Sumidoiro's Blog

fevereiro 1, 2012

PROMESSA FURTADA

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♦ Em terras de Jaguara

Durante século XVIII, na comarca de Sabará, foi constituído um dos maiores estabelecimentos rurais do Brasil. A sede era a fazenda da Jaguara, situada na beira do rio das Velhas, a sete léguas da vila de Sabará. O patrimônio foi crescendo por etapas, pela simples ocupação de terras, doação de sesmarias(1) ou operações de compra e venda. Parte remanescente da sede fazenda ainda existe e estão preservadas algumas construções antigas. Agora é denominada Jaguara Velha e possui também uma pousada.

Sede da Jaguara e Antônio de Abreu Guimarães. No chapéu, cruz da Ordem de Cristo.

Coube ao quarto proprietário, Antônio de Abreu Guimarães, expandi-la e fazer a história maior da fazenda. No auge, chegou a ocupar um território de 1200 alqueires, quando era operada por centenas de escravos. Para acumular riqueza de tal ordem, o dinâmico empreendedor seguiu a mesma receita dos seus antecessores. Aproximou-se dos altos administradores da colônia, obteve a patente de capitão e ganhou muito dinheiro. Depois, conseguiu o título de cavaleiro da Ordem de Cristo(2), acrescentando ao capital econômico o capital simbólico. Dessa maneira, pôde desfrutar de privilégios que pavimentaram os caminhos para prosseguir enriquecendo, mesmo à custa de algumas imprudências, entre elas a sonegação de impostos. É a explicação mais plausível para seu enriquecimento meteórico.

Parte da Jaguara (área clara), incluindo a sede. Da Quinta do Sumidouro até o rio Jequitibá. 

QUEM É QUEM

Ouviu-se dizer que o capitão Guimarães também teria sido proprietário de sesmaria em Pitangui ou junto ao rio Pará. As referências, nesse caso, foram em direção à uma determinada pessoa, já que os dois lugares estão situados na mesma região. Mas quem pensou assim incorreu em um equívoco, porque onde é a atual cidade de Nova Serrana viveu um homônimo, falecido(3) antes de 1769, e o passamento do personagem da Jaguara se deu em Lisboa, no ano de 1801.

“Diz Antônio de Abreu Guimarães … homem de negócio, solteiro … natural da vila de Guimarães.”

O biografado neste Post afirmou ser “natural da vila de Guimarães, solteiro, homem de negócio, cavaleiro da Ordem de Cristo(4) e que chegara ao “Brasil na menor idade, esperançado tão somente na providência do Altíssimo”, ou seja, em estado de pobreza. Sobre seus primeiros tempos no país, há mais descrições que ganham consistência, embora não se caracterizem como provas definitivas. Entre elas, os textos da carta patente militar, concedida a um Antônio de Abreu Guimarães, como capitão de ordenança do distrito do Morro do Chapéu, termo da vila de São José do Rio das Mortes. A data do evento, 06.08.1748, é coerente com toda a trama da história. Essa carta, emitida à véspera da segunda metade do século, data da época em que começavam os maiores feitos do capitão da Jaguara.

No Morro do Chapéu e em nova companhia de ordenança, Antônio de Abreu Guimarães é capitão.

O historiador Aldair Rodrigues(5) encontrou, nos Arquivos da Torre do Tombo (Portugal), documentação referente à concessão de títulos da igreja católica, também a um Antônio de Abreu Guimarães. Trata-se do processo que precedeu à sua habilitação como agente da Inquisição (em 1753) e, depois, como cavaleiro da Ordem de Cristo (em 1765). O relatório traça o perfil do candidato. Era do “Minho, natural da freguesia de São Vicente de Moscatelos, termo de Guimarães.” Ao chegar ao Brasil, “foi trabalhador de enxada e foice e que depois comboiara pretos algum tempo, do Rio de Janeiro para as Minas e que, para isto, vendera as plantas que tinha roçado”. Depois, explorou o comércio de escravos e chegou a “ter loja de fazendas secas no arraial dos Carijós (atual Conselheiro Lafaiete), no qual assistia e tinha outra, por sua conta, no Serro (vila no centro-nordeste da comarca), para as quais ia comprar fazendas para sortimento ao Rio de Janeiro”.

Nesse conjunto de referências, os lugares, fatos e datas são coerentes, para dizer que tudo se refere à mesma pessoa, embora tais elementos não sejam suficientemente confirmatórios.

Armadura de d. Pedro II (*1648+1706) com a cruz de Cristo e placa da ordem.

A MÍSTICA DA CRUZ

Ordem da Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo foi sucessora da Ordem dos Templários, que nasceu no tempo das Cruzadas. Na empreitada de “descobrir” a terra que já sabiam existir, à qual vieram a chamar Brasil, os portugueses utilizaram muito bem seu ideário e seus símbolos. Quando as caravelas de Cabral chegaram ao destino, a cruz esteve insinuante lá no alto dos mastros, como poderosa ferramenta de mídia. Na praia, os nativos boquiabertos diante da cena inusitada, não poderiam imaginar que os recém-chegados iriam considerá-los uma nova categoria de infiéis a ser combatida. A cruz foi de muita serventia, durante todo o processo de consolidação e fortalecimento do poder na colônia.

 Capítulo XVI e frontispício de “A regra & diffiniçoões da Ordem do mestrado de Nosso Senhor Jhú Xpo”. 

Devidamente adaptada aos novos tempos, a Ordem de Cristo consolidou-se na memória coletiva dos brasileiros, como herdeira mística dos Templários. Desta maneira, o antigo papel dos católicos lutando contra os mouros, continuou sendo representado com novos atores. Como estavam condicionadas pelo próprio imaginário, as massas passaram a aceitar seu estado de opressão sem sentir dor, já que a anestesia estava em si mesmas. Em resumo, ao distribuir a comenda da Ordem de Cristo a seletos representantes, a coroa e a igreja católica usaram o simbolismo para manter a população sob o seu jugo. É necessário conhecer esses detalhes, para compreender como tais fatos contribuíram para configurar o país e também seus reflexos na estrutura social, política e religiosa dos dias atuais.

O LATIFÚNDIO

O núcleo inicial da propriedade provinha da aquisição, ao sargento-mor Francisco da Cunha Macedo, de terras do Sumidouro e Jequitibá. Esses dois sítios foram cenários da saga dos bandeirantes Fernão Dias e Borba Gato, à procura das minas de ouro. Depois que o capitão Antônio de Abreu Guimarães assumiu o comando da Jaguara, houve grande expansão do latifúndio. Estendeu-se desde as cercanias da Quinta do Sumidouro(6), até as proximidades do município de Curvelo, com a maior parte das terras situadas a leste do rio das Velhas. Os dois mapas(7) neste Post mostram, na região do rio Jequitibá − ao norte −, uma pequena descontinuidade nas terras, separando a fazenda do Melo das demais. Nos livros contábeis(8), estão anotados itens da diversificada produção das fazendas: suínos, bovinos, equinos, rapadura, açúcar, cachaça, goiabada, marmelada, sabão, cereais, farinha, algodão, mamona, café, ouro e vários outros.

A capela da Jaguara em 1975.

O capitão Guimarães era homem de fé e, por isso, deu especial atenção à melhoria da capela existente na Jaguara, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, que fora iniciada pelo proprietário antecessor. Por volta de 1780, inaugurou um altar encomendado ao mestre Aleijadinho. Há quem diga que ficou pronto em 1787, embora não seja possível precisar a data. Dezessete anos adiante (em 1804), no balanço de contas(9) do estabelecimento, há uma anotação interessante, que informa: “Despesa do ano de 1804, agosto, 25 − Pelo que pagou a Antônio Francisco Lisboa de jornal de seu escravo 7 ½ 4 …” Entretanto, naquela data, o capitão já havia falecido. Então, fica uma pergunta: estaria o escultor realizando outro trabalho? E por encomenda de quem?

Na matriz de Nova Lima: altar e púlpitos, obras do Aleijadinho, originárias da capela da Jaguara.

Durante muitos anos, o bonito templo foi frequentado pela comunidade da região. Possuía inclusive um cemitério, como consta em vários registros de óbito(10). Entretanto, com o desinteresse dos sucessivos proprietários, a capela arruinou-se e, para que não se perdesse o trabalho do Aleijadinho, o conjunto de talhas foi doado, em 1926, à matriz de Nossa Senhora do Pilar de Nova Lima, onde se encontra instalado. Ruínas do templo perduram na remanescente sede da fazenda, que fica no município de Matozinhos(11), próximo à capital, Belo Horizonte.

Inocente Bernardino, filho de Balbina crioula, batizado na capela da Jaguara, no ano de 1819.

SONHO IMPOSSÍVEL

O grande empreendedor chegou à velhice como um dos homens mais ricos da capitania. Viveu com o objetivo de ganhar dinheiro e dizem que sua fortuna foi alavancada principalmente pela sonegação, ao contrabandear ouro e diamante. Também colecionou pecados, até que chegou a hora em que passou a sofrer o tormento das grandes dúvidas. Diante disso, procurou o socorro da confissão, tendo o seu orientador espiritual lhe apontado o caminho da caridade, como forma de garantir um lugar no céu.

Convencido pelas palavras que ouvira, o capitão Guimarães fez promessa de ajustar suas contas com a coroa portuguesa e de pedir socorro a Deus, para atenuar os sofrimentos da alma. Para tanto, elaborou um projeto que levou à rainha d. Maria I, propondo-lhe um acordo, no qual se obrigava a investir a maior parte da sua fortuna em obras pias. Foi uma decisão de tal magnitude, que não poderia ter sido tomada aleatoriamente. O propósito de socorrer os sofredores surgiu das experiências de vida de um cristão sensível, bondoso e sabedor das misérias humanas. Em um documento(12), enviado à rainha, esclareceu sobre o que o movia e pretendia:

“… Antônio de Abreu Guimarães [...] adquiriu, por meio da sua indústria (profissão) e negociação, o cabedal (fortuna) e fazendas de lavras de ouro, criações e frutos, que possui no rio das Velhas, comarca do Sabará, as quais se acham, no presente, com mais de quinhentos escravos e mais de cem casados, e beneficiadas com importantíssimos serviços (de lavras de ouro) [...] em distância de mais de oito léguas de terras minerais [...] nas quais atualmente trabalha muita gente…”

Justificou:

“… porque [...] fez voto a Deus de aplicar a maior parte dos bens [...] em obras pias [...] em subsídio das misérias e da pobreza dos nacionais (brasileirosdaquele continente…”

Varanda da casa grande da Jaguara.

No detalhado documento expôs todo o plano, que foi repassado à rainha d. Maria I através de assessores da corte. Também deram pareceres sobre cada item proposto, esclarecendo que, como primeiro benefício:

“… se deliberou fazer [...] um colégio na fazenda do Riacho Danta, para educação e residência de donzelas pobres, órfãs e enjeitadas [...] com o necessário para o seu curativo e trato, por ser um mal que se vai difundindo e grassando pelas Minas, com tal excesso, que pelo decurso do tempo será irremediável a se lhe não ocorrer (socorrer) com semelhante resguardo e providência…”

Para essas donzelas, havia proposto também que a instituição, no momento oportuno, cuidasse de encaminhar seus matrimônios. Para tanto, destinaria a cada uma o dote de quatrocentos mil reis. Se fossem suas parentas, até o quinto grau, e de “sangue limpo” (13), oitocentos mil reis. Naquela época, era exigência do Santo Ofício aos que almejassem a progressão social. Em um mandato, d. Frei Manoel da Cruz, primeiro bispo de Mariana (1739-1764), já havia orientado como verificar a qualidade de sangue. Devia ser feita a seguinte pergunta: “Se tem parte de nação hebrea, ou outra qualquer infecta, ou de negro, ou de mulato.” Quando obteve o hábito de Cristo, Antônio de Abreu Guimarães se submetera à regra e, por sua vez, estava aplicando o mesmo procedimento nas alunas do colégio.

Como segundo benefício:

“Um seminário na Jaguara, para a instrução de meninos pobres, órfãos e enjeitados, com a obrigação de os sutentar e prover do necessário até saberem ler, escrever e contar e, para os que tiverem boa esfera para a língua latina e outras, se lhe assistirão até a idade de dezoito anos…”

Como terceiro benefício:

“Um hospital na vila de Sabará para [...] os enfermos pobres, não sendo de moléstias contagiosas…”

Lagoa Santa: imagem do século XIX, segundo croqui de Eugen Warming. 

Como quarto benefício:

“Um hospital na Lagoa Santa(14), para nele se mandarem recolher todos os enfermos de mal de São Lázaro(15) e, aos que forem pobres, assistir-lhes [...] com todo o necessário…”

E mais, não se esqueceu dos familiares, aos quais sempre ajudou, e continuava com o desejo de reservar alguns rendimentos para:

“a contemplação [...] de alguns dos seus parentes transversais aos quais sempre [...] tem beneficiado [...] por razões do sangue [...] com os meios [...] para a sustentação e estabelecimento futuro [...] e continua(ndo) no seu testamento…”

Coimbra, por volta do final do século XVII, ou início do século XVIII. (do acervo da Universidade de Coimbra)

A sustentação financeira das obras pias viria dos rendimentos provenientes das fazendas, tudo sob o comando de uma junta administrativa. Para tanto, designaria seu sobrinho e maior beneficiário, o coronel Francisco de Abreu Guimarães, para ser o primeiro presidente. O diversificado projeto, foi examinado cuidadosamente pelos assessores e, com algumas alterações, a rainha d. Maria I encampou a idéia da criação do Vínculo.

Detalhe da proposta de criação do Vínculo e retrato de Antônio de Abreu Guimarães.

Uma importante modificação introduzida foi o acréscimo de um quinto benefício, perpétuo e em dinheiro, para uma casa de amparo às prostitutas de Lisboa. Então, depois de tudo devidamente formalizado, o capitão voltou a Portugal e fixou residência em Lisboa. Ali abraçou o estado religioso e viveu nessa condição até a morte, no ano de 1801. O acordo com a rainha foi oficializado através de um alvará(16), vinculando a propriedade e os seus rendimentos aos benefícios ajustados, da seguinte forma:

“Eu a rainha faço saber [...] que tendo julgado conveniente o aceitar a proposta, que me fez Antônio de Abreu Guimarães, de vincular os bens que possui (na) [...] Comarca do Sabará, para a ereção, dote e subsistência de três Casas Pias, em benefício e utilidade [...] dos meus vassalos [...] Fui servida [...] fazer-lhe expedir o meu real beneplácito no decreto [...] que vem a ser:

um seminário no sítio de Jaguara, para instrução de meninos pobres;

outro para educação de donzelas necessitadas;

um hospital em sítio próprio [...] para a cura do mal de S. Lázaro, que naquele continente vai grassando;

um subsídio anual para a cura de outras enfermidades, que não sejam contagiosas, na Vila do Sabará e um rendimento perpétuo para as convertidas do Recolhimento do Rego, junto a Lisboa; 

D. Maria I e detalhe da sua carta, autorizando a criação do Vínculo.

oferecendo para fundo, subsistência e andamento, as vastas e úteis possessões, que tem naquela comarca, denominadas Jaguara, Vargem Comprida, Mocambo, Riacho d’Anta, Pau-de-cheiro, Forquilha, Melo, Barra do Rio Melo, com engenhos, casas, fábricas, escravos, gados, e criações, além de muitas léguas de terras minerais, de que se tem extraído e pode extrair muito ouro;

propondo-se dividir o produto e líquido rendimento do dito fundo em cinco partes iguais, reservando uma para dispor dela livremente em vida ou por sua morte, aplicando outra desde já para o sobredito recolhimento das Convertidas do Rego;

destinando as outras três, para que tirando-se delas oitocentos mil reis anualmente, para o sobredito subsídio dos enfermos de moléstias não contagiosas, em umas das casas nobres que o suplicante possui e destina para este fim na Vila do Sabará;

todo o remanescente se empregue nas referidas fundações e sua perpétua subsistência [...] Todos os bens que atualmente possui Antônio de Abreu Guimarães ficarão vinculados, desde a data do meu real decreto, e ficarão inalienáveis [...] e estes bens [...] serão administrados por uma Junta [...] A primeira Junta será nomeada pelo instituidor do Vínculo ou por quem ele declarar que nomeie [...] – Lisboa aos vinte e três de setembro de mil setecentos e oitenta e sete. – Rainha.”

Na beira do rio das Velhas, a fazenda da Jaguara.

O SOBRINHO DO CAPITÃO

O grande erro do capitão Guimarães foi atribuir a administração a uma junta, presidida pelo sobrinho e maior herdeiro, o tenente-coronel Francisco de Abreu Guimarães. Foram 17 anos sob seu comando, mas o preposto não se empenhou em executar as disposições do alvará. Pelo contrário, protelou-as enquanto pôde e tirando para si desmesurado proveito. Em Sabará, onde vivia, desfrutava de uma vida faustosa e dissoluta. Alguns bens foram repartidos entre parentes, outros perdidos no jogo ou levados à praça para o pagamento de dívidas. Durante sua administração, só fez por dilapidar o patrimônio. Ao hospital para o tratamento de doenças não-contagiosas o capitão Guimarães dedicava especial atenção, mas o sobrinho nunca pôs em prática o que seria de sua responsabilidade.

Pedido do capitão Guimarães, pela destituição do sobrinho coronel Francisco da presidência do Vínculo.

AS CASAS DO SABER

O seminário para meninos foi implantado com alguma demanda pelos seus dois cursos, primeiras letras e gramática latina. Graças ao altruísmo do capitão Guimarães, muitos jovens teriam uma oportunidade de crescer na vida pela força da instrução. E tinha mais, desejava aos alunos de “extraordinário talento para o estudo de ciências maiores, mandá-los à Universidade de Coimbra”, com todas as despesas pagas pelo Vínculo, sempre dando preferência aos seus parentes. Acrescentando que, se desejassem retornar à sua pátria, deveriam ser assumidas as despesas necessárias, até seis meses depois de graduados.

Foi aberto um livro de matrículas(17) dos alunos, originários de diversos lugares da comarca, alguns até bem distantes. No dia 05.01.1808, Martinho Rodrigues foi admitido como primeiro aluno do curso de primeiras letras. Na mesma data, para aprender gramática latina, José Martins Gandra, um moço de vinte anos de idade, morador de Santa Luzia, que tinha perdido a mãe e vivia com o pai. Entre os anos de 1808 e 1809 estão anotadas 33 matrículas para primeiras letras e 26 para gramática latina.

ELE SABIA

Mas o capitão Guimarães, desde que se retirara para Portugal, soube que seu sobrinho não estava cumprindo com os compromissos e, naturalmente, ficou desiludido diante dos fatos. Ademais, por exigência do alvará real, seria necessária a produção de uma carta topográfica, para o conhecimento do vínculo em toda sua extensão, entretanto, o sobrinho criava embaraços, impedindo que o trabalho fosse realizado. Então, decidiu fazer uma queixa(18) a d. Maria I, que lhe foi repassada nos seguintes termos:

“Agora representa o dito Antônio de Abreu Guimarães que, seu sobrinho o coronel Francisco de Abreu Guimaraens, tem embaraçado a diligência de que se faça este Vínculo [...] Pede que, à sua custa, se mande um Ministro [...] para privar ao dito Coronel da administração e de tudo ao que pertencer ao suplicante [...] e obrigando a sumariamente ao dito Coronel a dar conta.”

Diante disso, a rainha determinou às autoridades no Brasil que tomassem alguma providência. Diz o documento oficial, de 11.01.1788, que chegou a capitânia de Minas Gerais:

“Por Carta Régia dirigida ao Governador e Capitão Geral de Minas Gerais, se lhes ordenou que, em consequência do Alvará [...] igualmente nomeasse pessoa capaz de fazer a Carta Topográfica…” 

Enquanto viveu, o capitão Guimarães teve conhecimento dos desmandos do sobrinho. Tentava, através de correspondências colocar as coisas nos devidos lugares, mas não lhe davam ouvidos. Em uma correspondência(19) à Ordem Terceira do Carmo de Sabará, datada de 29 de maio de 1799, enviou uma escritura de perdão de dívidas a seus credores pobres ou necessitados, nestes termos:

“… nesta cidade de Lisboa, [...] Capitão Antônio de Abreu Guimarães, cavaleiro professo da Ordem de Cristo [...] disse em presença de mim, Tabelião[...] que desejando fazer alguma equidade aos seus devedores da Comarca do Sabará, que se achassem pobres e pensionados de famílias e totalmente impossibilitados de pagarem o que devem, sem ficarem despidos e exauridos de todos os bens que possuírem, determinará a seu sobrinho e administrador o coronel Francisco de Abreu Guimarães lhe mandasse um mapa de todos os seus devedores existentes na dita comarca [...] 

E porque o sobredito coronel até o presente não dera cumprimento a esta determinação, e ele dito capitão se achava entrado nos anos e receando falecer antes de realizar esta caritativa obra, o fazia no modo possível, pela maneira seguinte: [...] que ele muito de sua livre vontade e sem constrangimento [...] havia por pagas as dívidas [...] daquelas pessoas… – Lisboa, três de Junho de mil setecentos e noventa e nove [...] – (assinaturas).”

Pagamento de pro-lábore ao coronel Francisco de Abreu Guimarães, referente a 1805.

O educandário para meninos teve efêmera existência. Parece que o bem intencionado capitão Guimarães superestimou muitos dos seus beneficiários, como no caso do garotão José Gandra, o primeiro matriculado, que não gostou de estudar latim naquela escola e um ano depois fugiu, conforme está anotado no livro de matrículas. Talvez já fosse um prenúncio do que estava por vir, pois naquele momento, todo o vínculo estava em franca decadência. A de meninas, na fazenda do Riacho D’Anta não foi implantada e o projeto acabou caindo no esquecimento. Nenhum desses contratempos foi cogitado no grandioso projeto do capitão. Como já havia falecido, livrou-se de sofrer pelo retumbante fracasso das suas escolas, nas quais depositou tanta esperança.

É importante notar que o patrimônio da Jaguara não se compunha apenas de bens materiais, havia também pessoas. E, com elas, um problema grave que demorou a ser percebido, pois centenas de negros estavam abandonados à própria sorte. Se antes sofriam o jugo da escravidão, certamente haviam mudado de mal para pior. Mais uma consequência da conduta irresponsável do sobrinho do capitão. Somente em 1813, o conde de Palma − governador da capitania de Minas Gerais − preocupado com a ruína do Vínculo, tocou no assunto em uma correspondência(20) ao conde de Aguiar − ministro de d. João, príncipe regente −, quando escreveu:

“… Os ditos bens, consistindo principalmente na mineração [...] não sendo permanente, nem sendo dirigida com acerto, diminuiu muito [...] Contudo, aquele Vínculo ainda conta com numerosa escravatura[...] que ajunta aos conhecimentos filosóficos, muito zelo e desinteresse (sic), também podia ser ouvido, sobre meios de empregar com vantagem tantos braços absolutamente inúteis…”

HOSPITAIS NA PENÚRIA

A duras penas, o hospital para doenças não-contagiosas foi instalado, “nas casas nobres da Rua do Fogo” (21 ), em um domingo, o 31 de maio de 1812. Os imóveis estavam em estado ruinoso e os oitocentos mil reis anuais de dotação, mesmo se tivessem sido pagos, não teriam sido suficientes para a manutenção. A heróica inauguração só foi possível pelo empenho da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo e, assim mesmo, porque contou com a ajuda da população e de alguns abnegados. Até 1832, reiteradamente, as administrações do vínculo e do hospital, tentaram levantar algum dinheiro através do rei d. João VI (22). No final das contas, o soberano proclamou como única instituição credora o Recolhimento do Rego, em Lisboa, e os herdeiros do sobrinho do capitão, o coronel Francisco de Abreu Guimarães(23).

Batizado com o nome de Hospital de Caridade Abreu Guimarães, sempre foi uma instituição de cunho filantrópico. Ao longo dos anos, sobreviveu a duras penas, prestando inestimáveis serviços à população. Existe até hoje, com a denominação de Santa Casa de Misericórdia de Sabará e está situada na rua Francisco de Assis Pereira, 55.

Nos descaminhos da administração do vínculo, Francisco de Abreu Guimarães teve a coragem de retirar para si, de pró-labore(24), 400.000 mil reis, só no ano de 1805 (contabilizados!), mas nunca pagou os 800.000 mil reis destinados ao hospital. Falecendo em 5 de abril de 1807, deixou o patrimônio esfacelado e a promessa do tio descumprida. Devido ao estado de penúria em que se encontravam as casas da Rua do Fogo, a Ordem Terceira do Carmo, encarregada da sua administração, ainda tentou levantar algum dinheiro, oficiando(25) à nova junta que assumira a administração do Vínculo. A dotação havia sumido e a contabilidade falsificada, é o que se deduz da resposta recebida:

“não podemos condescender com a vontade V. Cdes. e com o que nos propõem, porque, em todo tempo que este Vínculo esteve debaixo da administração do coronel Francisco de Abreu Guimarães, nunca houve liquidação alguma e, apenas, ele firmou uma conta arbitrária em nome desta Junta, que enviou ao Exmo. General, para este remeter a Sua Alteza, na qual mostrou não chegar a receita para a despesa, deixando por isto gravado este Vínculo com dívidas que ainda agora estamos pagando.”

Hospital Abreu Guimarães, reformado pela Siderúrgica Belgo-Mineira, em 1923.

O hospital para leprosos – mal de São Lázaro – não foi instalado em Lagoa Santa, entretanto, a irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Sabará(26), com a ajuda da população da cidade e beneméritos, cuidou da sua construção no bairro de Roças Grandes. Sua fundação data de 1883. A partir de 1944, foi assumido pelo governo do estado de Minas Gerais, com a denominação de Hospital Cristiano Machado, tendo mais recentemente ampliado seu atendimento com a prestação de outros serviços de saúde.

Gazeta de Lisboa, em 1819: alerta contra malandros.

AS ARREPENDIDAS

O Recolhimento do Rego, era uma casa de abrigo de meretrizes, em Lisboa, no convento das Convertidas de Nossa Senhora do Rosário, de religiosas franciscanas, fundado depois de 1768. Chamavam esses lugares de recolhimentos de convertidas ou de prostitutas arrependidas, que eram administrados por freiras. Tem-se notícia da primeira deles, instituído por um alvará de d. João III, em 1587. Durante largo período da história existiram muitos, tanto em Portugal, quanto em outros países da Europa, África e também no Brasil. Em 1841, discorrendo sobre a prostituição em Lisboa, um médico(27) escreveu:

“Existe em Lisboa uma casa das convertidas com o título de casa da Piedade, ou de Nossa Senhora da Natividade, na rua do Passadiço [...] com o fim de nela recolherem as prostitutas arrependidas [...] Consta que a primeira casa de Refúgio, ou das Convertidas, fora estabelecida no alto das Chagas (1587), a qual fora destruída pelo terremoto de 1755; foram depois essas mulheres ocupar um estabelecimento à Boa Morte, daí foram para o Rego.”

Como se não bastassem os fracassos no Brasil, ao adentrar no século XIX o recolhimento fatalmente caminharia para a extinção. Talvez, anunciando os tempos difíceis que viriam, em 08.05.1819, a “Gazeta de Lisboa” publicou um alerta sobre alguns vigaristas, que estavam usando o prestígio da instituição para tomar dinheiro dos incautos:

“A Regente do Recolhimento do Rego faz saber ao Público que andam pessoas fingidas a pedir esmolas para o dito Recolhimento…”

Placa comemorativa da fundação do hospital de Sabará e livro do hospital de Lázaros de Roças Grandes (1901).

O ÚLTIMO ATO

No decorrer desse tumultuado capítulo da história da Jaguara, somaram-se tantos desmandos e infortúnios, que o projeto de Antônio de Abreu Guimarães estava fadado ao desastre final. Sequer d. João VI, quando assumira a coroa, teve boa-vontade em fazer valer o que d. Maria I acertara com o doador, pelo contrário, o projeto do vínculo beneficiou apenas o sobrinho do capitão e os seus herdeiros, mais o Recolhimento do Rego.

Os sofrimentos continuaram e, em 14 de outubro de 1843, o Vínculo foi extinto pelo imperador d. Pedro II:

“Decreto n° 306 — Art. 1° - Fica extinto o Vínculo do Jaguara na Província de Minas Gerais. / Art. 2° - Os bens [...] depois de avaliados competentemente, serão arrematados a quem maior preço oferecer à vista [...] § 2° – Arrematada uma Fazenda, só se poderá arrematar outra depois de oito dias seguintes [...] § 3° – O produto da arrematação [...] será remetido à tesouraria Provincial, que o receberá e empregará em Apólices da Dívida Pública [...] / Art. 3° - A metade do juro anual das Apólices será [...] para pagamento das dívidas, com que [...] se acha onerado o Vínculo [...] a outra metade será dividida em cinco partes, [...] uma pertencerá aos herdeiros do Instituidor, outra para a fundação e um hospital de lázaros na cidade de Sabará, outra para educação de [...] meninas pobres no Recolhimento de Macaúbas e as duas últimas para a mantença do hospital já existente na cidade do Sabará [...] − José Antônio da Silva Maia, [...] com a rubrica de sua majestade o Imperador (d. Pedro II).” (28)

Como mostra o decreto, houve alteração no projeto do colégio feminino da fazenda do Riacho D’Anta. Foi substituído por um subsídio ao Recolhimento de Macaúbas, em Santa Luzia, destinado à  educação de algumas meninas pobres. Nesse sentido, em 18.11.1863, regulamentando decreto anterior(29), o marquês de Olinda determinou: “Art. 1° / §  2° – Serão admitidas tantas meninas pobres quantas o colégio puder receber e, para cuja manutenção e ensino, sejam suficientes de 1/10 do produto da venda dos bens do Vínculo da Jaguara, na razão de 400$000 para cada educanda.” Tudo fantasia, Macaúbas nada recebeu.

Na segunda metade do século XIX, a fazenda da Jaguara foi adquirida por Francisco de Paula Santos, associado ao seu genro Henry Dumont. Imaginavam que ali ainda existiria muito cascalho aurífero a explorar, mas não encontram nada e a decadência do estabelecimento prosseguiu.

Fazenda do Melo: à esquerda, rio Jequitiba e, à direita, Curvelo. Junto a Maquiné foi criada Vista Alegre. 

UM POUCO DE ALEGRIA

A fazenda do Melo, ao ter suas terras levadas à praça, foi subdividida em várias sesmarias. Era o ano de 1883 e o padre João de Santo Antônio(30) trabalhava na região designado por d. Viçoso, bispo de Mariana. Sua missão era educar o povo, melhorar os costumes e promover a vida cristã, especialmente divulgar a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Sentindo a boa oportunidade de obter terras para fundar um arraial, apelou à colaboração do povo do lugar. Conseguiu o seu intento, começando pela doação de uma extensa gleba, por d. Policena Mascarenhas(31), uma fazendeira rica e muito religiosa.

A paisagem do lugar era exuberante e o clima muito agradável. Para o padre, faltava apenas uma capela para completar o seu sonho. E não foi difícil, pois contou com a ajuda da comunidade e pôde promover a construção do templo. Em um diário anotou suas primeiras escolhas, o nome do arraial e o seu protetor:

“Aos 21 de agosto de 1883, vim dar começo à fundação da povoação de Vista Alegre, começando por edificar uma capela ao patriarca S. José…”

Capela de São José, construída nas terras do antigo vínculo da Jaguara.

Enquanto se construía a capela de São José, o padre levantou uma pequena ermida, onde prestou serviços a partir de 23.12.1883, até a conclusão da obra tão almejada.

Mais adiante:

“No dia 23 de dezembro de 1883, soou pela primeira vez a voz do sino de 62 quilos, que fiz vir do Rio de Janeiro, chamando a vir assistir a primeira missa, neste ainda cerrado de Vista Alegre.”

Pois foi nesse lugar bonito, pertinho da gruta de Maquiné, que surgiu o arraial do Sagrado Coração de Jesus da Vista Alegre. O patrimônio doado à igreja perfazia 40 alqueires e deles o padre João separou vários lotes, para distribuição gratuita. Também não se esqueceu de prover a população com o serviço de água. Mais tarde, por decreto de 09.06.1890, trocaram o nome do arraial para Cordisburgo da Vista Alegre, que é a terra natal do maior poeta do sertão, João de Guimarães Rosa. E quem descreveu melhor foi ele mesmo, no seu discurso ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras:

“… pequenina terra sertaneja, trás montanhas, no meio de Minas Gerais. Só quase lugar, mas tão de repente bonito: lá se desencerra a Gruta do Maquiné, milmaravilha, a das Fadas; e o próprio campo, com vasqueiros cochos de sal ao gado bravo, entre gentis morros ou sob o demais de estrelas, falava-se antes: “os pastos da Vista Alegre”. Santo, um “Padre Mestre”, o Padre João de Santo Antônio, [...] chamou “O Burgo do Coração”. Só quase coração – pois onde chuva e sol e o claro do ar e o enquadro cedo revelam ser o espaço do mundo primeiro que tudo aberto ao supra-ordenado: influem, quando menos, uma noção mágica do universo.”

. . . . . . . . .

Contrariando o que pretendia Antônio de Abreu Guimarães, o deus do dinheiro comandou grande parte desse processo, fatalmente levando o Vínculo à ruína total. Quem acompanhou o desastre de perto, chegou a comentar que o sonho do capitão abriu para si as portas do céu e, para muitos, as portas do inferno.

Entretanto, ainda não chegou o fim da história, a saga da Jaguara continuou e com passagens muito curiosas, que serão reveladas no próximo Post.

Por Eduardo de Paula

Retrato de Antônio Abreu Guimarães, que ilustra este Post, pertence ao acervo do Hospital Abreu Guimarães, em Sabará./ Foto da fazenda da Jaguara: Augusto Riedel, maio.1869 / Mapas do Vínculo (1787) – Fonte: Arquivo Público Mineiro. 

Vide também o Post “A Fazenda de Muita História”.

- – - – - – -

(1) Sesmaria: terra doada pela coroa portuguesa com a promessa de cultivo.

(2) Ordem de Cristo – Ordem religiosa e militar, criada em 14.03.1319, pela bula “Ad ea ex-quibus”, de João XXII. O “hábito de Cristo” designa a indumentária distintiva da ordem, portanto, há duas maneiras de se referir à comenda. O rei era o grão-mestre da ordem.

(3) Carta de sesmaria a Isabel Bueno, em 03.10.1769, viúva de Antônio de Abreu Guimarães. − Arquivo Público Mineiro – SC / 1ª seção, n° 172, data: 1769-1774, p. 16 e 16v (microfilme).

(4) O capitão Antônio de Abreu se declara cavaleiro da Ordem de Cristo, como consta em uma escritura de perdão e quitação de dívidas, lavrada em Lisboa, em 03.06.1799, vide: PASSOS, Zoroastro Vianna – “Notícia Histórica da Santa Casa de Sabará”, Imprensa Oficial de MG, 1929, p. 14.

(5) RODRIGUES, Aldair Carlos – Mestre em história social, autor de livros e articulista. / Referência a Antônio de Abreu Guimarães: Torre do Tombo, Lisboa (IANTT, HOC, Letra A, mç. 16, doc. 11).

(6) Quinta do Sumidouro: arraial fundado pelo bandeirante Fernão Dias, em 1675. Hoje pertence ao município de Pedro Leopoldo.

(7) Mapas do Vínculo da Jaguara, 1787 – Arquivo Público Mineiro.

(8) Arquivo Público Mineiro – CC / cx. 31 e CMS-055 / microfilme rolo 07.

(9) Revista do Arquivo Público Mineiro – N° 26, maio, 1975, p. 125, doc. n° 1 – Prestação de contas dos bens do Vínculo da Jaguara / Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, cx. 44, 1756-1809.

(10) Arquivo da Cúria Metropolitana de Belo Horizonte – Livros paroquiais com anotações de vários óbitos e enterros no cemitério Jaguara.

(11) Matozinhos: segundo a lenda, o povoado surgiu ao redor da capela construída em homenagem ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos.

(12) Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, cx. 111, doc. 42.

(13) Limpeza de sangue: Prática de investigação das origens dos indivíduos, imposta durante a Inquisição, segundo regras estipuladas pelo Santo Ofício.

(14) Lagoa Santa, uma das vilas mais antigas de Minas Gerais, próxima à região do Sumidouro.

(15) Mal de São Lázaro: hanseníase, o mesmo que lepra ou morféia.

(16) Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, cx. 127, doc. 24.

(17) Arquivo Público Mineiro – CC/1649.

(18) Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, cx. 127, doc. 24.

(19) PASSOS, Zoroastro Vianna – “Notícia Histórica da Santa Casa de Sabará”, Imprensa Oficial de MG, 1929, p. 14.

(20) Revista do Arquivo Público Mineiro – 1810/1814, vol. 20, publ. 1924, p. 362.

(21) Rua do Fogo: atual rua Comendador Viana.

(22) JOÃO VI, Dom − Como monarca de Portugal, em 20.03.1816, e regente desde 10.02.1792; como imperador do Brasil, de 29.08.1825 (Tratado do Rio de Janeiro). 

(23) PASSOS, Zoroastro Vianna – “Notícia Histórica da Santa Casa de Sabará”, Imprensa Oficial de MG, 1929, p. 16.

(24) Arquivo Público Mineiro – CC /cx. 31.

(25) PASSOS, Zoroastro Vianna – “Notícia Histórica da Santa Casa de Sabará”, Imprensa Oficial de MG, 1929, p. 11.

(26) Estatutos da santa casa de Misericórdia e Hospital de Lázaros de Sabará – 1910 – “… Capítulo I [...] Art. 1o – A irmandade [...] canônica e juridicamente instituída nesta cidade de Sabará [...] Art. 2o – São seus fins: § 1o – Manter os dois hospitais de caridade atualmente aqui existentes, intitulado um – Santa Casa de Misericórdia – , e outro – Hospital de Lázaros – bem como qualquer outro que, para o futuro, venha fundar…”

(27) CRUZ, Francisco Ignácio dos Santos – Médico da Universidade de Coimbra: “Da Prostituição na Cidade de Lisboa”, Tipografia Lisbonense, Lisboa, 1841.

(28) “Coleção das Leis do Império do Brasil”, de 1863, Tipografia Nacional, Rio de Janeiro, p. 51 e 52.

(29) “Coleção das Leis do Império do Brasil”, de 1843, Tipografia Nacional, Rio de Janeiro, p. 362 e 363.

(30) SANTO ANTÔNIO, Padre João de – Estudou e lecionou em Mariana (Caeté *20.05.1824,  Santa Luzia [Macaúbas] +15.09.1913).

(31) MASCARENHAS, Policena Moreira da Silva − Casada com Antônio Gonçalves da Silva Mascarenhas (comerciante e fazendeiro, em Taboleiro Grande); filha de Apolinário Ferreira Pinto e Custódia Moreira da Silva.

janeiro 1, 2012

A FAZENDA DE MUITA HISTÓRIA

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♦ Em terras de Jaguara

No século XVIII, abrangendo vasta extensão territorial da comarca de Sabará, foi criado um dos maiores estabelecimentos rurais do Brasil. A sede era a fazenda da Jaguara, situada na beira do rio das Velhas, a sete léguas da vila de Sabará. O patrimônio foi construído por etapas, tanto pela ocupação indiscriminada de terras, quanto através da doação de sesmarias(1) pela coroa portuguesa, mas também em operações de compra e venda entre particulares.

Sede da Fazenda da Jaguara. (por Augusto Riedel, maio.1869 – foto colorizada)

Existem documentos que remetem à sua criação, bem no início do século XVIII, eram os sítios do Jequitibá e do Sumidouro. Essas duas primeiras terras, pertenceram ao militar Domingos Dias da Silva, homem habilidoso na arte de conquistar territórios. Usou da estratégia comum na época, que começava pela ocupação pura e simples, depois oficializando a posse. Nesse caso, obteve a confirmação através de uma carta de sesmarias(2), assinada pelo governador da capitania Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho. Desta forma:

“… Faço saber [...] que havendo respeito ao que por sua petição me enviou [...] Domingos Dias da Silva [...] dar-lhe de sesmarias [...] três léguas [...] que tem no Jaquitibá(3) e Sumidouro(4) [...] dos campos que chegam até o ribeirão da mata grande e seus capões [...] Dada neste arraial do Ribeirão do Carmo (Mariana), aos 17 dias do mês de fevereiro de 1711…”

Domingos Dias da Silva ganhou três léguas de terras, no Jequitibá e Sumidouro.

Poucos meses depois, o governador o convocou a lutar contra os franceses, que tinham invadido o Rio de Janeiro. Para tanto, foi investido no posto de capitão-mor. A carta patente(5), lavrada no dia 06.10.1711, no Campo da Boa Vista − Rio de Janeiro −, diz o seguinte:

“… Faço saber aos que essa minha carta de patente virem que, porquanto é conveniente ao serviço de Sua Majestade e conservação destas conquistas, ir eu pessoalmente socorrer o Rio de Janeiro, por ter entrado em aquele o inimigo francês, com dezoito embarcações de guerra, sem que as fortalezas da barra lho pudessem impedir pessoas, e que é necessário levar poder bastante, como o tenho já pronto, da maior parte dos moradores de estas minas, a que também se tem oferecido as pessoas principais delas, não só os Reinóis forasteiros, mas também os naturais de São Paulo e serra acima (montanhas de Minas), e estes deverão levar seus cabos particulares, para que cada um possa satisfazer as obrigações de bom vassalo e valoroso soldado, para o que se carece de sujeito capaz, com valor e respeito, e cabedais (riquezas) bastantes e requisitos, que se acham na pessoa de Domingos Dias da Silva e na das principais famílias de São Paulo, com muito respeito entre todos os seus naturais, valor e boa disposição. Hei por bem provê-lo, como por esta faço, no posto de capitão-mor e cabo de um dos dois moços de gente dos naturais de São Paulo e serra acima, que tenho formado, para me acompanharem no dito socorro…”

Dezoito embarcações francesas invadindo o Rio de Janeiro.

O conteúdo da carta é muito instrutivo, pois revela o funcionamento da máquina do poder. Ao adquirir a patente, o latifundiário ganhou fôlego para atingir seus objetivos. As palavras do governador mostraram as vantagens inerentes à investidura:

“… cujo posto exercitará não só na referida ocasião, mas enquanto eu houver por bem, ou Sua Majestade nas mandar o contrário, para que em outras quaisquer possa ocupar o dito posto, com o qual gozará de todas as honras, privilégios, liberdades, isenções e franquezas que, em razão do dito posto, lhe tocam e são permitidas e costumam ter os capitães-mores e cabos de corpo…”

A terceira invasão francesa ao Rio de Janeiro ocorrera no dia 11 de setembro de 1711. No dia 12, uma esquadra, sob o comando de René Duguay-Trouin, adentrara a baía de Guanabara, ocupando o território por dois meses, até o dia 13 de novembro. Após o pagamento negociado de um resgate, a cidade foi libertada. Tudo aconteceu muito rápido e não houve tempo hábil para Domingos Dias da Silva dar um tiro sequer. Foi bafejado pela sorte, galgando o posto de capitão-mor por acaso e, assim, ganhando mais uma ferramenta para prosseguir nas suas impertinências.

Três fazendas de Domingos Dias da Silva, nas minas de Pitangui.

Uma carta de sesmarias(6) mostra que o prestigiado Domingos Dias da Silva ocupou também terras em Onça do Pitangui, as quais obteve por doação, em 26.03.1716. Segundo suas alegações, eram três fazendas de gado que já explorava. Está assim escrita:

“… três léguas de terras em quadra nas minas de Pitangui, que começariam no Curral do Ribeirão, que deságua na Paraopeba, e légua e meia para baixo, até fazer barra no dito Rio de Pitangui, se até ali se dilatasse a distância das três léguas em quadra…”

Dias da Silva foi um personagem simbólico da época colonial, quando muitos praticavam jogo bruto para ganhar dinheiro fácil. Na sua ilimitada ambição, não respeitava sequer as posses de terceiros. Chegou ao ponto de um proprietário, chamado Gervásio de Campos, solicitar providências ao governador, para afastar o invasor. Seu pedido foi atendido e d. Brás Baltasar enviou, ao guarda-mor Francisco Jorge Silva, um comunicado(7):

“2 de gosto de 1714 − [...] ordeno mande seu escrivão notificar a Domingos Dias da Silva e a todos mais, que quiserem intrometer-se nas terras, [...] não o façam, sob pena de proceder fortemente contra eles…”

Nem por isso deixou de merecer e de tirar proveito das benesses do governo. Em 10.02.1715, recebeu de d. Brás Baltasar licença para abrir a estrada do caminho de Pitangui para os currais de Minas e com total liberdade de escolher o traçado que achasse mais conveniente(8).

LOUCO POR DINHEIRO

Em 1717, Sumidouro e Jequitibá mudaram de mãos, o sargento-mor João Ferreira dos Santos comprou as duas fazendas e pediu, ao governador da capitania, a formalização por carta de sesmarias(9), que foi lavrada nos seguintes termos:

“… Faço saber aos que esta minha Carta de Sesmaria virem, que [...] por sua petição me enviou [...] o sargento-mor João Ferreira dos Santos, que ele está de posse de dois sítios. É um chamado Sumidouro e outro chamado Jequitibá, que comprou a Domingos Dias da Silva, a quem o governador Antonio de Albuquerque Coelho de Carvalho fez mercê deles por sesmaria [...] Dada nesta Leal Vila de Nossa Senhora do Carmo (Mariana), a 16 de agosto de 1717 – Dom Brás Baltasar da Silveira.”

Jaguara, sede do maior conjunto de fazendas da comarca de Sabará. (mapa de José Joaquim Rocha – 1778)

Dezesseis anos depois, o citado João Ferreira dos Santos acrescentou ao seu patrimônio outra sesmaria, situada ao longo do córrego das Minhocas, conforme carta(10):

“Faço saber aos que esta minha Carta de Sesmaria virem que [...] a apresentar-me o capitão-mor João Ferreira dos Santos [...] que necessitava de terras [...] me pedia meia légua em quadra no córrego chamado das Minhocas [...] Hei por bem fazer mercê ao suplicante [...] de meia légua de terra [...] dada em V.Rica a 15 de junho de 1733 – O conde das Galveas.”

Lagoa e, ao fundo, elevação onde se encontra a lapa do Sumidouro. (por Brandt – sec. XIX)

O sesmeiro foi muito favorecido foi um dos mais antigos moradores de Caeté(11), esteve ali radicado com a família desde 1706, plantando roças, criando gado e explorando ouro. Em 1711, partindo daquela vila, teve seu primeiro feito militar importante, época em que se dirigiu ao Rio de Janeiro, acompanhado de quinze escravos seus e às suas custas, para combater os invasores franceses.  Exerceu a atividade de arrecadador de tributos e sempre colaborou  com o governo. Pelos seus inúmeros serviços, chegou ao posto de capitão-mor, em 1727. Era um homem poderoso, prepotente e afoito. (12)

Durante o governo do conde de Assumar, esteve à frente de uma expedição enviada à região do Papagaio(13), com o propósito de acalmar os ânimos dos moradores, liderados por Manuel Nunes Viana(14), que se recusavam a aceitar o arrendamento das passagens(15) do rio das Velhas.

Os altos postos que galgou lhe abriram muitas portas, de modo a facilitar a construção de enorme patrimônio. Sua fortuna foi alavancada quando, em 1730, fez grandes achados de ouro, na região do rio das Mortes(16). Não bastasse a riqueza encontrada, João Ferreira dos Santos, na sua desmedida ambição, fundou uma fábrica de moedas falsas, associado a João da Costa Vilas Boas. Era uma quadrilha liderada pelos dois, mas o empreendimento acabou os levando à ruína. Em maio de 1735, foram delatados por um companheiro e acabaram todos presos. Os cabeças Ferreira dos Santos e Vilas Boas foram enviados para o Rio de Janeiro, em setembro de 1736, e depois a Lisboa, ficando reclusos na mal afamada cadeia do Limoeiro(17), aguardando julgamento.

O historiador Diogo de Vasconcelos(18)  referiu-se aos acontecimentos, dizendo que os pilantras ainda tentaram escapar, enviando uma proposta ao rei. O intermediário foi o governador do Rio de Janeiro, Gomes Freire(19), que informou terem oferecido:

“um regimento de 500 cavalos equipados e armados, posto na fronteira do Alentejo; ou uma fragata de guerra de 70 canhões, que creio a farão de 80 [...] pronta para levantar âncora e sair da barra…. 

Mas havia uma condicionante, qual seja, fazer um ajuste contábil estornando o valor dos bens confiscados:

” …importa o confisco destes dois homens, o que consta dos documentos, de que há de se abater as dívidas, que se lhe justificarem, o que aqui é fácil… − 30 de janeiro de 1735” 

D. João V percebeu a tôla jogada dos malandros, de dar seis em troca de meia dúzia. Pretendiam usar o dinheiro adquirido pelo crime, que já era do governo, para comprar a fragata e os cavalos. Mas as palavras do rei foram contundentes, diante da proposta indecorosa:

“Não sou servido de aceitar a tal proposta, porque a minha real intenção é que castiguem os delitos, conforme for de justiça [… ] –  Lisboa, 27 de janeiro de 1737.”

D. João V sobre a proposta indecorosa: “… minha intenção é que castiguem os delitos.” (Porto de Lisboa, 1730)

Insistindo em fugir à condenação, mesmo encarcerado Ferreira dos Santos continuava tomando atitudes escorregadias. Tentando se justificar, ele e o companheiro constituíram advogado, que redigiu uma petição lançando um bocado da culpa em sonegadores das Minas. Detalhe do documento revela a quanto tempo estavam presos:

“Diz o capitão João Ferreira dos Santos e João da Costa Vilas Boas, presos na cadeia da Corte, aonde foram remetidos das Minas [...] e como os suplicantes se acham presos cá três anos e não tendo ainda juiz nomeado, é infalível que se dilatará a mais tempo a prisão [...] − 30 de Julho de 1738.”

Pelo menos até 1742, Ferreira dos Santos permaneceu no Limoeiro. Nesse ano, foi submetido a interrogatórios e usou a velha tática de alegar desconhecimento do objeto das acusações. Não viu nem sabia de nada, mas, nem por isso, se livrou da condenação. A pena foi atenuada, pois tinha amigos importantes na corte, também comprometidos com a fábrica de moedas falsas. Pela gravidade do delito, seria condenado à morte, porém teve uma pena menor, de dez anos de degredo em Angola, proibição de volta ao Brasil e multa de 60 mil cruzados. Entretanto, outra vez, funcionou a manipulação dos amigos poderosos e não embarcou para cumprir o degredo. Em 1745, ainda permanecia em Lisboa, sem conseguir liquidar a dívida que lhe fora imposta.

Palavras do advogado de João Ferreira e companheiro, três anos na cadeia.

CANHÕES NA JAGUARA

Na época que estava ocorrendo grande sonegação de impostos, em data anterior e próxima a 1730, uma fortaleza com canhões foi construída na beira do rio das Velhas, para impedir o extravio do ouro. O militar João Ferreira Tavares se disse autor da obra. Ele era natural de Guarapiranga (SP) e envergava a patente de tenente-coronel e mestre-de-campo general, a mais alta das Minas. Prestou inúmeros serviços à coroa, um deles participando como agente da repressão ao revolucionário Manuel Nunes Viana, na guerra dos Emboabas.

Apesar de João Ferreira Tavares ter alardeado que construíra a fortaleza sozinho e às suas custas, os moradores da região do rio das Velhas o contestavam. Diziam que teria sido João Ferreira dos Santos, segundo proprietário da Jaguara, o responsável pela maior parte da obra. Sem dúvida, deve ter havido proximidade entre os dois militares, pois lutaram pelo governo na guerra dos Emboabas.

Em 17.12.1730, o governador da capitania, d. Pedro de Almeida − o conde de Assumar − respondeu(20) a uma correspondência de João V, na qual consultava sobre a fortaleza que o rei teria autorizado construir e Ferreira Tavares pedia recompensas pelo trabalho. Chamavam-na de reduto, palavra que consta várias vezes na carta. A opinião do governador foi que o reduto não tinha utilidade, uma vez que a vigilância de uma só parte do rio das Velhas não seria suficiente para combater o contrabando.

A resposta do governador foi ambígua, pois batia com uma mão e adulava com a outra. Primeiramente, desabonou a conduta do requerente, que considerava o “maior perturbador do sossego” das Minas e “o mais prejudicial ao serviço de Vossa Majestade.” 

Nas suas considerações, indicou que a fortaleza estaria junto à Jaguara, pois escreveu:

“… que importa que o rio das velhas esteja guardado até onde desagua o Jaguara, se o rio Taquarassu que dista dali cinco léguas e o de Antônio dos Reis que dista nove, e o Paraúna dista trinta?  [...] que importa que esteja defendido o riacho da Jaguara, que é o de menos consideração e o menos frequentado de todos os rios?

Fortaleza de São José, por inteiro e em dois detalhes; M indica estrada, N indica o rio. (o norte está à direita)

É conhecida a planta da fortaleza, denominada São José, com sua localização definida na beira do rio das Velhas, mas ainda não foram encontrados sequer vestígios de ruínas. Quatro peças de artilharia apontariam para o curso d’água, que era um caminho fluvial muito utilizado. Está posicionada no centro do desenho, mostrando a oeste a “estrada real do Sumidouro” e à leste o rio.

Na legenda, estão relacionadas as várias partes do reduto: A – Esplanada com 4 peças de artilharia, B – Lugar donde fica o pórtico, C – Casa de munições e apetrechos, D – Quartel do condestável (chefe dos artilheiros), E – Quartel dos soldados da guarnição, F – Casa para cozinha, G – Casa de cadeia, H – Casa de selas e mantimentos, I – Praça vazia, L – Poço, M – Estrada real do Sumidouro, N – Rio das Velhas, O – Perfil da edificação.

Detalhe do reduto do João Tavares, um perfil(no quadro abaixo das legendas)

Na segunda parte do parecer, o governador mudou o tom, procurando favorecer ao João Ferreira Tavares, sugerindo o pagamento de um prêmio, como escreveu:

“… como o dito tenente-general deseja muito empregar-se em servir a Vossa Majestade, fazendo-lhe serviços de distinção, e desejasse que Vossa Majestade conhecesse o seu grande zelo, [...] protesta o [...] governador que, se o tenente-general não tivesse o Hábito de Cristo, por aquele grande serviço lho daria logo…”

E se justificou, dizendo que o construtor estaria arruinado com as despesas que teve:

“… até agora ameaçava ruína a este oficial, e que este reduto foi como o sacrifício propiciatório que lhe expiou todas as culpas [...] pois, por experiência sei, que o dito João Ferreira foi, na guerra e na paz, muito bom oficial, muito ativo e valoroso, e que ainda deste serviço não resulte nenhuma utilidade, como ele o fizesse à sua custa [...] não deixa de ter merecimento…” 

MAIS UM

No dia 26 de maio de 1754, ocorreu a confirmação por carta de sesmaria, do terceiro proprietário da Jaguara, o sargento-mor Francisco da Cunha Macedo. Na verdade, tinha feito a aquisição em data anterior, em torno de 1724. Como já foi dito, incluía terras do Sumidouro e Jequitibá. O documento(21), assinado pelo governador da capitania, foi lavrado nos seguintes termos:

“Faço saber aos que esta  minha carta de sesmaria virem, que [...] por sua petição Francisco da Cunha Macedo, que ele era senhor e possuidor da fazenda da Jaguara [...] e seu antecessor o capitão-mor João Ferreira dos Santos, havia perto de trinta anos [...] dentro da fazenda se achava um capão de mato [...] em paragem chamada vargem comprida da parte do poente…”

“… me pediu por [...] sua petição [...] lhe mandasse passar carta de sesmaria, principiando a medição em um morro que estava no meio do dito capão e que fizesse pião onde mais conveniente fosse [...] Pelo que mando, ao mensageiro a que tocar, dê posse ao suplicante da [...] meia légua de terra, compreendendo nela a sua fazenda da Jaguara, o capão de mato, pertencente à mesma fazenda [...] sito na [...] vargem comprida [...] E por firmeza de tudo, lhe mandei passar esta carta de sesmaria [...] – Dada em Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto, no dia 26 de maio de mil setecentos e cinquenta e quatro. – José Antônio Francisco de Andrada.”

O PORTO

Nos fundos da fazenda, onde  o ribeirão da Jaguara lança suas águas no rio das velhas, existia um porto, utilizado para a comunicação com as vilas próximas. Grande parte da produção das fazendas da região escoava pelo rio, que também era utilizado para o transporte de passageiros. A sede da fazenda pertencia à paróquia de Santa Luzia, localizada poucas léguas rio acima, ali existiam entrepostos receptores e de distribuição de mercadorias para toda a comarca. Havia intercâmbio, de toda sorte, entre os dois lugares. Nesse porto, em 1867, o aventureiro e explorador inglês Richard Burton atracou seu barco, para conhecer a fazenda. Tinha partido de Sabará, com destino ao rio São Francisco e prosseguindo até chegar ao oceano Atlântico. O rio foi navegável, pelo menos, até o final do século XIX.

Capela da Jaguara em dois tempos: 1975 e 2010.

NOSSA SENHORA DA JAGUARA

Um destaque da fazenda é a capela que ali perdura em ruínas. A tradição oral atribui ao terceiro proprietário, Francisco da Cunha Macedo, a iniciativa de dar início à obra dedicada à Nossa Senhora da Conceição. Nos primeiros tempos era um templo modesto, mas depois foi aprimorado. Muitos dizem que foi concluído em 1786, quando a fazenda então pertencia ao português Antônio de Abreu Guimarães. Nesse sentido, a única referência existente está na inscrição localizada na fachada, indicando a data. Mas, daqui em diante, é preciso contar outra história, que fica para o próximo Post.

Por Eduardo de Paula

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(1) Sesmaria: terra doada pela coroa portuguesa com a promessa de cultivo. 

(2) Arquivo Público Mineiro: SC-07, Cartas patentes, p. 68.

(3) Jequitibá: vila que surgiu por volta de 1670, na época dos bandeirantes. Está situada na região central da zona metalúrgica.

(4) Sumidouro: arraial fundado pelo bandeirante Fernão Dias, em 1675. Hoje pertence ao município de Pedro Leopoldo.

(5) Arquivo Público Mineiro: SC-07, Cartas patentes, p. 14.

(6) Arquivo Público Mineiro – SC-09, gaveta 3. / Vila de Onça de Pitangui, vizinha à vila de Pitangui, ambas na rota dos bandeirantes, onde encontraram uma pepita de ouro de 1 onça (30 gramas), daí a origem do nome.

(7) Revista do Arquivo Público Mineiro: Ano XXI, 1927, fasc. II a IV, ano de publicação 1928, p. 651.

(8) Revista do Arquivo Público Mineiro: Ano XXI, 1927, fasc. II a IV, ano de publicação 1928, p. 653.

(9) Arquivo Público Mineiro − SC-09, p. 262 e v.

(10) Revista do Arquivo Público Mineiro − Ano 1899, vol. 4, p. 850 e 851.

(11) Caeté: vila próxima a Sabará, onde os bandeirantes descobriram muito ouro.

(12) Arquivo Público Mineiro − SC-12, p. 59 v, Carta patente de capitão-mor a João Ferreira dos Santos: “Dom Pedro de Almeida e Portugal na pessoa de João Ferreira dos Santos e a ter servido a Sua Majestade nestas Minas em praça de soldado a cavalo e no posto de sargento-mor [...] e assim mesmo em vários descobrimentos [...] de ouro [...] como foi nos anos de 1713 e 1714 no ribeirão do Morro Grande e em Cocais… / … E um grande concurso [...] na ocasião do socorro que levou ao Rio de Janeiro [...] por causa da invasão dos frenceses [...] e o fazer com sua praça de soldado de sua companhia de cavalos [...] de Caeté, levando a sua custa quinze escravos seus armados [...] por tempo de um mês [...] etc., etc. [...] por esta carta o nomeio por capitão-mor das ordenanças do distrito de São Miguel [...] Vila do Carmo, 15 de Julho de 1718…”

(13) Papagaio: região onde foi edificada a vila do Papagaio, depois denominada vila de Curvelo.

(14) VIANA, Manuel Nunes − Foi proprietário de lavras de ouro e um dos protagonistas da Guerra dos Emboabas.

(15) Passagem: onde se fazia a travessia de rios e a cobrança de tributos.

(16) Rio das Mortes: afluente do rio Grande; banha, entre outras, a cidade de São João Del Rei.  

(17) Cadeia do Limoeiro, Lisboa: Onde esteve preso o poeta Pedro Correia Garção (1771), o poeta Barbosa du Bocage (1797), o pintor Domingos Sequeira (1808) e o escritor Almeida Garrett (1827). O historiador Oliveira Martins, escreveu sobre ela: “Os homens eram amontoados, empurrados a pau para a sociedade dos assassinos, nessa salas imundas, habitação de misérias informais. Davam-lhes sovas  de cacete miguelista e, por dia, um quarto de pão e caldo, onde flutuava, raro, alguma erva.”

(18) VASCONCELOS, Diogo de − “História média de Minas Gerais”, Editora Itatiaia, 1999, p. 85 a 87.

(19) ANDRADE, Antônio Gomes Freire de – Nobre, militar e administrador colonial português. Governador e capitão-general do Rio de Janeiro, entre 1733 e 1763. Primeiro conde de Bobadela, por carta de 20 de dezembro de 1758.

(20) Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, cx. 17, doc. 57 e cx. 18, doc. 16.

(21) Revista do Arquivo Público Mineiro – Ano 1898, vol. 3, p. 923 e 924.

dezembro 15, 2011

CARREIRA DE SANTA LUZIA

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Quando se fala da Revolução Liberal, de 1842, há quem diga que os derrotados teriam fugido pela Carreira Comprida, hoje bairro da cidade de Santa Luzia (MG), onde está situada a sede da prefeitura. É uma versão distorcida e maliciosa, que poderia ter sido plantada pelos vencedores legalistas. Infelizmente permanece na boca do povo, sugerindo que fugiram em disparada ou em comprida carreira, daí teria surgido o nome do lugar. Na verdade o significado é outro, a denominação já existia muito antes da revolução.

Trecho do rio das Velhas, em Santa Luzia, no lugar chamado Carreira Comprida.

O historiador Edelweiss Teixeira(1), escreveu sobre a antiga fazenda da Carreira Comprida, que existiu na beira do Rio das Velhas.:

“Em maio de 1738,  já se encontram documentos referindo-se ao seu proprietário – Cap. Mór Diogo de Souza de Carvalho e seu irmão, Padre José de Souza de Carvalho, que mais tarde fundaria a fazenda dos Feitaes. Sucederam-lhe na posse dessa famosa fazenda: Cap. Mór Pedro Fernandes Vieira, Dr. João Tavares de Abreu, em 1756, o Cap. José Carlos Vieira, em 1788, e depois Antônio da Fonseca Ferreira, de grande projeção na vida luziense …”

Junto à fazenda, existiu também um posto de cobrança de impostos, denominado Passagem Nova da Carreira Comprida. As passagens eram locais apropriados à travessia em pontes ou embarcações e não eram permitidas em rios de águas rasas. Os tributos incidiam sobre pessoas e cargas transportadas. A concessão ocorria por licitação, promovida pelas provedorias da Fazenda Real e, depois, pelas juntas da Real Fazenda. O concessionário pagava uma quantia fixa à Fazenda, lucrando com a diferença que obtinha a seu favor. Essa passagem foi arrematada, em 1740, por Antônio Bernardo de Moraes Dantas. A informação consta do “Erario Regio”, de Francisco Antônio Rebelo, documento contábil do ano de 1768.

Arrematação da Passagem Nova da Carreira Comprida, em 1740.

No ano de 1813, o barão Wilhelm Ludwig von Eschwege, geólogo, geógrafo e metalurgista, no seu livro “Pluto Brasiliensis”, se referiu à fazenda Carreira Comprida, anotando em um quadro:

“Carreira Commida – Tent. Carl. Ant. de Fonseca Ferreira … Jozé de Souza…”, etc. No original, em alemão, há erros nas referências escritas em português, como “Tent. Carl. , pois na verdade, é tenente-coronel. Na tradução de Rodolpho Jacob, em “Publicações do Centenário em Minas Geraes”, a informação constou com mais clareza, mas ainda defeituosa:

“Termo de Sabará, Freguezia de S. Luzia: Carreira Corrida – Nome dos mineiros: Tenente Carlos (sic) Antonio da Fonseca Ferreira, 80 escravos [...] Produção das lavras: 1362 oitavas; José de Souza, 10 escravos, produção das lavras: 27 oitavas. 

À esquerda, nomes dos mineradores, na tradução do “Pluto Brasiliensis”. À direita, original alemão.

Está evidente que ambos, autor e tradutor do “Pluto Brasiliensis”, se equivocaram ao grafar Carreira Commida ou Carreira Corrida. O dicionário Houaiss traz algumas definições de carreira, como “estrada estreita, caminho, carril“; o dicionário Aurélio, como “caminho de carro, trilho, corrida veloz, correnteza“, etc. Embora se possa admitir a origem do nome numa estrada estreita no local, as evidências apontam para as características de um trecho do rio das Velhas, com cerca de 3½ quilômetros de extensão.

O padre Raphael Bluteau(2), no seu dicionário, de 1728, remete para a nomenclatura que é antiga:

“CARREIRA − da India, do Brasil, & c. A derrota [rotaou caminho ordinario destes & outros lugares maritimos. Iter maritimum ad Indos, ad Brasililiam, etc. O piloto por ser novo naquella CARREIRA.”

O título de um manuscrito, arquivado na Biblioteca Nacional de Lisboa, traz mais clareza ao emprego da palavra como caminho de navegação:

“Roteiro de Navegaçam E Carreira da Índia, com seus caminhos, & derrotas, sinaes & aguageis, & differenças da agulha: tirado do que escreveo Vicente Rodrigues, & Diogo Afonso Pilotos antiguos…”

Registro de óbito de Josefa Maria da Conceição.

UM POUCO DE HISTÓRIA 

A fazenda da Carreira Comprida, foi propriedade do tenente-coronel Antônio da Fonseca Ferreira. No ano de 1811, faleceu sua mulher, Josefa, e o registro do óbito(3) informa:

” Aos vinte de marco do anno de mil oitocentos e onze se sepultou dentro da Matriz de Santa Luzia a Dona Josefa Maria da Conceicao, mulher do Tenente Coronel Antonio da Fonseca Ferreira, a qual faleceo com todos os sacramentos, tendo feito seu testamento, eu-lhe-fiz officio de corpo presente; foi encomendada de licenca minha pelo Reverendo Doutor Vigario da Vara Jose da Costa Moreira, de que se fez este assento que assignei. O Coadjutor Manoel Pirez de Miranda”.

Registro de casamento de  José de Souza Vianna de Maria Cândida da Assunção.

Pouco tempo depois, houve o casamento(4) de um dos filhos do casal proprietário:

“11 out 1813, na Capela da Fazenda da Carreira Comprida, casamento do Tenente Jose de Souza Vianna, natural de Santa Luzia, filho do Alferes Bernardo de Souza Vianna e Angelica Maria Ribeiro e Maria Candida de Assumpcao, natural de Santa Luzia, filha do Tenente Coronel Antonio Ferreira da Fonseca e Josefa Maria da Conceicao”.

O registro(5) de casamento do filho do coronel, o capitão Antônio, revela que, antes 02 de fevereiro de 1818, o fazendeiro já havia falecido:

“02 fev 1818, na Capela da Carreira, casamento sem impedimento do Capitao Antonio Fonseca Ferreira, natural de Santa Luzia, filho do Tenente Coronel Antonio Fonseca Ferreira falecido e Josefa Maria da Conceicao falecida, com Teodora Luiza Piedade, natural da Freguesia da Vila do Príncipe(6), exposta ao Reverendo Antonio Freire Costa”.

Em 1813, duas importantes famílias de Santa Luzia se uniram, os Fonsecas Ferreiras com os Souzas Viannas. Houve o casamento de Maria Cândida, filha do tenente-coronel Antônio da Fonseca Ferreira(7), com o tenente José de Souza Vianna, filho de Bernardo de Souza Vianna(8). A cerimônia religiosa foi realizada na capela da Carreira Comprida. São inúmeras as referências a esse templo, indicando ter sido muito requisitado para eventos religiosos e, por outro lado, denotando a importância da fazenda. Lamentavelmente, a edificação não foi preservada e se perdeu parte importante do patrimônio histórico de Santa Luzia.

Fazenda Maçaricos (imagem colorizada).

Pessoas ligadas à fazenda Carreira Comprida se envolveram na Revolução Liberal e, com muita evidência, o genro do proprietário, o tenente José de Souza Vianna. Já antes do casamento, ele era proprietário de terras no vale dos Maçaricos, situado na região da atual Vespasiano (MG), onde possuía as fazendas dos Angicos e do Córrego Sujo. Ao se casar com Maria Cândida da Assumpção seu patrimônio cresceu, com o dote recebido pela esposa, a fazenda de Nossa Senhora do Rosário do Vale dos Maçaricos. Um registro(9) de batizado cita uma capela existente na propriedade:

“05 ago 1819, na Capela de Nossa Senhora do Valle de Massaricos, o Reverendo Coadjutor Jose Soares Diniz batizou e pos os Santos Oleos a Candido innocente gemio filho legitimo de Jose de Souza Vianna e Dona Maria Candida de Assumpcao. Padrinhos: Bernardo de Souza Vianna Mosso e Dona Theodora Luiza da Piedade”.

O padrinho, Bernardo, era irmão do tenente José de Souza Vianna. O adendo “Mosso”, em seu sobrenome, é grafia arcaica de “Moço”, significando “Filho” ou “Júnior”, visto que seu pai se chamava Bernardo de Souza Vianna. Encontram-se muitos documentos em que esse mesmo “moço” é chamado de Bernardino.

Antigas fazendas Maçaricos e Angicos: campos hoje cortados pela MG-10. Foto mostra área urbana de Vespasiano. 

No ano de 1815, o tenente José de Souza Vianna, estava produzindo aguardente no engenho de Maçaricos, como sucessor do tenente-coronel Antônio da Fonseca Ferreira, como se vê em um apontamento indicando sua presença, naquela data, tanto na fazenda dos Maçaricos quanto na dos Angicos. De um lado da folha, se lê:

“Freguesia de Santa Luzia / José de Souza Vianna sucessor do Tenente-Coronel Antônio da Fonseca Ferreira no Engenho de Maçaricos – 1815 – Barril 8”

E do outro:

“Fazenda dos Angicos distrito de Maçaricos / Fiz no ano de 1815 oito barris de aguardente que atesto em verdade hoje 13 de Fevereiro de mil oitocentos e dezesseis / José de Souza Vianna”

Produção de aguardente: anotações de José de Souza Vianna.

A fazenda dos Maçaricos servia também de pousada para viajantes, que se dirigiam a Ouro Preto ou ao Rio de Janeiro, muitos deles vindos da Bahia, Diamantina e Curvelo.

TEMPO QUENTE

Durante a Revolução Liberal, no mês de agosto de 1842, José de Souza Vianna, um dos líderes do grupo, combatia junto aos liberais e a sede da fazenda dos Massaricos foi ocupada pelos governistas. Houve muito tiroteio no seu entorno, provocando revoadas de maçaricos(10), é claro. Na propriedade foi montado um ponto de apoio às tropas de Caxias, como relatou(11) o coronel Manoel Antônio Pacheco, comandante das forças legalistas sediadas em Sabará, em ofício de 4 de agosto, ao governo provincial:

“… fiz acampar a Columna na Fazenda dos Maçaricos onde pernoitou; e no dia seguinte marchamos para o Capão(12)onde esperava encontrar os [...] rebeldes; porem cobardemente abandonárão aquelle Ponto, retirando suas forças para o Arraial d’Alagoa-Santa. Marchei logo em seguimento delles até junto do mesmo Arraial, onde [...] se achavão emboscados em hum mato serrado, e rompendo fogo sobre a Columna, logo nos primeiros tiros fui vitima de huma balla, que traspassando-me a espada esquerda apontou junto à clavicula [...] pondo-me fora de combate, [...] Por faltar o dia e acharem-se os rebeldes mui bem entrincheirados no Arraial, retirou-se a Columna [...] para a mesma Fazenda dos Maçaricos; [...] onde se me fez [...] extração da balla [...] e amanhã pretendo que ella torne a avançar sobre os rebeldes…”

Rio das Velhas em Santa Luzia. Ponte preservada até as primeiras décadas do século XX. (construção: 1810) 

Apesar desse revés, os governistas, sob o comando geral do duque de Caxias, estavam fadados à vitória, pois contavam com forças mais poderosas. O desfecho final se deu na batalha de Santa Luzia, no dia 20 de agosto de 1842, e foi sem muitas dificuldades, pois os insurgentes tinham suas tropas já reduzidas e careciam até de alimentos. Haviam perdido até a última peça de artilharia, como relatou o combatente liberal, cônego José Antônio Marinho(13):

“… havendo perdido a única peça que tinhão, era urgente que se retirassem, e o fizerão pela margem do córrego que banha a chácara de Vicente(14), deixando o arraial  à direita, em demanda da ponte grande. Esta retirada foi tão à vontade, que as linhas dos atiradores que mais longe estavão [...] passarão livremente entre o fogo do batalhão 8°.”

Com o 8° batalhão de Caxias disparando os derradeiros tiros, os liberais abandonaram a cidade de Santa Luzia, sem atropelos nem correrias, atravessando o rio das Velhas, pela Ponte Grande.

LUGAR BONITO

Tempos depois, no dia 8 de agosto de 1867, o explorador inglês Richard Francis Burton(15), vindo de Sabará navegando pelo Rio das Velhas, passou pela Carreira Comprida e se encantou com o que viu, deixando este relato:

“Depois de uma hora, chegamos à Fazenda Carreira Comprida, da família Fonseca, que fornece mantimentos e restilo. As terras se estendem até bem no alto das montanhas e o engenho fica em um socalco de terreno, perto do rio, que curva para sudeste. O engenho estava funcionando, quando passamos por ele e sua música me fez lembrar, com saudade, certas rodas hidráulicas do Sindh(19), Egito e Arábia: nestas terras do futuro, qualquer lembrança do passado nos é grata”.

Esta é uma pequena história da Carreira Comprida. O nome atribuído à fazenda, à passagem e à capela nasceu muito antes da revolução.

Por Eduardo de Paula

Colaboração de Berta Vianna Palhares Bigarella 

Leia também: “No tempo do Imperador“.

- – - – - -

(1) TEIXEIRA, Edelweiss – Médico, professor, historiador; membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Em “Santa Luzia, um pouco de seu passado.”

(2) BLUTEAU, Raphael – “Vocabulário Português e Latino”, Coimbra, 1728.

(3) OLIVEIRA, Vânia Lúcia de Oliveira – Pesquisa no Centro de História da Família, filme 1252320, item 4, óbitos em Santa Luzia, Minas Gerais, página 119.

(4) OLIVEIRA, Vânia Lúcia de Oliveira – Pesquisa na Cúria Metropolitana de Belo Horizonte (MG), casamentos de Santa Luzia, de 1808 a 1822, pagina 33, averbada em 27 jan 1835.

(5) OLIVEIRA, Vânia Lúcia de Oliveira – Pesquisa na Cúria Metropolitana de Belo Horizonte (MG), livro de Santa Luzia, Minas Gerais, 1808 a 1822, pagina 86 verso.

(6) Vila do Príncipe: atual cidade do Serro.

 (7) FERREIRA, Antônio da Fonseca – Tenente-coronel, cavaleiro da Ordem de Cristo, natural da Ilha da Madeira.

(8) VIANNA, Bernardo de Souza – Alferes, casado com Angélica Maria Ribeiro. Ver o Post: “A família de Bernardo.”

(9) OLIVEIRA, Vânia Lúcia de Oliveira – Pesquisa no Centro de História da Família, filme 1252319, item 7, batismos em Santa Luzia, 1808 a 1822, página 12 verso.

(10) Maçarico, denominação vulgar de aves que vivem perto de rios e lagos.

(11) Revista do Arquivo Público Mineiro, vol. 15, 1910, p. 341: “História da Revolução de Minas Geraes, em 1842.”

(12) Capão, povoado muito antigo, atual Vespasiano, na região metropolitana de Belo Horizonte. 

(13) MARINHO, José Antônio – “História do Movimento Político que no ano de 1842 teve lugar na Província de Minas Gerais”, 1844, p. 279.

 (14) RICO, Vicente – Homem de muitas posses, que explorava o porto de Santa Luzia.

(15) BURTON, Richard Francis – Explorador inglês, tradutor, escritor, soldado, orientalista, etnólogo, espião, linguista, poeta, esgrimista e diplomata): “Viagem de Canoa de Sabará ao Oceano Atlântico”, Editora Itatiaia, 1977, p. 23 e 24.

(16) Sindh, província do Paquistão.

dezembro 1, 2011

OS BICHOS DO BRASIL

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        ♦ E o dragão da bondade, especialmente.

Era uma vez um alferes… Nasceu em Vila Rica, em 1775, e ali viveu, até mudar-se para Portugal. Destacou-se, não como militar, mas por sua produção literária, particularmente ao cantar, com muita graça, a natureza brasileira dos tempos coloniais. Joaquim José Lisboa(1), na sua “Descrição Curiosa das Principais Produções, Rios e Animais do Brasil, principalmente da Capitania de Minas Gerais”, fez história sem querer ao escrever um versinho:

Temos abob’ra do mato,

Trapoiraba, herva do bicho,

Que se applica por esguicho

Aos que sentem corrupção.

Erva-de-bicho: polygonum hidropiper.

Mas que corrupção era essa, dos tempos coloniais? Tratava-se de uma degradação física, provocada por moléstia mal conhecida. Para a alegria do poeta, curava-se com ajudas da natureza. Na flora brasileira, encontravam remédio para tudo, usavam abóbora do mato, trapoeraba e erva-de-bicho.

O lírico alferes, nas notas finais do seu livrinho, enalteceu a erva-de-bicho, dizendo que “é estimabilíssima para mezinhas dos corruptos, cuja mezinha, extraída do suco dessa erva, sem se cozer e ajuntando-se-lhe algumas pimentas malaguetas e sumo de limão-francês, destrói a corrupção, refresca o corpo e sara as dores de cabeça.”

A erva-de-bicho era também recomendada para almorreimas ou, melhor dizendo, para hemorróidas. Visto que o desconforto provocado tanto pela corrupção quanto pelas almorreimas ocorresse no mesmo lugar, pela voz do povo surgiu o diagnóstico aleatório, seguido do tratamento à base do palpite.

PODER DO DRAGÃO

Em 1772, o português Luís de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres(2), para tomar posse como governador da capitania do Mato Grosso, fez uma grande viagem em montaria, do Rio de Janeiro até lá. Não disse ter adoecido no caminho, mas deixou claro em seu diário:

“Casca de pau chamado sangue de drago [dragão], quanto mais grosso milhor, bem cozida em um tacho, tomar ajudas dela e banho da mesma água é excelente para corrução [corrupção].

No dicionário, corrução é o mesmo que corrupção, quer dizer decomposição física. Mas do que se tratava? Era uma doença grave? Certamente que sim. E a infusão cozida no tacho? A casca, que o governador citou, era de uma árvore existente tanto no Brasil, quanto no Peru, Equador e Colômbia – o Croton lechleri, que possui propriedades semelhantes às do gênero Dracaena.

Croton lechleri, árvore tropical que produz o sangue-de-dragão brasileiro. 

O sangue-de-dragão genuíno, mais conhecido pelos portugueses, provinha da árvore denominada Dracaena draco ou dragoeiro, endêmica nos arquipélagos das Canárias, Açores e Madeira. No ano de 1402, Jean de Béthencourt(3), conquistador e depois auto-intitulado rei das Canárias, noticiou que essas árvores constituíam uma enorme riqueza das ilhas. Mais tarde, a partir de 1424, no início da colonização da ilha da Madeira pelos portugueses, exportaram grande quantidade de sangue-de-dragão, usado com a principal finalidade de tingimentos. De acordo com Charles Reade(4), escritor inglês da metade do século XIX, no acabamento do famoso violino Stradivarius era aplicada uma camada de verniz divino, preparado com sangue-de-dragão.

Dragoeiro (Dracaena draco), com idade próxima a 1000 anos, em Tenerife, arquipélago das Canárias.

O interesse muito antigo pela planta ficou também comprovado pelo navegador veneziano Alvise da Cà da Mosto(5) que, no ano de 1445, esteve no arquipélago português da Madeira e disse ter encontrado muitas árvores na ilha de Porto Santo:

“nela [na ilha] se acha ainda sangue de drago, o qual nasce de algumas árvores que há nela, o qual sangue é goma [...] e tira-se deste modo: dão-se alguns golpes de machado no pé da árvore…”

O sangue-de-dragão é noticiado desde o século I d.C. Nessa época, um navegador grego escreveu sobre a ilha de Dioscórida, no Iêmen, hoje denominada Socotra, onde existem muitos dragoeiros. A palavra Socotra provém do sânscrito “dvipa sukhadhara”, ilha da felicidade(6). Escritores gregos antigos chamavam o sangue-de-dragão de cinabre ou vermelhão da Índia.

PALAVRA DO PADRE

No século XVIII, o padre e dicionarista Raphael Bluteau(7), escreveu sobre o produto que é cheio de controvérsias:

“Sangue de Drago – É uma espécie de goma, que por incisão se destila em licor [...] vermelhas como sangue. [...] Mina de uma árvore do tamanho de pinheiro [...] os frutos se parecem com ginjas [...] disseram alguns que, tirada desse fruto a pele, aparece a figura de um dragão, de onde lhe veio o nome. [...] Há outras duas gomas [...] que tem alguma semelhança com esta, que se dá o nome de Sangue de Drago [...] de umas plantas das ilhas Canárias [...] e outra se cria na ilha de São Lourenço…”  

De tão famoso, disse ainda Bluteau, passaram a falsificá-lo: 

“… Em Holanda se falsifica o Sangue de Drago e se faz vermelho com pau do Brasil [...] mas não é bom usar dele para remédios.”

E continuou, tentando esclarecer a autenticidade do dragão:

“… escreve Plínio(8) que o verdadeiro Sangue de Dragão é o que corre e se coalha das feridas do dragão, depois das brigas, que muitas vezes tem com o elefante.” 

Assim também foi demais! O padre Bluteau não pôs fé no que escreveu, por isso tentou esclarecer as coisas:

“… O sangue de Dragão, que se usa nas boticas, é licor congelado a modo de refina, que se destila das árvores [...] as quais se chamam dragões. Sangram os moradores da terra estas árvores, dando-lhes golpes na casca, onde acode a umidade que têm, e ali se coalha e faz em refina, vermelha, dura e transparente.”

Segundo Plínio, remédio bom é sangue coalhado das veias do dragão. (por Vittore Carpaccio, 1516)

Bluteau falou também de um mal-do-bicho e assim o descreveu:

“He uma enfermidade causada de hum bicho que se gera [...] nos intestinos crassos & principalmente no intestino recto, junto ao cesso, em que este bicho vive da corrupta humidade & putrefação das taes partes, em que causa muita dor, roendo a substancia dellas; e não sô em o Reyno de Angola e Estados do Brasil padecem os homens essa enfermidade, mas também na Europa, sobrevindo este mal à convalecencia de outros, principalmente nos que saem dos Hospitaes & não tem commodidade de limpeza & nos que por sua condição são sórdidos em doenças dilatadas. Vejase Miguel Savonarola no livro Vermibus cap. I. Aonde faz menção de muitas espécies de bichos, que fora as lombrigas, se geram no corpo humano & causaõ morte.”

Apesar da erudição, o padre não sabia de tudo, pois tal verme nunca existiu, tratava-se de uma infecção bacteriana. Continuou Bluteau, dizendo que eram três bichos, o segundo, o bicho-de-pé(9):

“No Brasil se gera nos pés hum bicho, que no seu principio he como huma pulga & crescendo vem a ser da grossura de um grão de trigo…” e, o terceiro, o bicho que “se gera nas pernas como uma corda de viola; este frequenta mais a costa da Mina …”, aí sim, seria o “verme da Guiné”, causador de uma devastadora filariose(10). Em latim, nomeou cada um dos três, que aleatoriamente chamou de vermes(!):

“O primeiro [...] se pode chamar Morbus ex verme intestino recto innato. O segundo e o terceiro [...] morbus ex verme, pedi, vel cruri innato.

Retirada de verme da Guiné, semelhante a uma corda de viola.

Um instrumento, muito usado no combate ao pseudo-bicho do intestino, foi o sacatrapo, que facilitava a aplicação de um composto de pólvora, aguardente, pimenta e fumo na parte afetada. Sobre a palavra sacatrapo, no dicionário Bluteau explica:

“He um ferro retorcido ou fio de arame retorcido, pegado a hua [uma] vareta & com hua ponta no cabo, com que tirão nas espingardas & outras armas de fogo as buxas.”

PALAVRA DO LEIGO

Um contemporâneo de Bluteau, o médico-leigo português, Miguel Dias Pimenta(11), residente no Recife (PE), em 1707, publicou um trabalho sobre o bicho. Título: “Noticias do Que He o Achaque do Bicho, definiçam do seu crestame(n)to, subimento, corrupção, finaes & cura até o quinto grao, ou intensaõ delle, suas differenças & cõplicações com que se ajunta.” 

Abriu seu texto, escrevendo: Seus sinaes & cura, até o quinto gráo delle sómente, no sexto & ultimo se declara que cousa seja corrompimento do sesso…” 

No entendimento de Dias Pimenta, seria um bicho misterioso, por “mais que dizerem todos a hua voz ser bicho, o que ninguem afirmará vio.”

Falou, de modo um pouco confuso, da filariose africana, que se manifestava nas extremidades inferiores das pernas e pés: 

“He sem duvida, que em algu[m]s naturaes da costa da Mina, o que naõ succede em todos, ne[m] sômente na sua regiaõ; porque aos de lá sahem, nesta lhes dá hum achaque de Bicho, gerado pelos mesmos humores, descidos de sima aos pés & congelando-se, à semelhança de hua lombriga, das grandes do estomago [...] amarrando-lhe a cabeça, que logo lança de fora [...] ha um pauzinho, indo-o torcendo nelle pouco a pouco, atté que o arranca fora…” 

Dias Pimenta não ficou nisso e apresentou mais uns habitantes do país:

“He também se[m] duvida, que na nossa America ha hua espécie de Bichitos do feityo & cor das pulgas, muy diminutos no tamanho, criados da mesma causa [...] estes entrando principalmente nos pés, se criam ao tamanho de hum graõ de milho grande, gerando dentro de si muitas lendeasinhas brancas, que cursando fora, na terra, ou ainda no sapato, se acabam de aperfeyçoar na cor & cada huma a outro Bicho [...] & crear da mesma sorte outros muytos.”

Olha aí o bicho-de-pé! Desta maneira, o autor apontava em direção à falta de higiene que é, de fato, a causa primordial daquela e da variedade de moléstias que atingiam, principalmente, os negros cativos. Comenta-se que, apesar de não ser médico, Dias Pimenta comprava escravos doentes, obtinha muito sucesso combatendo o mal-do-bicho e assim podia revendê-los com lucro. Mas, aí já era a corrupção do médico pelo dinheiro…

Trabalho de Miguel Dias Pimenta sobre o mal-do-bicho, com 176 páginas.

PALAVRA DO COMERCIANTE

Em 1896, o português Joaquim Ferreira Moutinho(12), durante sua permanência de 18 anos no estado do Mato Grosso, escreveu sobre o mal-do-bicho, dizendo:

“A corrupção é o maculo, molestia oriunda da Costa d’Africa que ataca os negros e, principalmente, os de Angola e Moçambique; e que reina na Dinamarca. [...] Consiste em uma inflamação septica [...] que passa facilmente a um estado gangrenoso. [...] Ao menor descuido desenvolvem-se [...] bichos e varejas. [...] O doente chega ao desfalecimento completo. [...] N’este estado a morte é proxima, se não cede a molestia ao curativo quasi barbaro [...] Consiste em clysteres de poaia, de água com summo de limão descascado com polvora, pimenta da terra, de licor de Labarraque misturado com agua de emulsão camphorada, de agua creosotada; em suppositorios de limão descascado com polvora, pimenta malagueta e erva do bicho e applicação de calollomelanos ou de rapé.”

Moutinho viu a doença disseminada e percebeu que provinha dos maus hábitos de higiene, pois escreveu: 

“Muitas pessoas não acreditam nesta enfermidade que, afinal, é tão comum que, em pouco tempo de estada por esses lugares (em Mato Grosso), se tem ocasião de conhecel-a. [...] Evitando-se beber as aguas do rio na occasião das enchentes [...] porque essas aguas ancharcadas adquirem certa malignidade [...] e tendo como dissemos um freio ás paixões acompanhado de certos preceytos hygienicos, o maculo dificilmente se fará sentir.”

Cena da vida de escravos, as maiores vítimas das doenças.

PALAVRA DO NEGRO

A palavra máculo, usada por Moutinho,  tornou-se a denominação mais apropriada para o mal-do-bicho. Origina-se do quimbundo makulu, que corresponde a (oma)kulo, no umbundo(13). Persistem controvérsias sobre a patologia do máculo. No debate, há vozes de fora do Brasil, como o médico português João José Cúcio Frada(14) que, em 2004, publicou “O Mal-do-Bicho: novas luzes sobre uma velha doença”. Na sua opinião, as deficiências alimentares seriam as principais indutoras e estariam relacionadas ao escorbuto e ao beribéri. De fato, a precária dieta dos escravos é uma justificativa ao fato do máculo acometer principalmente os negros.

PALAVRA DO ACADÊMICO

O membro da Academia Real de Ciências de Lisboa, Luiz Antônio de Oliveira Mendes(15), apontou três causas de doenças frequentes entre os negros, as carneiradas (febres palustres), o mal de Luanda e o mal-do-bicho. Em 1812, escreveu, dizendo que a última era consequência das duas anteriores:

“A terceira qualidade de doenças agudas, que costumaõ attacar a escravatura, proguedindo-se na sequella dellas vem a ser a que se chama [...] do bicho, ou corrupção intestinal [...] que, havendo-a, se dá a conhecer pelo máo cheiro que tem o quarto em que está o enfermo. 

Esta [...] enfermidade he tambem proveniente da primeira e ordinario anda junta com a segunda, [...] porêm muitas vezes acontece [...] com independencia de todas as outras…”

Falou também do verme da Guiné, que disse ser:

“… a doença do bicho, de outra qualidade da que já fallámos [...] Este bicho que se cria nos corpos dos pretos [...] Procura-se pelo corpo do escravo aonde ele esteja e, de ordinario, se acha nos braços e nas pernas. Achado o bicho, que é semelhante a uma linha branca, fina e torcida; [...] com a ponta de hum alfinete  ou pao muito fino se afasta a pelle e logo o bicho deita a [...] cabeça para fora. [...] Prende-se a cabeça delle com um fio de retroz, que [...] em hum pequeno pao, se vai enrolando. [...] Se acaso [...] o bicho quebrar-se [...] está desenganado o escravo que morre, porque vem inchaçaõ e gangrena…”

Não se esqueceu do bicho-de-pé:

“… huma das enfermidades que maltrataõ a escravatura [...] vem a ser o Bicho [...] o qual nasce em o corpo e mãos, e com muito maior força em os pés…”

E aproveitou para aconselhar:

“… que sendo o corpo da [...] escravatura diariamente lavado [...] e demais disto os pés calçados, o que é facil na America [...] pela abundancia e barateza da courama, ella se libertaria [...] desta enfermidade, que tanto a maltrata, attenua e emmagrece.

A esse respeito ajuntarei uma observação minha: Que além [...] do asseio e lavagem, seria bom untar-se o pé da escravatura com o azeite de Dendé; o que ella assim pratica por todo o corpo em o seu paiz natalicio; pois que certamente os Bichos naõ procurarião fazer alli entrada e criaçaõ…”

Samuel Purchas, ao centro, em detalhe da página título de um dos seus livros, 1625.

PALAVRA PELO ÍNDIO

No ano de 1591, o aventureiro inglês Anthony Knivet chegou ao Brasil, acompanhado por piratas e foi preso pelos portugueses. Em regime de cárcere ou liberdade, viveu no país até 1599. Relatanto suas vivências pelo mundo, escreveu um extenso manuscrito, vendido por bom dinheiro para Richard Hakluyt. O texto caiu em mãos de Samuel Purchas(16), que o reescreveu e publicou na sua coleção de livros “Purchas his Pilgrimage”. Por esse relato, fica-se sabendo que Knivet embrenhou-se pelo interior do país, com um grupo formado por brancos, escravos negros, mulatos, indígenas e, pelo menos, um mestiço, este lhe ajudara em uma fuga. Citou(17) o mal-do-bicho nos índios:

“Eles têm vermes que rastejam em seus traseiros, que consomem suas entranhas; para o que eles usam o remédio de fatias de limão e pimenta verde, colocando lá dentro com água salgada.”

Em 1763, o professor François de Boissier de Sauvages(18), no seu livro “Nosologia Methodica”, fez referência ao máculo, dizendo ser procedente de Angola e relacionou-o ao beribéri. Revelou que a patologia existiu entre os silvícolas brasileiros e era denominada teicoaraíba. O autor era renomado médico e botânico, portanto habilitado a discorrer sobre o assunto. Citou, também, as diferentes denominações: “Tenesmus orientalis [!], Bitios angolensium”, “Doença de bicho” e “Bicho del culo”.

Tratado médico de Gomes Ferreyra, dedicado a Nossa Senhora da Conceição.

PALAVRA DO CIRURGIÃO

O cirurgião português, Luís Gomes Ferreyra(19), que atendeu nas minas de ouro e em Sabará (MG), não mostrava firmeza quando precisava diferenciar hemorróidas de mal-do-bicho, como se vê na sua obra médica “Erario Mineral”, publicada em 1735. Nela dedicou um capítulo inteiro à ’enfermidade a que chamão corrupção do bicho.”

Ferreyra começou explicando:

“Corrupção do bicho não he outra cousa, senão huma largueza e relaxação do intetino recto, e seus musculos, ou por outro nome se chama o sesso; mais ou menos largo; e segundo a mayor ou menor largueza, assim será a mayor ou menor corrupção. [...] Os prognosticos desta enfermidade, no seu principio, não tem perigo algum [...] A primeira cousa, que se deve fazer, he assentar-se [...] em uma bacia de agua morna e tomar um banho, lavando e chapejando o sesso muyto bem e por muitas vezes [...] bastará tomar alguns banhos para sarar das ditas queyxas, porque poderáõ proceder de almorreymas…”

No dicionário de Bluteau,“sesso” é o orificio do trazeyro ou pouzadeyro.” E prosseguiu Ferreyra no seu aconselhamento, dando algumas receitas, uma delas usando a famosa erva-de-bicho:

“… tome ajudas de cosimento de herva do bicho [...] por ser assim chamada por ser aprovadissima para tal enfermidade, e na America de todos conhecida, que logo farey memoria della, para se conhecer em Portugal, pois ha em varias partes sem duvida alguma, e tambem posso affirmar [...] haver no dito Reyno a tal enfermidade…” 

Esclareceu sobre a erva-de-bicho:

“Esta herva costuma aparecer em touças, com muitos nós, e muitos braços, metendo-se huns pelos outros, não muito alta; as folhas são compridinhas a modo da folha de oliveira [...] nestas Minas ha grande abundancia della e, pela especifica virtude, que tem para a doença chamada corrupção do bicho, todos a estymaõ muito…” 

Segundo o cirurgião, mal-do-bicho seria denominação brasileira, embora a doença tivesse existido em Portugal. Escreveu:

“… não porque haja bicho vivente naquela parte [...] mas porque os primeiros que no Brasil conheceram a esta doença [...] lhe deraõ este nome [...] e dizem mais, que depois que deram para se lavarem por baixo [...] logo o mal foi cessando [...] dahi lhe ficou o costume, que hoje ha em todos os habitadores da America, principalmente as mulheres, em o fazerem a miudo [...] e também como se deu naquella erva tão excellentissima para curar a doença tão terrivel…”

Coitado do Ferreyra, ele próprio sofreu do mal e teria se curado em menos de 24 horas, como revelou: 

“… Eu padeci esta doença [...] duas vezes, de uma se me foraõ as dores de cabeça com um lavatorio por baixo [...] como cousa de milagre; de outra não quiz cessar a dor de cabeça [...] senão metendo quartos de limão na via, que ficando para o outro dia dentro, amanheci saõ.” 

Retrato de Willem Piso e páginas do livro publicado juntamente com Georg Marggraff.

PALAVRA ANTIGA

No início do século XVII, o naturalista holandês Willem Piso(20) esteve no Brasil, acompanhando a comitiva de Maurício de Nassau(21). Foi quando ficou conhecendo “os bichos do Brasil” e sua cura, tal como era feita, principalmente através da farmacopeia indígena. Naquela época, conviveu com Georg Marggraff(22), médico particular de Nassau, com quem publicou, em 1648, uma obra conjunta, a “Historia Naturalis Brasiliae”, acrescida de um apêndice por Johannes de Laet(23). Nela há anotações de Piso, referindo-se aos parasitas que chamou de Bicho del culo (máculo), de Brasilianis tunga (bicho-de-pé) e de Guineensibus vermiculis (bicho da Guiné)Referiu-se, também, à erva-de-bicho, dizendo ser do gênero “pagimirioba”, a qual, sob a forma de pasta, era muito recomendada para combater o antraz − mais comum em animais − e ulcerações. Talvez sejam as mais antigas referências, de cunho científico, sobre essas doenças existentes no Brasil.

O mal-do-bicho parece ter se disseminado pela América do Sul. Em um manuscrito, de 1745, o botânico francês Joseph de Jussieu(24) fez descrições sobre a doença, que pôde observar em sua passagem por Quito, no Equador. Nos seus comentários, remetendo-se ao que tinha lido no texto de Piso, concluiu tratar-se da mesma patologia. Escreveu o seguinte:

“… esta doença se manifesta nos vivos, como nos cadáveres, por uma dilatação excessiva [...] do ânus [...] em Quito a doença é tratada por charlatães…”

ARTE DA GUERRA

Ao longo da história, os criativos habitantes do interior do Brasil desenvolveram uma tecnologia para o enfrentamento ao bicho-de-pé. Sobre o orifício de entrada do parasita, esfregavam um pouco de cachaça, depois cobriam com um pedaço de toicinho. Em não mais que uns dois minutos, devido à embriaguês do bicho, o paciente passava a notá-lo em agitação dentro da cápsula. Sentindo-se sufocado, o invasor procurava evadir-se, à busca de oxigênio. Naquele momento, com a ajuda de uma espremida, era remetido para dentro do toicinho.

Modernamente, pode-se utilizar o mesmo procedimento, substituindo os componentes por álcool 92º GL e vaselina sólida; dá para ver o bichinho entrando na substância transparente. Com a ponta de uma agulha, é possível prestar uma ajudinha ao bêbado na sua fuga inglória. Processo rápido e indolor, para os dois contendores.

Santos Marrocos ao pai: “… aflições, desgostos e trabalhos, quaes nunca pensei soffrer…” (12.04.1811)

MORRENDO PELA BOCA

No século XIX, um funcionário proeminente da corte portuguesa, veio para o Rio de Janeiro, trazendo a biblioteca real – 60.000 mil livros – e com a missão dela cuidar. Seu nome, Luís Joaquim dos Santos Marrocos(25), filho de bibliotecário e professor de filosofia. Desde então, colheu desventuras, começando ao sair da barra de Lisboa, no mês de abril de 1811, e manifestou suas angústias em correspondência ao pai:

“Meu pai e Senhor do Coração: Esta foi feita entre Ceo e agoa, sobre mil afflições, desgostos e trabalhos, quais nunca pensei soffrer…”

Mas o pior estava por vir, depois que chegou ao Rio de janeiro, em 17.06.1811. Parte da culpa caberia à rude culinária nacional, causadora de problemas proctológicos. Santos Marrocos não se adaptou à nova cozinha e, apesar dela e de tudo o mais, suportou viver no Brasil até o seu falecimento, em 17.12.1838, quando tinha 57 anos de idade. Em uma mensagem ao pai, datada de 28.09.1813, contou o motivo dos seus maiores sofrimentos e como foram aliviados graças a uma receita do Padre Teixeira(26):

“… Supondo a dor procedida de hemorróidas —  Um frango inteiro sufocado, com sangue, penas e tudo, posto ao lume em uma panela a cozer com meia camada de água, depois de cozido e bem delido, coar a dita água, quando estiver em porção de um quartilho; espremer o mesmo frango num pano forte e, dividindo a dita água ou caldo em duas porções iguais para dois dias, se tomará uma ajuda com uma porção morna, juntando-se-lhe uma colher de sopa de açúcar refinado e outra de banha de flor de laranja.”

Em 12.05.1814, permanecia desanimado:

“Eu tenho passado muito doente, cheio de aflições e desgostos, e não podendo, para minha desgraça, dar ao meu corpo enfermo algum descanso da cama, vejo-me abatido com a moléstia das hemorróidas que me dão maior incômodo, por ser nesta terra moléstia péssima…” 

Passaram-se dois anos e, 10.06.1816, continuava na mesma:

“Esta quadra não me tem sido favorável [...] a mim, com o flagelo de hemorróidas, que neste país são mais suas ativas do que em Portugal…”

Será que ninguém se lembrou de oferecer, ao bibliotecário do rei, os remédios da terra? A erva-de-bicho ou o sangue-de-dragão teriam sido ótimo socorro, melhor que comer frango sufocado.

NO TEMPO DA VOVÓ 

Até hoje, encontram-se formulações da erva-de-bicho no comércio. No século passado, o farmacêutico Joaquim Henrique Cardoso, desenvolveu uma série de medicamentos e  produziu-os, associado a Osório de Moraes, residente na cidade de Coromandel (MG). A pequena indústria farmacêutica nasceu naquela cidade, com o nome Cardoso & Moraes, fabricando pomada e pílulas de Erva-de-Bicho Imescard, pílulas De-Lussen, Auris-Sedina e Veragridol. A pomada e pílulas de Erva-de-Bicho, e as Pílulas De-Lussen, anteriormente eram produzidas no Laboratório Silva Araújo, do Rio de Janeiro. O sócio Cardoso deixou a firma em 1929 e o nome mudou para Laboratório Osório de Moraes. Graças à aceitação dos seus produtos, a empresa prosperou e ainda existe. O famoso medicamento permanece no seu catálogo. Quem viveu no tempo dos bondes, ainda se lembra dos reclames (anúncios) da erva-de-bicho.

Reunião de bruxas com sangue-de-dragão.

DRAGÃO VITORIOSO 

Quanto ao dragão, não ficou para trás. Mantém a inequívoca fama e, pelas mil e uma utilidades, a demanda pelo seu sangue só têm crescido. Os indígenas que habitam as florestas tropicais da América do Sul, usam-no para estancar sangramentos, como cicatrizante, anti-infeccioso e anti-febril. Várias empresas farmacêuticas têm se interessado em produzir medicamentos a partir do sangue-de-dragão, já existindo projetos implantados com estes objetivos.

Dizem que, nas festas do Ano Novo chinês, dão cor aos enfeites e aos dragões de papel com a tintura vermelha brilhante. A par da sua serventia para medicamentos, cosméticos e artesanato em geral, o produto tem sido muito apreciado pelos praticantes das artes do esoterismo e da bruxaria. Segundo os adeptos, o sangue-de-dragão pode ser usado para produzir encantamentos, fazer invocações, evitar malignidades e coisas do gênero. Sob a forma de tinta, é útil para redigir mensagens endereçadas ao mundo das sombras.

Agora, atenção! Conselho dos poetas: mantenham o dragão longe das crianças e dos animais de estimação.

Por Eduardo de Paula

(1) LISBOA, José Joaquim − “Descripção Curiosa…”, folheto publicado em 1804; reedição pela Coleção Mineiriana / Fundação João Pinheiro, 2002: estudo crítico por Melânia Silva Aguiar). − Alferes, agregado ao Corpo de Pedestres de Minas Gerais, por decreto do dia 2 de março de 1803 (fonte: “Gazeta de Lisboa”, 5 de abril de 1803). 

(2) Vide os Posts “A Grande Viagem”e “Viajando pela Comarca de Sabará”

(3) BÉTHENCOURT, Jean de − Fidalgo normando (*1362 +1425). No seu livro “Les canarians”, 1402, relatou a conquista do arquipélago e fez várias referências ao sangue-de-dragão.

(4) READE, Charles – Escritor inglês (*08.06.1814 +11.04.1884). Em “Readiana”, Dana Estes & Company, Boston, 1899.

(5) DA MOSTO, Alvise da Cà − (*1492, Veneza +18.07.1488, Veneza).

(6) SOCOTRA − Nome provem de “dvipa sukhadhara”, ilha da felicidade, em sânscrito.

(7) BLUTEAU, Raphael − “Vocabulario Portuguez & Latino”, Lisboa, 1720. 

(8) PLÍNIO – (Gaius Plinius Secundus) − “Historia Naturali”, 1543.

(9) Vide o Post “Um exército invencível”.

(10) Filariose ou filaríase − Doença parasitária tropical, causada por nematóides.

(11) PIMENTA, Miguel Dias − “Noticias do que he o achaque do bicho…”, Oficina de Miguel Menescal, Lisboa, 1707.

(12) MOUTINHO, Joaquim Ferreira − “Noticia sobre a Provincia de Matto Grosso…”, São Paulo, 1869.

(13) BOSSARD, Eric − “La médecine traditionnelle au centre et à l’ouest de l’Angola”, Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa, 1996. / MÁCULO = (oma)kulo, no umbundo.

(14) FRADA, João José Cúcio − Médico, antropólogo e etnógrafo; professor da Faculdade de Medicina de Lisboa e da Universidade Atlântica, em Lisboa (* 08.05.1947).

(15) MENDES, Antônio de Oliveira − Em “Memórias Econômicas da Academia Real de Ciências de Lisboa”, tomo IV, Lisboa, 1812.

(16) PURCHAS, Samuel − Escritor inglês, viajante (*1575[?] +1626). Em 1613, publicou o primeiro volume da série “Purchas his Pilgrimes”.

(17) Citação em: “Purchas his Pilgrimage or Relations of the World and the Religions”, by Samuel Purchas, printed by William Stansby, 1614 – “Chapter 4, America, The ninth Booke, page 839.”

(18) SAUVAGES, François de Boissier de − Médico e botânico francês (* 12.05.1706  +19.02.1767) . / Em “Nosologia methodica…”, Amstelodami, vol. III/2, 1763, p. 150: “teico araiba”.

(19) FERREYRA, Luís Gomes − “Erario Mineral”, Lisboa, 1735.

(20) PISO, Willem − (*1611, Leiden +28.11.1678, Amsterdam).

(21) NASSAU-SIEGEN, Johan Maurits van Nassau-Siegen, em “neederlandês”− (*17.06.1604 +20.12.1679). Governador dos domínios da Companhia das Índias Ocidentais no Brasil.

(22) MARGGRAFF, Georg − Naturalista e matemático alemão (20.09.1610 +?.01.1644). Realizou três expedições em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

(23) LAET, Johannes de − Geógrafo holandês e editor de mapas (*1581 +1649), diretor da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais.

(24) JUSSIEU, Joseph de − Botânico francês, conhecedor de matemática, astronomia e medicina (03.09.1704 +11.04.1779). Esteve no Peru e no Equador, trabalhando na medição de um arco de meridiano.

(25) MARROCOS, Luís Joaquim dos Santos − (*17.07.1781, Lisboa +17.12.1838, Rio de Janeiro). Filho primogênito de Francisco José dos Santos Marrocos, bibliotecário e professor de filosofia. 

(26) TEIXEIRA (Padre) − Religioso que atendia à família da duquesa de Cadaval.

novembro 1, 2011

VIAJANDO PELA COMARCA DE SABARÁ

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 ♦ Quatro semanas nos caminhos do sertão

No século XVIII, um fidalgo e militar, Luís de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, foi um cidadão proeminente em Portugal. Como alferes, participou da guerra do Pacto de Família, no conflito que se desenrolou no período de abril a novembro de 1762, um dos desdobramentos da Guerra dos Sete Anos(1). Em 1764,  foi nomeado capitão e ajudante de ordens do governador das Armas da BeiraCom pouco mais de 30 anos de idade, já era homem de larga experiência. Por indicação do marquês de Pombal, o rei de Portugal, d. José I, o incumbiu de assumir o posto de 4º governador da capitania de Mato Grosso. Substituiu a Luís Pinto de Souza Coutinho(2)− visconde de Balsemão − que, acometido por grave oftalmia e temendo ficar cego, retornou a Portugal. A nomeação foi assinada em 3 de julho de 1771 e, em 12 de outubro do mesmo ano, Cáceres embarcou em Lisboa com destino ao Rio de Janeiro.

Existe um diário relatando a viagem de Cáceres, nos trechos de Lisboa ao Rio de Janeiro e, daí, à vila de Paracatu, na comarca de Sabará. O redator do diário não foi Cáceres, mas um auxiliar, pois a última frase, relatando a chegada ao Rio de Janeiro, diz: “… chegou o Sr. Marques a buscar os Srs. Governadores que [nós!] levámos.” Eram Cáceres e José de Almeida de Vasconcelos Soveral e Carvalho, este nomeado governador da capitania de Goiás. Cabe uma pergunta: quem escreveu o texto seria o verdadeiro autor ou teria anotado um ditado? Parece que ambas as coisas e mais, o próprio Cáceres deve ter escrito algumas linhas.

Luís Cáceres, 4º governador.

Os dois governadores, Balsemão e Cáceres – 3o e 4o mandatos –, eram naturalistas amadores. O interesse comum fez com que, após o retorno de Balsemão a Portugal, mantivessem contato por correspondência. Associados, remeteram para a Europa um número considerável de espécimens da flora e fauna brasileiras. Uma tônica, no diário do recém-chegado Cáceres, é a especial curiosidade pela natureza brasileira, muito exótica aos seus olhos europeus.

João Cáceres, 5º governador e Luís Pinto de Souza Coutinho, 3º governador.

O 4º governador foi sucedido pelo irmão, João de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, exercendo o mandato Mato Grosso por pouco mais de seis anos, de 20.11.1789 até 28.02.1796, quando veio a falecer. Seu trabalho, em defesa dos interesses territoriais portugueses, foi muito importante ao conquistar a amizade dos belicosos indígenas da região, evitando que fizessem aliança com os espanhóis. Em 1791, conseguiu que seus líderes assinassem um Tratado de Paz com o governo, mais que isso, os transformou em vassalos da coroa portuguesa.

Casa da Ínsua, o solar da família Albuquerque, em Portugal.

O diário da viagem de Luís Cáceres foi descoberto pelo sociólogo e historiador Gilberto Freyre, nos arquivos da Casa da Ínsua, antiga residência dos Albuquerques, em Penalva do Castelo(4), na região da Beira. Retirado de um manuscrito, foi publicado(3) em 1966. A Casa da Ínsua foi construída por iniciativa de Luís Cáceres, graças à fortuna que o governador acumulou durante sua passagem pelo Brasil. Resultou num dos mais belos solares do país e passou a abrigar um magnífico acervo histórico, parte dele relativo ao Brasil setecentista. Ali foi depositada a documentação de Cáceres, como um livro de desenhos coloridos de borboletas, insetos e animais de Mato Grosso e mais um álbum com 100 desenhos de animais e 50 de plantas. Na década de 70, um incêndio devastador atingiu o cômodo que abrigava esse material de Cáceres e, talvez, muito do que viu Gilberto Freyre pode ter se perdido.

Sala dos retratos, na Casa da Ínsua.

NA COMARCA DE SABARÁ

O caminho escolhido por Cáceres, de Sabará a Paracatu, era muito usado pelos viajantes da época. Não era uma estrada e sim uma picada, por isso se pode imaginar as dificuldades que o grupo enfrentou. O historiador Waldemar de Almeida Barbosa(5) faz referência a ela, dizendo:

“… em 1736, quatro caminhos para Goiás  passaram a fazer junção em Paracatu: a Picada de Goiás [...] a de Pitangui a Goiás [...] a que passava por São Romão [...] e o caminho que transpunha o São Francisco  − este foi o de Cáceres −, na passagem do Espírito Santo, nas proximidades da barra do rio Abaeté [...] Ora, se estes quatro caminhos diferentes iam se juntar em Paracatu, de onde apenas um continuava para Goiás,  e bem possível que nesse entroncamento houvesse [...] casas de hospedagem [...] e, provavelmente algum povoado  com recursos para os viajantes.”

Além de escolher um bom caminho, Cáceres foi um homem prevenido, pois deixou boa retaguarda em Portugal, que o socorria nas eventuais necessidades. No ano de 2003, esteve na casa da Ínsua a pesquisadora Leny Caselli Anzai(6), onde conheceu uma coleção de cartas que foram enviadas a Luís Cáceres por seu procurador Paulo Jorge. Elas mostram que havia um correio expresso, mais veloz do que o andar da caravana, mantendo Cáceres em permanente contato com o procurador. Esse representante prestou valiosa assistência, pois cuidou para que os viajantes não passassem falta de alimentos, supriu uma botica de emergência, devido às frequentes doenças que ocorriam, como também enviou notícias do reino. Em uma dessas cartas, há referências a dois lugares históricos situados no caminho do sertão, o sítio do Fidalgo e a vila de Paracatu. Numa delas, Paulo Jorge escreveu:

“Em 2 de setembro [1772] escrevi a vossa excelência o que se me oferecia. Depois, recebi duas regras, em data de 12 de junho, escrita no sitio do Fidalgo, 8 léguas de Sabará, e uma carta de 4 de julho, escrita no Arraial do Paracatu, com as diversas cartas que vossa excelência encaminhava, a que dei destino.”

De fato, está anotado no diário que, no dia 12 de junho foram dormir no Fidalgo. E que, no dia 3 de julho, estavam saindo rumo a Paracatu.

Para a boa fluência da leitura, o trecho do diário aqui transcrito − de Sabará a Paracatu − foi vertido, em parte, ao atual vernáculo, bem como melhorada a pontuação. Da mesma forma, se procedeu com alguns nomes geográficos, de animais, plantas, etc., corrigindo e fazendo a devida atualização. Espera-se que essa interferência não tenha modificado o teor do relato na sua essência.

O manuscrito de Cáceres tem o título “Acento da derrota que fizemos de Lisboa para o Rio de Janeiro em o ano de 1771. A saída ocorreu no dia 12 de outubro e, no 51º dia de viagem, aportou no Rio de Janeiro. Depois dos necessários preparativos, em 17 de maio de 1772, iniciou à segunda etapa da viagem, atravessando a baía de Guanabara até Porto da Estrela, daí adentrando no país por terra, pelo chamado Caminho Novo, que o levaria a Minas Gerais.

Capela de Santana, no Arraial Velho, caminho de Cáceres para chegar a Sabará. 

Cáceres chegou a Vila Rica no dia 1º de junho e, no prosseguimento, atingiu Sabará – sede de comarca(7) –, no dia 10, como deixou anotado:

“10 de Junho – Sabará – Saí de casa do coronel Luiz José [na região da atual Santo Antônio do Rio Acima] às 6 da manhã e cheguei às 11 3/4 ao Sabará. São cinco léguas, o caminho é muito mau, quase todo cheio de morros; passa-se sempre quase a borda do rio das Velhas que, de uma parte e outra, está cheio de lavras de ouro, de serviços de roda e outros trabalhos dificultosos; passa-se primeiramente pelos sítios chamados: Engenho de Água, com seu pequeno regato; arraial de Santa Rita que é bonito, que tem uma ponte de pau, que terá 60 braças, passa-se pelo rancho do Padre Pequenino, ribeirão do Padre Pequenino com sua ponte, arraial dos Raposos com sua ponte, chamado Borumado [Brumado], Arraial Velho, etc. Encontramos muitos destacamentos de tropas auxiliares para honrar – a terra de Sabará terá 6.000 ou 7.000 habitantes, tem ouvidor, intendente, etc. – aqui me demorei um dia, mas, de tarde, marchou alguma parte da comitiva para Santa Luzia.” 

Naquele tempo, diferentemente de hoje, se chegava a Sabará passando pelo alto do Arraial Velho − atualmente é um bairro da cidade − e atravessando a antiga ponte de madeira.

Sabará, no ano de 1869, por Augusto Riedel.

RUMO AO SERTÃO

Retomando a viagem, em 12 de junho, durante praticamente um mês Luís Cáceres cavalgou pela comarca de Sabará e penetrou no sertão mineiro. No início, a rota margeava o rio das Velhas, em direção ao norte e, depois, desviava para noroeste, em direção à cidade de Paracatu, até atingir a comarca de Goiás e, finalmente, Mato Grosso. O caminho era suficientemente conhecido e a viagem foi bem planejada. O mapa utilizado para ilustrar este texto, desenhado por José Joaquim da Rocha(8), em 1778, mostra o antigo caminho.

Caminho de Cáceres no trecho da comarca do Sabará: ilustração usando mapa de José Joaquim Rocha (1778).

Cáceres estava bem informado sobre a comarca do Sabará, pois fez descrições muito corretas de lugares que estavam fora da sua rota. Começando mais uma etapa da viagem, escreveu:

“12 de Junho – Santa Luzia arraial do Figueiredo – Saí do Sabará às 5 horas e meia da manhã e cheguei ao arraial às 9 da manhã. São três léguas de distância, passam-se dois morros de muito mau caminho e, logo adiante do pequeno arraial de S. Gonçalo, se passam os lugares do alto da Soledade(9), o córrego da Laje e o dos Cordeiros, ambos com suas pontes. O arraial de Santa Luzia é grande e bonito, ali achei várias ordenanças, encontrei a partida de Goiás que trazia os quintos [imposto do quinto do ouro] e vieram acompanhados por vários oficiais de ordenança. 

No caminho, a Capela de Nossa Senhora da Soledade, entre Sabará e Santa Luzia. 

Aqui se torna a encontrar o rio das Velhas. De tarde fui dormir ao Fidalgo(10) aonde fui dormir [sic] e se pousou com pouca comodidade; a três léguas de Santa Luzia se encontra ao todo deste [no local] uma lagoa, chamada a lagoa Santa Cruz [Lagoa Santa], sua água é muito medicinal(11); também se passa, logo em Santa Luzia, uma grande ponte sobre o Rio das Velhas; e mais adiante duas léguas até o Ribeirão da Mota [Mata], com sua ponte de madeira – são de todo quatro léguas.

 13 de Junho – Jaguara e Pau-de-Cheiro Saí do Fidalgo às 6 horas e cheguei à Jaguara(12) às 9¾, são três léguas, o caminho é do Sumidouro(13), que terá um quarto de légua de comprido e 400 passos de largo; a duas léguas de distância se acha, à esquerda, outra lagoa pequena.

De tarde saí da Jaguara e cheguei ao Pau-de-Cheiro, são três léguas, cheguei pelas 5 horas. Na Jaguara torna a passar o rio das Velhas, que se não vê mais, e vai meter-se no rio de São Francisco; é uma passagem muito bonita, com engenho de açúcar, de serrar madeira. Situação airosa; lavras de ouro de meia oitava por semana, é fazenda muito grande, tem mais de oito léguas de comprimento. Da Jaguara para diante encontram-se algumas pequenas lagoas, à direita do caminho, também há uma à esquerda, tudo é bom caminho, campo excelente, a estrada segue a direção de oeste.

Capela de Santana, onde existiu o antigo povoado do Fidalgo.

14 de junho e 15 – O Melo Saí do Pau-de-Cheiro às 4 e ½ da manhã, cheguei às 10 ao Melo, são seis léguas, é país de campos e tudo quase bom caminho; passa-se pelo registro(14) de Jequitibá, onde costuma patrulhar uma partida de dragões de Vila Rica; tem ao pé uma ribeira do mesmo nome, com sua ponte de madeira; passa-se pelo sítio e rancho da Taboca, e também tem sua ribeira com pontes, etc. A 15 [dia] também me demorei aqui todo o dia, se fizeram várias caçadas de perdizes codornizes, periquitos, rolas e outros pássaros. Da Taboca para diante é arcebispado da Bahia até o rio de S. Francisco; e, dali para diante, até os Arrependidos, é bispado de Pernambuco. 

Trecho de Sabará a Onça e, no detalhe, o antigo povoado do Fidalgo. (Mapa de J. J. Rocha)

16 de Junho – Maquiné – Saí do Melo às 3¾ da manhã e cheguei ao Maquiné às 9 e ¼. São seis léguas, o caminho é muito bom, passa-se pela ponte do Melo, sítio da Taboquinha, com seu regato ao pé; sítio da Onça, onde há seu rancho, aqui passa um pequeno ribeiro do mesmo nome, com sua ponte de madeira; aqui abarraquei pela primeira vez e matei muita pomba e rolas, é um rancho muito mau.

 17 de Junho – Falcão – Saí do Maquiné às 3 e ½ da manhã, cheguei ao Falcão às 9 e ½, são 6 e½, é caminho muito bom, o país é planície, mas com algum mato pequeno, passamos pelo ribeirão da Venda Nova, sítio da Venda Nova, sítio do Sicuriu [o mesmo que Sucuri], onde há uma má casa, aqui abarraquei e se lançaram ao pasto as bestas; é muito mau sítio, aqui adoeceu o Antônio Coelho.

18 – 19 de Junho – Bicudo Saí de Falcão às 4 da manhã e cheguei ao Bicudo às 9. São cinco léguas; o caminho é planície com algum mato miúdo e muito campo; passa-se dois ribeirões e estes sem ponte e, junto do rancho, passa um ribeirito chamado o Bicudo, com sua ponte de madeira muito má.

Em o dia 19, ficamos neste mesmo sítio do Bicudo, por causa de não aparecerem dez bestas, as quais eram das que conduzem o mantimento e estas, botando-se ao pasto, se meteram ao mato, motivo da nossa demora deste dia, daqui por diante; em dois dias antes se acham muitos carrapatos pelo mato, que se pegam muito e mordem; há muitos pássaros chamados joão-de-barro, que são galantes pelos ninhos que fazem com sua divisão; há muitos veados, emas, perdizes, codornizes, rolas, etc., algumas onças, arataz [?].

Trecho de Onça ao Capão. (Mapa de J. J. Rocha)

20 de Junho – Pindaíbas – Saí do Bicudo pelas 4¼ da manhã e cheguei às 10 a Pindaíbas; são cinco léguas; o caminho é todo excelente, de campos, com algum pouco mato de quando em quando; passamos uma pequena ribeira sem ponte, pelo rancho da Sereja [?],com seu regato ao pé, quando daqui saiu o caseiro com duas cargas, um soldado e outro auxiliar; se perdeu um macho do caseiro e depois apareceu.

21 de Junho – Andrequicé – Saí das Pindaíbas às 3 ½ da manhã e cheguei às 9 a Andrequicé; são seis léguas, o caminho é excelente, tudo campo plano, com algum pouco mato de quando em quando. Passa-se o ribeirão do Funil e o do Boi, ambos sem ponte; foi o pior rancho que até aqui apareceu, não havia nada de comer; aqui vimos veados e muitos tuanois [tucanos?].

22 de Junho – Espírito Santo – Saí de Andrequicé às 4¼ da manhã, cheguei ao Espírito Santo às 10, são sete léguas boas; o caminho é muito bom, de campos, até quatro léguas de Andrequicé, daí por diante, passa-se uma grande descida de mais de meia légua de mau caminho.

Saindo do rancho antecedente, passa-se pelo regato perto, sem nome, com sua pontinha [pontezinha]; passa-se mais o ribeirão da Laje, o ribeirão Fundo e rio do Espírito Santo, todos sem ponte. Há muito tatu, muita arara, papagaios, macacos e tamanduá bandeira; o rancho do Espírito Santo não é coisa grande, mas é melhor que o antecedente. De noite choveu muito, mas melhorou de manhã; por todo este território fazia de noite e de manhã, principalmente, muito frio e assim continuou até o Paracatu.

No Abaeté, Cáceres mandou dar muitos tiros, para animar a festança de São João.

23 de Junho – Abaeté – Saí do Espírito Santo às 6½ da manhã, cheguei ao Abaeté às 10. São 2½, o caminho é bom até o rio de S. Francisco, mas pantanoso; é uma légua de distância. O rio de S. Francisco corre para o Sul, no sítio da passagem, mas logo toma para oeste, é muito grande, há de ter 700 passos de largo, passa-se em canoas atadas umas às outras; tem na margem ocidental umas más cabanas para os passadores e, diante dele, légua e meia, está o rio Abaeté, que se mete no meio [do] rio de S. Francisco, légua abaixo, e que terá 320 passos de largo, passa-se em canoa; tem um rancho na margem setentrional, onde me acomodei.

Em ambos estes rios costuma haver muitas sezões [febres] e tem muitos peixes surubis e dourados muito grandes. Fez muito frio de noite e se fizeram muitas fogueiras de S. João e, pelo mesmo motivo, mandei dar muitos tiros.

24 de junhoAs Três Barras – Saí de Abaeté às 8½ da manhã e cheguei às Três Barras às 12½ . São cinco léguas, o caminho todo muito bom, tem algum mato; passa-se, a um quarto de légua do rancho, um ribeiro em que três outros fazem três barras [desembocaduras], o que lhe dá o nome.

25 de Junho Capão Saí das Três Barras pelo meio dia, cheguei ao Capão às 3¼. São quatro léguas. O caminho é muito bom, tivemos uma trovoada com alguma chuva, mas passou logo. Passam nesta terra quatro ribeiras ao todo, sem ponte, que no inverno ou tempo das águas hão de, às vezes, ser trabalhosas. O primeiro ribeirão chama-se da Areia, o segundo o do Frade, o terceiro o do Buriti, o quarto o do Capão de Santo Tiago.

Trecho do Capão a Paracatu, aproximando-se da divisa com Goiás. (Mapa de J. J. Rocha)

26 de Junho Santo Antônio da Boa Esperança Saí do Capão às 7 horas da manhã e cheguei ao rancho de Santo Antônio às 11 horas. São quatro e meia léguas, o caminho quase todo é bom, porém tem algumas descidas e subidas, das quais se passam quatro mais pequenas e sem ponte. De manhã choveu alguma pequena coisa; em todos estes dias passados não fez calma, antes, de noite, bastante frio.

27 de junho Capão do Rio do Sono Saí de Santo Antônio da Boa Esperança pelas 6½ da manhã e cheguei aqui às 11 horas. São três léguas, o caminho é muito bom. Geralmente a três tiros de espingarda [distância] da Boa Esperança para riba [cima] havia ribeira muito grande que, em tempo de águas, é muito dificultosa a passagem; esta ribeira chama-se a de Santo Antônio, mas é verdadeiramente o rio do Sono; logo adiante se passa outra ribeira chamada das Almas, que igualmente se passa a vau [de água rasa] e é dificultosa com tempo de águas; mais adiante se passam dois pequenos riachos, os chamam Cachimbo, coisa fraca.

Estes dois primeiros ribeiros grandes de Santo Antônio e Almas correm para o norte o primeiro e o segundo para NE [nordeste]. O ribeiro de Santo Antônio corre para o norte e vai fazer barra no rio de Paracatu, depois de levar em si o rio do Sono e das Almas, e a ribeira de Cachimbo; esta barra é feita a 15 léguas da outra que faz no rio de S. Francisco; e a barra dista, que faz o Paracatu no rio de S. Francisco, nove léguas, se acha o arraial de S. Romão, na margem esquerda, indo pelo rio abaixo.

O rio da Prata mete-se no rio Paracatu meio quarto de légua para cima da passagem, a qual, por abuso, se chama passagem do rio da Prata, devendo ser passagem do rio Paracatu, em que já vem incluído o rio da Prata. Aqui foi o primeiro rancho onde tornamos a ver telha [cobertura de telhas] depois do Bicudo. Adiante do rio do Sono, à direita, toma outro caminho, chamado de S. José, o qual vai meter no que segue ao Vomitório ou antes um pouco.

Cena típica do sertão, com palmeira buriti e revoada de maritacas.

28 de Junho – As Almas – Saí do rancho antecedente pelas 6½ da manhã e cheguei às 11½. São cinco léguas; passa-se logo o rio do Sono, que é bastante grande, corre para o nascente; além da passagem, está um rancho do mesmo nome; logo adiante, está o regato do Atoleiro; o rio de S. Bartolomeu, que tem muita água, corre para o norte; o rio da Catinga também leva bastante água e corre também para o nascente. Adiante o rio das Almas, que é mediano; todos sem ponte e, em tempo de águas, serão muito dificultosos de passar. O rancho das Almas não presta para nada. Aqui adoeceu o rapaz Antônio Francisco e fugiu o mulato de José da Fonseca.

29 de Junho  Roça de Santa Isabel – Saí do rancho das Almas as 6½ da manhã e cheguei às 10½ a Santa Isabel. São quatro e meia léguas medianas; o caminho é excelente, menos o princípio, que passa entre um bosque, com suas subidas e descidas. Deste caminho se avistam as vastíssimas planícies chamadas de S. Jerônimo, a de Antônio de 25 ou 30 léguas, que rodeiam quase todo o horizonte pela banda do este, de nordeste e de SE [sudeste]. Não se acha água neste caminho. O rancho de Santa Isabel é bastante mau.

Acha-se muita caça por estes campos; além de perdizes e codornizes, há muito veado, onças, antas, etc.; há pássaros diversos muito grandes como emas, seriemas, coruacas [?], etc.

Trinta dias cavalgando na comarca do Sabará.

30 de Junho – Vomitório – Saí do rancho de Santa Isabel pelas 6½ da manhã e cheguei às 9¼. São três léguas: o caminho é planície pela distância de légua e meia, e logo se acha um alagadiço que, aos lados, tem uma espécie de lagoa e o resto do caminho é por entre um bosque de mato grande; o rancho do Vomitório vale muito pouco. O rio da Prata corre aqui e, adiante cinco léguas, se vai passar o rio Paracatu, onde já vai enchendo o da Prata, tendo feito barra meio quarto de légua acima. Aqui houve baile de noite, de batuque feito pelas moças da fazenda.

1o de Julho – Campo, légua e meia adiante do rio da Prata, chamado riacho das Almas. Saí do rancho Vomitório pelas 4 horas da manhã e cheguei a este sítio pelas 10, depois de ter feito a necessária demora em passar o rio. São seis e meia léguas, cinco ao rio e uma e meia a este lugar, onde passa um pequeno riacho, perto dum bocado de mato.

O rio da Prata, ou verdadeiramente Paracatu, é nocivo aos passageiros pelas más águas que leva; quando se passa leva já consigo o rio da Prata, que se mete pouco em cima da passagem e o rio Escuro, que pouco antes se mete no Paracatu. O rio é profundo e terá, neste lugar, 300 braças de largo; na margem oriental tem um rancho com bastantes comodidades e, da outra parte, também tem alguma casita. A gente passa em duas canoas e todos os cavalos a nado. O caminho até o rio é tudo planície, mas corre entre vários alagadiços e pantanais e o rio corre para o norte.

 Espírito Santo e Paracatu; Arrependidos, em Goiás. Em verde: rios Paracatu e São Francisco. (Mapa de John Arrowsmith, 1832) 

2 de Julho – Córrego Rico  Saí do rancho passado pelas 4¾ da manhã e cheguei a Córrego Rico pelas 11 da manhã. São seis léguas; o caminho não é mau, mas tem seus montes, passam-se dois pequenos riachos com pontes de madeira; passa-se no mau rancho do Olho de Água, meia légua adiante a direita está uma grande lagoa, que dá princípio a um ribeirão; este tem muito peixe e muito sucureu [sucuri?], mas é muito nociva a sua vizinhança. No meio do caminho se matou um tamanduá, de que se tirou a vista. O rancho do Córrego Rico não é mau aqui; principiam outra vez as minas do ouro.

3 de JulhoParacatu – Saí do Córrego Rico às 7 ½ da manhã e cheguei a este arraial às 10 horas. São três léguas pequenas, o caminho é muito bom, passa-se por uma pequena ponte sobre um ribeiro, de madeira, e pelo reguto [registo, registro] ou coutagem [contagem] de Nazaré, pelo rancho de Nazaré, a que, em distância de uma légua, se achava um esquadrão de cavalaria auxiliar, e vieram esperar muitas gentes da terra, que é bastante grande e merecia ser vila; tem 600 vizinhos e mais de 5.000 pessoas. O sítio [lugar] é bonito, numa planície, havia muitas lavras de ouro e, já noutro tempo, foram muito maiores; aqui nos fizeram os maiores obséquios e nos demoramos três dias de quedo [estada] e, no dia 7, se continuou a jornada para Goiás.”

Da direita para a esquerda: Paracatu, Vila Boa, Cuiabá e Vila Bela. (Mapa de John Arrowsmith, 1832) 

GOIÁS E MATO GROSSO

Saindo de Paracatu, Cáceres entrou em Goiás pelo caminho que passava pelo arraial dos Arrependidos, até alcançar Vila Boa. Dalí, prosseguiu, em direção a Mato Grosso, passando por Cuiabá e chegando a Vila Bela, seu destino final(15). Para o amante da natureza e cavaleiro de primeira viagem ao Brasil, certamente foi uma aventura e tanto!

Por Eduardo de Paula

Veja o Post: “A Grande Viagem”.

• Luís de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres (* 21.10.1739  + 07.07.1797, Lisboa)  Governou Mato Grosso, de 13.12.1772 a 20.11.1789, retornando a Portugal em 1791. Foi Conselheiro de Estado, membro do Conselho Ultramarino, Coronel de cavalaria, Comendador da Ordem de Cristo. Por sua determinação, em 06.10.1778, o tenente Antônio Pinto do Rego e Carvalho fundou a cidade que levou seu nome: Cáceres. // • João de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres (* 1741 + 28.02.1796, Vila Bela) Governou Mato Grosso, de 20.11.1789 a 28.02.1796.

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(1) Guerra dos Sete Anos – Conflitos internacionais, ocorridos entre 1756 e 1763, durante o reinado de Luís XV.

(2) COUTINHO, Luís Pinto de Souza (visconde de Balsemão) − (* 27.11.1735 +14.04.1804) − Mandato de governador de Mato Grosso: 03.01.1769 a 13.12.1772. Nomeado governador de Mato Grosso, por carta régia de 21.08.1767. Regressou a Portugal em 13.12.1772. 

(3) FREYRE, Gilberto – “Contribuição para uma sociologia da biografia: o exemplo de Luís Albuquerque, governador de Mato Grosso, no fim do século XVIII”; fonte “O Portal da História” (internet).

(4) Penalva do Castelo: cidade situada na região do alto Dão, Portugal.

(5) BARBOSA, Waldemar de Almeida − “Dicionário Histórico-Geográfico de Minas Gerais”, Ed. Itatiaia, 1995.

(6) ANZAI, Leny Caselli − “História, Cultura e Sentimento: Outras Histórias do Brasil”, Editoras UFPE e UFMT, 2008, p. 168 a 185. 

(7) Comarca de Sabarátambém chamada comarca do Rio das Velhas. Era a maior da capitania de Minas Gerais. Limitava ao sul com as comarcas do Rio das Mortes e de Vila Rica, a leste com a do Serro Frio, a oeste com a de Goiás e, ao norte, com a de Pernambuco.

(8) ROCHA, José Joaquim da – Engenheiro militar português e cartógrafo. Viveu no Brasil na segunda metade do século XVIII. 

(9) Alto da Soledade: denominação do topo de um morro em Sabará, onde foi construída a capela de Nossa Senhora da Soledade. (Vide o Post “No alto daquela serra”).

(10) Fidalgo: antigo povoado, próximo à Lagoa Santa, na região onde foi assassinado o fidalgo castelhano d. Rodrigo Castello Branco, a mando do bandeirante Borba Gato. Restou a capela de Santana, em ruínas, situada na Fazenda do Fidalgo. O mapa de José Joaquim da Rocha indica o povoado, que não deve ser confundido com o atual Fidalgo (junto à Quinta do Sumidouro), pertencente ao município de Pedro Leopoldo. No diário, Cáceres deixa bem clara a localização do Fidalgo: “Saí do Fidalgo [...] e cheguei à Jaguara, são três léguas, o caminho é do (que vai para o) Sumidouro…” O atual Fidalgo fica depois da Quinta do Sumidouro. No Dicionário Histórico-Geográfico de Minas Gerais, Waldemar de Almeida Barbosa diz: “A vila hoje denominada Fidalgo [...] nada tem com o antigo e primitivo arraial de Fidalgo.”/// Interpretação do percurso do dia 12 de junho: Saída de Sabará, tomando o caminho que passa pelo alto da Soledade, para chegar a Santa Luzia. Total, 3 léguas – Prosseguimento em direção oeste, até a ponte do ribeirão da Mata (localizada na atual cidade de Vespasiano); distância, 2 léguas. Daí, subindo a serra, até Lagoa Santa e, finalmente, chegando ao Fidalgo. Total, 4 léguas.

 (11) MIRANDA, Antônio [frei] − Morador de Sabará, foi o primeiro a atribuir qualidades medicinais às águas de Lagoa Santa, dizendo-se curado de suas chagas ao banhar-se no lago.

(12) Jaguara: Sede de conjunto de antigas fazendas, às margens do rio da Velhas, no atual município de Matozinhos. A propriedade foi fragmentada, restando a parte denominada Jaguara Velha, com algumas construções remanescentes.

(13) Sumidouro: Povoado conhecido por Quinta do Sumidouro, junto ao lago e à lapa de mesmo nome, onde o bandeirante Fernão Dias construiu uma casa. Hoje pertence ao município de Pedro Leopoldo.

(14) Registro ou contagem – Posto onde era feita a fiscalização do trânsito de mercadorias e a cobrança dos impostos.

(15) Arrependidos: arraial ao pé da serra dos Arrependidos, em Goiás, onde havia um registro para cobrança de tributos. Vila Boa (GO): onde Cáceres chegou em 25 de julho, permanecendo até o dia 27 de agosto. Vila Boa, teve o nome mudado para Goiás Velho e, hoje, chama-se Goiás. Dalí, saiu para Cuiabá (MT), onde chegou em 4 de outubro. Cáceres permaneceu em Cuiabá até 12 de novembro, saindo para Vila Bela, sede da capitania de Mato Grosso, onde chegou em 5 de dezembro.

outubro 1, 2011

A GRANDE VIAGEM

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:30 am

 ♦ A aventura de Luís Cáceres.

No século XVIII, um fidalgo e militar, Luís de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, foi um cidadão proeminente em Portugal. Como alferes, participou da guerra do Pacto de Família, um dos desdobramentos da Guerra dos Sete Anos(1), conflito que se desenrolou no período de abril a novembro de 1762. Em 1764, foi nomeado capitão e ajudante de ordens do governador das Armas da Beira. Por indicação do marquês de Pombal, o rei de Portugal, d. José I, o incumbiu de assumir o posto de 4º governador da capitania de Mato Grosso.  A nomeação foi assinada em 3 de julho de 1771 e, em 12 de outubro do mesmo ano, embarcou em Lisboa, com destino ao Rio de Janeiro, acompanhado de José de Almeida de Vasconcelos Soveral e Carvalho(2), designado governador para a capitania de Goiás. Quando a nave aportou, no dia 1 de dezembro – 51º da viagem –, os viajantes foram saudados, efusivamente, com tiros de canhão. 

Luís Cáceres, 4º governador de Mato Grosso.

No Rio de Janeiro, Cáceres permaneceu por seis meses, preparando a longa jornada até a sede da capitania de Mato Grosso. Em 25 de julho, chegou à Vila Boa(3), sede da capitania de Goiás, onde ficou Soveral e Carvalho e, em 27 de agosto, saiu novamente em viagem. Em 4 de outubro, chegou à Vila do Cuiabá e, no dia 12 de novembro, posseguiu rumo à Vila Bela da Santíssima Trindade, a capital, chegando em 5 de dezembro de 1772, após 116 dias nessa aventura por terra. Parte do percurso, de Lisboa ao Rio de Janeiro e daí a Paracatu – na comarca de Sabará – está relatado no diário de viagem. Coube ao sociólogo Gilberto Freyre a descoberta desse documento, que publicou em 1966. Trata-se de um manuscrito encontrado nos arquivos da Casa da Ínsua, antiga residência dos Albuquerques − família de Cáceres − em Penalva do Castelo, região da Beira, em Portugal.

O redator do diário não foi Cáceres, mas uma pessoa da comitiva, pois a última frase, relatando a chegada ao Rio de Janeiro, diz: “… chegou o Sr. Marques a buscar os Srs. Governadores que [nós!] levámos.” Os dois citados eram Cáceres e José de Almeida de Vasconcelos Soveral e Carvalho. Sem se esquecer de que, entre os recém-vindos, estavam duas figuras contrastantes, o capitão-engenheiro Salvador da Mota Franco(4) – egresso da cadeia do Limoeiro(5) – e um frade. O engenheiro tinha a missão de prestar serviços ao governo da capitania.

Quanto ao diário, cabe uma pergunta: quem escreveu o texto seria o verdadeiro autor ou teria recebido a incumbência de anotar um ditado? Parece que ambas as coisas e mais, o próprio Cáceres deve ter escrito algumas linhas. O governador de Goiás também deixou um diário, lavrado em duas caligrafias distintas, evidenciando que foi produzido por duas pessoas(6). O nome do redator oficial consta do próprio título: “Diário [...] que do Porto e cidade do Rio de Janeiro fes [...] José de Almeyda Vasconcellos de Soveral e Carvalho, para Vila Boa [...] Por Thomás de Souza, Ajudante das ordens do Governo …” (7)

CÁCERES CONSTRUTOR

Desde jovem, Cáceres demonstrara interesse pela engenharia e essa vocação está representada em um dos seus retratos, no qual traz uma planta nas mãos. Na sua governança, fez um censo populacional, criou um tribunal de justiça e planejou uma ligação entre as bacias do Prata e da Amazônia. Fundou as cidades de Vizeu, Albuquerque, São Pedro Del Rei, Casalvasco e Vila Maria do Paraguai (às margens do Rio Paraguai), homenageando a rainha d. Maria I, mais tarde trocado por Cáceres. Implantou os registros de Jauru e Ínsua, para cuidar da cobrança de impostos. Promoveu expedições de demarcação de fronteiras, de investigação de minas de ouro e exploração de rios.

Um dos seus principais encargos foi a construção de um forte, em plena floresta amazônica, às margens do rio Guaporé, de forma a preservar às terras fronteiriças do Brasil com a Bolívia. No final do ano de 1773, fez uma grande viagem de reconhecimento da região, escolhendo o sítio para a edificação. O forte fica na margem direita do rio Guaporé, atual Guajará-Mirim, no município de Costa Marques, estado de Rondônia. Foi batizado com o nome de Príncipe da Beira, em homenagem ao filho de d. José de Bragança, neto primogênito de d. José I.

Luís Cáceres segurando uma planta e a Casa da Ínsua. 

Simultaneamente à edificação do forte, Cáceres enviava a Portugal plantas e recursos financeiros para a construção de uma magnífica mansão que abrigaria sua família, a denominada Casa da Ínsua ou solar dos Albuquerques. Ali foi depositada valiosa documentação, que o 4º governador de Mato Grosso levou consigo do Brasil, após 17 anos de serviços prestados à coroa portuguesa. O seu diário é parte da coleção. A Casa da Ínsua, hoje é um hotel de “charme” e museu, em Penalva do Castelo, a 25 km de Viseu, na Beira Alta.

O forte Príncipe da Beira, em Rondônia, que foi desmembrada de Mato Grosso, em 1943.

A primeira capital de Mato Grosso foi Vila Bela da Santíssima Trindade, instalada em 19.03.1752. Situada às margens do rio Guaporé, numa região de muita riqueza mineral, pela sua posição estratégica protegia o território brasileiro da cobiça dos espanhóis, que tinham a vizinha Bolívia sob seu domínio. Atendendo à recomendação do Conselho Ultramarino de Lisboa, com o objetivo de modernizar a antiga vila, foi elaborado um projeto para a nova cidade, em 1777. Dele existe uma cópia, arquivada na casa da Ínsua. Tem o seguinte título:

“Plano da capital de Villa Bella do Mato groço [...] Cujo plano se levantou no anno d’1777, por direção do Govor e Capam General daquella Capta a mais Ocidental do Brazil, Luis d’Albuqe d’Mello Pra e Cáceres.”

Implantá-lo foi difícil missão de Luís Cáceres naquela terra longínqua, isolada e insalubre. Depois de pouco mais de meio século de existência, imensas dificuldades forçaram a transferência da capital para Cuiabá, o que se deu em 28.08.1835.

Plano da capital Vila Bela. 

Cáceres foi substituído pelo irmão, João de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, que também realizou um belo trabalho. Os planos do 5º governador eram ambiciosos e realizou aqueles que o tempo lhe permitiu, pois morreu cedo. Entre suas obras, iniciou uma catedral em Vila Bela, onde seu corpo foi sepultado. Em 1882, Pizarro de Araújo(8) escreveu:

 ”João [...] Cáceres [...] Faleceu ahi a 28 de fevereiro de 1796 e jaz na Igreja Matriz da Capital, que elle havia edificado em sumptuosidade e não chegou a concluir.” 

João Cáceres e as ruínas da catedral de Vila Bela.

DIÁRIO DE NOTAS

Os autores foram bons informantes, tal a riqueza de detalhes do diário. Há um trecho, referente aos dois últimos dias da viagem por mar, em que a caligrafia é de Cáceres. Certamente, experiências compartilhadas durante a grande viagem se refletiram no conteúdo do relato.

Viagem de Luís de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres,

de Lisboa para o Rio de Janeiro e desta cidade para Paracatu (1771-1772)

PRIMEIRA ETAPA — Lisboa − Rio de Janeiro

Acento da derrota que fizemos de Lisboa para o Rio de Janeiro em o ano de 1771.

Dias do mês 12 [Outubro]  Dias de viagem 1 Lat. da saída 38º

Hoje, sábado 12 de Outubro, saímos da barra de Lisboa às 8 horas e 3 quartos em o navio Santa Ana Carmo e S. Jorge em companhia de (em branco) navios e 2 fragatas, sendo comandante José Sanches de Brito; uma das ditas logo se dezapartou de nós, chamada S. João Baptista, fomos seguindo nossa viagem com vento nordeste fresco, tempo claro, mar chão e ao meio-dia estaríamos distantes da barra 9 léguas e a sul 9 minutos.

Dias do mês 13 – Dias de viagem 2 – Lat. 37º 52’

Hoje domingo se observou o Sol e ficamos na lat. e longitude a margem, ventos mais bonanças, tempo claro, mar chão a vista dos mais navios, excepto a fragata S. João; pelas 3 horas da tarde falámos com uma corveta francesa que vinha de Marselha e ia para Norte, apareceram mais dois navios e um passou por nosso sotavento e ia no bordo do Nordeste.

Dias do mês 14 – Dias de viagem 3 – Lat. 36º (Long.) 51”

Hoje segunda-feira se observou o Sol e ficamos na latitude a margem andamos 48 léguas e 01 minuto para o Sul, que foi o caminho que o navio fez para vários rumos que andou; ventos fortes e vários desde o Norte. até o OEste, o mar vagueado, tempo nublado, alguns borrifos de água. Apareceu um navio por nosso barlavento francês às 10 horas da manhã navegava a leste outro a este vento na borda do sul a vista de todos os navios da nossa conserva.

Dias do mês 15 Dias de viagem 4 Lat. 36º 18’

Hoje terça-feira sobreveio temporal e ficamos na Santa Ana; aragem vento bonança, mar vagado, tempo claro, fez a fragata sinal para os navios da retaguarda fazerem força de vela ventos Ne (Nordeste) Norte todos os navios da nossa conserva à vista. 

Dias do mês 16 Dias de viagem 5 Lat. 35º 50’

Hoje quarta-feira observei o Sol, digo se observou o Sol e ficamos na latitude anotada, andamos de distância 49 léguas e para o sul 27 minutos. Ventos desde o Noroeste até o Nordeste, calmas, tempo não muito claro, o mar vagueado a vista de todos os navios.

Dias do mês 17 Dias de viagem 6 Lat. 35o 24’

Hoje quinta-feira se observou o Sol e ficámos na latitude a margem, andou o navio de distância 44 léguas para o Sul 27 minutos desde às 8½ estivemos a capa até às 3 da tarde, o vento muito bonança a Nordeste; o mar chão o tempo claro à vista de todos os navios da conserva foi a Charrua à fala da fragata por esta lhe fazer sinal para isso deitou bota fora pelas 2½ da tarde.

Dias do mês 18 Dias de viagem 7 – Lat. 35º 05’

Hoje sexta feira não se observou o Sol por estar encoberto, porém fazendo a estimativa pela barquinha se julgou andar segundo o rumo aprazado seguindo 19 minutos para o Sul e de distância 13 léguas e ficar na linha (?) à margem ventos do N e e Nornordeste, bonanças, tempo nublado, mar chão apareceu um passarinho pequeno do feitio de canário e outros mais à vista de todos os navios da nossa conserva.

Dias do mês 19 Dias de viagem 8 Lat. 34º 30’

Hoje sábado se observou o Sol e por ele ficámos na latitude na margem, navegando de distância em singradura 1/2 léguas e para o Sul 35 m, o vento muita bonança, desde o N até Oeste e por ela fomos no bordo do N até às 11½ que viramos no Sul, tempo claro, muito calor, mar muito chão, matou-se um passarinho ao 4o tiro pequeno; pescou-se uma Ca[senv]a pequena, veio a bordo o escaler da nau com hum capitão-tenente e um capelão pelas 2½ horas da tarde e se foi logo.

Dias do mês 20 Dias de viagem 9 – Lat. 34º 08’

Hoje domingo se observou o Sol e por ele ficámos na latitude à margem navegando de distância (em branco) e andou para o Sul 22 m, ventos bonanças desde o Ne até Oeste, mar chão, tempo claro, as 9½ horas da manhã avistámos uma baía. Os navios todos da nossa conserva à vista.

Dias do mês 21 Dias de viagem 10 – Lat. 33º 31’

Hoje segunda-feira se observou o Sol e por ficamos na latitude à margem fazendo andar o navio de distância 14 léguas e para o Sul 37 m., vento de viração desde o sueste até o nordeste, tempo claro e calma, mar chão, à vista de todos os navios da conserva. Fez a nau sinal com três peças e uma bandeira branca no tope da proa para os navios de barlavento arrulearem para o sotavento às 5½ horas da tarde.

Dias do mês 22 Dias de viagem 11 Lat. 32º 35’

Hoje terça-feira se observou o Sol e por ele ficámos na latitude à margem navegando de distância 20 léguas e tendo de diferença de latitude 56 minutos, vento nordeste fresco. Tempo claro, mar pouco vagado às 8 horas falou a nau a 2 navios e um deitou bote fora.

Dias do mês 23 Dias de viagem 12 – Lat. 30º 54’

Hoje quarta-feira se observou o Sol e por ele ficamos na latitude à margem navegámos de distância 31 léguas e tivemos de diferença da latitude r°- 41′ vento nordeste fresc o, o mar vaguado tempo claro. Pela r hora da tarde fez a nau sinal de navio de mais as da nossa conserva a vista todos.

Dias do mês 24 Dias de viagem 13 Lat. 28º 38’

Hoje quinta-feira se observou o Sol e por ele ficámos na latitude à margem navegamos de distância 4½ léguas. Fizemos de diferença de latitude 2º - 16 m., ventos nordeste e lesnordeste. Tempo claro. Mar vagueado. Às 11½ horas falámos à fragata a despedir-nos para seguirmos nossa derrota; e esta logo fez sinal aos mais navios para fazerem força de vela, avistamos uns voadores.

Dias do mês 25 – Dias de viagem 14 – Lat. 26º 03′

Hoje sexta-feira se observou o Sol e por ele ficamos na latitude à margem. Navegamos de distância 46 léguas e para o Sul, andamos 2º 35’, vento forte desde o Norte até Leste, mar vagueado, tempo claro pela manhã se avistavam umas baleias, adoeceu o piloto e à tarde o capitão quis fazer exercício e determinou à gente cada um para seu posto, pela manhã ainda 4 navios da nossa conserva apareciam.

Dias do mês 26 – Dias de viagem 15 Lat. 23º – 07’

Hoje sábado se observou o Sol e por ele ficámos na latitude à margem andámos de distância 528/10 léguas e para o Sul 2º – 56′ vento leste e Lesnordeste, mar bastante vagueado. Tempo claro. Já se não viu navio nenhum.

Dias do mês 27 Dias de viagem 16 – Lat. [em branco]

Hoje domingo se observou o Sol e por [ele] ficámos na latitude à margem, navegámos de distância 51½ e tivemos de diferença de latitude 2º 52’, ventos os mesmos, porém mais bonanças. Tempo claro. Mar pouco vagueado. Aparecerão alguns gafanhotos e uns passarinhos pequenos. Levantou-se o piloto, apareceu um navio muito a leste em que ia no bordo do Sul o que se julgou ser da nossa conserva. Hoje se sentiu mais calor que os mais dias.

Dias do mês 28 Dias de viagem 17 – Lat. 18º 47’

Hoje segunda-feira se observou o Sol e por ele ficámos na latitude à margem andámos de distância 27 léguas e para o Sul 1º 28’ ventos bonanças desde o Norte. Leste tempo algum tanto nublado mar chão, apareceu mais outro navio também no bordo do Sul e se via juntamente a outro na mesma distância.

Dias do mês 29 Dias de viagem 18 Lat. 16º 50’

Hoje terça-feira se observou o Sol e por ele ficámos na latitude à margem andou o navio de distância 35 léguas e para o Sul 1º 57‘ ventos bonanças desde o Norte até Leste e pela manhã calma mudança de pano, aparece mais outro navio que com os dois que apareciam fazem 3. Viram-se muito bandos de avoadores.

Dias do mês 30 Dias de viagem 19 Lat. 14º 55’

Hoje quarta-feira se observou o Sol e por ele ficámos na latitude à margem, andou o navio de distancia 35 léguas e para o Sul 1º 55′, ventos nordestes. Tempo claro. Mar muito pouco vagueado. A vista dos mesmos 3 navios.

Dias do mês 31 Dias de viagem 20 Lat. 12º 21’

Hoje quinta-feira se observou o Sol e por ele ficámos na latitude à margem. Andou o navio de distância léguas 34½ e para Sul 2º 34’. Vento fresco nordeste e Lesnordeste, tempo claro, mar chão, à vista de dois navios somente. Deu o capitão muitas palmatoadas num marinheiro por escaldar um rapaz.

Novembro Dias do mês 1 Dias de viagem 21 Lat. 10o 35’

Hoje sexta-feira se observou o Sol e por ele ficámos na latitude à margem. Andou o navio de distância 33 léguas e para o Sul 1º 50’ vento bonança Leste e Lesnordeste e Nordeste. Tempo claro, mar chão. Os mesmos dois navios. [...]

Dias do mês 28 Dias de viagem 48 – Lat. 21º 44’

Hoje quinta-feira se não observou o Sol porém segundo o que o navio andou pela barquinha nos fizemos ficar na latitude à margem e andar de distância 45 léguas e para o Sul 2º 20’. Ventos frescos desde o nordeste até noroeste. Céus nublados de dia. Mar chão.

Dias do mês 29 Dias de viagem 49 Lat. 21º 15’

Hoje sexta-feira se não observou o Sol por estar nublado, porém segundo o que o navio andou ficámos na latitude à margem. Andou o navio de distancia 53 léguas e para o Sul 31’. Ventos frescos desde o Nordeste até Noroeste. Tempo nublado. Mar algum tanto vagueado. Às 11 horas do dia por se verem as águas amansadas se andou e se achou de fundo 25 braças e logo depois se viu terra a que se julgou ser as ilhas de Santa Ana. Viemos navegando até à noite que estávamos com o Cabo Frio, e depois se ferrou tudo e fomos assim até à meia-noite, falámos a uma lancha de pescaria às 2 horas da tarde para o que se lhe atirou 1ª peça.

Dias do mês 30 Dias de viagem 50 Dias 50 e 51 – [letra diferente, presumivelmente de Cáceres].

Pela manhã estávamos com uma terra alta, chamada a Ponte Negra N.O.S.E. coisa de 3 léguas e não se via por causa de estar neblinado e víamos na terra com ventos vários de ocaso bonançoso e pelas 8 horas víramos no mar e veio uma lancha de pescadores e atiramos-lhe uma peça cujo a bordo tomámos um homem para prático por estar neblinado a terra depois. E chamada Sacaremar que fica antes de chegar a Ponte Negra. Fomos no bordo de mar até à 1 fora da tarde que veio o vento para o Sul. Fiz com proa de E.So. e pelas 6 horas da tarde clariou e vimos umas ilhas, que estão distante da barra 3 léguas chamadas Achenda, mas como era tarde e a noite de neblina virámos no mar até à meia noite e pela meia noite virámos na terra pela manhã estávamos distante da dita ilha as mesma três léguas mas mais ao Sul e fomos buscar a barra, o vento abonançou que esteve quase calma pela 10. Pelo meio-dia do dia 51 estávamos Leste-Oeste com uma ilha chamada a Oraza, isto de frente da barra 2 [11?] léguas e pelas 3 na barra e pelas 4½ de mar fundo; a fortaleza da barra tinha ordem para nos salvar o que fez com 17 peças e nós recebemos com 15 de chegando nós até à ilha chamada dos Natos [?] chegou o Sr. Marques a buscar os Srs. Governadores que levámos.”

Mapa do Caminho Novo, em 1812, por John Mawe.

Para adentrar em Minas Gerais, Cáceres escolheu o Caminho Novo, que ligava o litoral do Rio de Janeiro a Vila Rica, daí prosseguindo até Sabará e, em seguida, tomando o rumo do sertão. Assim foi descrita parte da viagem pelo território brasileiro:

SEGUNDA ETAPA — Rio de Janeiro − Paracatu

Notas e desenhos de Luís de Albuquerque na viagem do Rio de Janeiro a Paracatu.

António Pinto recebeu de mim no Rio de Janeiro 105.000 e tantos reis. Recebeu mais 74.000 e tantos reis.

[Segue um quadro com distâncias em léguas entre cada parada]

17 de Maio de 1772 − Paulo Pereira

Pelas 8½ horas da manhã saímos do Rio de Janeiro; passámos a Baía até o Porto da Estrela até uma hora depois do meio-dia; ali jantámos e saindo pelas 4 da tarde chegámos ao rancho ou pousada chamada de Paulo Pereira que são duas léguas que tem comodidade bastante entra-se no fim da Baía pelo pequeno rio chamado Inhumerim e duas léguas acima se acha o porto da Estrela o caminho de lá até Paulo Pereira é muito bom guarnecido de muitas pequenas roças. Passam-se três pequenos riachos em pontes de madeira. [Seguem distâncias entre paradas]

Porto da Estrela, em uma gravura de Rugendas (início do sec. XIX).

18 de MaioManuel Correia

Partimos de Rancho do capitão Paulo Pereira às 5½ horas da manhã; e às 11 chegámos ao Rancho de Manuel Correia; passou- se a serra dos orgãos que são duas léguas de distância. Sobe-se muito e desce-se pouco: a subida da serra é muito áspera e perpendicular no meio da serra à uma pequena roça e no fim dela, aonde chamam Rio Seco há um rancho que tem comodidades; légua e meia dali está o rancho de Itamarati bastante cómodo tendo daí até Manuel Correia é bom caminho passam-se duas ribeiras ou 3, e uma delas em Itamarati se passa numa ponte de madeira, a ribeira chama-se Piabanha. Choveu muito e fez tal frio que foi preciso chegar ao fogo. [Seguem distâncias entre paradas]

19 de MaioFagundes

Saímos do rancho de Manuel Correia às 5½ horas da manhã; chegámos à Rosinha do Fagundes pelo meio-dia. São 6 léguas de distância; anda-se 1 légua e meia à borda da ribeira Piabanha, o mais é caminho passageiro mas sobem-se e descem-se muitos morros; param-se muitos pequenos ribeiros em más pontes de pau; e por vários regos à borda do caminho chamados Pedro Martins secretário Fagundes o Paiol Boa Vista: é todo o País de bosque virgem; somente perto das roças tem algum bocado desbravado. São 5½ as pontes chamam-se a ponte da Cidade a ponte de Pedro Martins é grande sobre a Piabanha, Ponte Pequena de Magé, há mais 4 pequenas e a ponte de Secretário, Ponte de Fagundes.

20Paraíba

Saí da Rosinha do Fagundes às 5½ da manhã, e chegámos a Paraíba às 10½; andaram-se 4½ léguas; quase todo o caminho é bastante bom, ainda que sempre se descem e sobem morros diferentes; o País é muito semelhante ao de Portugal, na vista geral, quando lá é mês de Maio; encontram-se neste caminho várias roças ou ranchos passageiros; a meia légua da Paraíba, se vem encontrar a estrada de terra firme que vem do Rio de Janeiro. O rio Paraíba corre para a banda de N.E. 4a. Neste sítio defronte da passagem corre muito arrebatadamente, terá quarenta braças de largo, pouco mais ou menos é muito profundo, tem neste sítio uma pequena guarda ou regimento com um oficial de auxiliares e seu destacamento. Pára-se em uma grande barca. Saindo da Rosinha do Fagundes passa-se pelo lugar das Cebolas, lugar da Laje, de Silva Moreira e pára-se um pequeno regato lugar de Castro Borges; pára-se outro pequeno regato, mais outro lugar de Castro Borges; Rosinha da Silva Moreira às 7 horas e ¾, chegámos ao alto do monte do Governo, lugar chamado do Governo, daqui ao lugar de onde tínhamos saído são duas léguas, pára-se num regato à saída do monte do Governo é muito perpendicular; passámos o ribeirão do Luca que tem uma ponte de madeira, outro ribeirão do luca que tem sua ponte, Ribeirão do Luca. Fomos cumprimentados pelo comandante da guarda, homem de bom gosto, o qual foi cortar uma boa porção de laranjeiro com muita laranja só afim de desembaraçar a vista das casas em que fiquei.

21 de MaioParaibuna

Saí da Paríba às 5¾, da manhã; chegamos às 10¾, a Paraíbuna; são 5 léguas pequenas, porém como o caminho em algumas paragens é péssimo, principalmente no morro da Cachoeira, representa-se duma grande dificuldade a dita paragem da Cachoeira se acha a três léguas da Paraíba e dela até o registo de Paraibuna todo o caminho é subir e descer muito; a distância de duas léguas da Paraíba se acha o rancho chamado a Farinha, é tudo caminho por entre bosques, param-se alguns regatitos pequenos da Paraíba. A Paraibuna é um rio um pouco mais largo que a Paraíba mas com muito menos águas tem da banda da Paraíba o rancho que é bastante mau e da outra parte um capitão de auxiliares com guarda do registo e o provedor também assiste ali; a passagem da barra da Paraíba junta com a da Paraibuna rendem anualmente ao rei 115 ou 116 mil cruzados. A 5 ou 6 léguas de distância daqui se mete até o rio Paraíba e principia a haver gentio chamado Curuado e Tupu, há outros chamados Chaputos e Ainia fazem seu comércio às vezes recebendo facas machados e trazem macacos papagaios, cera. Na Paraibuna estavam dois destacamentos um de dragões comandado pelo conde de Valadares e outro de auxiliares pretos, o comandante do regimento fez mil homenagens, puseram luminárias, etc. [Seguem distâncias entre paradas]

22 de MaioMatias Barbosa

Saí da Paraibuna às 6 e ¼ não podendo ser antes por conta do regimento e passagem da barca: cheguei a Matias Barbosa às 11 e vinte minutos: logo que se entrou na capitania de Minas, se acharam seguindo os ordinários do Sr. Conde de Valadares os lameiros belamente compostos de novo, os lameiros não são maus somente logo adiante de Paraibuna há os morros chamados os 3 irmãos que tem muitas subidas e descidas; passamos por algumas roças ou ranchos muito bons, o País é excelente tem um ar admirável: a distância uma légua passámos pela Rocinha da Negra meia légua adiante os três irmãos adiante mais o lugar da várzea rancho de Simão Pereira freguesia de N. Sr.a da Glória e lugar de Simão Pereira a Rocinha do Paraíso tem uma pontezinha; uma parte do caminho anda-se à borda da Paraibuna; da Paraibuna a Matias Barbosa são 5 léguas. O capitão Manuel do Vale administra o regimento que aqui se acha que rende para o rei anualmente entre 350 e 400 mil cruzados todas as cabeças pagam uma entrada; ou passagem e da mesma sorte as fazendas, todos que passam para Minas; o capitão Manuel do Vale Amado era o provedor do regimento, homem muito generoso e magnífico; aqui se apalpam e examinam as pessoas que vem de minas; aqui deixei um dos meus pretos doentes.

23 de Maio Juiz de Fora

Saí do regimento pelas 6 horas da manhã e cheguei ao juiz de Fora pelas 10¾ são 4 e ½ léguas, o caminho tem algumas subidas e descidas bastante ásperas, passa-se pela Rosinha do Medeiros lugar do Marmelo, aonde passa a ribeira Paraibuna e se torna a encontrar no mesmo lugar de juiz de Fora mas, se deixa à esquerda, passam-se duas pequenas pontes de madeira neste caminho costumam andar patrulhas para guardar a entrada e a busca aos diamantes; aqui se matou uma garça que se copiou.

24 de MaioO Engenho – Francisco Nunes Correia

Saí às 4 horas da manhã cheguei às 11¾ ao lugar chamado o Engenho; são 6 léguas de distância, o caminho não é muito bom, principalmente em algumas paragens onde se sobem e descem muitos morros; depois de sair do juiz de Fora, passa-se pelos lugares – Alcaide-Mor, Rosinha de Alcaide-Mor, Rosinha de António Moreira; à distância de duas léguas se acham uma ponte chamada da Cachueira, ao pé fica o morro deste nome, o lugar de António Moreira; ponte de madeira tem de comprimento esta ponte 60 braças e uma de largo; segue-se o lugar do Queirós onde ouvimos missa e assiste o vigário da freguesia; Rocinha de Queirós; junto desta Rosinha se acha um caminho feito de madeira que terá 75 braças em lugar pantanoso e no fim tem sua ponte indo de Azevedo; depois de chegar ao Engenho se achou doente um familiar da Paraíba; achou-se menos uma de minhas espingardas; e sucedeu a novidade de se cortar a língua a hum cavalo de Manuel Rodrigues; são 6 léguas.

25 de MaioFazenda de Francisco Gomes

Saí do Engenho ou fazenda de Francisco Nunes Correia às 7 e¼ da manhã, chegámos às 10¾, à fazenda de João Gomes; são 3 léguas; o caminho não é mau mas se sobem e descem muitos morros; passa-se uma ponte com um bocado de estrada de madeira; lugar de Luís Ferreira, Rosinha de Luís Ferreira ao pé passa um pequeno regato, lugar de Pedro Álvares, fazenda de Pedro Álvares; Rosinha de Pedro Álvares, Rosinha de Francisco de Macedo, na Rosinha de Pedro Álvares há comodidade bastante – 3 léguas.

26 de MaioManuel Dias ou Borda do Campo ou José Aires Gomes

Saí de Francisco Gomes às 4 e ½ da manhã, cheguei às 10 e ½ a Borda do Campo; são 6 léguas de distância; passa-se primeiramente pelo lugar de Pinho Velho, Pinho Novo, ponte da Mantequeira, aqui se passa um regato de água e nele principia a serra da Mantequeira que é um pouco áspera, o lugar de Calheiro ao pé tem uma estrada de madeira e se passa logo um pequeno regato; de Francisco Gomes ao princípio do campo são 4 e ½ léguas, acha-se ali um pinhal de árvores grandes e logo se segue o chamado campo que é um paul que a pequena distância se parece muito com o de Portugal, não tem mato ali, nos esperavam companhias de auxiliares com o seu major e diversos oficiais de auxiliares e ordens e outros indivíduos; chegando a Manuel Dias a pequena distância antes da roça se acha um pequeno regato com sua ponte e logo aqui se aparta para a esquerda o caminho pelo rio das Mortes; aqui vi linho, trigo, pessegueiros, pereiras, macieiras, marmeleiros; também há perdizes muito grandes, codornizes como as perdizes de Portugal; 6 léguas.

27 de MaioIgreja Nova

Saí da Borda do Campo ou José Aires no dia 26 depois de jantar e vim dormir à Igreja Nova onde chegamos cedo ainda, são 2 e ½ de distância, é País muito limpo e fértil, tem semelhança com o País de Portugal aonde não é Montanhoso passam-se duas pontes pequenas, uma maior de 15 braças onde foi o registo Velho, que é agora em Matias Barbosa; logo no lugar de José Aires ou Borda do Campo passa-se perto do rio das Mortes, e se torna a passar no Registo Velho depois o lugar de João Ribeiro, depois a uma pequena ponte; o arraial da Igreja Nova terá 50 casais de moradores, a Igreja que está principiada mas pouco adiantada em edifício, é um sítio muito airoso e bonito – 2½ léguas. A 10 léguas daqui se acham índios bravos chamados Botecudos e Pueris e actualmente se trabalhava na conquista deles.

28 de MaioAbranches

Saí da Igreja Nova às 7 horas da manhã, cheguei às 11 e ½ à fazenda de Abranches; são 4 léguas, todo o caminho é de campo excelente passa-se a duas léguas de distância por um bom rancho chamado o Ribeirão de Alberto Dias; pouco antes se achava um destacamento de auxiliares fardados de azul e amarelo; e dali légua e meia outros muitos fardados de branco, e à porta do Manuel Abranches estava uma companhia de ordenança – 4 léguas. Adiante do ribeirão se passa pelo lugar das Caveiras, que tem junto uma pequena ponte e o lugar da Cangalheira com seu regato e ligando Alberto Dias com sua pequena ponte, a 3 léguas da Igreja Nova deixamos o caminho da ressaca, que é o verdadeiro e tornamos a direito para Casa do Abranches e daqui a uma légua se mete outra vez no verdadeiro caminho a estrada.

29 de MaioO Engenho do Campo

Saí do rancho do Abranches às 7 e ½ da manhã e cheguei ao Engenho do Campo aos ¾ para uma hora; são 5 léguas de distância, bom caminho, avista-se de campo oito ou 9 léguas de horizonte, passa-se pelo lugar do Carandali, onde corre um rio pequeno que se mete no rio dos Mortos a bastante distância pelo lugar da fazenda das Taipas, perto passam dois regatitos com suas pontes: no lugar do engenho se achavam ordenanças, são 5 léguas.

30 de MaioBananeiras

Saí do Engenho do Campo às 6 e ½ da manhã, e cheguei às Bananeiras às 11, são 4 léguas de distância, o caminho é de Campos excelentes; passa-se pela Rosinha da Peropeva que tem sua pequena ponte lugar de Peropeva também com sua ponte de madeira e ribeirão do Inferno tem sua ponte; sítio dos Mulatos, lugar da Badeirinha, ponte das Bananeiras; no casal estava uma companhia de ordenança chamada Nobreza; e nas Bananeiras se achava a outra companhia; são 4 léguas. Adiante está o arraial de Cárijós a distância de meia milha.

31 de MaioChiqueiro

Saí das Bananeiras às 5 horas da manhã e cheguei ao Chiqueiro aos ¾, para a uma hora, são 7 boas léguas; o caminho é muito bom menos a serra de Deus te Livre que se passa a 5 léguas das Bananeiras, é sumamente áspera; passa-se pelo arraial dos Carijós a um 4o de légua das Bananeiras tem hoje poucos moradores mas sendo bastantes casas de taipa, é freguesia, depois pelo rancho novo, ponte das Congonhas sobre o rio do mesmo nome que desce a caminho da vila Rica, da de S. João de el-rei, alho da varzinha rancho da varzinha, com sua pequena ponte; lugar dos Carreiros rancho dos Carreiros arraial do Ouro Branco aonde ouvi missa; tem sua igreja e bastante moradores; rancho perto do morro no meio da serra Deus te Livre, tem um rancho novo, rio das Lavrinhas, rancho das Lavrinhas. No arraial do Ouro Branco havia uma companhia de auxiliares a cavalo; por todo este caminho se acham muitas lavras de ouro.

Sé de Mariana, dedicada a Nossa Senhora da Assunção, tal como Cáceres não viu.

Quando relata o deslocamento para Vila Rica, o autor do diário fez referência ao povoado de Mariana que, embora estivesse fora da rota principal, era muito próximo e despertara interesse. Os comentários foram desabonadores, dizendo não haver “coisa notável”, nem a casa do bispo ou sequer a igreja da sé. De fato, o templo ainda era em taipa, pois a atual configuração, com as paredes externas em pedra e cal, data do ano de 1798.

1° de JunhoVila Rica

Saí do Chiqueiro às 6 e ½ da manhã e cheguei a Vila Rica às 12 e ½, são 3 léguas, passamos pelo sítio chamado Capão de Olanda, lugar do Pinheiro, que perto tem um regato com ponte de madeira; Capão de José Correia, sítio de José Correia, que ao pé tem seu ribeirão; aqui se achava um esquadrão de cavalaria auxiliar; depois pelo sítio das 3 Cruzes; Venda Nova, aonde havia outro esquadrão de cavalaria auxiliar, a uma légua de Vila Rica chamada Tapué se acha o general Conde de Valadares com as suas gentes; e logo adiante estava o esquadrão chamado da Nobreza bem fardado de encarnado com boa música, depois se continuou a marchar para a vila aonde se achavam debaixo das armas vários corpos de auxiliares: brancos, mulatos, negros, com suas respectivas músicas. Vila Rica é uma povoação grande terá 13.000 habitantes situada sobre vários morros, quase que forma uma só rua que terá quase de comprimento uma légua tem duas freguesias, uma do Ouro Preto, outra de António Dias; tem duas Igrejas grandes e asseadas; tem intendente e fundição, provedor da fazenda intendente e ouvidor; o Palácio do Governador é pequeno, posto que por todo o lado se trabalha em minerar; dali duas léguas está Mariana, é uma povoação chamada cidade mas não merece o nome, perto passa o ribeirão do Carmo, que corta o caminho de Vila Rica até à de Mariana; aqui não há coiza notável; a casa do Bispo é muito fraca; há um seminário e a Igreja que serve de Sé é também coisa ordinária.

8 de JunhoArraiais de Santo António da Casa Branca

Saí de Vila Rica à uma hora depois de meio dia e cheguei aos arraiais às 5¾, são 3 e meia léguas; passa-se a meia légua da vila, a serra de S. Borromeu mais trabalhosa de caminho que passei, pois sempre se vai em grandíssimo perigo; passa-se uma pequena ribeira com sua ponte de madeira, chamada a ponte dos Taboões, aqui se achavam tropas de auxiliares e dão a sorte no arraial aonde achei um civil do general conde de Valadares com um cavalo de presente; o conde com todos os oficiais e ministros veio acompanhar até o meio da serra, mandou dar descargas, formar tropas, etc. Este arraial terá 50 vizinhos; aqui encontrei algumas gentes do rio das Velhas.

9 de JunhoFazenda do Coronel Luís José Sota

Saí do Arraial de Santo António da Casa Branca às 7 horas da manhã, e cheguei às 2 e ½ da tarde; são 6 léguas e meia; passa- se pelo rancho da Portela, o alto do Gravata, lugar da Ponte Nova, e aqui perto passa o rio da Velhas, tem sua ponte de madeira que terá 16 léguas de comprimento, corre para o Norte, aqui há umas grandes lavras de ouro; passa-se pelo areal do rio das Pedras que é bonito, tem sua ponte, que terá 10 braças, ribeirão manso com sua ponte rancho do Coche de Água, ribeirão dos Machados, Santo António do rio das Velhas, aonde também passa; perto deste areal se acha um negro há vinte e tantos anos dormindo debaixo de uma árvore, e passeando de dia ao redor do caminho, sempre nu, sem falar a ninguém traz sempre um pequeno cliveite consigo na mão, que não deixa beijar a nenhum branco, somente aos negros; come sempre no chão alguma coisa que se lhe dá.

10 de JunhoSabará

Saí de casa do coronel Luís José às 6 da manhã e cheguei às 11¾ ao Sabará. São 5 léguas, o caminho é muito mau, quase todo cheio de morros; passa-se sempre quase à borda do rio das Velhas que de uma parte e outra está cheio de lavras de ouro, de serviços de roda e outros trabalhos dificultosos; passa-se primeiramente pelos sítios chamados: Engenho de Água, com seu pequeno regato arraial de Santa Rita que é bonito, que tem uma ponte de pau que terá 60 braças passa-se pelo rancho do Padre Pequenino, Ribeirão do Padre Pequenino com sua ponte, arraial dos Raposos com sua ponte chamado Borumado arraial Velho, etc. Encontramos muitos destacamentos de tropas auxiliares para honrar – a terra de Sabará terá 6.000 ou 7.000 habitantes, tem ouvidor, intendente, etc. – aqui me demorei um dia mas de tarde marchou alguma parte da comitiva para Santa Luzia.

Sabará, em 1842, setenta e um anos depois da passagem de Cáceres. (Gravura de Heaton & Rensburg)

12 de JunhoSanta Luzia arraial do Figueiredo

Saí do Sabará às 5 horas e meia da manhã e cheguei ao arraial às 9 da manhã. São 3 léguas de distância passam-se dois morros de muito mau caminho, e logo adiante do pequeno arraial de S. Gonçalo se passam os lugares do Alto da Suledade, o Corgo da Lage e o dos Cordeiros, ambos com suas pontes. O arraial de Santa Luzia é grande e bonito, ali achei várias ordenanças, encontrei a partida de Goiás que trazia os 5.os e vieram acompanhados por vários oficiais de ordenança. Aqui se torna a encontrar o rio das Velhas. De tarde fui dormir ao Fidalgo aonde fui dormir [sic] e se pousou com pouca comodidade; a três léguas de Santa Luzia se encontra ao todo deste uma lagoa, chamada a lagoa Santa Cruz, sua água é muito medicinal; também se passa logo em Santa Luzia uma grande ponte sobre o rio das Velhas; e mais adiante 2 léguas até o ribeirão da Mota com sua ponte de madeira – São de todo 4 léguas.

13 de JunhoJagoará e Pão de Cheiro

Saí do Fidalgo às 6 horas e cheguei à Jaguará às 9¾, são 3 léguas, o caminho é do Sumidouro que terá um 4o de légua de comprido, e 400 passos de largo; a 2 léguas de distância se acha há esquerda outra lagoa pequena. De tarde sai de Jagoará e cheguei ao Pau de Cheiro, são 3 léguas, cheguei pelas 5 horas. No Jagoará torna a passar o rio das Velhas, que se não vê mais, e vai meter-se no rio de São Francisco; é uma passagem muito bonita com engenho de açúcar, de cerrar madeira. Situação airosa; lavras de ouro de meia 8a por semana, é fazenda muito grande, tem mais de 8 léguas de comprimento. Da Jagoará para diante encontram-se algumas pequenas lagoas, à direita do caminho também há uma à esquerda, tudo é bom caminho campo excelente, a estrada segue a direcção de Oeste.

14 de Junho e 15O Melo

Saí do pau de Cheiro às 4 e ½ da manhã, cheguei às 10 ao Melo, são 6 léguas, é país de campos, e tudo quase bom caminho; passa-se pelo registo de requitibá onde costuma patrulhar uma partida de dragões de Vila Rica; tem ao pé uma ribeira do mesmo nome com sua ponte de madeira; passa-se pelo sítio e rancho da Taboca, e também tem sua ribeira com pontes, etc. A 15 também me demorei aqui todo o dia, se fizeram várias caçadas de perdizes cordonizes, periquitos, rolos e outros pássaros. Da Taboca para diante é arcebispado da Baía até o rio de S. Francisco; e dali para diante até os arrependidos é bispado de Pernambuco.

16 de JunhoMaquinez

Saí do Melo às 3¾ da manhã; e cheguei ao Maquinez às 9 e ¼. São 6 léguas, o caminho é muito bom, passa-se pela ponte do Melo, sítio da Tabuquinha com seu regato ao pé, sítio da Onça onde há seu rancho, aqui passa um pequeno ribeiro do mesmo nome com sua ponte de madeira; aqui abarraquei pela primeira vez e matei muita pomba e rôlos; é um rancho muito mau.

17 de JunhoFalcão

Saí do Maquinez às 3 e ½ da manhã, cheguei ao Falcão às 9 e ½, são 6 e ½, é caminho muito bom, o País é planície mas com algum mato pequeno, passamos pelo ribeirão da Venda Nova, sítio da Venda Nova, sitio do Sicuriú onde há uma má casa, aqui abarraquei e se lançaram ao pasto as bestas é muito mau sítio aqui adoeceu o António Coelho.

18 – 19 de JunhoBicudo

Saí de Falcão às 4 da manhã e cheguei ao Bicudo às 9. São 5 léguas; o caminho é planície com algum mato miúdo e muito campo; passa-se dois ribeirões e estes sem ponte, e junto do rancho passa um ribeirito chamado o Bicudo com sua ponte de madeira muito má. Em o dia 19 ficamos neste mesmo sítio do Bicudo por causa de não aparecerem 10 bestas as quais eram das que conduzem o mantimento e estas botando-se ao pasto se meteram ao mato, motivo da nossa demora deste dia, daqui por diante, em dois dias antes se acham muitos carapatos pelo mato, que se pegam muito e mordem; há muitos pássaros chamados João de Barros que são galantes pelos ninhos que fazem com sua divisão, há muitos veados, emas, perdizes, codornizes, rolas, etc., algumas Onças, Arataz.

20 de JunhoPindaibaz

Saí do Bicudo pelas 4¼ da manhã e cheguei às 10 ao Pindaibaz; são 5 léguas; o caminho é todo excelente de campos com algum pouco mato de quando em quando; passámos uma pequena ribeira sem ponte pelo rancho da Sereja com seu regato ao pé, quando daqui saiu o caseiro com duas cargas um soldado e outro auxiliar se perdeu um macho do caseiro e depois apareceu.

21 de JunhoAndré Quinê

Saí das Pindaibaz às 3½ da manhã, e cheguei às 9 a André Quinê; são 6 léguas, o caminho é excelente, tudo campo plano, com algum pouco mato de quando em quando. Passa-se o ribeirão do funil e o do Boi, ambos sem ponte; foi o pior rancho que até aqui apareceu, não havia nada de comer; aqui vimos veados e muitos Tuanois.

22 de JunhoEspírito Santo

Saí de Andre Quinê às 4¼ da manhã, cheguei ao Espírito Santo às 10, são 7 léguas boas; o caminho é muito bom de campos até 4 léguas de André Quinê, daí por diante passa-se uma grande decida de mais de meia légua de mau caminho. Saindo do rancho antecedente passa-se pelo regato perto, sem nome, com sua pontinha; passa-se mais o ribeirão da lage, o ribeirão fundo e rio do Espírito Santo, todos sem ponte. Há muito tatu, muita arara, papagaios, macacos; e Tamandua de Bandeira; o rancho do Espírito Santo não é coisa grande, mas é melhor que o antecedente. De noite choveu muito, mas melhorou de manhã; por todo este território fazia de noite e de manhã principalmente muito frio, e assim continuou até o Paracatu.

23 de JunhoAbaete

Saí do Espirito Santo às 6½ da manhã, cheguei ao Baete às 10. São 2½ o caminho é bom até o rio de S. Francisco, mas pantanoso, é uma légua de distância. O rio de S. Francisco corre para o Sul no sítio da passagem, mas logo toma para Oeste, é muito grande, há de ter 700 passos de largo, passa-se em canoas atadas uma à outra, tem na margem ocidental umas más cabanas para os passadores e diante dele, légua e meia, está o rio Abaete, que se mete no meio [do] rio de S. Francisco légua abaixo, e que terá 320 passos de largo, passa- se em canoa; tem um rancho na margem Setentrional, aonde me acomodei. Em ambos estes rios costuma haver muitas sezões e tem muitos peixes serabis e douradas muito grandes. Fez muito frio de noite e se fizeram muitas fogueiras de S. João e pelo mesmo motivo mandei dar muitos tiros.

24 de Junho, dia de S. JoãoAs 3 Barras

Saí de Abaete às 8½ da manhã e cheguei às 3 Barras às 12½. – São 5 léguas, o caminho todo muito bom, tem algum mato; passa-se a um 4o de légua do rancho um ribeiro em que 3 outros fazem 3 Barras, o que lhe dá o nome.

25 de JunhoCapão

Saí das 3 Barras pelo meio dia, cheguei ao Capão às 3¼. São 4 léguas. O caminho é muito bom, tivemos uma trovoada com alguma chuva mas passou logo. Passam nesta terra 4 ribeiras ao todo, sem ponte, que no Inverno ou tempo das águas hão de às vezes de ser trabalhosas. O primeiro ribeirão chama-se da Área; o 2º o do frade; o 3º o Boreti ; o 4º o do Capão de Santo Tiago.

26 de Junho – Santo António da Boa Esperança

Saí do Capão às 7 horas da manhã, e cheguei ao rancho de Santo António às 11 horas. São 4½ léguas, o caminho quase todo é bom; porém tem algumas decidas e subidas das quais se passam 4 mais pequenas e sem ponte. De manhã choveu alguma pequena coisa; em todos estes dias passados não fez calma, antes de noite bastante frio.

27 de JunhoCapão do rio do Sono

Saí de Santo António da Boa Esperança pelas 6½ da manhã, e cheguei aqui às 11 horas. São 3 léguas; o caminho é muito bom. Geralmente a 3 tiros de espingarda da Boa Esperança para riba havia ribeira muito grande, que em tempo de águas é muito dificultosa a passagem, esta ribeira chama-se a de Santo António, mas é verdadeiramente o rio do Sono; logo adiante se passa outra ribeira chamada das Almas, que igualmente se passa a vau; e é dificultosa com tempo de águas; mais adiante se passam dois pequenos riachos, o chamam Cachimbo, coisa fraca. Estes dois primeiros ribeiros grandes de Santo António e Almas correm para o Norte o primeiro e o 2º para N.E. O ribeiro de Santo António corre para o Norte e vai fazer barra no rio de Paracatu, depois de levar em si o rio do Sono e das Almas, e ribeira de Cachimbo; esta barra é feita a 15 léguas da outra que faz no rio de S. Francisco, e a barra dista que faz o Paracatu no rio de S. Francisco 9 léguas se acha o arraial de S. Romão, na margem esquerda, indo pelo rio abaixo. O rio da Prata mete-se no rio Paracatu meio 4º de légua para cima da passagem, a qual por abuso se chama passagem do rio da Prata, devendo ser passagem do rio Paracatu, em que já vem incluído o rio da Prata. Aqui foi o primeiro rancho onde tornamos a ver telha depois do Bicudo. Adiante do rio do Sono, a direita, toma outro caminho, chamado de S. José, o qual vai meter no que segue ao Vomitório, ou antes um pouco.

28 de JunhoAs Almas

Saí do rancho antecedente pelas 6½ da manhã, e cheguei às 11¼. São 5 léguas; passa-se logo o rio do Sono, que é bastante grande, corre para o Nascente; além da passagem está um rancho do mesmo nome; logo adiante está o regato do Atoleiro; o rio de S. Bartolomeu, que tem muita água, corre para o Norte; o rio da Catinga também leva bastante água e corre também para o Nascente. Adiante o rio das Almas, que é mediano; todos sem ponte, e em tempo de águas serão muito dificultosos de passar. O rancho das Almas não presta para nada. Aqui adoeceu o rapaz António Francisco e fugiu o mulato de José da Fonseca.

29 de Junho Roça de Santa Isabel

Saí do rancho das Almas às 6½ da manhã e cheguei às 10½ a Santa Isabel. São 4½ léguas medianas; o caminho é excelente, menos o princípio que passa entre um bosque, com suas subidas e descidas. Deste caminho se avistam as vastíssimas planícies chamadas de S. Jerónimo, a de António de 25 ou 30 léguas que rodeiam quase todo o horizonte pela banda do Este, de Nordeste e de S. E. Não se acha água neste caminho. O rancho de Santa Isabel é bastante mau. Acha-se muita caça por estes campos; alem de perdizes e codornizes, há muito veado, onças, antos, etc.; há pássaros deverços muito grandes como Hemas, Serienias, Coruacas, etc.

30 de Junho Vomitório

Saí do rancho de Santa Isabel pelas 6½ da manhã e cheguei às 9¼. São 3 léguas: o caminho é planície pela distância de légua e meia, e logo se acha um alagadiço que aos lados tem uma espécie de lagoa, e o resto do caminho é por entre um bosque de mato grande; o rancho do Vomitório vale muito pouco. O rio da Prata corre aqui e adiante 5 léguas se vai passar o rio Paracatu aonde já vai enchendo o da Prata, tendo feito barra meio 4º de légua acima. Aqui houve baile de noite de batuque feito pelas moças da fazenda.

1o de Julho Campo légua e meia adiante do rio da Prata, chamado riacho das Almas.

Saí do rancho Vomitório pelas 4 horas da manhã e cheguei a este sítio pelas 10, depois de ter feito a necessária demora em passar o rio. São 6½ léguas, 5 ao rio e uma e meia a este lugar onde passa um pequeno riacho, perto dum bocado de Mato. O rio da Prata, ou verdadeiramente Paracatu é nocivo aos passageiros, pelas más águas que leva; quando se passa leva já consigo o rio da Prata que se mete, pouco em cima da passagem, e o rio Escuro, que pouco antes se mete no Paracatu. O rio é profundo e terá neste lugar 300 braças de largo; na margem oriental tem um rancho com bastantes comodidades, e da outra parte também tem alguma casita. A gente passa em duas canoas e todos os cavalos a nado. O caminho até o rio é tudo planície mas corre entre vários alagadiços e pantanais e o rio corre para o Norte.

2 de Julho Corgo Rico

Saí do rancho passado pelas 4¾ da manhã e cheguei a Corgo Rico pelas 11 da manhã. São 6 léguas; o caminho não é mau mas tem seus montes, passam-se dois pequenos riachos com pontes de madeira; passa-se no mau rancho do Olho de Água, meia légua adiante à direita está uma grande lagoa, que da princípio a um ribeirão; este tem muito peixe e muito sucureu, mas é muito nociva a sua vizinhança. No meio do caminho se matou um tamandoá de que se tirou a vista. O rancho do Corgo Rico não é mau aqui, principiam outra vez as minas do ouro.

3 de Julho Paracatu

Saí do Corgo Rico às 7½ da manhã e cheguei a este arraial às 10 horas. São 3 léguas pequenas, o caminho é muito bom, passa-se por uma pequena ponte sobre um ribeiro de madeira, e pelo reguto ou coutagem de Nazaré, pelo rancho de Nazaré, a que em distância de uma légua se achava um esquadrão de cavalaria auxiliar, e vieram esperar muitas gentes da terra, que é bastante grande e merecia ser vila; tem 600 vizinhos e mais de 5.000 pessoas. O sitio é bonito numa planície havia muitas lavras de ouro, e já noutro tempo foram muito maiores; aqui nos fizeram os maiores obséquios, e nos demoramos 3 dias de quedo [sic] e no dia 7 se continuou a jornada para Goiás.

Notas finais

– Os peixes que regularmente se acham nos rios do sertão são: Serobins, Douradas, Matrinxans, Piaos, Pains, Mandins, Piranhas. – Há papagaios de muitas castas e Periquitos, Mantaxas, araras de várias cores: umas encarnadas, outras azuis, todas outras azuis com peito amarelo tostado, chamados Calindiz. – Há muitas espécies de cobras chamadas Sucurias que andam nos rios, e tremedais, gibóias, heraracas, cobra de coral, cobra de cascavél. – Há macacos de muitas castas: Sagoins, Cotios, Apiras, Tatus, Gatimundios, Preguiças, Onças, veados, Antas, Farnandicos de Bandeira.

 – Casca de pau chamado sangue de drago quanto mais grosso milhor bem cozida em um tacho tomar ajudas dela e banho da mesma água é excelente para corrução. – Terá a Igreja Nova 525 fogos. – Dei ao Crutely em 7 de Novembro em Cuiabá – 4/8 ½ ou 5.400 que ainda não carreguei em livro. – Le major Manuel da Rocha Brandão a changé avec moi son cheval à Santa Luzia. – L’autre Major aussi Leandro de Sousa Teles changé avec moi dans le même endroit.  — (Fim do diário)

Vila Boa, vendo-se ao fundo a Igreja de N. S. do Rosário. Desenho de Francesco Tosi Colombina, em 1751.

FESTANÇA EM GOIÁS

O diário de Soveral e Carvalho acrescenta o que não foi contado no diário de Cáceres, a efusiva recepção aos dois governadores em Goiás, quando chegaram à capital Vila Boa, no dia 25 de julho de 1772, “às cinco e um quarto da tarde”. Nos primeiros dias, autoridades civis, eclesiásticas e o povo não pouparam homenagens aos recém-chegados. O melhor da festa foi depois, como anotou Thomás de Souza, o ajudante de ordens:

“… passados os tres dias para os comprimentos, e descanço se entraram a mover as gentes da terra para porem em publico as festas para que se tinha preparado de munto tempo; as quaes se principiaram por huma Encamizada com bastante asseyo, e luzimento em que correram a cavallo para sima de cem pessoas, e na mesma ocaziam se recitaram varias obras Poeticas; seguiram-se três dias de Cavalhadas, entrepolados com outros tantos de Touros que foram sortiados de pé, e de cavallo, e a praça bastantemente cheya com muntas e bem imaginadas dancas finalizando-se estes obzequios com hum grande fogo artificial na noute do dia de Nossa Senhora que forão quinze de Agosto, e na seguinte hum grandiozo Saráu que se executou em Pallacio.”

No dia 27 de agosto, Cáceres partiu para Mato Grosso. Levou saudades de Vila Boa.

Por Eduardo de Paula

• Continua no próximo Post: “Viajando pela Comarca do Sabará”.

(1) Guerra dos Sete Anos – Conflitos internacionais, ocorridos entre 1756 e 1763, durante o reinado de Luís XV.

(2) SOVERAL E CARVALHO, José de Almeida de Vasconcelos − Governador de Goiás, de 1772 a 1778. D. Maria I concedeu-lhe  o título de Barão de Mossâmedes. 

(3) Vila Boa, depois teve o nome mudado para Goiás Velho ou cidade de Goiás.

(4) PIZARRO DE ARAÚJO, José de Souza Azevedo – Em “Memórias Históricas do Rio de Janeiro e das Províncias Anexas a Jurisdição do Vice-Rei do Estado do Brasil”, Imprensa Nacional, 1822, tomo IX, p. 94 e 95, escreveu: “Luís de Albuquerque Pereira e Cáceres [...] fez da sua jornada um itinerário mui curioso e útil, à que ajuntou um Mapa Geográfico, trabalhado pelo capitão engenheiro Salvador Franco da Mota, vindo de Lisboa em sua companhia, para o serviço da Capitania…”

(5) Em “História, Cultura e Sentimento: Outras Histórias do Brasil” (Editoras UFPE e UFMT, 2008, p. 168), Leny Caselli Anzai cita a fonte “Arquivo Histórico Ultramarino”, Mato Grosso, 20 de dezembro de 1772, cx. 15, doc. 63: “Da comitiva faziam parte o capitão engenheiro Salvador da Mota Franco, egresso da cadeia do Limoeiro e um frade.”  // Cadeia situada do bairro da Alfama, em Lisboa. A cadeia do Limoeiro foi muito criticada e Francisco de Melo e Noronha chamou-a de “escola repugnante de todos os vícios, a nódoa imunda que envergonha a nossa capital aos olhos dos estrangeiros…

(6) ASSUNÇÃO, Daniane da Silva − Anais do VII Congresso Internacional da ABRALIN, Curitiba, 2011: “O léxico do Diário do Barão de Mossâmedes”, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. CitaçõesNa passagem por Abaeté“Neste rancho do Abayté se mandam fazer Fogueyras e dar descargas em obsequio de sam João.”; na passagem por Paracatu: “…este Arrayal terá sinco mil habitantes comprehendidos os Arrebaldes, he bem cituado, e tem muntas lavras de Ouro: Aqui houveram magnificas festas em obzequio aos Generaes: houve a demora neste mesmo Arrayal de tres dias e no dia sete se continuou a jornada para Goyaz.” 

(7) MOURA, Francisco Carlos − “O Teatro em Goiás no Século XVIII”, separata da revista da Universidade de Coimbra, vol. XXVII, 1992, p.471 a 485.

(8) PIZARRO DE ARAÚJO, José de Souza Azevedo – “Memórias Históricas do Rio de Janeiro e das Províncias Anexas…”, Imprensa Nacional, 1882, tomo IX, p. 95.

setembro 1, 2011

QUERIDO FILHO NEREO

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 7:48 am

       Uma história do fundo do coração.

O dinamarquês Peter Wilhelm Lund (1801-1880) é considerado o pai da paleontologia brasileira. Vivendo no antigo arraial de Nossa Senhora da Saúde da Lagoa Santa (MG), conseguiu realizar importantes descobertas. Tornou-se admirado mundialmente pelo seu trabalho, mas o personagem é pouco conhecido fora do mundo acadêmico. Menos ainda um dos seus biógrafos, o filho adotivo Nereo Cecílio dos Santos(1), que publicou “O Naturalista”, livro pouquíssimo divulgado.

Peter Lund e o filho adotivo Nereo.

Lund se mudou para Lagoa Santa, em 1835, juntamente com o desenhista norueguês Peter Andreas Brandt(2), seu mais próximo colaborador, até 1862, quando veio a falecer. Depois da sua morte, Lund decidiu amparar o filho do vizinho Luiz Cecílio, chamado Nereo, de 12 anos de idade, tomando-o para criar. De forma admirável cuidou de educá-lo, ensinando ao menino da roça língua pátria, francês, latim, dinamarquês e fundamentos da arte musical. Com o passar do tempo, Nereo se tornou auxiliar do pai adotivo, na função de secretário.

Na biografia, Nereo disse:

 “Quando fui para a companhia de Lund, tinha 12 annos de edade e o acompanhei até exalar o ultimo suspiro, sentado á sua cabeceira, pranteando-lhe o desapparecimento. [...] Era meu mestre e guia. Quando fui para sua companhia, mal conhecia o alphabeto de nossa lingua! Bom, paciente, achava sempre, no fundo do seu coração, uma palavra meiga para me perdoar uma lição mal estudada de lingua ou sciencia…” 

Maria Cesarina e Nereo.

EM FAMÍLIA

Em 2002, Ebba Lund(3), sobrinha-neta do cientista, contou que, como Peter Lund esperasse morrer cedo, se precavera, nomeando seus irmãos Henrik Ferdinand e Johan Christian como únicos herdeiros, conforme um testamento de 1825. E que, em carta dirigida a Henrik, em 1862, voltara a confirmar seu desejo, da seguinte forma:

“Além disso, eu posso assegurar-lhe e ao Christian que não mudei minha decisão de 1825, que eu tenha [...] somente os herdeiros que são você e o Christian, além de seus descendentes”.

Mais tarde, em 1875, outra carta de Lund deve ter causado surpresa aos irmãos, ao se referir ao filho adotivo, desejando que ele continuasse os estudos da melhor forma possível. Como Ebba lembrou:

“Muitos anos já se passaram nos quais me foi dada pessoalmente a oportunidade de guiar sua educação. Isso foi-me preferível por motivos morais. O Rio de Janeiro não prima como uma área modelo por este ponto de vista. Também sua educação literaria e cientifica poderia ser melhor orientada por mim, e isso parecia-me mais importante que sua educação musical. Do ponto de vista financeiro a música é de importância inferior, a não ser que o músico, além de habilidade, possua um talento especial para se apresentar. Talento falta-lhe totalmente. É de uma natureza muito quieta e introvertida”.  

Prosseguiu Lund, na mesma carta aos irmãos:

“Com esta curta descrição vocês podem perceber que as coisas mudaram, desde que eu escrevi sobre o Nereo muitos anos atrás. [...] Portanto, eu penso que me deveria ser permitido cuidar dele, baseado na sua devoção filial. Vocês podem ver que enquanto eu viver aqui não há nada que vocês ou a família possam fazer. Mas eu quero agradecer-lhes de todo o coração pela boa vontade e prontidão com que tem encarado os planos originais. Como as duas ocupações que ele tem aqui dão muito pouco dinheiro, ele estará em uma situação muito triste quando eu morrer.

Devido à relação especial em que Deus me colocou frente a esse jovem, vocês hão de entender, sinto-me na obrigação moral de prover seu futuro bem-estar no caso de minha morte. Eu não seria capaz de descansar em paz sem isso. Como disse antes, não pretendo que mandem dinheiro agora para esse propósito, e menos ainda pretendo alterar meu testamento.

Assim, recomendo este rapaz à boa vontade da família, convencido de que contando com vocês como herdeiros dos meus bens e, portanto, das minhas dívidas, não deixem de realizar este meu desejo. Sua amável carta confirmou minhas impressões e, de certa maneira, nada mais tenho a dizer. Entretanto, como vocês não conhecem as condições daqui, talvez queiram mais informações sobre a questão. Imagino que 600 taleres dinamarqueses, ou seja, 300 de cada um de vocês, seriam suficientes. Seus herdeiros terão, assim, que assumir esta obrigação para ele e sua esposa, a menos que as condições mudem e, em por si próprio, queira abdicar dessa ajuda”.

Câmara de Curvelo: ata da apuração das eleições; Nereo 35 votos.

POLIGLOTA

Papai Lund transformou Nereo num poliglota, lhe ensinando o português e razoável domínio do francês, dinamarquês, inglês, alemão, bem como rudimentos de latim e grego. Em dinamarquês, sabia escrever com caracteres góticos, um estilo medieval, que foi usado até 1885, embora tenha manifestado sua preferência em usar os latinos. É o que confirmam correspondências suas, que foram descobertas por bibliotecários em meados da década de 1980.

Quando tinha 29 anos de idade, Nereo enviou uma carta em francês ao Monsieur Professeur J. Th. Reinhardt(4), diretor da coleção Lund, na Dinamarca, na qual modestamente se manifesta: “Je préfere de Vous écrire en français parce que…”. Traduzindo a frase completa para o português:

“Prefiro vos escrever em francês, porque sinto-me mais seguro nesta língua, se dignares responder-me, podereis fazê-lo em dinamarquês ou alemão, com letras latinas, que entenderei com mais facilidade, mas verdadeiramente sou mais seguro no francês. / Nerêo Cecilio dos Santos, Lagoa Santa, 27 de Maio de 1880.”

Quatro meses mais tarde, Nereo escreveu outra carta, daquela feita ao Monsieur Docteur Troels-Lund(5), historiador dinamarquês e sobrinho de Lund, na qual fala sobre a família que constituíra, dizendo: “Je profite l’occasion pour Vous donner une idée de ma petite famille…”, ou por inteiro, em português:

“Aproveito a ocasião para dar-vos uma idéia da minha pequena família; já somos quatro pessoas: minha mulher Maria Cesarina Marques dos Santos(6) eu e duas filhas; a mais velha das duas filhas (cinco anos) chama-se Lizaura; a menor (menos de dois anos) chama-se Eulalia. Do nome Lizaura o Sr. Dr. P. W. Lund não gostava, tanto que eu propus-me mudar este nome por ocasião da crisma [...] Muito humilde servidor, forte devedor…” / Nerêo Cecilio dos Santos, Lagoa Santa, 13 de Setembro de 1880.”

Maria Cesarina, era oito anos mais nova que Nereo e o casal teve mais de dez filhos.

TESTAMENTO

Imaginando a morte para breve, Lund passou a redigir declarações testamentárias. Com o seu falecimento, em 1880, deixou, entre outros bens, um legado de 30.000 coroas dinamarquesas para Nereo, discriminado nos seguintes termos:

“Quando o Prof. Dr. P. W. Lund fallecer, a renda do fundo do legado servirá como renda vitalicia de Nerêo Cecilio dos Santos, que está em companhia do Prof. Dr. P. W. Lund e reside em Lagôa Santa, no Brazil; e tambem para a presente mulher do mencionado N. C. dos Santos, emquanto sobreviver a elle como viuva”.

Também nomeou outros beneficiários, por exemplo, deixando para “o Snr. P. V. Roipstorff  [...] tres contos de reis; Snr. Joaquim Dias de Siqueira, [...] quinhentos mil reis; Snr. Liberato Dias [...] duzentos mil reis; Snr. Primo Antonio de Abreu [...] cem mil reis”.

Jornal Centro de Minas, 01.06.1913: fundação da Escola Normal e docentes.

VIDA SEM LUND

Nereo, apesar da herança deixada por Lund, enfrentou dificuldades em sustentar a numerosa família vivendo no arraial de Lagoa Santa. Por isso, se transferiu para a progressista Curvelo(7), em 1887, onde foi trabalhar como secretário na fábrica de tecidos Cedro e Cachoeira, da família Mascarenhas. Naquela cidade, conseguiu se aprumar. Recebeu o título de major da guarda nacional, se candidatou ao cargo de vereador e foi professor de música. Nas eleições municipais de Curvelo, em 21.11.1897, obteve 35 votos para vereador(8).

Estava convivendo no meio mais culto da comunidade, se relacionando com ilustres cidadãos. Em 17 de julho de 1913, se juntou a um grupo de professores, na casa do Dr. Euclydes Gonçalves de Mendonça, quando decidiram pela criação da Escola Normal de Curvelo(9). O major Nereo Cecílio dos Santos, se tornou um dos seus fundadores, com a missão de lecionar música. No ano seguinte à fundação, 1914, o inspetor regional de ensino do Estado, Arthur Napoleão Alves Pereira, atestou a excelência do estabelecimento, escrevendo no seu relatório: “… tendo assistido às aulas e percorrido todos os departamentos, pude aquilatar a competência do pessoal docente…” (10) A escola foi incorporada à instituição hoje existente com o nome de Instituto Santo Antônio e é dirigida pelas irmãs clarissas franciscanas.

Mais tarde, Nereo se mudou para Belo Horizonte, mas frequentando Lagoa Santa para cuidar do cemitério de Lund, que lhe fora transferido por testamento. Mantinha-o sob chaves e, após seu falecimento, o zelador passou a ser Antônio Felipe, morador da localidade(11).

Obituário de Nereo no jornal Minas Gerais.

Inscrições no túmulo de Nereo e Maria Cesarina, no cemitério do Bonfim.

A família de Nereo e Maria Cesarina possui túmulo perpétuo no cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte, onde estão sepultados além do casal, filhos e parentes. Nereo faleceu em 1922, em Belo Horizonte, como está no seu obituário, publicado no jornal Minas Gerais, de quinta-feira, 14 de setembro:

“Falleceu hontem, às 171/2 horas. Nesta Capital, o Sr. Nereu Cecílio dos Santos, cavalheiro aqui muito estimado. O extinto desaparece aos 71 anos de edade, deixa a viúva a exma. Sra. Maria Cezarina Marques dos Santos [...] Está marcado o enterro para hoje, às 14 horas, sahindo o feretro da sua residencia, a rua Fernandes Tourinho n. 12.” 

Desde o falecimento de Lund, o agradecido filho Nereo pretendeu preservar a memória do pai, tal como fez na biografia “O Naturalista”, que somente foi publicada no ano seguinte à morte do autor, em 1923. Nas páginas iniciais escreveu:

“Como recompensar a Lund pela educação que me deu e a instrucção que me ministrou? Si em vida delle só recebi e nada lhe dei, morto, pensei homenageal-o, escrevendo-lhe a vida e divulgando-a para maior gloria sua…”

A roda da fortuna começou a girar quando o dinamarquês, que chegou no arraialzinho do fim do mundo, decidiu mudar o destino do menino da roça. Duas pessoas, Lund e o filho Nereo, escreveram essa história em que o coração falou mais alto.

Por Eduardo de Paula

* Veja também o Post: “BENDITA LAGOA SANTA”.

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(1) SANTOS, Nereo Cecílio dos – (*15.05.1852 +13.09.1922). Autor da biografia “O naturalista”, Imprensa Oficial de MG, 1923.

(2) BRANDT, Peter Andreas – (*1792 +1862).

(3) LUND, Ebba – (*1923 +1999) – “Lund e sua família” (2002) / internet.

(4) REINHARDT, Joahannes Theodor − Zoólogo dinamarquês (*1816 +1882); filho do zoólogo Johannnes Christopher Hagemann, professor de Lund.

(5) TROELS-LUND, Frederik – (* 05.09.1840  + 12.02.1921), filho mais novo de Henrik Ferdinand Lund.

(6) SANTOS, Maria Cesarina Marques dos − (*09.05.1860 + 26.01.1924).

(7) Curvelo, Minas Gerais – Cidade onde Peter Lund encontrou os primeiros fósseis, antes de se fixar em Lagoa Santa.

(8) Fonte: Arquivo Público Mineiro − Ata de eleição, pasta CV-164.

(9) Professores da Escola Normal de Curvelo:

Português: Cônego Xavier Rolim, lente – Clarindo Jorge de Lima, substituto; Francês: Antônio Alexandrino Diniz, lente – Américo Autran, substituto; Aritmética: Américo Salgueiro Autran, lente – Antônio Gabriel Diniz, substituto; Geometria e desenho linear: Euclydes Gonçalves de Mendonça, lente – Nicolino Guimarães Moreira, substituto; História e Educação Moral e Cívica: José Lourenço Vianna Filho, lente, cônego Xavier Rolim, substituto; Geografia: Juvenal Gonzaga Pereira da Fonseca, lente – Euclydes Gonçalves de Mendonça, substituto; Física, Química, História Natural e Higiene: Antônio Gabriel Diniz, lente – Arthur Vianna, substituto; Desenho e Caligrafia: Josephina Diniz Mascarenhas; Trabalhos Manuais: Maria de Lourdes Marques Pereira; Latim: Simpliciano Pinto da Silva, lente – Dâmaso Brochado, substituto; Inglês: Nicolino Guimarães Moreira; Música: major Nereo Cecílio dos Santos; Diretor: Frederico Henriques de Freitas Moura; Inspetora: Raymunda Cesarina Mendes Leal.

(10) DINIZ, Antônio Gabriel – “Dados para a história de Curvelo – II”, Editora Comunicação, 1975, p. 88 a 90.

(11) THALBITZER, William − Na “Geographik Tidsskrift”, vol. 27, 1924: Em “Den 20de internationale Amerikanistkongres i Rio Janeiro”, cita Antônio Felipe, morador de Lagoa Santa.

agosto 1, 2011

BENDITA LAGOA SANTA

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:26 am

     ♦ Impressões de uma viagem ao passado [para a amiga Marilda].

Peter Wilhelm Lund veio para o Brasil,

porque não mais suportava o gelo do hemisfério norte.

Temendo a tuberculose, buscava melhores ares e esteve no país, pela primeira vez entre 1825 e 1829. Entrou com o pé direito, conseguindo material para publicar três trabalhos, nas áreas de seu interesse: botânica e zoologia. Um deles sobre admiráveis passarinhos, os tangarás, que conheceu numa fazenda no estado do Rio de Janeiro e lhe renderam uma admirável monografia: “De genere Euphones”. Retornou à Europa em janeiro de 1829 e, no dia 5 de novembro de 1829, graças aos seus tangarás, recebeu o título de doutor em filosofia pela universidade alemã de Kiel.

Grande distância, de Curvelo a Lagoa Santa, em lombo de burro. Rio das Velhas, em vermelho.

Na segunda vez no Brasil, empreendeu uma grande viagem de investigação da flora, em companhia do renomado botânico Ludwig Riedel(1). Naquele momento, o doutor Lund estava interessado especialmente em insetos e pequenos pássaros. Saindo do Rio de Janeiro, percorreram São Paulo, Minas Gerais e Goiás. No ponto extremo do roteiro, quando chegavam a Ouro Preto, no dia 30 de outubro de 1833, Riedel adoeceu e, com esse transtorno, teve que abandonar a excursão, retornando ao Rio de Janeiro. Daí em diante, Lund prosseguiu no caminho de volta sozinho. Corria o ano de 1834 e, ao passar pela segunda vez pela Vila do Curvelo, o destino mudou sua vida. Ali conheceu o conterrâneo Peter Claussen(2), que assinava o nome Pedro Cláudio Dinamarquez. Era um mercenário, explorador de fósseis e foi quem lhe apontou alguns sítios arqueológicos. Lund passou então a investigar várias grutas e, logo de início, alguns achados lhe causaram surpresas.

Chegando em Lagoa Santa. (Por Brandt detalhe)

Ali em Curvelo, também conheceu o norueguês Peter Andreas Brandt(3), desenhista, boêmio e aventureiro, que estava trabalhando com Claussen, mas vivendo miseravelmente. Durante algum tempo, Lund permaneceu na região, auxiliado por Brandt. Foi quando percebeu a enorme fonte para pesquisas arqueológicas que tinha à sua frente. O patrão de Brandt já se mostrara uma pessoa inconveniente e não estava valendo a pena permanecer em sua companhia. Diante disso, ambos abandonaram, sorrateiramente, o encrenqueiro Pedro Cláudio, em 2 de setembro de 1835, com destino a Lagoa Santa.

MORADA NOVA

Depois de longa viagem em lombo de burro, chegaram ao entardecer no arraial de Nossa Senhora da Saúde da Lagoa Santa, em 17 de outubro de 1835. Lund sentiu o sol, encantou-se com a beleza do lugar, respirou fundo e exclamou:

“- Aqui, sim! Aqui está bom para se viver!” 

Tangarás enfeitando a lagoa. 

No  povoado, alugou uma casa que mais tarde comprou, residindo nela por toda vida. Ficava na área central, à pouca distância do lago e lhe oferecia uma série de vantagens. A localização se mostrou inconveniente apenas uma vez… Brandt conseguiu uma moradia para si, bem próxima da casa de Lund. Os dois se associaram no trabalho de exploração da fauna, da flora e, principalmente, das inúmeras cavernas da região em busca de fósseis.

Brandt dominava o desenho técnico e seus registros de natureza científica foram preciosos. Mas, na figura humana e na paisagem, seu trabalho era despojado, vez ou outra tangenciando o estilo primitivista. Sem levar em conta os valores estéticos e as qualidades técnicas, não há como negar que suas pinturas têm inestimável valor documental. Vale lembrar que Lund também desenhava com desenvoltura. Os dois associados produziram um trabalho mundialmente reconhecido e, pela importância das descobertas, o cientista ficou conhecido como “pai da paleontologia brasileira”.

RETORNO NO TEMPO

Algumas ilustrações deste Post foram trabalhadas em computador, de forma a lhes dar mais visibilidade. Os originais não foram modificados na sua essência.

Lagoa Santa em 1842igreja, ponto vermelho; sangradouro da lagoa, ponto verde. (Por Heaton & Rensburg, detalhe)

O povoado se chamou, nos tempos mais antigos, Lagoa Grande. O primeiro morador foi Filipe Rodrigues que, em 1713, se estabeleceu junto ao sangradouro, cultivando cereais e plantando cana, tendo erigido um pequeno engenho de aguardente. Por sua inciativa e de Manuel Pereira Barredo, foi obtida a provisão de 02.05.1749, para se erguer uma capela dedicada a Nossa Senhora da Saúde, filial da matriz de Santo Antônio da Roça Grande. O nome Lagoa Santa surgiu depois, quando começaram a dizer que suas águas produziam curas milagrosas. A primeira pessoa a divulgar essas virtudes foi o frei Antônio de Miranda, de Sabará, que se disse curado de suas chagas ao se banhar na lagoa. Várias pessoas repetiram a mesma história, que acabou virando lenda.

Planta de Lagoa Santa. (Por Brandt)

O lugar sempre atraiu estrangeiros, entre eles os francêses Foulon, proprietário de uma estalagem e Fourreau que tinha uma razoável pousada e a melhor taberna. O aprazível arraial teve na fama da lagoa forte atrativo aos visitantes. Os mais imprudentes chegavam a se afogar nas águas santas, como aconteceu com Antoine Dupin. Diz um registro(4) paroquial:

” Aos oito dias do mez de Maio de mil oitocentos e trinta e dous anos falleceo affogado na Alagoa contigoa a este Arraial, Antonio Dupan, estrangeiro viandante [...] sepultado no Cemiterio da Igreja Matriz…”

Depois foi o próprio Lund que contribuiu para trazer inúmeros curiosos, desejosos de vê-lo de perto. Entretanto, se o ocupado cientista fosse atender a todos, não conseguiria trabalhar. Por isso, passou a exigir agendamento das visitas, mas nem por isso atendia a todos. Em 1867, o famoso explorador e aventureiro Richard Burton(5), partira de Sabará, viajando de canoa pelo Rio das Velhas, com destino ao oceano Atlântico. Como parte do seu projeto, passou por Lagoa Santa para conhecer o cientista. Assim ele descreveu o acontecimento:

” … avistamos , do alto, [...] o Arraial de Lagoa Santa. [...] Chegamos até o largo, Praça de Nossa Senhora da Saúde [...] Paramos juntos de algumas estacas para amarrar os cavalos, frente a uma porta onde havia a inscrição F. F. e, como tínhamos ouvido falar de um hotel francês, batemos. A porta foi aberta por uma senhora de aspecto bem inglês, como verificamos depois, nascera em Malta. Perguntamos por M. François Fourreau e fomos convidados a apear. Depois de apertarmos as mãos e trocarmos saudações, na língua de Racine e Corneille, encomendamos o almoço, com bastante sem-cerimônia; o hospedeiro se assentou conosco e deleitamo-nos com uma excelente sopa e um ‘bouilli’ não fácil de ser encontrado fora das fronteiras da França.

Antigo sub-oficial do ’16éme Léger’, M. Fourreau tinha sido feito prisioneiro na campanha da Rússia e  o resultado foi que, como era um ‘très joli garçon’, fundara um circo e viajara com ele pela Ásia Ocidental. Seus três filhos [...] continuam dirigindo o circo em Diamantina; sua filha, uma bela ‘ecuyère’ (amazona) e casada, como mostrava o Pedrinho, morava com os pais. [...] Passamos a noite em boa prosa e bebendo vinho; quando pedi a conta, M. Fourreau riu-se na minha cara. Lamento dizer que Madame fez o mesmo; deixei-os contudo com muito pesar.”

E comentou sua frustração, por não ter sido recebido por Lund:

“Quando chegamos (Burton e José Rodrigues Duarte), mandamos nossos cartões ao Dr. Lund [...] Eu estava interessadíssimo em indagar-lhe a respeito do ‘homem  fóssil’ [...] M. Fred. Wm. Behrens, o amável secretário do sábio, apareceu com muitas desculpas e pedindo que aguardássemos até a manhã seguinte. Assim fizemos, mas em vão. Desconfio que o nosso insucesso foi devido ao nervosismo de Lund, seu receio a estrangeiros, que muitas vezes ataca mesmo os homens mais fortes, depois de uma longa residência no Brasil, ou melhor, nos trópicos.”

Procissão passando em frente à casa de Lund. (Por Brandt)

ALTA TENSÃO

Dizem os seus biógrafos que, quando Lund chegou ao arraial, os lagoanos o acharam-no excêntrico. De fato, os nativos ensolarados não podiam fazer outra imagem do homem que veio do frio, pois suas mentalidades e comportamentos eram, por natureza, muito diferentes. No ano de 1910, o historiador Pires de Almeida(6) chamou Lund de “o solitário de Lagoa Santa” e fez um comentário:

“Imagine-se a figura [...] do filósofo, vestido de grosso tecido mineiro, mal talhado, grosseiramente costurado, é verdade que sempre muito asseado e correto, a ensinar a ler, o desenho e a música às crianças, chegando até a organizar com seus alunos uma banda [...] muito regular.”

Em 1868(7), foi a vez da família imperial brasileira enfrentar o homem que tinha estopim curto. O duque de Saxe, marido da princesa Leopoldina, e o seu primo, o conde d’Eu, marido da princesa Isabel, viajando por Minas Gerais, se dirigiram a Lagoa Santa com o intuito de conhecer Lund. Na voz do povo, ficou uma versão jocosa da visita. Dizem que, antecipadamente, o conde d’Eu enviou um mensageiro com um bilhete, avisando a hora da sua chegada. Ao receber a mensagem, Lund interrompeu seu trabalho para ler o recado e, ao pé da mesma folha, respondeu: “Recebo-o entre 1 e 2 horas. Na minha casa quem manda sou eu.” Ou seja, os ossos de Lund eram mais importantes que o duque e o conde do imperador. Por essa e por outras é que o dinamarquês ganhou a injusta fama de sistemático, mas é preciso compreender suas atitudes. Dedicava sua vida à ciência e não queria ser transformado em atração turística.

Casa de Lund após reforma; à esquerda o cientista. (Por Augusto Riedel, detalhe)

MINHA CASA, MINHA VIDA 

Posteriormente, por encomenda do duque de Saxe, o talentoso fotógrafo alemão Augusto Riedel(8), que possuía estúdio em São Paulo, produziu uma série de fotos dos lugares por onde passara a comitiva imperial. Os melhores registros de Lagoa Santa, daquela época, foram feitos por ele, especialmente o da casa de Lund. A moradia havia passado por reformas e, sem dúvida, se tornara uma das melhores do vilarejo.

Chamam a atenção alguns detalhes que aparecem na fotografia de Riedel: a pintura bem conservada; cobertura íntegra, com as telhas da frente caiadas; muros com acabamento de telhas, também pintadas; cerca em madeira, cuidadosamente lavrada e de boa estética; janelas envidraçadas, algumas com a função de melhorar a ventilação e também telas contra insetos. E, completando, para os momentos de ócio e devaneio, uma agradável varanda.

Lund na varanda, curtindo a preguiça. (Detalhe)

CORPO E ALMA

Lund era protestante – luterano – como também seu assistente Brandt. Para ele, viver numa comunidade essencialmente católica não era problema, pois possuía mentalidade aberta nas questões religiosas e aceitava todos os cristãos de verdade. Mas, a Brandt desagradava a idéia de morrer e ser enterrando em cemitério católico. Foi esse o principal motivo que levou Lund a adquirir um terreno onde ele e o amigo estão enterrados junto aos seus colaboradores Peter Andreas Brandt, Wilhelm Behrens e Johann Rudolph Müller. Por ser homem de fé, não temia a morte, pavor tinha era da doença e exagerava nos cuidados com a saúde. Em uma correspondência a um amigo revelou:

“Procuro fazer minhas condições tão confortáveis e agradáveis quanto possível, e desenvolver os recursos que o lugar oferece, e que são compatíveis com minha saúde.”

O naturalista Álvaro da Silveira(9) esteve em Lagoa Santa, no início do século XX, e ouviu contar sobre uma das manias de Lund:

“Para evitar resfriamentos, as portas e janelas de sua casa abriam-se aos poucos, afim de que a temperatura do interior se puzesse insenssívelmente em equilíbrio com a do exterior. Gastava-se mais de uma hora para abrir completamente a janela. Nos dias frios ou úmidos a sua casa não se abria.”

A religião marcou a família de Lund, tanto em momentos de fé quanto de tormentos. Ele era primo-irmão de um religioso, que foi importante teólogo e bispo luterano, Peter Kierkegaard(10) e do seu irmão, também teólogo e filósofo existencialista Søren Kierkegaard(11) . Certa vez, em uma correspondência ao primo Peter, escreveu:

“Eu nutro em mim uma fé cristã infantil; mas, graças a Deus, uma fé firme e inabalável de um destino cristão, um destino que tem contados os nossos cabelos; mas nisto fico e me firmo…”

E, de outra feita, ao mesmo confessou:

“No sertão eu encontrei a paz e a ocasião perfeita para a mais profunda contemplação, e trabalhei arduamente para construir a minha concha, a filosofia da vida prática, na qual se busca abrigo e proteção contra as tempestades do mundo.” 

Peter Kierkgaard, Søren Kierkgaard e Peter Lund, primos irmãos.

As angústias eram mal de família. O primo Søren, se dizia atormentado por uma sina, como revelou em seu diário, à qual chamou de “Grande terremoto”. O pai de Søren trabalhara em uma fazenda na Jutlândia e, revoltado com as privações por que passava, certo dia subiu ao alto de uma montanha e amaldiçoou solenemente a Deus. O espírito melancólico do pai e o temor pelas consequências do pecado, contaminaram a família. De fato, inúmeras adversidades se sucederam e Søren chegou a acreditar que estavam todos amaldiçoados. Somente após o estudo de teologia na universidade é que conseguiu, de certa forma, reequilibrar-se emocionalmente e produzir sua grande obra filosófica.

Em uma carta, datada de 31.08.1835, um mês antes de Lund deixar Curvelo, Søren lhe externou um pensamento: “A questão é entender a mim mesmo, para ver o que Deus realmente quer que eu faça: a questão é encontrar uma verdade que seja verdadeira para mim, encontrar a idéia pela qual eu possa viver e morrer.” Ora, não era também isso que Lund estava procurando ao chegar a Lagoa Santa?

Matriz de Nossa Senhora da Saúde. Ao fundo, boteco e residência de Fourreau. (Por Eugen Warming, detalhe)

PÉ NA TERRA

Lund gostava muito de música e estimulou os lagoenses a desenvolverem o gosto por essa arte. Forneceu instrumentos, ensinou a tocar e criou uma banda de música. Ele mesmo tocava piano muito bem. A banda frequentemente executava peças que lhe enviavam da Dinamarca. O conjunto musical do luterano era ecumênico e participava das procissões e festas católicas. Também, ajudava e procurava melhorar a vida dos mais necessitados. Dizem que construiu no lago um enorme galpão, para abrigar as lavadeiras do sol e da chuva.

Casas de Foulon junto à matriz, à esquerda. (Por Eugen Warming, detalhe)

Toda manhã, prestava assistência médica gratuita aos doentes que faziam filas à porta do “dotô ” Lund. Suas prescrições e remédios simples sempre davam bons resultados. Ensinou inúmeras pessoas a ler e escrever. Teve um filho adotivo, Nereo Cecílio dos Santos, seu aluno especial e depois secretário. Ensinou a esse menino da roça, língua pátria, francês, latim, dinamarquês e fundamentos da arte musical.

OS AUXILIARES

Durante muitos anos, até seu falecimento em 1862, Brandt foi o principal colaborador de Lund. Com sua falta, Lund convidou o zoólogo J.T. Reinhardt(12) para auxilia-lo na organização do material encontrado e foi o diretor da coleção Lund, na Dinamarca. Mais tarde, contou com a colaboração do botânico Eugen Warming(13). A partir de 1866, teve como secretário e desenhista F. W. Behrens(14). De todos, Nereo foi a pessoa mais próxima e seu herdeiro principal. Enquanto Lund viveu, esteve ao seu lado e cuidou do túmulo até quando ele próprio veio a falecer.

Banda Santa Cecília, criada por Lund. (Detalhe)

AMENIDADES

Disse Álvaro da Silveira que ouviu relatos divertidos sobre Lund. Um deles:

“Evitava o mais que podia toda e qualquer contrariedade [...] Um seu vizinho mandara vir [...] uma vaca para o fim de fornecer leite [...] À tarde, viu a vaca para a frente do curral onde se achava preso o bezerro e, a intervalos não muito afastados uns dos outros, berrava, ao que lhe respondia com outros tantos berros, alternadamente, o bezerro.

Esta orquestra bastante incômoda prolongou-se por toda a noite. No dia seguinte, Lund mandou chamar o dono da vaca e lhe perguntou quantas garrafas de leite produzia [...] quanto durava a lactação e qual o preço de cada garrafa. Depois de ter estas informações, retirou-se para o seu gabinete, de lá voltando, no fim de algum tempo, com um papel, em que se viam algumas multiplicações…”

E o doutor Lund apresentou a solução:

“- A sua vaca, fornecendo por dia [...] cinco garrafas de leite produzirá nos seis meses de lactação 900 garrafas que, vendidas a 100 reis produzirão 90$000. Agora o senhor solte a sua vaca. Ficou assim livre da música bem pouco agradável, que lhe causara tanto incômodo, não o deixando dormir.”

Sobre os lazeres de Lund, Álvaro da Silveira contou:

” É bem claro que, em um lugar como Lagoa Santa, raras seriam as distrações que o sábio [...] poderia encontrar. Para ter um ponto onde pudesse gozar algumas horas de recreio, mandou construir na lagoa [...] uma casa onde ia quase diariamente passar das 11 horas até 1 da tarde. Distraía-se ali a atirar comida aos peixes [...] que rodeavam em cardumes a pequena casa.”

Essa edificação era conhecida como “Casa d’Água”; enquanto durou foi uma atração do arraial. Estava localizada nas imediações do atual Praia Bar. A foto abaixo mostra a construção em madeira, de dois andares, na beira do lago. Brandt também ali passava boa parte do tempo. A casa, em estilo dinamarquês − vide detalhes do telhado − ficava na margem da lagoa, bem próxima à residência do cientista.

Casa d’Água. (Por Eugen Warming, detalhe)

Uma foto de Warming, foi publicada com a seguinte legenda: “A margem NE da Lagoa Santa. As palmeiras são Acronomia sclerocarpa. Nos jardins vêem-se cafeeiros e laranjeiras”Nessa outra imagem se vê uma casa de quatro janelas, tendo quatro palmeiras à esquerda, que é a mesma que aparece na foto da Casa d’Água. A iluminação e as referências topográficas, como o morro ao fundo, indicam que as duas imagens foram captadas à tarde, com o fotógrafo posicionado ao noroeste da lagoa.

Casa na beira da lagoa [a mesma casa aparece na foto anterior]. (Por Eugen Warming, detalhe)

TUMULTO NA LAGOA

Lund possuía razoável fortuna, proveniente de herança, além de receber subvenção financeira do governo dinamarquês. Desta maneira, conseguiu durante seus tempos de Brasil, viver dedicado apenas à pesquisa científica. Em certa época, chegou a emprestar dinheiro aos necessitados de Lagoa Santa, sem cobrar juros e sequer exigir de volta o capital. Esvaziava seu cofre, mas a atitude fazia parte do seu temperamento. Entretanto, em 1839, Lund deu um passo em falso, ao financiar uma turma de aventureiros estrangeiros, liderados pelo espertalhão húngaro Franz Wiszner von Morgenstern(15). Foi o início de um tumulto financeiro e nova fonte de preocupações, contribuindo para piorar seu frágil lado emocional.

Atraído pela lábia de Morgenstern – estrela da manhã, em português – Lund decidiu aplicar dinheiro em uma mina de ouro de sua propriedade, nas proximidades de Sabará. Ingenuamente, caiu nas mãos do vigarista da estrela d’alva e não chegou a ver o brilho do vil metal. Perdeu parte da sua fortuna, mas ainda permaneceu com muitos bens imóveis e dinheiro, tanto que deixou herança de considerável monta.

Cena da batalha entre liberais e conservadores. (Litografia por Heaton & Rensburg)

Três anos depois, outro acontecimento veio a atormenta-lo, foi a Revolução Liberal de 1842, que o obrigou a encaixotar o produto do trabalho arqueológico de muitos anos e trancar-se em casa. Nessa temporada, nada mais de arqueologia e devaneios. No auge do conflito, no dia 3 de agosto, ocorreu uma sangrenta batalha no arraial. As tropas governistas, constituídas pelas forças de Sabará, tentaram tomar o terreno onde estavam aquartelados os revolucionários. O relato(16) de um combatente liberal, o cônego José Antônio Marinho, ilustra bem o que se passou em torno da casa de Lund:

” Trez minutos serão passados depois da nossa chegada à Lagoa Santa, pelas duas horas da tarde, quando rompeo o fogo da emboscada, [...] em que cairão as forças da legalidade, [...] graças à valentia dos bravos Curvellanos e ao sangue frio do seu chefe, o Coronel Luiz Eusebio d’Azevedo [...] elles [os legalistas] acometião com uma coragem verdadeiramente militar, despedião uma chuva de balas; mas os homens do Sertão entrincheirados como estavam, não davão tiro a debalde, e tão terrivelmente repellião os contrários, que cada  bala por elles despedida levava consigo uma morte, ou uma ferida. O combate cessou com a noite; os legalistas foram repellidos com perda; e os Insurgentes conservaram-se em seus postos sem que perdessem um palmo de terreno.”

Nesse dia, a dor e a morte tomaram conta de Lagoa Santa e o lugar não esteve bom para se viver. Lund escreveu a respeito do acontecimento:

“O paraiso terrestre [...] tornou-se palco de cenas que me encheram de repulsa e pavor. [...] Ninguem em casa veio a ferir-se, apesar das balas que assobiavam perto dos nossos ouvidos [...] Neste momento, quando escrevo isso, reina um silêncio sepulcral em torno de mim, todas as casas fechadas, as rua vazias, nenhuma viv’alma é vista. Alguns corpos ainda estão espalhados aqui e ali; os abutres, que nos dias de tumulto anteriores tinham desaparecido, já se deixam ver, mas eu antecipo no trabalho principal de recolher e enterrar os cadáveres. O Sol de Lagoa Santa se pôs para mim.”

Uma gravura de Heaton & Rensburg(17) representa uma cena da batalha e traz como legenda:

“… um soldado do Curvelo e quarenta praças derrotaram as forças do coronel Manoel Antônio Pacheco(18), compostas de 750 praças; [...] o tenente Pedro Lataliza, com 18 praças e 6 armas fez debandar 200 praças; [...] Manoel José de San Payo e Moysés de Souza Caldeiras e mais 3 moços do Curvelo  fizeram debandar 250 praças.”

Registro de óbito de um jovem soldado curvelano.

Cumprindo seu papel de médico, Lund prestou socorro a vários feridos. Nos livros paroquiais, arquivados na Cúria Metropolitana de Belo Horizonte, há vários registros, um deles(19) se refere a um soldado do exército liberal. É possível que Lund tenha atendido esse guerrilheiro, que resistiu cinco dias antes de falecer, como consta em uma anotação de óbito:

“Aos oito dias do mês de Agosto de mil oitocentos e quarenta e dois annos faleceo Francisco de Salles Rego, morador no Bagre, Freguesia do Curvelo, cazado com Joanna Gonçalves [...] de vinte e cinco anos de idade, por tiros que recebeu neste Arraial em guerrilha no dia tres do dito mes, e recebeo os Sacramentos da Penitencia e Extrema Unção…”

No seus dias de refúgio forçado, remoendo angústias, Lund deve ter trazido ao pensamento o enrolado Morgenstern, que também estava metido nessa nova confusão. Daquela feita, pretendia construir trincheiras para os revolucionários, como revela uma correspondência(20) que enviou, em 19.08.1842, para José Feliciano Pinto Coelho da Cunha, investido como governador interino do estado e comandante-chefe dos liberais:

… cumpre-me informar que achei um lugar [...] nos altos denominados de Alcobaça [...] que podem construir três Linhas de trincheiras inexpugnáveis [...] Para a construção dessas fortificações é mister hum numero de trabalhadores que não seja menor que sessenta, para acaba-las em dois dias…” 

No dia seguinte, 20.08.1842, ocorreu a batalha final na vizinha vila de Santa Luzia e os liberais foram derrotados pelas tropas do duque de Caxias. As preocupações de Lund com a guerra se atenuaram, porém Morgenstern, que ainda lhe devia, desapareceu e o deixou a ver navios em Lagoa Santa. Dele só se teve notícias em 1845, trabalhando para o ditador Solano López, no Paraguai.

TESTEMUNHOS

Um dos biógrafos de Lund, seu filho adotivo Nereo, em sua obra(21) póstuma “O Naturalista”, assim o descreveu: “Era de um caráter nobre, benévolo, amável e caritativo. [...] Amou sinceramente este belo país [...] Era dotado de um vivo sentimento religioso; e, em uma carta dirigida ao bispo Kierkegaard [Peter], seu amigo e primo, pouco antes da sua morte, manifestou-se de um modo tão bonito como frisante: ‘Eu nutro em mim uma fé cristã infantil; mas graças a Deus, uma fé firme e inabalável’…”

Nereo falou também do lado sentimental, se referindo a um amor italiano:

“Lund (contado por ele próprio) amou, uma vez na vida e teve desejos de casar. Mas o amor de jovem e gentil italiana, que conheceu quando viajava pela Itália, não foi forte bastante para se apossar do coração do sábio [...] uma loura mulher que vagamente almejou esposar…”

Mas, dizem antigos moradores de Lagoa Santa, ter existido um outro amor. Das poucas casas que o cientista frequentava era a do senhor Américo, um homem culto, reservado e de algumas posses que se mudara para o arraial. Possuía um piano que Lund gostava de ouvir e também tocar, sob os olhares da filha do anfitrião. Daí surgiu um grande amor, ela se apaixonara pelo pianista amigo, mas o sentimento era unilateral.

Ainda, no seu texto sobre Lund, Pires de Almeida, escreveu:

“Em 1848, [...] Lund que até aquela época manifestara desejos de voltar à Europa e ir habitar o sul da França, resolveu ficar na Lagoa Santa [...] Ofereceu então as ricas coleções, que acumulara com tanto carinho e desvelo, ao museu de Copenhague; daí em diante limitou-se, como ele próprio declarou em uma carta, a cuidar no beata ruris otia, (bendito ócio do interior) … do seu jardim e a dar curtos passeios pelo abandonado campo de suas conquistas científicas, contemplando, às horas intermediárias, do alto do mirante, as águas crespas da lagoa.”

Casa de Lund adaptada para grupo escolar. (Por William Thalbitzer, detalhe)

A edificação foi sendo degradada ao longo do tempo. A que hoje existe, de Lund só tem o nome. Não foram mantidas no atual grupo escolar, instalado na antiga casa de Lund, as características originais. Pires de Almeida, comentou sobre o desprezo que tiveram pela casa histórica:

“Quanto à casa, aquele humilde mas preciso berço da paleontologia brasileira, está atualmente convertido [...] em nojenta taverna, onde em um escuro e ignóbil balcão se trocam por um ‘cobre’, a rapadura e o fumo, embrulhados talvez em manuscritos (inéditos, quem sabe?) do grande filósofo. O mirante cai aos pedaços. O jardim, onde se descobrem ainda escolhidos arbustos plantados pela mão do sábio, acha-se em completo abandono.” 

Lagoa Santa, em 1922. Casa de Lund [grupo escolar], à esquerda. (Por William Thalbitzer, detalhe)

UMA VISITA

O filologista dinamarquês William Thalbitzer(22) esteve no Brasil, em 1922, participando do 20o Congresso Mundial de Americanistas(23) e também com o propósito de conhecer Lagoa Santa. Na abertura do congresso, fez um discurso e chamou a atenção para o trabalho de Lund. De fato fez a visita, acompanhado da mulher, a escritora e escultora Ellen Locker Thalbitzer. No seu retorno, publicou(24) na Dinamarca o seguinte relato:

“Após o término do Congresso, fiz com minha mulher uma viagem ao estado de Minas Gerais para visitar o túmulo do nosso ilustre compatriota P. W. Lund, em Lagoa Santa. […] Depois de uma noite mal dormida chegamos à capital, Belo Horizonte, […] Eu tinha comprado um bilhete para a estação Dr. Lund, assim designada em memória do estranho dinamarquês que dedicou sua vida às explorações em cavernas ao redor de Lagoa Santa. Descobri que havia sido levado a quatro estações mais ao norte. A estação de Vespasiano é a mais próxima de Lagoa Santa. Felizmente, há um trem de retorno antes do anoitecer.”

Em 15.02.1895, foi inaugurada a estação ferroviária de Horta Velha, da Estrada de Ferro Central do Brasil, no povoado de mesmo nome. Na primeira década do século XX, passou a se chamar Dr. Lund, em homenagem ao cientista.

Estação ferroviária de Dr. Lund, em 1922. (Por William Thalbitzer, detalhe)

Prosseguiu Thalbitzer em seu relato:

“Embora fossemos forasteiros, estávamos no lugar acompanhados de um comerciante, um médico e um farmacêutico, onde se recebe o visitante com a tocante hospitalidade dos lares brasileiros. O último, o senhor Alberto Gonçalves, dedicou-nos grande atenção, ao colocar seu carro à nossa disposição, inclusive para nos acompanhar até o túmulo de Lund, em Lagoa Santa. O túmulo está localizado em um pequeno terreno desmatado, em meio ao arvoredo do campo, a noroeste do lago e da aldeia de mesmo nome. O túmulo é cercado por uma grade de ferro. O próprio Lund tinha escolhido aquele local. Em uma placa de metal escuro há a seguinte inscrição:

 ’Aqui jazem os preciosos restos do ilustrado e venerando sábio de saudosa e imorredoura memória. // Pedro Guilherme Lund / Nascido a 14 de Junho de 1801 / Falecido a 5 de Maio de 1880.’

Não se menciona que Lund era dinamarquês. Acima, em outra pequena placa, informa-se que é perpétuo, tem manutenção e os dizeres: ‘Gratidão ao Povo Mineiro que amo.’

Dentro do gradeado, imediatamente atrás do monumento, há três sepulturas no chão, com placa que traz os seguintes nomes e informações:

‘Pedro Andreas Brandt, norueguense // Guilherme Behrens, allemão, secretario e desenhista de Lund. // João Rodolpho Müller, suisso, seu amigo íntimo.’

Em frente ao portão gradeado, que leva até ao túmulo, a algumas braças de distância, em direção ao portão do cercado, assenta-se uma grande cruz de madeira, que registra o ano de 1862. É um símbolo católico como aqueles que são vistos na entrada da aldeia ou na praça. A supervisão do túmulo de P. W. Lund foi assumida há muitos anos por seu protegido Nereo Cecílio dos Santos que possuía a chave do portão. Soube que Nereo havia morrido cinco dias antes da minha chegada a Lagoa Santa. Ele fora levado para um hospital em Belo Horizonte e seu sucessor como zelador do túmulo, Antonio Felipe, ainda não tinha recebido a respectiva chave. A grade estava adornada com flores.”

E mais adiante:

“A casa de Lund, na praça principal da vila, permaneceu inabitada por 40 anos, agora está transformada em escola. Em Lagoa Santa, como em toda a região, é venerada a memória da sua pessoa. Seu trabalho no estudo das grutas, durante toda a vida, contribuiu para criar a tão  admirada imagem. Aqui, a Dinamarca, de repente, transformou-se em um nome familiar. Conhecemos velhos negros que, sorrindo com entusiasmo, disseram ter conhecido o “dotô Lundi dinamarquês” ou então que eram filhos de quem o conheceu. Mesmo os mulatos analfabetos sabiam o que qualquer brasileiro sabe, que P. W. Lund, durante o trabalho de uma vida inteira, projetou tanto o nome da Dinamarca quanto o do Brasil.”

Thalbitzer ilustrou o artigo com fotos, que afirmou serem de sua autoria, feitas durante sua passagem pelo arraial de Dr. Lund, Lagoa Santa e também as que fizera, anteriormente, no Rio de Janeiro, Petrópolis e Teresópolis.

Placa tumular para Brandt, Behrens e Müller. Túmulo [pequizeiro à esquerda], em foto por William Thalbitzer (1922).

DO SEU JEITO

Comenta-se até hoje, em Lagoa Santa, sobre o cuidado que Lund tinha com o trajar. Suas fatiotas eram lavadas nas águas da lagoa e depois passadas com goma de polvilho, destoando do amarrotado comum da vila. Era reverente com a natureza, pois sempre que descobria uma nova flor do serrado, oferecia uma recepção solene para acolhê-la em seus arquivos. Para tanto, vestia-se com especial esmero, cobria-se com um chapéu de abas largas, convocava a banda Santa Cecília e, juntos, encaminhavam-se para o campo, afim de dar boas-vindas à preciosa filha da natureza. Realmente, tudo isso pode ser fantasia, mas é verdade que escolheu uma das árvores mais bonitas do serrado para dar sombra ao seu túmulo: um pequizeiro.

 Lund: “primeiro, fazer meu enterro do modo mais simples; segundo, saldar contas dos criados e dos negócios.”

Em uma declaração, datada de 12.02.1875, fizera algumas recomendações. As duas primeiras: “Terão de 1º fazer o meu enterro, e do modo mais simples. – 2º saldar as contas dos Criados…” E mais, não queria lágrimas e que servissem aos presentes à última despedida as melhores bebidas de sua adega. Outra declaração, datada de 30.05.1876, determinava: “O Terreno envallado que possuo, onde estão sepultados o Snr. Brandt e o Snr. Behrens passará por minha morte a pertencer ao Snr. Nerêo Cecílio dos Santos.”

Os dias finais de Lund, já muito decadente e praticamente cego, foram assim descritos por Nereo:

“Uma constipação que lhe sobreveio, em fins de março de 1880, prostrou-o na cama, produzindo uma grande diminuição de forças, até que tranquilamente e sem maiores sofrimentos expirou, entregando seu espírito cultivado e tão nobre ao Criador, faltando apenas três semanas para completar a idade avançada de setenta e nove anos…” 

Pequizeiro em flor, árvore predileta de Lund. Seu retrato, por Eugen Warming, década de 1860.

Lund nasceu em 14.06.1801, em Copenhagen, e faleceu em Lagoa Santa, em 25.05.1880. Atendendo seu desejo, o féretro saiu da sua casa acompanhado pela banda de música Santa Cecília, tendo à frente o maestro Bruno Pinto Alves. Atrás, um punhado de amigos mais chegados. Entre eles o senhor Américo – do piano – acompanhado dos seus familiares e da filha inconsolável com a perda do amor impossível. No percurso até o cemitério foram tocadas músicas alegres e brilhantes, para que ninguém chorasse.

Por Eduardo de Paula

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(1) RIEDEL, Ludwig − botânico alemão.

(2) CLAUSSEN, Peter − Dinamarquês (*1807? +1860?). Vide o Post “Pedro Curvelano”.

(3) BRANDT, Peter Andreas − (*1792 +1862), norueguês.

(4) Arquivo da Cúria Metropolitana de Belo Horizonte – Óbitos de Lagoa Santa, 1823/1861, fl. 21v.

(5) BURTON,  Richard −“Viagem de canoa de Sabará ao oceano Atlântico”, Itatiaia Editora, 1977, p. 36 a 38.

(6) ALMEIDA, (José Ricardo) Pires de − Médico, jornalista, historiador e teatrólogo (*07.12.1843 +24.09.1913): “Doutor Wilhelm Peter Lund, o solitário de Lagoa Santa”, na “Revista Brasileira”, nº 3, p. 130 a 152; transcrito na Revista do Arquivo Público Mineiro, Imprensa Oficial de MG, 1911, vol. 16, p. 487 a 494.
(7) No álbum de fotografias, tomadas a posteriori, informa-se a data: Viagem de S.S.A.A. Reaes Duque de Saxe e seu augusto irmão D. Luís Philippe ao interior do Brazil no anno 1868.” − Col. Thereza Christina Maria / Bibl. Nacional.

(8) RIEDEL, Augusto – (*1836 +ca.1877); possuiu estúdio à rua Direita nº 24, em São Paulo (SP). / Lund declarou: “A pedido do Sr. Augusto Riedel , declaro [...] que [...] na sua passagem por aqui no mez de Maio de 1869…” (Vide adendo “Várias disposições”, em “O naturalista”, por Nereo Cecílio dos Santos – Imp. Oficial de MG, 1923.)

(9) SILVEIRA, Álvaro da − “Lagoa Santa”, Revista do Arquivo Público Mineiro, Imprensa Oficial de MG, 1906, vol. 11, p. 599 a 613.

(10) KIERKEGAARD, Peter Christian − Bispo luterano, teólogo e político (*06.07.1805 +24.02.1888).

(11) KIERKGAARD, Søren Aabye − Filósofo e teólogo (*05.05.1813 +11.11.1855).

(12) REINHARDT, Joahannes Theodor − Zoólogo dinamarquês (*1816 +1882); filho do zoólogo Johannnes Christopher Hagemann, professor de Lund.

(13) WARMING, Eugen − Botânico dinamarquês (*1841 +1924).

(14) BEHRENS, Friedrich Wilhelm − Alemão, foi professor em Sabará.

(15) MORGENSTERN, Franz Wiszner von − (*1804 +1878).
Proprietário da mina de ouro de Papa-farinha, nas proximidades de Sabará (MG). Em 1865, participou da Guerra do Paraguai, construindo fortificações para as forças militares daquele país.

(16) MARINHO, José Antônio, Cônego (*1803 +1853).

(17) George Mathias Heaton, pintor inglês, e Eduardo Rensburg, litógrafo holandês. Em 1840, estabeleceram sua oficina litográfica Heaton & Rensburg, na Rua do Hospício, 103, Rio de Janeiro, passando depois por outros endereços, até se fixarem, em 1842, na Rua da Ajuda, 68.

(18) PACHECO, Manuel Antônio – Primeiro e único barão de Sabará (*? +14.02.1862).

(19) Arquivo da Cúria Metropolitana de Belo Horizonte – Óbitos de Lagoa Santa, 1823/1861, fl. 145v.

(20) “História da Revolução de Minas Geraes, em 1842″ / Revista do Arquivo Público Mineiro, Imprensa Oficial de MG, 1910, vol. 15, p. 360.

(21) SANTOS, Nereo Cecilio dos − (*15.05.1852 +13.09.1922); biográfo de Lund em “O Naturalista” (obra póstuma), Imprensa Oficial de MG, 1923. / Vide também o Post: “Querido filho Nerêo”.

(22)  THALBITZER, William −  Filologista dinamarquês e professor de estudos esquimós na Universidade de Copenhagen (*1873 +1958).

(23) “20º Congresso Internacional de Americanistas”, realizado no Rio de Janeiro, de 20 a 30.08.1922. Nos anais do 20º Congresso, consta o professor Thalbitzer como único representante da Dinamarca presente ao evento.

(24) Geographik Tidsskrift, vol. 27, 1924: “Den 20de internationale Amerikanistkongres i Rio Janeiro”, por William Thalbitzer / Consta no final do texto: “Illustrationerne er udført efter forfatterens egne fotografier fra rejsen“(ilustrações feitas com fotos tomadas pelo próprio autor em viagem). Houve quem atribuísse as fotos ao fotógrafo dinamarquês Frederik Riise, o que parece bastante improvável. É possível que Riise tenha apenas revelado os filmes e feito cópias, porém mantendo os negativos em seu poder, por isso, surgiu o aparente equívoco.

julho 8, 2011

O CAPITÃO E SUA FAMÍLIA

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♦ Uma genealogia.

Conhecida família, com raízes em Curvelo (MG), teve início com Evaristo Antônio que, ao ser batizado, ganhou o patronímico Paula. O prenome veio do personagem da Grécia antiga, o Antônio igual ao pai. O Paula foi invenção, inspirada em santo da igreja; se explica, o progenitor era Antônio Dias Ferreira, um religioso. Formando o tronco familiar, o patriarca Evaristo Antônio de Paula e sua mulher Ritta Cassimira Pereira da Silva geraram treze filhos, dois falecidos ainda pequeninos.

Os irmãos Carolina, Evaristo e Tertuliano.

Substanciais informações sobre as origens foram obtidas no testamento do pai de Evaristo, que faleceu quando era vigário em Curvelo. A mãe se chamava Euphrosina Maria Alves da Fonseca. Deixaram, além de Evaristo, outro filho, que recebeu o pré-nome Tertuliano, acrescido do Ferreira do pai e mais um Pena, obra talvez da pura imaginação. Foi batizado como Tertuliano Ferreira Pena. Nasceu também uma menina, a mais velha dos três, que recebeu o nome de Carolina Maria da Circuncisão. Ela não é citada no testamento, tornando mais tênue a afirmativa da paternidade, embora não haja dúvida de que todos tinham o sangue de Euphrosina.

O historiador Antônio Gabriel Diniz, escrivão e oficial de registro de imóveis, em Curvelo, fez a seguinte anotação em uma ficha dos seus arquivos: “numa verba de seu testamento, o major Modesto José de Souza(1) deixou aos três irmãos Evaristo, Tertuliano e Carolina, filhos de minha comadre Flausina [Euphrosina], o valor em quantia de 50$000 a cada um. O fato do major Modesto, então sargento-mor, ter participado como segundo testamenteiro, aumenta a credibilidade dessas informações.

Apesar do pai ter sido reticente sobre o assunto, sempre se soube que os irmãos eram filhos do religioso. Dele receberam apoio financeiro e educação, além dos estímulos para cultivarem os bons hábitos de caráter. Pouco é conhecido sobre Euphrosina, mas não há como negar o empenho materno na boa criação dos filhos, desde que o vigário não podia assumir abertamente a paternidade. Foi assim que se tornaram cidadãos respeitados e admirados. Carolina, particularmente, tornou-se pessoa de muitas virtudes e bem-querida em toda Curvelo.

Trecho de cópia do testamento de Antônio Dias Ferreira.

A controvertida imposição do celibato nunca funcionou e o padre Antônio, com alguma sutileza, manifestou em seu testamento que não se submetia à continência. Em cópia do documento, autenticada por Antônio Gabriel Diniz, escrivão, em 23 de Janeiro de 1954, consta o seguinte:

“Em nome da Santissima Trindade, Padre, Filho e Espirito Santo em quem eu, Padre Antônio Dias Ferreira, firmemente creio, em cuja fé protesto viver e morrer como bom e fiel Catolico, estando em meu Juizo, senhor de mim e de todas as minhas potências e faculdades mentais, vou fazer este meu testamento. [...] Sou cidadão Brasileiro, natural da Vila de Pitangui e filho legitimo de Antonio Dias Ferreira e de Dona Maria Esteves Rodrigues. Sou Paroco Encomendado(2) desta Freguesia de Santo Antonio de Curvelo, onde resido, na qual acontecendo falecer, o meu testamenteiro ordenará meu funeral sem pompa, assistido pelo meu Reverendo Coadjutor, que tão bem será encarregado de celebrar por minha alma três missas Paroquiais. [...] Deixo forra a minha escrava Laura, parda, de idade cinco anos e dez meses, filha de uma crioula de nome Renovata, que vendi ao Senhor Candido de Souza Vianna(3)[...] A crioula Maria, que rematei em praça, servirá à dita Laura, dez anos, em cujo termo se lhe passará carta de liberdade e ao dentro deste prazo, a dita crioula tiver filhos, tão bem gozarão da liberdade – Rogo, ao Senhor Candido de Souza Vianna e a Senhora Dona Antônia, mestra de meninas, queiram no momento do meu falecimento, fazer a esmola de puxar as duas inocentes Laura e Maria para debaixo de suas honrosas sombras e patrocinio. Não tenho certeza ter tido filhos, tanto no estado secular, como depois de ter recebido a Unção Sacerdotal.”

Assinatura do padre Antônio em ata lavrada no Tabuleiro Grande, 13.11.1842. 

Prossegue no testamento:

“…que o remanescente dos meus bens seja divido em dois quinhões, dos quais será a Laura herdeira de um [...] e do outro será herdeira a Senhora Frauzina [Euphrosina] Maria da Fonseca(4), moradora no Curato do Taboleiro Grande(5), mãe do Senhor Evaristo Antônio de Paula e Senhor Tertuliano Ferreira Pena, com quem ela distribuirá igualmente o referido quinhão. – Declaro que o Senhor Evaristo Antônio de Paula já está indenizado do trabalho que teve com uma pequena criação de gado que tive no Bagre(6)[...] Rogo ao Senhor Candido de Souza Vianna queira ser meu primeiro testamenteiro, em segundo lugar ao Senhor Sargento Mor Modesto José de Souza, em terceiro lugar, ao Senhor Coronel Jerônimo Martins do Rego [...] Vila de Curvelo, vinte de Abril de mil oitocentos e cinquenta e cinco // Padre Antônio Dias Ferreira

As mulheres sempre foram muito sagazes e Euphrosina, por sua conta e risco, incorporou ao sobrenome o Dias do padre, que usava com muita satisfação. Na certidão de óbito do seu filho Evaristo consta desta forma: Euphrosina Dias da Fonseca.

Registro de óbito de Evaristo, filho de Euphrosina Dias.

Detalhe importante sobre a citada escrava do padre, foi revelado por um neto(7) de Evaristo, quando escreveu: “… Laura morava em companhia do capitão Evaristo como uma pessoa da família. Tinha o apelido de Aia. Teve uma filha, cujo pai ignoro, chamada Raimunda.”

O testamento foi aberto dezenove dias após a lavratura, o que significa ter o padre Antônio pressentido sua morte:

“… Abertura – Certifico que, por não estar na terra o Ilustríssimo Senhor Doutor Juiz Municipal, para se dar cumprimento, em presença do Senhor Delegado de Policia, cumprindo as disposições funerárias, abri este testamento [...] Vila de Curvelo, nove de maio de mil oitocentos e cinquenta e cinco. O coadjutor Fernando Augusto de Figueiredo // Felicíssimo de Souza Vianna.”

AS RAÍZES

Em 1839, o religioso esteve na Fazenda Bom Despacho(8), situada entre Sete Lagoas e Tabuleiro Grande, onde se desenvolveu a atual cidade de Fortuna de Minas(9). A região pertenceu a Santa Quitéria. Naquela fazenda, o padre Antônio Dias Ferreira recebeu duas procurações da fazendeira Escolástica Moreira da Silva a quem prestaria favores. Aceitou representá-la no cartório da vila de Santa Quitéria – hoje Esmeraldas – para efetuar o registro de cartas de liberdade(10) de dois escravos.

Registros em Santa Quitéria, em 18.04.1840, de cartas de alforria assinadas na fazenda Bom Despacho, em 24.03.1839.

Consta no primeiro documento:

 “… neste Arraial e Freguesia de Santa Quiteria [...] registo uma carta de Liberdade conferida por Dona Escolastica Moreira da Silva a sua escrava Lucia cujo theor eh o seguinte. Digo eu [...] e por não poder escrever pedi ao Padre Antonio Dias Ferreira que esta por mim passasse e como testemunha tão bem assignasse. Bom Despacho, vinte e quatro de Março de mil oitocentos e trinta e nove … //… aos dezoito de Abril de mil oitocentos e quarenta [...] eu [...] Escrivão e Tabelião de Notas deste Juizo que o escrevi, li, conferi e assigno. // José Ribeiro da Fonseca.”

E no segundo documento:

“… neste Arraial e Freguesia de Santa Quiteria [...] registo uma carta de Liberdade conferida por Dona Escolastica Moreira da Silva a seu escravo Justino cabra cujo theor eh o seguinte. Digo eu [...] e por não poder escrever pedi ao Reverendo Antonio Dias Ferreira que esta por mim passasse e como testemunha tão bem assignasse. Bom Despacho, vinte e quatro de Março de mil oitocentos e trinta e nove … //… aos dezoito de Abril de mil oitocentos e quarenta [...] eu [...] Escrivão e Tabelião de Notas deste Juizo que o escrevi, li, conferi e assigno. // José Ribeiro da Fonseca”.

Esses registros mostram a presença, do padre Antônio tanto na Fazenda Bom Despacho quanto na vila de Santa Quitéria, entre os anos de 1839 e 1840. Entretanto, não há como afirmar, naquele intervalo, onde estaria residindo e exercendo suas atividades pastorais. Está comprovado que assumiu a função de capelão cura em Tabuleiro Grande – distrito de Curvelo –, no ano de 1840. Nessa época, Evaristo tinha 5 anos de idade. Uma petição(11) à câmara municipal, faz crer que estaria vivendo a pouco tempo no lugar e que assumira o posto no início daquele ano. Diz assim o documento:

“… Petição do Rv.do Antonio Dias Fereira acompanhada de um assignado de varios habitantes da nova Freguezia do Taboleiro Grande, pedindo que a Camara ateste se o peticionario tem serviços na actual Freguezia do Curvello e particularmente na novamente (recentemente) creada, se nella se acha residindo como Cappelão Cura, bem como …

Detalhes: A) Petição do capelão cura Dias Ferreira para atestar residência; B) Parecer solicitado pelo vigário Costa Lanna e padre Antônio.  

Indica uma ata(12) de reunião da câmara que, em 14.07.1840, era vigário o padre Costa Lanna e o padre Antonio apenas capelão:

“Parecer da Comissão [...]  foi aprovado, bem como os projectos de attestações, sollicitadas pelo Vigario Costa Lanna e Padre Antonio Dias Ferreira …

É sabido que, a partir de 1843, Antônio foi promovido ao vicariato(13) dessa paróquia. Durante sua passagem por Tabuleiro Grande e depois em Curvelo, o padre esteve próximo do poder civil e da política, não podia ser diferente, pois era essa a tradição da igreja. No ano de 1840 foi indicado como um dos jurados de Tabuleiro Grande(14), conforme ata da câmara municipal:

“Termo de sorteio dos Jurados // Aos quinze dias do mez de Agosto de mil … quarenta annos [...] nesta Villa do Curvello [...] indicando o dia doze de outubro proximo futuro [...] para dar principio a segunda reunião de Jurados deste Termo [...] designou os seguintes Cidadãos: [...] Antonio Dias Ferreira …”

Padre Antônio Dias Ferreira indicado jurado da Vila do Curvelo, em 15.08.1840. 

No Arquivo Público Mineiro há vários documentos que comprovam sua participação em eventos da câmara municipal, nas duas comunidades. O texto de uma ata(15) diz o seguinte: “Ata da Eleição que se procedeu para Eleitores da Parochia da Freguezia de N. S. do Carmo do Taboleiro Grande [...] no dia 13 de Novembro de 1842 [...] na Igreja Matriz, reunida a Assembleia Parochial [...] celebrou o Parocho della o Reverendissimo Antonio Dias Ferr.a missa ao Divino Espirito Santo, satisfeitas assim as formalidades…”. Assinam, em primeiro lugar o presidente e, em seguida, o vigário Antônio. Na sequência, procedida a escolha do colégio eleitoral, o vigário e Bernardo Ferreira Pinto obtiveram cinquenta e cinco votos, cada um, e foram os mais votados.

Padre Antônio, em Tabuleiro Grande, eleito com cinquenta e cinco votos para o colégio eleitoral. 

Evaristo era o segundo filho, nascido em 26 de maio de 1835 e se tem dito que foi em Tabuleiro Grande, mas não há como comprovar. No atestado de óbito consta, de maneira vaga, como “natural deste distrito” de Curvelo, cuja abrangência incluía vários povoados. Os documentos mostram que Antônio, o seu progenitor, esteve na Fazenda Bom Despacho em 1939, logo depois, em 1940, na vila de Santa Quitéria e, no mesmo ano, em Tabuleiro Grande. Portanto, Euphrosina e Antônio podem ter se conhecido em qualquer lugar, entre o percurso que vai de Santa Quitéria a Tabuleiro Grande, onde tiveram os três filhos. As datas em referência e a geografia falam nesse sentido.

No testamento, o padre Antônio disse ser natural do termo de Pitangui, uma das mais antigas e importantes vilas de Minas Gerais. Era homônimo do pai, também Antônio Dias Ferreira, casado com Maria Esteves Rodrigues. Não fora a invenção do padre, os Paulas de fato assinariam Ferreira. Finalmente, não há mais dúvidas, o capitão Evaristo, curvelano de coração, tem profundas raízes na região de Pitangui, que sempre foi terra de muitos Ferreiras.

Evaristo já trabalhara numa criação de gado no Bagre, de propriedade paterna, conforme consta no testamento. A localidade, primitivamente denominada Piedade do Bagre, pertenceu a Curvelo e, hoje, se chama Felixlândia. Quando perdeu o pai Evaristo tinha 20 anos de idade. É evidente que em duas décadas de convivência esteve sob influência do pai, o que certamente influiu na sua formaçãoDurante dois anos, de 1853 até quando veio a falecer(16), em 1855, o padre Antônio foi vigário em Curvelo. Entretanto, não há como precisar quando Evaristo passou a viver no lugar.

BREVE HISTÓRIA DE RITTA

Recolhimento de Macaúbas e Ritta Cassimira (Pereira da Silva) de Paula.

Ritta Cassimira(17) nasceu em Curvelo. Perdeu o pai quando era muito jovem e sua mãe se sacrificou para que pudesse estudar. Naquela época, eram poucas as mulheres que recebiam alguma instrução formal, mas a menina foi matriculada, em 19.02.1859, com 10 anos e sete meses de idade, no educandário do Recolhimento de Macaúbas “para aprender tudo que no mesmo se ensina”. Localizado em Santa Luzia (MG), foi o primeiro colégio feminino de Minas Gerais. A viagem até lá se fazia a cavalo e durava vários dias. O estabelecimento, ainda existe, mas apenas com a finalidade de mosteiro das irmãs de Nossa Senhora da Conceição. A distância rodoviária, hoje, de Curvelo a Macaúbas é cerca de 160 km. Na impossibilidade de dar assistência de perto à menina, sua mãe nomeou como “correspondentes” os amigos Raimundo Coelho Ferreira, em Santa Luzia, e o capitão José Gonçalves Giraldes, em Raposos.

Consta do histórico escolar da aluna, identificada pelo número 83, que, no dia 17.04.1859, começou a frequentar as aulas de “musica vocal” e, em 26.11.1861, aulas de piano. Deve ter sido boa distração e deleite para espantar as dores da saudade. Antônio José Ribeiro Bhering, secretário da Instrução Pública, em relatório(18) ao Presidente de Minas, em 1854, descreveu Macaúbas como escola feminina inovadora, acrescentando: “ahi se aprende a ler, escrever, contar” e, também, “lingua Franceza, Geographia, Musica, Coser, Bordar, Doutrina Cristã, e tudo que he necessario a uma boa Mãe de Familia. A menina Ritta permaneceu em Macaúbas até 04.08.1862, se preparando para o casamento.

Detalhe da ficha de matrícula de Ritta Cassimira, em Macaúbas.

Em 1866, Ritta Cassimira Pereira da Silva, com 17 anos, se casou com Evaristo, que tinha 30 anos de idade. Era conhecida também pelo apelido de Nhasinha, filha do Tenente Antônio Pereira da Silva e de Ignez Maria da Conceição, também chamada de Sá Doninha(19). A sogra do capitão Evaristo foi mãe de criação de Raimunda Maria da Conceição, falecida aos 83 anos de idade, em 26.08.1954. Essa irmã de criação de Ritta Cassimira pertencia a várias irmandades e era muito virtuosa. Promoveu em Curvelo, por mais de quarenta anos, a procissão de Nossa Senhora das Dores(20).

“Eu Evaristo, vereador, a escrevi”: ata de sessão da câmara de 08.01.1869.

BREVE HISTÓRIA DO CAPITÃO

Desde moço, Evaristo teve gosto pelo trabalho, além de fazendeiro exerceu a atividade de comerciante em Curvelo. Ele e o irmão Tertuliano Ferreira Pena, foram “dos primeiros [...] que enriquecidos no trato honesto e laborioso do comércio [...] fizeram fortuna e se tornaram capitalistas” (21). Tornou-se membro da Guarda Nacional, investido no posto de capitão. Homem muito influente, também militou na política. Foi vereador pelo Partido Liberal em duas legislaturas(22).

Evaristo era habituado às lides do campo e conhecedor da natureza. Na sua astúcia, passou a suspeitar de um inseto como provável vetor de grave doença. Por volta dos seus 70 anos de idade, fez amizade com Cantarino da Motta, engenheiro-chefe das obras de construção da via férrea da Central do Brasil, que passara por Curvelo. Durante conversas com o amigo, comentou sobre as suspeitas que tinha do inseto que o povo denominava “barbeiro”. Quando  a ferrovia atingiu a cidade de Lassance, inúmeros casos de malária passaram a impedir o andamento dos trabalhos. Para combater o surto da doença, chegou à localidade uma equipe de médicos, comandada por Carlos Chagas. Naquele momento, Cantarino repassou aos médicos o alerta de Evaristo, sobre o inseto ainda desconhecido no meio científico. Deram-lhe ouvidos e ocorreu a identificação da doença que, em homenagem ao seu descobridor, ficou conhecida como Doença de Chagas(23).

Estação Capitão Evaristo e, à direita, a memória demolida. 

O médico Sílvio de Paula Pereira, membro da Academia Mineira de Medicina, fez um relato(24) afirmando que ouviu de vários parentes do capitão Evaristo detalhes que não deixam dúvidas quanto à sua participação nos fatos que antecederam a descoberta da Doença de Chagas. Coube a ele, inclusive, coletar os primeiros insetos que foram enviados ao Rio de Janeiro, a pedido de Carlos Chagas. Esses insetos, recordavam alguns filhos do capitão Evaristo, teriam sido ofertados ao cientista em caixas de papelão, que serviam para acondicionar cápsulas contendo quinino, usado contra a malária.

Casa de Ritta e do capitão Evaristo, depois Hospital de Emergência.

Numa homenagem ao capitão pelos seus feitos, particularmente por sua colaboração para a descoberta da Doença de Chagas, foi aprovada uma lei no Congresso Nacional, em 1954, mudando a denominação da estação ferroviária de Tamboril para Capitão Evaristo(25). A estação da estrada de Ferro Central do Brasil, próxima a Curvelo, foi demolida.

O capitão Evaristo foi um dos irmãos fundadores da Santa Casa de Caridade da Vila de Curvelo e colaborou na sua administração, exercendo várias funções(26). Após seu falecimento(27) mereceu uma homenagem, por sua atuação a favor das questões de saúde da comunidade. Foi na época da terrível epidemia da gripe espanhola(28), a doença que se disseminou pelo país a partir do ano de 1918. Nesse ano, o major Antônio Salvo fundou o Hospital de Emergência Evaristo de Paula(29), destinado àqueles que chegavam das regiões próximas a Curvelo à procura de socorro médico. O hospital funcionou, durante dois anos, na antiga casa do próprio patrono, sob a direção do médico Benjamin Jacob de Souza. Não fora o “Hospital Capitão Evaristo [...] e a reabertura, embora em obras, da Casa de Caridade, a gripe espanhola teria sido uma calamidade em Curvelo.”

FILHOS DE RITTA E EVARISTO

Elvira, a mais velha; Aristóteles e Alcibíades (4° e 5° filhos) repetiram os nomes de dois meninos falecidos.

Lavínia, Sylvia, Eurípides, Clarice.

Nicolina, João Baptista, Mercedes, Ritta.

O casal Evaristo Antônio de Paula e Ritta Cassimira teve os seguintes filhos: Elvira, (Aristóteles*), Aristóteles, (Alcibíades*), Alcibíades, (Antônio*), Lavínia, Sylvia, Eurípides, Clarice, Nicolina, João Baptista, Mercedes e Ritta, gente com muita história para ser contada(30).

* Falecidos prematuramente.

Por Eduardo de Paula
Colaboração: Berta Vianna Palhares Bigarella

(1) SOUZA, Modesto José de – Natural de Santa Luzia (MG), major da Guarda Nacional, foi um dos mais valorosos homens do Curvelo antigo, lutador pela criação da Vila do Curvelo; faleceu aos 64 anos de idade, em 18.12.1863.

(2) ENCOMENDADO: diz-se do padre que é nomeado interinamente para reger uma paróquia (em oposição a colado).

(3) VIANNA, Cândido de Souza – Natural da Quinta do Sumidouro (bat. 29.04.1822 +17.11.1888), filho de Antônio de Souza Vianna e de Josefa Fernandes de Azevedo, casado com Maria Cândida Pereira da Costa (+05.08.1896), filha de José Pereira da Costa e de Júlia Hypolita Pereira da Silva.

(4) FONSECA, Euphrosina Maria da – Corruptela: Frausina.

(5) Taboleiro Grande = Tabuleiro Grande, atual Paraopeba (MG).

(6) Piedade do Bagre, atual Felixlândia (MG).

(7) PAULA, Eduardo Vianna de – (*19.05.1909, Curvelo +13.04.1991, Belo Horizonte), neto de Evaristo Antônio de Paula e de Ritta Cassimira Pereira da Silva, filho de Alcibíades de Paula e de Virgínia Vianna. – [Em 2011, relato de Heloísa de Paula Pinto, neta do capitão Evaristo: "Conheci a filha de Aia, chamavam-na “Raimunda de Aia”. Era uma doceira, mulata e gorda. Produzia amendoins açucarados, embalados em cartuchos de papel, que eram oferecidos durante as coroações nas igrejas."]

(8) CAMPOLINA, Margaret Aparecida Gonçalves dos Santos – Historiadora (Fortuna de Minas) / Depoimento em 07.07.2011: “Escolástica era filha do alferes Antônio Moreira Barbosa e sobrinha do padre José Moreira dos Santos, irmão da sua mãe Anna Moreira da Silva. Bom Despacho é denominação de uma fazenda tradicional de Fortuna de Minas (MG), hoje Fazenda dos Macacos, que se mantém conservada. O nome tem origem em uma capela construída em louvor a Nossa Senhora do Bom Despacho, pelo padre José, tio de Escolástica.”

(9) FORTUNA DE MINAS – Os desbravadores da região foram familiares do visconde de Caeté, onde tornaram-se possuidores de inúmeras fazendas. A ocupação territorial da atual cidade teve início por volta de 1842, por doação de terras para a construção da primeira capela e do cemitério. A cidade foi elevada a distrito de Sete Lagoas em 30.11.1912. Passou a pertencer ao município de Inhaúma em 27.12.1948. Foi emancipada como município em 31.12.1962.

(10) Extraído do livro n° 2 de escrituras, procurações e testemunhos, do curato de Santa Quitéria, aberto em 26.03.1838, pelo juiz de paz Francisco de Paula Moreira da Silva: p. 56, 56v, 57 e 57v. 

(11) Arquivo Público Mineiro – CV-006: Petição, p. 63. 

(12) Ata Arquivo Público Mineiro – CV-006: Termo de sorteio de Jurados, p. 6 v e 68.

(13) DINIZ, Antônio Gabriel – “Dados para a história de Curvelo (II)”, Ed. Comunicação, 1975, p. 411 e 412: Em “sua provisão, datada de vinte de agosto de 1843, consta ter sido nomeado ‘vigário da nova Freguesia de Nossa Senhora de Taboleiro Grande’, sucedeu-lhe no paroquiato o padre Camilo de Lelis Ribeiro (provisão de 12 de setembro de 1846).”

(14) Arquivo Público Mineiro – CV-006: Termo de Sorteio de Jurados, p. 68.

(15) Arquivo Público Mineiro – CV-004, p. 100 e 100 v.

(16) Testamento de A. D. Ferreira lavrado em 20.04.1855, aberto em 09.05.1855: óbito ocorreu entre as duas datas.

(17) SILVA, Ritta Cassimira Pereira da – (*13.07.1848 +20.03.1914, Curvelo). Registro de Óbito no Serv. Registral das Pessoas Naturais de Curvelo − Livro c-07, fl. 35v, n° 53: “Aos vinte e um de março do anno [1914] e logar já dito, compareceu Manoel José Lopes, provando com attestado do Pharmaceutico Christiano Penna, ter fallecido hontem a meia noite, soffrendo insufficiencia cardiaca, natural e residente nesta Cidade, com sessenta e seis annos de idade, Ritta Cassimira de Paula viuva do Capitão Evaristo Antonio de Paula, ignora a filiação. Vai ser sepultada no Cemiterio Municipal desta cidade. E fis este em que pelo declarante assigna-se Commigo Luis da Paz, escrivão que mandei escrever e subscrevo.”

(18) Arquivo Público Mineiro: “Seção Provincial” – 497; fl. 147 v. – Relatório do Secretário Antônio José Ribeiro Behring, da Secretaria Geral da Instrução Pública, ao Dr. Francisco Diogo Pereira de Vasconcellos, presidente da província de Minas.

(19) Informações sobre Sá Doninha: ficha do arquivo de Antônio Gabriel Diniz.

(20) Informações sobre Raimunda Maria da Conceição: ficha do arquivo de Antônio Gabriel Diniz.

(21) DINIZ, Antônio Gabriel – “Dados para a história de Curvelo (II)”, Ed. Comunicação, 1975, p. 208 e 209.

(22 PAULA, Evaristo Antônio de – Vereador em Curvelo, nas legislaturas de 07.01.1849 a 07.01.1853 e de 07.01.1869 a 01.10.1873, pelo Partido Liberal. Fonte: Arquivo Público Mineiro / Inventário do Fundo da Câmara Municipal de Curvelo, CV-017.

(23) Carlos Chagas comunicou, em abril de 1909, a descoberta de uma nova doença humana, que levou o seu nome. Vide Post “O capitão e a doença de Chagas”.

(24) Referência em artigo de Alcibíades Vianna de Paula, em “Curvelo Notícias”, agosto, 1977.

(25) Diário Oficial da União, 16.12.1955, p. 1, seção 1.

(26) E. A. P. foi um dos fundadores da Santa Casa de Misericórdia e do Hospital da Caridade – hoje Hospital Santo Antônio. Exerceu também as funções de escrivão do tesoureiro, mordomo da bolsa (encarregado de angariar fundos) e membro ativo da mesa administrativa. Fonte: DINIZ, Sílvio Gabriel – “Dados para a história de Curvelo (III)”, Imprensa Oficial de MG, 1989, p. 21 a 46.

(27) PAULA, Evaristo Antônio de – * 26.05.1835 +18.05.1913, Curvelo. Registro de Óbito no Serv. Registral das Pessoas Naturais de Curvelo − Livro c-06, fl. 194, n° 80: “Aos desoito do mez [05] anno [1913] e lugar, compareceu Sebastião Pereira, provando com attestado do médico Doutor Antonio de Souza Vianna, ter fallecido hoje as treis horas da tarde, nesta cidade, natural deste districto, com setenta e oito annos de idade, em consequencia de anemia, Evaristo Antonio de Paula, casado com Ritta de Cassimira de Paula e filho natural de Euphrosina Dias da Fonseca. Vai ser sepultado em jazigo perpetuo no Cemiterio Municipal desta cidade. Deixou testamento. E fiz este em que assigna-se o declarante comigo Luis da Paz escrivão, escrevi.”  

(28) Gripe espanhola: grave pandemia, que afetou 50% da população mundial, com altíssima taxa de mortalidade.

(29) Hospital de emergência: “Curvelo Notícias” – jan/fev/2010 – p. 29. ; e “Dados para a história de Curvelo (II)”, p. 68 e 69. 

(30) A irmandade PAULA e conjuges: ELVIRA (*30.03.1867 +?) & Osório França Canabrava; ARISTÓTELES (*?.1868 +09.06.?); ALCIBÍADES (*?.1869 +11.11.?); ARISTÓTELES (*10.02.1871 +?) & Maria Carolina Barata & Alice Pereira da Silva; ALCIBÍADES (*02.12.1872 +28.10.1924) & Virgínia Vianna; ANTONIO (*22.06.1874,+?); LAVÍNIA (19.01.1876 +?) & Sebastião Pereira da Silva; SYLVIA (23.09.1877 +?); EURÍPIDES (*08.10.1878 +09.07.1941) & Martha Soares; CLARICE (*11.01.1884 +?) & João Pinto de Carvalho Jr.; NICOLINA (*10.05.1886 +?) & Francisco Leal & Luiz Gonzaga Jr.; JOÃO BAPTISTA (*24.06.1887 +?) & Cecília Alvarenga; MERCEDES (*02.08.1888 +?.?.1956) & Christiano Penna; RITTA [conhecida como irmã PAULA], da Congregação de São Vicente de Paulo [nome religioso, Thereza] (*07.03.1891 +17.06.1970).

junho 1, 2011

ENTRE SOLUÇOS E LÁGRIMAS

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:38 am

♦ Histórias do tempo antigo.  

Até a segunda metade do século XIX os registros paroquiais eram a única forma de assentamento de eventos vitais, tais como batismos, casamentos e óbitos. Cabia ao cura da paróquia a responsabilidade por esse trabalho, muito importante no controle dos fiéis. Seguiam orientação superior da Igreja Católica Apostólica Romana que, desde a Reforma iniciada por Lutero, temia a ameaça do seu rebanho ser abalado na sua crença. Foi determinação originária das decisões do Concílio de Trento (1545-1563), ou seja, dos primeiros tempos do Brasil Colônia, que tinha a religião católica como oficial. Em Portugal, esses registros obrigatórios foram regulados pelas Constituições de Coimbra (1591), com as mesmas ordens estendidas aos governos de ultramar. No Brasil, a princípio, seguiram as orientações vindas de Portugal, até serem regulamentadas pela Constituição Primeira do Arcebispado da Bahia, em 1707.

As normas obrigavam a informação de inúmeros detalhes, de acordo com a importância que a igreja atribuía a cada evento, especialmente aos das pessoas viventes, que eram os de batizado e casamento. Dessa maneira eram conhecidas aquelas, cujos corpos e almas mereciam zeloso e próximo acompanhamento. Os registros de óbitos, quando envolviam gente importante, heranças e outros motivos sensíveis, poderiam ser mais substanciosos. Tinham também essa função de caráter prático e útil nos desdobramentos do “post mortem”.

Em muitos registros, quando se apontava a “causa mortis”, aconteciam imprecisões e exageros tantos que permitem ao leitor múltiplas interpretações. Afinal, os religiosos pouco entendiam de medicina, mas nem por isso eram prudentes ao fazer suas anotações. Tornou-se, então, um desafio à imaginação descobrir o que poderia ter ceifado inúmeras dessas vidas. Tais procedimentos eram muito diferentes dos padrões oficiais de agora. De qualquer forma, esses documentos permitem compor um retrato da saúde e a doença nos tempos antigos, quando a morte chegava mais cedo e com mais frequência.

AO PÉ DA LETRA

O pesquisador Ismael Pordeus(1), se referindo aos sepultamentos na matriz de Quixeramobim (CE), conta que o vigário lavrava e assinava um termo, no qual fazia constar o nome do falecido, se era casado, solteiro ou viúvo, idade, o traje em que fora sepultado e se havia recebido os sacramentos. Ou se os tinha deixado de receber “por ter morrido apressadamente”. Desse termo ainda constava, o dia do sepultamento e, para que não pairassem dúvidas, que a pessoa havia “falecido da vida presente”, bem como a “causa mortis”. Diz mais, relacionando algumas delas, registradas em um Livro de Óbito do século XIX, ali existente:

“Repentinamente, de hua dor no ventre, de maligna, de catarro, de catarrão, de sarnas recolhidas, de ético, de moléstia interior, de estupor, de esquinencia, de espasmo, de dureza, de obstrução, de galico, de garrotilho, de cobreiro, de tosse, de tísica, de hu sirro, de feridas na garganta, de quebradura, de vomito, de inchação e de lombriga, [...] de velhice, de dentada de cobra, de queda de cavalo, de couce de mula, de facada, de estrepada, de tiro, afogado e até de desgraça”

Via de regra, esse era o estilo dos registros por todo o país e Minas Gerais não ficava atrás. Com a morte não se brinca, é verdade, mas é impossível não sorrir diante de tais anotações, principalmente quanto ao motivo da morte.

Numa delas, pela desabusada adjetivação, se rotulou um indivíduo como predestinado à infelicidade, dizendo que “… se sepultou no Adro da Matriz de Santa Luzia a José Guayaba, pardo, demente e pobre”. Ou noutra, quando se enfatizou uma dentada, esquecendo o principal, que era o veneno e assim “… falleceo Antonio Cabinda, mordido de cobra [...] encomendado e sepultado no cemitério da Igreja Matriz da Alagoa Santa.” E mais essa, em que se prestigiou o temido afluente do São Francisco, ao escrever,“… falleceo, afogada no Rio das Velhas, Maria Pereira crioula [...] encomendada e sepultada no cemitério da Igreja Matriz da Alagoa Santa”.

Três registros curiosos.

Rezavam missas em latim mas, paradoxalmente, nos registros abusaram das palavras do português vulgar, talvez por desconhecimento da língua pátria. Os eclesiásticos, na sua carência de saber médico e científico, fizeram inúmeras anotações daquilo que denominavam apoplexia. Nesse caso, nada como apelar ao saber da própria igreja sobre a noção que tinham dessa patologia. O padre jesuíta Raphael Bluteau, autor do “Vocabulario Portuguez e Latino”, edição de 1712, diz que a palavra “derivase do verbo grego Apopleittein, ferir & causar estupor, porque a Apoplexia he hum mal que, como rayo, fere & derruba subitamente. He uma obstrução dos ventriculos do cerebro que, tapando as arterias do rete mirabile, impede as vias dos espiritos que sobem do coração & tira de repente todo o movimento.” Ou seja, para acidente vascular-cerebral pouca explicação e um bocado de fantasia.

“Causae mortis” frequentes no passado, segundo os registros paroquiais.

Também a sífilis matava muita gente. A doença venérea, era conhecida por mal gallico”“gallica” ou “morbo gallico” (em latim), pois seria uma doença do povo gaulês, por consequência dos franceses. Há quem diga ser um exagero se atribuir à sífilis tantos padecimentos, mas se encontra uma infinidade de registros com essa “causa mortis”. Um depoimento do viajante e explorador Richard Burton(2), quando esteve em Xique-Xique, na Bahia, ajuda a compreender como se encarava a sífilis:

“Ciríaco Ferreira era um negro velho alto e magro [...] consultou-me, sem vergonha nenhuma, diante de sua mulher, a respeito de certa enfermidade “galicana”; aqui mesmo os brancos conversam sobre isso na presença das famílias, como se tratasse de um resfriado. As frequentes mutilações que agora começam a dar na vista procedem, sem dúvida, do uso, ou melhor, do abuso, dos mercuriais, aos quais acrescentam a ignorância e falta de cuidado dos pacientes, que, mesmo quando os ossos faciais estão atacados, continuam a tomar bebidas alcoólicas e rapé.”

As doenças venéreas, principalmente a sífilis, eram devastadoras. Como bem observou Burton, abusavam dos compostos mercuriais e, na ilusão da cura, entravam num processo de envenenamento contínuo, tanto que passaram a dizer: “uma noite com Vênus, o restante da vida com Mercúrio”

Mulher hidrópica (Por Gerrit Dou, 1663).

São frequentes as anotações de mortes por hidropsia, palavra rica de significados. O padre Bluteau grafava “Hydropesia” e explicou, “…inchação ou tumor preternatural do ventre, ou das pernas, ou do corpo todo, causada de uma agoa intercutanea, quando não há boa sanguinação no figado. Alem das três fortes Hydropesias, chamadas Ascitica, Tympanitica & Anazarca; há mais sette; a saber, [...] a do cerebro [...] a do bofe [...] a do coração [...] a do fel [...] a do figado [...] a do baço [...] a dos rins, que não só causa grande sede, mas juntamente appetites sensuaes & inchação dos pés, com picadas no espinhaço. Heraclito Philosopho, feito hydropico não se quiz valer de outro remedio, que de bostas de boy, com que barrava o corpo. Julio Viator, cavalheiro Romano curou sua hydropesia com a constante abstinencia de todo genero de bebida.”

Faz sentido a observação de Viator, pois é por demais sabido que a doença costuma acometer quem não bebe com moderação. Nos tempos coloniais, não havia parcimônia ao consumir a famosa “branquinha”, que era recomendada efusivamente até pelos médicos.

Na infindável série de registros, cujas patologias eram descritas de forma genérica, se repetem os óbitos por encalhe, entopimento, fluxo de ventre“de quebradura ou por ter ficado rendido das virilhas, que é a mesma coisa. As chamadas “quebraduras”, geralmente eram hérnias, que acometiam principalmente os escravos, por carregarem peso em excesso. Ressaltando aquela misteriosa doença que, num átimo, segundo as palavras do vigário, liquidou uma jovem negra:

“Aos vinte e hum dias do mez de Abril de mil oitocentos e vinte e quatro annos, falleceo Anna crioula com dezoito annos de idade, escrava de Joaquim de Oliveira da Silva de dor aguda apressadamente: foi encomendada e sepultada no Cemeterio da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Saúde da Alagoa Santa. O Vigar.° encomed.° Manoel de Almd.ª Lima.”

Naquele mundo, em que muitas patologias eram desconhecidas, como as cardiovasculares, o sobrenatural servia para justificar vários óbitos. As expressões “morreu apressadamente”“quase de repente”“sem ferimento algum” são frequentes, e seriam apropriadas para os que partiram enfeitiçados. Esses assuntos tenebrosos eram levados muito a sério, tanto que o renomado cirurgião Luis Gomes Ferreyra, na sua obra “Erario Mineral” abordou o problema no título “Para curar enfeytiçados e ligados por arte magica ou maleficios” e ofereceu algumas receitas curativas prometendo excelentes resultados(3).

Informalidade total nos registros paroquiais.

Motivo “sui generis” foi atribuído, em 1842, à morte de uma senhora de Sabará, ocorrida durante a Revolução Liberal daquele ano, tal como consta no registro(4):

21 ago 1842, na Matriz, Dona Francisca Marcianna de Assis e Castro, cazada com o Capitao Anastacio José Goncalves de Abreu, brancos, faleceu segundo constou de susto da revolucao, por essa mesma causa, sem sacramento, porque estava distante da cidade e nao se podia entao andar pelos caminhos, foi de licenca minha acompanhada e encomendada pelo Reverendo Vigario Manuel Roberto da Silva Diniz e mais sacerdotes. O Vig.ro Encom.do Joao Alves Pacheco.”

Costodio Pinto, quinze anos – Lagoa Santa – morreu de morfeia. Será?

CASO À PARTE

Um caso à parte é a lepra. A doença, além de contagiosa, era repugnante e desde tempos imemoriais considerada como um sinal de impureza. O estigma, que foi absurdamente ampliado pela religião como sinal de pecado, taxava os portadores de amaldiçoados de Deus. Daí, passaram a lidar, de maneira muito imprudente, com um assunto estritamente do físico como se fosse da alma. Sobretudo na Europa, desde 1179, por determinação do II Concílio de Latrão, o isolamento passou a ser obrigatório e, se os doentes do mal de São Lázaro necessitassem andar pelas cidades, teriam que soar matracas alertando a população. Confundida com uma enorme variedade de dermatoses e mesmo com a sífilis, muita gente recebia o rótulo errado ao morrer. Além do padecimento em vida, o indivíduo que no registro de óbito era identificado como leproso, tinha seu sofrimento prolongado à eternidade.

A ignorância sobre a lepra chegou ao ponto de provocar a destruição de um importante arquivo histórico de Minas Gerais. Foi o que ocorreu com a documentação relativa à construção da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Sabará (MG). O assassino da história teria sido um pároco cujo antecessor contraíra a doença e que, apavorado com risco de contágio, incinerou tudo aquilo que estivera em contato com o religioso.

QUERIDO IRMÃO

Por outro lado, havia gestos de delicadeza, como ocorreram ao se registrar(5) o óbito de um jovem e muito querido padre, Silvestre Pereira Coelho, em Pará de Minas (MG). Coube ao irmão José, também padre, interpretar os sentimentos e a comoção pela sua morte. Lavrou-se um texto de muita originalidade, que tem o estilo de uma reportagem:

“31 de marco de 1915 – Quarta-feira da Semana Santa, apos a Missa Solemne de Requiem e as encomendacoes e atribuicoes finais, por entre solucos e lagrimas e consternacao geral, foram, junto ao Altar da Immaculada Conceicao na Matriz desta cidade sepultados os preciosos despojos do meu querido e saudoso Irmao Padre Silvestre Pereira Coelho, sacerdote virtuosissimo e muito digno Coadjutor desta Parochia, nascido a primeiro de novembro de 1877, filho legitimo de meu sempre lembrado pai o Sr. Jose Pereira Coelho, ja falecido e de minha extremosa mae D. Maria Jose das Dores e Mello, recebeu ordens de Presbytero no Seminario de Marianna pelo Exmo. Senhor D. Silverio Gomes … Arcebispo desta Archidiocese, a 9 de abril de 1901, celebrando sua primeira missa a 14 do mesmo mez e anno nesta cidade; em 1906 foi nomeado Coadjutor, cargo que exerceu com muita dedicacao e proveito para a Religiao ate as vesperas de seu passamento, pois a 27 de marco, sabbado, esteve ate as 7 horas da noite no confessionario donde se levantou para nao mais voltar, sentindo apenas ligeira indisposicao, entretanto segunda feira 29 de marco as 11 ½ horas da noite, sem agonia e com a tranquilidade de um justo de um bem aventurado adormeceu no Senhor, tendo lhe eu administrado o Sacramento da Extrema Uncao indulgencia plenaria!

Despedida do vale de lágrimas, em versão do pintor Gustave Courbet (Musée d’Orsay – Paris).

A consternacao, as manifestacoes de sentimento de pesar que tao doloroso acontecimento causou entre o povo, bem como os funeraes e todos os suffragios a imprensa local em linguagem a mais doida e em termos os mais sentidos descreve com minuciosidade, como homenagem ao querido e saudoso morto, para consolo e conforto a todos nos seus parentes e amigos e para edificacao aos v… addicionarei no fim deste livro os jornais desta cidade que se referiram a tao lastimoso acontecimento; transcrevendo neste termo apenas um p… do noticiario da cidade onde se le:

= O Padre Silvestre era idolatrado coracao aquecido nas chammas vivas da fe. Foi d’aqueles homens rarissimos que, passando pela vida, nao deixam um traco sequer d’um sentimento mao, na sua phisionomia, sempre iluminada por um sorriso bom, havia reflexos da divindade; O Amor de Deus e o amor ao proximo fizeram-lhe o coracao repleto de bondade.

“… faleceu Antonio, parvolo, com oito dias de idade [...] sepultado dentro da Igreja de Nossa Senhora da Saude da Alagoa Santa”.

Seu espirito foi sempre lago tranquilo dourado pela graca divina. Eleito do Senhor, rocou, apenas de leve, a vida, por cuja estrada de espinhos, arrastou seu corpo de crianca, fragil … que abrangia toda grandeza de seu ser moral. A morte lhe foi certamente, cara e despojada, porque alguma cousa de pequeno que a materia encerra com a materia ficou, para repasto dos vermes, com o trespasse, a alma voou, luminosa e liberta. O espirito nao se abalou com a duvida da viagem misteriosa. O ardor de sua crenca, a firmeza de sua fe, a inabalavel conviccao nas promessas de seu Deus, dir-lhe-iam, no momento supremo que os justos podem lancar sem receio, o fraco batel sobre as ondas do mar desconhecido. E no Ceo a morada dos justos.

O Padre Silvestre falleceu com 37 anos, 3 meses e 29 dias. Havendo vivido pouco, completou o espaco d’uma d… vida e recebeu a recompensa d’uma virtude consumada. Era agradavel a Deus a sua alma, por isso Elle se apressou a tiral-o deste Valle de lagrimas. Querido Irmao e grande amigo, o teu fragil corpo descansa no silencio do tumulo, mas a tua alma, saudosa subiu alegre e satisfeita a luminosa … dos justos a gosar da suprema felicidade e ahi, bem junto de Deus, continua ser o Anjo Protetor desta Cidade intercedendo por mim, pela nossa extremosa mae e irmaos e por todos os teus filhos espirituais, entregues as maguas da mais profunda saudade. // Rev. Jose Pereira Coelho.”

Antigamente, tal como aconteceu com o padre Silvestre, muita gente era precocemente retirada do vale de lágrimas. E muito dolorosamente os milhares de párvulos do latim parvulus, pequenino, criança ainda – que, em virtude da vida breve, eram registrados com pouquissímas palavras. Esses, certamente, viraram anjos.

Por Eduardo de Paula

(1) PORDEUS, Ismael – Revista do Instituto do Ceará – ANNO LXX, 1956 – “Antônio Dias Ferreira e a matriz de Quixeramobim”, p. 209. 

(2) BURTON, Richard – “Viagem de canoa de Sabará ao oceano Atlântico”, Itatiaia Editora, 1977, p. 263.

(3) FERREYRA, Luis Gomes – “Erario Mineral”, Lisboa, 1735, p. 195. 

(4) OLIVEIRA, Vânia Lúcia de – Centro de História da Família, filme 1252318, item 5, óbitos em Sabará (MG), fl. 15 verso.

(5) OLIVEIRA, Vânia Lúcia de – Centro de História da Família, filme 1285144, item 9, óbitos da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade, Pará de Minas, Diocese de Divinópolis (MG), fl. 14, 14 verso e 15.

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