Sumidoiro's Blog

01/06/2013

PRODIGIOSA LAGOA

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 8:10 am

♦ De umas águas outrora mui virtuosas.

Uma história, do tempo em que os milagres aconteciam amiúde, está num texto acabado de redigir em 06.05.1749, em Sabará, pelo cirurgião português João Cardoso de Miranda(1). No mesmo ano, foi publicado em Lisboa, em livreto de vinte e sete páginas, ilustrado com uma xilogravura.

O autor descreve curas milagrosas nos que se banhavam na Lagoa Grande, da comarca de Sabará. Os poderes dessas águas foram divulgados por toda parte e ali afluíram incontáveis visitantes, em busca do auxílio daquela lagoa santa. Eis que, então, decidiu-se erigir, naquele sítio, a igreja de Nossa Senhora da Saúde e, em torno dela, fundaram a vila das águas milagrosas. Para marcar a data − e utilizando um pequeno altar −, celebrou-se a primeira missa da nascente povoação, com música pela banda de Sabará e homilia do padre mestre frei Pedro Antônio de Miranda. Era o dia 20 de abril de 1749, segundo domingo de Páscoa. No dia 7 de maio, o ouvidor da comarca, capitão Manoel Nunes Velho, juntamente com membros da câmara, estiveram no local, quando determinaram onde e como seria construído o arraial. São incríveis os cento e sete relatos de curas milagrosas descritos pelo autor, mas foi neste contexto que nasceu Lagoa Santa. A escolha do nome não poderia ter sido melhor.

Leitor, acredite se quiser e delicie-se com o texto de Cardoso de Miranda, um exímio contador de mentiras.

Post - Lagoa & vilaArraial de Lagoa Santa. (segundo esboço de E. Warming, sec. XIX, detalhe)

[Foi mantida a redação original, acrescida de interpretações entre parênteses.]

” NOTICIA DO DESCOBRIMENTO DA LAGÔA GRANDE,

virtude das suas aguas, e das curas, que está fazendo.

Na Capitania das Minas Geraes, Comarca do Rio das Velhas, seis leguas da Villa do Sabará, correndo para o Norte, em 20. gráos, e 48. minutos do Sul, ha um grande lago de agua, chamado vulgarmente a Lagôa Grande. A sua figura he quasi triangular: terá de comprido meia legua, e de largo um quarto, fazendo em circumferencia huma legua, e hum quarto.

Todas as aguas, que cahem nos campos vizinhos, para ella correm, fazendo-a no tempo dellas muito mais larga, e comprida. No tempo da secca, e na maior força do Verão desagôa para o Nordeste por hum sangradouro, que levará dez telhas de agua (vertedouro que corresponde à largura de dez telhas). Tem o seu nascimento no meio da mesma lagôa em varios olhos, observando-se tambem no seu ambito alguns lagrymaes (olhos-d’água, fontes).

As aguas da chuva não se conglutinão (se misturam) com as desta lagôa, porque nem sangue, nem sabão com ellas se unem. Na maior altura terá trinta e sinco palmos de fundo, e toda ella tende para este com igual declive, podendo muito bem navegar iates. He tão crystalina que os que a furcão (que cortam a água tal como faria uma forca [furca, forquilha]) em canôas, quando ha calmaria, lhe vão vendo o fundo, como se entre este, e a embarcação não houvesse mais que huma transparente vidraça, o que melhor se percebe pelas nove da manhã, e trez da tarde.

No fundo se vem partes escalvadas (sem vegetação), e outras cheias de hervas verdes, sendo aquelle de barro de cor amarella tirante a alambriado (cor de âmbar, amarelo dourado) queimado, e onde a agua se está vendo nascer em borbotão, he pedra, ou pissarra (piçarra, cascalho).

Post - Prodigiosa Lagoa I“Prodigiosa Lagoa”: páginas 4 e 5, publicado em 1749, Lisboa.

Quando as aguas estão sem movimento, se mostra na sua superficie como uma pellicula, ou tiagem de cor de aço; e dando-se-lhe um sopro, se desmancha, ficando os labios, por onde se divide, cor de prata, e a agua, que apparece pela divisão, de cor azulada; porèm acabado o impulso do sopro, torna a pellicula a unir-se: o que tambem sucede, tirando do lago algum vaso de agua.

Quando se intumesce (torna-se encapelada) por causa dos ventos, fica com a cor azul sobre o escuro. Tem algum limo verde, mas pela maior parte he alambriado. As escumas (espumas), que lança nas margens a impulso dos ventos, são alambriadas, e brancas. Em varias partes junto da terra se vem juncos com as pontas de fóra de vinte, e vinte e sinco palmos pela agua dentro, em alguns dos quaes se vem debaixo da mesma agua umas bolas enfiadas, cor de alambre, em fórma de um ovo, e de outras diversas figuras mui brandas, e transparentes, que tiradas dos juncos, e postas ao ar, se vão desfazendo em agua.

De dia desde Setembro atè Março, que he o tempo das aguas nesta America, está a agua tepida, e na altura, em que nasce, com maior excesso. No tempo da secca, que he o do frio, mui pouco calor se lhe observa; mas sempre na superfície do nascimento se lhe conhece maior. De noite, assim de Verão, como de Inverno, se lhe reconhece mais calor, que de dia. Sinco (cinco) castas (espécies) de peixes se tem nella descuberto, a saber, Pirumbebas, Bicudas, Trahiras, Lambares, e Piabás.

He de notar que, sendo todas as lagôas frequentadas de muitas aves, nesta nenhuma apparece, como tambem nem mosquitos, nem moscas se vem nas suas margens. Pela parte do poente se levanta a terra, que a cérca, e com alguns matinhos, por todos os mais lados tem as terras baixas, que a fazem aprazivel, e mui vistosa.

Da ponta, que faz para a parte do Nordeste, sahe (sai) o seu desaguadouro, que em distancia de legua e meia se encorpora com o Rio das Velhas; e a cento e vinte braças (1 braça = 2,2m), com pouca differença, pelo mesmo desaguadouro se acha uma engenhoca de fazer aguardente de cana em huma fazenda, que no anno de 1733, foi fabricada por Filippe Rodrigues(2), passando-se àquelles matos, sendo o primeiro, que entrou a cultivar aquelle sitio, onde ainda existe. Algumas fazendas ha mais, sendo a de maior distancia de meia legua.

Post - Gravura← Gravura do “Prodigiosa Lagoa”. No centro, “o olho da lagoa”. 

No dia 3. de Fevereiro de 1749. indo a este sitio o Doutor Simão Pereira de Castro, oppositor (candidato a professor) que foi na Universidade de Coimbra, rogado (solicitado) do mesmo Filippe Rodrigues, para o aconselhar sobre a venda da mesma fazenda, alli se demorou por deste mesmo negocio. No dia 22. do mesmo mez fez viagem por aquelle sitio o Padre Fr. Pedro Antonio de Miranda, Religioso da Ordem de nossa Senhora do Monte do Carmo da Provincia de Portugal, para despedir-se do dito Doutor, com quem no tempo da Universidade tinha contrahido amizade, por intentar passar para Lisboa na frota do Rio de Janeiro, que estava a partir em Março; e communicando-lhe o mesmo Doutor a grande queixa, que padecia de hum formigueiro (chaga com bichos)(3), que lhe sobreviera nas nadegas, haveria oito annos, havendo-se jà exaurido a Medicina, sem que conseguisse melhoras, se resolvera a tomar os banhos naquellas aguas; porque a estação do tempo, por ser caloroso, o convidava; com efeito se havia banhado algumas vezes e se achava com conhecida melhora; e reflectindo o dito Padre, vendo tão repentina mudança, assentou que o beneficio destas aguas havia produzido aquelle effeito.

Logo entrou o dito Filippe Rodrigues a referir algumas curas, e casos, que naquella lagôa tinhão acontecido, de que não fez memoria naquelle tempo. O primeiro succedeo com ele mesmo; porque entrando a povoar aquelle sitio, se via afflicto com setenta e duas gomas (tumor que ocorre nos braços ou pernas) abertas, e depois de ter tomado por duas vezes a cura de azougue (mercúrio), o que sómente fez, foi lavar as chagas com aquella agua, e em dous mezes de tempo, se achou inteiramente são. Em outra ocasião lhe sobreveio huma surdez, e depois de lhe aplicarem varios remedios, cada dia estava mais surdo; mas que molhando a cabeça muito por acaso naquella agua, na mesma sentira uns estalos, e amanhecendo, se achou perfeitamente restituido a este sentido. Em outra ocasião, vendo que uma Anta se andava banhando nas margens da Lagôa, a matára; e examinando lhe a pelle, achára algumas chagas antigas, humas de todo cicatrizadas, e outras quasi sans (sãs). Que haveria sete annos viera para sua casa hum negro por nome Antonio, escravo de Manoel Neto Covas, cheio de chagas por todo o corpo, e que lavando-se algumas vezes no decurso de dous mezes, se achou são.

Esta noticia foi bastante para o dito Padre se persuadir que da agua nascia toda aquella virtude; e querendo logo tomar alguns banhos, para ver se lhe fazião bem a alguns flatos (gases) melancólicos, que padecia dous annos, temeo fazello sem conselho de Medico; e certo de que naquella agua se occultavão maiores virtudes, voltou para a Villa do Sabará, e a todos os amigos, que encontrou, foi dando parte do que tinha presenciado. Logo que chegou, expoz a todos, e muito particularmente a Antonio Cialli(4), graduado em Medicina, natural da Cidade de Roma, tudo, quanto vio, e ouvio da Lagôa. Admirou-se o Medico; e como na sua profissão he dos mais singulares, que passarão a estas Minas, logo conheceo que a agua era prodigiosa, suposto seus efeitos, e ancioso de examinar as suas qualidades determinou passar à dita lagôa com o dito Padre, e bem assim, para lhe aconselhar, se serião uteis os banhos para os flatos.

No dia do Senhor S. José a 19. de Março, chegaram ambos ao sitio, e depois de haver feito o mesmo Doutor as experiencias quimicas, que manda a Arte, e recommendão os Authores, assentou que aquellas aguas continhão em si os dous mais utilissimos mineraes, que costuma a impregnar as aguas, como erão vitriolo (sulfato que tem aparência vítrea), e aço, aquelle volatil e em pequena quantidade, e este em maior porção. Pelo vitriolo, que todas as queixas cotaneas (cutâneas), como sarnas, lepras, quigilias(5), morfeas, formigueiros, e todas as mais castas de chagas havia de curar. Que os tumores, erneas (hérnias), verrugas, dores, assim arteticas (de artrites), como gallicas (sifilíticas), ou escrebuticas (de escorbuto)(6), sararião.

Post - N S SaúdeIgreja de Nossa Senhora da Saúde, que foi demolida. (Eugen Warming, detalhe)

Nas queixas internas, onde fosse necessario adelgaçar, fluidir, atenuar, desobstruir, e corroborar, havia o aço mostrar o prodigioso efeito de suas excelencias; e que nas obstruções, lienterias (diarreias em que se lançam os alimentos meio digeridos), diarrias (diarreias), estrangurias (emissões lentas e dolorosas da urina), procedidas de viscosidades, e arêas (areias), e ainda em carnosidades se experimentarião com o uso interno, e externo das mesmas aguas admiraveis prodigios, e que nos escrebutos, e gallicos (de gálica, sífilis) havia de ser remedio eficaz, precedendo as preparações necessarias.

Já o Doutor Simão Pereira se achava de todo são da queixa do formigueiro, que padecia, e continuando os banhos, melhorou tambem de duas quebraduras (hérnias), e huns tremores nas mãos. O Padre Fr. Antonio de Miranda entrou nos banhos, e a beber da agua com grande felicidade; porque suposto ao principio sentio algum alvoroço, com a continuação deles se achou restituido à sua antiga disposição, e côr natural.

Correo a fama dos singulares efeitos desta prodigiosa agua, não só por toda esta Comarca, como pelo dilatado destas Minas, havendo concorrido hum tal numero de pessoas, sem atenderem que para queixa alguma lhes possão ser danosos os banhos, que do dia 19. de Abril já nelles se acharião trez mil pessoas com todas as qualidades de achaques (doenças). A todos vão servindo os banhos de remedio, sem que atè agora algum se queixe de lhe servir de damno (dano); e ao mesmo tempo que a toda hora do dia, e da noite, e em alguns bem frios se vão metter na agua, e da mesma sorte se recolhem sem resguardo para os seus ranchos (habitações modestas), comem do que tem, e lhes parece, e com estes desmanchos vão experimentando melhoras em toda a casta de queixa.

Post - Calendário

← Segundo domingo depois da Páscoa (dia 20), primeira missa de Lagoa Santa.

No mesmo dia 19 de Abril chegou ao arraial a licença do Excellentissimo, e Rever. Senhor Bispo destas Minas D. Fr. Manoel da Cruz(7), primeiro Prelado dellas, que attendendo ao incommodo, que padecião  as suas ovelhas na falta de pasto espiritual, por não haver naquelle sitio Capella, onde se pudesse celebrar, por ser a mais imediata (próxima) em distancia de uma legua, concedendo Altar portatil, para se poder celebrar o Santo Sacrificio da Missa, o que se levantou no lugar, onde se ha de erigir a Igreja, que será a invocação de nossa Senhora da Saude, e ornando-se com todo o luzimento, e aparato possivel, se cantou Missa solemne no dia seguinte, que foi segunda dominga depois da Pascoa, entoada pela Musica do Sabará, orando de repente o Padre Mestre Fr. Pedro Antonio de Miranda.

Todos os dias se continuam as Missas desde as sinco horas atè o meio dia. Tem-se determinado erigir huma grande igreja com as esmolas dos fieis, pois he certo que na continuação das melhoras, que experimentão os enfermos com aplicação desta agua, se julga será pelo tempo adiante huma das maiores povoações da America, e para estabelecimento do arraial que ha de formar, passou àquelle sitio no dia 7. de Maio (de 1749) o Capitão Manoel Nunes Velho, Ouvidor pela lei desta Comarca em corpo de Camera, e depois de examinarem paragem propria, para formarem o dito arraial, que assentárão se fizesse para sima (cima) do sangradouro da lagoa da parte do Poente, lugar mais commodo, para que as immundicias não conspurguem a agua da lagôa, dando serventia às aguas para a parte do mesmo sangradouro.

Deixou a Camera que se observassem varias ordens, respetiveis (respectivas) ao mesmo estabelecimento, como construção de casas, arruamentos, e demarcação, para tomar os banhos em paragem determinada, commettendo o regimen publico, e a execução das penas, aos Coronel Faustino Pereira da Silva(8), hum dos principaes desta Comarca. O Doutor João Agostinho Guido, natural da cidade de Genova, que depois de haver assistido na corte de Lisboa exercendo a medicina, e merecer a honra de Cavalheiro na Ordem de Christo, e passar a estas Minas no anno de 713., de Villa Rica (atual Ouro Preto) se transferio a este sitio, e admirando a grande virtude destas aguas, assentou que a estação do presente tempo não era conveniente para a aplicação dos banhos, por causa do grande frio, que nella se experimenta, e que para se observar, e se descobrir a verdadeira qualidade daquellas aguas, lhe era precisa a assistencia de hum, ou dous annos.

Post - Lagoa Santa & IgrejaArraial de Lagoa Santa, em 1854. Letra A indica igreja de Nossa Senhora da Saúde (Heaton & Rensburg, detalhe)

O Doutor Antonio Cialli tem tomado por sua conta dar ao prélo (mandar imprimir) hum manifesto das virtudes, e qualidades destas aguas, e como professor egregio, exporá com toda miudeza tudo o que nelas tem observado, e só resta dizer os enfermos, que se tem curado, e vão curando; ao mesmo tempo que bem se póde dizer que ainda não consta atè agora de achaque, a que estas aguas não sirvão de remedio.

Em confirmação da sua grande virtude, será justo fazer memoria de alguns enfermos, que nos primeiros dias depois da publicação deste descuberto, concorrerão a tomar os banhos, cujos nomes, moradas, e qualidade de queixa teve a curiosidade de tomar por efeito o Padre Fr. Antonio de Miranda; e são os que se seguem.” Lista deslocada para o final deste texto … ]

[ … Continuação ] “Esta é a fiel Relação do descubrimento da prodigiosa agua da Lagôa Grande; porque se pelas causas se conhecem os efeitos, quando evidentemente se mostra o que tem descuberto a experiencia, como se não devem julgar prodigiosas as suas operações? Na memoria dos enfermos, que vai escrita com exacção (exactude), se deixa perceber he este descuberto hum dos maiores tesouros, que a Divina Providencia permittio a toda esta America para remedio; porque como ja fica dito, só no principio deste descubrimento, em quanto não chegou a noticia a partes mais distantes, póde a curiosidade supprir a presente memoria.

Espera-se na Divina misericordia continue os maravilhosos sucessos, que nesta lagôa se experimentarão atè agora em tanta diversidade de queixas, e enfermidades, para que o nome do Senhor fosse engrandecido, admirando-se jà a grande quantidade de pessoas , que em todas as Missas, que ali celebrão, recebem a Sagrada Communhão, mostrando neste catholico acto a fé engrandecida, e que não só buscão o remedio corporal, mas tambem o espiritual, em reconhecimento de hum tão avultado beneficio.

Villa Rica de nossa Senhora da Conceição do Sabará, 6. de Maio de 1749.” (9) 

Post - Lagoa Santa p GuignardLagoa Santa por Alberto da Veiga Guignard.

LISTA DE DOENTES

“1  Bartolomeu Vaz, morador em S. Sebastião do Rio das Velhas, de 94. annos de idade com gota arthetica nos pés, e padecia havia muitos annos, com poucos banhos ficou são. // 2  João Barbosa, no sitio da Lagôa, tendo as pernas cheias de perebas, e verrugas, estas lhe cahirão, e aquellas lhe sararão. // 3  Antonio de Faria, no mesmo sitio com cezões (sezões, febres, malária), que adquiriu no Rio de São Francisco, com bem poucos banhos se lhe extinguirão. // 4  Manoel Coelho, do Ribeirão da Mata, com cezões, ou quartãs, com dous banhos lhe sararão. // 5  Manoel, escravo de Rosa Maria, com dores nos rins, e ourinando semen, com poucos banhos se achou livre de huma, e outra oppressão. // 6  Antonio Ferreira Milhão, da Lapa (atual Ravena), com trez banhos se curou de uma dor, que padecia em o joelho, que lhe impedia de descer. // 7  João de Araujo, de 13 annos filho do Tenente Manoel Teixeira Lomba, havia tomado trez curas de azougue, de que ficou entrevado, e com o corpo todo cheio de chagas, a beneficio dos banhos anda com desembaraço, e as chagas, humas estão de todo sãs, e as outras vão fechando. // 8  Antonio, escravo do dito, com as mãos e pés aleijados, e Post - Pint H Mattoscomidos de quijilia, já anda, e as chagas se vem sans.

 ← Lagoa Santa, aquarela de Haroldo Mattos.

9  João da Costa Ferreira, de 13. annos, filho de Manoel Jorge da Costa Ferreira, em S. Sebastião, com duas chagas em huma perna, e o dedo polegar do pé direito comido de outra, sarou inteiramente. // 10  Benedito, escravo do Capitão Manoel Nunes Velho, no Funil, com cursos (diarreias), que padecia havia seis mezes, com quatro banhos se restituio. // 11  Luzia, escrava de Loureço Ribeiro, de Santa Luzia com um cancaro nas parte pudendas, que foi examinado pelo Doutor Antonio Cialli, com a continuação dos banhos se vê diminuta a queixa, e está quasi sã. // 12  Francisco Xavier Barreto, preto forro (escravo liberto, alforriado), no Funil do Rio das Velhas, com as mãos aleijadas de quigília, com alguns banhos estão quase naturalmente desfeitas. // 13  Maria do Rosario, escrava do recolhimento das Macaubas, com dores em todas as juntas, e tropega dos pés, em seis dias de banho ficou sã. // 14  Antonio Alvares Moreira, de Santa Luzia, com uma grande rotura havia dous annos, com quatro banhos se consolidou. // 15  Um crioulo, filho de uma negra forra, na Lagoinha, com lepra, e a mãi com as pernas encarangadas, com os banhos, esta se acha sã, e aquelle vai melhorando. // 16  Domingos, escravo de Antonio Ferreira Milhão, da Lapa (atual Funilândia), com a bolsa muito inchada, e cheia de fistolas (fístulas), com os banhos fecharão ellas, e aquella está natural. // 17  Um escravo de Vitorino Francisco, de Paracatú, com um formigueiro em huma perna com alguns banhos ficou livre da queixa. // 18  Lourenço Guedes, pardo, em Santa Luzia, com dores por todo corpo, e grandes arvoamentos de cabeça, com poucos dias de banhos, se retirou sem queixa alguma. // 19  Fernando, escravo do Coronel Faustino Pereira da Silva, do Tacoarasú, com obstrução, e um grande impedimento das ourinas, que padecia havia annos, com trez semanas de banho se acha desimpedido. // 20  José, de 13. annos, escravo de Francisco José, preto forro, com uma diabética entrou nos banhos: não está todo são, mas pelos efeitos se conhece que ha de melhorar. // 21  Romana, e Maria, escravas de Mattheus Alonço de Evereosa, do Tacoarasú, cheias de sarnas com alguns banhos imediatamente se limpárão. // 22  José, escravo de Antonio do Valle, em Santa Luzia, com huma mão fechada por modo de convulsão, que padecia a muitos annos, com poucos banhos se vê a mão naturalmente direita. // 23  Custodio Gonçalves, pedreiro, sem ubi (lugar que se ocupa, morada) certo, com curso que padecia de 6. annos a esta parte, com dous banhos, que tomou, extinguio a causa. // 24  Antonio da Costa, do Caete (Caeté), com um grande impedimento na ourina por causa de carnosidades, com dous dias de banhos se achou desimpedido, ourinando bem. // 25  Cristovão Pimentel com um grande ardor na via da ourina, com poucos banhos cessou o ardor. // 26  Cypriano Pinto, Contador da Contage do Mello (na região da atual Cordisburgo), com humas sarnas galicas, ao terceiro banho se limpou dellas. // 27  Jeronymo Pereira, no Fidalgo (hoje fazenda do Fidalgo, em Lagoa Santa), com a barriga, e pernas inchadas, com doze banhos se achou sem queixa. // 28  Manoel de Souza, pardo forro, em S. Sebastião, Rio das Velhas, com grandes calores pelo corpo, e com as emorrhoidas muito inflamadas, e feridas, com quatorze dias de banhos se extinguio huma, e outra moléstia. // 29  Anna, parda, da Carreira Comprida (hoje bairro de Santa Luzia), com dores no ventre, e por todo o corpo, que padecia havia annos, com dous banhos restituio a saude. // 30  Antonio, pardo, da mesma paragem com hum cancro em um olho, com trez dias de banhos se lhe conhece muita melhora. // 31  Antonio Gonçalves da Costa, ahi mesmo, com uma grande dor na perna direita, e flatos, que causam muitas dores por todo corpo, com trez dias de banhos venceu estas queixas. 

Post - Pint J M Ribeiro

← Lagoa Santa, pintura de José Maria Ribeiro.

32  Antonio, pedreiro, da Lapa, havia alguns annos, que padecia humas chagas nas pernas, causa porque tomou algumas curas, de que lhe resultou rebentarem-lhe varias feridas abertas no nariz, quis curallas, mas sem efeito; depois de um mez, e meio de banhos se achão as feridas cicatrizadas, e somente huma pequena parte do nariz não tem acabado de fechar, por haver entrado o tempo frio, e se observar que as feridas, quando este he nimiamente (demasiadamente) grande, se vem como pasmadas. // 33  Pedro Ferreira, em Santa Luzia, com um flato na ponta da espadua esquerda desde o anno de 1744., que lhe causava grandissimas dores, e tomando-lhe ao mesmo tempo a respiração, em sete dias de banhos o extiguio de todo. // 34  Domingos da Silva S. Paio, do Torquim, com dores em huma perna ha 9. annos, apertando-o de sorte que não o deixavam dormir, com quinze dias de banhos não teve mais dores. // 35  Manoel Gonçalves, de Santa Luzia, havia annos que estava quebrado de uma virilha, com nove dias de banhos desprezou a funda. // 36  Miguel, escravo de Domingos da Silva S. Paio, do Caete, com cursos havia dous annos, e secco, que parecia um páo, com quinze dias de banhos se lhe conhece alguma melhora. // 37  Manoel Carvalho de Figueiró, de Santa Luzia, por lhe haver cahido em um pé hum grande páo, padecia ha um anno a esta parte huma chaga, e com trez semanas de banhos a curou. // 38  Pedro, escravo de Alexandre Teixeira, em Santa Luzia, por haver lhe cahido em um pé hum grande páo, padecia ha um anno a esta parte huma chaga, e com trez semanas de banhos a curou. // 39  Manoel de Bastos, de Santa Luzia, com hum formigueiro em hum pé, haverá hum anno, com oito dias de banhos se acha livre. // 40  Francisco José, alfaiate, em Santa Luzia, havia quatro mezes lhe sahíra uma mulla (ferida sifilítica); e havendo feito varias curas, não era possível saralla, picando-a, deitou sangue; e recorrendo aos banhos, lhe rebentou logo, purgando bastamente, e se vio são. // 41  O Capitão Antonio de Espinola, das cabeceiras do Ribeirão da Mata (que corre entre a atual Vespasiano e Santa Luzia), havia dous annos que padecia um formigueiro nas nadegas, com quinze dia de banhos se achou são. // 42  O capitão Antonio de Espinola, das cabeceiras do Ribeirão da Mata, havia dous annos  que padecia um formigueiro nas nadegas, com quinze dias de banhos se achou são. //  43  Joaquim, escravo de Josefa Correia, em Santa Luzia, haverá treze annos que padecia de huma chaga em um pé, procedida de hum estrepe, tomou um mez de banhos,e estando a cerrar a ferida de todo, entrárão os dias frios, e tornou a abrir.  // 44  João de Almeida, de Villa Rica, haverá quatro annos, lhe sobreveio hum reumatismo gallico, de que lhe resultou não poder levantar os braços à cabeça, com quinze dias de banhos se achou com movimento natural. // 45  O Alferes Miguel Lopes de Araujo, da dita villa, havia annos que padecia retenção de ourinas, com quinze dias de banhos conseguio muitas melhoras. // 46  Manoel da Costa, da mesma Villa, haverá sinco annos, lhe succedeo cahir da ponte de S. José abaixo, e se maltratou na concha de huma perna, de que melhorou com vários remédios, mas sempre sentia muitas dores; passados dous annos, se lhe apostemou aquela parte, e como mostrava ter dentro materias, lhe abrirão a concha pela parte de dentro; e achando-se principio de osso podre, se curou com grande trabalho, porèm sempre os nervos, e músculos lhe ficarão encorreados, de sorte que lhe fazião algum embaraço, e as dores sempre continuando. Padecia tambem huma grande obstrução (prisão de ventre), e por conta de curar esta havia sahido para a lagôa, com os dous primeiros banhos entrou a sentir grandes dores, excessivo calor nas partes ofendidas da concha; mas continuando quinze dias, ficou inteiramente são.   

Post - Igr Lagoa Santa

 ← Igreja de Nossa Senhora da Saúde, década de 1940.

 47  Antonio Pinto, da Lagoa, com hum estupor (de derrame cerebral) por toda a parte direita, que havia annos, lhe sobreveio, logo com os primeiros trez banhos se lhe desembaraçou o braço, e a mão, mostrando tambem melhoras na perna; porèm como quis saciar a gula, comendo um pouco de serubi, peixe muito semelhante ao tubarão, se lhe poz o braço, e a mão da mesma forma antiga, e se retirou para voltar no mez de Setembro. // 48 – Marcos José, do Tijuco do Serro do frio (atual Serro), com uma cãibra nas pernas de trez annos a esta parte, sentindo em tempo frio tantas dores, que se lhe encolhião as pernas; e todas as vezes que as metti em agua fria, se achava peior. Tem oito dias de banhos, e se sente com tanto alivio, que publíca não ter cousa alguma. // 49  José Luiz, preto forro, do Rio do Peixe (atual Alvorada de Minas), com oito dias de banho se viu ileso. // 50  O mesmo succedeo a Martinho, preto forro, de Santa Rita, com huma quebradura, e com quinze dias de banhos. // 51  Bento Pinheiro da Veiga, dos Raposos, de idade de 75. annos, com uma rotura de 70 annos, com os banhos ficou dela livre. // 52  Caetano, escravo de Francisco Nogueira, das Catas Altas, haverá um anno entrou a deseccar-se de sorte que não podia dar um paço, por andar tambem com uma chaga em hum pé; comia muito, mas cada dia se via mais esqueleto, e vario do juizo, não chegou a tomar quinze dias de banhos, e sahiu são. // 53 Roque, filho de Manoel Rodrigues da Costa, do dito arraial, de 12. annos de idade, quando se criava, lhe cahio em um olho uma braza, ficando com o olho fechado, e com cursos, veio buscar o remédio à lagôa; tomou treze dias de banhos, sarou dos cursos; o olho se lhe abrio, e foi tendo algum principio de vista, e se retirou. // 54  Ignacia, escrava de Brites Correa, no Morro da Intendencia do Sabará, com toce, e dor no peito, lançando algum sangue, quando tocia, procedido tudo de lhe haver cahido sobre os peitos haveria quatro mezes huma gamela (vasilha rasa de madeira ou barro) com roupa, com quinze dias de banhos está sã de todo, como tambem de hum principio de papo (bócio endêmico, por falta de iodo no organismo), que a ameaçava. // 55  Francisca, escrava de Miguel Lobo do Sabará, com hum formigueiro em huma perna ha quatro annos, com quinze dias de banhos se achou inteiramente sã. // 56  Joanna Gracia, preta forra, na paragem do Ribeirão, padecia alguns annos, a falta de seu costume, como tambem bastantes dores nas curvas das pernas, de sorte que não podia estender, e se o fazia, era com grandissimo trabalho, e dores: tomou quinze dias de banhos, e alcançou tantas melhoras, que se retirou para sua casa com perfeita saude. // 57  Josefa crioula, escrava de Bernarda Antonia de Mello, da Lapa, com dez dias de banhos fez provida a natureza na falta, que padecia da evacuação menstral (menstruação). // 58  Pedro Borges, do Caete, de 70. annos, ha oito lhe sobreveio um estupor, de que ficou leso da cintura para baixo, sem poder mancar-se, com quinze dias dias de banhos sentio movimento natural, e se retirou com conhecida melhora. // 59  Pedro, escravo de Luiz Cardoso, da dita Villa, padecia humas dores de barriga, de maneira que se hia mirrando, com dous dias de banhos, deitou pela via trez lombrigas pretas de trez palmos cada huma, e achou-se inteiramente livre das dores.

Post - Lagoa Santa em 1939

← Lagoa Santa, em 1939.

60  Miguel, preto do Morro Vermelho, com dous formigueiros, hum em cada perna havia seis mezes, e huma grande obstrução, com trez semanas de banhos sarou. //  61  Maria, filha de Rita Costa Moreira, parda, do Caete, de idade de trez annos, havendo seis mezes que padecia hum defluxo asmático, com seis dias de banhos se vio livre daquella queixa. // 62  Francisco, escravo do Tenente Manoel Gomes da Mota, das Macaúbas (região do recolhimento de Macaúbas), havia seis annos que se achava com a cara inchada com humas grandes dores nos pés, restituio-se a sua saude com hum mez de banhos. // 63  Antonia, escrava do dito Tenente, com huma grande dureza na barriga, havia annos, com quinze dias de banhos se poz o ventre natural, e se retirou boa. // 64  Sebastião, escravo de Catharina, preta forra, da Lapa, com huma grande obstrução, que padecia havia hum anno, e lhe impedia todo exercício, com hum mez e meio de banhos se achou de todo boa. // 65  Rosa, escrava de Manoel Leitão, da Lapa, com uma grande chaga no rostro e com um olho offendido da mesma, do que já não via, com hum mez e meio de banhos se achou de todo boa. // 66  Hum escravo do Padre João de Araujo, do Inficionado (atual Santa Rita Durão), com um esquentamento, que trazia ha seis para sete annos, com trez banhos, que tomou, teve melhoras. // 67 – Simão, escravo do Sargento Mór Felizardo Ribeiro da Costa, do Sabará, havia muitos annos que estava cego de gota serena (veja nota 10), com hum mez de banhos divisa o vulto das pessoas, o Sol, a Lua, e tudo que he objeto branco. // 68  Antonio Nunes, Carpinteiro da rua de Santa Quiteria, em Villa Rica, de trez annos a esta parte padecia hum defluxo asmático, procedido de huma cura de azougue, que havia tomado, com huns pocos de banhos melhorou inteiramente. // 69  Manoel Alvares, de junto a Villa Rica, por causa de uma queda, que deo de hum cavalo, se não podia bulir (tocar-se), ficando quasi leso; e para transportar-se a esta lagôa, o carregarão em huma rede, com quinze dias de banhos melhorou de sorte, que para sua casa se retirou a cavalo com movimento natural. // 70  Domingos Pinto da Cunha, na Paraopeba de baixo, com umas emorrhoidas mui inflamadas, e hum tumor junto à parte viril, e de tempos em tempos se lhe entumescia, de sorte que o fazia padecer intoleráveis dores, que só com ajudas, se lhe mitigavão alguma cousa; mas com oito dias de banhos se achou livre. // 71  Ventura, escravo de Pedro da Silva Pedroso, de Villa Rica, padecia huma erisipela, havia dezesseis annos, por cuja causa tinha as pernas muito inchadas, com quinze dias de banhos ficou sem sinal algum livre da queixa, como tambem curado de huma mão, com que veio aleijado. // 72  O dito Pedro da Silva padecia grande falta de vista, por haver um anno que não podia ler, nem escrever sem oculos, com quinze dias de banhos se achou restituído da sua vista. // 73  Jorge, escravo de Jacinto de Sá, que por incapaz o expulsou de sua casa cheio de quigilia nos pés, cujos dedos se vião comidos, com um mez de banhos se vem as chagas cicatrizadas, e quasi de todo fechadas. 

Post - Festa da padroeiraFesta da padroeira Nossa Senhora da Saúde, 15.08.1930. Praça Dr. Lund, Lagoa Santa.

74  Paulo, escravo de Antonio Carlos Moreira, do Sabará, com principio de quigilia na perna esquerda ha sete annos, tendo a tibia, e inchada, como hum pequeno barril, e no tarço principiava a quigilia por modo de copim (cupim) a separar-lhe o mesmo pé, com dezessete de banhos desinchou de todo, e está quasi natura. // 75  Manoel, escravo de Manoel Rodrigues, morador nos Crioulos, com os pés inchados ha trinta annos, e dezessete a esta parte rebentarão os metatarsos ambos, e lhe caíram os dedos com quigilia, ha mez e meio está fechada mais de ametade. // 76  Luiza Cabral, preta forra, casada com José Felis, da Villa do Sabará, ha mais de dous annos que padecia insofriveis dores na conjunção (coito), com poucos banhos arrojou a natureza sem dor alguma. // 77  Quintiliana, preta forra, da mesma Villa, com a mesma queixa, com poucos banhos sarou. // 78  A mulher de Braz Pinto, do Pompeo, padecia a mesma falta havia dez annos, com gravissimas dores quatro, ou sinco dias antes das suas desgargas, e tempo todo, que ellas duravão, e outros sinco e seis dias depois que acabavão, tomou varias curas sem utilidade: chegou à lagôa, e achando-se no dia seguinte ocupada, não duvidou banhar-se, e continuou sem dor alguma a fluir o seu menstruo por espaço de quinze dias, aliviando de todos os sintomas. // 79  José, escravo de Antonio Gomes, das Rossas Novas, com hum formigueiro no braço direito ha trez annos, em vinte dias está de todo são. // 80  José Alvares, pardo, Çapateiro do Pitangui, ha trez annos se lhe encheo a cara de figado, com poucos dias de banho sarou de todo. // 81  Francisco Xavier de Oliveira, do Inficionado, de dous annos, e de seis de idade, teve huma purgação no ouvido direito, a qual parando de repente, no Rio de Janeiro no anno de 1732. se achou surdo de ambos os ouvidos, chegou à lagôa ha dezoito dias, e com os banhos vai com muitas melhoras, e com os banhos lhe principiou a purgação, que de antes tinha. // 82  Domingas da Fonseca, preta forra, da Villa do Sabará, com huma dor ha mais de seis mezes em huma perna, e não obedecendo a varias curas, com dezesseis banhos sarou. // 83  João Teixeira, do Sabará, ha dous annos que não podia reter as ourinas, porque insensivelmente se expelião, com quinze dias de banhos se achou são, e nos primeiros logo sentio melhoras. // 84  Antonio da Silva, no Pegabem, depois de varias, e dilatadas curas por humas sarnas, que ha muito padecia, ficou com falta de vista, não differençando de longe os objetos, e parecendo-lhe as regras de qualquer escrita, umas riscas pretas, com os banhos, lê sem oculos, e destingue perfeitamente os objetos. 

Post - Lagoa noturno

Noturno: Lagoa Santa, em 2013.

85  Valeria de Sá, casada no Rio Sipó, desde os primeiros periodos da sua conjunção experimentou veementes dores, e grandes faltas, por causa de huma obstrução no baço, aos segundos banhos se achou ocupada, e mettendo-se na agua, cessou o sangue; mas parando com os banhos, e usando bebida de manhã, fluio com tanta copia, que sendo o seu costume só de dous, ou trez dias, o teve oito. // 86  Tiburcio Valerio de Almeida Pereira, do R. de São Francisco, barra da Paraopeba da parte de Pernambuco, ha sete annos que padece um flato tão vehemente, que perturbando-lhe a vista, o fazia cahir, como acidente de gota coral (epilepsia, veja nota 11), não podia comer, e andava com demasiada melancolia, conhecia alguns dias antes o ataque jà próximo por algumas revoluções do ventre, que com frios grandes o acometião; tem dezoito dias de banhos, acha-se sem repetição do flato, costumando-lhe a dar muito a miudo, come bem, e está alegre. // 87  Antonio da Costa Campos, de Tijuco do Serro do Frio, passando a Paracatú no anno 744. comendo hum pouco de serubí, lhe rebentou o corpo com espécie de fígado, causa, por que retrocedeo da viagem, depois de tomar varias aposmas (apósema ou apôsima = purgante), e azouge, esquentou-se de sorte, que depois de seis mezes lhe principiou no osso frontal hum tumor grande, e outro no sadio do braço esquerdo, que depois de trez meses, rebentando com tal copia de materias, que era obrigado a trazer um lenço atado por sima dos olhos, ao terceiro banho, não tendo tumores mais que huma pequena boca, se virão em muitos os olhos abertos pela sua grandeza toda, e visivelmente diminuindo o jacto das matérias, está quasi de todo secco. // 88  Manoel Pereira Saramenho, Carpinteiro, da Paraopeba, ha quatro annos teve uma grande inflamação de olhos, de que lhe ficou diminuta a vista, de sorte que sem oculos não lia, aos primeiros banhos lê sem óculos. // 89   Manoel Benguella, escravo de Francisco da Cunha de Jaguará (da fazenda da Jaguara), havia um anno que padecia de cursos rebeldes, sem lhe aproveitarem remedios, com poucos banhos sarou de todo // 90  Christovão Mena, escravo do dito, ha um anno com boubas (tipo de pústula ou tumor da pele), e corrimentos por por braços, e pernas, depois de trez mezes lhe  principiárão huns cursos, em doze dias de banhos se achou livre. // 91  Francisco de Moura Chaves, do Rio das Pedras, ha treze annos havendo-se molhado, lhe sobrevierão humas dores na mão, e perna direita, da qual perdeo logo pela parte de fora a sensação, ficando-lhe na mão dores excessivas por tempo de hum mez. Em Outubro de 748. lhe apparecerão humas nodoas negras no rosto, braço, e pernas, em que a pouco, e pouco hia perdendo tambem a sensação. Em Novembro do dito anno o aconselhárão a banhos de agua corrente, e ao sexto se achou entorpecido, que não podia dar um passo, e nas mãos, especialmente na direita, nada podia segurar, deixou os banhos, e entrou com purgas interpoladas, e remedios frescos, com os quaes no mez de Janeiro principiou a sentir melhoras, quanto ao movimento, chegou à lagôa, não experimentou o mesmo efeito, mas antes lhe retornou a sensação nas partes, em que havia perdido. // 92  Antonio Colaço, do Caiete (do Caeté), levou um crioulo de idade de sinco annos com lepra na cabeça, e braços, os cotovelos encolhidos, e a mão direita, havendo sinco mezes que padecia esta queixa, veio preparado, e quasi com hum mez de banhos sarou.

Post - Mapa Lagoa

Lagoa Santa, dita apenas Lagoa, em mapa de 1778.

93  José de Freitas Pacheco da obrigação do Domingos Nunes Vieira, Intendente da Comarca do Rio das Velhas, chegou do Rio de Janeiro com hum reumatismo gallico, e cursos de sangue, no metecarpo da mão direita lhe hia levantando uma goma, com excessivas dores nas juntas, especialmente no joelho do mesmo lado, ficando-lhe a perna, e braço do mesmo lado mais secco que a outra: frustrou varias curas; e perdendo o regimento nos dias da Pascoa, lhe sobreveio huma inflammação no olho esquerdo, de que já não via, sentindo graves dores, aos poucos banhos sarou. // 94 Francisco de Freitas, do Tijuco do Serro, com opilação (obstrução) de muitos mezes, e com varios remedios lhe principiou a inchar o ventre quasi para hum assetis, entrou nos banhos,  e desinchando da intumesencia, lhe sobrevierão em ambas as pernas huma erisipelas (doença inflamatória causada por bactérias), e pelo corpo todo por modo de bretoeja, e continuando nos banhos, se purificou de todo. // 95  José de Figueroa, soldado Dragão destas Minas, e destacado no Sabará, com hum violento reumatismo gallico lhe ficarão humas dores nas arteticas, que de todas as juntas lhe impedião o movimento, melhorando no primeiro banho, se achou no segundo mais aggravado, atè que na continuação delles lançou grande copia de sangue pizado pela via inferior, e se retirou com conhecida melhora. // 96  Huma mulata de casa de Francisco Velloso, do Inficionado, que por hum grande defluxo nos olhos de seis annos a esta parte lhe sobrevierão humas unhas, que não só lhe cubrirão o vulbo todo, mas lho iam diminuido, e ella differença os vultos, sendo que nem a claridade do dia percebia. // 97  Isabel Ribeira de Castilho, mulher do Alferes André Francisco Braga do Sabará, com hum lobinho (cisto cebáceo) em um joelho, que lhe impedia ajoelhar, em quinze dias de banho sarou. // 98  Manoel, de idade de quatorze annos, filho do defunto Thomaz Luiz, do Rio das Velhas, com bellidas (glaucomas, veja nota 12) nos olhos, e do lado direito nada via, por estar todo cuberto, com quinze dias de banhos gastarão-se grande parte das bellidas, e do olho esquerdo, de que não via, vê de sorte que jà distingue todos os objectos. // 99  O Alferes João Dias Torres, do Pompeo do Sabará, com um grande tumor na conxa da perna direita da parte de dentro, com quinze dias de banhos se poz raso. // 100  Maria, escrava de Francisco Fernandes Braga do Sabará com um papo havia annos, com quinze dias de banhos ficou quase extinto. // 101  Ignacia, escrava da viuva de João Gonçalves da Costa, da Soledade (região da capela da Soledade, Sabará), com boubas havia meses com os banhos sarou perfeitamente. // 102  O Capitão Manoel Martins Meirelles, das Congonhas do Sabará, padecia de um escrebuto confirmado com dores por todas as juntas, e dificuldade de ourina, e ventre entumescido, de toda a oppressão está livre, e sem ameaço de tão grave queixa. // 103  Francisca, escrava do Letrado Manoel de Bastos de Oliveira, de Santa Luzia, havia dous annos que padecia de huma toce gallica, e falta do seu costume: baldarão-se na sua cura muitos remedios, e em menos de hum mez sarou da toce, e esta assistida do seu regresso. // 104  Antonio Francisco Neves do Sabará padeceo muitos annos varios ataques gallicos, que frustrarão o uso de varios alixafarmacos (medicamentos que curam várias moléstias) e mercuriais, e ultimamente padecia huma tal debilidade na parte interna das cochas, que não só não podia montar a cavallo, mas nem livremente andar: aos poucos banhos desembaraçou-se de sorte, que livremente monta, e sem ajuda de outrem. //  105  Aleixo de Miranda, de Santa Luzia, com a cara toda cheia de talparias (talpárias = abcessos), jà soporadas em horrorosas chagas, que tinham baldado o effeito de infinitos remedios: trazia as pernas, e braços encolhidos com grandes dores, que nem podia andar, nem mover-se, de maneira que hia para o banho encostado a dous escravos, em pouco mais de dous mezes se desembaraçou das pernas, aliviou os braços, e se cicatrizarão quase todas as chagas do rostro. // 106  Hum sobrinho do Padre Manoel Nunes Neto, capelão de nossa Senhora da Soledade do Sabará com um cancro no labio superior, que já lhe tinha comido as cartilagens do nariz, e elevado em grandes entumescencias todo o padar, com dous mezes de banhos ficou mundificado o labio, e o nariz; mas como se fez mais inclemente o ar por causa do grande frio, experimentava que as faces, e cicatrizes se lhe ião novamente aggravando, por cuja causa com conselho dos Medicos se recolheo para sua casa, e voltará na melhor estação. // 107  Ildefonso, preto forro de vinte e quatro annos, morador junto a nossa Senhora do O, da Villa do Sabará com huma chaga em huma coxa da perna havia poucos mezes, e nenhuma sorte obedecia os remedios, que lhe applicavão, antes lhe causava tantas dores, que de noite não dormia: nesta afflicção lhe sobreveio grande copia de sangue pela boca, e tomando outros remedios applicados por Medicos, não conseguio melhoras, tomou o Santissimo Viatico (comunhão dos moribundos); e pondo-lhe nas chagas huns panos molhados em agua da lagôa, logo minorárão as dores, e dormio toda a noite, e se sentio com tanto alivio, que corroborado de forças se transportou à lagôa, e com o uso interno, e externo daquella prodigiosa agua está bom. // Esta é a fiel relação… (etc.)

Post - Lagoa hojeLagoa Santa atual.

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Transcrição, adaptação e arte por Eduardo de Paula

Revisão de Berta Vianna Palhares Bigarella

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Post - Relação cirurg(1) O historiador Augusto de Lima Júnior, informa que Augusto da Silva Cardoso − historiador português −, atribuiu a autoria do  folheto a João Cardoso de Miranda − cirurgião, morador na Bahia. / Fonte: “Dicionário Histórico Geografico de Minas Gerais”, de Waldemar de Almeida Barbosa, verbete “Lagoa Santa”. ——  Por outro lado, existe nas Bibliotecas Municipais do Porto (Portugal) um manuscrito antigo, doado por Vitorino Ribeiro, que diz: “Breve transumpto das noticias da Lagoa Grande, virtudes experimentadas em diversos achaques e cautelas necessr.as para o uso dos seus banhos [manuscrito / offerecido ao M.o Illustre e R.mo Snr D.or Lourenço Jozé de Queiros Coimbra… pella feliz memoria do Ill.mo Snr Dom Fr. Antonio de Guadalupe… publicado p.a consolação e regimen dos enfermos… e recopilado de hua dissertação chimico medica q. se há de imprimir… por Antonio Cialli…” – Cota M-VR-70. Esse documento dá a entender que João Cardoso de Miranda copiou seu livro do que ouviu de Antonio Cialli. Daí, acreditando no que diz o ditado −“Quem conta um conto aumenta um ponto” −, Cardoso tanto exagerou nos milagres da Lagoa Grande, que se envergonhou de colocar seu nome no folheto. —— Em 1747, João Cardoso de Miranda fez outra publicação (imagem à esquerda) e desta vez assinou a “Relaçaõ Cirurgica e Medica”, ensinando a tratar o escorbuto. Na folha de rosto, se intitula: “Cirurgiam approvado, natural da freguezia de S. Martinho de Cambres junto á cidade de Lamego, e de presente assistente nesta Bahia de todos os Santos.”

(2) O bandeirante Filippe Rodrigues (de Macedo), fabricou (construiu uma fazenda). Por sua iniciativa e de Manoel Pereira Barredo, foi obtida provisão de 02.05.1749, para se erguer, na Lagoa Grande, uma capela a Nossa senhora da Saúde, filial da matriz de Roça Grande. A provisão para a bênção tem a data de 18.10.1749 (segundo disse o cônego Trindade). O patrimônio da capela constituiu-se de uma casa e uma chácara, doadas pelo capitão João Furtado Leite, conforme escritura de 26.11.1764. Na escritura, o doador declara que se retirava para o Rio, afim de ingressar em uma ordem religiosa. A capela tornou-se curada pela pastoral de 25.08.1759 (Livro de Lotação das Freguesias deste Bispado, Arquivo Eclesiástico de Mariana.) / Fonte: “Dicionário Histórico Geografico de Minas Gerais”, de Waldemar de Almeida Barbosa, verbete “Lagoa Santa”.  

(3) Formigueiro: “Esta doença de formigueyros he muito ordinária nestas Minas assim em pretos, como em brancos e como tem suas diferenças os quero distinguir na fórma seguinte. Deste ha uns, que nascem nas solas dos pés dos pretos mineyros, que facilmente se conhecem, porque lhes fazem buracos ao mesmo modo, que as formigas os fazem na terra, quando fazem suas casas, solapando as solas dos pés, e fazendo nelas buracos redondos, e fundos, com comichão, e dores grandes, que os não deixão andar sem grande moléstia: outros há que nascem nos braços, mãos, e pernas assim dos pretos, como dos brancos […] Os formigueiros dos braços, e das pernas sempre são mais comuns em brancos …” // “Dos formigueyros, que nascem nas solas dos pés dos pretos. —  Sobre quantas doenças perseguem os pobres pretos nestas Minas, esta não he de menos molestia, e difficil de curar; porque pela mayor parte os senhores os não aliviam do trabalho po causa della, e andão com muyto grande molestia, sem poderem ter em pé, como que os tem visto, e os tem possuido com esta enfermidade, a qual é terrivel, porque lhes faz nas solas dos pés grandes buracos, e bronqueamentos fundos, corroendo para o interno, …” / Fonte: Luis Gomes Ferreyra − ”Erario Mineral”, Oficina de Miguel Rodrigues, Lisboa, 1735, p. 348, 349 e 358.

(4) Cardoso de Miranda citou três vezes o médico italiano Antonio Cialli, que também atuou em Sabará. Este foi pioneiro no interesse científico pelas “águas milagrosas” e, no mesmo ano de 1749 , publicou* uma “Relação historico-medica que no descuberto das aguas mineraes da Lagoa Grande offerece à Magestade Del-Rey Fidelissima D. João V, Antonio Cialli Romano, Mestre em artes, Dor. em Medicina pela Universidade de Roma, approvado pelo Conselho mór de S. Magestade, e socio da Pontificia Academia Hyacinthica com o particular emprego Botanico”. − *Fonte: Arquivo Público Mineiro / Plataforma Hélio Gravatá. 

(5) Quizila − É a manifestação no corpo, fruto de um complexo tabu de alguns povos africanos, mormente ligado a transgressões alimentares. Quem comete a afronta, voluntariamente ou não, pode vir a sofrer, entre outras coisas, de uma série de doenças de pele. // No dicionário Houaiss: Quigília / Quizila – “quic. kizila, quimb. kijila ‘preceito, mandamento, regra’, do v. kujila ‘jejuar’; segundo RB, maldição que os pais dos negros de Angola dão aos filhos dizendo-lhes que se comerem veado v.g. carneiro, etc. lhes dão a sua maldição; e dizem que comendo lhes vêm umas nódoas, ou outros sinais, e morrem. Aos negros, quando os compram, se pergunta se têm quigila.” // No “Dicionário de Medicina Popular” (1890), de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz: Gafeira / Quigila – “Espécie de morphea, chamada morphea dactyliang, caracterizada pela contracção; e estropeamento dos dedos das mãos ou dos pés, com dores, e ulceras nas extremidades; termina pela mortificação dos dedos. Esta moléstia existe no Brazil, na África e na Índia. No Brazil é mais freqüente nos pretos do que em indivíduos de outra côr, e mais nos africanos do que nos creoulos, tanto nas mãos como nos pés, e sem predilecção por dedos determinados. Differe do ainhum, porque este não foi observado no Brazil senão em pretos, e nos dedos mínimos dos pés. A insensibilidade e a atrophia muscular são desconhecidas no ainhum: acompanham sempre a gafeira; no mesmo caso estão as ulcerações, caries, contracções permanentes dos dedos, que existem na gafeira, e não se encontram no ainhum. Aquelle rego característico ao nivel da dobra digito-plantar, que é constante no ainhum, não se observa na gafeira.” 

(6) Escorbuto  é uma doença que tem como primeiros sintomas hemorragias nas gengivas, tumefação purulenta das gengivas (inchaço com pus), dores nas articulações, feridas que não cicatrizam, além de desestabilização dos dentes. É provocada pela carência grave de vitamina C na dieta.

(7) CRUZ, Manoel Ferreira Freire da – *05.02.1690  + 03.01.1764 / português, bispo das dioceses de São Luís (1739-1747) e de Mariana (1748-1764). Nomeado para a diocese de Mariana, deslocou-se até as Minas Gerais para assumir a prelazia em viagem que durou um ano e três meses, de barco, a cavalo e a pé, perfazendo quatro mil quilômetros. Essa jornada ficou celebrizada pelo livro “Aureo Throno Episcopal”, do cônego Francisco Ribeiro da Silva.

(8) SILVA, Faustino Pereira da − Natural de Viana do Castelo (Portugal), estabelecido no engenho de Jesus Maria José, do rio das Velhas de baixo (Taquaraçu), comarca de Sabará, onde faleceu em 20.01.1766. – Fonte: “Revista Trimensal do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil” – tomo XXXIII, primeira parte, 1870, p. 160 

(8) A data ao final do documento levanta dúvidas, “Villa Rica de nossa Senhora da Conceição do Sabará, 6. de Maio de 1749.”, porque , no corpo do texto, o autor cita acontecimento em data posterior, “… passou àquelle sitio no dia 7. de Maio (de 1749) o Capitão Manoel Nunes Velho, Ouvidor pela lei desta Comarca em corpo de Camera…”

(9) “Gota. Doença causada da acrimonia do humor, que cahe nas juntas, & faz muita dôr […] procede das gotas do humor que corre, & se embebe nas juntas […] Gota das mãos … Chiragra […] Gota dos pés… Podagra […] Gota arthetica. Propriamente he aquella, que dá nos nós dos dedos, & nas juntas; o que de ordinario se significa com o nome geral. […] Gota. Morbus articularis. Arthitis he palavra Grega. […] Gota sciatica. […] Gota coral. […] Gota serena…” – Verbete do “Vocabulario Portuguez e Latino”, padre d. Raphael Bluteau, Coimbra, 1713.

(10) “Gota serena. Doença dos olhos, a que os doutores chamão, Amaurosis, palavra Grega, que vale o mesmo que hebetação, ou escuridão & o que vulgarmente chamamos Gota Serena, he uma total privação da vista, sem sinal exterior, nem lesão sensivel nos olhos, que he a razão, por que lhe chamão Serena, por que a menina dos olhos conserva neste mal toda a sua serenidade aparente…” – Verbete do “Vocabulario Portuguez e Latino”, padre d. Raphael Bluteau, Coimbra, 1713.

(11) Gota corál. Assim chama o vulgo, o q os Medicos chamaõ Epilepsia, por que imagina o vulgo, que a gota coral, he uma gota, que cahe sobre o coração. He uma convulsão de todo o corpo, & hu recolhimento, ou ataccão dos nervos, com lesão do entendimento, & dos sentidos, que faz que o doente caha de repente…” – Verbete do “Vocabulario Portuguez e Latino”, padre d. Raphael Bluteau, Coimbra, 1713.

(12) “Belida, Belîda. He huma pellicula branca, que do alimento viscoso, & da depravação do nurrimento da parte transparente da segunda tunica, a que chamao cornea, se gera no olho, & cobre a pupila, Albugo, onis. Plin. Hist. Glaucoma, atis. Neut. que he palavra Grega, não he propriamente Bellida, mas he uma defecação, & densação do humor cristalino, & porque (como advertio Gorrco nas suas definiçoens) às vezes sucede, que com o humor cristalino se misture com algum humor verde, que ofusque a sua alvura, por se a cor Glauca, huma mistura do verde com o branco, os Gregos chamarão a este achaque dos olhos, Glaucoma.” – Verbete do “Vocabulario Portuguez e Latino”, do padre d. Raphael Bluteau, Coimbra, 1712.

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3 Comentários »

  1. Primeiro gostaria de parabenizar o senhor pela manutenção desse espaço e pelo conteúdo do material publicado. Nesse post, faria algumas ressalvas que considero pertinentes, se o senhor assim me permitir. Em primeiro lugar, João Cardoso de Miranda não era médico e nunca foi, exercendo a função de cirurgião, grau menor na medicina da época. Ao médico cabia a análise dos caso, o aviamento de receitas (que seriam preparadas pelo boticário), o estudo e a publicação de trabalhos/teses referentes à doença. O médico não exercia o trabalho “manual”, apenas o intelectual. Esse cabia aos cirurgiões, responsáveis por pequenas cirurgias, sangrias e aplicações de outros “remédios”, como clisteres e sacatrapos… Aliás é digno de nota o fato de três cirurgiões, práticos, estarem publicando naquele período, o João Cardoso de Miranda (Relação Cirurgica, e médica, na qual se trata, e declara especialmente hum novo methodo para curar a infecção escorbútica/1741 e o Prodigiosa Lagoa Descuberta nas Congonhas das Minas do Sabara/1749), Luís Gomes Ferreira (O erário mineral/1735) e José Antonio Mendes (O governo dos Mineiros/1749)…
    Outro ponto a ser considerado é o fato de se considerar Miranda um mentiroso. Creio que há aí um anacronismo perigoso e que não coaduna com a maioria dos escritos que saltam desse interessantíssimo blog. O que é mentira no século XVIII? O que é crença no século XVIII? São questões que creio eu devem nortear essa discussão. Miranda acredita no que ouve, acredita no que vê e acredita no que diz. E busca, junto a outros “estudiosos”, como o Cialli, uma resposta mais completa ao milagre. Típico de um momento onde a medicina começa a buscar respostas fora do âmbito religioso…
    Há trabalhos interessantíssimos sobre a natureza das doenças e suas descrições no século XVIII e é importante entender a diferença abissal entre o que consideramos hoje como doença e o que esses homens consideravam. Assim como uma dificuldade ou quase impossibilidade de, a partir das descrições que nos deixaram, definir quais eram os males que afligiam essas populações, de forma mais meticulosa. Os formigueiros citados, por exemplo, variam. Podem ser uma infestação de bicho-de-pé, filariose, dormencia nos membros superiores/inferiores e mais coisas ainda…

    Comentário por Cleito Pinto Ribeiro — 03/06/2013 @ 1:53 pm | Responder

    • Prezado Cleito:
      Suas colocações são pertinentes. Eu sabia que João Cardoso de Miranda era cirurgião, tal como o curiosíssimo Luis Gomes Ferreira, que atuou também na medicina, em Sabará. Vou prontamente corrigir o meu deslize no Post. Quanto ao formigueiro e outros bichos, faço-lhe o convite para ler meu post “Os bichos do Brasil”. Agora, lanço uma pergunta: – Será que fui muito severo em chamar de mentiroso quem disse que viu curar sífilis, hérnia, lepra, etc., com uns poucos banhos da “água milagrosa”? Os médicos e cirurgiões daquela época sabiam muito bem identificar essas doenças e, mesmo que fossem outras assemelhadas, os milagres seriam demais, da maneira como foram relatados. De qualquer forma, muito obrigado pela sua colaboração e valiosa opinião, que espero sejam permanentes.
      Um abraço do Eduardo

      Comentário por sumidoiro — 03/06/2013 @ 3:47 pm | Responder

  2. Eduardo, cumprimento-o novamente pela disposição ao debate e pela gentileza de suas colocações, o que só aumenta minha admiração pelo trabalho que vem levando a termo nesse importantíssimo espaço.
    Há algo interessantíssimo e que foge ao usual no texto do Cardoso de Miranda. Nele não há, como sói acontecer em outros textos do período, uma descrição mais pormenorizada dos achaques. Ele os menciona simplesmente e é curiosamente silencioso no que tange aos sintomas e à evolução da “doença”. A enfase é dada no poder curativo das águas e não nas doenças, como era comum e como podem atestar os trabalhos dos cirurgiões (isso é de uma raridade fantástica) citados anteriormente. Cardoso não se preocupa em definir bem os males, achaques, doenças. Preocupa em explicitar o poder curativo das águas da lagoa. Voltemos às doenças: o morbus gallico, por exemplo. Ao longo do tempo foi confundida e/ou identificada com inúmeras outras doenças venéreas e dermatológicas, além de ser explicada a partir da astrologia, da teoria dos humores, do religião etc.
    A própria idéia de cura é algo a ser pensado. O tempo da cura é o tempo de Deus. Ela não se dá necessariamente de imediato, seja a partir da intervenção humana ou mesmo sobrenatural (isso me lembra, de certa forma os reis taumaturgos e as escrófulas… o toque do rei cura. Mas a cura virá com o tempo e com a disposição de crer do paciente…).
    Na minha opinião, Cardoso acreditou no que ouviu e no que viu. Tanto que veio para cá em busca da sua própria cura, visto que estava praticamente cego em Salvador, onde comercializava inclusive escravos a bom tempo. É a idéia da cura que o atrai. E ele? Se curou? Não há registros…
    Mas fico feliz com a possibilidade de dialogar com o senhor, Eduardo e, mais ainda com a atenção dada. Que possamos discutir muito ainda não só esses mas também outros pontos não só do Prodigiosa Lagoa mas dessa rica história que nos cerca.

    Um abraço fraterno, ex cordis,
    Cleito Pinto Ribeiro

    Comentário por Cleito Pinto Ribeiro — 04/06/2013 @ 4:18 pm | Responder


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