Sumidoiro's Blog

01/02/2018

POUCO MAIS QUE UM SONHO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:17 am

♦ O nascimento de Nova Friburgo

Ao final de novembro de 1807, d. João VI e a família real portuguesa fugiram de Lisboa para o Brasil, escapando do exército de Napoleão. No ano de 1815, ocorreu a queda definitiva do imperador da França, seguida de um período de misérias. Até que, com o advento do Liberalismo Econômico e a Revolução Industrial, as nações mais fortes passaram a se reestruturar. Contudo, esse progresso passou a gerar nefastas consequências. Na Inglaterra, enquanto crescia a produção de máquinas, diminuía a demanda por mão-de-obra. A crise afetou, principalmente, os países que não se adaptaram à nova economia. Isso provocou ondas de emigração para as Américas.

Em 1818, o suíço Sébastien-Nicolas Gachet pediu ao rei d. João VI que recebesse colonos do cantão de Friburgo, Valais e Vaud. A demanda(1) foi aceita, acordada e compromissada por ambas as partes.

Vulcão Tambora (em Sumbawa – Indonésia), longínquo e devastador.

Para a emigração, contribuiu a erupção de um vulcão da Indonésia, o Tambora(2), ocorrida no dia 10 de abril de 1815. Com isso, houve terríveis consequências no clima, durante dois anos: chuva, frio arrepiante e verão inclemente. Vastas regiões do planeta foram atingidas, especialmente a Suíça e até mais longe, como a costa leste dos Estados Unidos. Em todas houve perda de lavouras e fome. A explosão do Tambora foi muito superior à do Vesúvio, ocorrida em Pompeia, no ano 77. 

Partindo de Estavayer-le-Lac (cantão de Friburgo), em busca do paraíso.

CHANT DU DEPART
Allons dans le Brèsil vivre gais et contents!
Quittons notre patrie, nos amis, nos parents!
Faisons à notre Suisse nos adieux sans retour;
Allons dans le Brèsil pour y finir nos jours!*

* CANTO DA PARTIDA | Vamos ao Brasil, viver alegres e contentes! – Deixamos nossa pátria, nossos amigos, nossos parentes! – Fazemos, à nossa Suíça, nosso adeus sem retorno; – Vamos ao Brasil, para lá terminar nossos dias! – etc.

1819-1820 — PARTIDA DOS PRIMEIROS COLONOS 

Relato do padre Jacques Joye, embarcado no navio Urania. — Vigário, desde 1813, de Siviriez, comuna do cantão de Fribourg (Friburgo), distrito de Glâne.

POst - No domingo, 4 de julho de 1819, nós emigrantes oriundos de Friburgo(3), Valais e Vaud, passageiros do primeiro comboio da viagem à colônia de Nova Friburgo, deixamos o porto de Estavayer*. Ao meio-dia e ao som de tiros de canhão, recebemos a bênção do bispo de Lausanne, que viera às margens do lago acompanhado por seu clero. Enorme multidão de parentes e espectadores acorreram ao porto. Eram três barcos grandes e um pequeno adicional, que só foram partir às 7 horas da noite, transportando cerca de 1.100 colonos até a cidade de Soleura. Contudo, como não havia vento, só conseguimos chegar lá na terça-feira à noite**. — * Estavayer-le-Lac, no lago de Neuchâtel. / ** Terceiro dia de viagem.

Estavayer-le-Lac, no lago de Neuchâtel, cantão de Friburgo.

No mesmo dia da partida, desembarcamos na ponte de Thielle*, que fica numa das extremidades de Neuchâtel. Se não fosse perigoso passar pela ponte à noite, teríamos ido em frente. — * Na Velha Thielle.

No dia seguinte, atravessamos o lago de Bienna, com uma breve parada em Nidau, e fomos dormir em Brugg, uma pequena aldeia, 2 léguas abaixo. Nossa intenção seria naturalmente ir mais longe, mas uma tempestade terrível nos forçou pousar em meio a trovoadas, relâmpagos, granizo e chuva torrencial. Foi um espetáculo muito triste, ao ver os colonos, homens, mulheres e crianças, molhados até os ossos, sem casas para passar a noite, senão estábulos e galpões. — Da Velha Thielle, foram em direção a Bienna, até chegarem ao rio Aar e, depois, a Soleura.

Ille de Saint Pierre, no lago de Bienna.

Na travessia do lago de Bienna, visitamos a encantadora ilha de Saint-Pierre. É um pequeno paraíso terrestre e não me causa surpresa que Jean-Jacques Rousseau* a tenha deixado com tanto pesar. Tratamos de ver o quarto antes ocupado por ele e nos divertimos lendo toda sorte de inscrições que cobrem as paredes. — * Rousseau: filósofo, teórico político, escritor e compositor.

Na manhã do dia 6, entramos em Aar e, à tarde, pousamos em Soleura. Soaram gritos de alegria, misturados ao barulho de um canhão.

No dia 8, partimos de Soleura em seis barcos de fundo chato, para dormir em Bruck, no cantão da Argóvia, e, no dia seguinte, em Basileia. Em Soleura, visitamos a igreja do Saints Ours et Victor e o célebre eremitério de Sainte-Vérène, próximo da cidade. A 6 léguas dali, vimos o castelo de Aarburg – abaixo de Olten, e, mais adiante, junto à cidade de Aarau (ainda na Suíça), o castelo de Lenzburg, na margem direita do rio Aar. Em seguida, passamos pela cidade de Waldshut ( na Alemanha), a pouca distância d’onde o rio deságua no Reno.

Retomamos a viagem rio abaixo pelo Reno, em direção a Lauffenbourg, ali onde ele entra em queda, fazendo a água produzir espuma, por entre grandes blocos de granito. Por isso, era obrigatório que viajantes descarregassem completamente os barcos, quando eram puxados por cordas.

Chegamos no dia 9 em Basileia e partimos na manhã do dia 13, em seis barcos cobertos com pranchas, e mais outros dois não cobertos. No primeiro, havia fogões onde os colonos podiam preparar suas refeições. Os outros receberam coberturas apenas em Mogúncia, mas eram telas muito precárias. Usando alguns tijolos, os passageiros puderam acender um fogo. Nessas condições adversas, sofreram mais que o pessoal dos primeiros barcos.

No dia 13, dormimos em Vieux-Brisach, no grão-ducado de Bade, a 14 léguas de Basileia e outras tantas de Estrasburgo. Essa pequena cidade, que sofreu muito nas últimas guerras, está situada numa colina e oferece uma visão deliciosa das duas margens do Reno.

Post - StrasbourgEtrasburgo, às margens do Reno, vista dos arrabaldes (por H. Bacher – c. 1800).

No dia 14, chegamos a Kehl, onde aguardamos a chegada dos outros barcos. Por estar Strasbourg a apenas 1 légua de distância de Kehl, a curiosidade me levou a visitar essa bela cidade. Ali pude admirar a magnífica catedral, cuja torre é acessada por 658 degraus, a qual tem pelo menos 500 pés* de altura. Seu grande sino tem 7 pés de diâmetro e 8 de altura. Encontrei, na igreja de Saint-Thomas, o magnífico mausoléu do marechal de Saxe, iniciado por Luís XV e terminado por Luís XVI. Dizem que custou 3 milhões. — * 1 pé = 0,3048 metro.

No dia 16 de julho, retomamos nossa jornada para pousar em Port-Louis, no território francês, onde fomos obrigados a acampar. Tão logo pusemos os pés em terra, às margens do Reno, batizei uma criança ao ar livre, que recebeu o nome de Bonaventure.

No dia 17, chegamos a Germesheim, na Baviera. Na manhã seguinte, celebrei a Santa Missa ao ar livre. Passamos pelas cidades de Philipsburg e Spire, e alcançamos no mesmo dia Mannheim, cidade encantadora pelos seus arredores e uniformidade do traçado.

No dia 19, acampamos perto da aldeia de Stuckstadt, no grão-ducado de Hesse-Darmstadt. Em vão andei por toda parte para encontrar abrigo e obter algo para comer. Tal era a falta de hospitalidade dos seus habitantes que, invariavelmente, diziam estar proibidos a nos conceder qualquer coisa. Chegaram até a ameaçar e percebi que, caso insistíssemos demais, corríamos o risco de ser espancados.

No dia seguinte (dia 20), dormimos em Mogúncia, onde nossa gente cuidou de fazer um bom suprimento de famosos presuntos que, no entanto, não são melhores que os friburguenses. No momento em que desembarcávamos, uma banda militar austríaca tocava belos arranjos. Ficamos encantados com a surpresa e ouvimos com prazer.

Nos dias seguintes, nada ocorreu de extraordinário. No dia 21, dormimos em Boppard; dia 22, em Andernach, na Prússia*; dia 23, em Colônia, uma grande cidade, não muito bem construída; dia 24, em Himmelgert, pequena aldeia na margem direita do Reno, onde quase acampamos. — * Prússia: na época, antigo reino, que foi dissolvido durante a Revolução Alemã, de 1818-19.

No 25 de julho, domingo, chegamos em Düsseldorf, cidade prussiana, onde celebrei uma missa cantada na igreja paroquial, para grande espanto dos habitantes. À noite, fomos dormir em Wesel, a última cidade da Prússia, nas fronteiras da Holanda.

Dia 26, no momento da partida, três colonos caíram nas do águas Reno. Mas, graças a Deus, foram prontamente resgatados. À noite, bem como no dia e noite seguintes, fomos obrigados a acampar em Lobith, primeira alfândega dos Países Baixos. Nossa parada nesse lugar foi ocasionada pelo afastamento de nossos representantes, que tiveram que ir até Arnheim, onde obteriam as franquias de pedágios no território holandês, de modo que pudéssemos ficar isentos de revista rigorosa, a qual ameaçava nos reter ali por vários dias.

No dia 28 de julho, depois de deixar o Reno e navegar pelo Waal, dormimos em Nimègue, uma bonita cidade situada em uma colina, na margem esquerda desse rio e terra natal do venerável sacerdote Pierre Canisius*. — * Ou Pieter Kanis: sacerdote jesuíta que lutou contra a disseminação do protestantismo.

Acampamento em Mijl, de julho a setembro (por Isaak Schouman).

No dia 29, chegamos em Dordrecht* e, no dia 30, no lugarejo de Myll, um quarto de légua ao sul, onde deveríamos permanecer aguardando novo embarque em s’Gravendeel, ou seja, até 12 de setembro (total = 44 dias). A longa permanência nesse lugar tornou-se muito perniciosa para a saúde dos colonos. Alguns foram obrigados a acampar nas margens do rio, outros a dormir em carroças, celeiros ou galpões molhados, onde foram contaminados com o germe de uma febre intermitente**, que veio a causar grande mortalidade no mar. — * Dordrecht, cidade ao lado do rio Thure, construída no meio de um pântano. / ** Certamente malária, uma doença até então mal conhecida.

Durante a minha estada em Dordrecht, fui quatro ou cinco vezes a Roterdã, que está a apenas 4 léguas, para tratar dos assuntos dos colonos. Mas foi somente no dia 24 de agosto que consegui realizar o desejo de visitar Amsterdã. Convidei o senhor Thorin para que me acompanhasse e ele aceitou. Imediatamente, tomamos a carruagem para Roterdã e, 2 horas depois, o barco para Delft, onde chegamos às 10 horas da noite.

Delft é uma cidade de 13 mil habitantes. No dia seguinte, ao amanhecer, tratamos de visitar as principais curiosidades, entre elas, na Église Neuve, o magnífico monumento de mármore de Guillaume-le-Taciturne*. De Delft fomos a Haia. Contudo, não tivemos a sorte de encontrar a senhorita Replar, conforme recomendação do senhor Thorin, mas um secretário nos levou a um parente dela, senhor Moeurs, que foi bastante gentil ao nos dar cartas de recomendação para Amsterdã, as quais foram de muita utilidade para nós. — * Guilherme I, príncipe de Orange, libertador dos Países Baixos.

O mesmo servidor nos serviu de guia, mostrando o que é mais interessante em Haia, o palácio real, entre outros, habitado anteriormente por Louis Napoléon*. Achamos seu interior muito bonito, mas sem o necessário luxo. Não pudemos ver o interior do palácio do atual rei, porque estava em grande reforma. — * Ou Luís Napoleão Bonaparte, príncipe francês e rei da Holanda.

Embora fosse véspera da longa viagem, estávamos curiosos para conhecer o oceano. Então, nos dirigimos a Scheveningen, onde nos deparamos com um promontório retilíneo, agradavelmente sombreado. Na praia, vimos uma centena de barcos de pesca e visitantes que tomavam banho junto a carruagens, o que nos divertiu muito. Relembro que Haia é o lugar mais alegre da Holanda, pela beleza dos edifícios, praças públicas e avenidas. Há um parque encantador perto da cidade, onde sempre se vê uma multidão de caminhantes.

Na parte da tarde, passamos em Leyde, cidade com cerca de 28 mil habitantes, bastante bonita, mas não muito viva. Às 9 horas da noite, partimos para Amsterdã, em um pequeno barco puxado da terra por um cavalo, que é o modo de se locomover nos canais da Holanda. Chegamos ao destino na manhã seguinte, às 6 horas.

Amesterdam é uma cidade muito bonita e populosa, com 140 mil habitantes e extremamente animada. Lá, tendo dinheiro, você pode encontrar tudo que quiser. Visitamos o interior do palácio real, a sala do trono e a torre, sendo que, da sua cúpula, vê-se toda a cidade com suas numerosas ruas e canais. Possui trinta e seis torres de sino, formando um encantador carrilhão. De lá, passamos pelo arsenal e, depois, pelos estaleiros, onde vimos cerca de dez grandes navios de guerra em construção.

O arsenal guarda miniaturas de todo tipo de navios, antigos e modernos, e uma grande quantidade de memórias históricas. O magnífico e imenso porto de Amsterdã, que visitamos depois, aparenta possuir uns mil edifícios. Apenas um dia permanecemos nessa cidade, tempo demasiado breve, mas a percorremos por todo lado, antes das 7 horas da noite, quando partimos.

Embarcamos na carruagem noturna, que foi nos deixar em Gouda, no dia 26, às 6 horas da manhã, cidade onde se fabricam cachimbos de cerâmica. Depois, tomamos a diligência para Roterdã, onde alugamos um pequeno barco para ir a Dordrecht e chegamos às 2 horas da tarde. Estávamos muito felizes, por ter feito uma excursão tão agradável e em tempo tão curto.

← Biscuit du Havre (biscoito do Havre), 1784.

A longa permanência(4) em Dordrecht foi tumultuada, devido a atrasos e incontáveis dificuldades burocráticas. No momento em que nosso navio se preparava para deixar o porto, sobreveio um impedimento à partida, o que fez com que o senhor Gachet(5) distribuísse entre os colonos uma ração de biscuits du Havre (vide destaque ao final do Post [!]). Isso ocorreu logo após um terrível furacão destruir as lavouras em certas regiões, lançando as sementes pelos ares. Somente no dia 11 de setembro zarpou o Daphnée, um dos sete navios* dos colonos, no dia seguinte, o Urania e o Debby Elisa.

O OCEANO

Em 12 de setembro de 1819 (domingo), cerca de 6 horas da manhã, o meu navio, o Urania, com 437 colonos de todas as idades e sexos, deixou o porto de s’Gravendeel, em Roterdã, com vento favorável para navegar pelo Meuse*. A 5 léguas dali, antes de entrar no mar, ancorou para abastecimento de água potável. — * La Meuse (Mosa, em Português): rio que, como o Reno, deságua em Roterdã.

À tarde, visitei os doentes com o oficial de saúde de bordo, senhor Provos-Duhamel, quando percebemos uma série de colonos indispostos, devido à nossa longa permanência nos baixios pantanosos da Holanda. No entanto, o único cuja condição oferecia algum risco era François Butty*, da cidade de Mézierès. Infelizmente, por volta das 9 horas da noite, tive que lhe administrar o santíssimo sacramento da extrema unção. E foi com dificuldade, pois é complicado ungir pacientes quando se encontram acamados, especialmente devido à desconfortável posição em que ficamos, ao entrar em cômodos apertados. — * Idade: 44 anos.

Na manhã do dia 13, com o vento mais favorável, levantamos âncora e continuamos nossa jornada. Após a oração da manhã que, como a da noite era sempre em comum, cuidei de dar o destino final ao corpo do pequeno Pierre*, filho de Jaques Perrier, de Vuisternens, que morreu consumido. Os procedimentos para enterro no mar são modestos: um sudário e uma pequena sacola de areia amarrada aos pés, e isso é tudo. Fiz no convés as cerimônias litúrgicas habituais. Logo em seguida, atendendo a um sinal, o pequeno cadáver foi jogado no mar, logo desaparecendo. — * Idade: 1 ano.

Lançamento de falecido ao mar. 

A triste cerimônia foi repetida na noite do mesmo dia, com o já citado François Butty, que sucumbiu tomado por uma febre atáxica*. Ele foi lançado ao mar da mesma maneira que o anterior. Na cerimônia, o corpo foi conduzido à borda do navio, sobre uma prancha côncava. Tão logo ergueram uma das extremidades, o corpo deslizou em direção ao mar e foi tragado pelas ondas. Assim, tivemos duas mortes antes de adentrar no oceano Atlântico! E essas foram apenas amostras das perdas que viriam, cujo número total depois indicarei. — * Febre atáxica: febre convulsiva.

À tarde, lançamos âncora diante de Hellevoetsluis*. O capitão foi à terra para pegar um passageiro e substituir o piloto. Depois de 2 horas de parada, passamos a navegar novamente, embora com atraso. Antes de atingir o Atlântico, enfrentamos passagens perigosas entre bancos de areia. Servindo como alerta, há muitos barris enfileirados mas, infelizmente, entrou a noite e nosso piloto não conseguiu mais reconhecer os sinais. Assim, corríamos grande risco de encalhar, pois a sonda mostrou apenas 15 pés de água e o navio tinha 14 de calado. Mas conseguimos ir em frente, graças a Deus, sem acidente. — * Hellevoetsluis: a sudoeste de Roterdã.

De fato, aquele piloto foi muito imprudente em nos expor à sorte. Também, devido à sua inabilidade e a confusão instalada a bordo, foi esquecido pelas pessoas encarregadas de o levar de volta à terra. Então, quando o navio partiu, continuou conosco, até que encontramos uma embarcação de pescadores, vindos de Dover. Acenamos para eles e fomos correspondidos, sendo que, daí a pouco, um pequeno barco o recolheu, para que fosse levado de volta ao porto de origem. Imagino que, para reencontrar seus companheiros, o pobre diabo deve ter percorrido mais de 100 léguas.

Na noite do dia 13, quando adentramos no oceano, sentimos o forte balanço do navio, que ocasionou um malsinado enjoo marítimo em muitos passageiros. Naquele momento, nossa gente passou a encenar um espetáculo muito triste. Foram ouvidos muitos gritos, queixumes e gemidos. Aqueles que cuidaram de acudir algum companheiro, daí a pouco precisaram ser amparados. Mais assustados teriam ficado se não tivessem sido prevenidos dos riscos da viagem. Apesar de tudo, um deles teve a imprudência de dizer que aquilo não mais ocorreria, mas as mesmas cenas se repetiram, sem interrupção, por uma dúzia de dias. De minha parte, graças à minha excelente disposição, permaneci livre desse mal.

No dia 15 de setembro, antes do nascer do sol, entramos no canal da Mancha*, mas não pudemos ver Dover, nem Calais. Contudo, durante o dia, o vento nordeste nos permitiu aproximar da Inglaterra e vimos a costa mais próxima de Londres. À tarde, durante algum tempo, tivemos de enfrentar vento contrário. À noite, passamos pelas imediações da ilha de Wight. — * Chanel de la Manche: a tradução correta deveria ser Canal da Manga, porque “manche”, em francês, é manga. O canal assemelha-se à manga de um paletó.

Roteiro para o Rio de Janeiro, partindo de Estavayer-le-Lac (em mapas atuais).

No dia 16, pela manhã, os ventos tornaram-se novamente favoráveis. Mas, como eram muito fortes e acompanhados de chuva, novamente o navio balançou, provocando mais enjoo em vários colonos. No mesmo dia, passamos nas imediações de Cherbourg (à esquerda do viajante, na costa da França) e Portsmouth (à direita, na costa da Inglaterra), mas muito mais perto deste último ponto.

No dia 17, os ventos e a agitação do mar permaneceram, bem como os sofrimentos dos colonos, que continuavam a manifestar terrível mal-estar. Vimos terra pela última vez, quando passamos por Bolthead, no condado de Devonshire, a cerca de 10 léguas de Plymouth.

No dia 18, havia oito pessoas com febre atáxica (febre nervosa). O número de doentes aumentou de forma assustadora e me lembro de pelo menos cinco mortes naquele dia.

No dia 19, durante a noite, o sacolejo do navio tornou-se muito violento. Foi derrubado tudo que não estivesse firmemente preso. Vimos latas, tigelas e garrafas, tilintando e rolando por todos os lados. Os próprios passageiros tiveram dificuldade de permanecer em suas camas. Chegada a manhã, em vez do vento diminuir, tornou-se ainda mais violento.

Às 3:30 horas, ouvimos um barulho terrível. Vinha do mastro principal que caíra no convés, depois de se quebrar. Imediatamente foi dada a ordem de desatar as cordas e as demais velas que ainda se mantinham suspensas. Logo depois, entrei no quarto do capitão. Tudo estava em terrível desordem: uma garrafa de xarope de goma rolara de uma prateleira e o conteúdo ficou espalhado pelo chão. O mesmo se repetira com uma cesta de ovos. Cevada, vinho, livros e papel estavam por todo lado. Em meio àquela terrível bagunça, era difícil saber onde pisar.

Mas, embora o espetáculo não tivesse graça, ao contemplá-lo não contivemos o riso. No entanto, o acidente acabou por causar um atraso considerável. De fato, devido à agitação do mar e os reparos necessários, somente após quatro dias foi possível reerguer o mastro. Entenda-se, em um navio continuamente agitado, não é fácil restaurar uma peça com mais de 80 pés de altura.

No dia 20 de setembro, estávamos na altura do Cabo Finisterra*. — * Situado na costa noroeste da Espanha.

No dia 21, na latitude de 13o e longitude 43o.

No dia 22, ocorreram duas mortes. Cerca de 4 horas da tarde, conseguimos nos aproximar de um navio que vinha de Riga e dirigia-se a Cadix. Nosso capitão Boch pediu ao capitão daquele navio que informasse a Hamburgo ter encontrado nosso Urania, em mar aberto, no 22 de setembro.

Pensei que passaria o dia 24 sem mortes, contudo foi o dia mais terrível de toda a viagem. Só na parte da tarde, sete cadáveres foram jogados ao mar. Por precaução, abri mão do cerimonial religioso, de modo a não assustar os enfermos com cantorias tristes de funeral.

No dia 25, nos encontramos frente a frente com a África, na latitude 12o e longitude 16o.

No dia 27, estávamos à latitude 33o3′e longitude 16o25′. Avistamos o Porto Santo e, logo depois, a ilha da Madeira. O capitão foi nos acordar para dar a notícia. Daí, subimos todos ao convés e sentimos enorme prazer em contemplar aquela grande massa de rochas. No dia anterior, o capitão Boch já havia nos prevenido disso e seu cálculo mostrou-se correto. Tal fato deixou-o de muito bom humor, pois a ilha era ponto essencial para lhe dar a devida direção.

← O narrador padre Jacques (ou Jacob) Joye.

Aproveito para dizer que devemos nos regozijar pela excelente conduta do querido capitão, tanto comigo, quanto com os demais colonos. Ele é um indivíduo muito humano, extremamente vigilante e exato, ou seja, um marinheiro perfeito. Os senhores oficiais de bordo, do mesmo modo, eram solícitos comigo e, posso dizer, com todos os embarcados. Com esses homens, é claro que poderíamos navegar com segurança! Nossa jornada teria sido muito mais agradável se os colonos tivessem desfrutado de melhor saúde, mas o estado de languidez e a decadência de muitos espalhou nuvens escuras, mesmo em meio aos dias mais felizes.

No dia 28, ainda não havíamos perdido de vista a ilha da Madeira, quando teve início um período de dois dias de calmaria. Em certo momento, uma brisa proveniente do sul nos forçou a navegar à deriva. Assim foi até o dia 2 de outubro, quando o vento tornou-se mais favorável. O capitão autorizou o oficial de saúde a distribuir, todos os dias, 50 litros de água doce aos doentes.

No dia 3 de outubro, dia do Rosário, estávamos na altura das Ilhas Canárias, mas só chegamos a ver a de Palma.

No dia 6 de outubro, alcançamos a latitude 24o18′ e longitude 19o55′. No dia seguinte, cerca de meio-dia, passamos pelo Trópico de Câncer e, no dia 8 de outubro, pela latitude 21o6′e longitude 21o35′. Com vento muito favorável, estávamos viajando a 9¾ milhas por hora. Naqueles dias, vimos uma grande quantidade de peixes voadores. Os marujos encontraram vários deles estendidos no convés, embora geralmente voem a apenas 5 ou 6 pés da superfície da água, pela necessidade de escapar do ataque de outros peixes, especialmente golfinhos.

No dia 11, estávamos em frente às ilhas de Cabo Verde, mas o nevoeiro não nos permitiu vê-las. Passamos por um banco de areia entre o cabo e as ilhas, à latitude 14o51′e longitude 21o13′. Naquele momento, percebemos que a água tomara uma forma totalmente diferente. Então, jogamos uma sonda, que apontou mais de 700 pés de profundidade, portanto não havia perigo a correr.

Na manhã do dia 17, vários colonos viram um tubarão seguindo o navio. À noite, vimos dois. Os marinheiros se prepararam para pescá-los. Alguns armaram-se com arpões, outros com ganchos e, logo, um tubarão de 18 meses foi capturado, vítima de sua ganância. E foi içado com grande dificuldade para o convés. Em seguida, deceparam a ponta da sua cauda e abriram-lhe a barriga.

Embora não fosse surpreendente, encontraram em seus intestinos a cabeça e outra parte do corpo de uma criancinha. Presumidamente, seria a pequena filha de Pierre-Joseph Oddin, da cidade de Mézières, que morrera na noite anterior. À vista daquele corpinho, o tenente ordenou que o jogassem inteiro de volta ao mar, para não assustar os colonos. A carne de tubarão é, sem dúvida, boa de se comer. Lembro-me que os marujos fizeram de troféu a cauda do monstro e a penduraram na popa do navio.

Até o dia 27 de outubro, a cada jornada, o número de passageiros esteve sempre a diminuir. Porém, naquela data pôde crescer, com o nascimento de Sébastienne-Elizabeth, filha de Claude-Joseph Equey, da cidade de Villariaz. Batizei-a solenemente no convés, na presença de todos os passageiros, observando ao máximo possível os ritos religiosos. Na ocasião, um quarto de litro de vinho foi oferecido a todos os colonos.

Vinte dias de calmaria precederam nossa chegada à linha do Equador. Nada poderia ser mais irritante do que ter tempo perdido. Não há como avançar, fica-se sempre empacado. Naquelas circunstâncias, os colonos foram tomados por um novo flagelo, o sentimento de nostalgia.

No dia 30 de outubro, às sete e meia horas da noite, escura e sem lua, sentado no convés, o capitão levantou-se repentinamente. Pegou seu telescópio e gritou: “- Olha! Uma coisa!” Mas, de nossa parte, demorou algum tempo até que conseguíssemos perceber um ponto negro ao longe. Contudo, na manhã seguinte, nada mais se viu. Para os colonos, a vista de um navio, mesmo à distância, era sempre um novo prazer. E isso aconteceu várias vezes.

Em 5 de novembro, nasceu e foi batizado Frederic Joseph, filho do falecido François Butty, da cidade de Mézières. Ele recebeu o nome Frederic, tal como o do capitão*, em sua homenagem. — * Frederic Boch.

No dia 6 de novembro, por volta de 8 horas da noite, a 26o de longitude, cruzamos a linha do equador. Devo destacar que, apesar da alta temperatura naquele local, em nenhum outro momento da viagem sentimos tanto calor quanto nos dois primeiros dias de viagem, ao passarmos pelos lagos de Neuchâtel e Bienna.

No dia 7, após a oração da manhã, procedeu-se à cerimônia do “batismo da linha” do Equador. Vindos da proa, apareceram no convés cinco marinheiros que representavam Netuno*, mais sua esposa e seus arqueiros. O deus mitológico, falando por uma trombeta, então perguntou de quem era o navio, seu capitão, de onde veio e para onde iria. O capitão respondeu-lhe todas as perguntas e Netuno lhe disse que o conhecia bem, e que estava acostumado com o ritual da linha do Equador. — * Netuno: deus romano do mar, inspirado no deus grego Poseidon.

Depois, fez vir o capitão substituto. Vedaram-lhe então os olhos para que o conduzissem até uma grande cuba de água, encimada por uma tábua, sobre a qual o fizeram sentar. Tendo seu rosto enegrecido com preto de Lyon*, misturado com óleo, foi barbeado com uma lâmina de ferro, dotada de um longo cabo de madeira. Em seguida, a tábua que o sustentava foi repentinamente removida e o infeliz caiu dentro do tanque. Ao mesmo tempo, um punhado de baldes d’água foram derramados sobre sua cabeça. — * Tintura preta, intensa como a que tingiam a seda na cidade de Lyon.

A mesma cerimônia foi repetida com o tenente e os demais marinheiros, todos que estavam a cruzar a linha pela primeira vez. Ao mesmo tempo, passageiros civis e sargentos em serviço recolheram algum dinheiro, para oferecer bebida no momento adequado. Apenas uns poucos deixaram de participar do evento. Em contrapartida, estiveram presentes alguns dos melhores bebedores. Algum tempo depois, os baldes de água foram despejados reciprocamente e sem distinção, em quem quer que fosse. Até o capitão deleitou-se em molhar os presentes.

Comemorando a passagem da linha do Equador (por G. Cruikshank, 1825).

Todo o convés ficou inundado. Muitas pessoas, especialmente mulheres, haviam se escondido pelos cantos. Mas, nem assim, conseguiram se livrar do banho e somente os doentes foram poupados. Se, por ventura, alguém conseguisse escapar da molhaceira, no dia seguinte certamente receberia a devida dose de água. Esse acontecimento foi por demais alegre.

Após a passagem da linha do Equador, nos divertimos pescando, visto que uma enorme quantidade de peixes esteve a seguir o navio. Tão produtiva foi a pesca, que os colonos puderam se regalar com o alimento por vários dias. De outra feita, vimos um peixe muito grande, cujo nariz terminava numa ponta em forma de espada e com uma serra na parte inferior. Ele é conhecido pelo nome de espadarte.

Em 18 de novembro, enfrentamos uma tempestade que durou quase 24 horas. À tarde, o mar estava tão agitado que uma onda bateu contra a janela do quarto do capitão e a quebrou, ficando o chão inundado. Naquele momento, o oficial de saúde estava a ler perto da janela e ficou molhado pela lâmina d’água que por ela penetrou. Mas, de qualquer forma, teve de agradecer a Netuno por tê-lo deixado vivo, apesar de ter perdido sua caixa de tabaco e o lenço, engolidos pelas ondas.

O dia 19 foi ainda mais tormentoso. Ninguém podia permanecer no convés sem se apoiar em algo e, assim mesmo, várias pessoas foram derrubadas. No final da tarde, Joséphine Gauthier, que lá estava sentada, foi jogada contra a amurada e quase quebrou as duas pernas. Emitiu gritos assustadores e foi levada imediatamente para o meio do convés, onde o oficial de saúde constatou que, felizmente, sofrera apenas uma forte contusão. Na mesma noite, durante o jantar, enquanto serviam a refeição, uma pessoa cuidava de vigiar a sopeira. De repente, o navio sacolejou e fez cair a vasilha e tudo mais que estava sobre a mesa.

No dia 20, o tempo melhorou, as nuvens se dissiparam e tivemos um sol escaldante.

No dia 25 de novembro, dia de Santa Catarina, duas embarcações de cabotagem* surgiram na parte da tarde. Como uma delas parecia estar navegando em nossa direção, o capitão disparou um tiro de canhão, sinalizando que gostaria de falar com alguém de lá. Logo pudemos perceber que era um português. Ao aproximar-se, pôde nos dizer que estávamos apenas a uma dúzia de léguas de Cabo Frio, o que parecia perfeitamente compatível com o cálculo do capitão. Antes, ao ouvirem o som do tiro de canhão, alguns dos colonos, especialmente as mulheres, entraram em terrível pânico.  Já estavam todos avisados de que poderia haver piratas por ali, talvez tenha sido esse o motivo da sua reação. — * Embarcação de cabotagem: a que navega na costa.

Cerca de 6 horas da noite, ao percebemos o tal cabo, subi com o capitão ao alto de um mastro. Então anunciamos, aos gritos: “- Terra! Cabo Frio! Hurrah!” E logo tivemos respostas do convés, também aos gritos. No dia seguinte, pudemos ver um ponto rochoso, o que logo elevou o moral dos colonos. Passaram-se três dias, até que conseguíssemos aproximação com Cabo Frio. Numa hora havia calmaria, noutra vento contrário, nos obrigando a navegar sem rumo. Até mesmo a corrente marítima nos fazia voltar para o mesmo lugar.

Somente no dia 28 é que uma brisa favorável nos levou para perto da fortaleza de Santa Cruz*, na entrada da baía. Porém, ao cair da noite, decidimos voltar para mar aberto. Infelizmente, o vento surgiu tão violento que fomos arremetidos para um ponto ainda mais distante. Por isso, no dia seguinte, não foi possível compensar o que perdêramos durante a noite. De modo geral, as tempestades são extremamente rápidas no mar. Na noite do dia 29, enfrentamos novamente uma delas. Devido as velas estarem recolhidas, permanecemos quase na mesma posição. Mas é sabido que não há como aproximar da terra durante a noite, especialmente quando falta um piloto conhecedor do lugar. — * Fortaleza de Santa Cruz da Barra: situada no bairro de Jurujuba, município de Niterói.

No dia 30, surgiu uma brisa favorável que, felizmente, nos conduziu ao porto do Rio de Janeiro.

Rio de Janeiro: entrada da baía. Pão de Açúcar (esquerda) e fortaleza de Santa Cruz (direita). 

CHEGADA E INSTALAÇÃO

É impossível existir melhor vista que a da entrada da baía do Rio de Janeiro. Quando estávamos a passar diante da fortaleza de Santa Cruz, um piloto veio ao nosso encontro e, em seguida, mais dois, e outras visitas de vários funcionários, sem interrupção, até a noite. Fomos tomados de surpresa ao apurar que perdêramos 107 pessoas na travessia, além das três crianças nascidas no mar.

Então, nos foi dito para estarmos prontos para partir no dia 2 de dezembro, em direção à praia do Tambi*, a 7 léguas da cidade, onde aguardaríamos a visita de Sua Majestade. Os oficiais do navio obtiveram autorização para seguirem imediatamente para o Rio de Janeiro, mas sem os colonos. — * Itambi, na foz do rio Macacu.

Quanto a mim, aproveitei com prazer aquela permissão, na qual me senti incluído. Os arredores do Rio de Janeiro são mais bonitos do que a própria cidade, cujas casas, quase todas de um pavimento, são bastante mal construídas, embora sólidas na aparência. O calçamento das ruas é detestável. Os negros só aparecem durante o dia e são eles que fazem todo o trabalho. Tão dolorosa é a maneira como esses infelizes são tratados que, em mim, causou u’a má impressão e fiquei ansioso por voltar a bordo.

Desde então, estava desejoso de apresentar minhas homenagens à sua eminência o monsenhor Miranda*, grande chanceler do reino e inspetor da colônia. Mas soube que estava em Itaboraí, atarefado com outros interesses e com questões ligadas à recepção dos colonos. Contudo, conheci seu ajudante de campo, que se ofereceu a me levar à capela do rei. Lá ocorreria uma festa de aniversário da corte. Aceitei e pude presenciar toda a família real participando de u’a missa e, na procissão, vi todos os clérigos seculares e regulares, que são muito numerosos. — * MALHEIRO, Pedro Machado de Miranda, desembargador do Paço e chanceler-mor do Império.

Depois do ofício religioso, o ajudante de campo propôs me apresentar ao rei, uma honraria que ansiosamente aguardava. Então fomos ao palácio e lá, depois de alguma espera, aconteceu a audiência com sua majestade. Ao me aproximar do Rei, que estava diante de u’a mesa, saudei-o com três reverências profundas, espaçadas, e beijei-lhe mão, de acordo com o uso português. Durante um quarto de hora, falamos de nossa viagem e, também, sobre a condição física e moral dos colonos. Daí, agradeci-lhe por me conceder a audiência e finalmente me retirei, fazendo as reverências habituais. O primeiro camareiro me acompanhou até a porta. Então parti, encantado e honrado com a amável recepção.

Da Ponta do Calabouço, vista do Rio de Janeiro (por Richard Barte, 1809).

Depois da audiência, voltei logo ao navio, mas triste e com repugnância por ter visto os negros sofrendo, aqueles escravos esfarrapados, tratados como verdadeiros animais de carga, experiência que parte o coração de qualquer estrangeiro.

No dia 2 de dezembro, cerca de 8 horas da manhã, o Rei, acompanhado por toda a família real, veio nos visitar a bordo. Deu várias voltas ao redor do navio, em meio a aclamações e gritos de “Viva o Rei”. Em seguida à visita, fomos conduzidos em barcos a Itaboraí*, situada a 9 léguas da capital, onde descansamos até o dia 6. O monsenhor Miranda estava lá para receber os colonos e atender às suas necessidades. Não há como expressar com que bondade e cordialidade fomos recebidos. — * Itaboraí, hoje, pertence à grande Niterói.

No dia 6, os colonos do nosso grupo foram transportados para Macacu, onde os enfermos permaneceram, até que pudessem continuar sua jornada.

No dia 7, nos conduziram à fazenda do Colégio* em carroções, puxados por seis ou oito bois. Do Colégio, fomos levados à fazenda do coronel Ferreira**, onde permanecemos por dois dias. No dia 10, dormimos no registro da Serra. No dia 11, toda a mudança foi conduzida a pé ou em mulas, até Morro Queimado – ou Nova Friburgo –, o destino final. Os colonos, embarcados no Daphnée e no Delby-Elisa, nos precederam em alguns dias. Diferentemente do que fora combinado, de colocar barracas à nossa disposição, sua majestade disponibilizou casas com quatro salas, mas sem cozinhas, porque nas colônias cozinhava-se ao ar livre ou num cômodo qualquer. — * Fazenda do Colégio, em Papucaia: ex-estabelecimento de ensino, fundado pelos padres jesuítas. / ** Coronel Francisco Ferreira.

Chegamos durante a estação chuvosa. A água estava a cair quase todos os dias, o que tornava as estradas quase intransitáveis. Nova Friburgo está situada em uma pequena planície, cercada de montanhas por todos os lados, muito altas. O solo é bom, mas sua topografia torna o cultivo muito difícil. A distribuição das casas e das terras só foi definida após a chegada de todos os colonos, de modo que os primeiros tiveram que aguardar. Enquanto isso, poderiam trabalhar como diaristas para o governo. Ganhavam 30 sous* (*moeda francesa) por dia, ou mais, de acordo com a habilidade de cada pessoa. Alguns chegavam a receber 4 francos por dia, além de alimentos. Foi uma demonstração da boa-vontade do rei, que só procurava favorecer os colonos.

Nova Friburgo (por H. Burmeister).

Anotações

Os colonos em número de 437, embarcados em Roterdã, a 12.09.1819, no navio Urania, comandado pelo capitão Frederic Boch, chegaram no Rio de Janeiro em 30 de novembro de 1819 e, em Morro Queimado, no dia 11 de dezembro, tendo sido perdidas na travessia 107 vidas. […] Todos* chegaram ao destino final dez dias após saírem do Rio de Janeiro. — * Além do Urania, houve mais seis navios, em diferentes partidas e chegadas.

Monsenhor Miranda chegou a Nova Friburgo, em 4 de março de 1820. Cuidou da organização das famílias*, que eram voluntariamente agrupadas em 16, 17 ou 18 indivíduos. Quando essa operação foi concluída, foi feita a construção de jardins e obras públicas, como estradas, canais, etc. — * Total: 2.020 pessoas.

• Em 17 de abril, a cerimônia de inauguração da cidade ocorreu de forma solene. O senhor Porcelet pronunciou na praça um discurso preparado para a ocasião, que foi seguido pelos três vezes repetidos gritos de “Vive le Roi!”* À noite todas as casas estiveram iluminadas. — * Viva o Rei!

Em 30 de abril, 15 pessoas foram introduzidas na fé da igreja católica apostólica romana. Para os que professavam outra crença, a abjuração* foi feita publicamente, em frente à casa paroquial, e monsenhor Miranda foi o padrinho de todos, na cerimônia do batismo sob condição. — * Abjuração: renúncia e conversão ao catolicismo.

No dia 3 de maio, o monsenhor e grande chanceler, retornou ao Rio de Janeiro e foi acompanhado, até uma meia légua, por cerca de trinta colonos montados a cavalo. Ele retornou no dia 22 de junho. Em 6 de agosto, tivemos uma festa esplêndida, por ocasião do transporte da bandeira brasileira para a capela real e a inauguração da praça d. João VI, da escola e do hospital. Cada um desses monumentos foi solenemente abençoado, após discursos pela entrega da praça d. João VI, o primeiro pelo senhor Quevremont, comissário-geral da polícia; depois, falou pela escola o senhor Porcelet; e, finalmente, pelo hospital, o dr. Bozet, médico da colônia. Em seguida houve u’a missa, com minha palavra de vigário, e um Te-Deum de ação de graças.

Em 24 de junho, como vigário, recebi a condecoração da ordem de Cristo, em decreto do rei, também foi fixada a côngrua* e o salário anual. A mesma condecoração foi dada, em 29 de junho, ao senhor dr. Bozet, no dia de São Pedro, que foi dia de festa promovida por monsenhor Miranda.” — * Côngrua: pensão para sustento de párocos.

Traduzido de “Nouvelles Étrennes Fribourgeoises”, anos 1878/79/80.

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Balanço funesto

Origem dos emigrantes:

Cantões de Friburgo / Berna / Valais / Vaud / Neuchâtel / Genebra / Argóvia / Soleura / Lucerna / Schwys

Sete navios que conduziram os emigrantes, em diferentes viagens: Daphnée (primeiro a partir: 11 de setembro) / Urania / Debby-Elisa / Elizabeth-Marie / Heureux-Voyage / Deux-Catherine / Camillus.

· Total de mortos ainda no percurso europeu = 43 / Total de mortos no mar = 311.

· Na primeira quinzena de outubro, partiu o veleiro Trajan, transportando as bagagens.

Estatística do navio URANIA, que conduziu o padre Jacques Joye:

Número de passageiros = 437; total de mortos = 107.

• Fonte: NICOULIN, Martin – “La Genèse de Nova Friburgo”, Éditions Universitaires, Fribourg, Suisse, 1973.

Rio de Janeiro (por Henry Camberlain, 1819/20).

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Os “biscuits du Havre”

Conta o padre Raphael Bluteau(7), no seu dicionário da língua portuguesa (1720), que “biscouto” é o mesmo que pão do mar. A palavra vem do latim bis = duas vezes e coctus = cozido, ou seja, pão cozido duas vezes. Diziam também panis biscotus, mas seria melhor panis nauticus, à imitação do que escreveu Plínio, o naturalista romano (*23 / †79 A.D.).

Por sua vez, Gilbert-Urbain Guillaumin(8), dicionarizou como biscuits de mer ou biscuits de campagne, dizendo serem uma espécie de bolachas de farinha, redondas ou quadradas, secas e muito compactas. Eram feitas de modo a que ficassem conservadas por largo período e ocupassem pouco espaço no armazenamento. Substituíam o pão na alimentação das tripulações dos navios, como também dos soldados no campo.

Os biscuits eram produzidos com farinha de trigo de alta qualidade, à qual se adicionava uma pequena quantidade de massa fermentada. Depois, eram cozidos duas vezes, por muito tempo, mais do que o pão e em fogo brando, de modo a secá-los completamente. Não se colocava sal, para que não absorvessem umidade.

Mais dizia Gillaumim:

“Na nossa marinha (francesa), é ração diária de um homem 400 gramas de biscoito e 200 gramas de farinha. Alguns padeiros, não só nos portos de mar, mas também em Paris, fabricam e o vendem sob o nome de biscuit de capitaine, mas em tamanhos menores, preparados com mais cuidado. Ficam mais macios e são aromatizados com anis. São de fato, tal como bolos, bons de comer em acompanhamento ao chá. Entre os verdadeiros biscuits de mer, pode-se citar os biscoitos holandeses, muito vendidos em Amsterdã: o biscuit du Havre e o biscuit de Honfleur.

Cada unidade pesa cerca de 200 ou 250 gramas. Os biscuits devem ser duros e quebradiços, tendo pouca migalha, para que possam inchar em contato com a água, sem desmanchar, nem afundar. Geralmente, acompanham a sopa que é consumida por marinheiros e soldados. Contudo, são difíceis de digerir, porque os sucos estomacais penetram neles lentamente e com dificuldade. Quando são armazenados em boas condições, podem ser conservados por pelo menos um ano, mas devem ser cuidadosamente protegidos da umidade, para evitar fungos, que os tornam ao mesmo tempo insalubres e mal palatáveis. Além disso, os insetos podem atacá-los e neles depositar ovos, fazendo com que se deteriorem rapidamente.”

Embalagem de pain de guerre (pão de guerra) e biscoitos cream crackers.

Na França, ao final do século XIX, de modo a abastecer as tropas, passaram a produzir o que se chamou de pain de guerre, uma evolução do antigo panis biscotus. Devido a algumas descobertas da química, houve melhorias na receita, tornando-os mais macios e mais nutritivos. E mais gostosos, tanto que caíram no gosto de todo mundo: são os populares cream crakers.

A causa da mortalidade

Tudo indica que a febre atáxica, que se manifestara nos colonos, foi consequência de uma moléstia até então muito mal conhecida: a malária. A maioria dos falecidos devem ter sido consumidos por essa doença. Observando o roteiro dos viajantes, se verá que percorreram e ficaram abrigados em regiões pantanosas, por muito tempo e em condições muito precárias.

Somente em 1897, descobriu-se que o transmissor da malária era o Anopheles. Foi graças ao médico britânico Ronald Ross, depois de ter iniciado suas pesquisas em 1892. Sua investigação partiu das hipóteses lançadas por Charles-Louis Alphonse Laveran e Patrick Manson, que já suspeitavam do malsinado inseto.

A malária infecta o homem há mais de 50 mil anos. O termo malária* vem do vernáculo italiano medieval mal aire. A enfermidade é causada pelo parasita plasmodium. Os sintomas mais corriqueiros são febre, calafrios, dores nas articulações, vômitos, dor de cabeça e convulsões. — * Também dita como paludismo, impaludismo ou maleita.

Post - Colhendo gramaCom fome, procurando algo para comer (por Anna-Barbara Giezzendanner, 1817).

1816, ano sem verão

Em 1815, na Indonésia, o vulcão Tambora acordou, de modo a iniciar uma catástrofe climática que afetou três continentes: a Ásia, Europa e América. A erupção, vinte vezes mais potente que a do Vesúvio, teve seu clímax no dia 5 de abril, quando uma brutal quantidade de cinzas foi lançada na atmosfera, depois se espalhando por vasta região do planeta. Por onde a nuvem passou, seu pó semeou desastres… O norte da França, Suíça, sudeste da Inglaterra e Holanda foram ofendidos com maior gravidade. Mais longe, chegou a atingir a costa nordeste da América do Norte. De alguma maneira, o clima ficou também alterado em outros pontos do hemisfério norte.

O pior ocorreu no ano seguinte, 1816, com o descontrole das estações do ano. Houve excesso de chuvas e frio, tornando o verão breve e atípico. Por isso, 1816 ficou conhecido como “ano sem verão”. Sem calor, as sementes não tinham como germinar. Aquelas que mal brotavam, logo em seguida eram queimadas pelo frio ou melavam por excesso de água. Na Suíça francesa, disseram ser o “ano da miséria” e na outra, a alemã, “ano da fome”.

Naquela época, um acontecimento se tornou simbólico… No dia 16 de junho de 1816, a jovem Mary Goldwin visitava a Suíça com seu amante, o poeta Percy Shelley, e foram ambos convidados a passar a noite em casa do poeta lord Byron. A habitação, alugada pelo anfitrião, ficava em Cologny, junto ao lago de Genebra. Contaram também com a companhia do dr. John Polidore, médico de Byron e escritor.

Aquela noite estava escura e triste, portanto perfeita para se falar de coisas macabras. Daí, partiu de Byron uma sugestão: “– We will each write a gost story.” Ou seja, “– Vamos, cada um de nós, escrever uma história de fantasma.” (9)

Diante disso, a conviva Mary Godwin – então com 19 anos de idade – ali mesmo começou a idealizar a história do doutor “Victor Frankenstein” (em 1818), que veio a se tornar sucesso mundial. Mais tarde, Lord Byron descreveu a seu modo o cenário, dizendo que “as galinhas foram para o poleiro ao meio-dia e as velas ficaram acesas até a meia-noite.” Foi naquele encontro que surgiu a inspiração para escrever o poema “Darkness” (Escuridão). Começa assim:

Tive um sonho, não foi bem um sonho.
O sol brilhante se esvaneceu: as estrelas…
Erravam, se apagando no espaço eterno.
Sem brilho, perdidas… e a gelada terra
Oscilou, cega e fenecendo, no ar sem lua. […]

Texto, tradução, pesquisa e arte por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

• Leia também, clicando com botão direito: Rio Antigo (V)”.

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(1) Friburgo é um cantão da Suíça, cuja capital é a cidade de mesmo nome, Friburgo. A cidade é bilíngue e dita tanto como Fribourg (francês), quanto Freiburg (alemão). / Também Valais é um cantão da Suíça, cuja capital é Sion. / E Voud é outro cantão, cuja capital é Lausanne. / Historicamente, os cantões são considerados estados soberanos, com fronteiras próprias. // COMPROMISSO assinado pelo chefe da missão suíça (versão em português): “Eu […] Sebastião Nicoláo Gachet, encarregado pelo meu Governo o Cantão de Fribourg de solicitar de SUA MAGESTADE […] Colonização de Suissos no Brasil, e de tractar do seu estabelecimento, obrigo-me […] a manter, e transportar até a bahia do Rio de Janeiro cem familias de Colonos Suissos, homens, mulheres, e crianças de ambos os sexos, com todos os seus moveis, e instrumentos rurais, pelo preço de cem pezos Hespanhoes por cada pessoa exceptuando as crianças, que não tiverem ainda chegado aos tres annos de idade, os quaes passaraõ gratuitamente. Vinte e quatro horas depois da chegada das embarcações dar-se-ha por concluida a passagem, e o Governo deve dahi em diante sustentar os Colonos. / Os armadores dos navios que fizerem estes transportes, nada terão que reclamar do Governo, em caso de avarias, naufragio, ou perda, menos se acontecer depois de já estarem no porto, porém se alguns dos Passageiros desgraçadamente morrerem na viagem, o frete será pago por inteiro á vista da Relação do embarque. […] Rio de Janeiro aos 5 de Maio 1818. // J. Sebastião Nicoláo Gachet”

(2) Tambora – vulcão ativo do monte Tambora, na ilha de Sumbawa (Indonésia). Está a cerca de 250 km, em linha reta, da ilha de Bali. Última erupção: 1967.

(3) Decreto de d. João VI –  Sua Magestade Dignado de Aceitar as Offertas do Cantão de Fribourg, relativas […] a todos os individuos do mesmo Cantão, e aos dos outros Cantões […] Ha por bem mandar pagar as despezas pertencentes a hum numero de Familias de Colonos […] até preencher o numero de cem familias, todas da Religião Catholica Apostolica Romana. […] Em consequencia desta graça Sua Magestade Se digna Pagar a passagem destes Colonos até o porto do Rio de Janeiro, e dar-lhe meios, e viveres necessários para se transportarem para o Distrito de Catagallo, que he o seu destino, 24 legoas longe da Capital. […] Os colonos […] serão alojados em casas provisórias, que Sua Magestade tem mandado fazer, em quanto os Suissos não tiverem edificado a sua Villa, e Aldea. […] A villa será a Cabeça da Colonia […] Sua majestade por um efeito de Sua Benevolencia lhe tem dado o nome de Nova Friburgo / Fonte: “Coleção da Legislação Portuguesa”, ano 1825, Lisboa, p. 631.

(4) A ideia da colonização partiu de Nicolas-Sébastien Gachet. Teve como coadjuvante, Jean-Baptiste Bremond, designado por d. João VI como cônsul na Suíça e encarregado da emigração. A cota inicial de 800 imigrantes chegou a 2.006 pessoas, quando foi desrespeitada por Bremond, de modo a ganhar comissão nos pagamentos do transporte, que seriam feitos pelo rei. Tal fato, provocou desavenças entre as autoridades, o que forçou uma permanência exagerada dos colonos em Dordrecht (na Holanda), região muito atacada pela malária. / Chama atenção algumas características do grupo de imigrantes. Uma delas a qual se encaixa Jean-Baptiste Amuat. Fôra condenado a 20 anos de prisão, pelo roubo de pão em um albergue, mas obteve perdão e pôde embarcar. Entenderam que roubara para dar de comer à família. Assim como ele, também vieram 17 condenados, já presos, mas que foram libertos. / Disse o historiador Martin Nicoulin (La Genèse de Nova Friburgo) que: “A crer nos ensinamentos da história, a fundação de Nova Friburgo não revela maravilhas. […] guarda u’a amarga lembrança das suas origens. Desde 1819, muita gente tem feito julgamentos negativos sobre a qualidade humana daqueles que presidiram a criação dessa vila. Segundo dizem, a cidade não foi fundada por suíços livres mas, ao contrário, por aqueles que a sociedade helvética se recusava em integrar. Assim sendo, os primeiros habitantes na verdade foram degredados. Nova Friburgo deve sua existência não à liberdade, mas sim à uma operação policial.” 

(5) GACHET, Nicolas-Sébastien – (Paris, *27.10.1770 / Brasil,†??.04.1819) Estabeleceu-se no cantão de Friburgo, em 1815. Viveu algum tempo no Brasil, a partir de 1817, e depois obteve, em 1818, como agente do governo de Friburgo, autorização para fundar a colônia de Nova Friburgo, no distrito de Cantagalo. Foi cônsul da Suíça, no Rio de Janeiro, em 1819.

(6) Pelo acordo, d. João VI determinou que, a cada um dos suíços, 24 horas depois da chegada ao Rio de Janeiro, fossem fornecidas as seguintes rações, diariamente, até chegarem ao Morro Queimado: 1 porção de pão / 1 porção de bolachas / 1 porção de carne fresca / 1 porção de sal, dividida entre 15 pessoas (em porções de 1½ arrátel = quase 700 gramas). / E ainda mais generoso foi o rei: “Sua Magestade (imagem ao lado) Concede aos Colonos não só estes artigos, propostos por M. Gachet, mas manda […] que se-lhes-procurem todas as commodidades compativeis com os recursos do Paiz; que tudo se-lhes-apronte nos lugares em que tiver de servir; e quanto seja possivel á vontade dos mesmos Colonos declarada por seus Vague-Mestres; e alem d’isto é do Agrado de Sua Magestade que V. Illm. lhes mande continuar os mesmos fornecimentos, como em jornada, nos primeiros tres dias depois de chgarem a Morro-Queimado. […] Paço em 5 de outubro de 1819…”

(7) BLUTEAU, Raphael – (Londres, *04.12.1638 / †Lisboa, 14.02.1734) Religioso da Ordem dos Clérigos Regulares e grande lexicógrafo da língua portuguesa; autor do renomado “Vocabulário Português e Latino”.

(8 ) GUILLAUMIN, Gilbert-Urbain – “Dictionnaire universel théorique et practique du commerce et de la navigation”, 1839.

(9) GODWIN, Mary – (*30.08.1797 / †01.02.1851) nascida Mary Wollstonecraft Godwin (imagem ao lado). Passou a assinar Mary Wollstonecraft Shelley, por casamento com Percy Shelley. O seu “Victor Frankenstein” é um romance de terror gótico, sendo considerado a primeira obra de ficção científica. // O conviva John Polidori, escreveu uma história macabra, o romance “O vampiro“, que seria a primeira narrativa ocidental com personagem dessa natureza. // SHELLEY, Percy (*04.08.1792 / †08.07.1822) – Um dos mais importantes poetas românticos ingleses // BYRON, George Gordon – (*21.01.1788 / †19.04.1824) Poeta e revolucionário (imagem ao lado). Teve um caso amoroso com Claire Clairmont, meio-irmã de Mary Shelley. — Poema: “DARKNESS – I had a dream, which was not all a dream. / The bright sun was extinguish’d, and the stars / Did wander darkling in the eternal space, / Rayless, and pathless, and the icy earth / Swung blind and blackening in the moonless air.” / etc.

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01/01/2018

AS MENINAS

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 9:29 am

♦ Prontinhas para casar

Post - As meninas

post-eram seis, três meninas mais seus três irmãos, filhos de dona Bicota e siô Severo. O pai, que fazia jus ao nome, tudo decidia pela família. Agia de modo liberal apenas com os varões, dadivoso só com eles e fechava os olhos mesmo quando mereciam punição. Às mulherzinhas, impunha que fossem criadas na barra da saia da mãe e as mantinha sob seu total zelo. Ilda era a mais velha, seguida de Terezinha e, depois, Luíza. Em altura, formavam uma escadinha e, fisicamente, cada qual tinha sua graça. Eram mais conhecidas como meninas de dona Bicota.

Na adolescência, quando chegou a hora de aprender a namorar, foram de pronto tolhidas pelo chefão Severo. E, nessa mesma toada, continuaram crescendo submissas ao rigor da lei paterna. Até que, certo dia, o opressor teve um infarto e o nosso papai do céu, que a todos ama e perdoa, levou-o para morar consigo.

Contudo, depois do passamento de Severo, as coisas pouco mudaram. Àquela altura da vida, já estavam as irmãs completamente domesticadas e, apesar de denotarem alguma madureza, permaneciam com ideias de meninas. Pior, sem traquejo na arte de arranjar namorados. Além do mais, carregavam outra dificuldade, a de serem portadoras de uma fala chocha e um jeito meio desengonçado.

Ano a ano e no permanente avanço dos ponteiros do relógio, foram se configurando como titias. Mas, devido aos seus modos inocentes, continuavam sendo tratadas como meninas de dona Bicota. Somando tudo, o saldo era sempre positivo, pois o trio irradiava simpatia… E, assim sendo, quando nascia alguma criança nas vizinhanças, amiúde convidavam alguma delas para madrinha. Tantas vezes foram chamadas que, se concurso houvesse, ganhariam qualquer campeonato de batizados.

Sempre viveram na fazenda da Telha Bonita, na beira do Rio das Velhas. Lá, colaboravam com a mamãe Bicota no sustento da casa fabricando goiabada que, nos fins de semana, comerciavam em Vila Formosa. Isso virou rotina de todo sábado quando, além de vender seus doces, aproveitavam para fazer compras para a casa. Tais como, mantimentos para a cozinha, coalho para fazer queijos, sementes para a horta, apetrechos de costura, querosene para as lamparinas, fósforos, etc. Tudo isso para bem servir à mamãe.

Porém, nas passagens pela vila, o maior interesse sempre foi o de arranjar namorados. Uma obsessão sem fim! Pois que, apesar de fracassadas tentativas, sempre estavam prontas para outra. Assim sendo, em busca do sonhado marido, a cada sábado seguiam o ritual, que tinha início às vésperas, ou seja, toda sexta-feira.

Tomavam, então, caprichados banhos de bacia, lavavam bem os cabelos e, depois, uma os trançava para a outra. Ornavam as testas com franjinhas no capricho e pintavam as unhas de vermelho vivo. Finalmente, à noitinha, diante de um pequeno oratório, ajoelhavam-se para pedir o indispensável socorro a Santo Antônio. Juravam que, caso fossem seus desejos satisfeitos, não deixariam de pagar promessa.

Nesse afã, todos os sábados acordavam de madrugadinha, ainda com tempo para as providências finais. Um detalhe nunca era esquecido, o de passar ruge nas bochechas, um pouco de batom nos lábios e bastante água-de-cheiro pelo corpo. Da fazenda da Telha Bonita, até a Vila Formosa, dava légua e tanto. Porém, nunca iam a cavalo, para não amarrotar os vestidos de chita e, mais ainda, por temerem pegar os maus odores do quadrúpede.

Contam que, num daqueles dias, ainda com a fresca da manhã, saíram aos sorrisos e em passos largos de pés descalços, a fim de levarem até a vila as cargas de doces e desejos. Contudo, logo depois de alguma caminhada, ouviram o barulho de um veículo. Seria boa oportunidade de pegar uma carona e evitar suores. E, mais que isso, de ter contato com alguém do sexo oposto que, certamente, estaria ao volante. Vai daí que, de repente, Luiza fez uma pausa, formou uma concha com a mão no ouvido e falou alto:

– Iscuita, lá envem um carro Terezinha! Pode sê qu’ele leva nóis…

– É memo, vamo vê! – concordou a irmã.

Ao avistarem o veículo surgindo da poeira ao longe, interromperam os passos. Terezinha ganhou certeza do que via e disse, toda chorosa:

– Num é, não, Luiza! Esse é ôtro… É o da Pissi-Cola, trazeno refrigerante.

Ao que Ilda, a irmã mais velha e na condição de líder, reagiu:

– Óia minina, nóis pode pegá carona, mais eu num gosto de andá com gente que fala errado. Se quisé andá comigo, tem que obedecê!

O caminhão da Pepsi-Cola passou zoando e levantando poeira. As meninas sacudiram os vestidos de chita, balançaram as tranças e continuaram alegres, seguindo em frente. Daí a pouquinho, estariam em Vila Formosa, para vender goiabadas, cuidar das compras e lançar olhares… Melhor dizendo, dar piscadelas para os moços e esperar a almejada resposta à sinalização amorosa. Quem sabe chegaria a vez de alguma delas, senão todas, entabularem um namoro sério? Porém, não importando qual fosse o resultado, nunca perdiam a fé em Santo Antônio. Viviam prontinhas para casar!

E, ainda bem que mamãe Bicota sempre facilitava. Era mais liberal que o finado papai Severo.

Por Eduardo de Paula

· Inspirado num bate-papo com a amiga Maria Marilda Pinto Corrêa.

01/12/2017

EU VI O PENSAMENTO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:16 am

♦ Um devaneio

Outro dia, fechei os olhos e, dormindo, consegui ver o pensamento. Tudo começou na beira de um rio quando, por acaso, me deparei com alguns simpáticos desconhecidos. Conversamos e, sem mais nem menos, os convidei a me acompanhar, em busca do pensamento. De imediato aceitaram o convite. Mas, por precaução, perguntei se sabiam nadar e responderam que sim. Então lhes disse:

– Vamos nos deslocar rio acima, onde certamente encontraremos o pensamento.

Formou-se um grupo: homens, mulheres e uma criança, e mergulhamos n’água. Daí, dando confiantes braçadas, prosseguimos com animação, até que nos deparamos com um pantanal. Ali vislumbramos, meio encoberto pelos juncos, o tal do pensamento. Ele se assemelhava a uma prancha de surf, enorme, porém muito despojada, singela.

De pronto, decidimos todos a nos acomodar no pensamento, a fim de fazer uma viagem. Contudo, como o veículo logo ficou superlotado, optei por ceder meu lugar aos convidados. Por isso, tive que me ajeitar pendurado num estribo, do lado direito, como aqueles que havia nos antigos bondes. Alguns companheiros se instalaram no estribo do lado esquerdo.

E foi dada a partida… O pensamento se deslocou serenamente, macio e sem trancos. Desse modo, a aventura foi transcorrendo no melhor dos mundos e plena de agradáveis surpresas.

D’onde estava e do meu ponto de vista, me deleitei com a linda paisagem, ornada com pássaros e flores. De vez em quando, ao meu lado passava um peixe ou mesmo um cardume. Uma após outra, me encantei com coisas até então desconhecidas. Nunca imaginara que fosse tão bom viajar no pensamento! Assim sendo, acreditei que os companheiros, instalados no estribo do lado esquerdo, estavam a apreciar diverso espetáculo, de acordo com o olhar de cada um.

Até que, cansado de tanta mesmice, procurei outra acomodação em busca de novidades. Para isso, abandonei meu lugar e me aboletei na parte superior do pensamento. Ali, sentei no chão, ao lado da criança que nos acompanhava. Logo à nossa frente estava o condutor, que manejava uma rédea como aquela dos cavalos.

Sem dúvida, meu novo posto era bem melhor, porque podia apreciar o panorama altaneiramente e em 360 graus. A nova posição me permitiu observação mais ampla e equilibrada. Nada de só direita ou só esquerda. Bem sei que a variedade sempre propicia maiores prazeres.

Daí em diante, como imaginei, a viagem se tornou mais rica, tanto pelo cenário, quanto pelo desenrolar dos acontecimentos. Acrescento que a criança ao meu lado era minha neta. Nunca a vira tão alegre!

Também notei que o veículo, que não possuía rodas, por toda parte movia-se rente ao chão, às vezes flutuava nas alturas. Mas, o melhor de tudo: quem puxava o pensamento era um anjo alado! Senti que, ao atravessar pedregulhos, o pensamento superava-os com facilidade e muito suavemente. Não produzia qualquer ruído.

Entretanto, em certo momento fiquei surpreso, pois os demais companheiros teriam perdido interesse pelo espetáculo e estavam adormecidos. Seus sensores vitais haviam entrado em modo de espera*, ou seja, quase que em hibernação**, guardando nada mais que vagas memórias do que se passara. — * O computador, em modo de espera, fica ocioso para economizar energia.  / ** Em hibernação, salva os arquivos e desliga.

Aliás, eu de antemão sabia… Para o bom desfrute daquela viagem, não nos bastavam os cinco sentidos, carecíamos do sexto e de mais alguma coisa. Acredito, seriamente, que os companheiros estariam mergulhados no vazio e não no sonho, como seria de todo recomendável, principalmente naquelas circunstâncias.

Daí em diante, sem esmorecer com os meus propósitos, prossegui solitário naquela aventura surrealista. Até me esqueci que tinha acompanhantes na viagem. E vai que, de repente, me deparei com um pórtico, em estilo neoclássico*, onde estava escrito: “Seja Bem-Vindo”. Diante da gentil recepção nem pestanejei e, com pleno entusiasmo, fui adentrando naquele sítio. Depois de algumas passadas, vi um bicicletário e uma placa avisando: “Aluga-se.” — * A arquitetura neoclássica começou a desenvolver-se na primeira metade do século XVIII.

Empolgado com a possibilidade de conhecer o que estava por vir, rapidamente escolhi uma bicicleta de pneus balão. Gosto de viajar confortavelmente! Contudo, tão logo me ajeitei no selim e já nas primeiras pedaladas, percebi que a bicicleta estava por demais pesada. Dei uma olhada nos pneus, mas constatando que estavam bem calibrados, continuei com toda força a movê-la e logo fui penetrar num denso arvoredo.

Era um bosque e, para não fugir à regra, mais à frente o caminho dividia-se, em três ramos. Porém, devido às minhas sabedorias, optei por escolher o que parecia ter mais empecilhos: pedregulhos, espinheiros, buracos, etc. Assim, sem titubear, fui em frente naquele mais conveniente ao meu gosto e, logo, pude ouvir passarinhos. Lembrei-me dos meus tempos de juventude quando, na hora do Angelus, ouvia cantorias de pardais.* — *  Na minha cidade, Belo Horizonte, os bandos de pardais alegravam o entardecer. 

Mais adiante, me deparei com um cão vira-latas, branco, que me lançou um olhar enigmático. Naquele instante, senti uma pulga atrás da orelha e suspeitei: “- Esse animal já é meu conhecido… de vidas passadas.” E parecia mesmo ser verdade, porque não mais se desgrudou de mim. E, daí para a frente, juntos, fomos trocando mensagens telepáticas e nos divertindo.

Pois bem, da mesma maneira que entendo que um pingo é letra, também admito que o rabo de um cão pode ser indicador de muita coisa. E foi então, com essa ferramenta, que o animal filho de Deus, passou a me guiar em meio ao arvoredo.

Levou-me então a um lago, onde vi uma ponte em estilo chinês. Lá havia pessoas, passeando em pedalinhos. Entre elas percebi sorrisos e demonstrações outras de alegria. Ainda vi um casal de namorados numa charrete, trocando beijos e afagos. E, como já estava suspeitando, mais adiante encontrei um pequeno parque de diversões. Admiti então que, mais que um bosque, aquele lugar era o parque de uma cidade.

E o cão amigo, sempre com o auxílio do rabo, continuou a me guiar. Mostrou, um pouco ao longe, um prédio em ruínas. Para lá nos dirigimos e, ao chegar, percebi uma escada que encaminhava para o alto, levando até a porta de uma edificação improvisada. Diante daquela visão e tomado pela curiosidade, apeei da bicicleta e fui ver o que havia por lá.

Pois bem, logo ao adentrar naquele lugar, encontrei um senhor de idade. Vi muitos quadros na parede, alguns terminados, outros por completar. Também havia uma folhinha, marcando o ano de 1957. Aquele homem, semicalvo, de bigode e trajando um terno de linho branco, me lançou um sorriso. Em seguida, puxou um tamborete sujo de tinta e tentou limpá-lo, usando um punhado de estopa, por demais sujo. E, daí, educadamente completou, com uma voz fanhosa: “- Sente-se, por favor.”

É claro que não pude recusar tal gentileza e me acomodei naquele assento imundo de tinta. Imediatamente, o anfitrião esclareceu, dizendo quem era: “- Chamam-me de mestre Guignard e aqui é minha escola de artes. Se bem lhe aprouver, venha participar das nossas aventuras.” Mas era uma cena de outrora, que então se repetia, de quando me matriculei na escola de belas-artes (1)!

Depois desse encontro, dentro da imaginação e da memória, desci de volta pela escada e continuei a pedalar, guiado pelo meu cão cicerone. Porém, como a bicicleta ainda estava muito pesada, já me batia o cansaço. Até que, de repente, à minha retaguarda soou uma voz infantil. Vinha de uma menina, aquela que embarcara comigo na prancha de surf e que passara despercebida na garupa. Estava então a me dizer: “- Vovô, eu também quero ser pintora.”

Abri os olhos, o dia estava magnífico! Desfrutei todas as faces da luz. Novamente, ao caírem as primeiras sombras da noite, fui ouvir o Angelus, orando…

Por Eduardo de Paula

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(1) Escola Guignard (Escola de Belas-Artes de Belo Horizonte). Funcionava no parque municipal de Belo Horizonte, ocupando algumas salas da então ruína do atual Palácio das Artes.

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