Sumidoiro's Blog

01/09/2021

COLEGA CATARINO

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♦ Homenagem post-mortem

Abre-se esta página com um relato que remete à segunda metade dos anos de 1950. São revelações oriundas da convivência do autor deste Blog* com Oswaldo Catarino Evaristo, artista e ex-pracinha da Segunda Guerra mundial. Na intimidade, era tratado como Catarino.  * Eduardo de Paula

Essa imagem tem um atributo alt vazio; o nome do arquivo é post-catarino-parque.jpgArtista Catarino (por Derly Marques). / Parque Municipal, BH (por Guignard)

Em 1955, contando 18 anos de idade, lhes digo que fui contratado como desenhista da revista Alterosa(1), com sede em Belo Horizonte. Assumi esse trabalho mesmo sendo autodidata, embora trazendo breve experiência em agência de publicidade. Pouco tempo depois, aconselhado por uma amiga, me matriculei na escolinha do Mestre Guignard(2). Nessa casa de ensino artístico, tive a sorte de me aproximar do personagem Catarino. 


Essa imagem tem um atributo alt vazio; o nome do arquivo é post-rev-alterosa.jpgVamos lá… Na edição de 15.10.1959, a revista Alterosa publicou uma reportagem sobre Catarino. Preenchendo três páginas, foi assinada por André Carvalho, com fotos de Derly Marques e desenhada (diagramada) pelo autor deste Blog, nós quatro éramos amigos comuns. Reescrevendo o que ali está e acrescentando mais detalhes, aqui interpreto essa história:

      “Ainda muito jovem, Catarino empregou-se na Telefônica Brasileira e pode conhecer vários países: Argentina, Bolívia, Paraguai, Chile e o além mar, no Portugal. Vivia sempre atrelado com uma ou outra mulher, mas apenas em sonho. De vez em quando, as exibia no papel, em versos de amor da sua lavra. Se pudesse, gostaria de estar junto delas em carne e osso. 

Até que chegou o momento de prestar o serviço militar obrigatório, onde lhe fizeram soldado reservista de 1ª categoria, no 11º Batalhão do Exército, em São João Del Rei (MG). Logo depois, ao eclodir a segunda Guerra Mundial, meteram-no nela. Chegou à Itália em novembro de 1944, onde lutou pelo Brasil e viu morrer inúmeros amigos mais chegados. Como soldado prestava obediência mas, uma vez que era muito humano e poeta, não conseguia se livrar do medo. Verdade é que, na guerra, teve participações corajosas e por elas recebeu várias medalhas.

Em certo momento, num confronto com os alemães, na região de Monte Castelo*, vinte e cinco soldados do seu pelotão, inclusive ele, foram dados como mortos ou desaparecidos. Porém, no dia 12 de dezembro de 1944, Catarino reapareceu ileso junto aos seus, no povoado de Abetaia, nas cercanias de Gaggio Montano. Noutro combate, uma granada arrancou-lhe um pedaço da barriga da perna. Apesar das dores, guardou silêncio, com receio de ter que baixar no hospital. Porém, mancando e febril, teve que ir em frente, na própria Gaggio Montano, em direção ao Monte Castello. Por lá, em meio à neve, participou de patrulhas, se expondo a bombas que cruzavam os ares e a rajadas de metralhadora, ao mesmo tempo em que evitava barreiras de canhões. — * O enfrentamento teve início em 25.11.1944.

Essa imagem tem um atributo alt vazio; o nome do arquivo é post-catarino-x-2.jpgRosto de Catarino e, de corpo inteiro, o mais baixo à esquerda.

Em fevereiro de 1945, durante uma operação visando os alemães, ocorreu outro confronto, quando os inimigos foram rechaçados com força, embora havendo inúmeras baixas entre os brasileiros. Pouco dias depois, houve mas um combate vitorioso, mas com sabor de derrota, desde que o terreno ficou coberto pelo sangue de vários amigos. Mais adiante, houve a conquista de Castelnuovo, pelo 1º Batalhão, do 11º Regimento de Infantaria, e lá esteve mais uma vez Catarino. Em seguida, promoveram um ataque a Vergato, onde caíram num campo minado.

Em meio a tantas mortes, mesmo com os olhos já se acostumando com as terríveis cenas, a neurose foi tomando o soldado Catarino. Sufocava o homem e aniquilava o poeta. Por tudo isso, mandaram-no de volta à pátria, mas quando chegou à sua cidade, Belo Horizonte, encontrou-a muito tristonha e não lhe apresentava boas perspectivas. Num certo momento, com a neurose lhe consumindo, optou por mudar-se para Pedro Leopoldo, uma pequena cidade na vizinhança. Deu certo, porque lá encontrou Gilda, um caso amoroso que lhe serviu para aliviar dores da guerra.

Porém, retornou a Belo Horizonte, onde empregou-se como servente, em 1948, na Secretaria da Educação. Desde então, suas poesias ficaram conhecidas, embora num círculo restrito e, esporadicamente, publicadas em um suplemento literário. Até que, em certa oportunidade, teve a sorte de manter contato com um grupo de alunos da escola de belas-artes* do mestre Guignard(3), fato que provocou uma reviravolta na sua vida. Como o estabelecimento se organizava em cursos livres, nele se matriculou e experimentou várias especialidades: desenho, pintura, escultura, etecétera e tal. Tudo lá se encaixava muito bem com o espírito do poeta nato. — * Instalada no Parque Municipal de BH.

Essa imagem tem um atributo alt vazio; o nome do arquivo é post-guignard.jpgGuignard em auto-retrato e em fotografia.

Apesar de tudo, ainda lhe faltava encontrar a verdadeira mulher da sua vida, uma vez que Gilda não passara de um relacionamento efêmero. Surgiu então no seu caminho uma mulher branca, que sentiu no preto Catarino uma alma afim e, por isso, tornam-se amigos. Assim, prosseguiram ao ponto de chegarem nada mais que ao amor platônico.

Ela o incentivava, animava, posava para retratos, fossem em desenho, pintura ou escultura. Fez-se também instrutora e apontava falhas, e caminhos. Curava tédios, apagava lembranças ruins. Enfim, procurava preencher quase todos os seus vazios. Para ele, havia surgido uma mulher perfeita, de nome Solange. Sobre o que veio depois? Infelizmente, Catarino não está mais aqui para contar…” 

Essa imagem tem um atributo alt vazio; o nome do arquivo é post-catarino-pintura.jpgCatarino e sua pintura (Museu de Arte Moderna de BH, acervo).


BEM LONGE DA PÁTRIA

Em novembro de 1944, com a guerra já em andamento, chegou à Itália o 11º Regimento de Infantaria, com sede em São João del Rei, onde estava engajado Catarino. A cidade fica no estado de Minas Gerais, que costuma ser dito como Terra das Alterosas, devido à topografia com muitas montanhas. Pois bem, aparece na Canção do Expedicionário, num trecho que diz:

Venho das praias sedosas
Das montanhas alterosas
Dos pampas, do seringal
Das margens crespas dos rios
Dos verdes mares bravios
Da minha terra natal

Por mais terras que eu percorra
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Sem que leve por divisa
Esse V que simboliza
A vitória que virá

De fato, as palavras do hino tem a ver com Catarino. Outra curiosidade é que, em Gaggio Montano, foi erigido um monumento idealizado por uma ex-aluna da escolinha de Guignard, a mesma onde estudou o pracinha. Seu nome: Mary Vieira(4). Formado por dois arcos, um deles tem duas pontas fincadas na terra. No outro, elas apontam para o céu, indicando o caminho das almas dos soldados mortos. Além disso,  a escultora tirou partido do movimento do sol que, ao meio-dia, projeta sobre o solo uma cruz, abençoando os heróis que lutaram pela liberdade.

Essa imagem tem um atributo alt vazio; o nome do arquivo é post-monumento-itacc81lia-2x.jpgMonumento aos heróis da FEB, em Gaggio Montano (por Mary Vieira).

MONTE CASTELLO

Nas cercanias do Monte Castello, um agrupamento de pequenas casas, já semi-destruídas, mas ainda dominadas pelos alemães, barravam o avanço das tropas aliadas. Pela sua situação estratégica, os nazistas procuravam mantê-lo sob seu domínio. Desde as vizinhanças, estava todo protegido por casamatas e pontos fortes. Nessa localidade, mesmo tendo auxílio dos norte-americanos, houve tentativas de ultrapassagem visando a tomada do Monte Castello. Ali, os soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB) sofreram severas perdas, isso por umas quatro vezes. Na verdade, o casario esteve tanto nas mãos dos alemães quanto dos brasileiros.

Contudo, somente em 21 de fevereiro de 1945, a FEB conquistou a elevação, de 887 metros de altura, situada a cerca de 60 km, a sudoeste da cidade de Bolonha. O acontecimento foi essencial na guerra de libertação que, poucos meses depois, levaria à derrota das tropas nazistas. O enfrentamento não foi fácil, pois a batalha se arrastou por três meses, de 24 de novembro de 1944 a 21 de fevereiro de 1945. Nesse período, ocorreram seis ataques com grande número de baixas entre os brasileiros.

A tomada do estratégico Monte Castello, é devida à garra dos pracinhas, mesmo diante da precariedade de equipamentos e dificuldades ambientais, principalmente a neve. Até mesmo os calçados não eram apropriados para a neve. Tantas eram as dificuldades que, quando falavam dessa montanha, os pracinhas costumavam denominá-la como Monte Fantasma. Esse baluarte alemão fazia parte da chamada Linha Gótica, fortemente protegida por mais de 200 mil minas terrestres, além de valas anti-tanques e mais fortins guarnecidos por atiradores de elite.

Por sua vez, o episódio de Abetaia tornou-se um símbolo da garra dos pracinhas. Aconteceu que, após uma derrota sofrida pela FEB, em 12 de dezembro de 1944, tendo como cenário uma noite escura e quando caía uma chuva miúda, houve um número alto de baixas. Logo após o confronto, centenas estiveram a gemer nos hospitais de campanha. Nos postos de comando dos batalhões, quando se fez a chamada dos combatentes, centenas não respondiam mas, volta e meia, aparecia algum sobrevivente. Outrossim, semanas depois, inúmeros foram encontrados mortos, e mais, chegando notícias daqueles que se tornaram prisioneiros.

Essa imagem tem um atributo alt vazio; o nome do arquivo é post-tomada-mt-castelo.jpgPracinhas brasileiros tomando posse de Monte Castello.

Um mistério, entretanto, preocupava os comandantes dos Regimentos, Sampaio, Tiradentes e Ipiranga, ou seja, ninguém sabia do paradeiro de 17 soldados. A última vez que foram vistos avançavam em direção à Abetaia. O tempo foi passando e a neve caindo, sendo que, em certos lugares, chegava aos joelhos. Durante dois meses, estiveram à procura dos desaparecidos, até que, logo depois do 21 de fevereiro de 1944, quando as tropas brasileiras tomara e ocuparam o Monte Castello e região, houve uma terrível descoberta, justamente em Abetaia.

Quem deu a notícia foi o capelão do Regimento Sampaio, pastor Soren*, da Igreja Batista, que acabara de percorrer caminhos onde a neve já havia derretido. Contou que, ao se deparar com algumas silhuetas proeminentes num terreno, na verdade eram 17 corpos de soldados. Pela posição de cada um e pela condição de cada arma e equipamento, estavam a revelar como morreram em combate. — * SOREN, Filson João (imagem à esquerda).

Como tinham sido ofendidos por granadas e rajadas de metralhadoras, estavam todos de frente para o inimigo. Muitos comprimiam os gatilhos das armas, outros seguravam granadas. À frente de todos, com a boca aberta, como a comandar sua última ordem, com o braço direito esticado, a mostrar o objetivo e dando sinal de avançar, estava caído o sargento Luís Rodrigues Filho. Aos olhos do padre formava-se a nítida imagem dos soldados em ação, corajosamente enfrentando os inimigos. Diante da cena, o pastor Soren caiu de joelhos e fez uma oração com todo fervor.

Quase todos estavam com o dedo no gatilho, outros com granadas nas mãos, já sem o grampo de segurança. Os corpos permaneciam muito bem conservados, devido ao manto protetor que os cobria, mas ainda estavam em processo de descongelamento. Tempos depois, esses homens ficaram conhecidos como “Os 17 de Abetaia(5)

Entre os mortos estavam três mineiros, talvez conhecidos de Catarino: Alcides Maria Rosa (vindo de Dores de Campos – 11º RI ), Antonio Coelho da Silveira (vindo de São João Del Rei – 11º RI ), Hereny da Costa (vindo de Belo Horizonte – 11º RI ). Este último ganhou nome de rua em Belo Horizonte.

Quanto ao intrépido comandante do grupo, o sargento Luiz Rodrigues Filho, apurou-se que pertencia ao 1º RI, do Rio de Janeiro, situado no Engenho Novo. Vivia no bairro de Madureira (RJ), junto com os pais, dona Umbelina Alves Rodrigues e Luis Rodrigues Filho. A habitação, na periferia da cidade, era muito modesta. 


EM FAMÍLIA

Em 29 de novembro de 1946, Catarino teve uma grande alegria, nascera uma filha da sua irmã Joana Josefina Evaristo, lavadeira. Quando adulta, tornou-se professora universitária e escritora famosa. Nome: Conceição; sobrenome: Evaristo(6). Por suas próprias palavras, informou que possuía uma espécie de notificação do seu nascimento, lavrado pela Santa Casa de Belo Horizonte e acabou por dizer:

“Tive esse registro de nascimento comigo, durante muito tempo. Impressionava-me, desde pequena, essa cor parda. Como seria essa tonalidade que me pertencia? Eu não atinava qual seria. Sabia sim, sempre soube que sou negra.”

Essa imagem tem um atributo alt vazio; o nome do arquivo é post-catarino-conceiccca7acc83o.jpgCatarino no seu quartinho (por Derly Marques). / Conceição Evaristo.

O soldado artista Catarino, quando retornou a Belo Horizonte e enquanto estudou na escolinha de Guignard, morou no quartinho de um barracão na favela, junto com a irmã e sobrinhos. Quem esclarece é a sobrinha Conceição, que foi desperta para as letras pelo tio querido. Em  depoimento, que fez em 2019, revelou:

“Meu tio Oswaldo Catarino Evaristo possuía uma biblioteca no quartinho em que morava, mas de entrada independente, ao lado da casa de minha mãe. Biblioteca que minha mãe não nos deixava visitar e que era trancada quando ele saia para trabalhar. Imagino que era leitura só para adultos.”Site “Escrevendo o Futuro“, 2019.

Certa feita, já adulta e morando no Rio de janeiro, visitou o lugar da sua infância, mas que fora transformado em um bairro urbanizado. Dessa experiência, deixou por escrito:

“Dali só reconheci a terra da favela*. Sim a terra, o pó, o barranco, sobre o qual está edificado o “Mercado Cruzeiro”, no final da rua. Observei que, ao edificarem o prédio, conservou-se parte do barranco sem cimentá-lo. Pude contemplar o solo, a base da construção. Em um ponto qualquer daquele espaço, literalmente, está enterrado o meu umbigo. Sem que ninguém percebesse, alisei o chão e dele catei alguns fragmentos. Tive um desejo louco de tocar a boca nas minhas mãos.” — * O desfavelamento da denominada favela do “Pindura Saia”, melhor dizendo, “Pendura Saia”, ocorreu em 1971.

E disse mais:

“Durante toda a primeira infância, até ali por volta dos 10 ou 11 anos de idade, morou conosco na favela, em um quartinho à parte, meu tio materno Oswaldo Catarino Evaristo. Esse tio havia servido à pátria lutando na Itália, na Segunda Guerra Mundial. […] Ao longo dos anos, ele estudou, desenvolvendo seus dons de poeta e artista plástico. E, mais do que isso, foi sempre um consciente questionador da situação do negro brasileiro. Repito sempre que a ele devo as minhas primeiras lições de negritude.”


Agora, para encerrar, mais um trecho da Canção do Expedicionário:

Essa imagem tem um atributo alt vazio; o nome do arquivo é post-bandeira.jpgNossa vitória final
Que é mira do meu fuzil
A ração do meu bornal
A água do meu cantil
As asas do meu ideal
A glória do meu Brasil

Por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

——

(1) Revista Alterosa – propriedade de Olímpio de Miranda e Castro. Fundada em 1939, em Belo Horizonte (MG).

(2) Escola de Guignard – Fundada em 1944, por iniciativa do prefeito Juscelino Kubitschek. Nesse sentido, foi lavrado o decreto nº 151, de 29 de fevereiro de 1944, com o propósito de, à Escola de Guignard, anexar a Escola de Arquitetura – já existente – e atribuindo à junção das duas o nome de Instituto de Artes de Belo Horizonte. Contudo, o decreto não foi posto em prática e ambas instituições continuaram separadas. A Escola de Guignard continuou independente, como curso livre e, só mais tarde, passou a se chamar Escola de Belas-Artes de Belo Horizonte. Atualmente, faz parte da Universidade do Estado de Minas Gerais.

(3) GUIGNARD, Alberto da Veiga – (Nova Friburgo, estado do Rio de Janeiro, *23.02.1896 / Belo Horizonte, †25.06.1962).

Essa imagem tem um atributo alt vazio; o nome do arquivo é post-lierdade-em-equilicc81brio.jpg(4) VIEIRA, Mary – (São Paulo – SP, *30.07.1927 / Basileia, Suíça, †2001). Estudou desenho e pintura com Guignard, e escultura com Franz Weissmann (na antiga Escolinha de Gignard). Em 1951, transferiu-se para a Suíça, onde fez curso de aperfeiçoamento com Max Bill. / Para Belo Horizonte, projetou um monumento que está edificado na Praça Rio Branco, início da avenida Afonso Pena. A obra recebeu o título de “Liberdade em Equilíbrio(imagem anexa).

(5) Os 17 de ABETAIA – Luiz Rodrigues Filho (sargento) 1º RI, Engenho Novo, RJ / Ary de Azevedo, 1º RI, Engenho Novo, RJ / Cristiano Clemente da Silva, 11º RI, Tijucas, SC / Durvalino do Espírito Santo, 11º RI, São Fidélis RJ / José de Aráujo, 11º RI, Santo Antônio de Pádua RJ / Alcides Maria Rosa, 11º, RI Dores de Campos, MG / Aleixo Herculano Malva, 11º RI, Itajaí SC / Almiro Bernardo, 11º RI, Botucatu SP / Amaro Ribeiro Dias 11º RI, Campos, RJ / Amélio da Luz 11º RI, Cerro Azul, PR / Antonio Coelho da Silveira, 11º RI, São João Del Rei, MG / Lindo Sardagna, 11º RI, Ibirama, SC / Hereny da Costa, 11º RI, Belo Horizonte, MG / Iraci Luchina, 11º RI, Araraguá, SC / Mariano Felix, 11º RI, Itatinga, SP / Rafael Pereira, 11º RI, Mirandápolis, SP / Sebastião Clemente Machado, 11º RI, Rio Preto, SP.

(6) SOBRINHA e TIO — Maria da Conceição Evaristo de Brito (nome e sobrenome de casada) – (Belo Horizonte, *29.11.1946). Graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1990); Mestre em Letras; Doutora em Letras. Atuante nas áreas de Literatura e Educação, com ênfase em gênero e etnia. Assessora e consultora em assuntos afro-brasileiros. Poetisa, romancista e ensaísta. Sua produção poética aparece em “Cadernos Negros“, publicação do grupo “Quilombhoje“, de São Paulo. / Romances: “Ponciá Vicêncio” e “Becos da memória“; Poesia: “Poemas da recordação e outros movimentos“; Contos: “Insubmissas lágrimas de mulheres“. // Oswaldo Catarino Evaristo — Casou-se, em São Gonçalo do Pará (MG), com Maria Antônia Cesário Evaristo, com que teve filhos. Em sua homenagem, uma via da cidade leva o nome de Rua Oswaldo Catarino Evaristo.

01/08/2021

REVIVÊNCIAS

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:13 am
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♦ Duas vidas

Sou Renato, brasileiro. Estudei belas-artes na França, onde me formei e por lá permaneci vivendo, e produzindo minhas pinturas.

Essa imagem tem um atributo alt vazio; o nome do arquivo é post-paris-festa.jpgViva Paris! Viva a vida! Década de 1920.

      Quando estive em Paris – a Cidade Luz(1) –, sempre que podia participava de tudo e vivia a mil quilômetros por hora, como se diz metaforicamente. Lá cheguei em 1920, nos primeiros dias da década que ficou conhecida como “anos loucos”. Esse período esteve pleno de alegrias e com muitas novidades, ou seja, o surgimento do jazz, do rádio, do cinema, dos eletrodomésticos, etecétera e tal. Na sociedade europeia, de modo geral, a política caminhava em efervescência, repercutindo nos jornais e nos rádios.

Anos depois, em 1935, na mesma Paris, surgiu uma ferramenta mágica para a comunicação, a radiovision, que levava às pessoas imagens e sons pela atmosfera. Logo em seguida, ela passou a ser chamada de télévision. Pois sim, desde que sou ligado às artes visuais, por profissão, me entusiasmei com a novidade, tanto que comprei um aparelho receptor. Nesse mesmo ano, devido a II Guerra Mundial, foram interrompidas as transmissões por algum tempo, o que me deixou deveras frustrado. 

Essa imagem tem um atributo alt vazio; o nome do arquivo é post-tv-1.jpg← Em 1937: Mlle. Winter, “speakerine” da Radio Vision. 

Apesar de tudo, mesmo sob os riscos inerentes ao conflito militar, permaneci vivendo na minha rotina, tranquilo e seguro, porque havia feito um acordo de proteção com São Jorge, o santo guerreiro. Porém, no dia do meu aniversário, ao contar 40 anos de idade, a guerra colocou em mim o ponto final, ou seja, fui morto. Melhor dizendo, me mataram na Place du Tertre – em Montmartre –, em junho de 1940. Meu infortúnio ocorreu justamente quando bebia um absinto no La Mère Catherine*, em companhia da minha modelo Michelle Chérie, que sempre posava para meus nus artísticos. — * Restaurante da Maison Catherine.

Nós dois, naquela oportunidade, trocávamos ideias sobre “A Utopia”, livro de Thomas Morus(2). Como se sabe, a narrativa descreve uma grande ilha*, que seria terra de todas as bondades. Datada de 1516, a obra repercutiu e tem repercutido em todo o mundo, ao ponto de ter sido assimilada pela doutrina nazista e, também, pela comunista. — * Utopia é palavra criada por Morus.

Contudo, todo mundo sabe, quando há guerra, não há santo que consiga salvar multidões. Talvez seja esse o motivo de eu ter sido vitimado por dois tiros, disparados por um soldado alemão. Por mera antipatia ou cumprindo ordens, repentinamente o nazista me enviara para o além. Naquele exato momento, além dos estampidos, ouvi apenas as últimas palavras da minha modelo: “- C’est fini.” [É o fim!]

Essa imagem tem um atributo alt vazio; o nome do arquivo é post-mecc80re-catherine.jpgSoldados alemães no “Restaurant à La Mère Catherine”.

Daí a pouco, quando dei conta de tudo, estava mesmo mortinho da silva e metido numa caverna chamada Devir*, lá aguardando algum acontecimento. Assim foi que permaneci na escuridão durante 81 anos e contando os mesmos 40 anos de idade, até que retornaram a mim as luzes do universo. Dessa segunda feita e ainda pelas artes de São Jorge, fui recolocado no meu amado Brasil, precisamente no ano de 2021. — * Devir, o mesmo que devenir; vir a ser, tornar-se, transformar-se.

Ao pisar em terra firme, encontrei um sem número de novidades, geradas no período em que permaneci congelado no tempo e no espaço. Na verdade, me causou surpresa o mundo não ter acabado porque, desde criança, ouvira dizer que o Apocalipse aconteceria no máximo até o ano 2000. 

Pois bem, nesse ano de 2021 d.C., me vi na mesma cidade onde nasci*, a minha amada Belo Horizonte(3), capital do estado de Minas Gerais. Mas não mais se afigurava como aquela em que vivi até os 20 anos de idade. A de antanho estava morta e a de agora me surgia incompreensível. Lugar e gente tudo diferente. Abrira-se então uma caixa de surpresas e algumas delas vou aqui relatar. — * Nasci em 1900 e, para minha felicidade, fui batizado na igreja da Boa Viagem. 

Essa imagem tem um atributo alt vazio; o nome do arquivo é post-meu-guia.jpg← Meu guia.

Pois sim, imediatamente após minha chegada, fui recepcionado por um rapaz vestido de negro. Porém, quem falou primeiro foi ele, dizendo, curto e grosso:

“- Sou Gótico! Aqui estou para esclarecer e ajudar.”

De supetão fiquei sem entender, pois o que sabia do gótico era como adjetivo, definidor do povo godo(4). Também me lembro das igrejas góticas e das artes medievais. Vai daí que os meus olhos se arregalaram e fazendo com que o recepcionista se justificasse:

“- Não se assuste, sou assim porque optei por ser diferente. Morro de vontade de aparecer.”

Sim, entendi muito bem. Logo vi que se tratava de pessoa sem cultura, sem refinamento e sem desconfiômetro. Lembrei-me ainda que, em sentido figurado, gótico quer dizer bárbaro.

De qualquer modo, desde que não me surgia outra opção, tive que me sujeitar a ser ciceroneado pelo rapaz vestido de preto. Para deixar bem claro, meu guia informou que São Jorge providenciara tudo para minha acolhida e permanência, tendo em vista que meus pais haviam falecido e parentes não se dispuseram a me ajudar. Devo ainda dizer que o Gótico completava sua figura vestindo uma máscara acinzentada cobrindo metade do rosto. Nesse sentido, quando lhe questionei sobre o adereço, obtive pronta resposta de que era por conta da pandemia.

Mas, deixa pra lá… Em certo momento da nossa caminhada, o guia cruzou com um conhecido, mas não se alongaram em palavras, tão somente disseram “oi”. Contudo, sem se darem as mãos, apenas trocaram cotoveladas. Não entendi os gestos, que considerei absurdos, tanto que foram me beliscar lá no cérebro. Mais adiante, o mesmo se repetiu com outra pessoa. Dessa feita, se tocaram bruscamente com os punhos, como boxeadores. Por isso mesmo, achei necessário indagar sobre a falta de civilidade, no meu modo de entender, claro. Então, de novo, o moço apontou o motivo: “- É por conta da pandemia!”

Logo em seguida, perguntou se eu fora vacinado. Nesse caso, veio à minha memória a vacina contra a raiva, que outrora me aplicaram, depois que um cachorro me mordeu na canela. Naquela época, ainda vivia com meus pais. Foi o que passei ao meu guia, mas ele retrucou:

“- Não é disso que estou falando. Estou falando do Covid-19, coisa muito pior e que provoca muito mais raiva.”

Ufa! Daí em diante, ao percorrermos as ruas da cidade, observei com perplexidade um monte de transeuntes. Muitas mulheres com pouca roupa e homens de calças curtas, sandálias e brincos. Tinha até um deles vestido de saia e “soutien”. Todos cobriam o rosto com máscaras, tal como o Gótico.

E, vejam, como não era carnaval, perguntei a mim mesmo se seria outra pandemia. Modéstia à parte, não vi ninguém que estivesse bem composto como eu, de terno, gravata, chapéu e sapato de verniz. Ademais, era inverno no momento da minha revivência e não compreendi o por quê de tanta gente desagasalhada, para dizer o mínimo.

Essa imagem tem um atributo alt vazio; o nome do arquivo é post-tatuados.jpgCasal polinésio tatuado (por Verreaux, 1832).

Havia também um punhado de homens e mulheres tatuados, o que me pareceu destoante para uma sociedade civilizada. Entretanto, mais uma vez, me tranquilizou o Gótico, dizendo que era moda. Sobre essa extravagância, me lembrei do que aprendi numa biblioteca de Paris.

Está dito que, ao fim do século XIX, a mania da tatuagem se disseminou pela França, apesar da sua origem bizarra. Na Europa, tiveram conhecimento delas um século antes, através do viajante James Cook(5), depois de sua passagem pela Polinésia*. Os nativos de lá cobriam os corpos com desenhos que chamavam de “tatau”. Dessa palavra derivou outra, a tatuagem. — * Conjunto de ilhas espalhadas pelo Oceano Pacífico, central e meridional.

Chegou ao ponto que, surpreso com tantas modas, precisei indagar como elas chegavam ao Brasil, tendo o Gótico respondido que seria pela “tevisão”. Nesse momento, me lembrei do meu receptor em Paris, acho que ele queria dizer televisão. E mais, me admirei ao saber que a ferramenta sobrevivera e com tanto poder de convencimento(6).

Daí a pouco, senti meu corpo tomado pelo suor e o Gótico também percebeu. Ao que, então, palpitou: “Tire esse paletó que eu levo para o senhor”. Não aceitei a gentileza, mas lhe disse que já havia notado que o clima estava mudado. Muito diferente daquele dos meus tempos antigos de Brasil. Nesse sentido, o moço deu um palpite:

“- Sei lá se mudou! Andam dizendo por aí que é por causa de um tal de efeito estufa.”

Meu Deus, nunca imaginei que veria tantas mudanças, na natureza e nas pessoas. Nunca vi tanta gente tão parecida e tão agarrada às mesmas modas, e ideias. E mais, com o perdão das palavras: todo mundo quase pelado! Se dentro das cabeças trazem algo deveras importante, ainda não sei. Porém, precisando mudar de assunto, fiz ao Gótico minha última pergunta:

“- E, na ponta da linha, quem dita as modas?”.

Nesse momento, me pareceu que o moço se embaraçara. Sim, respirou fundo e falou sem rodeios:

“- Olha, andam dizendo por aí que quem manda é o “sistema”. (7)

Ora bolas, não entendi… Mas, sempre com meus passos guiados pelo Gótico, nos dirigimos ao hotel onde me hospedaria. Durante o trajeto, fomos ganhando mais intimidade, até que ele me convidou para uma confraternização. Aconteceria mais tarde, num lugar ermo, com um evento intitulado Distopia(8). Vejam só, como me disse, seria uma manifestação contra Thomas Morus, um baile gótico no estilo “rave”(9). Teria que me vestir de preto e usar máscara.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é post-s-jorge-2.jpgNem deu tempo de indagar sobre o tipo de máscara e ouvi um estrondo no céu, seguido de uma tempestade. Um aguaceiro fora de época, como nunca tinha visto! Daí, em meio a raios e trovões, surgiu a voz de São Jorge, dizendo:

“- Não vai, não vai! Você pode morrer de novo. Espere para assistir o espetáculo do Apocalipse, que acontecerá em breve.”

Pois bem… Depois de tudo isso, estou me conformando. Na verdade, só se eu não tivesse morrido é que tudo estaria do mesmo jeito.

— Por ora, é só. Cordialmente, Renato* (o renascido).


— * O nome Renato remete à Bíblia, onde está escrito: João 3:4Perguntou Nicodemos: “Como alguém pode nascer, sendo velho? É claro que não pode entrar pela segunda vez no ventre de sua mãe e renascer!” — Dessa frase, pode-se retirar a ideia contida no nome Renato. Re, de repetido e natus de nascido. Ou seja, Jesus Cristo falou da necessidade de “reviver” para conhecer o Reino de Deus.


Por Eduardo de Paula

(1) Cidade Luz – O rei Luis XIV, na metade do século XVII, encarregou o tenente-general Gabriel Nicolas de La Reynie de tornar a cidade mais segura. Para tanto, lanternas foram colocadas nas ruas principais, e os habitantes solicitados a acender, em suas janelas, velas e lampiões a óleo. E como, na época, as cidades europeias ainda não haviam adotado a iluminação pública, a enorme claridade gerou forte impressão aos moradores e visitantes, de modo a surgir o apelido de Ville Lumière ou Cidade Luz. Ademais, pelo fato de Paris ter se tornado centro irradiador do movimento filosófico do Iluminismo, esse fato veio a corroborar com o mesmo pensamento de cidade luz. 

Essa imagem tem um atributo alt vazio; o nome do arquivo é post-morus-1.jpg(2) MORUS, Sir Thomas – (Londres, *07.02.1478 / Londres, †06.07.1535) Advogado, juiz, filósofo social, autor, estadista e destacado humanista da Renascença. Serviu a Henrique VIII como Alto Chanceler da Inglaterra. / Opôs-se à Reforma Protestante, polemizando contra a teologia de Martinho Lutero, Huldrych Zwínglio, João Calvino e William Tyndale. Investiu contra a separação de Henrique VIII, recusando-se a reconhecê-lo como chefe supremo da Igreja da Inglaterra, devido à anulação de seu casamento com Catarina de Aragão. Por isso, foi condenado por traição e decapitado. / Em 1886, foi beatificado por Leão XIII. Em 1935, Pio XI o canonizou como mártir da Igreja. Em 2000, João Paulo II o nomeou como patrono dos estadistas e políticos. // UTOPIA (etimologia) – nome formado por palavras do grego οὐ (não) e τόπος (topos = lugar), ou seja, coisa que não se encontra em lugar algum.

(3) Belo Horizonte: fundada em 12 de dezembro de 1897.

(4) GODOS – Povos germânicos que desempenharam importante papel na queda do Império Romano Ocidental e no surgimento da Europa medieval. / Gótico – relativo aos godos.

(5) COOK, James – (Inglaterra, *07.11. 1728 / Havaí, †14.02.1779) Explorador, navegador, cartógrafo, capitão da British Royal Navy. Famoso pelas três viagens que realizou pelo Arquipélago do Pacífico e Austrália, entre 1768 e 1779. Foi o primeiro a mapear a Terra Nova, bem como fez a primeira circum-navegação registrada da Nova Zelândia.

(6) TV / França – A primeira transmissão ao público ocorreu em Paris, em dezembro de 1935. Os receptores foram instalados em seis lugares de acesso livre ao público. Três mil pessoas se revezaram, para assistirem a imagens e sons transmitidos apenas por alguns minutos.

(7) SISTEMA – no sentido de conjunto das instituições econômicas, políticas, morais e comportamentais, às quais os indivíduos se subordinam. / Sobre o vestuário, o semiólogo Roland Barthes – em “Sistema da Moda”, 1967 – postula a existência de três níveis de vestuário, quais sejam: o vestuário real (a própria roupa), o vestuário representado (numa fotografia ou ilustração) e o vestuário descrito (num texto ou reportagem da mídia). Nesse último caso, autor chama a atenção para as significações e valores atribuídos a tais objetos.

(8) Distopia – Ideia que se opõe a utopia. No caso de um país ou de uma sociedade, é onde tudo está organizado de forma opressiva ou totalitária.

(9) Rave” é um evento festivo dançante de longa duração (normalmente acima de 12 horas) e dominada por música eletrônica. Ocorre longe dos centros urbanos (sítios, galpões ou em qualquer terreno ao ar livre), onde DJs, artistas plásticos e performáticos fazem apresentações, ao mesmo tempo interagindo com o público. O termo “rave” foi usado, a partir do ano de 1960, por caribenhos residentes em Londres, para denominar sua festa local. Em sentido genérico, festa para grande público com música eletrônica, barulhenta, rápida e, muitas vezes, regada a drogas.

01/07/2021

VERDE ASSASSINO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 9:19 am

Lindo de morrer!

Na Europa, a partir da segunda metade do século XVIII, começou a ocorrer uma mortandade devida aos caprichos da moda. Pode-se entender como uma morte colorida, desde que o agente estava em um corante denominado Verde de Scheele.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é post-verde-assassino.jpgProvando vestido em Verde de Scheele, pronta para morrer.

Coube ao químico Carl Wilhelm Scheele(1), em 1775, a invenção do pigmento*, às vezes dito como verde-esmeralda. Resulta da combinação de duas substâncias venenosas, o arsênico e o cobre. A beleza apelativa da cor, logo fez com que a tornasse objeto do desejo.

No começo, usaram-na no tingimento de papéis e tecidos, sendo que, na prática, diminuiu enormemente o uso de um corante mais antigo, praticamente inofensivo, à base de carbonato de cobre. Como se sabe, quando há oxidação do cobre, ele se torna esverdeado. É o que se vê, por exemplo, em telhados de antigas edificações, como palácios e igrejas. — * Pigmento: substância apropriada para a coloração.

Antes de Scheele, o arsênico já tinha serventias como material mortífero mas, nem por isso, era usado com o propósito de matar gente. Às vezes, até pelo contrário, servia como medicamento ou conservante, por exemplo. Talvez aí estivesse a ilusão de que não faria mal algum (2).

Remetendo à sua antiguidade, três livros foram descobertos na biblioteca da Universidade do Sul da Dinamarca, impregnados pelo veneno. Duas são obras de história e uma biográfica, datadas de períodos que vão dos séculos XVI ao XVII. Logo em seguida, quando especialistas as examinaram, chegaram à conclusão de que o colorido esverdeado de arsênico seria uma preservação contra insetos.

De imediato, o achado remeteu ao romance O Nome da Rosa* e o livro envenenado que matava seus leitores. De fato, as teorias conspiratórias da narrativa são comprovadamente fantasiosas, pois não batem com a realidade histórica. Na verdade, a toxidade do arsênico só ficou comprovada e mais conhecida na segunda metade do século XIX. — * ECO, Umberto – “Il Nome della Rosa”, 1980.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é post-telhado-pigmento.jpgVerde inofensivo na Ópera de Paris. / Antigo pigmento à base de cobre.

MORTE IMPERIAL

Por outro lado e relembrando o imperador Napoleão Bonaparte, sabe-se que o Verde de Scheele foi sua cor favorita. Contudo, ele não tinha noção do perigo ao qual se expunha e, assim sendo, aspirou repetidamente os resíduos dos materiais onde eram aplicados, especialmente dos papéis de parede em decomposição. Tudo indica que isso pode ter se repetido e com maior intensidade, quando foi enviado para o exílio, em 1815, na Ilha de Santa Helena*. — * Napoleão viveu entre 1769 e 1821. / Ilha de Santa Helena, no Atlântico sul, no meio do oceano.

Durante o período de confinamento, Napoleão habitou um quarto luxuoso pintado e decorado com o tal verde. Por isso, especula-se, ali teria desenvolvido um câncer no estômago ou, na melhor das hipóteses, algumas úlceras. Dando força a essa hipótese, mais tarde, ao analisarem amostras de seus cabelos, neles encontraram expressivas quantidades de arsênico. Há o entendimento de que os papéis, ao absorverem umidade, ficavam sujeitos a uma reação química com desprendimento de gases de arsênico no ar.

Quando foram publicados os diários privados do criado de Napoleão, na década de 1950, tornou-se possível compreender os últimos dias do imperador. Quanto ao envenenamento, desde de 1821 e pouco a pouco, foram sendo admitidos 31 sintomas. Em 1961, a partir dessa referência, o sueco Sten Forshufvud* diz ter encontrado provas irrefutáveis do envenenamento, confirmando 28 possibilidades. — * Dentista, médico e toxicólogo.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é post-npoleacc83o-verde.jpgNapoleão e o assassino, também dito como Verde-esmeralda ou Verde de Paris.

AVANÇO DO VERDE

Mas não parou por aí. Em 1814, os químicos Russ e Sattler**, desenvolveram para uma empresa de Scheweinfurt*, na Alemanha, um Verde de Scheele aperfeiçoado, porém com a mesma toxidade. Esse pigmento ficou conhecido como Verde de Scheweinfurt. Além do mais, possuía utilidade como raticida e inseticida. Tanto um como outro, também eram ditos como Verde-esmeralda ou Verde de Paris. — * Friedrich Wilhelm Russ & Johann Christian Wilhelm Sattler. / ** Na região da Baviera. 

Entretanto, apesar do exacerbado consumo, já ocorriam alertas contra tais pigmentos. Em 1927, um técnico dos cursos da Faculdade de Medicina de Paris, o senhor J. P. Barruel, foi encarregado de examinar alguns bombons coloridos de verde, preparados por um confeiteiro da cidade. No seu exame, constatou-se que as guloseimas deviam sua aparência ao arsenito de cobre*. Ocorreram, então, visitas pelas autoridades de saúde, quando os bombons foram condenados e destruídos. Logo após, foram proibidas as preparações alimentícias com a substância tóxica. — * Cobre + arsênico = Verde de Scheele ou de Scheweinfurt.

Contudo, o alerta sobre os bombons não repercutiu a contento, como mostra uma notícia de 20 anos depois. A Gazeta Médica da Bélgica(3), de 11 de julho 1847, deu a seguinte notícia:

“Uma criança de seis anos faleceu dias atrás, depois de comer bombons coloridos de verde. Na mesma época, outra criança esteve em perigo.”

De fato, tantos foram os impulsionadores desses pigmentos-venenos, que eles se popularizaram, de modo a colorir um mundo de coisas, especialmente os vestuários femininos, como também papéis de parede, pinturas, velas, flores artificiais e, até mesmo, brinquedos infantis. Quanto aos papéis de parede, suas vendas já haviam disparado desde 1830 e chegando a somas altíssimas nos anos que ainda viriam. Embora inúmeras vozes insistissem na condenação do Verde de Paris, nem por isso diminuiu o seu consumo. Em 1859, o doutor Beaugrand, da Faculdade de Medicina de Paris, escreveu(4) sobre o assunto:

“ • Efeitos maléficos de casas pintadas com o arsenito de cobre, pelo dr. Basedow, da cidade de Merseburg* – O autor publicou, em 1846, um ensaio sobre o assunto. Em setembro de 1847, em consequência de um memorial de sua autoria, o governo proibiu a aplicação dessa cor em artesanatos suspensos, feitos de papel e pinturas de paredes, sob pena de multa […] — * Na Alemanha. 

Entre os médicos que foram consultados, o dr. Schmidt, da cidade de Rossla*, aparece como o que reconhece essas emanações e seus efeitos perniciosos. […] segundo ele, em dores pseudo-reumáticas […] — * Na Alemanha.

Além dos casos comunicados pelos médicos distritais, o autor anexou uma relação de casos observados por ele próprio, como provas de que, pelo emprego do verde de arsênico, causando envenenamentos diariamente, os quais aumentam à medida que são usados, não somente em artesanatos de papel, mas também em pinturas de paredes, tapetes, toalhas de mesa, varandas, cortinas de janelas, telas, pratos de folha de Flandres, cestos de frutas, açucareiros, artigos infantis, etc. Sem se esquecer dos mais variados itens de vestuário. […] Ainda mais, segundo o farmacêutico sr. Jonas, […] quando se acendem velas coloridas de verde, a habitação fica por inteiro repleta de vapores de arsênico.”

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é post-lesocc83es.jpgLesões provocadas pelo verde de arsênico.

Mais um exemplo vem de 1858, quando o doutor Hutin, médico de Paris, foi consultado por uma mulher acometida por uma leve conjuntivite e uma erupção disseminada nos lábios. Depois de várias investigações, ele se convenceu de que os malefícios teriam sido causados por um tecido em verde, com o qual confeccionara um vestido. O problema se originara durante o manuseio, quando resíduos do material haviam se desprendido, de modo a provocar as lesões.

Ainda em 1858, no British Medical Journal, foi publicada uma notícia sobre o mesmo tema:

“Arsênico em Papéis de Pendurar – O dr. Alfred Taylor, muniu-se de evidências antes da reunião do Select Committee of the House of Lords – última sessão – no Relatório de Vendas de Venenos, para apontar que o arsênico era muito usado em diversas manufaturas, como as de vidros, especialmente a de vidro opalino, com jateamento para a maceração granular e, também, ao borrifar moscas de ovelhas. Afirmou que a grande quantidade de arsênico usada neste país é prevalente na manufatura de papéis de parede. Assim sendo, considerou ambos – vidros e papéis – muito prejudiciais aos que habitam casas decoradas com esses itens, bem como àqueles que trabalham nas manufaturas.

Num trabalho médico, publicou-se sobre alguns casos de doenças, os quais ocorrem em pessoas que habitam cômodos preparados com esse papel. As consequências foram descritas, tais como aquelas que surgem do arsênico. A cor, diz o dr. Taylor, que é aplicada com desleixo, contém cerca de 50% de veneno. Acrescentando ao que foi dito acima, o dr. Taylor colocou em mãos do comitê, dentro de um envelope, o pigmento verde, o qual foi examinado. Tratava-se do arsenito de cobre. Havia, também, um pigmento amarelo-laranja, que continha arsênico.” — Em 09.01.1858.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é post-costurando-verde-1.jpg“Mulher bordando” (Georg Friedrich Kersting, 1817).

De outra feita, no periódico inglês Punch*, numa charge humorística, criticou-se a “Valsa do Arsênico, a nova dança da morte”.  Na época, havia se propagado um deboche sobre a mulher de vestido verde, dizendo: “em suas saias, carrega veneno suficiente para matar os admiradores, todos que possa encontrar em meia dúzia de salões de baile.” — * Em 08.02.1862.

O século XIX, de fato, serviu como palco para o advento do consumismo, quando a emergente classe média aderiu às modas e às compras desenfreadas. Naqueles tempos da rainha Vitória, as mulheres passaram a se orientar pelos propagandistas das novidades. Nesse sentido, várias publicações informavam sobre os últimos tecidos, desenhos e cores, entre eles os coloridos com o Verde de Paris.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é post-punch.jpg Legenda: “Valsa do Arsênico, a nova dança da morte”. (Punch, 1862).

Outro influenciador do uso do verde assassino foi William Morris(5), desde que participou do movimento artístico britânico Arts & Crafts*. Paralelamente, ele exercia um papel de destaque na política, em prol do movimento socialista marxista. Para tanto, agia contra o capitalismo ao lutar pela revitalização dos métodos tradicionais de produção. — * Arts & Crafts: Artes & Artesanatos

Contudo, em certo momento de 1861, e contrariando seu roteiro político, deu uma guinada ao fundar uma indústria. Nela produziria uma série de itens de mobiliário e acessórios em Verde de Scheele. Se boas foram suas intenções, os resultados foram contraditórios e devastadores, pois fez crescer o rol de pessoas envenenadas.

Nessa mesma época, 1861, houve um fato lamentável: Matilda Scheurer – 19 anos de idade –, operária em fábrica de flores artificiais adoeceu. Seu trabalho era o de polvilhar flores com o luminoso pó verde de arsênico. Deu-se então que, ao passar dos dias, foi acometida de convulsões, ao mesmo tempo em que vomitava e expelia espuma pela boca. Pouco a pouco, foi sendo levada a uma morte dolorosa e sombria. Quando realizaram a autópsia, encontraram arsênico no estômago da falecida, fígado e pulmões(6).

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é post-verde-van-gogh-verde-1.jpgVan Gogh em autoretrato. / “Trigo verde com cipreste” (Van Gogh, 1889).

Nessa história colorida, porém trágica, não poderiam faltar os pintores. Pois o Verde de Paris adentrou no século XX pelas mãos dos impressionistas e com muito entusiasmo. Quem abusou desse verde foi Vincent Van Gogh, como no auto-retrato, de 1888, dedicado ao pintor e amigo Paul Gauguin.

Como se sabe, os pintores usavam tintas em tubos mas, às vezes, eles próprios preparavam as tintas, misturando os pigmentos com óleo de linhaça e um secante. Assim sendo, fosse mais ou fosse menos, pode-se acreditar que Van Gogh se lambuzava de arsênico ao realizar seus trabalhos. O mesmo verde foi usado também por Paul Cézane, Georges Seurat e Édouard Manet. 

Em 1903, o governo britânico aprovou um projeto abolindo a produção de alimentos que contivessem arsênico. Paralelamente, os consumidores foram, pouco a pouco, desistindo do consumo de produtos em verde. Isso afetou, sobremaneira, os artigos de vestuário feminino, fazendo com que o verde saísse da moda.

Essa imagem tem um atributo alt vazio; o nome do arquivo é post-latas-arsecc82nico.jpgParis Green em três versões.

Apesar de tantas mortes, mas ainda com entusiasmo pelo Verde de Paris, várias empresas passaram investir na sua produção, mas como agrotóxico. A pioneira foi a Lewis Berger & Sons, fundada em 1760, que já fornecia variada gama de pigmentos e tintas.  Mais adiante, a Sherwin-Williams, fundada em 1866, investiu pesado na produção como agrotóxico. O rótulo do produto dizia: “Completamente puro, Paris Green – Veneno – Algodão, Batata, Fumo” [ Strictly pure, Paris Green – Poison – Cotton, Potato, Tobacco ].

Durante o século XX, ainda foram muito usados esses venenos, com os mais variados propósitos. Mesmo assim, as donas de casa sempre tinham uma latinha disponível, para matar ratos. Também, costumava ser usado com outras intenções, tanto a do cometimento de um assassinato, quanto a de um suicídio.

CHUMBO ASSASSINO

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é post-van-gogh-orelha.jpg

Até outro dia, mais um elemento altamente tóxico permaneceu em uso na preparação de tintas, o chumbo. Van Gogh, que já possuía fragilidades de ordem mental, foi envenenado por tintas contendo chumbo. Eram o Branco de Chumbo (carbonato de chumbo) e o Amarelo de Cromo (cromato de chumbo). Tal como aconteceu com o pintor, quem os usava corria o risco de ser acometido de saturnismo(7). Os alquimistas denominavam o chumbo como saturnus, em latim.

← Van Gogh de orelha cortada: autorretrato.

Dizem que Michelangelo, Caravaggio e Goya, entre outros, foram acometidos por alguma forma de envenenamento por chumbo. O pintor brasileiro, Cândido Portinari, ao final da vida, manifestou envenenamento pelo chumbo do Amarelo de Cromo. Quando alguém lhe alertou sobre sobre os perigos da tinta, retrucou: “- Estão me impedindo de viver”. E com essa teimosia foi em frente, sendo que o chumbo deve ter sido a causa fundamental da sua morte. Os sintomas vão desde dores estomacais, arrotos, artrite e uma série de afecções neurológicas. Nelas se incluem depressão e delírios. Van Gogh, na fase que o levou ao internamento em hospício, pintou belíssimos quadros. Outro evento trágico ocorreu-lhe, em 1888, quando cortou a própria orelha com uma navalha.

Tradução, texto e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

——

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é post-scheele.jpg(1) SCHEELE, Carl Wilhelm – (Stralsund, *09.12.1742 / Köping, †21.05.1786) Farmacêutico e químico. A cidade onde nasceu, na Alemanha, na época era uma província Sueca. / Foi o descobridor de muitos elementos químicos, entre eles o oxigênio. Como muitos químicos da sua época, Scheele frequentemente lidava com venenos e isso explica sua morte prematura, devida à queda e rompimento de um vidro contendo ácido cianídrico (HCN). Esse composto, que ele mesmo descobriu, foi usado para execução de condenados à pena de morte, nos Estados Unidos. Há, também, a versão de que sua morte foi por envenenamento pelo mercúrio.

(2) O arsênico é conhecido desde tempos muito antigos. Plínio (*23 ou 24 / †79 d.C.) e Dioscórides (*40/ †90 d.C) conheciam suas propriedades. Celso Aureliano, Galeno e Isidoro Largus conheciam seus efeitos irritantes, tóxicos e corrosivos, e sua ação anti-parasitária. Além disso, lhe atribuíram virtudes contra a tosse, afeções da voz e dispneia. Os médicos árabes usaram-no em compostos para inalação, pílulas e poções, como também em aplicações externas. / Quem primeiro estudou o arsênico, em detalhes, foi George Brandt, em 1633. A partir do século XVIII, os compostos de arsênico se disseminaram na terapêutica, até serem substituídos pelas sulfonamidas e os antibióticos. / Recentemente, renovou-se o interesse pelas propriedades medicamentosas do arsênico, principalmente como trióxido de arsénico, para o tratamento de pacientes com leucemia. // Também é aplicado como conservante de couro e madeira. Como arseneto de gálio, é empregado em circuitos integrados. E, ainda, como aditivo em ligas metálicas de chumbo e latão, inseticida, herbicidas e venenos. / Na pirotécnica, o dissulfeto de arsénico é usado como pigmento. Etc.

(3) Fonte: CHEVALLIER, Alphonse – “Recherches sur les dangers que présentent le vert de Scheweinfurt”, 1859, p. 10.

(4) BEAUGRAND, Louis Émile – Médico. (Paris, *1809 / †21.10.1875) // Fonte do informe: “Bibliotek for laeger” [“Biblioteca para leigos”, em dinamarquês], 1846, n. 10, p. 226.

(5) MORRIS, William – (Walthamstow, Inglaterra, *24.03.1834 / Hammersmith, Inglaterra, †03.10.1896) Designer têxtil, poeta, romancista, tradutor e ativista de movimento socialista.

(6) “National Geographic”, Killer Clothing Was All the Rage In the 19th Century, 17.10.2016.

(7) Saturnismo / Saturno – Na alquimia, se relacionava o chumbo com saturno, não apenas porque se acreditava que esse metal era o mais velho, mas porque seria o pai de todos. Ademais, porque viam-no como o mais frio. Por outro lado, Sal de Saturno ou Açúcar de Saturno, eram os nomes que davam ao acetato neutro de chumbo. O antigo símbolo químico do chumbo era um S (maiúsculo). Atualmente, representam-no por Pb, de plumbum (em latim; é o termo principal). / Na astrologia, Saturno é considerado um planeta frio, do mal, inimigo da natureza humana e das outras criaturas.

 

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