Sumidoiro's Blog

01/01/2021

DEPOIS DE GUTEMBERG

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♦ Atrelado ao antes

No ocidente, antes da invenção da tipografia, a informação circulava quase que só pela oralidade, tão poucas eram as pessoas que sabiam ler e escrever. Palavras no papel atingiam um público muito limitado, desde que os manuscritos custavam caro.

Johannes Gutenberg e sua Bíblia com 42 linhas por coluna de página.

   Letra e tipo são palavras que costumam ser usadas como sinônimos, embora sejam coisas distintas. Letra é um caractere do alfabeto; tipo é uma peça de metal, onde uma letra, um signo ou um símbolo estão configurados em relevo.

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      Por volta do ano 360 d.C., surgiu na Europa um estilo de letras que é usado até os dias atuais. Seu criador foi um godo – ou gótico, o bispo de nome Ulphilas*, ao fazer uma tradução da Bíblia para a sua língua mãe, a gótica, pertencente ao grupo germânico. — * Em latim, Ulphilas significa “filhote de lobo”. Em português, se diz Úlfilas. / ** Língua extinta.

Para desenhar os caracteres, a referência primária foram as runas*, letras arcaicas de godos e vikings. Delas poucas restam, sendo encontradas em gravações sobre rochas, túmulos e objetos de metal ou madeira. Ao longo do tempo, o estilo gótico de Ulphilas foi se desdobrando em variadas configurações. — * Runa: significa secreto.

Runas em caixa de osso de baleia (início do sec. VIII). / Gótico de Ulphila, 360 d.C.

No final do século VIII, por encomenda do imperador do imperador Karolus Magnus*, ocorreu um fato extraordinário, a criação de uma variante muito especial do estilo gótico. O encarregado para o trabalho foi o monge Albinus Flaccus(2), diretor da escola da Catedral de York, na Inglaterra. Seu nome se traduz como Albino Flácido**, fazendo entender que seria muito claro e franzino. Mas isso é irrelevante, desde que possuía admirável envergadura intelectual. — * Em português, Carlos Magno. / ** Também chamado de Ealhwine, Alchoin ou Alhwin. Em português, Alcuíno de York.

Orientados por Albinus, monges escribas desenharam um conjunto de caracteres, que ficou conhecido como letras carolinas, nome em homenagem a Karolus Magnus. Eram letras miúdas, ancestrais das minúsculas, que passaram a compor o alfabeto romano*. Muito merecida a lembrança ao imperador, desde que era muito culto, falava latim, compreendia o grego e tinha algumas noções de siríaco. Tudo isso, apesar de nunca ter adquirido plena capacidade de ler e escrever. Ademais, foi um incentivador da educação, da literatura e do conhecimento. — * O mesmo que alfabeto latino.

No curso do século XII, foram ocorrendo variações no formato das Carolinas, quando passaram a denominá-las, genericamente, como góticas textualis ou textura, isto é, boas para “tecer palavras”.

Tipos no estilo adotado por Gutenberg e página da Bíblia, com iluminura e rubrica (2).

Na tipografia, o estilo textualis* começou a ser introduzido em 1450, na Alemanha. Isso ocorreu justamente com Gutenberg(3), quando adotou essas letras para fundir tipos** móveis e com os quais imprimiu exemplares da Bíblia. O processo de reprodução, sem precedentes no mundo ocidental, permitiu a popularização do livro. A partir do século XVI, a textualis se propagou enormemente, tanto na escrita impressa, quanto na manuscrita. — * Do latim > TEXTUS: tecido e texto; TEXERE: tecer; TEXTURA: textura. / * Tipo: letra em relevo que funcionava como carimbo.

Na Alemanha, em certo momento, a textualis sofreu variações e outro nome, era dita como Letra Negra, Fraktur ou Schwabacher. No processo evolutivo dessas textualis, algumas foram adquirindo feições semelhantes a um traço vertical, ou quase. Em paleografia, chamam isso de minim, palavra derivada do latim minimum, que se traduz por menos ou muito pequeno. Entretanto, em certas associações, a leitura do conjunto se torna extremamente difícil. Por exemplo, quando há sequências de n, ni, nu, ui, mu, mi e in, assim podem resultar em um minim. — * Embora a palavra faça lembrar a cidade de Schwabach, não há evidências que possam associá-la ao estilo de letras, pois lá não existia impressor e, muito menos, fundidor.

Minim: “mimi numinum niuium minimi…”

Alguém exemplificou o minim com a frase escrita em gótico: “mimi numinum niuium minimi munium nimium uini muniminum imminui uiui minimum uolunt”. A tradução é: 

“Os menores mimos dos deuses da neve não cumprem nada demais em suas vidas, senão com o grande dever de proteger dos efeitos do vinho.”

LETRA E PODER

No contexto geral da comunicação, as letras têm cumprido seu papel, qual seja, como ferramentas poderosas para agilizar os meios de comunicação. Nas mãos de quem as utiliza, nem sempre a verdadeira intenção aparece, pode estar camuflada. Às vezes, são usadas de maneira contraditória ou equivocada, mas a mensagem sempre se espalha, com maior ou menor força. Em resumo, saber usar as letras é uma arte, pelo bem, pelo mal, pela paz ou pela guerra, coisa séria!

Serve de exemplo o que ocorreu na Alemanha, na primeira metade do século XX. Pois sim, durante a Segunda Guerra mundial, Martin Bormann(4), secretário de Hitler e controlador do fluxo da mídia (meios de comunicação), determinou que a fraktur seria modelo para a escrita comum nacional (ilustração abaixo).

Porém, algum tempo  depois, passou a renegá-las, dizendo que seriam Letras Judaicas de Schwabacher. Daí, como consequência, emitiu uma circular, em nome do Führer, assim resumida:

“Em relação ao chamado estilo Gótico, é errado entender que seja uma fonte alemã. Na verdade, os tipos consistem em Letras Judaicas de Schwabacher. Exatamente porque os judeus tomaram o controle dos jornais […] e das lojas de impressão, com a introdução da imprensa e, por tal motivo, essas letras foram fortemente introduzidas na Alemanha.

“Nenhuma potência no mundo será capaz de derrubar esta Alemanha novamente”. 

Hoje, o Führer decidiu, em uma reunião com o líder Max Amann, na casa impressora de Adolf Müller, que o Antiqua deve ser considerado o estilo de letra normal, de agora em diante. Aos poucos, todos os produtos de impressão têm que ser alterados para este tipo de letra normal. Do mesmo modo, para os livros escolares e que, nas escolas, apenas esse tipo de letra normal será ensinado.

As autoridades deverão se abster de utilizar as Letras Judaicas Schwabacher no futuro. Certificados de nomeação, sinais de trânsito e similares só serão produzidos no tipo de letra normal. Em nome do Führer, o Sr. Amann deverá, primeiramente, modificar os papéis e revistas, usando a fonte normal, os quais ainda estão espalhados no estrangeiro […] – Assinado M. Bormann*” — * Também chefe da Chancelaria do Partido Nazista.

O fato é que, ao dizer que as Schwabacher seriam letras de judeus, Bormann estava incorrendo em erro, desde que estava a desconhecer a história e que o estilo nascera pelas mãos do godo Ulphilas.

Circular de Bormann abolindo a Schwabacher.

Nos dias atuais, as antigas góticas ainda são bastante usadas, não para textos corridos, como nos tempos de Ulphila, nem de Gutenberg, nem como durante o Terceiro Reich*. Agora, têm servido para construir marcas e logotipos, pretendendo denotar tradição, nobreza, confiabilidade, força, coragem, etcétera e tal. É o caso dos títulos de periódicos, como o New York Times; ou os escudos de motoqueiros; ou marcas de cerveja; ou caracterizar conjuntos de música heavy metal, e por aí afora. — * Período e regime da Alemanha nazista.

LETRAS HUMANISTAS

A Antiqua, que Bormann escolheu e determinou como padrão oficial, esteve disseminada nos séculos XV e XVI. Ademais, serviu para nomear, de modo geral, variações ditas como humanistas. Nesse caso, a palavra tem dois sentidos. Primeiramente, porque sugerem os movimentos gestuais das mãos humanas, aqueles que ocorrem nos manuscritos. Em segundo lugar, porque tipógrafos que as criaram ou adotaram, haviam abraçado o ideário humanista*, na época do Renascimento. — * Humanismo: movimento intelectual da época renascentista, centrado na valorização do homem.

A primeira letra humanista foi criada pelos tipógrafos Sweynheym & Pannartz(5), em 1465, na Itália. Acredita-se que Sweynheym trabalhou com Gutenberg, entre 1461 e 1464. Ambos eram clérigos leigos e trabalhavam em uma oficina tipográfica, no mosteiro beneditino de Subiaco, perto de Roma.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é post-primeira-humanista-1.jpg Primeiras letras humanistas, por Sweynheym & Pannartz.

Também na Itália, nasceram as humanistas inclinadas, de tipografia. A primeira, em 1501, de autoria do tipógrafo e editor Aldo Manuzio(6), também adepto das ideias humanistas. Atribuem a ele a criação do ponto e vírgula (;), como também os livros de bolso.

Teve como colaborador Francesco Griffo(7), encarregado de produzir as punções*. Logo depois, vieram a se separar e, em 1503, Griffo elaborou sua versão de caracteres inclinados. O estilo recebeu o nome de Grifo (em português). As criações, de ambos autores, serviram para fundar o gênero que ficou conhecido como Itálico. Desde então, um risco sob as palavras passou a servir como marcação tipográfica, que indica compor ou destacar em Grifo ou Itálico. — * Punção: peça de aço, utilizada para gravar o molde em baixo relevo.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é post-itacc81lica-antiqua.jpgLetras itálicas de Manuzio e Griffo. /  Letras no estilo Antiqua.

Há curiosidades subjacentes aos caracteres propriamente ditos. Trata-se dos glifos, um conjunto de signos e também símbolos, usados na escrita. A palavra glifo vem do grego (γλύφα), que significa escultura ou gravura. São incontáveis, pois a cada dia aparece um ou outro. Por exemplo: √, ©, ∞, ¶, #, }, $ e ainda há mais, com destaque para o &, que veio de ET*, em latim. Na forma, percebe-se que é um abraço de e com t. * Em português, substitui conjunção e.

O glifo & foi inventado por Marcus Tullius Tiro*, escravo de Marcus Tullius Cicero**, mais tarde, tornado liberto. Além de escritor e calígrafo, teria sido o inventor do primeiro sistema taquigráfico. Utilizava-o para transcrever rapidamente as falas do seu senhor. Cicero faz referências a ele em suas cartas, dizendo de quão proveitosa teria sido sua ajuda no trabalho e nos estudos. * Tiro (morte: c.4 a.C.) / ** Cicero: advogado, político, escritor orador e filósofo (*03.01.106 a.C. / †07.12.43 a.C.).

Há mais um glifo interessante, o arroba – @ – que vem de longe e se desdobra em inúmeros significados. A palavra arroba está no árabe como الربع\ e se pronúncia ar’rub, para dizer “quarta parte”. No período colonial brasileiro, a arroba correspondia a ¼ de quintal, ambas medidas de massa.

A primeira grafia do @ conhecida é do ano de 1345, como inicial da palavra amém*. Outra grafia é encontrada na Idade Média, quando usavam para representar ad, em latim, e que possui vários significados, como “direção, aproximação, para”, etc. — * Em tradução para o búlgaro, da obra bizantina “Crônica de Manasses”.

Do ano de 1448, há um registro de embarque de trigo, de Castilha para Aragão, usando @ como símbolo de medida. Mais adiante, em 1563, um comerciante de Florença, numa correspondência, indagou sobre uma quantidade em @ de vinho. Bem mais tarde, no século XVII, o glifo @ passou adquirir o significado comercial de “à”, como em “à taxa de”.

O ET trasformado em &. / O @ na palavra “amém” (Crônica de Manasses, em 1345).

Em resumo: no século XV, com Gutenberg, a letra virou tipo de metal. Agora, há quem a chame de tipo digital. E mais, já ganhou asas e foi para o espaço, nas redes de internet.

Pesquisa, texto e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

Clique e veja mais: As letras dos imperadores“.

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(1) ALCUIN of York – ( York, Northumbria, *c.740 / Tours, França, †19.05.804) Poeta, escritor, teólogo, matemático, etc.

(2) Iluminura: pintura decorativa em cores vivas, aplicadas nos manuscritos medievais. / Rubrica: nos códices antigos, era um destaque do texto em vermelho (rubro).

(3) GUTENBERG, Johannes – (Mainz, *c. 1400 / Mainz, †03.02.1468) Viveu nos tempos do Sacro Império Romano-Germânico. Entre outras criações, inventor da prensa para impressão, do tipo móvel e de uma tinta para tipografia; joalheiro e gravador. // Foi o segundo, no mundo, a usar a impressão por tipos móveis, por volta de 1439, após o chinês Bi Sheng, no ano de 1040.

(4) BORMANN, Martin – (Wegeleben, *17.06.1900 / Berlim, †02.05.1945) Oficial da Alemanha Nazista; chefe da Chancelaria do Partido Nazista; além de secretário privado de Adolf Hitler, controlador do fluxo de informação e responsável pelos acessos ao Führer.

(5) SWEYNHEYM, Conrad (morte, 1477) & PANNARTZ, Arnold (morte, c. 1476).

(6) MANUTIUS, Aldus Pius – (Brassiano, nascido entre 1449-1452 / Veneza, †06.02.1515).

(7) GRIFFO, Francesco (ou Francesco da Bolonha) – (*1450 / Bolonha, †1518).

01/12/2020

ISABEL, TÃO LINDA!

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♦ Vivências

Vamos relembrar Maria Helena Cardoso(1), mais conhecida como Lelena, seu nome de carinho. Clarice Lispector chamou-a de “escritora fina”, que sabia “pegar numa asa de borboleta sem quebrá-la”. Nasceu na cidade de Diamantina (MG), em 24.05.1903. Ainda com um ano de idade, levaram-na para Curvelo (MG), onde permaneceu por largo período da juventude.

Curvelo antiga e Maria Helena Cardoso.

Do seu livro Por onde andou meu coração(2), um apanhado de memórias aos nove anos de idade:

      Em 1912 – “Dona Isabel a argentina, veio para Curvelo recomendada por doutor Alberto, político local. Quando se teve notícia na cidade de que viria morar nela uma estrangeira, toda população ficou alvoroçada. Quem seria aquela mulher? Que espécie de relações seriam as suas com o político? Viria mesmo pelo bom clima, ou estaria tísica, como acontecia com todos que vinham de fora com a desculpa do clima? 

Quem sabe não seria uma aventureira, amante do tal político e com quem as famílias do lugar não deviam assim entreter relações? Outros, porém, supunham-na uma mulher de categoria, que realmente estaria à procura de um clima bom para a tuberculose. A verdade é que ninguém sabia de coisa alguma e tudo não passava de conjecturas, sendo a sua chegada esperada com a maior ansiedade, pois as opiniões se dividiam e todas as hipóteses eram válidas.

Dona Isabel, porém, chegou inesperadamente, burlando a curiosidade geral. Seu desembarque foi presenciado apenas por Fraterno, o chefe da estação, Pedro de Sá Rosa, o carteiro, e um ou dois empregados de menor categoria.

Por onde andou meu coração (Ediouro, 2ª Edição).

No dia seguinte, espalhou-se a nova pela cidade: chegara a tal estrangeira e Pedro carteiro, que a vira, dizia que era bonita, elegante vendo-se que estava habituada a um certo luxo. A curiosidade não teve mais limites. Ninguém, principalmente as mulheres, falava noutra coisa e era o assunto nas casas, nas lojas, nos encontros nas ruas. ‘Já viu a estrangeira? Pedro carteiro disse que é linda e muito chique.’ […]

Enquanto o povo falava, discutia, indagava e toda espécie de conjectura, Dona Isabel, indiferente à curiosidade que suscitava, mantinha-se tranquila em casa, levando uma vida de repouso. Com exceção das empregadas ou de uma ou duas pessoas que vinham a negócio, não entrara ainda em contato com pessoa alguma da cidade. […] 

Nada se podia dizer dela e a população fechar os olhos diante da possibilidade de que fosse uma mulher de ‘vida airada’, uma mulher à-toa. Em pouco tempo, tornou-se uma figura estimada de todos, não havendo senhora que não desejasse ser sua amiga, frequentar sua casa, ver seus vestidos decantados pelas companheiras, ouvi-la conversar com seu engraçado sotaque de estrangeira.

Mamãe*, desde o início, foi partidária de que se devia acolhê-la, pois se tratava de uma pessoa doente, necessitada de carinho. Fez logo relações com ela, desprezando a opinião que pudessem ter os seus conterrâneos. Visitava-a amiúde, cada vez mais, apreciava suas belas qualidades. De vez em quando, levava um de nós em sua companhia. Para mim, Isabel era uma fada. Jamais vira mulher tão bonita e vestida com aquela riqueza. […] — * Maria Wenceslina (Nhanhá) Netto Cardoso.

Parecia uma princesa e, em Curvelo, nenhuma mulher, nem de longe, se assemelhava a ela, nem mesmo as filhas de Siô Sérgio Barbosa, que eram muito ricas, nem Dê, com toda sua beleza. Ninguém com aquele porte elegante, passo leve. Seguia acompanhada de perto pela empregada e, quando passava pelo de crianças aglomeradas para vê-la, sorria para nós, quando não nos afagava os cabelos. Ficava a olhá-la até que se perdesse ao longe, depois da linha do trem de ferro. 

Avião modelo Blériot, em Belo Horizonte, e piloto Darioli.

A última vez que a vi foi no voo de Darioli(3). Tinham anunciado um aviador italiano, que viria voar em Curvelo. Era um espetáculo inédito aquele e todo mundo se alvoroçou. Viria de trem com seu avião e levantaria voo de um campo perto da estação. A cidade toda se preparou para a grande festa. Não se falava de outra coisa e, em casa, não parávamos de fazer perguntas à mamãe a respeito: um avião, como era? Voava mesmo, tinha asas como passarinho? O aviador não tinha medo?

Fausto e Dauto [irmãos de Lelena(4)] eram os mais impressionados e resolveram tentar uma uma experiência. Sob as vistas de Dauto, Fausto subiu a uma goiabeira e, de lá, de um dos galhos mais altos atirou-se ao solo, de braços abertos. Fraturou a clavícula e deu um grande susto à mamãe, que perdeu toda a graça. Olhava o menino, com um ombro mais baixo que o outro, e suspirava:

– Logo agora isso foi acontecer, para tirar minha graça.

Mesmo assim não quis perder o acontecimento, nos levando a todos. Como o campo de onde Darioli levantaria voo era perto da casa de Dona Isabel, ficou combinado que iríamos até lá. Quando chegamos, muitas pessoas já estavam sentadas à porta, conversando animadamente.

Mamãe dirigiu-se conosco ao interior da casa e abraçando Dona Isabel comunicou-lhe a sua preocupação pelo acontecido com Fausto. Enquanto ela respondia à mamãe, procurando tranquiliza-la, eu a olhava com admiração. Ela estava tão linda naquela tarde fria. Um vestido de veludo preto, realçando sua pele pálida, os grandes olhos brilhantes, os cabelos castanho-claros arranjados negligentemente. Afagou-nos a todos e, juntos, nos dirigimos para a porta da rua.

Maria Wenceslina (Nhanhá), retratada por Emeric Marcier, e Lelena.

Não demorou muito e saímos para o campo. Me lembro de alguém que me puxava pela mão, para que andasse mais depressa. O espetáculo me assombrou e me deu medo. Temia a todo instante que aquele pássaro grande caísse em cima da gente e me encolhia toda junto de mamãe.

Não me lembro mais da volta, nem tenho ideia se jamais revi Dona Isabel.

Desapareceu de Curvelo; não sei se voltou à sua terra ou se morreu. Durante muito tempo, quando passava pela linha do trem ou pulava dormente*, olhava aquela casa fechada, aonde fora tantas vezes, e que então me parecia estranha. Onde estaria Dona Isabel, tão linda?” — * Dormente: peça de madeira onde se apoiam os trilhos.

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INTRÉPIDO DARIOLI

O italiano Ernesto Darioli chegou no Rio de Janeiro, ao final do ano de 1911, com o propósito de dar espetáculos aéreos e formar aviadores, dizendo de outro modo, pilotos de aviões. Para quem quisesse assistir as peripécias das decolagens e dos pousos, eram cobrados ingressos. 

Avião, naquele tempo, se dizia aeroplano. Explicando sua utilidade, o jornal “A Noite”, de 06.11.1911, publicou uma nota:

“O atual momento é de largos horizontes para a aviação. Já se sabe o que valem e o que fazem na guerra* os aeroplanos, com os resultados obtidos pelos aviadores italianos, que têm feito admiráveis trabalhos, a ponto de obrigar o governo […] a aumentar seu contingente de aparelhos, aceitando os serviços de todos os aviadores que queiram seguir para o teatro de operações. — * A Itália foi o primeiro país a usar aviões de combate, no transcurso da guerra contra o Império Otomano (29.09.1911 a 18.10.1912).

Toda gente está vendo com clareza que, se o Brasil, atualmente, nada tem a respeito de aviação, precisa ter quanto antes um serviço que nos equipare às nações que os têm em tão adiantado progresso.

Isso, porém, não se faz do pé para a mão; é preciso, […] organizar, instalar, manter a escola de aviação com professores idôneos, com aparelhos mais modernos, com oficinas de reparação, com hangars próprios […]

Naturalmente que os dirigíveis militares, como o Zeppelin, custam caríssimos. Mas os aeroplanos, agora largamente empregados em todos os exércitos adiantados, são mais baratos e mais práticos […]

Público nas tribunas do Prado Mineiro.

Continua a nota:

Está nesta capital, há alguns dias, o aviador italiano Ernesto Darioli, educado na escola de Blériot e que está esperando, também, o seu aparelho que é daquele fabricante. 

Darioli fez vários vôos com sucesso na Europa, tendo voado 140 km sobre o mar, em Boulogne-sur-Mer, na França […] O aviador […] é um rapaz forte e simpático, disposto à luta e capaz de fazer alguma coisa. Já foi apresentado à direção do Aeroclube Brasileiro.”

Lúcio Cardoso, no tempo do ginásio.

PONTO A PONTO

Imediatamente, Darioli passou a fazer demonstrações no Rio de Janeiro e, depois, em outros lugares. No estado de Minas Gerais, o primeiro evento foi em Juiz de Fora e, em seguida, na capital Belo Horizonte.

Neste segundo ponto, ocorreram seis sobrevoos, entre os dias 21 de abril a 29 de junho, utilizando a pista do hipódromo denominado Prado Mineiro*. Na do dia 25 de abril, devido a um malogro na aterrisagem, o aeroplano colidiu com um barranco e uma das asas se quebrou. Por sorte, Darioli sofreu apenas ferimentos leves e logo lhe prestaram socorro médico. * Atualmente, abriga a Academia da Polícia Militar de Minas Gerais.

Em seguida aos compromissos de Belo Horizonte, o artista dos ares passou por Sete Lagoas (MG), onde fez uma demonstração no dia 9 de julho de 1912. De lá, se encaminhou para Curvelo, no norte mineiro, e foi justamente dessa vez que a menina curvelana viu o “pássaro grande”.

Dias depois, no 14 de agosto, houve uma emoção ainda maior. Dona Nhanhá daria à luz Joaquim Lúcio Cardoso Filho, futuro autor do romance “Crônica da casa assassinada”. No dia 27 de outubro de 1912, o festejado bebê foi levado à pia batismal, tendo como padrinhos os tios maternos Pedro de Souza Netto e Alzira (Dazinha) de Souza Netto.

Neste ponto, revelo aos leitores: Pedro de Souza Netto(5) é meu avô materno e padrinho de batismo.

Pesquisa, texto e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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(1) CARDOSO, Maria Helena – (Diamantina (MG), *24.05.1903 / Rio de janeiro, †24.05.1997) Farmacêutica, trabalhou no Hospital Samaritano do Rio de Janeiro.

(2) “Por onde andou meu coração” – Nas livrarias em 4ª edição, pela Editora Civilização Brasileira.

(3) DARIOLI, Ernesto Umberto Giovanni – italiano (*1881 / †?).

(4) Filhos de Joaquim Lúcio Cardoso (*1874 / †08.09.1938) e Maria Wenceslina de Souza Netto (*12.05.1877 / †1955): [Regina Cardoso (*22.04.1900 / †27.10.1975), Fausto Cardoso (*16.01.1902 / †27.02.1961), Maria Helena Cardoso (*24.05.1903 / †24.05.1977), Adauto Lúcio Cardoso (*24.12.1904 / †20.07.1974), Maria de Lourdes Cardoso (*11.02.1907), Joaquim Lúcio Cardoso Filho (*14.08.1912 / †28.09.1968)]. // Adauto Lúcio Cardoso – advogado; político, deputado federal e ministro do Superior Tribunal Federal.

(5) NETTO, Pedro de Souza – farmacêutico prático e poeta. Casado com Francisca Gomes dos Santos (nome de solteira) / Filhos: Maria Nazareth*, Virgínia, Leopoldina, Eudóxia, Helena, Zuleika**, Pedro Júlio, Lúcia Tereza, Carlos Alberto; todos com sobrenome de solteiros Souza Netto. // * Maria Nazareth Netto de Paula, casada com Eduardo Vianna de Paula, pais do autor deste Blog: Eduardo Vianna de Paula Filho. — ** Zuleika Angel Jones (Zuzu Angel, designer de moda), casada com Norman Angel Jones.

01/11/2020

NA PALMA DA MÃO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:32 am
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♦ O jogo voador

Para quem viaja a Paris, conhecer um edifício muito visitado é boa experiência. Chama-se Jeu de Paume, que se traduz como Jogo da Palma da Mão. Por trás desse nome, há uma pequena bola e uma longa história, que tem a ver com a criação do Jogo de Tênis.

Não há como viver sem bolas no ar.    

      Desde já, é preciso focar na bola, que é ainda mais antiga que a roda. Como brinquedo, vem do começo da história da humanidade, segundo achados arqueológicos. As primeiras e mais elaboradas foram feitas com pelos de animais, folhas ou fibras vegetais. Apesar da singeleza, esses objetos sempre têm provocado encantamento, ao rolar ou voar, sob o impulso das mãos ou dos pés.

Hoje em dia, dentre os jogos mais comuns de bola na mão, destacam-se o basquete, o boliche e a bocha. Com um lugar especial para o vôlei*, voador feito ele só! Em paralelo, vale lembrar daquela que vai ao ar com uma simples palmada, a peteca. Sua origem é brasileiríssima, visto que é invenção dos indígenas. A palavra vem do tupi pe’teca, que traduz a ideia de dar tapa, bofetada ou bater com a mão espalmada. — * Etimologia: Volátil – que voa, que tem a capacidade de voar; Voleibol – bola que voa.

← Jogando a Pila

SAÚDE E POPULARIDADE

No limiar da era cristã, o médico e filósofo Galeno(1), homem de múltiplas sabedorias, enalteceu as vantagens dos jogos de bola, seja com as mãos ou com os pés. Assegurava que os efeitos medicinais eram extraordinários. Eliminava os humores crassos*, diminuía o volume do ventre, adelgaçava o corpo, dava consistência às carnes e elasticidade ao sistema fibroso. — * Substâncias fluidas e agressivas contidas nos organismos vivos. 

Os jogos de bolas lançadas ao ar eram muito populares entre atenienses e espartanos. Em cada ginásio, havia uma sala apropriada para sua prática. No momento em que esses jogos foram assimilados pelos romanos, receberam o nome genérico de sphaeristica*, em latim. Augusto, fundador do Império Romano, também foi um adepto de tais práticas esportivas. Alexandre, o grande, tinha sempre em sua companhia o atleta Aristonicus de Caristus**, habilidoso jogador. Em sua homenagem, lhe concedeu a cidadania ateniense e mais uma estátua em praça pública. * Do grego: σφαῖρα (sphaira), que significa esfera ou bola. / ** Natural de Eubeia, Grécia.

Em certas ocasiões, o jogo da bola trazia um sentido comemorativo, noutras, servia para descarregar agonias. Catão, no dia em que foi reprovado no Senado, mesmo assim foi bater a mão na bola no Campus Martius*. Os romanos abastados, antes de se dirigirem aos banhos públicos, praticavam essa sphaeristica. Para tanto, havia um recinto apropriado, conhecido como sphaeristerium. Também pessoas do povo praticavam tais divertimentos, mas em espaços abertos e a seu jeito, dizendo que jogavam a pila**, um dos nomes dessas bolas. — * Campo de Marte, em Roma. / ** No italiano, se transformou em palla, que significa bola ou esfera.

Contando com tantos atributos, a sphaeristica se propagou pela Europa e, especialmente, entre os franceses. Até que houve a interposição de uma elaborada peça, chamada raquette*, entre a mão e a bola, desse modo surgindo o Jogo de Tênis, mas com o nome de Jeu de Paume**. Em vários bairros de Paris, havia espaços próprios para jogar. Um dos mais distintos e frequentado pela nobreza, foi o Jeu de Paume, nome de um pequeno estádio coberto. A edificação ainda existe, atualmente abrigando variadas manifestações culturais e artísticas. Está situado na Place de La Concord. — * Raquette (francês); na sua forma primitiva, é “rachete“, significando palma da mão ou planta dos pés. / ** Paume, no sentido de palma da mão.

Edifício do Jeu de Paume, Paris, nos tempos de Napoleão III.

Primitivamente, o “tênis” foi jogado apenas com as mãos, até que houve a interposição de um aparato entre a mão e a bola. Na França, ficou conhecido como Jeu de Paume, ou seja, Jogo da Palma. Nesse caso, a raquete virou palma.

Eram de dois gêneros, o de Courte Paume*, jogado em quadras cobertas e o de Longue Paume**, jogado em quadras ao ar livre. Segundo o dicionário Littré (1873), o Jeu de Paume recebeu a designação “lusus pilae cum paume“, em 1356, época em que introduziram a primeira raquete. — * Courte Paume: quadra pequena. / ** Longue Paume: quadra grande. / *** Jogo da Pila com raquete.

Disse Heródoto, que os etruscos inventaram alguns jogos com bolas. Mais difundidos eram o da Pila Paganica(2) ou, quando a bola era menor, simplesmente o da Pila, esta preenchida com pelos* ou penas, e jogadas na aldeias por homens rústicos. Ademais, a palavra pila era usada no sentido geral de bola. Quando jogada a três, se dizia Pila Trigonalis, também feita com pelos. Outro era o da follis(3), sendo a bola preenchida com ar. Havia ainda o da Harpasta, cuja feitura e regras são desconhecidas. — * Trata-se de pelos de animais, geralmente de cavalo (pelo = pilus, em latim).

Livro de Epigramas de Martialis, editado em Veneza (1676).

A seu modo, o poeta Martialis(4), nascido na Espanha – em 40 d.C. –, escreveu sobre as bolas. Traduzindo do latim, fica assim:

Pila Paganica
Esta bola é cheia de penas, mas é dura,
Menos suave que a follis; menos compacta que a pila.

Pila Trigonalis
Se com a esquerda sabes lançar-me, sou tua,
Não sabes? Seu tolo, larga a bola.

Follis
A pouca idade me convém; ide embora rapazes:
Sou coisa de meninos e de velhinhos.

Harpasta
Esta, o molenga, que fica de pescoço grosso em vão esforço,
Logo a perde no terreno empoeirado de Antaeus*. — * Na mitologia, o gigante, filho de Poseidon e Gaia.

Ulisses em seu encontro com a princesa Nausícaa, filha do rei Alcino.

Desse natural entusiasmo pelas bolas teria surgido o Jogo de Tênis e muitos outros. Heródoto atribui a invenção dos jogos de bola aos habitantes da Lídia. O poeta Homero faz referência a um deles na Odisseia(5), quando narrou os divertimentos da princesa Nausícaa e suas servas. Diz que Ulisses – rei da Ítaca – tão logo se salvou de um naufrágio, subitamente adentrou naquela cena. Porém, antes disso, a deusa Athena havia provocado um sonho em Nausícaa, induzindo-a que se dirigisse àquele lugar. No canto VI, há esta passagem:

“… Athena penetra num sonho de Nausícaa e sugere que ela deve ir lavar sua roupa no rio. Quando Nausícaa acorda, se dirige à praia, acompanhada das suas servas, até atingir o local do lavadouro. Chegando lá, Athena provoca Nausícaa e as servas a se divertirem com um jogo de bola.”

Jeu de Courte Paume, num salão.

Por volta de 1600, sob determinação de Louis XIII, foi construído um salão para o Jeu de Paume, ao lado do seu palácio em Versalhes*. Ali, se divertia praticando a Courte Paume, mas com a devida pompa e a participação de seleta plateia. — * Distante 22km de Paris.

Para que tudo desse certo, havia um mestre instrutor que, ao mesmo tempo, arbitrava as disputas, organizava torneios e preparava as raquetes. Também fabricava as bolas tendo um núcleo de cortiça(6), envolto por uma tira de tecido e, por fora, vinha revestida com duas tiras de feltro. Para fixá-las, eram costuradas e estas deixavam marcas, semelhantes ao desenho das atuais bolas de tênis.

Mais tarde, em 1861, no reinado de Napoleão III, foi construído o Jeu de Paume de Paris. Durante a Revolução Francesa, o edifício serviu de sede para as assembleias dos revolucionários. A partir de 1909, passou a ser utilizado para exposições de artes plásticas. Atualmente, apresenta obras de arte contemporânea, principalmente nas áreas de fotografia e imagem.

Jeu de Longue Paume, no Champs Elisées, Paris.

Ao chegar em Portugal, o esporte da pila recebeu o nome de Jogo da Pela. Explica melhor o padre Bluteau, no seu dicionário de 1734:

• Pela – jogo nobre que se joga em Portugal, com alguma diferença das outras nações. Em Lisboa, joga-se em um pátio descoberto e público, em cuja porta, antigamente, havia um dístico que dizia:

Brinca de pé, insulta, transpira, desafia, labora. Se acontecer de perder, retira-te em silêncio*.* Bluteau citou em latim.

Noutros verbetes, Bluteau ajuda a ampliar o entendimento:

• Pela*, ou pelota de chumbo. / • Pelota – deriva-se do francês pelote, que é bala, ou bala pequena / • Peleja – batalha, combatimento. — * (Refere-se à Pila, preenchida com pelos.)

Disputa no estádio do Jeu de Paume, em Paris, no início do século XX.

DE LÁ PARA CÁ

O Jogo de Tênis, no estilo atual, foi elaborado pelo major Walter Clopton Wingfield(7), versão à qual atribuiu o nome de Lawn Tennis*, porque era jogado em quadras forradas de grama. A palavra tennis foi introduzida na língua inglesa lá pela metade do século XIV, buscando no francês tenez  do verbo tenir. Traduzido para o português é toma – imperativo afirmativo do verbo tomar –, dizendo o mesmo que aguente. Portanto, o tênis seria um jogo de toma lá, dá cá! Verbalmente um desafio em duas vias, avisando ao oponente que tente dar conta da bola remetida. — * Tradução, ao pé da letra: tênis de gramado aparado.

Para o Jogo do Tamborete.

No Brasil, a introdução do Jogo de Tênis ocorreu junto à do Futebol, começando em 1894, quando Charles Miller(8), técnico inglês da São Paulo Railway, Light and Power Company, trouxe suas regras e ensinou a jogar. Fez o mesmo com o Rugby e, ainda mais, fundou a Associação Paulista de Tênis.

Semelhante ao tênis, há ainda o Tamboréu, um jogo que foi introduzido no Brasil pelos irmãos Danadelli(9), italianos, por volta de 1937. Tornou-se conhecido também como Jogo do Tamborete. Na década de 1950, esteve muito difundido entre adultos e crianças. Volta e meia, se via alguém impulsionando uma pequena bola ou uma peteca, com o auxílio de uma raquete em forma de tambor. Essa prática é muito antiga noutros lugares do mundo. Na França, é denominado Jeu de Tambourin e, na Itália, Palla Tamburello.

Pois bem, o assunto não terminou… Verdade é que, em algum momento, alguém baixou a pela, bateu no pé, e estava criada a pelada. Mas não se sabe quantos anos antes de existir o futebol(11), este agora tão sofisticado nas regras.

Pesquisa, texto e arte de Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

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(1) GALENUS, Aelius ou Claudius – (Pérgamo, Grécia, *c.129 / Sicília (provavelmente), †c. 217) Em latim Claudius Galenus e, em grego Κλαύδιος Γαληνός; mais conhecido como Galeno de Pérgamo. Médico e filósofo romano, de origem grega.

(2) Pagão – do latim paganus. O nome servia para se referir ao homem rústico, ou seja, que vivia no meio rural e, como consequência, ainda não era cristão. Em 1639, Théophraste de Renaudot (Loudun, *1586 / Paris, †28.10.1653), no livro “Troisième Centurie des Questions”, (p. 45), diz que o Jogo da Pagânica era o mais popular, comum. / A Pagânica é também ancestral do golfe.

(3) BLUTEAU, Raphael – (Londres, *04.12.1638 / Lisboa, †14.02.1734) Lexicógrafo e Religioso da Ordem dos Clérigos Regulares. Autor do “Vocabulário Português e Latino”. / O padre Raphael Bluteau, no seu dicionário de 1734, explica a palavra follis e suas afins: “FOLE – instrumento de fazer vento. Há fole de mão. de órgão, de forja. Dar aos foles, enfermidade do cavalo, assim chamada, porque a falta de respiração o obriga a mover muito os ilhais e o ventre. […] / FOLE – Pele de carneiro seca e ajustada ao modo de saco pequeno, em que os rústicos levam o trigo, ou outro grão do moinho e o trazem em farinha. Não se fizera escrúpulo de dizer folis, ou folliculus, neste sentido, porque, em Juvenal, follis se toma por bolsa feita de pele […] Segundo Vegécio, follis pecuniae quer dizer saco de dinheiro […] / FOLÍCULO – Termo médico, bolsa […] / FÔLEGO – … porque o bofe, a modo de fole, com os dois movimentos de dilatação e compressão, lança e recebe o ar […] Descanso do trabalho […] Falar sem tomar fôlego […] Andar folgado. […] / FOLGA – Descanso, ócio […]  / FOLGADO – Não molestado no trabalho […] / RESFOLEGAR – Tomar fôlego.”

(4) MARTIALIS, Marcus Valerius – (Bibilis, Espanha, d.C. 38-41 / c.103) Poeta, notável pelos seus epigramas* [*composições poéticas de estilo crítico, às vezes mordaz). Sua cidade natal pertencia ao Império Romano e dela só restam ruínas. Situa-se na atual Calatayud, província de Zaragoza.

(5) Odisseia – Poema épico do grego Homero – século IX a.C. –, que narra as  aventuras heróicas de Ulisses durante sua viagem de retorno a Ítaca”, após a Guerra de Tróia. O nome Ulisses é versão latina de Odisseu.

(6) Fonte: “Institut national de recherches archéologiques préventives”, França, 31.10.2016.

(7) WINGFIELD, Walter Clopton – (Ruabon, País de Gales, *16.10.1833 / Londres, Inglaterra, †18.04.1912) Inventor e militar britânico.

(8) MILLER, Charles – (São Paulo, *24.11. 1874 / †30.06. 1953) Em 1884, foi estudar em Hampshire, na Inglaterra, onde aprendeu a jogar futebol, rugby e críquete.

(9) DANADELLI, (irmãos) Joseph e Luigi. 

(10) Futebol – As primeiras regras escritas do futebol surgiram em 1830 – The Football Rulles – e foram criadas pelo Harrow College. Estabeleceram o número de jogadores – 11 para cada equipe –, espaços para rolar a bola, balizamento delimitando o alvo do gol, etc. No início, havia diversidade nas regras, as quais variavam de um colégio para outro. Porém, em 1848, houve uma reunião conjunta de várias escolas, quando unificaram as regras. Desde então, ocorreu um impulso na atividade esportiva, contudo, ainda limitada às classes sociais mais altas.

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