações gastronômicas. Mas, não importa onde estivermos, creio ser importante descrever a cor local… Assim sendo, acredito que devo falar da minha primeira refeição nessa cidade tropical.

O doutor, sentado à cabeceira da mesa, fez-me assentar à sua direita. Para começar, serviu uma sopa, cujo singular tempero aromático excitou meu paladar. Um enorme pedaço de carne de boi veio em seguida, acompanhado de farinha de mandioca cozida, junto a um caldo, e mais um molho de pimenta para acentuar o gosto. A esse primeiro serviço sucederam-se ovos e um prato de verduras cozidas, tão arduamente temperadas que, se fossem ingeridas de atropelo, poderiam parecer carvão em brasa.

Felizmente, para aliviar o ardor dos pratos anteriores, sucedeu-se uma salada de pepinos acebolados, servida junto a uma enorme galinha. O pão apareceu à mesa apenas em pensamento. Contudo, apesar do receio de cometer uma indignidade, digo preferir esse tão vulgar alimento ao caldo de mandioca. Bebemos água pura em grandes goles e, em taças, o vinho Madeira, e o de Lisboa sem misturar água. Ao fim da refeição, serviram bananas, mangas, goiabas, cajus e um doce de coco, que fizeram-me esquecer os por demais tropicais sabores dos condimentos brasileiros.

Post - Aqueduto_ Thomas EnderVista do Rio de Janeiro com o aqueduto do Carioca, ao fundo (por Thomas Ender).

Tão logo deixamos a mesa, o doutor propôs-me subir ao Corcovado, cujo cimo estávamos a ver acima de nossas cabeças. Trouxe-me uma montaria e, depois de alguns minutos, vi-me cavalgando no caminho que conduz à célebre montanha. Faltam-me palavras para descrever toda minha admiração. Eu havia conhecido as criaturas do solo americano apenas em nossos jardins botânicos, aprisionadas em frascos de vidro. Ali, fora da natureza, estendem seus ramos no clima artificial que lhes é oferecido. Nessa nova experiência, fiquei arrebatado ao presenciar o ímpeto vigoroso dessa vegetação, vivendo no seu próprio habitat.

Senti-me feliz e confortável ao sentir o ar morno. E respirei com mil perfumes a me enlouquecer. Ali, brincavam borboletas, grandes como pássaros, e pássaros brilhantes como borboletas. Os primeiros colibris que vi fizeram-me gritar de alegria, buscavam pólen no domo florido da mata. Persegui um coleóptero* (*besouro) e saltei em direção a uma planta em flor. Capturei um daqueles grandes morphos de asas azuladas, cujo vôo errante dificulta quem quiser alcançá-lo. Mas fiz tudo isso com ânimo e agilidade de um jovem.

O caminho da montanha é quase todo margeado por um grande canal, condutor de água potável para a cidade. Esse aqueduto* é obra imensa, do qual se orgulham os habitantes do Rio. É construído com pedras gigantescas e tem mais de uma légua de extensão. Tem cerca de 1 metro de largura e sua altura do solo não excede a 2 metros, exceto na zona urbana, onde é suportado por mais de 20 elegantes e elevados arcos. Aos intervalos, no seu trajeto, foram dispostas estreitas aberturas, para permitir que os fazendeiros das vizinhanças possam ali buscar a água necessária às suas necessidades e aos viajantes para saciar a sede. — * Leia ao final: “O carioca”.

Encontramos jovens negras com seus vasos de argila vermelha, a os encherem usando metades de cabaça ou de cocos. Efusivamente, nos ofereceram o líquido dos potes que carregavam na cabeça e sem cobrar nada por isso.

Post - Cabana CorcovadoAbrigo no alto do Corcovado, com ponte para ligar dois platôs (por Débret).

Depois de 3 horas de marcha, chegamos ao topo da montanha, que destaca-se como uma enorme protuberância no relevo. Ela insinua-se como uma imensa corcova ou corcunda e, daí, surgiu o nome Corcovado*. Naquele patamar, há uma depressão que não se pode ultrapassar com segurança. Em vista disso, o imperador d. Pedro I mandou construir ali uma ponte de madeira, que não mais existe. Surpreendi-me ao constatar vestígios dela, tanto numas barras de ferro cravadas na rocha, no ponto mais alto da montanha, quanto nas ruínas de uma antiga coberta. É uma espécie de abrigo permanente, que o imperador mandou construir. — * Onde está instalado o monumento do Cristo Redentor.

Dizem que o soberano, devido à sua alma selvagem, ao sofrer por certas paixões, tais como as decorrentes de um amor contrariado, da inveja, do ciúme ou de alguma aversão, era amiúde tomado por uma cólera incontrolável. Nesses casos, fatalmente, tanto o ciúme quanto o ódio logo emergiam. E, para controlar a raiva que tendia a crescer, gostava de se refugiar nessa rocha isolada. Lá, contemplando um dos mais belos cenários do universo, acalmava o espírito agitado, identificando-se com o magnífico espetáculo.

Post - Rio visto CorcovadoCentro do Rio de Janeiro, visto do Corcovado (por Débret).

O pico do Corcovado, que se levanta íngreme desde o solo, atinge não menos que 800 metros de altura. O abismo que o rodeia é coberto por uma vegetação vigorosa, ocultando os perigos. Desse ponto de vista, abre-se um horizonte que parece infinito e nota-se, principalmente, o casario pintado de branco, esparramando-se pela cidade. A pouca distância, veem-se as montanhas vizinhas, entremeadas de vales profundos. E, também, o jardim botânico e os lagos interiores, mais a baía, os telhados dos edifícios, as inúmeras ilhas e, por fim, o mar na sua imensidão. Em qual outro lugar do mundo poderia o olhar humano captar, ao mesmo tempo, tantas e tão grandiosas maravilhas?

Já era noite quando descemos do Corcovado mas, de repente, em meio às plantas, vimos surgir milhares de vagalumes*, que nos iluminaram com sua fosforescência. Haviam-me prevenido sobre esse fenômeno, mas sua magnificência surpreendeu-me. Nessa oportunidade, o senhor Gomes não conseguiu impedir-me de sair à caça desses insetos bizarros. Mas, prosseguimos na nossa rota, até chegar à parte da trilha que domina o vale do Anhanguera**. Os vagalumes se multiplicaram, a tal ponto que chegamos a acreditar que, abaixo de onde estávamos, existiria uma enorme cidade iluminada. — * O mesmo que pirilampos. / ** Morro do Anhanguera, no parque nacional da Tijuca. Os bairros da Tijuca e Usina situam-se nesse vale.

Naquele ponto, o nosso bom doutor, pela necessidade de visitar um paciente não muito longe dali, deixou-me aos cuidados do seu negro Gil Blas*, o mesmo encarregado de guardar minhas conquistas da floresta. Desse ponto, o escravo conduziu-me por caminhos estreitos e irregulares, para chegar logo ao Rio. — * Leia ao final: “O doutor e seu criado”.

Post - Teatro S P AlcântaraTeatro de São Pedro de Alcântara (por Loeillot, 1835).

E, para finalizar um dia de muitas ocupações, naquela mesma noite fui visitar o teatro de São Pedro de Alcântara*, maravilha artística da capital, onde se apresenta todo ano uma companhia italiana. O imperador d. Pedro I, grande admirador da música e ele próprio compositor – tal como Frederico da Prússia –, empenhou-se na construção dessa sala(3) e, também, da composição da orquestra, e da companhia que haveria de encantar seus ouvidos. Durante todo seu reinado**, acredita-se, aquele teatro, distante 2.000 milhas da Europa, poderia rivalizar-se com os de Paris, Milão e Nápoles. — * Hoje, João Caetano. / ** D. Pedro I abdicou em 07.04.1831, retirando-se para Portugal. Na época da visita, o imperador já era d. Pedro II, que contava 18 anos de idade.

Mas, que pena! Quando o visitei, o teatro era nada mais que uma bela sala, onde se apresentava um conjunto medíocre, contando com o auxílio de uma orquestra também medíocre. Assisti a uma apresentação de Norma. A prima dona, ainda bonita menina, representava muito bem a má conduta que era atribuída à personagem, a grande sacerdotisa. A atriz pareceu-me a única digna de elogios. A sala, mal iluminada, tinha muitos espectadores. Os binóculos eram utilizados, tal como em Paris. Os leques eram passionalmente agitados e roubavam a cena. As lanternas fumacentas emitiam uma luz avermelhada.

E, não fossem os negros assentados nas cadeiras ao fundo e mais algumas figuras heterogêneas, teria eu imaginado estar em algum teatro de província da França. Os camarotes são bem espaçosos, a sala possui forma oval com as extremidades cortadas. O palco tem, à sua frente, um camarote esplendidamente decorado, reservado ao imperador.

Além do italiano, o Rio possui um teatro francês, onde se apresentam peças de vaudeville e drama. Ali detestei os atores, mas achei as atrizes bonitas. Pareceu-me serem elas o atrativo principal, para assegurar algum sucesso a todas as encenações. Verdade é que, por serem homens a maioria dos espectadores, aplaudiam mais por galanteria.”

O dr. Yvan permaneceu por mais algum tempo no Rio (continua no próximo Post).

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SumA gênesis do carioca

No século XVI, o mercenário alemão Ulrich Schmidl(4), integrante da expedição de Pedro Mendoza(5), percorreu terras da América do Sul e pôde vivenciar inúmeras experiências. Delas, fez um relato em “A admirável navegação realizada pelo Novo Mundo entre o Brasil e o Rio da Prata, entre os anos 1534 e 1554”. A primeira edição foi publicada em 1567. O texto faz referências aos índios carios, com o complemento de uma ilustração. De outro modo, são ditos carijós. Eles viviam em tribos que multiplicavam-se por vasta extensão da costa leste.

Pouco depois, em 1556, um jovem sapateiro e seminarista francês, Jean de Léry(6), acompanhou um grupo de ministros e artesãos protestantes em uma viagem ao Rio de Janeiro. Naquele tempo, era a denominada França Antártica – colônia francesa –, então estabelecida na baía de Guanabara. Disse Léry também ter encontrado os carios, que viviam junto a um rio. Sua aldeia tomava o mesmo nome de um curso d’água: o lugar Kariauh bè.

Post - Página LéryA palavra carios, na página 350 do livro de Léry (edição de 1578).

O viajante Léry(6) escreveu a “História de uma viagem à terra do Brasil”, onde revela a palavra, assim:

“Kariauh-bè — Nessa aldeia assim dita ou nomeada, que é o nome de um pequeno rio, do qual a aldeia toma o nome, em razão dela estar assentada perto, é entendida como morada dos Karios, sendo composto este nome de Karios e auq – que significa casa –, e, ao apor-se os e ajuntar-se auq, será Kariauh e be: é o artigo do ablativo, que significa o lugar que procuramos ou queremos ir.” (7)

Por sua vez, os portugueses passaram a dizer Carioca, ao denominar o mesmo rio. Portanto, a explicação para a palavra carioca pode ser mesmo esta: “a morada dos carios”. Desse modo expressa tanto o nome do curso d’água, quanto o gentílico do Rio de Janeiro.

Quando sequer existia cidade, as águas do Carioca* já eram bem conhecidas e muito utilizadas. Em sua foz, na atual praia do Flamengo, abasteciam-se de água os navios que ali aportavam. Em virtude disso, a região era conhecida como Aguada dos Marinheiros. E para captar água do rio Carioca, construíram o aqueduto que levou o mesmo nome. Começava na floresta das Paineiras, chegando ao reservatório do morro de Santo Antônio. No meio do caminho, no lugar denominado largo da Carioca, existiu um chafariz, originalmente com 16 bicas e que depois foi ampliado. — * Rio Carioca é do gênero masculino e carecem ser explicadas as demais flexões para “da Carioca”.

O doutor e seu criado

No Rio de Janeiro viveu, por longos anos, o anfitrião do dr. Yvan, o dr. Antônio Ildefonso Gomes de Freitas(8), casado com Rita Carolina Nascentes Pinto. Era natural de São Miguel do Piracicaba (MG)hoje, Rio Piracicaba –, situada no vale do Rio Doce. Filho de Josefa Tomásia Cupertino Gomes e do capitão Antônio Gomes de Abreu e Freitas, fazendeiro culto, que dominava o francês, o italiano e o latim. Esse homem, na sua propriedade de nome Rochedo, fabricava ferro; noutra, a fazenda de Itajuru, costumava receber gente importante e intelectuais, muitos convidados pelo dito filho.

Mesmo antes de estudar medicina, o jovem Antônio Ildefonso já mostrava vocação pelo estudo das ciências naturais. Levado por esse interesse, acompanhou a expedição do barão Langsdorff(9); e de outra, sob o comando de Auguste de Saint-Hilaire(10) que, no livro “Voyage dans les provinces de Rio de Janeiro et de Minas Geraes”, dedicou-lhe algumas palavras:

“Nosso amigo, o sr. Antônio Ildefonso Gomes veio ao nosso encontro na povoação de Catas Altas. […] À tarde, chegamos a Itajuru, onde morava o pai do sr. Ildefonso, que nos recebeu com a maior amabilidade. A habitação […] é das que se chamam fazendas, nome reservado às propriedades rurais de certa importância… […] O pai do sr. Gomes fora um dos mais ricos mineradores da província e eu próprio vi […] uma escavação* (*cata de ouro) que o tornara possuidor 3 milhões de cruzados.

Julgando que sua jazida era inesgotável, […] esbanjara o ouro, à medida que o extraía do solo. Se era padrinho de uma criança, fazia à comadre um presente de 10 mil cruzados. Dava festas e não se preocupava com o futuro. Entretanto, perdeu em pouco tempo 500 escravos. Sua jazida se esgotou; a brilhante fortuna evaporou-se e o sr. Antônio (Ildefonso) Gomes foi obrigado a se entregar ao comércio para resgatar a herdade do seu pai.

[Certa feita, o sr. Gomes, pai de Ildefonso] fora encarregado de observar a conduta de um administrador de uma habitação. Este, para se desembaraçar de uma vigilância inoportuna, denunciou-o como sendo assassino de um homem que havia desaparecido. À força de investigações e grandes dispêndios, o sr. Gomes acabou por descobrir que o indivíduo, de cuja morte o acusavam, retirara-se para os confins da província de Goiás. Descoberto na calúnia, o denunciador perdeu o emprego e caiu em profunda miséria. Mas, conhecedor do caráter generoso de quem quisera infelicitar, foi a ele que recorreu na adversidade. E o sr. Gomes sustentou-o de modo digno, até o último momento de sua vida.

Post - JornalAs virtudes de Ildefonso no “Correio Mercantil” (RJ).

Se o sr. Antônio (Ildefonso) Gomes não sucedeu seu pai na fortuna, herdou-lhe as virtudes. E, realmente, é um dos homens mais dignos que tenho encontrado em minha vida. É impossível encontrar melhor pai e quem possa honrar mais a paz e a justiça; ter alma mais pura e piedade mais sincera. Estudou no seminário de Mariana*. Compreende bem o latim, o italiano e o francês, e sua conversação é atraente e espirituosa. Escutava-me com interesse, quando lhe falava da França e da minha família, e comprazia-se, por sua vez, em ensinar-me sua língua e informar-me sobre os costumes do país.” — * Mariana: primeira capital de Minas Gerais.

Devido aos tratamentos que preconizava, com a utilização da hidroterapia, Antônio Ildefonso ficou também conhecido como Doutor Água Fria. Foi também um dos pioneiros do uso da homeopatia no país, tendo sido um dos dez fundadores da Academia Médica Homeopática do Brasil, em 04.10.1847. Em 1848, publicou um “Manual de hidro-sudo-terapia”, ensinando como curar inúmeras doenças através de suadouros, água fria, regime e exercícios.

Post - Jornal 1O médico homeopata no “Correio Mercantil” (RJ). Pobre não paga.

O dr. Antônio Ildefonso foi sempre muito sensível às questões sociais e às misérias humanas. Foi com essa postura que exerceu a medicina, privilegiando os pacientes e praticando a caridade em prol dos mais desassistidos. Além disso, mostrou-se ferrenho defensor da abolição da escravatura. Ao ser eleito deputado, amiúde manifestava-se nesse sentido.

Movido por esse mesmo espírito, atribuiu o nome de Gil Blas ao seu servidor, imaginando que ele pudesse, eventualmente, ter um futuro luminoso. Infere-se que a inspiração tenha vindo de um personagem da novela picaresca* “Gil Blas de Santillana” (11)– ambientada na Espanha – e escrita no início do século XVIII. — * Picaresco = burlesco, ridículo; próprio de pícaros – pessoas astutas e dissimuladas –; personagens típicos da literatura espanhola dos séculos XVII e XVIII; antes de tudo, os picarescos são grandes mentirosos.

Post - Gil BlasUm assaltante toma algumas moedas de Gil Blas, logo na saída para Salamanca. 

Na ficção, Gil Blas, filho de um cavalariço e de uma moça simples, nascido em Santillana del Mar – Cantábria – fora criado por um tio, em Oviedo, até os 17 anos de idade. Pois nesse momento, afim de avançar nos estudos, o protetor decidiu enviá-lo para Salamanca. Contudo, ao empreender a viagem, montado numa mula e dispondo de umas poucas moedas, levava também consigo sua santa inocência. Assim sendo, enfrentou várias vicissitudes: perdeu seu dinheirinho, sua montaria e foi escravizado por uma corja de bandidos. Mais adiante, quando se viu liberto, foi obrigado a trabalhar de criado para vários patrões.

Porém, com o correr do tempo e graças à sua inteligência, passou a conhecer melhor o mundo e as gentes. Todas, desde a ralé, passando pelos nobres e inclusive os eclesiásticos. Contudo, disso soube tirar proveito, de modo que acabou por galgar a posição de favorito do rei de Espanha e, também, tornou-se secretário do primeiro ministro. Até que, como recompensa por seu competente trabalho, adquiriu fortuna e foi viver retirado num castelo, como coroação de todos os seus sonhos.

Caminho para as nuvens

Agora, falando um pouco de d. Pedro I…  Como príncipe regente, passou a governar o Brasil, desde que seu pai d. João VI retornou a Portugal, em abril de 1821. Mas logo foi tomado pela ideia de emancipar o país e, também, procurou proteger a costa brasileira – de Cabo Frio ao Rio de Janeiro –, instalando mirantes para vigiar inimigos que pretendessem atacar pelo mar. O pintor Jean Baptiste-Débret, em sua obra de textos e desenhos “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil” (12), descreveu como foi feita uma instalação com o referido objetivo, no alto do morro do Corcovado. Na sua construção, houve efetiva participação do imperador. Resumindo Débret:

Post - Incisão

Incisão numa árvore: término da trilha (Débret).

“… [d. Pedro I] preocupou-se em aplicar seus conhecimentos […] de modo a estabelecer um caminho que pudesse ser percorrido a cavalo, através da densa vegetação virgem […] Pessoalmente responsável por essa empresa, todos os dias, desde o nascer do sol, ele dirigiu os trabalhos com habilidade, tomando consciência da natureza do solo, de modo a atingir em pouco tempo o seu propósito. Fez, em seguida, uma balaustrada no alto da montanha, onde há um pequeno platô de granito, separado por uma fenda entre um pico e outro – mais adiante –, mas que pôde ser alcançado por uma pequena ponte de madeira.

Graças ao difícil trabalho, foi possível ao viajante chegar naquele ponto culminante e admirar o cenário, que abrange tanto o interior como o exterior da baía, donde se vê o Cabo Frio e a Ponta Negra. Os demais limites são as montanhas ao longe. Desde então, o passeio ao Corcovado tornou-se um dos passeios da corte, dos estrangeiros e do resto da população trabalhadora que ali passa os domingos.

Perto do cume da montanha e próximo da fonte de água mais elevada, há uma clareira aberta na mata, apropriada para uma breve parada e destinada tanto para os momentos em que o imperador deseje acampar, quanto para aqueles dias em que a corte queira fazer um piquenique. Note-se que, numa determinada árvore, há uma incisão* feita pelas mãos do imperador: IP / 18 ⋅ 22 2 ⋅ 24 — * Interpretação: Imperador Pedro / 22 fevereiro / 1824.

Contudo, à época do falecimento* da sua mulher – a imperatriz Leopoldina –, já havia a civilização europeia importado também seus abusos. Desse modo, alguns colonos estrangeiros, marginais e soldados desertores brasileiros, constituíram brigadas armadas, recrutando também alguns negros fugitivos, e foram viver ao pé do Corcovado. E, pelas dificuldades de eliminar esses malfeitores, que inquietavam os moradores desse lado do aqueduto, considerado pouco seguro, pouco a pouco renunciaram ao costume dos passeios ao Corcovado. Em seguida e pelos mesmos motivos, o posto de telégrafo (com sinalização por bandeiras) foi abandonado, logo desaparecendo o resto de sua frágil construção.” — * Falecida em 11.12.1826.

Texto, tradução, pesquisa e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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(1) Brest – cidade francesa, localizada na região da Bretanha, sede do departamento de Finistère.

(2) MECHIOR-HONORÉ, Yvan – (Digne-les-bains, France, *06.03.1806 / Carros, France, †15.04.1873) Médico, político e viajante.

(3) O primeiro teatro construído no local, outrora denominado Campo dos Ciganos (hoje, praça Tiradentes), inaugurado em 12.10.1813, levou o nome de Real Theatro de São João, em homenagem ao príncipe regente d. João VI. O responsável pelo projeto foi o marechal-de-Campo João Manoel da Silva. Anos depois, foi renomeado como Theatrinho Constitucional (1824). / Em 25.03.1824, quando se comemorava o juramento da constituição do Império do Brasil e durante a representação do drama a “Vida de Santo Hermenegildo”, irrompeu um incêndio provocado involuntariamente por um ator, que reduziu a construção a quase nada. Reconstruído, sucessivamente tomou as denominações de Imperial Theatro São Pedro de Alcântara (1826), Theatro Constitucional Fluminense (1831), Theatro São Pedro de Alcântara (1839) e, finalmente, Teatro João Caetano (1923).

(4) SCHMIDL, Ulrich – (Straubing, *1510 / Regensburg, +c 1579-81) Soldado e viajante. Autor de “História verdadeira de uma viagem curiosa feita por U. Schmidl”, Frankfurt, 1567. É um relato da sua participação da conquista e colonização do rio Paraná, durante 20 anos. Uma das primeiras crônicas sobre os territórios e povos da Argentina e Paraguai de hoje.

(5) MENDOZA, Pedro – (Guadix, Granada, *c1499 / Canárias, Oceano Atlântico, †23.06.1537) Militar de origem nobre, primeiro governador do Rio da Prata e fundador de Buenos Aires.

(6) LÉRY, Jean de – (Côte-d’Or, France, c.*1536 / Suíça, †c.1613) Pastor, missionário, escritor e membro da igreja reformada de Genebra, na fase inicial da Reforma Calvinista.

(7) LÉRY, Jean de – “Histoire d’un Voyage fait en la Terre du Brésil, autrement dite Amérique”, editor Antoine Chuppin, La Rochelle, 1578, p. 350.

(8) FREITAS, Antônio Ildefonso Gomes de – (São Miguel do Rio Piracicaba, MG, *1794 / Rio de Janeiro, RJ,†29.10.1859)

(9) LANGSDORFF, Georg Heinrich von – (Wöllstein, *18.02.1774 / Freiburg im Breisgau, †29.06.1852) Naturalizado russo. Foi médico, diplomata, naturalista e explorador. Esteve no Brasil pela primeira vez em 1803, retornando à Europa em 1820. Em 1822, outra vez chegou ao Brasil, como embaixador da Rússia no Rio de Janeiro. Em 1824, percorreu Minas Gerais numa expedição; em 1825, a São Paulo; em 1826, ao Mato Grosso. Seu périplo encerrou-se em 1829, depois de passar pelo Pará, quando então retornou ao Rio de Janeiro.

(10) SAINT-HILAIRE, Augustin François César Prouvensal de – (Orléans, France *04.10.1799 / Sennely, France †30.09.1853) Botânico e explorador.

(11) LESAGE, Alain-René – (Sarzeau, France, *08.06. 1668 / Boulogne-sur-Mer, France, †17.11.1747) Romancista, teatrólogo e tradutor. Sua obra mais conhecia é “LHistoire de Gil Blas de Santillana”, publicada em quatro volumes, entre 1715 e 1735. // O famoso crítico literário Jean-François de La Harpe (*1739†1803) disse que Gil Blas é uma obra prima, um daqueles livros que vale a pena ler e reler, e sempre com gosto, por ser um modelo moral e porque representa a vida humana. Expõe personagens e situações, de modo a permitir sempre extrair delas alguma lição. A máxima de tão excelente livro deveria ser utile dulci* (*o útil misturado com o agradável), porque está todo temperado com um humor de boa qualidade.” // Esse estilo literário surgiu na Espanha, durante o período de transição do Renascimento para o Barroco – no denominado Século de Ouro –, e floresceu na Europa dos séculos XVII e XVIII. Mas não desapareceu de todo, pois continua a influenciar a literatura moderna. Contudo, os precursores do gênero picaresco são ainda mais antigos. Um dos textos conhecidos data de 1554: é a novela “La vida de Lazarillo de Tormes y de sus fortunas y adversidades”, de autor anônimo.

(12) DÉBRET, Jean-Baptiste – (Paris, *18.04.1768 / Paris, †28.06.1848) Desenhista, pintor e professor de arte. Membro da Missão Artística Francesa (1817) e fundador da Academia de Artes e Ofícios, mais tarde Academia Imperial de Belas-Artes, onde lecionou. / Obra citada: “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil” – Tomo III – Impresso por Firmin Didot Frères, Paris, 1839.

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